15 abril 2026

Raízes do Brasil

Um país que não falava português
Celso Pinto de Melo/JCNotícias  


“Cada língua é um modo de ver o mundo”
– Wilhelm von Humboldt

Durante muito tempo, consolidou-se a ideia de que o português se difundiu de forma relativamente direta no Brasil desde o início da colonização. A história, no entanto, é mais complexa. Entre os séculos XVI e XVIII, o território que viria a se tornar o Brasil foi, em grande medida, um espaço multilíngue, no qual o português convivia – e frequentemente cedia lugar – a variedades derivadas do tupi que funcionavam como pontes entre povos distintos [1, 2].

Essas línguas nasceram do encontro entre os povos indígenas do litoral e os missionários da Companhia de Jesus, como José de Anchieta. Em vez de impor o português, os jesuítas aprenderam as línguas locais e registraram sua gramática, passando a utilizá-las na catequese e na organização dos aldeamentos. O resultado foi a formação de uma língua de contato – mais tarde conhecida como “língua geral” – baseada no tupi, mas transformada pelo uso e capaz de circular entre diferentes grupos [3].

Nem uma língua só, nem um Brasil só

Esse processo não ocorreu de forma uniforme. No sul da colônia, por exemplo, nas missões jesuíticas, o protagonismo não foi da língua geral, mas do guarani, adotado diretamente como idioma de administração, ensino e evangelização. Esse contraste mostra que o Brasil colonial não foi apenas multilíngue – foi também um território de soluções linguísticas distintas, moldadas pelas condições locais.

Já na região de São Paulo, a língua geral paulista tornou-se dominante durante os séculos XVI e XVII e até no início do XVIII. Ali, a maioria da população era formada por mamelucos, e a língua que aprendiam desde a infância não era o português, mas a língua geral. É nesse contexto que se deve compreender a atuação dos bandeirantes. Ao avançarem pelo interior do continente, eles levavam consigo não apenas armas, violência e rotas, mas também uma língua capaz de mediar contatos, negociar alianças e permitir a comunicação em territórios profundamente diversos [4].

Um país que ainda se lê no mapa

Essa presença indígena permanece inscrita até hoje na paisagem brasileira. Nomes como Iguaçu (“água grande”), no Sul; Paraíba (“rio de águas difíceis”), no Nordeste; Paraná (“rio grande”), no Centro-Sul; Ubatuba (“lugar de muitas canoas”), no litoral paulista; e, na Amazônia, Tapajós – nome de um povo indígena que passou a designar um dos grandes rios da região – não são apenas heranças linguísticas, mas formas precisas de ler e nomear o mundo.

Eles indicam locais, caminhos, modos de uso e referências simbólicas da paisagem. São palavras que não descrevem apenas o território: organizam a forma de percebê-lo.

Uma língua que não desapareceu

Na Amazônia, a história segue outro ritmo. Ali se consolidou o Nheengatu (“língua boa”), que permaneceu como idioma dominante por muito mais tempo e ainda hoje é falado em diversas comunidades. Em municípios como São Gabriel da Cachoeira, ele é reconhecido oficialmente, o que faz da língua geral não apenas um fenômeno histórico, e sim uma presença viva [5].

O som de um encontro

Ao mesmo tempo, o português que se formava no Brasil era profundamente marcado pelo contato com as línguas africanas trazidas pelas populações escravizadas. Esse contato deixou marcas que vão além das palavras incorporadas ao vocabulário. Ele influenciou a musicalidade da fala – aquilo que os linguistas chamam de prosódia – moldando o ritmo, a entonação e a cadência do português brasileiro [6].

Comparado ao português europeu contemporâneo, o português falado no Brasil tende a preservar as vogais, manter um fluxo mais regular e evitar a compressão das sílabas. Se parte dessas diferenças resulta da própria evolução da língua, outro tanto pode ser compreendido como fruto desse encontro prolongado entre diferentes tradições linguísticas. O português brasileiro não é apenas uma variação geográfica; é uma língua moldada por encontros históricos.

Uma sociedade em constante ajuste

Essa diversidade linguística não existia isoladamente. Ela fazia parte de um padrão mais amplo de organização social. No Brasil colonial, normas e práticas coincidiam raramente de forma plena. Estudos mostram que mesmo instituições centrais, como o casamento, eram frequentemente adaptadas às condições locais. Casos de bigamia, a recomposição de vínculos familiares e uniões múltiplas revelam uma sociedade marcada por mobilidade, distância e necessidade de adaptação [7].

