02 março 2026

Celso Pinto de Melo opina

Como o império ganha batalhas e perde a história
A capacidade de destruição permanece intacta, mas a conversão dessa força em ordem política e no tempo histórico tornou-se incerta.
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN     

 “As guerras começam quando se quer, mas não terminam quando se deseja.” 
Maquiavel [1]

O recente episódio do sequestro cirúrgico de Nicolás Maduro – executado com êxito e impacto midiático – alimenta a velha fantasia da “operação perfeita”: rápida, limpa, sem custos, como se poder fosse sinônimo de controle. Mas a história oferece um roteiro bem menos épico: ações mal calculadas, retiradas humilhantes, missões abortadas e guerras vencidas no campo de batalha que se perdem no terreno da política.

Escondidas da memória oficial estão as cenas de Washington incendiada, helicópteros deixando Saigon, soldados correndo sob fogo em Mogadíscio, um deserto iraniano com helicópteros destruídos e corpos no chão, Cabul caindo como se vinte anos não tivessem existido. Essas imagens não são “acidentes” da história americana: são o reverso de um mito cuidadosamente cultivado – o mito de que a maior potência militar do planeta sempre transforma força em destino.

Talvez o ponto mais instrutivo dos últimos dois séculos seja justamente este: um império pode vencer batalhas e, ainda assim, perder a história. Pode derrubar regimes e fracassar na construção do que vem depois. Pode impor custos devastadores ao adversário e, mesmo assim, ser derrotado pelo tempo, pela política e pela realidade concreta do terreno.

A iconografia norte-americana – e, em particular, a de Hollywood – foi construída para sustentar uma ideia simples: o império vence. A Segunda Guerra aparece como epopeia moral; o Vietnã vira trauma civil; o Iraque e o Afeganistão, mesmo quando desastrosos, são frequentemente reempacotados em narrativas de bravura e sacrifício. O que fica fora do foco é uma categoria incômoda: as “não-vitórias”. Episódios em que os Estados Unidos não foram derrotados formalmente, mas tampouco obtiveram o que buscavam. Armistícios, empates, retiradas, fiascos operacionais e vitórias militares que se dissolvem na política do “dia seguinte”.

Não se trata apenas de listar fracassos. Trata-se de reconhecer um padrão estratégico: a distância entre a superioridade militar e o resultado político, isto é, entre a capacidade de impor destruição e a de construir ordem legítima. Quanto mais complexa a sociedade – e quanto mais irregular o conflito –, maior tende a ser esse abismo.

A Guerra de 1812 é um ponto de partida simbólico. O conflito contra o Reino Unido termina sem a almejada conquista do Canadá, a capitulação britânica ou um desfecho épico. Mas deixa um trauma visual quase esquecido: Washington foi incendiada em 1814, com o Capitólio e a residência presidencial atingidos [2, 3]. A capital em chamas ensina cedo uma lição que o excepcionalismo prefere evitar: uma potência pode ser ambiciosa, mas ainda assim vulnerável – e pode sair de uma guerra sem “final feliz”.

Um século e meio depois, a Guerra da Coreia (1950–1953) introduz outro tipo de ferida. O conflito termina em um armistício, não em vitória. A fronteira se estabiliza quase onde começou, e o saldo é um empate sangrento. Mas há algo mais profundo: a entrada massiva das forças chinesas em 1950 desfaz o roteiro da vitória tecnológica inevitável. Tropas frequentemente descritas no imaginário ocidental como “mal equipadas”, “inferiores”, “massas de fanáticos” conseguem impor reveses expressivos às forças americanas e da ONU.

Basta lembrar a retirada dramática de dezembro de 1950, no reservatório de Chosin – um dos episódios mais traumáticos da guerra, com baixas severas e o abandono de material – e a sequência de recuos que se seguiu à intervenção chinesa, convertendo uma campanha que parecia caminhar para a vitória em uma guerra de desgaste sem desfecho conclusivo. A crise foi tão aguda que o general Douglas MacArthur chegou a defender a ampliação do conflito – inclusive com o uso de armas nucleares contra alvos chineses –, uma proposta por fim rejeitada por Harry Truman, que acabou por destituí-lo do comando em 1951 [4].

Esse choque não é apenas militar: é também cultural – e, em certo sentido, civilizacional. Os Estados Unidos dos anos 1950 ainda eram um país profundamente marcado pela segregação e por hierarquias raciais explícitas na vida social e política. Nesse contexto, a ideia de que tropas chinesas (e, por extensão, um “Oriente” frequentemente tratado com desprezo no discurso imperial) pudessem impor derrotas e capturas significativas às forças americanas atingia o imaginário nacional num ponto sensível: não apenas o mito da superioridade tecnológica, mas também o mito – frequentemente tácito e naturalizado – de uma superioridade histórica “anglo-saxônica” [5]. Não surpreende, portanto, que a Coreia seja frequentemente rotulada como “a guerra esquecida”: não por falta de sangue, e sim por falta de um mito confortável.

No Vietnã, a não-vitória adquire outra forma, mais explosiva. A guerra não termina apenas em derrota estratégica: termina em fratura doméstica, crise moral e desconfiança radical na narrativa oficial. Diferentemente da Coreia, o Vietnã rende cinema e memória pública justamente porque permite uma releitura interna: a derrota pode ser reescrita como tragédia nacional, culpa do sistema, do governo, da mentira. A derrota vira pedagogia.

O Afeganistão (2001–2021) é o espelho contemporâneo dessa incapacidade de conversão política. Começa como triunfo tecnológico e termina como diagnóstico histórico: vinte anos depois, os EUA se retiram e o regime derrubado enfim retorna.

