27 abril 2026

Fim da escala 6 x 1

Jornada e escala: transição longa esvazia direito e expõe atraso político
Parecer reconhece urgência da redução da jornada, mas aposta em adiamento que protege custos e posterga ganhos sociais
Marcos Verlaine/Vermelho  

O parecer do relator, deputado Paulo Azi (União-BA), na CCJ da Câmara sobre a PEC 221/19 — tendo a PEC 8/25 agora anexada — começa com um problema que não é técnico, mas político: o tempo. A proposta original ou primeira levou 7 anos para “sensibilizar” a maioria da Câmara; a anexada, um ano. A diferença não está na qualidade do debate, mas na conveniência da maioria do Congresso.

Durante esse intervalo, o Parlamento esteve ocupado com outras “prioridades”. Muitas orientadas à autoproteção institucional após os desdobramentos dos atos golpistas recentes.

O resultado é um relatório que tenta recuperar o tempo perdido com excesso de palavras, mas evita enfrentar o ponto central: como transformar consenso social difuso em decisão legislativa efetiva.

A prolixidade, nesse caso, não é mero estilo. É sintoma. O relator reconstrói longamente a história da jornada de trabalho — da Revolução Industrial à Constituição de 1988 — para, ao fim, adiar o conflito real: quem paga a conta da redução e em que prazo?

Diagnóstico é conhecido, a hesitação é política

O relatório reconhece, com farta base empírica, algo já consolidado no debate público:

• A escala 6×1 está associada a adoecimento físico e mental;
• Afeta de forma desproporcional mulheres, jovens e trabalhadores de baixa renda; e
• Tem impacto indireto sobre produtividade, rotatividade e Previdência.

Também admite que a economia brasileira comporta redução inicial para 40 horas, com custo estimado em cerca de 4,7% da massa salarial, potencialmente compensável por ganhos de produtividade.

Ou seja, o parecer não nega o problema nem os benefícios da mudança — ao contrário —, os documenta extensivamente.

A contradição emerge quando, diante desse diagnóstico robusto, a solução proposta se ancora em “prudência excessiva” e “dilação temporal”.

Regra de transição: o coração (e o problema) do parecer

A proposta de reduzir a jornada para 36 horas ao longo de 10 anos é apresentada como solução equilibrada. Mas é justamente aí que reside o principal ponto crítico.

A regra de transição, como desenhada, cumpre mais função política do que econômica:

1. Reduz a resistência às propostas;

2. Dilui o impacto imediato para o empresariado, atendendo às pressões das confederações patronais;

3. Adia os benefícios concretos para os trabalhadores, especialmente os mais vulneráveis; e

4. Transfere o conflito para o futuro, quando e onde pode ser revisto, alterado ou abandonado.

Na prática, trata-se de transição longa o suficiente para reduzir a resistência presente, mas também para comprometer a efetividade futura.

Experiências internacionais citadas no próprio parecer — como Chile e Colômbia — adotam transições, mas em prazos significativamente menores. O prazo de 10 anos, portanto, não é exigência técnica inevitável, mas escolha política, a fim de mitigar as resistências empresariais.

Entre a Constituição e a negociação: ambiguidade calculada

Outro ponto central do parecer é a tentativa de equilibrar 2 posições:

• Fixar limite constitucional (36 ou 40 horas); e evitar “engessar” as escalas, remetendo-as à negociação coletiva.

Essa ambiguidade é deliberada. O relator ecoa o argumento de que a Constituição não deve detalhar escalas, ao mesmo tempo em que reconhece a fragilidade do movimento sindical, o que torna a negociação desigual.

O resultado é arranjo híbrido: constitucionaliza o princípio, mas desconstitucionaliza a aplicação concreta.

Na prática, isso pode gerar efeito paradoxal: redução formal da jornada coexistindo com arranjos que preservam a lógica da escala atual.

Fantasma recorrente do “colapso econômico”

O parecer reproduz, sem grande filtro crítico, o repertório clássico de resistência empresarial: aumento de preços; queda do PIB; demissões; e substituição por tecnologia. É a “tragédia anunciada”, que historicamente nunca se concretiza. É espantalho. 

São argumentos historicamente recorrentes — utilizados, como o próprio relator lembra —, contra a jornada de 44 horas, o 13º salário, as férias e o aumento real do salário mínimo no início dos anos 2000.

