05 fevereiro 2026

Postei nas redes

Na grande mídia neoliberal, o receio de que Flávio Bolsonaro nem vá  ao segundo turno e Lula se reeleja com folga. Para o mercado financeiro, o dilúvio. Tomara. 

Desemprego atinge menor patamar no Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/boa-noticia_30.html 

Minha opinião

Jacaré, cobra d'água e porco espinho nas alianças eleitorais*
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65      


Como sempre, nada surpreende no episódio eleitoral. 

Feito no toré, na melhor tradição das tribos indígenas nordestinas, polos em disputa condicionam os sentidos da dança e cada um se pinta conforme as forças que arregimenta.

A legislação eleitoral permite uma miríade de composições que se fazem para a eleição presidencial e para a disputa nos Estados. 

Não necessariamente coerentes.


Não há e nunca houve uniformidade de legendas partidárias quanto às dimensões nacional e estadual das alianças.

Agora Lula se fortalece, passo a passo, na esteira do bom desempenho da economia— que se reflete na vida do povo —, e da politização do discurso do presidente e do governo e da possibilidade de alargar mais ainda a frente ampla.

No polo oposto, a extrema direita e o centro mais conservador se esgarçam na disputa entre o bolsonarismo e a busca de uma alternativa competitiva que corresponda aos propósitos do capital financeiro, do agro mais reacionário e do complexo midiático dominante.

Em âmbito estadual, a diversidade de situações, aparentemente incoerentes, é a tônica.

Governadores que tentam a reeleição, no Nordeste, sobretudo, no mínimo não hostilizam o presidente, ou o apoiam, em razão das tendências do eleitorado, captada pelas pesquisas. 

O PCdoB não se vê em condições de apresentar nomes das suas próprias fileiras para a disputa majoritária, mas cumpre papel ativo na feitura das coligações mercê de orientação tática consequente. Como disse certa vez um proeminente prócer emedebista, "na frente ampla quando não podem ser tijolo, os comunistas agem como a argamassa que une".

Uma séria ameaça: a não superação da atual correlação de forças na Câmara e no Senado. Tudo a ver com o uso das emendas parlamentares na preservação das bases municipais dos atuais detentores de mandatos e a fortíssima influência (à margem da lei) do poder econômico.

O nivel de consciência do eleitorado, ainda limitado, pode ser em algum nível melhorado e os laços políticos com trabalhadores e camadas populares a depender do conteúdo, das formas e dos métodos de campanha das corrente de esquerda — não apenas nas redes, mas igualmente nos salões e nas ruas.

É possível recuperar os laços políticos com os trabalhadores, a juventude e camadas populares no curso da batalha? Em certa medida, sim — a depender do discurso e das formas e métodos de campanha praticados pelas correntes de esquerda. 

*Texto da minha coluna semanal no portal ‘Vermelho’

Leia também O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.html 

Povos originários

Notas sobre o marco temporal

O marco temporal é a tentativa de transformar um passado de esbulho em vantagem jurídica, negando a história viva dos povos que precedem o próprio Estado

Celso Pinto de Melo/A Terra é Redonda      


“A formação do povo brasileiro é uma síntese em que a presença indígena é constitutiva e inesquecível” (Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro).

 

1.

A cultura chegou antes do direito. Em Quarup (1967), romance ambientado no Xingu, Antônio Callado delineou o retrato de um país que avançava sobre o território sem reconhecer os povos que o habitavam. A modernização aparecia ali menos como encontro do que como negação – não como diálogo entre mundos, mas como imposição de um projeto que desconhecia a terra e seus habitantes.

Essa intuição literária ajuda a compreender por que, décadas depois, o debate jurídico também passaria a expressar essa mesma lógica de negação. Há construções jurídicas que revelam menos técnica e mais ideologia. “Marco temporal” é uma delas.[1]

A expressão não consta da Constituição de 1988 nem decorre do direito internacional; ela surge de forma lateral no julgamento da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em 2009, quando passou a circular a referência à data da promulgação constitucional, como elemento fático do debate – jamais como regra geral. Convertida em dogma por interesses fundiários e pressões políticas, essa leitura circunstancial foi progressivamente descolada de seu contexto e convertida em tese jurídica.