A potência não falha por falta de força. Falha por algo mais difícil de admitir: o limite estrutural de ‘construir Estado’ sob ocupação, em contextos nos quais a autoridade política, os mecanismos de representação e o controle territorial estão fragmentados, de modo que o governo central apoiado externamente passa a ser apenas um entre vários polos de poder efetivo.

O Iraque (2003) é, talvez, o caso mais didático da era recente: vitória militar rápida, derrubada do governo, domínio do primeiro ato. Mas o pós-guerra expõe um paradoxo cruel: o império pode vencer a guerra e, ainda assim, perder a paz. O “dia seguinte” derrota o “dia da vitória”.

A história americana também guarda não-vitórias que não se parecem com guerras longas, mas ferem profundamente a aura de controle. Em 1980, a tentativa de resgatar reféns na embaixada dos EUA em Teerã – a Operation Eagle Claw – termina em fiasco no deserto iraniano, com falhas, colisão entre aeronaves, mortos e uma retirada emergencial [6, 7]. Foi o colapso, em tempo real, do mito da operação perfeita.

Esse padrão reaparece nas intervenções do início dos anos 1990. No Líbano, os EUA participam de uma força multinacional em Beirute, em meio à guerra civil libanesa, num ambiente marcado por facções armadas e interesses cruzados. O que deveria ser uma operação de estabilização torna-se alvo. Em 23 de outubro de 1983, um ataque suicida destrói os alojamentos dos Marines, matando centenas [8, 9]. O recuo subsequente revela um tipo de limite que impérios detestam: a vulnerabilidade política e militar diante de atores irregulares capazes de impor custos intoleráveis sem disputar a guerra no formato convencional.

Na Somália, algo semelhante ocorre sob outra estética. A operação internacional, inicialmente apresentada como resposta à crise humanitária e ao colapso do Estado, perde rapidamente o foco. A missão de garantir corredores humanitários transforma-se em combate urbano contra milícias. Em outubro de 1993, a batalha de Mogadíscio – eternizada na cultura pop como “Black Hawk Down” – produz mortos, helicópteros derrubados e cenas que chocam a opinião pública e dissolvem rapidamente o apoio doméstico à missão [10, 11]. O efeito político é imediato: não importa quantas vitórias táticas sejam possíveis; a intervenção torna-se insustentável. A superpotência descobre, outra vez, que perder a narrativa pode equivaler a perder a guerra. Mogadíscio consolidou um reflexo de retração (“zero body bags”) – isto é, a aversão do eleitorado e da classe política a operações com mortos e imagens de baixas americanas, elevando drasticamente o custo doméstico de qualquer intervenção – que passaria a condicionar decisões posteriores, reforçando a centralidade da opinião pública no cálculo imperial.

O fio comum desses episódios não é a ausência de força. É a presença de um abismo entre a força e a finalidade. Impérios são máquinas de guerra; guerras são instrumentos políticos. Quando a potência não consegue converter superioridade militar em ordem legítima e sustentável, o resultado pode ser um empate, uma retirada, um caos duradouro – ou um fiasco de horas capaz de destruir meses de propaganda.

Talvez a conclusão mais inquietante seja esta: impérios sobrevivem de duas substâncias – força e narrativa. Quando deixam de transformar força em narrativa, e narrativa em futuro, entram numa zona perigosa. Continuam capazes de causar destruição, mas cada vez menos capazes de impor a ordem. No século XXI, promete-se que satélites, drones e algoritmos resolverão o que antes exigia política. Mas a história insiste em lembrar que guerras não são vencidas por máquinas. São vencidas – ou perdidas – pela política. E, quando a política falha, o império descobre o que a propaganda tenta ocultar: a força pode conquistar cidades, mas não garante obediência; pode destruir exércitos, mas não compra legitimidade; pode derrubar governos, mas não cria futuro.

A mesma arrogância também aparece nas zonas cinzentas das guerras não declaradas. O recente ataque norte-americano contra o Irã – conduzido sem declaração formal de guerra e justificado como ação defensiva ou de dissuasão – ilustra um padrão recorrente: a superioridade militar permite destruir infraestruturas e eliminar comandantes, mas não resolve o impasse estratégico nem produz uma nova ordem política. Trata-se de uma ação de forte componente voluntarista, com objetivos de longo prazo pouco definidos e ancorada na crença – reiteradamente desmentida pela experiência histórica – de que a “decapitação” de lideranças possa, quase por inércia, desencadear uma vitória rápida. Essa aposta, mais baseada no desejo do que em evidências empíricas consistentes, insere-se na lógica mais ampla dos assassinatos seletivos como instrumento de política externa, prática consolidada pelos Estados Unidos e Israel e frequentemente apresentada como solução cirúrgica para problemas que são, em essência, de natureza política e estrutural [12]. E, não por acaso, volta à cena a retórica explícita de “mudança de regime”, revelando que a finalidade política permanece tão ambiciosa quanto irrealizável. Ao contrário, ações como essas reforçam a dinâmica de escalada controlada, ampliam o espaço das forças irregulares e mantêm o conflito em um estado permanente de inconclusão, em que cada demonstração de força gera novos custos, novos riscos e nenhuma vitória clara.

Tais exemplos de desgaste não pertencem apenas ao passado. Mesmo recentemente, no Mar Vermelho, a ofensiva dos Houthis mostrou como atores irregulares conseguem impor custos e constrangimentos operacionais a forças muito superiores, obrigando porta-aviões e escoltas a operar sob ameaça persistente. Não é preciso afundar um navio para produzir uma “não-vitória”: basta tornar a presença militar cara, politicamente sensível e estrategicamente inconclusiva – como sugerem episódios de manobras evasivas e acidentes operacionais envolvendo o porta-aviões USS Harry S. Truman em meio a ataques e ameaças.

