31 agosto 2026

Postei nas redes

O balanço das manifestações pró e contra candidatos à Presidência da República nas redes digitais sobre a sabatina da TV Globo é contaminado pela imensa bateria de postagens contratadas.

Guerra híbrida midiática https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/dica-de-leitura_0865126294.html 

30 agosto 2026

Minha opinião

Tudo para entender ou confundir
Luciano Siqueira     

Estima-se que já foram gastos este ano R$ 109 milhões em pesquisas eleitorais com foco nacional e, a maioria delas, voltadas para a disputa majoritária nos Estados. 

As pesquisas são úteis, mas não o suficiente para justificarem o destaque quase que monárquico que alcançam na mídia dominante. 

Como se fosse a última palavra na percepção da vontade coletiva. 

O comportamento humano não se resume em questionários e estatísticas.

Requer vivência. 

Certamente era nisso que se apoiava Miguel Arraes quando ele próprio valorizava ao extremo a ausculta da população. 

Até repórteres ele incluía. 

Não foram poucos os que tentaram entrevistá-lo e depois se deram conta de que o governador é que os havia perguntado mais do que falara.

A supervalorização das pesquisas realizadas por várias institutos especializados de grande repercussão midiática, outros nem tanto, é compreensível quando feita pelo mercado — que em tudo toca à semelhança do rei Midas. 

Mas o militante, não. Há que tomar ciência dos números divulgados pelos institutos sem porém abrir mão da sua própria sondagem. Esta se faz no contato direto com as pessoas — compartilhando insatisfações, desejos, sonhos... que afinal haverão de se traduzir na urna como vontade política individual, uma entre milhões, base da vitória de uns e da derrota de muitos outros. 

Em outras palavras: prestemos atenção aos números das pesquisas, porém sem mais abrir mão do contato direto com as pessoas — na tela do celular e, sobretudo, olhos nos olhos, em toda parte.

Prazeroso diálogo na telinha https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0215026545.html 

Fotografia

 

Henri Cartier-Bresson 

Prazeroso diálogo na telinha https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0215026545.html 

Palavra de poeta

Canção do amor armado
Thiago de Mello      

Vinha a manhã no vento do verão,
e de repente aconteceu.
Melhor
é não contar quem foi nem como foi,
porque outra história vem, que vai ficar.
Foi hoje e foi aqui, no chão da pátria,
onde o voto, secreto como o beijo
no começo do amor, e universal
como o pássaro voando — sempre o voto
era um direito e era um dever sagrado.

De repente deixou de ser sagrado,
de repente deixou de ser direito,
de repente deixou de ser, o voto.
Deixou de ser completamente tudo.
Deixou de ser encontro e ser caminho,
deixou de ser dever e de ser cívico,
deixou de ser apaixonado e belo
e deixou de ser arma — de ser a arma,
porque o voto deixou de ser do povo.

Deixou de ser do povo e não sucede,
e não sucedeu nada, porém nada?

De repente não sucede.
Ninguém sabe nunca o tempo
que o povo tem de cantar.
Mas canta mesmo é no fim.
Só porque não tem mais voto,
o povo não é por isso
que vai deixar de cantar,
nem vai deixar de ser povo.

Pode ter perdido o voto,
que era sua arma e poder.
Mas não perdeu seu dever
nem seu direito de povo,
que é o de ter sempre sua arma,
sempre ao alcance da mão.

De canto e de paz é o povo,
quando tem arma que guarda
a alegria do seu pão.
Se não é mais a do voto,
que foi tirada à traição,
outra há de ser, e qual seja
não custa o povo a saber,
ninguém nunca sabe o tempo
que o povo tem de chegar.

O povo sabe, eu não sei.
Sei somente que é um dever,
somente sei que é um direito.
Agora sim que é sagrado:
cada qual tenha sua arma
para quando a vez chegar
de defender, mais que a vida,
a canção dentro da vida,
para defender a chama
de liberdade acendida
no fundo do coração.