Em 2023, o Supremo Tribunal Federal rejeitou explicitamente o marco temporal como critério constitucional; o Congresso reagiu aprovando lei ordinária em sentido contrário, depois contestada no próprio STF; e, mais recentemente, avançou na tentativa de inscrevê-lo no próprio texto constitucional por meio de emenda. Esse vaivém institucional ajuda a explicar por que uma construção juridicamente frágil, reiteradamente questionada, continua a reaparecer como instrumento político.

Para compreender o alcance dessa distorção, é preciso situá-la no longo arco da ocupação branca dos territórios indígenas no Brasil, uma trajetória marcada por expropriação sistemática, epidemias induzidas, guerras assimétricas, confinamento territorial e destruição deliberada de universos culturais. Não se trata de exagero retórico, mas de constatação histórica: a expansão do Estado e do mercado sobre terras indígenas não foi um efeito colateral do desenvolvimento, mas um de seus métodos centrais.

“Nosso corpo é nosso território; nosso ventre é nosso templo; nossas veias são nossos rios”, lembra Hamangaí Pataxó.[2] Há milênios, muito antes da chegada dos colonizadores, os povos originários já ocupavam e transformavam o território que hoje chamamos Brasil, em especial na Amazônia. Longe do mito da floresta intocada, a arqueologia e a antropologia vêm demonstrando de forma consistente o caráter profundamente antropogênico da paisagem amazônica: a domesticação e seleção de espécies vegetais, a criação de sistemas complexos de manejo florestal e agrícola e a produção da chamada terra preta do índio – solos férteis artificialmente construídos, ainda hoje objeto de intensa pesquisa científica – são evidências de uma ocupação contínua, sofisticada e sustentável.

Esses povos não apenas habitavam a terra: produziam paisagens, biodiversidade e conhecimento. Faziam-no em escalas temporais que tornam quase grotesca a pretensão de julgá-los a partir de um recorte jurídico de poucas décadas.

2.

Mesmo no século XX, já sob a retórica da integração nacional, o padrão de expropriação e violência institucional se manteve. A abertura de estradas, a implantação de grandes projetos energéticos e a expansão mineral produziram colapsos demográficos dramáticos. Os Waimiri-Atroari foram devastados durante a abertura da BR-174 e a construção da usina de Balbina; os Panará quase desapareceram após o contato forçado associado à abertura de frentes rodoviárias; os Yanomami sofreram o massacre de Haximu, em 1993, reconhecido judicialmente como genocídio, e décadas depois voltaram a ser vítimas de uma crise humanitária anunciada, marcada pelo garimpo ilegal, pela contaminação por mercúrio e pela omissão deliberada do Estado.

Fora da Amazônia, os Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, vivem há décadas sob um regime de confinamento territorial, violência privada e suicídios em massa, resultado direto da recusa histórica do poder público em concluir demarcações.

É precisamente esse passado – ainda presente – que o marco temporal pretende apagar. Ao exigir a comprovação de presença física em 1988, a tese desconsidera expulsões, massacres, remoções forçadas e confinamentos anteriores. Na prática, converte a violência passada em vantagem jurídica. Poucas construções legais seriam tão cúmplices do esbulho.

Isso não significa, contudo, que a história brasileira seja apenas um inventário de crimes. Ao longo do século XX, também se construíram respostas civilizatórias, ainda que incompletas e tensionadas. A atuação do marechal Cândido Rondon marcou uma inflexão ética decisiva ao substituir a lógica da guerra aberta por uma política estatal de proteção, ainda que sob o paradigma assimilacionista de seu tempo.