O império continua capaz de vencer batalhas. O que ele já não consegue garantir é que essas vitórias produzam futuro.

Bibliografia

1.    Machiavelli, N., Il Principe. O Príncipe. 1532.

2.    The Burning of the Capitol in 1814. History, Art & Archives, U.S. House of Representatives 2026–01–18; https://history.house.gov/Historical-Highlights/1800-1850/The-burning-of-the-Capitol-in-1814/.

3.    Rescue of the Papers of State During the Burning of Washington. White House Historical Association 2026–01–18; https://www.whitehousehistory.org/rescue-of-the-papers-of-state-during-the-burning-of-washington.

4.    Cumings, B., The Korean War: A History. Modern Library Chronicles. Vol. 33. 2011: Modern Library.

5.    Horsman, R., Race and Manifest Destiny: The Origins of American Racial Anglo-Saxonism. 1981, Cambridge: Harvard University Press.

6.    Desert One. Air & Space Forces Magazine, 1999.

7.    Operation Eagle Claw. Wikipedia 2026–01–18; https://en.wikipedia.org/wiki/Operation_Eagle_Claw.

8.    Beirut Remembrance. U.S. Marine Corps – Marines TV 2020 2026–01–18; https://www.marines.mil/News/Marines-TV/videoid/634642/dvpTag/Beirut/.

9.    They Came in Peace. Defense Intelligence Agency (DIA) 2013 2026–01–18; https://www.dia.mil/News-Features/Articles/Article-View/Article/566917/they-came-in-peace/.

10.  Battle of Mogadishu (1993). Wikipedia 2026 https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Mogadishu_(1993).

11.  Battle of Mogadishu. Encyclopaedia Britannica 2023 https://www.britannica.com/topic/Battle-of-Mogadishu.

12. de Melo, C. P.. Licença para matar: a política dos assassinatos seletivos e a erosão das normas internacionais. CartaCapital, São Paulo, 12/11/2025. https://www.cartacapital.com.br/mundo/licenca-para-matar-2/

Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências.

Leia também: Questão nacional e transição socialista no século XXI https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/soberania-socialismo.html

Humor de resistência

 

Miguel Paiva 

Trumpismo é neofascismo, uma ameaça a ser rechaçada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_26.html

Minha opinião

Raquel Lyra entre dois rumos
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65   

Miguel Arraes se elegeu três vezes governador de Pernambuco a frente de uma coalizões sociais e políticas amplas e diversificadas. Compreendia como poucos a abordagem tática da situação de modo a isolar e enfraquecer o adversário principal.

Mas marcava a amplitude e a flexibilidade com a clareza de propósitos. Fincava a bandeira na colina, por assim dizer, e a partir daí atraia aliados os mais diversos. Presava pela clareza de propósitos.

Mutatis mutandis, como dizem os juristas, o cenário político de Pernambuco neste ano eleitoral põe a governadora Raquel Lyra (PSD) numa encruzilhada. Vê-se na necessidade de uma aliança com o presidente Lula, admitindo dois palanques majoritários em Pernambuco convergentes na luta pela reeleição do presidente, mas sob riscos políticos em certa medida imprevisíveis.

Em 2022, a então candidata a governadora pelo PSDB manteve-se neutra quanto à disputa presidencial, condição necessária para conquistar o apoio da direita bolsonarista.

Deu certo, mas agora o cenário é outro

A extrema direita precisa disputar mais uma vez os cargos  majoritários estaduais como condição necessária ao apoio ao candidato à presidência da República do PL, provavelmente o senador Flávio  Bolsonaro, e para eleger bancadas estadual e federal.

Enquanto isso, João Campos (PSB) antecipadamente firmou aliança com o presidente Lula e se credencia a unir a esquerda mais consistente e amplos e variados segmentos sociais e políticos nas várias microrregiões de Pernambuco. Terá o apoio do PCdoB e do PT (ainda que fragmentos petistas inconsequentes ensaiem dissidência).

Pesquisas têm indicado vantagem de João Campos sobre Raquel Lyra que oscila em torno 51 a 56%, concomitante com índices de rejeição à governadora em torno de 45%.

A relação entre a disputa estadual com a presidência da República pode, inclusive, introduzir o elemento político no discursos dos oponentes para o governo estadual, ambos excessivamente centrados em questões administrativas – bem diferente do padrão de conduta de Miguel Arraes.

O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.html 

Sylvio: dois pesos, duas medidas

E se fosse o contrário, se o Irã atacasse os Estados Unidos e matasse Trump? Seria um ato lícito em benefício da Humanidade ou um grave atentado ao direito internacional?

Sylvio Belém   

Trumpismo é neofascismo, uma ameaça a ser rechaçada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_26.html 

Palavra de poeta

Procura antiga
Affonso Romano de Sant´anna     


Perdi qualquer coisa ali
entre o século onze ou dezesseis, não sei.
Qualquer coisa entre aqueles reis e servos
qualquer coisa entre a nobreza e os parvos
comensais à mesa
qualquer coisa entre as pedras de Siena
e as pernas das princesas de Viena.
Por isto procuro procuro procuro
entre
quadros portulanos estatuetas tapetes pianos
porcelanas cristais
e enternecidas madonas
como a cinderela o seu sapato perdido
na meia-noite da festa
e o maestro a semifusa confusa
que caiu no fosso da orquestra.

Procuro algo nas gretas
dos monumentos no musgo
do sofrimento no desejo
dos conventos e traças
dos documentos.

O que procuro não sei. Mas sei
que essa procura
me organiza o sofrimento.

