09 fevereiro 2026

Edilson Silva opina

A radicalidade da resiliência
Radicalizar neste momento é manter a marcha para frente, colocando o enfrentamento às contradições estratégicas e históricas na presidência de nossas decisões
Edilson Silva/Vermelho       

A pressão das forças da modernidade impõe uma regra nas sociedades humanas que trocam experiências culturais: o movimento. E é essa regra que coloca a humanidade de tempos em tempos em desequilíbrios mais intensos, que suscitam rupturas na realidade. O tempo, então, por vezes, assume um espírito de rebeldia. A este respeito, Marx e Engels foram definitivos para o Materialismo Histórico.

Vivemos nos últimos dez a quinze anos, mais uma vez, nesse espírito rebelde do tempo. O que especificamente ocasionou isso? Há sinais robustos de que tenha sido a falência terminal do capitalismo financeiro e o seu neoliberalismo por um lado, e por outro o exercício humano nas redes sociais digitais, que conectaram tudo e quase todos ao mesmo tempo. Fato é que a rebeldia está aí.

Nestes momentos históricos, o espírito do tempo sopra as velas das pequenas embarcações de revolucionários de ocasião, e de rebeldes reacionários de ocasião também, cheios de soberba, soluções rápidas e atalhos sedutores, à esquerda e à direita, agora potencializados pelas redes sociais sem filtros, uma fábrica de aprendizes de caudilhos, lacradores de vários tamanhos.

O presidente Lula, que teve a sorte, o azar e a sabedoria de se reerguer presidente da República nesta conjuntura quase indecifrável, é chamado de neoliberal por um lado e comunista por outro. Como se a radicalidade só tivesse vida nos extremos do pensamento. Aristóteles já resolveu esta demanda, mas como o espírito do tempo se renova na história, os argumentos também devem ser ditos novamente.   

É bastante compreensível que segmentos relevantes das esquerdas – em tamanho e honestidade – se levantem em simpatia pelos autodenominados radicais de esquerda. Afinal, há um portal que se abriu, uma janela de oportunidades, urgências históricas que entraram na ordem do dia, a extrema direita estaria “roubando” a narrativa antissistema das esquerdas. Sim, todos estes argumentos são plausíveis, a questão é o que fazemos com isso, para não corrermos o risco de vermos outro Kadhafi refugiado num buraco e assassinado por uma turba sem consciência histórica e recheada de conscientes assassinos portadores da barbárie.

Muita calma nessa hora. Quem vem de longe, maratonando sob sol e tempestade, nem se desespera com ladeiras acima, e nem se embriaga com ladeiras abaixo. Na política que busca de fato o poder, no Estado e na sociedade, a matéria-prima fundamental a ser trabalhada são as pessoas, as maiorias. No campo das esquerdas, qualquer objetivo real abaixo disso é hobby, clube literário ou parasitismo de quem sabe que os adultos farão o trabalho adulto. A luta de ideias tem seu lugar cativo na lida política do povo, é claro, mas luta de ideias sem povo organizado e mobilizado, sem constituição de maiorias sob um programa mínimo de transição, não muda a vida. Lênin chamou isso de “doença infantil do comunismo”.

O objetivo da política real e efetiva deve ser unir e mobilizar as pessoas, contingentes de massas, para seguir no sentido estratégico dos interesses históricos das classes trabalhadoras. Um desafio gigantesco. Movimentar dezenas de milhões de espíritos humanos, com seus interesses pontuais e não raro até contraditórios no plano imediato, com suas trajetórias desiguais, crenças e culturas diferentes, urgências sem sincronia, mesmo no refluxo de lutas sociais, e colocá-los todos para marchar na mesma direção, mesmo que de forma mais lenta, é missão para radicais da resiliência, com profunda convicção do caminho a seguir.

Não é trivial, ainda mais sob a hegemonia das teses liberais e sob a ameaça de forças ultraliberais e fascistas, um governo fortalecer aspectos de um Estado de bem-estar social, com programas e políticas públicas de redistribuição de renda. Construir uma agenda humanista, de defesa da soberania e do multilateralismo num ambiente global belicista, com um imperialismo decadente esperneando e ameaçando a integridade das nações. Unir as forças democráticas e progressistas em defesa dos pilares da República, atraindo antigos adversários até do campo da Direita, e colocando-os sob a batuta de uma hegemonia progressista.