Cada qual que tenha a sua,
qualquer arma, nem que seja
algo assim leve e inocente
como este poema em que canta
voz de povo — um simples canto
de amor.
Mas de amor armado.

Que é o mesmo amor. Só que agora
que não tem voto, amor canta
no tom que seja preciso
sempre que for na defesa
do seu direito de amar.

O povo, não é por isso
que vai deixar de cantar.

[Ilustração: João Câmara]

Leia também: "Homem comum", poema de Ferreira Gullar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_01601986954.html 

Minha opinião

Impressionante projeto de robótica na China
Luciano Siqueira     

Anoto na mídia internacional que o governo da República Popular da China realiza plano de US$ 20 bilhões focado na integração de Inteligência Artificial com a Robótica.

Assim, a China se coloca na vanguarda da inovação tecnológica, disputando diretamente a hegemonia com os Estados Unidos.

O país já conta com mais de 2 milhões de robôs industriais em funcionamento em suas fábricas — correspondente a mais da metade de todas as instalações de robôs no mundo. Com um detalhe: a maioria das novas máquinas e peças de alta precisão já é fabricada por empresas locais.

Analistas especializados entendem que a automação massiva impõe-se como necessidade estratégica para compensar a transição demográfica do país.

Até 2035, a China terá mais de 400 milhões de pessoas acima de 60 anos (mais de 30% da população). Os chamados robôs supremos estarão com déficit de mão de obra nas fábricas.

Na atualidade, verifica-se uma transição na educação técnica (em polos como Hangzhou) para formar estudantes e profissionais em manutenção, programação e supervisão de IA e robôs.

O governo chinês, contudo, mostra-se atento ao risco de defasagem no ritmo de substituições de empregos operacionais – de olho na ameaça de desemprego estrutural.

Avanço do comércio internacional chinês desafia barreiras dos EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/china-x-eua.html 

Tempo de conflitos

Para enfrentar o cancelamento da política
Dois autores chineses sustentam: em versão transhumanista, capital quer sacrificar, no altar da técnica, as ideias de futuro coletivo e de vidas regidas pela ética. Mas surgem contrapontos. A cidade, habitada pelo caos e o Comum, é grande trincheira
Stefano Rota/Outras Palavras 
   

Numa recente entrevista realizada por Simone Pieranni com Wang Hui – provavelmente a figura mais proeminente da New Left chinesa – o influente pensador político dedica amplo espaço à discussão de dois conceitos: a “política da despolitização” e a “repolitização”.

Retomando em traços muito gerais aquilo que Wang Hui aí relatou, a despolitização não é, como o termo pareceria sugerir, a ausência da política tout court. É antes a apresentação de atos, discursos, estratégias na base de protocolos de alegada neutralização, ou tecnicização, dos mesmos, com o objetivo de os subtrair à disputa política, estigmatizando e criminalizado os seus detratores.

A neutralização propõe uma universalidade de valores assentes nos conceitos aparentemente indiscutíveis de progresso tecnológico, predisposição genética, centralidade do QI, confiança na capacidade dos melhores para produzirem aquilo de que precisamos, o direito de acederem, custe o que custar, àquilo que for necessário para um desenvolvimento apresentado como infinito e imparável. Por trás disto tudo – como demonstrou recentemente Quinn Slobodan – há uma escolha política precisa, com objetivos claros. É a mesma, parece, que Wang Hui reconduz à política da despolitização. 

Mais uma vez, são os EUA que definem as linhas ao longo das quais se articula este novo rumo. Não é tudo fruto da atual administração, ainda que o trumpismo represente, sob muitos aspetos, a sua extremização. Em termos gerais, esta política é, ou apresenta-se como, a resposta ao estado de crise em que se encontra o Ocidente, pelo menos a partir do 2008.