[Ilustração: Deborah Bays]

Leia também:Manuel Bandeira "O último poema" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-de-poeta_23.html

Uma crônica de Ruy Castro

Dos 77 aos 78
Segundo Groucho Marx, a velhice não é grande coisa. Basta viver para chegar até lá. Até os 40 anos, vivi pela madrugada, pulando janelas e resistindo a tudo, menos às tentações
Ruy Castro/Folha de S. Paulo 

Em 2002, aos 77 anos, meu sogro, Delio Seixas, fã de futebol e torcedor do Fluminense, perguntou-se a quantas Copas do Mundo ainda assistiria depois daquela que estava para começar no Japão/Coreia do Sul. Afinal, já era um recordista no gênero. Pelo rádio ou pela TV, acompanhara todas de 1938 em diante (a de 1950, ao vivo, no Maracanã), o que significava, até então, 14 Copas no seu cartel. Modesto, calculou que, no tempo que lhe restava, seriam talvez mais duas. Mas Delio subestimou-se: viveria até os 97 anos, maravilhosamente saudável e lúcido, com o que torceu pelo Brasil em mais seis Copas, até a de 2022.

Bem, despedindo-me nesta quinta-feira (26) dos meus próprios 77 anos, não tenho ideia de quantas Copas me restam nem isso me altera o sono —as de 1958 e 1970 já terão sido suficientes. Só sei que não atingirei a marca de Delio. Alto funcionário do Banco Central, ele nunca fumou ou bebeu e levou a vida fazendo esporte, dormindo cedo e comendo salada. Eu, ao contrário, até os 40 anos vivia pela madrugada, pulando janelas, cercado de más companhias e resistindo a tudo, menos às tentações. Depois regenerei-me e me tornei um cidadão exemplar, ou quase. Mas nunca se sabe quanto, um dia, nos custarão os prazeres.

Como dizia Groucho Marx, a velhice não é uma grande coisa —basta viver para chegar até lá. Mas alguns parecem querer se antecipar a ela. Tom Jobim, que morreu tão cedo, aos 67 anos, já se sentia velho muito antes. Certa vez, na rua, alguém lhe perguntou: "Hei, Tom, o que você está compondo?". E ele: "Não estou compondo. Estou decompondo!". E Nelson Rodrigues, que também morreu com inacreditáveis 68, escreveu várias vezes: "Eu sou uma múmia, com todos os achaques das múmias".

Nelson e Tom eram de uma geração em que os 50 anos já pareciam levar à reta final. Hoje, com essa idade, o cidadão ainda não chegou nem à primeira curva. Segundo meu médico, os 78 anos de agora são os 55 de até outro dia.

Ótimo. Outra grande vantagem dos 78 é que ainda falta um ano para os 79.

Bela e sonora, porém maltratada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_25.html

Irã: que país é este?

Por dentro do Irã: origens históricas do conflito com os EUA
Como décadas de ingerência externa, disputas energéticas e resistência nacional ajudam a explicar a escalada militar contemporânea
Carlos Azevedo/Portal Grabois https://grabois.org.br/    

Este texto é uma resenha do livro Por dentro do Irã: a verdadeira história política da República Islâmica, de Medea Benjamin.

Início de 2026, o governo dos Estados Unidos desloca para o Oriente Médio uma frota de porta-aviões e outros armamentos em escala sem precedentes fora de tempo de guerra. O presidente Trump repete a ameaça de que o plano é atacar o Irã, mas logo depois diz que prefere negociar. A imprensa do país imperial vem em seu auxílio promovendo o pânico ao anunciar que a ofensiva é iminente. Ameaça que se concretizaria semanas depois. O governo da república islâmica responde afirmando que pode causar danos irreparáveis aos interesses dos Estados Unidos na região. Apesar de toda a tensão, há uma sensação de que já vimos esse filme. Os Estados Unidos ameaçam atacar o país persa desde 1979, quando se deu a Revolução Iraniana.

Por que tanta hostilidade contra o Irã?

A resposta não é simples. Em primeiro lugar, é preciso ter em vista a política imperial, que sempre busca exercer influência sobre outros países e povos, promover governos submissos e se apropriar de suas riquezas. No caso concreto, os Estados Unidos se ofendem porque o povo do Irã derrubou uma dinastia serviçal ao império, do xá Reza Pahlavi, invadiu sua embaixada e manteve seus diplomatas reféns por 444 dias. O poder foi assumido por clérigos radicais muçulmanos xiitas e esse governo se opõe aos aliados do governo dos Estados Unidos no Oriente Médio, como a Arábia Saudita e Israel, apoia e arma os movimentos palestinos como o Hamas, a Jihad Islâmica e o Hezbollah, partido revolucionário do Líbano.

Além do mais, o Irã em tese é uma presa extremamente atraente para os apetites imperiais. País estrategicamente posicionado na Ásia Ocidental, tem sete vizinhos, Afeganistão, Paquistão, Armênia, Azerbaijão, Turcomenistão, Iraque e Turquia. Está próximo da Índia e da China. Detém o litoral do Golfo Pérsico e domina o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo mundial. Tem enormes reservas de petróleo e é um importante produtor. Presa atraente, mas não é fácil.

Civilização persa e identidade histórica

Os governos e políticos ocidentais padecem de grande ignorância sobre o Irã. Costumam confundi-lo com os povos árabes que vivem no Oriente Médio. Os iranianos não são árabes. Seus 90 milhões de habitantes são persas, falam a língua persa, o farsi, e têm uma longa tradição que vem desde a Antiguidade. É mais antigo do que qualquer nação ocidental, tem 2.500 anos e foi um grande império, que se estendia por três continentes, Norte da África, os Bálcãs europeus e tinha sede em Persépolis, na Ásia Central. Seu auge se deu sob o governo de Ciro o Grande, generoso defensor dos direitos humanos, e se estendeu entre 550 a 350 a.C. (antes de Cristo).