A criação do Serviço de Proteção aos Índios institucionalizou, ainda que de modo precário, a ideia de que os povos indígenas não poderiam mais ser tratados como obstáculos descartáveis – embora seus fracassos e crimes tenham sido brutalmente expostos pelo Relatório Figueiredo.[3]

Essa virada alcançou seu ponto mais alto com a criação, em 1961, do Parque Indígena do Xingu, fruto da atuação dos irmãos Villas-Bôas. Pela primeira vez, o Estado brasileiro reconhecia que a preservação das culturas indígenas exigia territórios amplos, contínuos e protegidos da fragmentação fundiária. Esse entendimento seria consagrado juridicamente pela Constituição de 1988, que reconheceu aos povos indígenas direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas – direitos que não nascem da Carta, mas que ela apenas reconhece.

3.

Foi esse espírito constitucional que orientou a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, homologada no governo Lula e confirmada pelo Supremo Tribunal Federal em 2009. O voto do relator, Carlos Ayres Britto, permanece como uma das mais contundentes defesas já feitas da pluralidade étnica e cultural do Brasil. É fundamental registrar: Ayres Britto não é o autor do marco temporal. Ele próprio tem reiterado que seu voto posteriormente descontextualizado e instrumentalizado por interesses políticos alheios ao sentido original da decisão. Como deixou claro em manifestações posteriores, direitos originários não nascem em uma data.

Nesse contexto, o Supremo Tribunal Federal acaba de decidir pela invalidade da lei aprovada pelo Congresso em 2023, que tentou reintroduzir o marco temporal por via infraconstitucional, em afronta direta ao entendimento firmado pela própria Corte. Ao fazer isso, o STF volta a afirmar que os direitos territoriais indígenas são originários, anteriores ao Estado e insuscetíveis de restrição por maiorias conjunturais.

No entanto, em nova investida, em dezembro de 2025, o Congresso aprovou uma emenda constitucional destinada a inscrever o marco temporal no próprio texto da Constituição. Isso não encerra o conflito, ao contrário, o aprofunda, ao deslocá-lo para o terreno do controle de constitucionalidade de emendas, no qual o Tribunal já afirmou reiteradamente que nem mesmo maiorias qualificadas podem suprimir o núcleo essencial de direitos fundamentais. O embate, assim, prossegue não como controvérsia técnica, mas como um teste decisivo dos limites do pacto civilizatório firmado em 1988.

A ofensiva recente em favor do marco temporal revela, portanto, menos uma controvérsia jurídica e mais um conflito de projetos de país. De um lado, a Constituição de 1988 e a ideia de um Brasil plural, que reconhece a diversidade como valor civilizatório.

De outro, uma visão predatória que trata a terra como mercadoria absoluta e os povos originários como entraves ao crescimento. Essa visão encontrou sua expressão mais explícita durante o governo de Jair Bolsonaro, que assumiu publicamente o compromisso de não demarcar terras indígenas, desmontou mecanismos de fiscalização e estimulou invasões, com consequências humanitárias e ambientais amplamente documentadas.

Ailton Krenak, então jovem liderança indígena, marcou a Assembleia Constituinte de 1987 ao pintar o rosto com jenipapo durante um debate no plenário, afirmando simbolicamente a presença política dos povos originários. Décadas depois, já como membro da Academia Brasileira de Letras, retoma essa crítica em chave contemporânea ao sustentar que a crise ambiental não é um desvio do progresso, mas seu próprio desfecho – resultado de uma civilização que rompeu seus vínculos com a Terra.

O marco temporal é a tradução jurídica dessa ruptura. Ele tenta impor um ponto final à história e dispensar a memória. Entre o ritual do quarup, criado para elaborar a perda e reafirmar a vida, e o alerta de Ailton Krenak sobre o fim do mundo, o Brasil é chamado a decidir se continuará negando a si mesmo ou se aceitará, enfim, que não há futuro civilizado sem justiça para os povos originários.

*Celso Pinto de Melo é professor titular de física aposentado da UFPE e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Referências


Ribeiro, D., O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2006, São Paulo: Companhia das Letras.

Callado, A., Quarup. 1967, Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Petição 3.388/RR – Terra Indígena Raposa Serra do Sol. 2009, Supremo Tribunal Federal.