A política da despolitização vai além das formas mais consolidadas de relação neoliberal entre mercado e instituições, público e privado. Impulsiona novos cenários de que, com diferentes graus de consciência, somos todos testemunhas. Sustentada pelo impacto da IA no andaime institucional, nas formas de organização do trabalho, nas configurações sociais, na vida na sua acepção biológica e social mais ampla, a política da despolitização apresenta-se hoje como a antítese da ética em política.

O que estamos vivenciando não pode ser visto apenas como mais uma etapa na longa e linear vida do capitalismo. Não basta chamar a visão despolitizada dos novos patrões do mundo como “fim da história”. O que os anima é a convicção de se encontrarem no início de uma nova história, onde o desenvolvimento tecnológico disruptivo já não deixa espaço para as leituras éticas do agir político do século XX.

Aí encaixam-se as projeções transumanistas de superação da morte, a redefinição escatológica do destino do mundo, a identificação em tons bíblicos dos inimigos da sua ideia de progresso. Neste contexto, a guerra, declinada em muitas formas diferentes, assume a função purificadora em relação ao mau, ao Anticristo. Este último não passa de tudo o que se interpõe à produção do futuro definido pelo seu “projeto teológico secularizado”, como é definido por Rafael Azzi.

Quer se trate de guerra ao ambiente, aos pobres, ao que sobra do Estado social, em nome de um “desenvolvimentismo” que não faz prisioneiros, ou quer se entenda no sentido mais tradicional do termo, a política da despolitização encontra na guerra a sua mais coerente e elevada expressão. Para Wang Hui, aliás, a guerra não é nada mais do que a continuação direta da politica da despolitização. E, acerca disso, parece difícil produzir argumentos que refutem a sua tese.

O sucesso dessa política reside na capacidade de penetração e condicionamento tanto da nossa vida ativa cada vez mais conectada, como do nosso inconsciente offline. A este respeito, um outro intelectual chinês, Yuk Hui, prefere, ao examinar o padrão econômico e cultural dominante, pôr a ênfase sobre os processos de desindividuação, como consequência do predomínio das pulsões em relação à economia da libido. Daí surge a necessidade de uma nova individuação do pensamento, “para cuja realização a tecnologia é fundamental”, dado que o próprio uso atual da tecnologia deve ser visto como a causa principal da desindividuação.

A nova individuação proposta por Yuk Hui traz, portanto, ao nível da vida do sujeito o conceito de repolitização que Wang Hui analisa colocando-o num plano relacional mais abrangente. 

Afirmar a necessidade de repolitizar as relações não significa desconhecer a multiplicidade de ações políticas novas e diversas que parecem apresentar, em muitos terrenos, níveis de participação popular às vezes bastante elevados. Não é este o ponto, ou, se quisermos, isto é apenas um lado do processo de repolitização de que se quer falar. Talvez, felizmente, o menos problemático. Da Europa às suas fronteiras externas (Albânia e Sérvia), e a muitos outros países, entre os quais Quênia e Índia, sem esquecer experiências particulares nos EUA, assiste-se a uma contínua propagação de protestos politicamente importantes e eficazes.

O assunto da repolitização diz respeito tanto a ações políticas institucionais como ao “político” de modo mais amplo Este deve ser entendido como o sentido geral do agir que redefine as prioridades e os valores, com base numa contraposição antagônica ao estado de coisas presente. A sua fundamentação não é abstrata, mas sim enraizada nas lutas políticas que a ele remetem.

O “político” não é a somatória daquelas ações, mesmo quando existam analogias e pontos de contato entre elas. Remete ao conceito de hegemonia, entendida no sentido gramsciano de luta cultural na dimensão ético-política. Um conceito que Laclau aplicou à ideia de cadeias equivalentes crescentes entre sujeitos e ações, para a definição de uma democracia radical.

Este “político” constitui, portanto, o quadro de referência antagônico, a que as variadas ações remetem e que, ao mesmo tempo, cada uma delas contribui a formar. Existe uma relação de reciprocidade entra os dois elemento: é este que define o percurso de constituição da hegemonia.

