01 novembro 2026

Respaldo mundial

Vitória de Lula é reconhecida por 107 países e isola discurso bolsonarista
Levantamento do TSE registra manifestações de 107 países e 11 organismos internacionais, reforçando a legitimidade das urnas e a força da democracia brasileira.
Barbara Luz/Vermelho   

A vitória de Lula (PT) nas urnas também ecoou pelo mundo, impondo mais uma derrota à narrativa golpista do bolsonarismo. Até a quinta-feira (29), 107 países e 11 organismos multilaterais já haviam reconhecido oficialmente o resultado do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, realizado no domingo (25).

Os dados do Painel de Acompanhamento de Manifestações Internacionais sobre os Resultados Eleitorais, desenvolvido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), evidenciam a ampla repercussão internacional da reeleição de Lula e reforçam a legitimidade da decisão soberana do povo brasileiro, que derrotou Flávio Bolsonaro (PL) e garantiu a continuidade do projeto democrático no país.

Entre os países que saudaram o resultado estão China, Rússia, Alemanha, França, Espanha, Canadá, Austrália, Portugal e Reino Unido. As manifestações partiram de governos com diferentes orientações políticas, demonstrando que o reconhecimento da decisão das urnas ultrapassa fronteiras ideológicas e interesses geopolíticos.

Reconhecimento internacional amplia isolamento da extrema direita

A repercussão também alcançou importantes organismos multilaterais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA), a União Europeia, a Organização das Nações Unidas (ONU), a União Africana e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Também integram o levantamento instituições como a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A dimensão das manifestações representa um revés para o bolsonarismo, que construiu parte de sua narrativa política com ataques às instituições e questionamentos à confiabilidade das urnas eletrônicas. Enquanto setores da extrema direita tentam manter viva a narrativa de desconfiança, a comunidade internacional reconhece o resultado proclamado pela Justiça Eleitoral.

Para a juíza Renata Gil, diretora de Assuntos Internacionais do TSE, a repercussão demonstra a credibilidade do sistema brasileiro. “O reconhecimento de mais de cem países e de quase uma dezena de instituições demonstra a credibilidade internacional em nosso sistema eleitoral e fortalece o trabalho que o TSE realiza de consolidação da democracia.”

A magistrada também destacou a participação popular como expressão da confiança dos brasileiros na Justiça Eleitoral.

Mais de 64 milhões de votos garantiram a vitória de Lula

O reconhecimento internacional se soma à força do resultado das urnas. Lula foi reeleito com 64.256.232 votos (51,79% dos votos válidos), contra 59.826.041 votos (48,21%) de Flávio Bolsonaro. A diferença superior a 4,4 milhões de votos garantiu ao petista mais um mandato à frente do país.

A definição matemática da vitória ocorreu às 21h09 do domingo (25), demonstrando a agilidade da apuração brasileira. Mais de 128 milhões de eleitores compareceram às urnas, com abstenção de 19,2%, inferior à registrada no primeiro turno.

O resultado reafirma a soberania popular e fortalece o Brasil no cenário internacional. Ao derrotar a extrema direita, o eleitorado também escolheu a continuidade de um projeto político comprometido com a democracia, a reconstrução nacional e o diálogo entre os povos.

A mensagem das urnas, agora repercutida em mais de cem países, é clara: Lula venceu, a democracia resistiu e a vontade do povo brasileiro deve ser respeitada.