Ao mesmo tempo, os casamentos entre indígenas e portugueses desempenhavam um papel ativo na construção de alianças e na ocupação do território [8]. Essas relações não eram apenas fruto do acaso, mas faziam parte de estratégias que permitiam articular mundos distintos.

Nesse contexto, as normas existiam, mas eram continuamente reinterpretadas. A transgressão não era exceção – era parte do funcionamento social.

Quando as palavras também negociam

Essa flexibilidade atingia o próprio significado das palavras. Categorias como “ilegítimo” ou “bastardo”, centrais no universo jurídico e moral europeu, assumiam sentidos variáveis no contexto colonial, dependendo das circunstâncias e das relações de poder [9].

A linguagem, assim, não apenas descrevia a realidade – participava ativamente de sua construção. E a língua geral, ao mediar diferentes universos culturais, tornava visível essa instabilidade: traduzir não era apenas trocar palavras, mas ajustar sentidos.

É nesse ambiente que o próprio português falado no Brasil começa a se formar. Não como simples continuidade do modelo europeu, mas como resultado de um processo em que significados eram constantemente reinterpretados. Em outras palavras, o português brasileiro nasce não apenas do encontro entre línguas, mas também de um mundo em que até as próprias palavras precisavam negociar o que queriam dizer.

A tentativa de impor uma língua – e uma ordem

Esse mundo fluido começa a ser tensionado no século XVIII, com as reformas do Marquês de Pombal. A expulsão dos jesuítas em 1759 e a imposição do português como língua oficial fizeram parte de um projeto de centralização e controle [10].

Mais do que uma mudança linguística, tratava-se de uma tentativa de estabilizar um território marcado pela negociação. Ao impor o português, a Coroa buscava também impor uma forma de organizar a sociedade, de fixar significados e de reduzir a ambiguidade.

O milagre silencioso

Visto desse ponto de partida, há algo que talvez mereça ser pensado com mais atenção. Um território imenso, marcado por centenas de línguas, por populações de origens diversas e por formas distintas de viver e se relacionar, acabou por se tornar, ao longo do tempo, um país majoritariamente unilíngue.

Esse processo não foi linear, nem simples, nem pacífico. Ele envolveu políticas de imposição, deslocamentos populacionais, transformações sociais profundas. E, ainda assim, o resultado é singular: um país continental que compartilha uma língua comum – mas não uniforme.

Porque o português brasileiro não é uma língua única no sentido estrito. Ele se desdobra em sotaques, ritmos e formas de expressão que carregam a história desses encontros. Há diferenças entre o falar do Nordeste, do Sul, da Amazônia, do interior e das grandes cidades. Mas há uma inteligibilidade compartilhada que atravessa essas variações.

Talvez seja aí que esteja o aspecto mais surpreendente dessa história.

Uma língua que ainda carrega o passado

O português brasileiro não nasce de uma ordem estável, mas de um mundo em formação. Ele se constrói em uma sociedade em que as regras precisavam ser ajustadas, vínculos eram refeitos e as palavras mudavam de sentido conforme o contexto.

A língua geral foi uma das expressões mais claras dessa realidade: uma língua que não pertencia inteiramente a nenhum dos mundos que conectava – e que, justamente por isso, permitia a comunicação entre todos eles.

Talvez seja por isso que, ainda hoje, o português falado no Brasil pareça ao mesmo tempo tão diverso e tão comum. Ele reúne sotaques, ritmos e modos de falar distintos, mas mantém uma unidade que atravessa o país inteiro.

Essa unidade não veio da ausência de diferenças, mas da capacidade de conviver com elas.

Se o português brasileiro nasceu da convivência entre diferenças, o que estamos fazendo com essa capacidade de conviver – ou de não conviver – hoje?

Bibliografia

1.   Rodrigues, A.D.I., Línguas brasileiras. 1986, São Paulo: Loyola.
2.   Navarro, E.A., Método moderno de tupi antigo. 2011, São Paulo: Global.
3.   Dietrich, W., O tupi e o guarani. 2010, São Paulo: Contexto.
4.   de Holanda, S.B., Monções. 1995, São Paulo: Companhia das Letras.
5.   Cabral, A.S. e A.D.I. Rodrigues, Línguas indígenas brasileiras. 2002, São Paulo: Loyola.
6.   Petter, M.M.T., Línguas africanas no Brasil. 2008, São Paulo: Contexto.
7.   Vainfas, R., Trópico dos pecados. 1989, Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
8.   Monteiro, J.M., Negros da terra. 1994, São Paulo: Companhia das Letras.
9.   Fragoso, J. e M.F. Gouvêa, O Brasil colonial. 2001, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
10.              
Maxwell, K., Marquês de Pombal: paradoxo do iluminismo. 1996, Rio de Janeiro: Paz e Terra.