Recurso Extraordinário n. 1.017.365/SC (Tema 1031 da Repercussão Geral). 2023, Supremo Tribunal Federal.

Ribeiro, D., Os índios e a civilização: a integração das populações indígenas no Brasil moderno. 1996, São Paulo: Companhia das Letras.

Balée, W., Cultural forests of the Amazon: a historical ecology of people and their landscapes. 2013, Tuscaloosa: University of Alabama Press.

Neves, E.G., Arqueologia da Amazônia. 2006, Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Amazonian dark earths: origin, properties, management. 2004, Dordrecht: Springer.

National Geographic, B., Ditadura militar e o massacre do povo Waimiri-Atroari. 2019.

Survival, I., Panará: threats. 2019.

Habeas Corpus 82.424/RR (Caso Haximu). 2006, Supremo Tribunal Federal.

Repórter, B., Conflitos fundiários e suicídios entre Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul. 2025.

Conselho Indigenista, M., Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil: Dados de 2023. 2024, CIMI: Brasília.

Rondon, C.M.d.S., Índios do Brasil. 1946, Rio de Janeiro: Conselho Nacional de Proteção aos Índios / Ministério da Agricultura.

Brasil. Ministério do, I., Relatório Figueiredo. 1967, Ministério do Interior: Brasília.

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. 1988, Senado Federal: Brasília.

Britto, C.A., Entrevistas e palestras sobre direitos indígenas e marco temporal. 2019, Supremo Tribunal Federal; eventos acadêmicos e jurídicos.

Ações Diretas de Inconstitucionalidade contra a Lei n. 14.701/2023 (marco temporal). 2025, Supremo Tribunal Federal.

Instituto, S., Retrocesso ambiental e indígena no Brasil (2019–2022). 2022, Instituto Socioambiental: São Paulo.

Krenak, A., Ideias para adiar o fim do mundo. 2019, São Paulo: Companhia das Letras.

Notas


[1] Marco temporal é a tese que condiciona a demarcação de terras indígenas à comprovação de ocupação física em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição. A interpretação desconsidera expulsões e violências anteriores.

[2] Frase atribuída a Hamangaí Marcos Melo Pataxó, liderança indígena, em falas públicas e materiais de ativismo sobre os direitos dos povos originários.

[3] O chamado Relatório Figueiredo, produzido em 1967 por determinação do Ministério do Interior e coordenado pelo procurador Jader de Figueiredo Correia, documentou de forma sistemática graves violações cometidas por agentes do próprio Estado brasileiro no âmbito do Serviço de Proteção aos Índios. O relatório descreve massacres, envenenamento de comunidades, disseminação deliberada de doenças, trabalho forçado, espancamentos, estupros, apropriação de terras e corrupção administrativa, envolvendo servidores públicos e particulares associados. Considerado um dos mais contundentes documentos oficiais sobre violência estatal contra povos indígenas no Brasil, o relatório levou à extinção do SPI e à criação da FUNAI, mas permaneceu parcialmente oculto por décadas durante a ditadura militar, sendo redescoberto apenas nos anos 2010.

Leia também: Os comunistas e a questão racial no Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/06/o-pcdob-e-questao-racial.html 

Juros altos

Selic a 15% e os efeitos dos juros altos sobre a economia real
“Água demais mata a planta”: juros restritivos sufocam a produção, reforçam o rentismo e, à luz de Keynes, revelam escolhas que limitam investimento, emprego e crescimento
Luis Carlos Pereira/Portal Grabois https://grabois.org.br/ 

      

Na primeira reunião de 2026, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve, pela quinta vez consecutiva, a taxa Selic em 15% ao ano, o nível mais alto desde meados dos anos 2000. A justificativa oficial do Banco Central (BC) fala em cautela diante de pressões inflacionárias ainda não completamente dissipadas, mas na economia real o impacto é direto: crédito caro, investimentos adiados, consumo retraído e uma capacidade produtiva sufocada pelo custo do dinheiro, enquanto o setor financeiro coleta rendimentos elevados sem produzir emprego ou tecnologia.