A fuga das galinhas amarelas e o carcarejar do golpe https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/enio-lins-opina.html 

Palavra de poeta

Poema
Manoel de Barros    

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

[Ilustração: Istvánné Horváth]

Leia também "Tea For Two", poema de Julia de Carvalho Hansen https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/palavra-de-poeta_0450305861.html 

31 outubro 2026

Para além das ruas

A vitória nas urnas, o futuro nas nossas mãos
Estudantes que ajudaram a eleger Lula querem ser protagonistas de um governo que escute os movimentos populares
Bianca Borges*/Liberta     

Bastou sair o resultado do primeiro turno para que as universidades entrassem em movimento. Ainda em 4 de outubro, a União Nacional dos Estudantes convocou assembleias por todo o país. No dia seguinte, a Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF) protagonizou a primeira das mobilizações. Auditórios lotaram, estudantes que nunca haviam participado do movimento estudantil se organizaram e, em poucos dias, as manifestações atravessaram os portões dos campi para ocupar as ruas, das capitais ao interior. Nascia o Tsunami da Esperança.

O movimento estudantil brasileiro sempre soube transformar a inquietação de uma geração em força nacional. Foi assim na campanha O Petróleo é Nosso, na resistência à ditadura, nas Diretas Já e com os caras-pintadas. Desta vez, quando muitos julgavam impossível a virada eleitoral, escolhemos não assistir à história de braços cruzados. A vitória de Lula demonstrou que a política não se resume ao cálculo das pesquisas: ela também se faz na coragem de organizar o povo e disputar o futuro.

Essa mobilização não termina nas urnas. Ela nos impõe a tarefa de transformar a energia da campanha em participação permanente. O quarto mandato de Lula terá diante de si um Congresso Nacional ainda mais conservador, uma extrema direita que não renunciou ao autoritarismo e enormes expectativas populares. Para defender a democracia e conquistar avanços, será preciso construir maiorias na sociedade, nas universidades, nos locais de trabalho e nas ruas. Um governo eleito pelo povo precisa ter o povo como sujeito das transformações que pretende realizar.

A juventude tem razões concretas para reconhecer o legado de Lula. Milhões de famílias viram o ensino superior deixar de ser um privilégio distante. Hoje, muitos estudantes são os primeiros de suas casas a chegar à universidade; outros são filhos de uma geração que também conquistou esse direito graças à expansão de vagas, às cotas, ao Prouni, ao Fies e à interiorização da rede federal. Mas reconhecer o que foi feito não significa aceitar que já fizemos o suficiente.

O primeiro compromisso do novo governo deve ser tornar a educação prioridade real do projeto nacional. A meta de investir 10% do PIB em educação pública, reafirmada no novo Plano Nacional de Educação, precisa sair do papel. Isso exige financiamento estável, valorização dos professores, infraestrutura, ciência, pesquisa e expansão com qualidade das universidades e dos institutos federais. Exige enfrentar a lógica que trata a educação como despesa a ser comprimida, em vez de investimento estratégico na capacidade de o Brasil decidir seu destino, assim como a lógica de mercantilização da educação a partir da ação de conglomerados com fins lucrativos e, muitas vezes, capital estrangeiro. A tecnologia e a Inteligência Artificial devem ampliar possibilidades pedagógicas, não servir de pretexto para precarizar o ensino.

Democratizar o acesso, entretanto, já não basta. É necessário garantir condições para permanecer e concluir os estudos. Alimentação, moradia, transporte, saúde mental e bolsas não podem ser soluções improvisadas. A Política Nacional de Assistência Estudantil precisa de recursos; um Pé-de-Meia Universitário e políticas de aluguel universitário podem mudar a vida de quem hoje precisa escolher entre estudar e pagar as contas. É indispensável proteger as cotas, enfrentar o endividamento estudantil e coibir taxas abusivas nas instituições privadas. Não há democratização verdadeira quando a porta da universidade se abre, mas as condições materiais empurram o estudante para fora, no que chamamos de exclusão adiada.

uventude trabalhadora

Essa agenda precisa olhar para a juventude trabalhadora. Para quem enfrenta jornadas exaustivas, longos deslocamentos e aulas noturnas, ter tempo para estudar não é detalhe: é condição para exercer um direito. Por isso, o fim da escala 6×1 e a redução da jornada sem redução salarial fazem parte da luta pela educação. O mesmo vale para a valorização dos estagiários, proposta pela UNE em projetos de lei que tramitam na Câmara e no Senado, com remuneração digna e proteção contra o uso do estágio como mão de obra barata. A tarifa zero no transporte e novas políticas de permanência devem integrar uma estratégia de inclusão que acompanhe o jovem fora da sala de aula.

