Quem controla a
tecnologia controla o jogo
Porque alguns setores
constroem plataformas tecnológicas competitivas em escala global, e outros
permanecem presos a posições subordinadas?
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN
“O progresso técnico não se difunde espontaneamente da economia central para a periferia; ele precisa ser apropriado e internalizado”
Raúl
Prebisch [1]
O Brasil não é um país sem exemplos de sucesso industrial. Produz motores elétricos que competem com fabricantes alemães, aeronaves comerciais que disputam mercados globais com empresas norte-americanas e canadenses e controla uma parcela majoritária da oferta mundial de nióbio. Ao mesmo tempo em que se afirmava como grande exportador de minério de ferro, o país não estruturou investimentos compatíveis para convertê-lo internamente em aço de alta qualidade, ligas estratégicas e bens industriais complexos – e, paralelamente, fragmentou um sistema nacional de telecomunicações que, nas décadas de 1970 e 1980, sustentava um dos mais importantes centros de pesquisa aplicada do hemisfério sul.
A questão, portanto, não é ausência de capacidade técnica. É a
existência – ou não – de continuidade estratégica.
Neste texto, argumenta-se que a comparação entre as empresas WEG,
Embraer, Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), Vale e Telebrás
revela um divisor central: controle do núcleo tecnológico contra dependência
estrutural em cadeias globais. A Fig. 1 organiza visualmente esse argumento,
posicionando as empresas analisadas, segundo dois eixos: domínio do núcleo
tecnológico e posição na cadeia
Engenharia como núcleo: o caso WEG
A WEG S.A., fundada em 1961, em Jaraguá do Sul (SC), carrega em seu nome
as iniciais dos três jovens empresários catarinenses que a criaram. Nasceu como
fabricante de motores elétricos de pequeno porte [2]. Ao longo de seis décadas,
transformou-se em uma das maiores empresas globais de equipamentos
eletroeletrônicos industriais.
Em 2025, registrou faturamento superior a R$ 40 bilhões, com cerca de 49
mil empregados, dos quais mais de 5 mil engenheiros – a maioria no Brasil [2].
Possui fábricas em mais de 15 países e exporta para mais de 135 mercados.
Mas o que explica sua trajetória não é apenas números.
A WEG estruturou-se com base em um domínio de engenharia própria.
Projeto eletromagnético – isto é, o cálculo e a modelagem dos campos magnéticos
e elétricos que determinam a eficiência, o torque, as perdas e o desempenho
térmico dos motores – tornou-se competência interna. A empresa internalizou
capacidades em materiais, eletrônica de potência, automação e integração de
sistemas industriais.
Esse ponto é decisivo: não se tratava de montar motores, mas de
projetá-los.
A abertura comercial de orientação liberal dos anos 1990 funcionou como
um teste de estresse. Muitas empresas industriais tecnicamente competentes não
resistiram. O contraste é instrutivo.
A Metal Leve, tradicional fabricante de pistões e componentes
automotivos, foi adquirida pela Mahle, grupo alemão, na década de 1990. A
Cofap, produtora de amortecedores, foi incorporada pela Magneti Marelli, do
grupo Fiat [3]. Ambas eram empresas relevantes, mas estavam inseridas em
cadeias globais controladas pelas montadoras.
Quando a liberalização coincidiu com a consolidação internacional da
indústria automotiva, o centro decisório deslocou-se para fora do país.
Tornaram-se fornecedoras subordinadas em uma arquitetura produtiva que não
controlavam.
A diferença entre esses casos e o da WEG não foi ideológica. Foi
estrutural: quem controla o projeto do produto controla seu destino.
Estado indutor e preservação tecnológica: Embraer
A Embraer S.A., criada em 1969 como empresa estatal vinculada ao
Ministério da Aeronáutica, era parte integrante de um projeto estratégico
associado ao ITA e ao Centro Técnico Aeroespacial [4]. Sua missão era
desenvolver indúst ria aeronáutica nacional.