Um governo como este, que reuniu uma maioria eleitoral em regime de mutirão, e que para isto teve que congregar contradições, tem, por óbvio, questões internas a serem superadas. O controle da política monetária é uma necessidade urgente, que se encontra sequestrada por interesses da elite financeira, e é talvez o maior exemplo daquilo que a atual esquerda no poder deve buscar transpor. A falta de uma política nacional mais efetiva para a segurança pública e para o combate à criminalidade é outra. A ausência de uma política mais efetiva para avançar na Reforma Agrária também é um déficit. A redução da jornada de trabalho da escala 6×1, mais um exemplo.

A esquerda radical resiliente, que não baixa suas bandeiras quando está na defensiva, quando está sob ditaduras sanguinárias, e que sabe apontar na direção da conquista de direitos para o povo quando a correlação de forças se apresenta favorável, como quando conquistamos a Constituição de 1988, está agora desafiada a dialogar com este momento histórico, desafiando com sabedoria o Sistema estrutural de poder, e mantendo-se no centro do poder Estatal com a reeleição do presidente Lula. Essa é a prioridade das prioridades.

Está desafiada também a construir outra correlação de forças no Congresso Nacional em contraposição ao Centrão, e a construir nos estados uma base de sustentação política para as pautas progressistas. Tudo isto enfrentando uma extrema direita raivosa, criminosa e com apelo popular, e ainda sob a sabotagem das Big Techs que controlam as principais redes sociais digitais. Radicalizar neste momento, portanto, é manter a marcha para frente, colocando o enfrentamento às contradições estratégicas e históricas na presidência de nossas decisões.

Desenvolvimento: estatísticas em disputa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/desenvolvimento-estatisticas-em-disputa.html  

Etiqueta no carnaval?

Etiqueta de quê?
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65        

Com razoável frequência registro aqui breve comentário a propósito de matérias da grande mídia que me despertam atenção apenas por alguns segundos — porque me intrigam, mas realmente não me interessam. 

Caso de um artigo de que apenas li de relance o lide, mas anotei: “atenção para etiqueta sexual no carnaval”. 

— Oxente, até isso!, comenta o amigo Epaminondas, ele igualmente pouco afeito a futilidades midiáticas.

Na verdade, a vida real na sociedade desigual e preconceituosa em que vivemos, cujo valor imperante é a busca do lucro máximo por meio da exploração da mão de obra alheia. 

— Essas baboseiras são apenas para distrair os incautos e atrair mais audiência para o que não vale a pena, completo o amigo.

Bem, por aqui eu paro para não recair no mesmo erro de perder tempo com bobagem.

Intolerável vício de linguagem https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_29.html

Cuba: consequências do bloqueio

Cuba e o apagão que começa fora da rede
A rede elétrica cubana existe e é extensa, mas sua topologia reflete décadas de escassez, adiamento de investimentos e cerco financeiro.
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN      


“O poder real começa quando se decide quem pode ter acesso a recursos vitais
 – e quem não pode.” Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo

 

O cotidiano da crise cubana se manifesta de forma mais visível nos apagões, que afetam a produção, os serviços públicos e a vida doméstica. É a partir dessa crise elétrica – concreta, mensurável e recorrente – que se revelam os constrangimentos econômicos, tecnológicos e geopolíticos mais amplos que hoje cercam o país.

Costuma-se explicar essa situação como um efeito quase automático do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. O bloqueio é, sem dúvida, um elemento central: restringe o acesso ao crédito, encarece as importações, dificulta a manutenção e fragmenta as cadeias de suprimento. Quando tratada isoladamente, essa explicação obscurece como o bloqueio atua hoje, menos como um ato político pontual e mais como um sistema duradouro de constrangimentos estruturais que condiciona o funcionamento do setor energético cubano. A crise elétrica da ilha é, portanto, também – e talvez sobretudo – uma crise geopolítica.

Crise elétrica, sistema isolado e vulnerabilidade estrutural 

Para compreender essa dimensão, convém partir da escala concreta do problema e de como ela se projeta sobre o sistema elétrico existente. Cuba possui cerca de 110 mil km², população em torno de 11 milhões de habitantes e consumo anual de eletricidade entre 15 e 18 TWh (IEA, 2023; IRENA, 2024), números compatíveis com sistemas plenamente administráveis em condições normais de financiamento e integração.

Em termos energéticos, a ilha é comparável a um estado brasileiro de porte médio, como Pernambuco. Isso significa que não se trata de um sistema intrinsecamente gigantesco ou tecnicamente fora de possível controle, mas de um sistema administrável que, em condições normais de financiamento e integração, poderia operar com maior estabilidade.

