O Leviatã digital
Ao converter reações emocionais em índices preditivos, o poder algorítmico substitui o debate racional pela modulação invisível dos afetos Eduardo S. Vasconcelos*/A Terra é Redonda
1.
A política contemporânea talvez esteja diante de uma transformação mais profunda do que supõe análises comuns sobre fake news , polarização, inteligência artificial ou redes sociais. Essas considerações são importantes, mas talvez sejam apenas sintomas de uma mudança maior: o posicionamento do poder para o interior da própria formação da consciência pública.
O problema já não é apenas o que o cidadão pensa. Não é assim que ele passa a desejar, temer, reagir e perceber o mundo antes mesmo de pensar.
Durante muito tempo, imaginamos o poder como algo visível: o Estado, a lei, a polícia, o parlamento, o governo, o partido, a imprensa, a empresa, a igreja, a escola. Hoje, no entanto, uma parte decisiva do poder tornou-se ambiental. Ele não aparece como ordem. Parece como recomendação. Não se impõe como censura direta. Aparece como fluxo. Não exige aprovação explícita. Produz permanência, dependência, reprodução e engajamento.
É nesse cenário que proponho pensar o conceito de “Leviatã digital” [1] : uma nova arquitetura de poder formada por plataformas, algoritmos, dados, vigilância, inteligência artificial, economia da atenção e administração dos afetos coletivos. Ele não substitui o Estado, mas passa a disputar com ele a organização da vida pública.
O Leviatã de Thomas Hobbes nasceu como resposta ao medo. Diante da ameaça de guerra de todos contra todos, os indivíduos entregariam parte de sua liberdade a uma autoridade soberana capaz de garantir ordem, segurança e previsibilidade.
O Leviatã clássico era visível. Tinha forma estatal. Legislava, punia, julgava, arrecadava, vigiava e comandava. O Leviatã digital é mais difuso. Não possui uma cabeça única. Não se limita ao Estado. É composto por empresas globais, plataformas digitais, infraestruturas algorítmicas, bancos de dados, sistemas de recomendação, publicidade comportamental, influenciadores, militâncias digitais e inteligência artificial.
Seu poder não está apenas em proibição. Está em orientação. Não está apenas em reprimir. Está em modular. Não está apenas em vigiar. Está em previsão.
O poder soberano dizia: obedeça. O poder algorítmico sugere: continue rolando a tela.
2.
A atenção tornou-se uma das principais mercadorias do capitalismo contemporâneo. Mas ela não é uma mercadoria. A atenção é a porta de entrada da consciência. Quem controla a atenção controla parte da percepção. Quem controla a percepção influencia o julgamento. Quem influencia o julgamento interfere no comportamento político.
A economia da atenção transforma o cidadão em usuário, o usuário em dado, o dado em previsão e a previsão em mercadorias. A vida subjetiva passa a ser extraída, calculada, segmentada e vendida. Nesse ambiente, a política não precisa mais convencer apenas por argumentos. Ela precisa capturar afetos. Medo, raiva, ressentimento, indignação, humilhação e pertencimento tornam-se recursos de mobilização. A política deixa de ser apenas disputa de projetos e passa a ser disputa pela arquitetura emocional da sociedade.
Jürgen Habermas criou a esfera pública como espaço de argumentação, crítica e formação racional da vontade coletiva. Essa ideia nunca se cumpriu, mas serviu como horizonte democrático.
O Leviatã digital corrói esse horizonte. A esfera pública está fragmentada em bolhas. A realidade comum é compensada por versões afetivas da realidade. O debate vira fato. A divergência vira ameaça. A dúvida vira fraqueza. A complexidade vira inimiga da viralização.
A democracia precisa de tempo. O algoritmo exige velocidade. A democracia precisa de escuta. O algoritmo prêmio fato. A democracia precisa de mediação. O algoritmo radicaliza o conflito. O resultado é uma política cada vez mais emocionalizada, performática e tribalizada.