Sua influência cultural, arquitetura, arte, escrita, filosofia, estendeu-se muito além de suas fronteiras, para Europa, África, China e Índia. Exaurido por guerras com o Império Bizantino, sucumbiu à invasão árabe que se deu a partir de 633 d.C. (depois de Cristo). Com o tempo, a maioria dos iranianos se converteu ao islamismo, do ramo xiita, seguidores do Imã Ali, primo e genro do profeta Maomé, que é a religião predominante até nossos dias. Embora tenha sido islamizado, o Irã não foi arabizado. Os persas permaneceram persas.

Devido à localização estratégica, o país foi alvo de inúmeras invasões ao longo dos séculos, começando pelos mongóis de Gengis Khan, no século 13. Mas sua cultura permaneceu forte e se faz presente em todo o mundo muçulmano. O O Xá Abbas, o Grande, governou de 1588 a 1629. Construiu a sua capital, Isfahan, joia da coroa da arquitetura islâmica. Fez acordos com os ingleses. Auxiliado por eles, retomou o Estreito de Ormuz, que havia sido ocupado por Portugal, e restabeleceu sua presença no Golfo Pérsico. O período registra também o crescimento do papel do clero xiita e perseguições aos sunitas, sufis, judeus, cristãos e outros.

Sofreu invasões, como em 1722, por um exército afegão de Candaar. O chefe militar Nader conseguiu expulsar os invasores em 1729 e se tornou Xá. Tinha sede de conquista, formou um exército de 375 mil soldados, considerado o maior do mundo na época, conquistou territórios desde a Índia até o Iraque. Ditador brutal, foi assassinado em 1747. O país caiu em um período de anarquia, chefes militares formaram feudos, a população sofreu com a violência e a fome.

No fim do século XVIII, o país foi reunificado pelo Xá Aga Maomé Cã Cajar e viveu um período de recuperação e paz. Mas teve que enfrentar novos desafios provocados por interferências e rivalidade entre britânicos, russos e franceses. Em 1800 a Grã-Bretanha enviou uma missão com 500 homens ao Irã e o Xá assinou um tratado comercial e um acordo de armas com os britânicos.

A Rússia anexou a província iraniana da Geórgia, o Xá pediu ajuda aos britânicos que recusam por estarem aliados à Rússia contra os franceses. O Xá se aproximou dos franceses com os quais assinou um tratado, a França tornando-se protetora e parceira comercial. Mas logo fez as pazes com a Rússia e o Irã ficou desprotegido. Em 1809 os britânicos enviaram nova missão para reconquistar o controle do Irã. Prometeram apoio contra intervenção de qualquer potência europeia, mas em 1812 quando os britânicos foram chamados para arbitrar um tratado do Irã com a Rússia sobre terras disputadas no Cáucaso, os britânicos favoreceram a Rússia.

O “Grande Jogo” e as intervenções estrangeiras

O Irã teve que entregar Baku, Tbilisi, Darband e Ganja para a Rússia e a marinha iraniana foi excluída de entrar no Mar Cáspio. Os iranianos perderam a confiança nos ingleses e nas outras potências europeias. O Irã se percebeu como peão no que ficou conhecido como o “Grande Jogo”.

No início da década de 1870, endividado e sem alternativa, o Irã deu enormes concessões econômicas aos britânicos alienando estradas, telégrafos, moinhos, fábricas, extração de minerais, florestas e obras públicas. Esse acordo foi descartado um ano depois devido à indignação popular e pressão da Rússia.

Em 1890, pela primeira vez os clérigos xiitas perceberam sua força na sociedade iraniana. Um empresário britânico recebeu o controle total sobre a produção, venda e exportação de tabaco por 50 anos. Os comerciantes e os clérigos xiitas somaram forças e resistiram ao acordo e o Xá foi obrigado a voltar atrás.

A concessão mais lamentável se deu em 1901 com a concessão pelo Xá de direitos exclusivos de perfuração de petróleo a um empresário britânico. Foi o primeiro passo na tomada dos recursos petrolíferos do Irã pelo Reino Unido.

Ao mesmo tempo, crescia na opinião pública iraniana a desconfiança sobre a credibilidade das atitudes dos governos estrangeiros e com a natureza exploradora de suas empresas. Nenhum deles seria confiável. E crescente frustração pública com os fracassos dos governantes em defender a soberania da Nação. Somada ao descontentamento pela elevada inflação, resultou em 1906 na Revolução Constitucionalista que conquistou uma assembleia constituinte que produziu uma Constituição, fortaleceu o Parlamento tornando o governo mais representativo da sociedade e reduzindo os poderes do Xá. O islamismo xiita conseguiu mais espaços, tornando-se religião oficial.

As potências estrangeiras não estavam satisfeitas. Em 1907, Reino Unido e Rússia assinam acordo dividindo o Irã em duas partes, zona russa e zona britânica, desconsiderando a soberania do país. O Parlamento foi impotente para impedir isso. Em 1908, os britânicos iniciaram a exploração de petróleo sem nada pagar ao Irã que tinha a economia arruinada.

Em 1908, o Xá e os ricos seus apoiadores, com incentivo da Rússia, deram um golpe militar contra o Parlamento bombardeando o prédio e matando 250 pessoas. A reação popular promoveu uma guerra civil por dois anos e o Xá foi obrigado a abdicar.

Em 1914, quando a Primeira Guerra Mundial estourou, a Inglaterra decidiu incorporar o Irã inteiro ao Império Britânico. Pagou 600 mil dólares ao primeiro-ministro para fazer passar a proposta no Parlamento. Mas o país inteiro se levantou contra e ele teve que renunciar.