As diferenças decisivas entre Cuba e os estados brasileiros não estão na demanda nem nas disponibilidades de sol ou de vento. Está na posição geopolítica do sistema elétrico e no grau de isolamento em que ele opera. Enquanto Pernambuco ou Ceará funcionam integrados ao Sistema Interligado Nacional, podendo recorrer à energia de outras regiões em momentos críticos, Cuba opera como uma ilha elétrica no sentido estrito do termo, sem interconexões externas nem redes de segurança. Em sistemas isolados dessa natureza, as falhas locais tendem a se propagar, na ausência de fontes externas capazes de amortecer os choques ou de recompor rapidamente o fornecimento. 

Essa vulnerabilidade estrutural se combina com uma matriz fortemente dependente de usinas térmicas a óleo combustível, muitas delas antigas e pouco eficientes. Mais de 80% da eletricidade cubana ainda depende desse modelo (IEA, 2023). Durante anos, o risco foi parcialmente amortecido pelo fornecimento venezuelano de petróleo. Com a recente crise na Venezuela, essa âncora se rompeu, expondo de forma mais aguda a fragilidade do sistema (Reuters, 2024a). O que antes era uma vulnerabilidade latente passou a se manifestar como um colapso recorrente.

A rede elétrica cubana existe e é extensa, mas sua topologia reflete décadas de escassez, adiamento de investimentos e cerco financeiro. Organizada em longos eixos longitudinais, com baixa redundância e subestações envelhecidas, ela carece de uma lógica hoje considerada elementar em sistemas isolados: a topologia em anel, que permite redirecionar fluxos e isolar falhas sem apagar regiões inteiras (EDF, 2021). Quando essa arquitetura não existe, decisões técnicas acumuladas ao longo do tempo passam a produzir efeitos distributivos claros: quem fica sem energia, por quanto tempo e em quais regiões. É nesse sentido que um problema elétrico pontual assume, na prática, um caráter político.

Financiamento, cerco e limites da transição energética 

Nada disso decorre de limitações naturais. Cuba dispõe de elevada irradiação solar, potencial eólico costeiro relevante, além de amplo acesso à biomassa associada à cana-de-açúcar (IRENA, 2022). Os recursos energéticos, portanto, não estão ausentes. O que falta são as condições materiais e institucionais para transformá-los em oferta estável de eletricidade: rede moderna, capacidade de armazenamento e financiamento previsível – exatamente os elementos mais afetados pelo bloqueio e pelo isolamento financeiro.

Nos últimos anos, Havana passou a reagir ao cerco econômico por meio da diversificação de parcerias. O movimento mais visível envolve a China, que passou a financiar e fornecer equipamentos para grandes parques solares, com a meta de alcançar cerca de 2 GW de capacidade fotovoltaica até o fim da década (Reuters, 2024b). Essa meta é confirmada por documentos e declarações oficiais do governo cubano: segundo o Granma, o país planeja instalar até 2028 um total de 92 parques solares, com capacidade combinada próxima de 2.000 MW, como parte da estratégia de elevar a participação das fontes renováveis para cerca de 24% da matriz elétrica antes de 2030 (Granma, 2024a).

As autoridades reconhecem, contudo, que esse esforço se desenvolve em meio a uma situação emergencial marcada pela escassez de combustível e pela necessidade simultânea de recuperar a geração térmica existente, o que confere à transição em curso um caráter necessariamente híbrido. Trata-se de uma escolha estratégica que não elimina a dependência de combustíveis fósseis no curto prazo, mas busca reduzir a vulnerabilidade associada à importação de energia e ampliar a margem de manobra econômica do país. 

Isso não implica que fontes renováveis intermitentes, tomadas de maneira isolada, sejam capazes de sustentar uma solução estrutural para o sistema. Em sistemas isolados, sem armazenamento, automação e redes mais resilientes – especialmente com a anelização em 220 kV –, a expansão solar pode apenas deslocar o ponto de instabilidade. Por essa razão, os cenários mais realistas para Cuba combinam fontes renováveis com biomassa despachável – isto é, usinas a biomassa capazes de gerar eletricidade de forma controlável e contínua, quando necessário –, alguma capacidade térmica de base e entre 2 e 4 GWh de baterias, além de investimentos pesados em transmissão e distribuição (IRENA, 2023; BloombergNEF, 2024).