No Brasil existe um ditado popular que diz que “água demais mata a planta”. A expressão cai como uma luva para descrever a atuação recente do Banco Central, que tem despejado irrigação farta nos vasos estéreis do rentismo, enquanto o solo onde germina o capital produtivo permanece ressecado. A política monetária nesse nível de restrição tem favorecido a quem vive apenas de juros e desincentivado a economia real – aquela que gera emprego, inovação e competitividade.

O que é a Selic e por que ela importa?

Antes de avançar no debate, é importante relembrar que a Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia) é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela funciona como referência para todas as demais taxas, do crédito empresarial ao financiamento imobiliário, e influencia diretamente o custo do capital e os incentivos ao investimento.

Quando a Selic sobe, o crédito encarece e os investidores tendem a buscar remuneração segura na renda financeira. Quando ela cai, o crédito se torna mais acessível e pode impulsionar a produção e o consumo.

Com a Selic estacionada em 15%, aplicações em títulos públicos e instrumentos de renda fixa tornam-se um “negócio perfeito”: alta rentabilidade, baixo risco e liquidez imediata. Esse cenário, porém, desloca recursos da economia produtiva para o rentismo financeiro. O capital que poderia ser destinado à expansão de fábricas, contratação de mão de obra ou inovação tecnológica acaba sendo atraído por ganhos seguros e imediatos.

John Maynard Keynes já alertava para esse fenômeno ao falar da “preferência pela liquidez”, isto é, a tendência de investidores manterem seus recursos em ativos líquidos e seguros em vez de financiar projetos produtivos mais arriscados (Keynes, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, 1936).

Com a tendência dos agentes em manterem seus recursos guardados em ativos líquidos, o mercado tem que oferecer juros cada vez mais altos para que esse dinheiro volte a circular. O resultado é uma dinâmica perversa: juros elevados, renda financeira abundante e baixo crescimento econômico.

Setor produtivo em alerta

A reação do setor produtivo tem sido firme e crítica. Entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) destacam que a Selic em 15% impõe um custo elevado à economia, travando investimentos e reduzindo a competitividade das empresas brasileiras. A inflação, por sua vez, dá sinais de desaceleração, o que poderia abrir espaço para reduzir os juros sem risco imediato de descontrole de preços.

Empresas enfrentam custo maior para financiar capital de giro, projetos industriais são engavetados, e pequenas e médias empresas lutam para sobreviver em um ambiente de crédito proibitivo.

A pressão pela revisão da política monetária ganhou um tom ainda mais incisivo quando Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), encaminhou uma carta ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, criticando a manutenção da Selic em 15% e questionando sua moralidade diante do bem-estar social e econômico do país.

Skaf afirma que o Brasil atingiu um “patamar extremo” sob o atual nível de juros, gerando um quadro de sufocamento da economia real, com empresas sólidas sofrendo desvalorização e a inadimplência avançando em níveis alarmantes. Ele também critica o impacto do custo financeiro sobre o setor produtivo e questiona:

“Por que empreender, inovar ou expandir operações se o capital é mais bem remunerado na inércia da renda fixa?”

Além disso, Skaf chama atenção para a diferença entre a taxa básica e os juros efetivamente pagos por empresas e famílias, que enfrentam spreads e prêmios que tornam o crédito ainda mais caro na ponta final.

Para ele, as condições já estariam dadas para iniciar um ciclo de afrouxamento monetário, e a manutenção prolongada da Selic elevada representa, na prática, uma punição ao setor produtivo brasileiro.

Autonomia do BC em tensão com projeto de desenvolvimento

A justificativa oficial do Banco Central para manter a Selic em patamares elevados tem sido a necessidade de preservar a credibilidade do regime de metas e as expectativas de inflação ancoradas. De fato, o IPCA vem apresentando desaceleração consistente, indicando convergência para o centro da meta. No entanto, a manutenção prolongada de juros em níveis historicamente restritivos sugere um descompasso entre o diagnóstico técnico e os efeitos reais da política monetária.