O país seguiu atribulado pela insatisfação popular e pelas intervenções das potências europeias. Em 1921 começou a ascensão da dinastia Pahlavi. Reza Khan lidera tropa do Exército que toma o controle de Teerã. Passa a liderar o Exército, pressiona o Parlamento e se torna primeiro-ministro. Em 1926 o Parlamento o coroa como Xá. Ele adota o nome Pahlavi, nome de uma antiga escrita persa.

Forma um Estado centralizado forte e usa o petróleo como receita importante com burocracia eficaz e grande exército permanente. Fez acordo com a Anglo-Persian Oil recebendo apenas 16% dos royalties, essa era uma quantia considerável devido ao grande volume da produção.

Sempre fardado, comanda um regime militar repressivo com milhares de prisioneiros políticos e execução de adversários. Busca ocidentalizar o país até mesmo obrigando as pessoas a usarem roupas ocidentais, as mulheres eram obrigadas a remover o xador, vestido que cobre o corpo e o cabelo. Ultrajando os clérigos xiitas e aterrorizando as mulheres que, sem as roupas tradicionais se sentiam nuas. O projeto do Xá era quebrar o poder da hierarquia religiosa o que lhe rendeu a inimizade dos clérigos.

Na Segunda Guerra Mundial, o Xá resolveu apoiar a Alemanha nazista. Em agosto de 1941, o país foi invadido por uma força conjunta de britânicos e soviéticos. Seu exército, tão poderoso para reprimir o povo, só resistiu por três dias. Foi obrigado a abdicar em favor de seu filho, Mohammad Reza Pahlavi com a condição de que britânicos e soviéticos pudessem ocupar o norte e o sul do país.

O período entre 1941 e 1953 registra um breve período de governo constitucional renovado, o Parlamento voltou a funcionar e o Tudeh, um novo partido socialista vai conquistando a classe trabalhadora. O governo alegou que o Tudeh apoiava secessionistas incentivados pela URSS e lançou uma repressão generalizada. O partido foi proibido, seus jornais fechados, muitos de seus líderes presos e outros fugiram para o exterior.

Apesar disso, a população havia elevado seu nível de consciência política e clamava pela nacionalização da Anglo-Iranian Oil Company.

No vácuo político deixado pelo extinto Tudeh surgiu Mohammad Mossadegh, defensor da Constituição e da soberania nacional e independência diante da dominação estrangeira. Eleito primeiro-ministro tentou encontrar equilíbrio entre as potências europeias. Denunciou antigas concessões de petróleo concedidas a britânicos e russos bem como negociações em curso com empresas dos Estados Unidos. Atendeu a pressão popular pela nacionalização da indústria do petróleo insistindo que era direito inalienável do país ter controle total sobre sua produção, venda e exportação.

Petróleo, soberania e o despertar nacional

Em 1951, Mossadegh uniu diferentes forças políticas para formar uma Frente Nacional. Teve o apoio do aiatolá Kashani, o membro mais ativo politicamente do clero. Foi autorizado pelo Parlamento a nacionalizar o petróleo. Seu governo criou a National Iranian Oil Company, NIOC. Quando a empresa inglesa recusou entregar suas instalações e operações, ele ordenou que a NIOC assumisse seus poços, oleodutos, refinarias e escritórios. A Anglo Oil Company retirou seu pessoal técnico e congelou os ativos do Irã em bancos ingleses. Mossadegh fechou a embaixada inglesa e rompeu relações diplomáticas com a Grã-Bretanha.

Tratou de se fortalecer politicamente e enfraquecer o Xá. Em cadeia de Rádio e TV, disse à Nação que precisava do controle dos militares para impedir que o Xá e os britânicos minassem seu plano de nacionalizar o petróleo. A população inundou as ruas por três dias em protestos contra o Xá que foi obrigado a ceder.

O primeiro-ministro, que os iranianos consideravam incorruptível, devolveu ao Estado terras ilegalmente apropriadas pelo Xá e o proibiu de se comunicar com embaixadas. Buscou o controle dos militares. Comprou apenas armas defensivas e expurgou 136 oficiais militares. Transferiu 15 mil militares para a polícia e cortou o orçamento militar em 15%.

Em julho de 1953, sob sua influência, o Parlamento estava debatendo como substituir a monarquia por uma república democrática. Os britânicos tinham muito a perder com a nacionalização do petróleo iraniano, do qual a economia inglesa tinha grande dependência. Trataram de alarmar seus aliados dos Estados Unidos dizendo que se isso acontecesse, a Indonésia, a Venezuela e o Iraque, grandes produtores de petróleo, seguiriam o mesmo caminho com consequências terríveis para a economia dos dois países. Partiram para a propaganda de guerra aterrorizando a opinião pública chamando Mossadegh de “maluco, fanático, louco, desequilibrado, selvagem” e outros tantos nomes apelativos.

O golpe de 1953 e a consolidação do Xá

A CIA e MI6 começaram a planejar o golpe em fim de 1952. Estavam amplamente infiltrados entre os militares iranianos. Em julho de 1953, Foster Dulles, secretário de Estado dos Estados Unidos, apresentou o plano aos formuladores de políticas e anunciou: “É assim que nos livraremos de Mossadegh”.

Em 15 de agosto, o Xá emitiu um decreto demitindo Mossadegh e nomeando primeiro-ministro o general Zahedi. Mossadegh se negou a renunciar e transmitiu uma mensagem de que o Xá, encorajado por “elementos estrangeiros” havia tentado um golpe. No dia seguinte aconteceram grandes manifestações em apoio a Mossadegh e à Frente Nacional. Provocadores da CIA na multidão atacaram clérigos e mesquitas forçando Mossadegh a condenar a violência. Em 19 de agosto, gangues e soldados pagos pela CIA, em trajes civis, encenaram uma contramanifestação agressiva pró Xá e anti-Mossadegh que levou a turbulência nas ruas ao clímax. A multidão que chegou a Teerã e foi decisiva na derrubada era uma multidão mercenária. Foi paga com dólares estadunidenses.