O custo estimado para tirar Cuba do ciclo crônico de apagões situa-se entre US$ 7 e 13 bilhões. Quando comparado a ciclos de investimento elétrico realizados em países ou estados de porte semelhante, esse valor não foge à ordem de grandeza observada internacionalmente (IRENA, 2023; BloombergNEF, 2024). O problema está em encontrar quem possa financiar, sob quais condições e com quais garantias. Em razão do cerco norte-americano, Cuba está fora do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial (IMF, 2023), tem acesso limitado ao sistema financeiro tradicional e depende, assim, de arranjos alternativos: acordos bilaterais, bancos regionais – como o Banco Centro-Americano de Integração Econômica (BCIE) e a CAF, Banco de Desenvolvimento da América Latina – e, mais recentemente, mecanismos associados ao BRICS (BRICS, 2024).

Quando o diagnóstico técnico se torna questão internacional 

É a partir desse diagnóstico que se impõem as questões políticas e internacionais relevantes. Diante do agravamento recente das pressões econômicas e financeiras impostas pelo governo Trump, torna-se cada vez mais difícil sustentar a ideia de que a crise energética cubana possa ser tratada apenas como um problema interno ou como resultado exclusivo de escolhas nacionais. O que está em curso é uma emergência que interpela diretamente a comunidade internacional (Reuters, 2024a; Reuters, 2024b).

É preciso reconhecer que a manutenção de um bloqueio que afeta serviços essenciais – como energia, saúde e educação – coloca em xeque princípios elementares de solidariedade internacional e de proteção da população civil. No caso cubano, a crise elétrica deixou de ser apenas um indicador de fragilidade infraestrutural: tornou-se um marcador concreto de isolamento político deliberado.

O próprio governo cubano tem reconhecido publicamente o caráter estrutural e emergencial da crise elétrica, associando-a à escassez de combustível, ao envelhecimento das usinas térmicas e às severas restrições financeiras impostas pelo bloqueio, como registram comunicados oficiais da Unión Eléctrica e reportagens da imprensa local (Granma, 2024b). Ao mesmo tempo, iniciativas recentes de países latino-americanos – como a decisão do governo mexicano de manter o envio de ajuda humanitária e o apoio energético à ilha – indicam que há espaço político para respostas solidárias, ainda que limitadas, fora dos circuitos tradicionais de financiamento internacional (AP News, 2024). Por conta disso, chama a atenção que países de maior peso regional, como o Brasil, tenham se mantido, sobretudo, no plano diplomático, sem ações diretamente voltadas à urgência da crise energética cubana (Reuters, 2024a). 

E, no entanto, a solidariedade internacional não precisa assumir a forma de grandes gestos simbólicos. Ela pode – e deve – se materializar em mecanismos emergenciais, pragmáticos e tecnicamente viáveis, capazes de aliviar o sofrimento no dia a dia da população e de criar condições mínimas para a estabilização do sistema energético (ver Quadro I – O que poderia ser feito agora).

Mais do que um debate ideológico, trata-se de decidir se a comunidade internacional aceita que, em pleno século XXI, um país inteiro continue a ser submetido a uma forma prolongada de punição coletiva, cujos efeitos recaem diretamente sobre a vida cotidiana de seu povo. Em Cuba, o apagão começa muito antes da luz se apagar – e sua superação exigirá responsabilidade política para além da ilha. 

Quadro I – O que poderia ser feito agora

Sem alterar o quadro político geral, há medidas concretas e imediatas que poderiam contribuir para aliviar a crise energética cubana e reduzir seu impacto social mais severo:
– Estabelecimento de exceções humanitárias explícitas para equipamentos energéticos essenciais, incluindo transformadores, peças de reposição, baterias, sistemas de automação e softwares de controle, nos moldes das exceções já existentes – ainda que limitadas – para medicamentos.
– Criação de fundos humanitários internacionais específicos para infraestrutura energética básica, com foco em hospitais, escolas, sistemas de abastecimento de água e saneamento, a serem protegidos de sanções extraterritoriais e operados por agências multilaterais.
– Mobilização de bancos regionais e mecanismos de cooperação Sul-Sul, como o BCIE, a CAF e os arranjos associados ao BRICS, para financiamentos emergenciais de curto prazo voltados à manutenção e à estabilização do sistema elétrico.
– Ampliação da cooperação técnica não financeira, por meio de missões internacionais de especialistas, intercâmbio de conhecimento sobre operação de sistemas elétricos isolados, gestão de carga, redução de perdas e reconfiguração de redes com maior resiliência.
Nenhuma dessas medidas resolve, por si só, o problema estrutural. Mas todas poderiam reduzir o custo humano imediato do cerco e criar condições mínimas para que soluções de médio prazo deixem de ser permanentemente adiadas.

