Oliver Stone e A História não contada dos
Estados Unidos
Em 2015, o cineasta estadunidense, Oliver Stone,
escreveu um livro para contar a seus filhos a verdadeira história dos Estados
Unidos, de sua expansão imperial, das agressões, guerras e crimes contra os
outros povos e contra os próprios trabalhadores do país. Em fins de 2016, Stone
coroa essa denúncia lançando o filme Snowden, imperdível, porque desnuda
completamente a política de poder imperial dos Estados Unidos. Aqui, a resenha
do livro.
Carlos
Azevedo*/Vermelho
Autor de filmes emblemáticos sobre a história recente dos Estados
Unidos, como Nascido em 4 de julho, Platoon, JFK, Wall Street e outros, Oliver
Stone lutou na guerra do Vietnã. Diz que ficou espantado com o que os
professores estão contando para seus filhos na escola, que, aliás, continua a
ser o mesmo que ele havia aprendido em seu tempo de estudante: “Nós americanos
éramos o centro do mundo. Havia um destino manifesto e nós éramos os mocinhos”.
O cineasta juntou-se ao respeitado professor de História Peter Kuznick e, após
uma pesquisa de cinco anos, a dupla fez um documentário e um livro com esta
história não contada do seu país. Escrito em linguagem simples, tem como alvo
imediato o público jovem norte-americano.
O que os autores fazem é mostrar a distância entre os acontecimentos
relativos à política expansionista e hegemonista dos EUA e as fabulações
criadas para justificar e enquadrá-los dentro da ideologia da missão divina
concedida (sic) por Deus aos EUA para levar aos outros povos o cristianismo, a
democracia e o livre mercado.
No livro, retratam uma política de Estado que, desde as origens, orienta
e sustenta um empresariado sedento por concorrer com os impérios coloniais da
Grã Bretanha, da França, Alemanha etc. Depois de anexar metade do México,
inicia o século XX incorporando as Filipinas, Guam, Pago Pago, Ilha Wake, Atol
Midway, Havaí e Porto Rico e reivindicando o controle sobre Cuba. Participa da
1ª. Guerra Mundial para romper o protecionismo das grandes nações e abrir os
mercados para seus negócios enquanto impõe altas tarifas para importação. No
plano interno, esmaga o movimento operário e sindical com grande violência,
suborno e legislação restritiva e persegue ferozmente as associações e
aspirações socialistas até reduzi-las à insignificância.
Simpatia pelo nazismo
O livro descreve e apresenta documentos sobre a simpatia e a colaboração
dos grandes banqueiros e empresários norte-americanos com Hitler e o governo
nazista. Ford, GM,Standard Oil, Alcoa, ITT, GE, Dupont, Kodak, Westinghouse e
muitas outras empresas continuaram a fazer negócios com os nazistas até 1941.
Ford e GM até aceitaram converter suas fábricas instaladas na Alemanha para a
produção de armas. Banqueiros continuaram a negociar com os alemães durante
toda a guerra.
Inglaterra, França e EUA se faziam de surdos aos insistentes apelos da
URSS de Stalin para formarem uma aliança contra a Alemanha, e, ao mesmo tempo
apresentavam apenas débeis protestos aos avanços das tropas de Hitler e
Mussolini ocupando outros países (Etiópia, Austria, Thecoslovaquia, Sudetos
etc). E vendiam armas a Franco para esmagar o governo republicano espanhol.
Para os autores, EUA e seus aliados fizeram muito pouco para auxiliar “a
desesperada comunidade judaica-alemã quando em 1938 uma orgia de violência se
desencadeou.” Em 1939, quando Hitler descumpriu os acordos feitos com a França
e Inglaterra e invadiu a Thecoslovaquia sem qualquer reação, Stalin, certo de
que a URSS estaria sozinha na luta contra o nazismo, procurou ganhar tempo para
se armar, assinou o pacto de não agressão com a Alemanha, desviando o rumo da
guerra para o Oeste. Em seguida, numa rápida sucessão, o exército alemão
conquistou a Dinamarca, Noruega, Holanda e Bélgica. Em junho de 1940, a França
desmoronava, com a maior parte de sua classe dominante optando pela colaboração
com os nazistas.
Em 1941, diante dos apelos do primeiro-ministro da Inglaterra, Winston
Churchill, para os EUA entrarem na guerra contra a Alemanha, Franklin Roosevelt
declarou: “Acredito que falo como presidente dos Estados Unidos quando digo que
não ajudaremos a Inglaterra nessa guerra se for para eles continuarem a tratar
com arrogância os povos coloniais”. Suas palavras significavam que os EUA
queriam em troca ter livre acesso aos mercados até então sob o domínio imperial
inglês.