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Leia também: Inteligência Artificial, Data centers e o fim do mundo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/ia-operacao-consequencias.html   


Enio Lins opina

Lixo fascistoide sendo recolhido, mas substituído pelo quê?
Enio Lins  

UMA EUFORIA DEMOCRÁTICA se espalha pelo dito ocidente em função da derrota do ultradireitista Viktor Orban, autocrata que comandou a Hungria nos últimos 16 anos. Motivos existem para tal. Mas é importante olhar para quem venceu o pleito, e saber quais mudanças advirão no posicionamento interno e no contexto das guerras em cartaz.

DIZ O GLOBO.COM: 
“a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, acompanhou com particular atenção a eleição na Hungria, vista como um teste para avaliar a real capacidade de ingerência de Donald Trump em eleições nacionais”, e que “a ingerência direta de Trump — sobretudo nos últimos dias da campanha — não teve influência decisiva sobre o resultado eleitoral. A derrota é compartilhada por Trump e pelo russo Vladimir Putin, outro que jogou pesado a favor de Orban”.

PÉTER MAGYAR, O PÚCARO HÚNGARO,
 é um vaso contendo o quê em seu interior? Pelo entusiasmo da grande mídia, e pela euforia dos da OTAN, retorna ao poder a perigosa aposta de intensificação dos atritos com a Rússia através do apoio à autocracia ucraniana em guerra com a autocracia russa. Segundo a BBC, Magyar tem se esquivado de temas polêmicos e centrado seu discurso contra o “iliberalismo” de Orban. Garimpando na Internet, é mais fácil encontrar informações confiáveis sobre o Partido Húngaro do Cão de Dois Rabos (Magyar Kétfarkú Kutya Párt, MKKP) que sobre o pensamento de Magyar e de seu partido Tisza. Um dos partidos satíricos húngaros, o Cão de Dois Rabos tem três vereadores em Budapeste, e seu programa defende a semana de um dia de trabalho, cerveja grátis, mais de um pôr do sol por dia, gravidade reduzida etc.

SER AMIGO DE TRUMP E DE PUTIN 
ao mesmo tempo é como levar tiros de sal de uma escopeta cano duplo. Viktor Orban era ligado aos dois. Outra desmoralização pesando sobre ele é ser próximo da gangue brasileira-estadunidense The Bolsonaro’s. Em abril de 2019, o primeiro-ministro húngaro recebeu Dudu Bananinha para conversar potoca, num convescote de energúmenos. Em 17 de fevereiro de 2022, Jair B, no ocaso de sua despresidência, voou até Budapeste para se abraçar com Orban e soluçar: “Prezado Orban, o trato como irmão, dada a afinidade que temos”. Em março de 2024, com as investigações da Polícia Federal dele se aproximando, Jair, experimentando uma rota de fuga, dormiu durante duas noites na Embaixada da Hungria, em Brasília. Viktor e Jair foram uma dupla caipora. Como se sabe, a caipora é figura mitológica brasileira que, pela crença indígena, dá azar a quem a enxerga ou com ela faz contato.

SÓ POR SER AMIGO DE JAIR B, 
a derrota de Orban merece ser comemorada. Oquei, não há o que discutir neste aspecto. E, por ter sido rechaçada uma tentativa de interferência de Donald Trump nas eleições húngaras em benefício de Orban, há que se aplaudir o voto do povo húngaro como atitude digna e muito positiva, sem dúvida. Mas, igualmente é verdade que, ao reconhecer a derrota, e ligar para o adversário e parabenizá-lo pela vitória, Viktor Orban apresenta um resquício de dignidade que nem Jair nem Donald nunca tiveram, não têm, nem virão a ter algum dia.