No entanto, o texto evita confrontar esses dados com a mesma profundidade dedicada aos benefícios sociais. Há assimetria: o medo é tratado como projeção plausível; o ganho, como hipótese condicionada.

Essa escolha reforça a lógica de cautela que sustenta a longa transição.

Parecer como peça de contenção

No conjunto, o parecer cumpre papel claro: organizar o debate sem resolvê-lo, pois, este:

• legitima a pauta da redução da jornada;
• reconhece seus fundamentos sociais e econômicos;
• incorpora contribuições de trabalhadores e empresários;
• mas propõe, no final, transição que minimiza rupturas no presente.

É, portanto, menos texto de decisão e mais instrumento de contenção política.

Risco de reforma que chega tarde e chega pouco

Ao optar por transição longa e por modelagem ambígua entre Constituição e negociação, o parecer corre o risco de produzir resultado conhecido na história trabalhista brasileira: conquista formal com impacto material reduzido.

Depois de 7 anos de espera, a resposta institucional pode vir na forma de cronograma que empurra o essencial para a próxima década.

No limite, a pergunta que o próprio parecer evita responder permanece: reduzir a jornada é prioridade civilizatória ou apenas promessa administrável?

Transição longa, conflito curto

O parecer aprofunda ponto já insinuado: há base empírica consistente para a redução da jornada. Os dados sobre saúde mental, afastamentos e desigualdades tornam o diagnóstico incontornável.

O crescimento de 79% nos afastamentos por transtornos mentais, a explosão dos casos de burnout e o peso desproporcional sobre mulheres (mais de 63% dos benefícios) evidenciam que o modelo atual não é apenas ineficiente. É socialmente insustentável. O próprio texto admite que:

• a jornada extenuante é fator de risco reconhecido;
• há impacto direto sobre gastos previdenciários; e
• a redução pode gerar economia sistêmica no longo prazo.

Mas, novamente, o parecer recua no momento decisivo. Introduz a ressalva recorrente — “não se pode atribuir relação de causa e efeito” — que, embora tecnicamente correta, funciona como válvula retórica. O excesso de cautela aqui não esclarece. Neutraliza.

Peso seletivo dos números: projeções viram argumento político

Ao entrar nos “efeitos econômicos negativos”, o parecer muda de tom. E de critério. Enquanto os benefícios sociais são tratados como potenciais condicionados, os custos empresariais aparecem como projeções robustas e quase inevitáveis:

• R$ 158 bilhões (40h) a R$ 610 bilhões (36h) em custos;
• até 631 mil empregos a menos;
• aumento de preços de até 13%; e
• perda de até 6,2% do PIB no longo prazo.

O problema não é apresentar esses números, mas como são mobilizados.

Tratam-se, em grande parte, de estimativas produzidas por entidades diretamente interessadas no debate, mas que são contrárias à redução da jornada e da escala, baseadas em premissas conservadoras:

• ausência de ganhos de produtividade; manutenção de estruturas de custo; e inexistência de adaptação organizacional.

Ou seja, o cenário mais pessimista vira base analítica, enquanto alternativas são marginalizadas. O resultado é o desequilíbrio narrativo: o risco vira certeza; o ganho vira hipótese.

“Teoria da pobreza produtiva”: argumento reciclado

Um dos trechos mais reveladores do parecer é a defesa indireta da tese de que países “mais pobres” precisam trabalhar mais para crescer. E que o Brasil estaria “descendo a serra cedo demais”.

Esse argumento naturaliza jornadas longas como condição de desenvolvimento e ignora 3 elementos fáticos e centrais:

1. A produtividade não cresce apenas com mais horas;

2. Jornadas extensas reduzem eficiência marginal e ampliam custos indiretos; e

3. A redução de jornada, em muitos países, foi parte do desenvolvimento, não sua consequência tardia.

Ao adotar essa lógica, o parecer flerta com conclusão implícita: trabalhar mais seria o preço por não ser rico. Trata-se de tese antiga. E amplamente contestada.

Compensações fiscais: solução técnica ou socialização de custos?

A seção internacional do parecer revela talvez o ponto mais concreto do arrazoado: alguém paga a conta da transição. Os exemplos são claros:

• França: forte subsídio estatal;
• Alemanha: custo dividido;
• Bélgica: renúncia fiscal ampla;
• Holanda: moderação salarial; e
• Portugal e Japão: ajuste via emprego.