Bibliografia


Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

China e Cuba visam aprofundar a cooperação da Iniciativa do Cinturão e Rota https://lucianosiqueira.blogspot.com/2022/11/cooperacao-china-cuba.html


Palavra de poeta

(Escre)ver-me
Mia Couto     

nunca escrevi

sou

apenas um tradutor de silêncios

a vida

tatuou-me os olhos
janelas
em que me transcrevo e apago

sou

um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar 

[Ilustração: Edouard Manet]

Em tempo real. Será? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_6.html 

Uma crônica de Ruy Castro

Era uma vez o digital
O computador quântico será bilhões de vezes mais rápido. Tudo bem, mas, e daí? Com ele, nenhum código digital estará a salvo, embora ainda não se saiba o que se ganhará com isso
Ruy Castro/Folha de S. Paulo    

Acabo de ler uma declaração apavorante do físico americano Michio Kaku: "A computação quântica mudará tudo. Os computadores quânticos serão bilhões de vezes mais rápidos e mais assertivos do que o computador digital". Já me assusto com tudo que seja "assertivo", palavra que, usada hoje como se fosse banana, não se sabe mais o que significa. Mas o pior é: para que essa pressa toda? Logo agora que achávamos que o computador digital viera para ficar, somos informados de que ele ficará tão superado que não poderá ser usado nem como ábaco.

O que significa um computador "bilhões de vezes mais rápido"? Como uma coisa pode ser bilhões de vezes mais rápida do que outra? Como medir a velocidade em bilhões? Até há pouco, a coisa mais rápida de que eu tinha conhecimento era a ejaculação ultraprecoce que me foi tristemente confessada por um amigo. Talvez ele se anime ao saber que a do computador quântico será mais precoce ainda.

Segundo Kaku, o computador quântico terá várias vantagens. Será capaz de "quebrar" —decifrar— em microssegundos o código digital de empresas de seguros, bancos, governos e até do Tesouro dos EUA. Temos de concluir que nenhum cofre estará a salvo, embora me escape o que ganharemos com isso. Outra é de que ela permitirá a fabricação de uma lente de contato com a qual, se você se interessar por alguém numa festa, poderá, num literal piscar de olhos, "baixar" a biografia da pessoa e, talvez, até descobrir a cor de suas calcinhas.

Que Kaku é "assertivo", não duvido. Além de físico, é "pensador futurista", autor de livros de ficção científica e apresentador de programas de televisão dedicados à ciência.

Só me tranquilizei ao lembrar que, no Brasil, não faz muito, suspirávamos pelo sistema 4G, já corriqueiro em outros países enquanto seguíamos com o pré-histórico 3G. Pois hoje temos o 5G e, quando ele falha, as pessoas resmungam, "Saco, estou no 4G!", como se este fosse um contemporâneo da manivela. Daí que, um dia, o computador quântico também será movido a manivela.

Aconteceu e eu nem percebi https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_14.html 

Humor de resistência

 

Hector

Como Paulo Guedes e o BTG construíram uma bolha bilionária em precatórios https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/a-bolha-dos-precatorios.html 

08 fevereiro 2026

Marcas urbanas

Trajetórias interrompidas
Luciano Siqueira  
instagram.com/lucianosiqueira65  

Agrada-me observar as múltiplas manifestações da vida na fisionomia urbana. Toda cidade exibe a beleza construída ao longo dos anos, os sinais das novas experiências humanas e também expressões de decadência. 

É inevitável. A vida não segue em linha reta. Emoções, conquistas e êxtases convivem com fracassos.

Imóveis abandonados, por exemplo. 

Alguns simplesmente semidestruídos, outros nem tanto e até postos à venda ou oferecidos para aluguel.

Estima-se que até dezembro do ano passado, 2025, no Recife havia 95 mil imóveis considerados sem uso: habitações e prédios vazios ou completamente ao léu. 

Famílias inteiras que se findaram ou se transferiram para outros lugares em busca de nova chance, empreendimentos fracassados, edificações interrompidas.

Daí o laivo de esperança que experimento diante de toscas placas "alugo", "vendo", "troco", "negocio"... como que percebendo ali, para além da trajetória interrompida, o propósito da resistência. Ainda que frágil.

[Foto: LS]

Leia também: Um milhão de amigos e a trena imaginária https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_10.html