RESTA AGUARDAR
 o que Péter Magyar – opositor de direita à ultradireita – fará ao chegar no Palácio Sándor, residência oficial e espaço de trabalho do chefe de governo da Hungria. O prédio, construído entre 1803 e 1806, foi palco de uma tragédia há 85 anos: o suicídio do primeiro-ministro Pál Teleki. Membro de tradicional família da Transilvânia, embora simpatizante do Nazismo e responsável por leis antijudaicas, Teleki ficou muito abalado quando Hitler invadiu a Hungria, e – autoemparedado entre o nazifascismo e o nacionalismo, entre a ultradireita e a direita – matou-se na noite de 3 de abril de 1941. Que a Hungria tenha boa sorte com esse novo governo conservador.

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Guerra no Irã, petróleo e crise energética https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/eua-x-ira-crise-energetica.html 

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Segundo Datafolha, 70% dos brasileiros são contra a guerra no Irã. Ainda é pouco. Devia ser quase a unanimidade.  

Vitória do Irã sobre a guerra neocolonialista de Trump tem alcance mundial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/editorial-do-vermelho_12.html 

14 abril 2026

Fato novo na cena política

Veja quais são as propostas da nova Pauta da Classe Trabalhadora
Documento é de incidência sobre um ciclo em curso, para disputar os rumos do governo. Suas reivindicações indicam como aprofundar a reconstrução e viabilizar um novo projeto nacional de desenvolvimento.
André Cintra/Vermelho
   
 

As centrais sindicais promovem na manhã desta quarta-feira (15/4), em Brasília, mais uma Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, a Conclat 2026 – que tem como lema “Empregos, Direitos, Democracia, Soberania e Vida Digna”. No encontro, o sindicalismo vai apresentar à sociedade a nova Pauta da Classe Trabalhadora, reafirmando, como nas edições de 2010 e 2022, a busca de unificação programática em anos eleitorais.

Portal Vermelho teve acesso à íntegra do documento. Com 24 páginas, o texto aponta dois pontos de partida a construção de uma plataforma de lutas para os trabalhadores brasileiros: o cenário de transformações aceleradas no mundo do trabalho e a necessidade de “consolidação dos avanços do governo Lula”. Se em 2022, sob o governo Jair Bolsonaro, o movimento sindical foi para a disputa presidencial com um discurso de resistência e reconstrução, a Pauta atual reconhece a mudança na correlação de forças.

As centrais enumeram 15 avanços concretos conquistados nos últimos anos, como a valorização do salário mínimo, o crescimento do emprego formal e a isenção no Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês. Em 2022, havia uma plataforma de enfrentamento, que foi vitoriosa – Lula se elegeu com o apoio decisivo do movimento sindical. Agora, o documento é de incidência sobre um ciclo em curso, para disputar os rumos do governo. Suas reivindicações indicam como aprofundar a reconstrução e viabilizar um novo projeto nacional de desenvolvimento.

A nova Pauta da Classe Trabalhadora é dividida em duas partes. A primeira destaca as prioridades imediatas, em plena pré-campanha eleitoral de 2026. É o caso das lutas pela redução da jornada de trabalho para 40 horas, com o fim da escala 6×1; pelo fortalecimento e a autorregulação dos sindicatos; pela regulamentação do trabalho mediado por plataformas digitais; e pelo combate à pejotização. São temas que já estão na ordem do dia, seja no Congresso Nacional, seja no Judiciário.

A segunda parte da Pauta é de propostas para o quadriênio 2027-2030 – um programa de disputa estratégica do futuro que as centrais sindicais vislumbram para o próximo mandato presidencial. Nessa parte, existem quatro eixos temáticos, que realçam as diretrizes programáticas do sindicalismo: desenvolvimento com trabalho decente, soberania e justiça social; trabalho, renda e direitos; direitos fundamentais; igualdade, diversidade e direitos humanos.

Assinam o documento os presidentes de oito centrais (CTB, CUT, Força Sindical, UGT, NCST, CSB e Pública Central do Servidor), além da secretária-geral da Intersindical Central da Classe Trabalhadora. Veja quais são as 68 propostas que serão consagradas na Conclat 2026 e integradas à Pauta da Classe Trabalhadora 2026-2030.