Mas Roosevelt havia prometido ao seu povo que não mandaria os jovens
norte-americanos para morrer na guerra europeia e precisava de um pretexto para
descumprir a promessa. Com o ataque do Japão à base norte-americana de Pearl
Harbor, no Havaí, o pretexto estava dado.
Heroísmo estóico da URSS derrotou Hitler
Atacada com ferocidade pelo exército alemão, a URSS clamou em vão pela
abertura de um segundo front na Europa durante três anos. Sob influência de
Churcill, as tropas aliadas foram desviadas para a África, frente secundária,
mas de interesse da Inglaterra para a defesa de seu império (e de seu petróleo
no Oriente Médio). A invasão da Normandia só aconteceu depois que o Exército da
URSS, numa façanha inacreditável, havia destroçado a até então invencível
máquina de guerra alemã, e marchava celeremente para Berlim. Ameaçava tomar
controle da segunda maior base industrial e tecnológica do planeta, o que seria
desastroso para os interesses dos capitalistas norte-americanos e ingleses. Os
autores dizem: “Ainda que susbsista o mito de que os Estados Unidos venceram a
2ª. Guerra Mundial, importantes historiadores concordam que foi a União
Soviética e toda sua sociedade, incluindo Josef Stalin, seu brutal ditador, que
por meio do absoluto desespero e do heroísmo incrivelmente estóico, forjaram a
grande narrativa da 2ª. Guerra Mundial: a derrota da monstruosa máquina de
guerra alemã”.
A economia dos EUA quase dobrou durante a guerra, apoiada na indústria
de armas. Como Franklin Roosevelt estava doente, sua terceira eleição à presidência
envolveu uma batalha e um golpe branco para a escolha do vice-presidente. O
progressista Wallace, que era o auxiliar mais próximo de Roosevelt, foi
afastado por uma manipulação dos grandes industriais em favor de um senador
provinciano e ignorante chamado Harry Truman. Meses depois, ao assumir a
presidência após a morte de Roosevelt, segundo os autores, Truman estava
“escandalosamente despreparado” para a função. Estimulado pelos representantes
dos grandes empresários da indústria do aço e de armamentos e altos
funcionários anticomunistas, rompeu unilateralmente os acordos estabelecidos
entre Roosevelt e Stalin, suspendeu ajuda prometida para a reconstrução da
economia da URSS.
As bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki foram jogadas sobre um país
que já havia assumido a derrota, desnecessárias, dizem os autores. Depois de
ter suas cidades severamente bombardeadas pela aviação norte-americana, e na
iminência de a URSS entrar na guerra contra eles, os japoneses estavam buscando
ativamente negociações para sua rendição. Na verdade, as bombas foram
utilizadas para intimidar a União Soviética e conquistar vantagens nas
negociações para o pós-guerra, ainda mais que o exército soviético estava em
vias de derrotar a Alemanha e conquistar Berlim e todo o aparato industrial e
tecnológico alemão.
A mais polêmica decisão da 2ª. Guerra Mundial foi tomada apesar das
fortes restrições internas, mesmo entre os principais generais
norte-americanos. O general Dwight Eisenhower, por exemplo, disse que era
contra sua utilização porque “os japoneses estavam próximos a se render e não
era necessário atingi-los com aquela coisa horrível”.
Os autores descrevem com detalhes o horror das consequências das bombas
nucleares sobre a população japonesa e a euforia do presidente Truman ao
receber a notícia.
Os EUA no topo do mundo
Ao final da guerra, os EUA ocupavam sozinhos o topo do mundo. O império
britânico se desmantelava e a Inglaterra se tornava um estado-cliente dos EUA.
A União Soviética estava devastadoramente pobre, mas tinha o maior exército de
todos, e os partidos comunistas desfrutavam de crescente influência na Europa,
o que causava calafrios na diplomacia norte-americana. Com sua economia
florescente, produzindo 50% dos bens industriais do planeta, e detentores do
monopólio da arma nuclear, ainda assim os EUA acusavam a URSS de estar prestes
a conquistar o mundo. E ameaçavam de usar a bomba contra ela. Com a brutal
repressão aos comunistas na Grécia, os EUA inauguraram a Guerra Fria.
Internamente, iniciou-se a “caça às bruxas”, as investigações para descobrir
comunistas “infiltrados” entre funcionários do governo, artistas, intelectuais.
Alguns delatores de seus colegas destacaram-se: Ronald Reagan, Robert Taylor,
Gary Cooper e Walt Disney. O grande jornalista I.F. Stone declarou que estavam
tentando converter “toda uma geração de americanos em dedo-duros”.
No plano externo, a CIA (Central Intelligence Agency) passou a promover
“guerras secretas”, centenas de operações em todo o mundo (mais de oitenta
durante o segundo mandato do presidente Truman). Chamada de “exército invisível
do capitalismo” a CIA cresceria “exponencialmente nas décadas vindouras”, dizem
os autores (o que, aliás, foi completamente confirmado por Snowden, como mostra
o filme). Grandes somas do Plano Marshall, destinado à recuperação da Europa,
foram desviadas à CIA.