A UNE também reivindica um horizonte mais ambicioso. Queremos universidades que formem profissionais, mas também produzam ciência, pensamento crítico, cultura e soluções para os problemas nacionais. A reindustrialização, a transição energética, a soberania tecnológica e o aproveitamento soberano dos minerais estratégicos precisam caminhar com o fortalecimento das instituições públicas de ensino e pesquisa. Um país que abdica de produzir conhecimento abdica de decidir sobre suas riquezas. Queremos educação comprometida com o desenvolvimento, a justiça social e a democracia, não subordinada exclusivamente às demandas imediatas do mercado.

Nada disso será possível apenas pela vontade do presidente. O resultado das eleições legislativas evidenciou a necessidade de disputar cada conquista com organização social, diálogo e pressão democrática. Os estudantes querem ter voz nas escolhas orçamentárias, na formulação das políticas educacionais e nas decisões estratégicas do país. Queremos participar não como plateia convocada nos momentos difíceis, mas como protagonistas de um governo que escute e construa com os movimentos populares.

O Tsunami da Esperança deixou uma lição: uma geração muitas vezes descrita como distante da política reencontrou, na ação coletiva, a capacidade de mudar os acontecimentos. O desafio é fazer dessa redescoberta uma força duradoura. A vitória nas urnas abriu uma possibilidade histórica; realizá-la dependerá do que formos capazes de conquistar juntos. Os estudantes que ajudaram a eleger Lula não querem apenas defender seu governo. Querem construir um Brasil em que estudar, trabalhar, viver com dignidade e participar das decisões nacionais sejam direitos de todos. A democracia que vencemos nas urnas precisa seguir viva nas ruas e produzir um futuro à altura da esperança que a tornou possível.

*Bianca Borges é presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) 

Subiu o sarrafo da luta política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0999410531.html 

Humor de resistência


Jotaa

Enio Lins opina

A fuga das galinhas amarelas e o carcarejar do golpe
Enio Lins     

“Galinhas Verdes” virou sinônimo para os integralistas, numa invenção satírica atribuída ao Barão de Itararé (Aparício Torelly, vivente entre 1875 e 1971, o maior satirista da imprensa brasileira em todos os tempos). Com esse termo se alfinetava fundo usando os próprios preconceitos supremacistas da versão brasileira do Nazifascismo, pois à predadora águia hitlerista, voraz e voadora de longo curso, se substituía por uma simples galinha ciscadeira, de voos curtos, predisposta a fugir de embates.

Bolsonaro Júnior (assim como pai e manos) é um frango que só canta de galo quando acha que está em grande vantagem. Na dificuldade, corre. Ou voa a mais de mil, a bordo de jatos luxuosos. Flávio é a cópia cagada e cuspida do pai: covarde, golpista e falastrão. Na presepada da fuga repete a atitude do genitor, quando, derrotado em 2022, amarelou e fugiu para os Estados Unidos para, de lá, tentar um golpe de Estado. É isso o que o candidato derrotado em 2026 quer repetir: promover um golpe de Estado. A “carta” divulgada pelo meliante fugidio é uma confissão deslavada do crime prometido.

Semianalfabeto, como de resto toda família-quadrilha, nas primeiras versões do “é verdade esse ‘bilete’”, Flávio – em sua genuína ignorância – escreveu Brasil com z (ato falho trumpista?): “Estados Unidos do Brazil”. A denominação oficial é “República Federativa do Brasil”. Detalhes reveladores da ojeriza bolsonarista à cultura e às normas e leis vigentes. Zero-Um é um bandido burro (desculpem-me burros e galinhas pela comparação).