O parecer sugere, ainda que indiretamente, desonerações da folha como caminho. Aqui emerge a questão central não enfrentada diretamente: quem deve financiar a redução? Estado, empresas ou trabalhadores.

Ao apontar a desoneração, abre-se espaço para padrão recorrente: socialização dos custos via renúncia fiscal, com impacto potencial sobre a Seguridade Social.

Contradição estrutural: negociação coletiva sem poder de barganha

Talvez o ponto mais honesto — e mais contraditório — do parecer está na admissão de que a negociação coletiva, sozinha, é insuficiente para promover a redução da jornada. O texto reconhece a:

• assimetria entre capital e trabalho; fragilidade sindical; e ausência de avanços espontâneos.

Ainda assim, insiste na negociação como eixo central. Eis a contradição: reconhece a insuficiência do instrumento, mas o mantém como solução.

Transição como estratégia de adiamento

Todos os elementos convergem para justificar a longa regra de transição: riscos econômicos amplificados; necessidade de compensações; heterogeneidade setorial; e incertezas sobre emprego e produtividade.

A transição deixa de ser mecanismo técnico e passa a cumprir função política: adiar o conflito distributivo entre capital, trabalho e Estado.

O prazo de 10 anos ganha outro significado: não é apenas gradualismo. É gestão do impasse.

Admissibilidade sem compromisso

A conclusão é previsível e óbvia: as propostas são admissíveis e constitucionais. Por que não seriam?

Mas o percurso revela algo mais relevante: o relatório constrói amplo inventário de dúvidas e condicionantes, transferindo a decisão real para a comissão especial. A que vai debater o mérito das propostas. Nessa sim deve haver audiências públicas; não excessivas.

É movimento típico de textos politicamente sensíveis: legitima o debate, mas posterga a decisão substantiva.

Muito diagnóstico, pouca decisão

Se a primeira parte do parecer era marcada pela reconstrução histórica, a segunda revela sua essência: esforço de equilíbrio que termina em paralisia controlada. O texto reconhece que: a jornada atual adoece; a redução é socialmente desejável; e há experiências internacionais viáveis.

Mas, ao mesmo tempo: amplifica riscos econômicos; sugere compensações custosas; aposta em transição longa; e desloca decisões para o futuro.

No fim, o parecer não nega a mudança. Apenas a torna suficientemente lenta para não incomodar no presente. Sobretudo os setores mais poderosos.

E é exatamente aí que reside seu principal limite: transforma pauta urgente em processo administrável. E potencialmente inofensivo. Isto é, não cumpre o papel para o qual foi designado.

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Brasil tem 103 milhões empregados, maior nível da série histórica https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/emprego-sobe.html

Palavra de poeta

VIZINHANÇA
Marcelo Mário de Melo      

Os grandes amigos
são eternos vizinhos
nas proximidades do coração.
 
Atravessam avenidas e becos
de saudade e lembrança
e chegam perto de nós.
 
Desenrolando
reprises
de risos
brindes
jornadas
cirandas.
 
Latejando 
o tique-taque
dos afetos permanentes.
 
[Ilustração: Ernest Ludwig Kirchner]
 
Leia também: "Vinil", um poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-de-poeta_19.html 

Insegurança alimentar

Fome demanda superação do capitalismo dominante
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65 
  


A insegurança alimentar configura uma crise em expansão. Milhões de pessoas enfrentam a fome crônica, enquanto uma parcela ainda maior da população mundial não tem acesso regular a uma dieta saudável e nutritiva alerta a ONU.

A situação se agrava com guerras e conflitos regionais, que destroem infraestruturas e cadeias de suprimentos. Também extremos climáticos, secas e inundações que devastam colheitas, especialmente em países menos desenvolvidos.

Numa outra dimensão, a inflação dos preços dos alimentos e as sequelas econômicas da pandemia reduziram o poder de compra das famílias mais vulneráveis.

Sinais da crise sistêmica do capitalismo dominante – acrescento -, que demanda transformações estruturais via levante das massas populares.

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Miséria norte-americana https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/miseria-norte-americana.html                                                                                    

Humor de resistência

Jean Galvão 

 

Postei nas redes

Romeu Zema ataca aliados e adversários, age como livre atirador sem eira nem beira. Tudo para chamar a atenção na atual fase pré-eleitoral. Minúsculo. 