Shoshana Zuboff chamou atenção para o capitalismo de vigilância: um regime econômico baseado na captura de experiências humanas transformadas em dados comportamentais. Mas a questão não é apenas econômica. É política. Quando a subjetividade passa a ser rastreada, prevista e influenciada, a democracia enfrenta um problema novo. A manipulação deixa de ser apenas propaganda pública e passa a operar no nível micropsicológico da experiência individual.
Guy Debord mostrou que a sociedade moderna transformou a vida em espetáculo. Pierre Bourdieu demonstrou que o poder simbólico opera quando é reconhecido como legítimo. Michel Foucault demonstrou que o poder moderno não apenas reprime, mas produz sujeitos.
O Leviatã digital articula essas três dimensões: espetáculo, poder simbólico e produção de subjetividade. Ele produz o sujeito conectado, indignado, vigiado, segmentado, ansioso e permanentemente convocado a reagir.
3.
O cidadão contemporâneo já não é apenas eleitor, trabalhador ou consumidor. Ele também é terminal afetivo de circulação política. Recebe estímulos. Reage. Compartilha. Indigná-se. Confirma a convicção. Adversários do Ataca. Defenda identidades. Produz dados. Alimenta o sistema que a captura.
Essa é a sofisticação do Leviatã digital: ele transforma a participação em depreciação. Cada gesto de engajamento parece liberdade, mas também alimenta a máquina que aprende a conduzir novos gestos. O sujeito acredita estar apenas expressando sua opinião. Muitas vezes, porém, está funcionando como vetor de circulação de narrativas que foram projetadas para explorar suas vulnerabilidades.
A democracia não desaparece. À medida que as eleições continuam. Os parlamentos continuam. Os tribunais continuam. Os partidos continuam. Mas todos passam a funcionar sob pressão de uma nova camada de poder.
Os parlamentares precisam atuar para suas bases digitais. Os governos precisam disputar narrativas em tempo real. Os gestos públicos passam a ser específicos por análises de imagem. Campanhas eleitorais segmentam medos. Crises institucionais são aceleradas por cortes virais. A mentira organizada circula mais rápido que sua correção.
A política pública, que exige continuidade e planejamento, passa a concorrer com a lógica do espetáculo permanente. O risco é grave: governar deixa de ser resolver problemas e passa a ser administrar percepções.
Nenhuma sociedade enfrenta aquilo que não consegue nomear. O conceito de “Leviatã digital” não pretende substituir outras categorias já fundamentais, como capitalismo de vigilância, sociedade do espetáculo, esfera pública, biopolítica ou poder simbólico. Ele busca articuladas essas dimensões em uma imagem política capaz de descrever nosso tempo.
Estamos diante de uma estrutura que não apenas comunica a política. Ela reorganiza a política. Não apenas transmite conflitos. Produz conflitos. Não apenas informa cidadãos. Modelo percepções. Não apenas observe comportamentos. Aprenda a induzi-los.
A democracia brasileira ainda discute, com razão, eleições, instituições, golpes, corrupção, desigualdade e representação. Mas precisa acrescentar outra pergunta ao seu vocabulário crítico: quem controla o ambiente mental no qual os cidadãos formam suas escolhas políticas?
O Leviatã Digital ainda não governa como Estado. Mas talvez você já esteja aprendendo a governar antes do Estado. E é justamente por isso que compreendê-lo deixou de ser uma curiosidade teórica. Tornou-se uma urgência democrática.
* Eduardo S. Vasconcelos, professor e diretor geral do Instituto Federal Goiano (IF Goiano), é doutor em ciências pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) .
s
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Nota
[1] Leviatã Digital é uma categoria analítica proposta pelo para designar a arquitetura contemporânea de poder experimentar pela interação entre plataformas digitais, algoritmos, inteligência artificial, economia da atenção, vigilância de dados e produção de capital simbólico, cuja atuação influencia a formação da opinião pública e o funcionamento das democracias contemporâneas.
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