Em meio ao caos, 32 tanques Sherman entraram na cidade e cercaram prédios importantes, inclusive a casa de Mossadegh. Em seguida, os líderes do golpe transmitiram uma proclamação do Xá nomeando o general Zahedi como novo primeiro-ministro. A luta continuou por mais seis horas. Ficando sem munição, as tropas leais a Mossadegh se renderam. Estima-se que houve 300 mortos.

O presidente Eisenhower disse ao povo estadunidense que o povo iraniano havia “salvado o dia” por causa de sua “repulsa ao comunismo e seu profundo amor por sua monarquia”.  Na verdade, o Xá e os militares ficaram fortemente identificados com os interesses imperialistas. Em contraste, Mossadegh é considerado pelo povo um líder nacionalista como Gandhi, da Índia, Sukarno, da Indonésia e Nasser, do Egito.

A repressão foi brutal. Mossadegh permaneceu preso por três anos e o resto da vida em prisão domiciliar. Até os dias de hoje, milhares de estudantes se reúnem no dia da sua morte para prestar homenagem. Todos os partidos e organizações seculares que se opuseram ao Xá foram desmantelados e banidos. A única instituição importante que manteve alguma independência e ainda falava com autoridade moral sobre os problemas do povo foi o clero xiita, preparando o cenário para a Revolução Islâmica de 1979.

Modernização autoritária e repressão

O Xá Mohammad Reza governou com punho de ferro. Estado forte, centralizado e militarizado, tinha dinheiro. O Irã estava recebendo 50% da receita anual da cada vez maior produção de petróleo. Destinou grande parte dessa riqueza a sua prioridade, o exército. O Irã tornou-se o maior comprador de armas do mundo. Construiu a maior marinha do Golfo Pérsico, a maior força aérea da região e o quinto maior exército do mundo. Também construiu um serviço de segurança aterrorizante, com 5 mil homens, além de recrutar um em cada 450 homens adultos como informantes. Torturou, matou e desapareceu com dissidentes políticos. Estima-se entre 25 a 100 mil prisioneiros políticos e a maior taxa de pena de morte do planeta.

O Xá tornou-se megalomaníaco, dizia que recebia mensagens religiosas de Deus e do Imam Ali. Lançou ataques suicidas contra os comerciantes dos bazares e contra o clero xiita. Seus tribunais processaram 180 mil comerciantes, aplicaram 250 mil multas e 8 mil penas de prisão.

Seu apelo pelos direitos das mulheres de votar, de iniciar o divórcio, de viajar sem permissão de um homem foi ferozmente contestado pelo clero. Declarou-se líder espiritual e político. Substituiu o calendário muçulmano por um antigo calendário persa. Assumiu o controle da Faculdade de Teologia da Universidade de Teerã e de outras instituições de ensino religioso.

Pensava ser amado, mas era rejeitado pela intelectualidade, pela classe trabalhadora que apoiara Mossadegh e o via como um fantoche americano e britânico. A classe média conservadora de comerciantes, proprietários de terras e os clérigos haviam cortado seus laços com ele. A dinastia Pahlavi havia chegado ao fim.

A Revolução Islâmica e a ascensão do clero

A Revolução islâmica de 1979 que levou ao poder uma teocracia fundamentalista foi uma combinação complexa de nacionalismo, populismo e radicalismo religioso. Enfraquecidas pela repressão do Xá as forças progressistas foram superadas pelo clero xiita a única força política que fora tolerada pela ditadura. A tomada do poder teve um caráter popular. Imensas massas armadas foram as ruas e cercaram os quartéis tornando os militares impotentes apesar da repressão sangrenta.

Mantido no exílio por 15 anos e sempre criticando o regime, o aiatolá Khomeini havia se tornado muito popular. Assume o poder, contrariando as forças progressistas, e defende que não haja separação entre Igreja e Estado. Forma-se um governo provisório, mas em paralelo Khomeini cria o Conselho dos Guardiões formado por religiosos. As forças seculares acusam violação da soberania popular e de consagrar o clero como “classe dominante”.

Os Estados Unidos dão asilo ao Xá e os iranianos se revoltam. Quatrocentos  estudantes invadem a embaixada estadunidense em Teerã e fazem os diplomatas de reféns por 444 dias. Khomeini recusa intervir. O primeiro-ministro Barzaghan renuncia. Khomeini venceu. Uma Constituição islâmica foi aprovada em dezembro de 1979.

Guerra, islamização e consolidação do regime

Em 1980, o Iraque de Saddam Hussein invade o Irã, que tem um exército forte herdado do Xá e reage duramente. Foi uma guerra brutal que iria durar por oito anos com cerca de 400 mil mortos somando os dois lados. Os Estados Unidos procuram se aproveitar jogando um contra o outro, vendendo armas aos dois beligerantes.

Por iniciativa do governo dá-se uma islamização da sociedade enquanto acontece uma centralização da economia com empresas passando à posse do Estado (sem esquecer o petróleo cuja produção e venda estavam nacionalizadas). Importantes benefícios foram dados à classe trabalhadora. Ao mesmo tempo ocorreu um aumento da repressão a outros credos religiosos e a qualquer manifestação de oposição ou descontentamento. Toda publicação tornou-se alvo de censura. Direitos das mulheres foram suprimidos. Em dois anos cerca de 500 oponentes foram executados. Os prisioneiros políticos contavam-se aos milhares.

Logo após o fim da guerra contra o Iraque, em 1988, o aiatolá Khomeini autorizou outra rodada de execuções em massa. Um expurgo político sem precedentes, estimado em pelo menos duas mil execuções de prisioneiros políticos. A organização Human Rights Watch considerou um crime contra a humanidade.