  • Redução da jornada de trabalho para 40 horas e fim da escala 6×1.
  • Geração de emprego decente com base no desenvolvimento produtivo.
  • Valorização do salário mínimo com meta de 60% do salário médio.
  • Fortalecimento e autorregulação dos sindicatos.
  • Revogação e revisão de marcos regressivos trabalhistas e previdenciários.
  • Fortalecimento das negociações e dos acordos coletivos.
  • Regulamentação do trabalho em plataformas digitais.
  • Combate à pejotização e às fraudes trabalhistas.
  • Campanhas contra o feminicídio.
  • Regulamentação da negociação coletiva no setor público.
  • Redução da taxa básica de juros e mudança na política monetária.
  • Aprimoramento do projeto nacional de desenvolvimento.
  • Democratização da formulação das políticas econômicas.
  • Investimentos em inovação e infraestrutura.
  • Proteção do trabalhador frente a importações e acordos comerciais.
  • Incentivo a micro, pequenas e médias empresas.
  • Implementação da transição justa e trabalho decente na agenda climática.
  • Ampliação de investimentos em ciência, tecnologia e inovação.
  • Fortalecimento da agricultura familiar e agroecologia.
  • Criação de um Sistema Nacional de Proteção Social.
  • Apoio público a projetos de transição justa.
  • Avanço na reforma tributária progressiva.
  • Fortalecimento da cooperação Sul-Sul.
  • Integração com países da América Latina.
  • Aprimoramento da capacidade do Estado.
  • Uso estratégico dos recursos naturais para desenvolvimento.
  • Fortalecimento da soberania econômica.
  • Reforma estrutural do sistema financeiro nacional.
  • Fortalecimento do sistema público de emprego, trabalho e renda.
  • Redução do custo do crédito e do endividamento das famílias.
  • Promoção da saúde e segurança no trabalho.
  • Revisão da terceirização irrestrita.
  • Ratificação da Convenção 158 da OIT (sobre demissões).
  • Combate à rotatividade no trabalho.
  • Regulamentação do trabalho doméstico (Convenção 189 da OIT).
  • Implementação da Política Nacional de Cuidados.
  • Implementação da igualdade salarial entre homens e mulheres.
  • Ampliação da proteção à maternidade (Convenção 183 da OIT).
  • Inclusão produtiva de grupos vulneráveis.
  • Inserção qualificada da juventude no mercado de trabalho.
  • Fortalecimento da economia solidária.
  • Avanço na reforma agrária e em políticas da agricultura familiar.
  • Garantia de direitos aos trabalhadores rurais (Convenção 101 da OIT).
  • Geração de empregos verdes de qualidade.
  • Sistema nacional de formação profissional continuada.
  • Atualização das políticas de emprego frente às transformações.
  • Isenção de Imposto de Renda sobre PLR.
  • Proteção do emprego diante de mudanças tecnológicas.
  • Proteção emergencial de renda em eventos climáticos.
  • Homologação de rescisões com assistência sindical.
  • Fortalecimento da participação social e diálogo tripartite.
  • Proteção integral aos desempregados.
  • Fortalecimento da inspeção do trabalho.
  • Combate a fraudes com PJ e MEI.
  • Combate ao trabalho infantil e análogo à escravidão.
  • Fortalecimento do FAT e do FGTS.
  • Fortalecimento do Ministério do Trabalho e Emprego.
  • Ampliação do acesso à moradia digna.
  • Implementação da tarifa zero no transporte coletivo.
  • Fortalecimento do SUS.
  • Valorização dos trabalhadores da saúde.
  • Universalização do saneamento básico.
  • Ampliação de escolas e creches em tempo integral.
  • Combate ao crime organizado e às milícias.
  • Segurança pública com base em direitos humanos.
  • Combate à discriminação e promoção da inclusão.
  • Proteção de povos e comunidades tradicionais.
  • Valorização da diversidade cultural brasileira.

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Leia também: Para além do “economicismo governamental” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html

Humor de resistência



Miguel Paiva

Palavra de poeta

A FRUTA ABERTA
Thiago de Mello   

Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore
plantada bem alta no meio da minha vida.

Agora sei as coisas como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.

Aprendi contigo, amada.
Aprendi com a tua beleza,
com a macia beleza de tuas mãos,
teus longos dedos de pétalas de prata,
a ternura oceânica do teu olhar,
verde de todas as cores
e sem nenhum horizonte;
com  tua pele fresca e enluarada,
a tua infância permanente,
tua sabedoria fabulária
brilhando distraída no teu rosto.

Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.
Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.

[Ilustração: Gustav Klimt]

Cotidianos sinais de vida https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Editorial do 'Vermelho'

Marcha da Classe Trabalhadora deve impulsionar novas mobilizações populares
Na polarização eleitoral, Lula, diferentemente de Flávio Bolsonaro, tem compromisso com os interesses do povo e do país
Editorial do 'Vermelho' 
 

A Marcha da Classe Trabalhadora, convocada pelas centrais sindicais (CTB, CUT, Força Sindical, UGT, CSB, NCST, Intersindical e Pública) para quarta-feira (15), tem significado político abrangente. A manifestação percorrerá a Esplanada dos Ministérios e entregará a Pauta da Classe Trabalhadora – Prioridades 2026 ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto e aos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta.