Privatizada em 1994, poderia ter sido reduzida a uma montadora. Isso não
ocorreu.
Hoje emprega cerca de 19 mil profissionais, mantém centros avançados de
engenharia e domina nichos estratégicos como jatos regionais e executivos. O
desenvolvimento dos E-Jets – uma classe de aeronaves comerciais regionais a
jato – e do cargueiro KC-390 ilustra o domínio de integração sistêmica complexa
pela empresa.
A privatização da Embraer foi desenvolvida visando a preservação de seu
núcleo estratégico. A União manteve uma golden share com poder
de veto sobre decisões sensíveis, a sede e os centros de engenharia
permaneceram no Brasil e a empresa continuou integrada ao sistema de defesa
nacional, dependente de certificação estatal, do financiamento público e de
encomendas militares. Além disso, o mercado aeronáutico é estruturalmente
oligopolizado e exige domínio de engenharia própria para competir. Não existe
alternativa viável baseada apenas na montagem de componentes importados.
Em outras palavras: na indústria aeronáutica, a engenharia própria não é
um diferencial opcional – é condição de sobrevivência competitiva.
Assim como na WEG, a engenharia permaneceu no centro da estratégia
empresarial.
Recurso natural ou plataforma tecnológica? Os casos da CBMM e da Vale
A CBMM, sediada em Araxá (MG) e pertencente ao grupo Moreira Salles,
controla cerca de 80% do mercado global de ferronióbio. Emprega aproximadamente
1.800 trabalhadores e exporta para mais de 50 países.
Seu diferencial não é apenas a jazida de pirocloro, o minério de onde se
extrai o metal. É a decisão de agregar valor metalúrgico, desenvolver
aplicações em ligas especiais e investir continuamente em pesquisa aplicada
[5].
Transformou um recurso natural em uma plataforma tecnológica.
Já a Vale S.A. é uma das maiores mineradoras do mundo, com receitas
superiores a US$ 38 bilhões em 2024 e cerca de 120 mil empregados diretos e
indiretos. Sua eficiência logística é notável. Mas seu modelo permanece
concentrado na exportação de minério com baixo grau de transformação doméstica.
A empresa domina escala e logística; não estruturou, a partir disso, um
ecossistema tecnológico equivalente.
A distinção ecoa Prebisch: participar do comércio internacional não é o
mesmo que internalizar progresso técnico.
O contraexemplo da ruptura: a Telebrás
Criada em 1972 durante o regime militar, a Telebrás estruturou um
sistema nacional integrado de telecomunicações. Seu braço tecnológico, o CPqD
(Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações), reunia mais de mil
engenheiros e pesquisadores e foi pioneiro no desenvolvimento de sistemas
digitais e de tecnologias de fibra óptica no Brasil [6].
Não sofria de defasagem tecnológica. Em segmentos como a comutação
digital e a engenharia de redes ópticas, o CPqD operava próximo à fronteira
internacional e desenvolvia soluções próprias, adaptadas à escala continental
brasileira. Existia uma coordenação estatal com capacidade real de inovação
tecnológica sistêmica.
Com a privatização do Sistema Telebrás em 1998, durante o governo FHC,
as operadoras regionais de telefonia fixa e móvel foram vendidas a consórcios
formados por grupos privados nacionais e estrangeiros, como Telefónica, Telecom
Italia e Portugal Telecom. O antigo sistema integrado foi desverticalizado e
fragmentado em empresas regionais sob a regulação da Anatel. Nos anos
seguintes, a infraestrutura de telecomunicações – centrais digitais, redes
ópticas troncais, backbone nacional e, sobretudo, a telefonia
móvel – foi significativamente expandida.
