Como o império ganha batalhas e perde a história
A
capacidade de destruição permanece intacta, mas a conversão dessa força em
ordem política e no tempo histórico tornou-se incerta.
Celso Pinto de
Melo/Jornal GGN
“As guerras
começam quando se quer, mas não terminam quando se deseja.”
Maquiavel [1]
O recente episódio do sequestro cirúrgico de Nicolás Maduro – executado com êxito e impacto midiático – alimenta a velha fantasia da “operação perfeita”: rápida, limpa, sem custos, como se poder fosse sinônimo de controle. Mas a história oferece um roteiro bem menos épico: ações mal calculadas, retiradas humilhantes, missões abortadas e guerras vencidas no campo de batalha que se perdem no terreno da política.
Escondidas da memória oficial estão as cenas de Washington incendiada, helicópteros deixando Saigon, soldados correndo sob fogo em Mogadíscio, um deserto iraniano com helicópteros destruídos e corpos no chão, Cabul caindo como se vinte anos não tivessem existido. Essas imagens não são “acidentes” da história americana: são o reverso de um mito cuidadosamente cultivado – o mito de que a maior potência militar do planeta sempre transforma força em destino.
Talvez o ponto mais instrutivo dos últimos dois séculos seja justamente este: um império pode vencer batalhas e, ainda assim, perder a história. Pode derrubar regimes e fracassar na construção do que vem depois. Pode impor custos devastadores ao adversário e, mesmo assim, ser derrotado pelo tempo, pela política e pela realidade concreta do terreno.
A iconografia norte-americana – e, em particular, a de Hollywood – foi construída para sustentar uma ideia simples: o império vence. A Segunda Guerra aparece como epopeia moral; o Vietnã vira trauma civil; o Iraque e o Afeganistão, mesmo quando desastrosos, são frequentemente reempacotados em narrativas de bravura e sacrifício. O que fica fora do foco é uma categoria incômoda: as “não-vitórias”. Episódios em que os Estados Unidos não foram derrotados formalmente, mas tampouco obtiveram o que buscavam. Armistícios, empates, retiradas, fiascos operacionais e vitórias militares que se dissolvem na política do “dia seguinte”.
Não se trata apenas de listar fracassos. Trata-se de reconhecer um padrão estratégico: a distância entre a superioridade militar e o resultado político, isto é, entre a capacidade de impor destruição e a de construir ordem legítima. Quanto mais complexa a sociedade – e quanto mais irregular o conflito –, maior tende a ser esse abismo.
A Guerra de 1812 é um ponto de partida simbólico. O conflito contra o Reino Unido termina sem a almejada conquista do Canadá, a capitulação britânica ou um desfecho épico. Mas deixa um trauma visual quase esquecido: Washington foi incendiada em 1814, com o Capitólio e a residência presidencial atingidos [2, 3]. A capital em chamas ensina cedo uma lição que o excepcionalismo prefere evitar: uma potência pode ser ambiciosa, mas ainda assim vulnerável – e pode sair de uma guerra sem “final feliz”.
Um século e meio depois, a Guerra da Coreia (1950–1953) introduz outro tipo de ferida. O conflito termina em um armistício, não em vitória. A fronteira se estabiliza quase onde começou, e o saldo é um empate sangrento. Mas há algo mais profundo: a entrada massiva das forças chinesas em 1950 desfaz o roteiro da vitória tecnológica inevitável. Tropas frequentemente descritas no imaginário ocidental como “mal equipadas”, “inferiores”, “massas de fanáticos” conseguem impor reveses expressivos às forças americanas e da ONU.
Basta lembrar a retirada dramática de dezembro de 1950, no reservatório de Chosin – um dos episódios mais traumáticos da guerra, com baixas severas e o abandono de material – e a sequência de recuos que se seguiu à intervenção chinesa, convertendo uma campanha que parecia caminhar para a vitória em uma guerra de desgaste sem desfecho conclusivo. A crise foi tão aguda que o general Douglas MacArthur chegou a defender a ampliação do conflito – inclusive com o uso de armas nucleares contra alvos chineses –, uma proposta por fim rejeitada por Harry Truman, que acabou por destituí-lo do comando em 1951 [4].