É um percurso que tem de ser ativado, trazido à tona. As cadeias equivalentes e as articulações entre sujeitos que produzem ações políticas são a nervura e o arcabouço deste percurso.

Com base naquilo que foi dito, o elemento que pode constituir-se como quadro de referência da potência coletiva das ações deste novo “político” é a “guerra à guerra”. Este parece ser hoje o significante capas de pôr em movimento um projeto hegemônico de amplo alcance.

A guerra na sua acepção mais ampla é, como se disse, é a continuação da política da despolitização. Combatê-la com as armas da repolitização significa tornar cada ação que a contraste uma peça do novo projeto hegemônico que queremos levar a cabo.

Para tal efeito, precisamos produzir elementos convincentes, que não se limitem a contrapor. Precisamos de novos nomes. A guerra que queremos travar à guerra (ao ambiente, por exemplo) tem de afirmar que tipo de relação propomos entra a sociedade humana e a natureza; o que significa desenvolvimento, produção e consumo numa prospetiva ecossocialista, como defende Sabrina Fernandes.

O mesmo pode-se dizer para a guerra contra a guerra aos sujeitos marginais, à saúde e escola pública, ao direito a uma vida digna, a uma casa, um rendimento. O mutualismo pode oferecer soluções? Ajuda a definir um modelo societário em que investir, por estar subtraído à ganância e à valorização direta do capital?

O combate às guerras genocidas que utilizam armas produzidas direta ou indiretamente nas nossas cidades, e que transitam no comércio internacional, necessita acrescentar novas alianças àquelas que já existem, para promover ações eficazes e duradouras. O que já está ocorrendo é importantíssimo, mas não basta: a luta tem de encontrar formas de se estender não apenas na horizontal, mas também na vertical, ao longo da cadeia de abastecimento.

Os novos meios computacionais de organização, produção e controle devem tornar-se um campo de batalha, uma passagem estratégica da supply chain onde intervir. Os hackers, tal como os entende MacKenzie Wark, isto é os produtores de informações e métodos de uso dos sistemas contra os patrões vetorialistas, são um sujeito de importância vital.

* * *

A criação de cadeias equivalentes e a articulação entre sujeitos diferentes produzem saber, cuidado, solidariedade, consciência e potência. É aí onde o político fica reforçado e reforça a expansão das lutas num ecossistema que não tem confins predefinidos.

A sua dimensão define-se com base do funcionamento de uma ecologia, onde tudo coevolui e onde a distribuição das ações não é sinónimo de fraqueza, mas de variabilidade não totalizável de uma rede.

* * *

A cidade apresenta-se como o laboratório ideal onde a repolitização pode assumir materialidade e visibilidade imediata, onde é possíve experimentar um percurso que tenha como objetivo a criação de uma nova hegemonia cultural e ético-política.

Esta nova hegemonia encontra sustentação e força na ideia de cidadania ativista, que redefine as posições e as prioridades de quem vive e transforma os espaços urbanos diariamente, dentro e contra as transformações que lhe são impostas.

As articulações, os pontos de sutura entre as ações distribuídas dos sujeitos, cada um com a sua própria especificidade, contribuem para definir e ampliar o significado de “Guerra à guerra”.

Se isto significar subtrair-nos, pelo menos parcialmente, à asfixia avassaladora e criminosa que nos cerca, a guerra à guerra poderá tornar-se então a maneira de recomeçarmos a respirar coletivamente.

Aconteceu à época das cidades rebeldes, acontece hoje com a Nova York de Mamdani. As cidades, às vezes surpreendem-nos pela capacidade de transformação que demonstram, devido à autonomia, ou soberania, que as distingue e que fez com que, no passado, fossem vistas como âmbitos “ilegais”. Se a história se repetir, não teremos outra escolha senão estar, sem remorso, do lado da ilegalidade.

Leia também: "O Leviatã digital" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/poder-algoritmico.html

Arte é vida

 

Jean-Michel Basquiat 

Guerra híbrida midiática https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/dica-de-leitura_0865126294.html