Enfim, tal qual o pai presidiário, Flávio achou melhor jair se consolidando mundialmente como golpista fujão, patético e perigoso – seu ideário assumido é do gangsterismo global: uma mistura à direta de Mussolini, Plínio Salgado, Quisling, Marcola e Al Capone, com a desvantagem de não saber ler nem escrever direito.

[Ilustração: Fraga]

Razão da fuga: medo de cadeia por corrupção https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/quem-deve-teme.html   

Pressões do mercado

Ajuste fiscal ou estelionato eleitoral?
O desafio do novo governo é enfrentar a pressão do mercado sem sacrificar os compromissos assumidos com a população e o desenvolvimento do país
Paulo Nogueira Batista Jr./Vermelho   

Mal foi proclamada a vitória de Lula nas urnas, ergueu-se o coro sinistro de vozes influentes (banqueiros, economistas do mercado, jornalistas, executivos do sistema financeiro etc.) clamando por um ajuste fiscal urgente, de preferência drástico. Se Lula se deixar levar por esse clamor, acabará cometendo um estelionato eleitoral, como vou tentar explicar.

O ajuste fiscal considerado indispensável pelo que parece ser a maioria dessas vozes consistiria num rápido aumento do resultado primário, transformando o déficit  atual  de 0,5% do PIB (do setor público como um todo), em um superávit primário da ordem de 3% a 4% do PIB, supostamente capaz de estabilizar a dívida como percentagem do PIB.

Faz sentido? De fato, a dívida bruta do governo geral cresceu no passado recente e está hoje em 82,9% do PIB. O déficit nominal ou total do setor público consolidado é elevado e está em torno de 9,5% do PIB, alimentando continuamente o crescimento da dívida.

O que escondem esses dados, muito citados na mídia corporativa? Várias coisas importantes, geralmente negligenciadas ou não enfatizadas suficientemente.

Primeiro, a variável mais relevante é a dívida líquida do setor público, que deduz da dívida bruta os ativos do setor público. Ela alcança 70% do PIB. Segundo, não se pode desconsiderar a composição do déficit total – o déficit primário (a diferença entre despesas  e receitas não-financeiras) é de apenas 0,5% do PIB, como já mencionado; o que pesa é a carga líquida de juros, de 9% do PIB. A despesa de juros resulta evidentemente do estoque da dívida e da elevada taxa média de juros, muito influenciada pela política monetária do Banco Central. Terceiro, a dívida pública é predominante interna e denominada em moeda nacional, diferentemente do que se vê na Argentina, por exemplo.

Não há emergência fiscal. O que temos é um problema administrável – desde que o ajuste do componente primário do déficit fiscal seja combinado com uma redução da elevada taxa de juro, que é, na verdade, a grande anomalia da economia brasileira.

Um choque fiscal, isto é, um ajuste rápido de grande magnitude, resultante de um corte profundo dos gastos primários traz um risco importante – o de jogar o país numa recessão em 2027. A economia brasileira já está cambaleante, primordialmente por causa dos juros extorsivos praticados pelo Banco Central e pelo sistema financeiro. Estima-se que a economia crescerá apenas 2% ou menos em 2026. Para 2027, projeta-se um crescimento ainda menor, menos de 1,5% do PIB, na avaliação de instituições financeiras e consultorias especializadas coletada semanalmente pelo Banco Central. Aplicar um choque fiscal, nessas circunstâncias, levaria provavelmente a uma recessão e ao aumento do desemprego. Bela maneira de começar o novo mandato.

Além dos trabalhadores desempregados, quem paga a conta? Não se pode perder de vista o que é o ajuste fiscal. Quando se corta um gasto público sempre é a renda de alguém que é reduzida. Quando se aumenta ou se cria um imposto, sempre alguém tem a renda disponível diminuída. O ajuste fiscal é, portanto, sempre e em toda parte uma questão distributiva.