Em 1949, a explosão da bomba atômica soviética e a vitória da revolução
comunista na China foram motivo para criar um clima de vulnerabilidade nos EUA.
A revista Time deu manchete: “A onda vermelha que ameaça engolfar o mundo”. A
guerra da Coréia, em 1950-53, “foi a pior derrota que os norte-americanos já sofreram”,
escreveu a revista.
Outro grande abalo para os americanos foi o lançamento do Sputnik pela
URSS em 1957, que lançou os EUA numa frenética escalada armamentista. Mas as
autoridades sabiam que a vantagem bélica americana era abissal. O arsenal norte-americano
chegava a 22 mil bombas nucleares. Através dos aviões espiões U-2 “era possível
ver cada folha de grama da URSS”, vangloriou-se Allen Dulles, diretor da CIA. O
poder da CIA se estendia: assassinou Patrice Lumumba, líder do Congo e tentou
inúmeras vezes assassinar o dirigente cubano Fidel Castro.
A tensão era muito grande em relação à Alemanha, os soviéticos temiam que os
EUA cedessem armas nucleares aos alemães. A propaganda anticomunista visando
conduzir a opinião pública norte-americana a aceitar a corrida armamentista
acabou por criar uma histeria coletiva com a criação de um programa nacional de
construção de abrigos atômicos nas casas das pessoas e o direito de matar os
vizinhos que quisessem invadir seu abrigo.
Em 1962, a guerra nuclear por um triz
Em 1962, a crise dos misseis soviéticos instalados em Cuba levou ao
paroxismo a tensão e houve uma grave ameaça de deflagração da guerra nuclear. O
generais queriam atacar Cuba, mas Kennedy resistiu: “se nós os escutarmos e
fizermos o que eles querem, nenhum de nós sobreviverá para dizer a eles que
estavam errados”, disse. O livro relata o episódio de modo emocionante. Foi o
momento em que as duas máquinas militares estiveram a pique de deflagrar a
guerra escapando do controle dos seus governantes.
Os autores dão indicações de que a morte do presidente John Kenney de
alguma forma se deveu à insatisfação dos “altos escalões das comunidades de
inteligência, das forças armadas e dos negócios, sem falar na Máfia, nos
segregacionistas e nos cubanos a favor e contra Castro (…) a raiva contra ele
era visceral.”
Com Lyndon Johnson na presidência, a guerra do Vietnã se ampliaria, se
dariam a instalação de ditaduras militares na América do Sul, novo golpe na
Grécia. Na Indonésia, obra da CIA, o banho de sangue só foi menor que o do
Vietnã. Aliás, um dos capítulos do livro mais ricos em detalhes trata da guerra
do Vietnã, do presidente Richard Nixon e de seu assessor Henry Kissinger. Um
exemplo de sua política: segundo Le Duan, dirigente norte-vietnamita, os EUA
ameaçaram usar armas nucleares treze vezes. Os autores também mostram a
indústria bélica que se desenvolveu para sustentar a guerra.
A criação dos mujahedins, um tiro no pé
Em 1979, dois acontecimentos teriam repercussão histórica de longo
prazo. A revolução dos aiatolás no Irã; e, com apoio das ditaduras da Arabia
Saudita e do Paquistão, a formação, pelos EUA, de grupos armados
fundamentalistas islâmicos para combater o governo pró-soviético do
Afeganistão. Nos anos futuros os EUA teriam motivos para se lamentar diante do
crescimento exponencial do movimento islâmico radical e em especial pelo ataque
às torres gêmeas, em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001.
A partir dali, os Estados Unidos caminhariam para a direita talvez mais
que em qualquer outro momento, mergulhando nas guerras fracassadas no
Afeganistão e no Iraque, com apoio entusiástico da mídia, praticando a tortura
e o assassinato em nome da defesa da democracia e dos direitos humanos.
Os autores perguntam: “quem foi o vencedor real? Depois de trilhões de
dólares gastos, duas guerras, centenas de milhares de mortos no mundo todo, uma
interminável guerra contra o terror, a perda das liberdades civis, uma
presidência fracassada e uma extremamente maculada e o quase colapso da
estrutura financeira do império, pode-se dizer que os EUA tiveram uma vitória
de Pirro, em que suas perdas tornaram inútil a vitória”.
(Atualização de Resenha publicada em 2015 na revista Retrato do Brasil,
da Editora Manifesto).
Livro
A HISTÓRIA NÃO CONTADA DOS ESTADOS UNIDOS
Por Oliver Stone e Peter Kuznick
355 páginas
Faro Editorial, 2015.
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Leia Trump 2, a política externa da tensão
permanente https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/celso-pinto-de-melo-opina.html