Com a morte de Khomeini, em 1989, seu sucessor Ali Khamenei tentou enfrentar a crise econômica restabelecendo laços com o Ocidente. Um acordo com a empresa estadunidense de petróleo de 1 bilhão de dólares foi barrado pelo governo de Bill Clinton. O programa de energia nuclear iraniano provoca sanções dos Estados Unidos e outros países ocidentais. Em 2002 o presidente Bush declarou o Irã como fazendo parte do “eixo do mal” junto com Coreia do Norte e Iraque.

Em 2005 o populista conservador Ahmadinejad vence as eleições e irá governar num clima repressivo e de agravamento das relações com os Estados Unidos, tendo sempre como motivo ou pretexto o programa de energia nuclear iraniano. Sua reeleição em 2009 é acusada de fraude. Surge o movimento “onde está meu voto?” Seu líder Mega Aghan Soltan foi moro a tiros. E o movimento cresce e enfrenta a repressão por vinte meses culminando com a proposta de fim da República Islâmica.

Em 2013, assume um presidente reformista, Hassan Rouhani, que promoveu mais liberdade. Foi reeleito em 2017 com uma votação contra o domínio dos aiatolás. O poder secular e o poder religioso se confrontam num ambiente de abertura política. Mas o aiatolá continua a ser o líder supremo, controla os militares (cuja elite forma a Guarda Revolucionária) o judiciário, imprensa, rádio, TV, as agências policiais de repressão.

Numa demonstração de capacidade científica, técnica e habilidades pessoais o Irã desenvolve ainda mais seu programa de energia nuclear e enriquecimento de urânio. Os Estados Unidos e seus aliados ocidentais retaliam assassinando seus cientistas, aplicando pesadas sanções, produzindo crise na economia, inflação, escassez de alimentos e outros bens como gasolina refinada.

O alvo principal é o programa de energia nuclear. São feitas exigências absurdas, como o fim do programa, consideradas inaceitáveis pelo Irã. As pressões têm resultado contrário porque o Irã acelera ainda mais o programa e chega a três meses de produzir a bomba nuclear.

Programa nuclear, sanções e realinhamento geopolítico

Em 2015, o governo Obama recua e aceita que o Irã continue desenvolvendo o enriquecimento do urânio desde que não chegue ao ponto de poder produzir uma bomba e que seja rigorosamente fiscalizado pela Agência Internacional de Energia Atômica, controlada pelas potências ocidentais. Esse acordo, chamado 5+1, porque firmado com os Estados Unidos e as potências europeias alivia as sanções que haviam provocado grandes sofrimentos à população que manifestava fortemente sua insatisfação mantendo o governo entre dois fogos.

Cem bilhões de dólares congelados foram liberados, o país compra aviões da Boeing e Airbus. A francesa Total investe na exploração de um grande campo de gás, a Citroën volta a fabricar carros no Irã. Um dos mais interessantes resultados do isolamento do Irã promovido pelas potências ocidentais foi o crescimento de seu relacionamento com a China, grande compradora de petróleo, tornou-se seu principal parceiro comercial, fornecendo equipamentos, bens de consumo e armas. A Índia também estreitou relações e é o segundo parceiro comercial. Com a Rússia foram restabelecidas relações estratégicas na área militar envolvendo armas de última geração, transações no setor de petróleo e fornecimento de equipamentos. As sanções ocidentais acabaram por jogar o Irã nos braços de seus adversários estratégicos.

O foco da estratégia internacional do Irã é a defensiva ativa. Não ataca ninguém, mas se atacado se defenderá. Apoia com recursos e armas os seus aliados com o xiita Hezbollah no Líbano, os palestinos Hamas e Jihad Islâmica, os houthis no Iêmen, como apoiava a Síria enquanto Assad governava, que estão em confronto com os Estados Unidos e Israel. Por isso, o Irã é permanentemente ameaçado por Israel, e é hostilizado por Arábia Saudita e Emirados Árabes, todos armados até os dentes pelos Estados Unidos.

Em 2017 o presidente recém-eleito Donald Trump rompeu o acordo com o Irã sobre o seu programa nuclear, que chamou de “o pior acordo já negociado”.

Em seu segundo governo, em 2025, Trump lançou um ataque militar contra o Irã bombardeando as instalações do programa nuclear. Chegou mesmo a declarar que havia destruído totalmente o programa, o que não era verdade. O Irã continuou desenvolvendo o processo de enriquecimento do urânio, sempre alegando que é para fins pacíficos.

No início de 2026, o governo Trump mantinha tensas negociações com o Irã, faz exigências de encerramento do programa nuclear e ultimamente também para paralisar a produção de mísseis de alcance continental e grande potência que o Irã desenvolveu e do qual já havia dado uma didática, mas moderada demonstração ao lançar contra Israel alguns desses mísseis na ocasião que era bombardeado pelos Estados Unidos. As defesas de Israel foram impotentes para contê-los.

No momento atual, o governo Trump deslocou formidável frota militar para o Oriente Médio e concretizou a ameaça de ataque ao Irã, em operação conjunta com Israel, em 28 de fevereiro de 2026. A ação foi apresentada como instrumento de pressão para que a República Islâmica capitule e aceite os termos de um acordo humilhante. Como tantas vezes em sua história recente, repetiu-se: não vai ser fácil.

Serviço

Título: Por dentro do Irã: a verdadeira história política da República Islâmica
Autora: Medea Benjamin
Tradução: Amauri Gonzo
Editora: Autonomia Literária
Ano: 2025
ISBN: 978-65-5497-059-4

Trump mente sobre risco nuclear do Irã https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/trump-mente-e-agride.html