O documento, elaborado pelo Fórum das Centrais Sindicais, contém reivindicações como o fim da escala 6×1 com redução da jornada de trabalho sem redução de salários; combate à pejotização; combate ao feminicídio; não à guerra, pela paz; direito de negociação coletiva para os servidores públicos; fortalecimento das negociações coletivas; fortalecimento da agricultura familiar e reforma agrária.

Antes da Marcha, haverá a Conferência da Classe Trabalhadora (Conclat), em frente ao Teatro Nacional. Para Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a capital da República “será palco de uma vigorosa Marcha da Classe Trabalhadora”, destacando o ato como uma “grande demonstração de unidade” para pressionar por conquistas como empregos, direitos, soberania e vida digna.

A pauta de reivindicações se liga à luta política mais abrangente, abarcando questões de fundo como defesa da democracia, da soberania do país, do desenvolvimento nacional e da inclusão social, temas que entram no debate eleitoral, pontos definidores dos campos que disputam a sucessão presidencial.

Um conjunto de entidades empresariais divulgou um manifesto contra a redução da jornada de trabalho semanal e o fim da escala 6×1, repetindo surrados argumentos sobre impactos sobre a economia, os investimentos e a criação de empregos formais, afetando a competitividade do país, alegando inclusive que a proposta do governo é “açodada em um ano eleitoral”.

Não é de hoje que os setores empresariais usam esses argumentos para combater a redução da jornada de trabalho, como ocorreu nos debates da Constituinte de 1987-1988 sobre a jornada semanal de 44 horas, apropriando-se inclusive dos ganhos com a produtividade do trabalho, sobretudo pela retirada de direitos trabalhistas.

A experiência histórica mostra que o aumento do valor ou a valorização da força de trabalho decorrente da redução da jornada a médio prazo é mais do que compensada pelo aumento da produtividade social do trabalho. Com menos carga horária, o trabalhador torna-se mais produtivo e há outras vantagens sociais relevantes, uma vez que diminuem os problemas de saúde e acidentes do trabalho, além do tempo livre poder servir para a elevação do nível de educação e da qualificação profissional.

Há também a tentativa de desqualificar as organizações sindicais, o que é moeda corrente entre os grupos que se aglutinam em torno de plataformas políticas e programáticas como a de Flávio Bolsonaro, abrindo portas para relações trabalhistas precarizadas e discriminação no acesso ao emprego e à remuneração, a exemplo da desigualdade salarial entre homens e mulheres.

Flávio Bolsonaro é compromissado com outros itens da agenda neoliberal, como o fim do aumento real do salário mínimo, política criada por Lula e extinta por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, encerrando a valorização que considerava a inflação mais o crescimento do PIB, deixando como reajuste apenas o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Em alguns anos, o reajuste ficou abaixo da inflação acumulada, prejudicando inclusive as aposentadorias, vinculadas ao salário mínimo. Lula, de volta à Presidência da República, restabeleceu a política de aumento real.

Na outra margem está o presidente Lula, filho da classe trabalhadora, com sua história de compromissos com a democracia e com os direitos do povo. Na atual conjuntura, mantém-se coerente e se posta de maneira firme na defesa de medidas como a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1. Um projeto de lei do Executivo deverá ser enviado nesta semana à Câmara dos Deputados, onde já tramita um projeto com este teor de autoria da deputada Daiana Santos (PCdoB-RS).

Para a vitória da classe trabalhadora, a mais interessada na defesa da democracia para que ela possa se organizar e lutar por seus direitos, é preciso encarar a batalha eleitoral como decisiva, uma questão essencial para evitar novos e brutais retrocessos sociais.

Os trabalhadores são chamados a ter papel de linha de frente da ampla aliança que está em formação para isolar e derrotar Flávio Bolsonaro. A vitória de Lula depende de uma grande e permanente mobilização popular, com os trabalhadores na vanguarda, desenvolvendo diferentes formas de luta, como a Marcha da Classe Trabalhadora, além de promover atividades que debatam questões programáticas, fontes de mobilização, de convicções e de enraizamento da campanha presidencial de Lula.

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Leia também: Dois projetos e dois Brasis em disputa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/financas-publicas.html