O desenho institucional da privatização foi profundamente distinto
daquele da Embraer. O sistema integrado foi regionalizado e o centro de
pesquisa separado das operadoras, com a nova arquitetura regulatória sendo
concebida sob a lógica da competição e da universalização do acesso, não a da
preservação de um núcleo nacional de inovação. Não se tratou apenas de
reorganização administrativa, mas de desarticulação estratégica: dissolveu-se o
arranjo que concentrava capacidade própria de engenharia sistêmica no setor.
Além disso, diferentemente da indústria aeronáutica, o setor de
telecomunicações já era dominado por grandes fornecedores multinacionais de
equipamentos (como Ericsson, Siemens e Alcatel). O novo modelo tornou
estruturalmente aceitável operar redes adquirindo tecnologia estrangeira
pronta. O que antes era um sistema capaz de desenvolver soluções próprias
transformou-se em um mercado de integração de tecnologias externas. O núcleo de
engenharia deixou de ser prioridade e passou a ser dispensável.
A diferença, portanto, não foi simplesmente “privatizar ou não
privatizar”. Foi substituir uma estratégia de autonomia tecnológica por um
modelo de inserção subordinada em cadeias globais dominadas por fornecedores
estrangeiros.
Ficou provado que manter a capacidade tecnológica sem estabilidade na
estratégia não se sustenta.
O padrão que emerge
Observando esses casos em conjunto, emerge um padrão claro. A Tabela 1
sintetiza os dados estruturais que distinguem esses modelos empresariais.
Empresas que preservaram domínio da engenharia do produto, reinvestimento
consistente, inserção internacional ativa e horizonte estratégico de longo
prazo construíram posições globais robustas.
Onde houve subordinação estrutural em cadeias globais ou ruptura
institucional abrupta, a capacidade acumulada se dissipou ou foi absorvida
externamente.
A diferença entre Embraer e Telebrás não reside no fato de ambas terem
sido privatizadas, mas na forma como o Estado tratou o caráter estratégico de
cada setor. Na aeronáutica, o núcleo de engenharia foi protegido como um ativo
nacional crítico. Nas telecomunicações, a coordenação sistêmica foi
desmantelada, sem se estabelecer qualquer mecanismo de preservação da
capacidade acumulada.
Onde o núcleo de engenharia foi reconhecido como condição de soberania
tecnológica, ele foi preservado. Quando prevaleceu a lógica da abertura
irrestrita e da confiança na provisão externa de tecnologia, a capacidade
própria foi progressivamente esvaziada.
A escolha que retorna
Os exemplos da WEG, da Embraer e da CBMM mostram que o Brasil pode
construir plataformas tecnológicas competitivas. O caso da Vale mostra que
alcançar grande escala exportadora não implica, por si só, elevar o grau de
complexidade produtiva nem ampliar a participação de setores de média e alta intensidade
tecnológica na economia. Já a derrocada da Telebrás evidencia o custo de uma
ruptura institucional que não foi acompanhada de mecanismos capazes de
preservar as capacidades tecnológicas acumuladas.
O Brasil já demonstrou que pode internalizar progresso técnico. Resta
decidir se fará disso regra – ou exceção.
Bibliografia
1. Prebisch,
R., The Economic Development of Latin America and its Principal
Problems. 1950, New York: United Nations.
2. Weg,
S.A., Relatório Anual 2024. 2024, WEG: Jaraguá do Sul.
3. Suzigan,
W. e J. Furtado, Política industrial e desenvolvimento. Revista
de Economia Política, 2006. 26(2).
4. Dagnino,
R., A indústria aeronáutica brasileira. 2007, Campinas: Unicamp.
5.
Cbmm, Relatório de Sustentabilidade 2023. 2023, CBMM: Araxá.
6. de Melo,
J.M., História das telecomunicações no Brasil. 2014, São Paulo:
Intercom.
Celso Pinto
de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro
da Academia Brasileira de Ciências.
Riqueza estratégica para o desenvolvimento soberano https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/editorial-do-vermelho_20.html

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