O Banco Central parece exagerar na porção ao sustentar uma taxa básica de 15% mesmo em um cenário de inflação em queda. Vale lembrar que, com a manutenção da Selic nesse percentual, o Brasil passa a ocupar a 2ª posição no ranking de juros reais mais altos, com 9,23%, atrás apenas da Rússia (9,88%) e à frente de países como Turquia (7,63%) e Argentina (6,45%). Nessa circunstância, o custo marginal de manter os juros elevados supera seus benefícios: a política deixa de atuar apenas como instrumento de estabilização de preços e passa a operar como freio direto ao investimento produtivo, ao crédito e ao crescimento econômico.

Na prática, juros persistentes altos encarecem o capital de giro das empresas, desestimulam projetos de longo prazo, comprimem o consumo das famílias e elevam o custo da dívida pública. O resultado é um ambiente de baixo dinamismo produtivo, no qual o setor financeiro é favorecido por rendimentos elevados enquanto a economia real enfrenta restrição de crédito e desaceleração do emprego. Trata-se, portanto, de uma escolha distributiva, e não meramente técnica.

Esse ponto é central: a política monetária não é neutra. Ao priorizar exclusivamente a estabilidade de preços, inclusive quando a inflação está controlada, o Banco Central acaba subordinando objetivos como crescimento, renda e industrialização. A autonomia institucional, concebida para proteger decisões de curto prazo, transforma-se, assim, em isolamento decisório, pouco permeável ao debate democrático sobre os rumos do desenvolvimento.

Essa postura entra em tensão com o projeto defendido pelo 3º governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que aposta na expansão do crédito, na reativação produtiva e na geração de empregos como motores do crescimento. Quando a autoridade monetária mantém uma estratégia excessivamente conservadora, mesmo diante de indicadores benignos de inflação, produz-se um conflito entre o mandato tecnocrático do controle de preços e o mandato político conferido pelas urnas.

Dessa forma, o debate sobre a Selic deixa de ser apenas uma questão de calibragem econômica e assume caráter político: trata-se de decidir quais interesses serão priorizados. Manter juros estruturalmente altos significa privilegiar rentistas e o sistema financeiro; reduzi-los de forma responsável significa ampliar o espaço para investimento, produção e emprego. A disputa, portanto, é menos sobre números e mais sobre o modelo de desenvolvimento que o país deseja construir.

Keynes como chave para entender a política monetária

obra de KeynesA Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de 1936, nos ajuda a interpretar esse dilema. Para Keynes, a taxa de juros não é simplesmente um número técnico, mas um determinante fundamental da propensão a investir.

Ele argumenta que quando os juros são mantidos altos, aumenta a preferência pela liquidez. Como já observado, esse movimento desloca recursos da produção para aplicações financeiras, comprimindo a geração de emprego e enfraquecendo o dinamismo da economia.

O recado que o Banco Central está mandando aos agentes econômicos é que eles serão mais bem remunerados com seu dinheiro guardado do que investido em empreendimentos de risco imprevisível e de prazo indeterminado para retorno. Na prática, o Banco Central está pagando para que os ânimos incertos dos investidores não se exaltem.

Assim, a crítica de John Maynard Keynes à primazia do rentismo permanece atual. Em Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, o autor demonstra que a taxa de juros é o prêmio pago pela renúncia à liquidez; quando excessivamente elevada, ela estimula a retenção especulativa da riqueza financeira em vez de sua conversão em investimento produtivo. Ao elevar o custo do capital acima da eficiência marginal esperada dos projetos, a política monetária desincentiva o investimento, comprime a demanda efetiva e reduz o nível de emprego. Nessas circunstâncias, consolida-se um circuito de rendimentos financeiros de baixo risco que pouco contribui para a expansão da capacidade produtiva, da inovação tecnológica ou da geração de trabalho, reforçando a predominância do rentismo sobre a economia real.