Esse choque não é apenas militar: é também cultural – e, em certo sentido, civilizacional. Os Estados Unidos dos anos 1950 ainda eram um país profundamente marcado pela segregação e por hierarquias raciais explícitas na vida social e política. Nesse contexto, a ideia de que tropas chinesas (e, por extensão, um “Oriente” frequentemente tratado com desprezo no discurso imperial) pudessem impor derrotas e capturas significativas às forças americanas atingia o imaginário nacional num ponto sensível: não apenas o mito da superioridade tecnológica, mas também o mito – frequentemente tácito e naturalizado – de uma superioridade histórica “anglo-saxônica” [5]. Não surpreende, portanto, que a Coreia seja frequentemente rotulada como “a guerra esquecida”: não por falta de sangue, e sim por falta de um mito confortável.
No Vietnã, a não-vitória adquire outra forma, mais explosiva. A guerra não termina apenas em derrota estratégica: termina em fratura doméstica, crise moral e desconfiança radical na narrativa oficial. Diferentemente da Coreia, o Vietnã rende cinema e memória pública justamente porque permite uma releitura interna: a derrota pode ser reescrita como tragédia nacional, culpa do sistema, do governo, da mentira. A derrota vira pedagogia.
O Afeganistão (2001–2021) é o espelho contemporâneo dessa incapacidade de conversão política. Começa como triunfo tecnológico e termina como diagnóstico histórico: vinte anos depois, os EUA se retiram e o regime derrubado enfim retorna.
A potência não falha por falta de força. Falha por algo mais difícil de admitir: o limite estrutural de ‘construir Estado’ sob ocupação, em contextos nos quais a autoridade política, os mecanismos de representação e o controle territorial estão fragmentados, de modo que o governo central apoiado externamente passa a ser apenas um entre vários polos de poder efetivo.
O Iraque (2003) é, talvez, o caso mais didático da era recente: vitória militar rápida, derrubada do governo, domínio do primeiro ato. Mas o pós-guerra expõe um paradoxo cruel: o império pode vencer a guerra e, ainda assim, perder a paz. O “dia seguinte” derrota o “dia da vitória”.
A história americana também guarda não-vitórias que não se parecem com guerras longas, mas ferem profundamente a aura de controle. Em 1980, a tentativa de resgatar reféns na embaixada dos EUA em Teerã – a Operation Eagle Claw – termina em fiasco no deserto iraniano, com falhas, colisão entre aeronaves, mortos e uma retirada emergencial [6, 7]. Foi o colapso, em tempo real, do mito da operação perfeita.
Esse padrão reaparece nas intervenções do início dos anos 1990. No Líbano, os EUA participam de uma força multinacional em Beirute, em meio à guerra civil libanesa, num ambiente marcado por facções armadas e interesses cruzados. O que deveria ser uma operação de estabilização torna-se alvo. Em 23 de outubro de 1983, um ataque suicida destrói os alojamentos dos Marines, matando centenas [8, 9]. O recuo subsequente revela um tipo de limite que impérios detestam: a vulnerabilidade política e militar diante de atores irregulares capazes de impor custos intoleráveis sem disputar a guerra no formato convencional.
Na Somália, algo semelhante ocorre sob outra estética. A operação internacional, inicialmente apresentada como resposta à crise humanitária e ao colapso do Estado, perde rapidamente o foco. A missão de garantir corredores humanitários transforma-se em combate urbano contra milícias. Em outubro de 1993, a batalha de Mogadíscio – eternizada na cultura pop como “Black Hawk Down” – produz mortos, helicópteros derrubados e cenas que chocam a opinião pública e dissolvem rapidamente o apoio doméstico à missão [10, 11]. O efeito político é imediato: não importa quantas vitórias táticas sejam possíveis; a intervenção torna-se insustentável. A superpotência descobre, outra vez, que perder a narrativa pode equivaler a perder a guerra. Mogadíscio consolidou um reflexo de retração (“zero body bags”) – isto é, a aversão do eleitorado e da classe política a operações com mortos e imagens de baixas americanas, elevando drasticamente o custo doméstico de qualquer intervenção – que passaria a condicionar decisões posteriores, reforçando a centralidade da opinião pública no cálculo imperial.
O fio comum desses episódios não é a ausência de força. É a presença de um abismo entre a força e a finalidade. Impérios são máquinas de guerra; guerras são instrumentos políticos. Quando a potência não consegue converter superioridade militar em ordem legítima e sustentável, o resultado pode ser um empate, uma retirada, um caos duradouro – ou um fiasco de horas capaz de destruir meses de propaganda.