Portanto, a pergunta é onde se farão os cortes? E, outra, quem será atingido por eventual aumento de tributação?

Se o tamanho do ajuste fiscal for muito ambicioso, o risco é empurrar o novo governo a descumprir as promessas de campanha em termos de programas sociais, salário mínimo, aposentadoria e pensões, educação e saúde. Para gerar o ajuste pedido pelo mercado e pela mídia, o governo acabaria não dando sequência às medidas anunciadas e/ou implementadas na reta final da campanha. Um estelionato eleitoral, portanto.

Estelionatos eleitorais em perspectiva histórica

A história brasileira das últimas quatro décadas está repleta de casos de governos que traíram flagrantemente seus compromissos de campanha e nunca se recuperaram.

O governo Sarney, por exemplo, segurou o congelamento de preços do Plano Cruzado até as eleições parlamentares do final de 1986, obteve vitória estrondosa para os partidos da base governamental, para em seguida suspender o congelamento abruptamente. O presidente Sarney nunca mais conseguiu apagar essa mancha e arrastou-se enfraquecido até o fim do seu mandato em 1989.

Fernando Collor se elegeu em 1989 prometendo medidas de combate à corrupção e acusando seu oponente, Lula, de pretender confiscar as cadernetas de poupança. Imediatamente depois de eleito, implementou um amplo congelamento de ativos financeiros, inclusive das cadernetas de poupança, a pretexto de combater a inflação. O plano de estabilização fracassou e, ao mesmo tempo, vieram à tona graves episódios de corrupção envolvendo o próprio presidente Collor, que acabou sofrendo impeachment em 1992.

Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, segurou a taxa de câmbio artificialmente durante vários anos, provocando graves problemas econômicos, até alcançar a sua reeleição em 1998. E quando tomou posse para um segundo mandato, em 1999, a sua primeira providência foi soltar o câmbio. FHC nunca se recuperou desse estelionato eleitoral, ficando politicamente fraco até o fim do seu governo em 2002.

Por último, Dilma Rousseff conseguiu reeleger-se em 2014 com uma agressiva campanha pela esquerda para em seguida nomear um ministro ultraortodoxo, Joaquim Levy, que aplicou um choque fiscal, caracterizando uma ruptura com os compromissos assumidos junto ao eleitor. Dilma nunca se refez politicamente, perdeu apoio e acabou sofrendo impeachment em 2016.

Todos esses episódios foram mais complexos do que os breves resumos que apresentei aqui, mas têm todos eles o traço comum de envolver governos que voltaram atrás em suas promessas de campanha, enfraquecendo-se de modo irreversível.

Lula, político veterano e experiente, que acompanhou todos esses episódios, não cairá, acredito, nessa armadilha.

O que fazer?

O governo precisa redefinir o arcabouço fiscal e o regime monetário, de forma a abrir espaço para um ajustamento fiscal consistente com o desenvolvimento e socialmente justo, que honre os compromissos da campanha.

O ajuste fiscal deve ser gradual, elevando aos poucos, mas de forma crível, o resultado primário. Uma meta factível seria alcançar um superávit primário em torno de 0,5% a 1% do PIB ao longo dos próximos anos, o que implica alterar as metas do arcabouço fiscal. Um ajuste crível no componente primário do déficit deve ser combinado com redução expressiva da taxa de juro praticada pelo Banco Central.

Para facilitar essa redução da taxa de juro, é recomendável que o governo aumente a meta central de inflação de 3% para 4% e, também, o intervalo de tolerância de +/- 1,5 ponto percentual para +/- 2 pontos percentuais. A banda iria, portanto, para 2% a 6%. Isso depende do Conselho Monetário Nacional, composto atualmente pelo Ministro da Fazenda, o Ministro do Planejamento e o Presidente do Banco Central. Todos eles foram ou serão indicados pelo presidente Lula, a quem caberia tomar a decisão, uma vez que se trata de tema crucial. O Banco Central autônomo pode destoar e querer resistir à orientação do Presidente da República. Mas será voto vencido, se o Ministro da Fazenda e o do Planejamento seguirem, como se espera, a decisão presidencial.