O resultado disso é negativo, pois é justamente desse arranjo macroeconômico, no qual juros elevados estimulam a retenção financeira e desestimulam o investimento produtivo, que emergem os efeitos sociais mais profundos. À luz da teoria de Keynes, o aumento da preferência pela liquidez desloca recursos da produção para aplicações seguras, comprimindo a eficiência marginal do capital, reduzindo a demanda efetiva e, consequentemente, o emprego. O resultado é um processo silencioso de transferência de renda: enquanto uma minoria rentista captura retornos elevados sem risco, a maioria da população enfrenta crédito proibitivo, menos oportunidades de trabalho e estagnação do padrão de vida, aprofundando desigualdades e enfraquecendo as bases de crescimento inclusivo.

O gigante Brasil resiste ao freio monetário

Mesmo com esses entraves, a economia real segue demonstrando vitalidade. Complexos logísticos como os portos de Itajaí (SC), Santos (SP) e Pecém (CE) continuam escoando produção, sustentando cadeias industriais e conectando o país ao comércio internacional; polos tecnológicos como a Embraer e a agroindústria exportadora mantêm investimentos, inovação e empregos. Esses exemplos deixam claro que o problema brasileiro não é a falta de capacidade produtiva, mas o custo do dinheiro para o setor produtivo.

A manutenção prolongada de juros altos pelo Banco Central do Brasil, portanto, não é apenas uma escola técnica de combate à inflação, mas uma decisão política com efeitos distributivos profundos. Ao privilegiar a renda financeira em detrimento do investimento produtivo, a política monetária transforma o crédito em obstáculo e o crescimento em exceção.

Diante desse quadro, a resposta não pode ser apenas tecnocrática. É necessária uma ampla mobilização política e social, envolvendo governo, Congresso, trabalhadores, setor produtivo e organizações civis, capazes de construir um novo pacto de desenvolvimento. Se a taxa de juros define quem ganha e quem perde na economia, sua orientação deve refletir prioridades democráticas: mais investimento, mais trabalho, mais produção.

Referências

–  AGÊNCIA BRASIL. Setor produtivo reage à manutenção da Selic em 15% ao ano. Brasília, 2026.

– KEYNES, John Maynard. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Obra original publicada em 1936).

– BANCO CENTRAL DO BRASIL. Atas e comunicados do Comitê de Política Monetária (COPOM). Brasília: BCB, 2026.

– B3 BORA INVESTIR. Brasil segue com 2ª maior taxa de juros real do mundo; veja ranking entre 40 países, 29 jan. 2026.

– GIANNETTI, Roberto. O BC está exagerando na dose com esses juros atuais. Brazil Economy, 2026.

– CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA (CNI). Notas técnicas e posicionamentos sobre política monetária e taxa Selic. Brasília: CNI, 2025–2026. Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2026.

– FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO (FIESP). Carta ao Banco Central sobre a taxa Selic e seus impactos na economia real. São Paulo: FIESP, 2026.

– BRAZIL ECONOMY. Paulo Skaf questiona Galípolo e diz que Selic a 15% asfixia. 29 jan. 2026.

– SUPERINTENDÊNCIA DO PORTO DE ITAJAÍ. Relatórios de movimentação portuária e desempenho logístico. Itajaí: Autoridade Portuária, 2025–2026.


Luis Carlos de S. Pereira é economista, mestre em Economia Política pela PUC-SP e especialista em Gerenciamento de Projetos pela FGV. É diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach) e desenvolve pesquisas nas áreas de educação, financiamento público e desenvolvimento econômico.

Leia também: O sequestro do fundo público https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/fundos-depauperados.html

Humor de resistência

Enio



04 fevereiro 2026

Palavra de poeta

CORRIDINHO
Adélia Prado        

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

[Ilustração: Young Park]

Leia também: Vinícius de Moraes: "A brusca poesia da mulher amada" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_94.html 

Fotografia

Jean-luc Abelin

Leia: Convergência necessária e possível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_15.html