Talvez a conclusão mais inquietante seja esta: impérios sobrevivem de duas substâncias – força e narrativa. Quando deixam de transformar força em narrativa, e narrativa em futuro, entram numa zona perigosa. Continuam capazes de causar destruição, mas cada vez menos capazes de impor a ordem. No século XXI, promete-se que satélites, drones e algoritmos resolverão o que antes exigia política. Mas a história insiste em lembrar que guerras não são vencidas por máquinas. São vencidas – ou perdidas – pela política. E, quando a política falha, o império descobre o que a propaganda tenta ocultar: a força pode conquistar cidades, mas não garante obediência; pode destruir exércitos, mas não compra legitimidade; pode derrubar governos, mas não cria futuro.
A mesma arrogância também aparece nas zonas cinzentas das guerras não declaradas. O recente ataque norte-americano contra o Irã – conduzido sem declaração formal de guerra e justificado como ação defensiva ou de dissuasão – ilustra um padrão recorrente: a superioridade militar permite destruir infraestruturas e eliminar comandantes, mas não resolve o impasse estratégico nem produz uma nova ordem política. Trata-se de uma ação de forte componente voluntarista, com objetivos de longo prazo pouco definidos e ancorada na crença – reiteradamente desmentida pela experiência histórica – de que a “decapitação” de lideranças possa, quase por inércia, desencadear uma vitória rápida. Essa aposta, mais baseada no desejo do que em evidências empíricas consistentes, insere-se na lógica mais ampla dos assassinatos seletivos como instrumento de política externa, prática consolidada pelos Estados Unidos e Israel e frequentemente apresentada como solução cirúrgica para problemas que são, em essência, de natureza política e estrutural [12]. E, não por acaso, volta à cena a retórica explícita de “mudança de regime”, revelando que a finalidade política permanece tão ambiciosa quanto irrealizável. Ao contrário, ações como essas reforçam a dinâmica de escalada controlada, ampliam o espaço das forças irregulares e mantêm o conflito em um estado permanente de inconclusão, em que cada demonstração de força gera novos custos, novos riscos e nenhuma vitória clara.
Tais exemplos de desgaste não pertencem apenas ao passado. Mesmo recentemente, no Mar Vermelho, a ofensiva dos Houthis mostrou como atores irregulares conseguem impor custos e constrangimentos operacionais a forças muito superiores, obrigando porta-aviões e escoltas a operar sob ameaça persistente. Não é preciso afundar um navio para produzir uma “não-vitória”: basta tornar a presença militar cara, politicamente sensível e estrategicamente inconclusiva – como sugerem episódios de manobras evasivas e acidentes operacionais envolvendo o porta-aviões USS Harry S. Truman em meio a ataques e ameaças.
O império continua capaz de vencer batalhas. O que ele já não consegue garantir é que essas vitórias produzam futuro.
Bibliografia
1. Machiavelli, N., Il Principe. O Príncipe. 1532.
2. The
Burning of the Capitol in 1814. History, Art & Archives, U.S.
House of Representatives 2026–01–18; https://history.house.gov/Historical-Highlights/1800-1850/The-burning-of-the-Capitol-in-1814/.
3. Rescue
of the Papers of State During the Burning of Washington. White
House Historical Association 2026–01–18; https://www.whitehousehistory.org/rescue-of-the-papers-of-state-during-the-burning-of-washington.
4. Cumings, B., The Korean War: A History.
Modern Library Chronicles. Vol. 33. 2011: Modern Library.
5. Horsman,
R., Race
and Manifest Destiny: The Origins of American Racial Anglo-Saxonism.
1981, Cambridge: Harvard University Press.
6. Desert
One. Air & Space Forces Magazine, 1999.
7. Operation Eagle Claw.
Wikipedia 2026–01–18; https://en.wikipedia.org/wiki/Operation_Eagle_Claw.
8. Beirut
Remembrance. U.S. Marine Corps – Marines TV 2020 2026–01–18; https://www.marines.mil/News/Marines-TV/videoid/634642/dvpTag/Beirut/.
9. They
Came in Peace. Defense Intelligence Agency (DIA) 2013 2026–01–18; https://www.dia.mil/News-Features/Articles/Article-View/Article/566917/they-came-in-peace/.
10. Battle of Mogadishu (1993).
Wikipedia 2026 https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Mogadishu_(1993).
11. Battle
of Mogadishu. Encyclopaedia Britannica 2023 https://www.britannica.com/topic/Battle-of-Mogadishu.
12. de Melo, C. P.. Licença
para matar: a política dos assassinatos seletivos e a erosão das normas
internacionais. CartaCapital, São Paulo, 12/11/2025.
https://www.cartacapital.com.br/mundo/licenca-para-matar-2/
Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado
da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências.
Leia também: Questão nacional e transição socialista no século XXI https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/soberania-socialismo.html