Uma taxa de juro substancialmente menor, digamos, na faixa de 8% em termos nominais provocaria uma grande redução déficit público, contribuindo para conter o crescimento da dívida governamental. Quem pagaria a conta nesse caso? Os rentistas.

Com a taxa de juro atual, um super rico que tenha, por exemplo, um patrimônio financeiro de R$ 30 milhões aplicado no Brasil, pode gastar nada menos que R$ 170 mil mensalmente – sem reduzir o seu patrimônio em termos reais. Vejam bem: sem fazer nada, absolutamente nada, esse ricaço pode gastar toda essa fortuna por mês, garantindo a preservação do capital em termos reais, já levando em conta a inflação e a tributação modesta que incide sobre os rendimentos financeiros.

Não é por outra razão que sempre digo e repito: o Brasil é o paraíso dos rentistas.

É também o paraíso fiscal dos super ricos, que pagam menos imposto proporcionalmente do que a classe média e os mais pobres (dada a pesada carga de tributos indiretos). Por um lado, a legislação tributária onera menos os mais ricos. Por outro, os super ricos praticam o chamado planejamento tributário, um nome elegante para a evasão e a sonegação fiscal. Note-se que o combate à sonegação dos mais ricos não depende do Congresso, e pode ser feito no âmbito do Executivo por meio da Receita Federal.

A melhor maneira de fazer o ajuste fiscal é acabar com o paraíso dos rentistas e com o paraíso fiscal dos super ricos. Cairia a despesa de juros do governo e aumentaria o resultado primário com tributação maior de quem pode contribuir mais. A redução das taxas de juro ajudaria, além disso, a melhorar a situação financeira de famílias e pequenas empresas asfixiadas por pesada carga financeira.

É claro que outras medidas devem ser contempladas, entre elas a revisão dos incentivos fiscais e dos programas ineficientes que beneficiam os mais ricos, a contenção das emendas parlamentares, a limitação dos supersalários, entre outras. Não posso abordá-las todas sem alongar excessivamente este artigo.

A diminuição dos juros combinada com uma política fiscal gradualista, que abrisse espaço para mais investimentos e para as transferências sociais prometidas na campanha, geraria mais crescimento econômico. Isso favoreceria  o ajuste das contas públicas via aumento da arrecadação, sem tributação adicional, e a redução dos gastos de natureza cíclica, como o seguro-desemprego. O crescimento do denominador ajudaria na contenção da razão dívida pública/PIB.

Em uma frase: há políticas econômicas consistentes com os compromissos de campanha e, mais importante, com os interesses do país.

Esperemos que o presidente Lula não se deixe assustar pelo alarmismo do mercado financeiro e dos seus porta-vozes e faça o que prometeu na campanha e repetiu depois da vitória eleitoral – inaugure um novo modo de governar.

O “gosto amargo” da necessária amplitude https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_01301628229.html 

Trump decadente

A meio caminho do fim
Luciano Siqueira   

A conduta arrogante e tresloucada de Donald Trump, agora no meio do seu mandato, já motiva avaliações por parte de analistas da mídia norte-americana como pesadelo que em breve cessará.

Diz-se que há um abismo crescente entre as ambições de Trump e a sua real capacidade de implementação institucional e geopolítica.

Caso da imposição de barreiras protecionistas (incluindo tarifaços) e do desmantelamento de parcerias internacionais historicamente importantes pelos EUA, agora de impacto negativo amainado.

Sua pretensão de redefinir a ordem global esbarra na resistência pragmática e muitas vezes politicamente hábil das nações mais influentes, a exemplo da China.

Não há sinais de que o vento venha a soprar a favor das pretensões norte-americanas.

Trump: megalomania e crueldade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/trump-megalomania-e-crueldade.html