Sem agulha no palheiro https://lucianosiqueira.blogspot.com/

Argentina em crise

Milei em seu pior momento
A inflação perdura, o consumo despenca e o desemprego assombra. Em meio a escândalos, a retórica do presidente perde força – e ele nunca foi tão impopular. Mas esperar a implosão é arriscado: ultradireita só será vencida com alternativas
Fernando Rosso, no El Salto/Outras Palavras | Tradução: Rôney Rodrigues 

Jorge Luis Borges dizia que os espelhos eram abomináveis, entre outras coisas, porque sempre devolviam uma ameaça. A suspeita inquietante de que o reflexo, a qualquer momento, pudesse começar a se independizar do corpo. Algo disso ocorre com o governo de Javier Milei. Ele mantém a pose, os gestos, a narrativa exaltada com que desembarcou na Casa Rosada. Mas o duplo já não obedece. O discurso avança por um lado e a experiência social por outro. Nessa separação começa o verdadeiro desgaste de um poder: formalmente não perde o comando, mas já não tem a capacidade de nomear o que acontece no país.

Durante meses, a situação governamental viveu de uma promessa simples, brutal e eficaz: suportar para sair. A pedagogia do sacrifício. Aguenta a liquefação das rendas, a poda dos gastos, a demolição da obra pública, com a expectativa de uma recompensa futura. Aquele contrato precário dependia de uma condição: que a realidade oferecesse alguma evidência de redenção. Essa evidência era, acima de tudo, a inflação. Enquanto o índice desacelerasse ou, pelo menos, se mantivesse estável, o sofrimento poderia ser contado como uma algo transitório. 

O dado da inflação de março caiu como uma lasca no centro do discurso oficial. O Índice de Preços ao Consumidor subiu 3,4% no mês, acumulou 9,4% no primeiro trimestre e 32,6% em 12 meses. Os preços regulados subiram 5,1%, impulsionados por transporte, tarifas e educação. Não se trata do velho incêndio inflacionário argentino, mas sim de um golpe político preciso: o governo havia feito da desinflação seu certificado de legitimidade. O próprio Milei reconheceu nestes dias “problemas econômicos” e pediu “paciência”, sinal de que a autossuficiência de outrora começou a rachar.

A inflação, além disso, deixou de ser a única ou a principal linguagem do mal-estar. A última pesquisa da Universidade de San Andrés mostrou, no final de março, que os baixos salários e a falta de trabalho passaram a encabeçar as preocupações sociais. É um deslocamento decisivo. Se a uma inflação que nunca termina de ir embora como problema se somam a renda e o emprego, entra em discussão o sentido completo do programa econômico.

Esse sentido se torna cada vez mais difícil de defender no terreno da economia real. Em fevereiro, a indústria manufatureira caiu 8,7% em relação ao ano anterior e 14 dos 16 ramos terminaram em baixa; o acumulado do primeiro bimestre marcou uma contração de 6%. Ao mesmo tempo, a taxa de desemprego chegou a 7,5% no quarto trimestre de 2025. O consumo, esse plebiscito silencioso que se vota todos os dias no carrinho de supermercado, também não acompanha: as vendas no varejo caíram 0,6% em relação ao ano anterior em março e completaram onze meses consecutivos em retrocesso, segundo a câmara que reúne as pequenas e médias empresas. A cena é conhecida: equilíbrio de laboratório, esfriamento produtivo, mercado interno exausto, recomposição muito parcial para setores muito delimitados.

A pesquisa da Tendencias publicada em abril deu números a essa deterioração cotidiana. 41,3% dos entrevistados disseram que não conseguem chegar ao fim do mês; apenas 15,3% afirmam que conseguem poupar. Entre as principais preocupações aparecem também aqui os baixos rendimentos, a pobreza e a corrupção.

Toda política de ajuste duro acaba escrevendo seus efeitos na vida cotidiana. No caso de Milei, esse texto já não se lê de forma abstrata. Lê-se no transporte e na obra social dos aposentados (PAMI). Na Área Metropolitana de Buenos Aires (a maior concentração urbana do país), a Secretaria de Transporte teve que anunciar uma transferência complementar às empresas de ônibus para evitar uma maior deterioração do serviço, em meio a uma dívida que fontes do setor situam perto de 95 bilhões de pesos [80 milhões de euros] e a frequências que continuaram longe do normal. No PAMI (Programa de Atendimento Médico Integral), o quadro é ainda mais brutal: dívida com prestadores de cerca de 500 bilhões de pesos [417 milhões de euros], greve de 72 horas de médicos de família e dentistas, e uma transferência oficial de 150 bilhões de pesos [125 milhões de euros] para tentar normalizar o conflito.

