O silenciamento de Mafalda em tempos de Milei
Crise editorial argentina expõe os impactos do ultraliberalismo sobre a cultura, a memória crítica e símbolos históricos como Mafalda
Thiago Modenesi/Vermelho
O anúncio do encerramento das atividades da tradicional editora argentina Ediciones de la Flor representa muito mais do que o fechamento de uma empresa do mercado editorial. Trata-se de um acontecimento profundamente simbólico para a cultura argentina e latino-americana. Ao desaparecer, a editora leva consigo um pedaço importante da memória intelectual do país e atinge diretamente um dos maiores ícones culturais argentinos: a Mafalda.
Durante décadas, a editora foi a casa de publicação das obras de Quino, cuja a principal criação transcendeu o universo dos quadrinhos para se transformar em uma consciência crítica da sociedade latino-americana. Mafalda questionava a guerra, o autoritarismo, as desigualdades sociais e as contradições do capitalismo periférico com uma lucidez infantil que atravessou gerações. Não por acaso, tornou-se um patrimônio afetivo e político da Argentina.
O fechamento da editora ocorre em meio à grave crise econômica e social que se aprofunda no governo de Javier Milei. Embora a economia argentina já enfrentasse dificuldades estruturais há anos, inflação crônica, endividamento e instabilidade monetária, as políticas ultraliberais implementadas pelo atual governo intensificaram dramaticamente os impactos sobre o consumo cultural, o mercado editorial e os setores médios da sociedade.
A combinação entre desvalorização do peso, retração do mercado interno, cortes estatais e aumento brutal do custo de vida produziu um ambiente devastador para livrarias, editoras independentes e iniciativas culturais. O livro voltou a se tornar um artigo de luxo para grande parte da população argentina. Em um cenário em que famílias precisam priorizar sobrevivência básica, cultura passa a ocupar um espaço secundário, ainda que seja precisamente em momentos de crise que ela se torne mais necessária.
Nesse contexto, o fechamento da Ediciones de la Flor adquire uma dimensão quase metafórica. A editora que publicou Mafalda, personagem que ironizava o autoritarismo econômico e denunciava as injustiças do mundo, sucumbe justamente em um momento em que a Argentina vive uma radicalização do discurso de mercado e do desmonte das mediações culturais. É como se a própria Mafalda estivesse sendo empurrada para o silêncio.
Há algo de profundamente contraditório nisso. A Argentina sempre construiu parte significativa de sua identidade nacional em torno da valorização da educação, do pensamento crítico e da produção cultural. Buenos Aires tornou-se referência continental pelas livrarias, editoras e intensa vida intelectual. O país que exportou escritores, cartunistas e artistas para o mundo agora vê um de seus principais símbolos culturais ameaçado pela lógica brutal da financeirização e do ajuste permanente.
Mais do que nostalgia, o caso evidencia uma questão política central: sociedades que abandonam seus espaços culturais enfraquecem também sua capacidade de reflexão coletiva. O desaparecimento de editoras históricas não é apenas consequência da crise econômica; é também resultado de um novo modelo de país ultraliberal que reduz cultura à condição de mercadoria descartável.
Mafalda sempre perguntava coisas incômodas. Talvez hoje ela perguntasse como uma nação capaz de produzir tamanha riqueza cultural aceita assistir passivamente ao colapso de seus próprios símbolos. E talvez perguntasse, com a ironia amarga que a tornou universal, se o problema da Argentina continua sendo o mesmo de sempre: um país que sacrifica seu futuro em nome das supostas urgências que desmontam a Argentina do presente.
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