A deterioração material machuca. Mas a deterioração simbólica pode ser ainda mais letal para um governo que chegou envolto em uma moralina purificadora. Milei venceu prometendo dinamitar a casta, expor os privilegiados, varrer os conchavos. Por isso os escândalos não caem sobre uma superfície neutra: caem sobre o centro mesmo de sua legitimidade. O caso de Manuel Adorni — ex-porta-voz presidencial, atual chefe de Gabinete —, investigado por suposto enriquecimento ilícito, já não funciona como uma anedota de palácio. A Justiça confirmou novos elementos — além da forma duvidosa de aquisição de imóveis — ligados a viagens a Aruba com sua família e a gastos sob exame. O governo respondeu com blindagem, mas blindar já não equivale a fechar. Às vezes equivale a encapsular o problema para que fermente por dentro. Paralel amente, o escândalo dos créditos hipotecários do Banco Nação a funcionários e legisladores da situação terminou de furar o roteiro moral do governo.

Em outro momento, o mileísmo teria tentado liquefazer tudo isso no turbilhão digital. Esse recurso também mostra sinais de esgotamento. O relatório da consultoria Ad Hoc sobre março resumiu o problema com uma definição: Milei “fecha outro mês com negatividade”. O relatório aponta que a crise comunicacional de Adorni foi o fato político do mês e que as menções ao funcionário septuplicaram em relação a fevereiro; além disso, registra que o enquadramento governista sobre a última ditadura militar e o aniversário do golpe de 24 de março (que vai do negacionismo do genocídio à “teoria dos dois demônios”) perdeu protagonismo até mesmo no ecossistema que costumava ser mais hospitaleiro para a comunidade libertariana. Em outras palavras: o governo ainda ocupa o centro da conversação digita l, mas já não o faz em seus próprios termos. Sua “rua online”, que soube funcionar como caixa de ressonância e força de choque, mostra sinais de exaustão. A maquinaria de produzir clima continua ali, mas já não tem o monopólio do ânimo. 

As pesquisas acompanham esse deslocamento. A AtlasIntel para a Bloomberg registrou em março uma aprovação presidencial de 36,4% e uma desaprovação de 61,6%, o pior dado para Milei desde sua chegada ao poder. Na política, os números importam menos pelo que fotografam do que pelo que permitem. A perda do medo, da expectativa e da centralidade que mantinha aliados disciplinados e observadores expectantes faz com que todo o sistema comece a farejar fragilidade. A decadência de um governo não se mede apenas pelo que cai. Mede-se também pelo que ele não consegue convocar como antes. Milei conseguiu durante meses impor uma sensibilidade: irreverência, velocidade, provocação, desprezo pelas mediações. Essa sensibilidade já não organiza o clima nacional. Ele perdeu a iniciativa e aquela pequena eletricidade que lhe permitia transformar cada trope&cc edil;o numa demonstração de força.

Nesse quadro, também dentro do universo opositor se registram movimentos interessantes. Algumas medições recentes mostram um quadro mais competitivo entre o peronismo e A Liberdade Avança, com uma queda da imagem presidencial e um crescimento de referências opositoras. Entre elas, a Frente de Esquerda e, de modo particular, Myriam Bregman, aparecem como sintomas de uma busca. Não porque a esquerda tenha resolvido sozinha o problema da representação das grandes maiorias nem porque esteja diante de uma tradução automática do mal-estar social. Mas sim porque, num cenário de frustração com a situação e de desconfiança com as oposições tradicionais, sua ascensão relativa aponta algo politicamente importante: há um setor da sociedade que começa a olhar com menos prevenção e mais atenção para aqueles que nomea ram desde o início o caráter regressivo, cruel e elitista deste experimento, e agiram nesta esteira

Essa novidade não resolve por si só o problema da alternativa. Mas modifica o diálogo. Milei foi sustentado durante bastante tempo por uma espécie de chantagem histórica: isto ou o retorno do passado. Essa fórmula perde rendimento quando o presente se torna áspero demais e quando, além disso, a oposição tradicional também não consegue representar uma saída vigorosa e, sobretudo, programaticamente consistente.

O governo de Milei atravessa seu pior momento porque se juntaram a ele as contas, os corpos e os símbolos. A inflação voltou a acelerar. O consumo se arrasta. O desemprego se mantém em níveis altos. O transporte range. O PAMI afunda numa crise socialmente obscena. Os casos Adorni e Banco Nação danificam o coração moral de uma administração que prometeu uma regeneração purificadora. E o universo digital, que era uma extensão de sua potência, transformou-se num campo mais instável e menos dócil. Mais do que uma soma mecânica de más notícias, trata-se da estrutura de uma decadência.

Essa estrutura produz uma consequência conhecida: o enclausuramento. Os governos que param de persuadir começam a se administrar como seita. Passam uma imagem de corte, de panelinha, de pequeno círculo sitiado. Veem conspirações por todos os lados. Reforçam a voz porque perderam a escuta. Tornam-se supersticiosos com os seus próprios slogans. Acreditam que ainda conduzem aquilo que mal conseguem comentar. O mileísmo começou a entrar nessa câmara de eco. E uma câmara de eco, por definição, não amplifica a realidade: ela a deforma.

Nada disso garante um desfecho favorável para aqueles que querem derrotá-lo. A história não distribui prêmios por desgaste alheio. Um governo pode cair em descrédito e, ainda assim, prolongar seu domínio e até causar mais dano se do outro lado não cristalizar uma força com programa, vontade e vocação transformadora. O pior erro seria ler a crise de Milei como substituta da tarefa política. Não basta que o espelho devolva fissuras.

Porque os governos se enclausuram em si mesmos quando já não podem oferecer mais do que seu próprio reflexo. E as sociedades começam a sair quando deixam de olhá-los com medo e passam a olhar umas para as outras. Aí, nesse movimento ainda disperso, ainda incompleto, ainda cheio de incerteza, pode estar a parte esperançosa desta história: mais do que a certeza de uma queda alheia, a lenta possibilidade de uma reconstrução própria.

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Lula defende multilateralismo, soberania das nações e sustentabilidade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/lula-na-alemanha.html

26 abril 2026

Minha opinião

Goleiros com o samba no pé
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65 
 

Ligo a TV e me deparo com a transmissão ao vivo de uma partida do campeonato alemão, Borussia Dortmund X Friburg. Em poucos minutos jogadas rápidas e até complexas envolvendo os goleiros de ambas as equipes, hábeis no toque de bola e no lançamento a meia distância. 

Desde quando os guarda valas atuam desse jeito? Como chegaram a isso? 

Fui às minhas fontes na internet e me surpreendi ao saber que se trata de evolução de algumas décadas, gradual. 

Pesaram tanto mudanças nas regras quanto por inovações táticas de treinadores argutos.

Antes de 1992,  zagueiros acossados por atacantes do time adversário costumavam atrasar a bola para o goleiro, que a segurava com as mãos e assim além de recompor a jogada podia até fazer cera, atrasando deliberadamente o andamento da partida.

Foi quando a FIFA proibiu o goleiro de segurar com as mãos as bolas recuadas intencionalmente. 

Mas já nos anos 50, o goleiro húngaro ​Gyula Grosics e o argentino Amadeo Carrizo saíam da área para interceptar jogadas e iniciavam contra-ataques.  Pouco depois, o russo Lev Yashin avançou um pouco mais, literalmente conduzindo o sistema defensivo do time. 

Nos últimos 15 e 20 anos goleiros de grandes clubes foram se destacando na arte de trocar passes com zagueiros e meio-campistas.  

Na linha do argentino Ricardo La Voupe, Pepe Guardiola e outros importantes treinadores introduziram definitivamente a iniciação das jogadas com a participação ativa dos seus goleiros.

E eu que desde criança seu aficionado do esporte bretão, como se dizia antigamente, nada sabia sobre isso. Imaginava, como muita gente com certeza, que fora o alemão Manuel Neuer, na Copa de 2014, o  introdutor dessa prática ao exercer o papel de autentico líbero do time, visto muitas vezes trocando passes bem próximo do círculo central do campo.

Corretos estão nossos técnicos de divisões de base ao ensinarem a meninada que para ser um bom goleiro na atualidade tem que usar a cabeça e ter o samba no pé.

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Futebol: estratégia e arte https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/futebol-estrategia-e-arte.html