18 fevereiro 2026

Pensar e dizer

Palavras muito mais do que palavras
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65  


Vi de relance uma declaração em vídeo do poeta Manoel de Barros:

- As palavras me fascinam, diz.

Palavras fascinam a todos nós - pela sonoridade, pelo sentido.

Mas é claro que depende de como são pronunciadas e em que tom. Uma mesma frase pode soar carinhosa ou autoritária.

Poetas guardam com as palavras uma relação de amor e ódio.

Basta ler atentamente os versos de um João Cabral, Vinícius, Drummond ou – para citar a poeta pernambucana que ganhou audiência nacional com o Prêmio Jaboti – Cida Pedrosa para muitas vezes sentir que as palavras ali contidas brotaram da sensibilidade, da inquietação, da busca.

Dizem que Caymmi demorava meses a fio para concluir a letra de uma canção, aguardando que a palavra adequada lhe chegasse.

O mesmo ocorre com romancistas e contistas. O moçambicano Mia Couto nos dá a impressão de que sua relação com o idioma é um caso de imorredoura paixão, ora alimentada com leveza, ora com certa rispidez. Navega entre o real e o imaginário com fascinante habilidade. As palavras fluem com sedutora intimidade.

Mas não perdoam quando maltratadas.

Conheço pelo menos uns três escribas que se dão ao trabalho de vagar por dicionários em busca de expressões pouco usadas, na tentativa de demonstrar erudição que não possuem.

A um deles eu disse certa vez que sua atitude era digna de um Marquês do Pombal, que a seu tempo foi reconhecido por ressuscitar termos ultrapassados.

Não combina.

Um personagem humorístico de Chico Anízio costumava encerrar seus discursos afirmando que “palavras são palavras, não mais do que palavras” ...

Porém tem razão o poeta Manoel de Barros: a palavra é tudo.

[Uma crônica de 2020]

Ilustração: Albert Anker

Leia: Graciliano Ramos e o texto no tempo das redes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/expoente-da-literatura-brasileira.html   

Renato, sempre!

Despedida de Renato Rabelo é marcada por lembranças e homenagens
Corpo do ex-presidente do PCdoB foi velado em cerimônia pública no Palácio do Trabalhador, sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo
André Cintra e Cezar Xavier/Vermelho      

Familiares, militantes e dirigentes se despediram nesta segunda-feira (16) de um dos principais quadros da história centenária do PCdoB, Renato Rabelo, morto no domingo (15), aos 83 anos. Pela manhã, o corpo de Renato foi velado em cerimônia pública no Palácio do Trabalhador, sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, na Liberdade.

“Não gostaria de começar essa fala tratando de pesar. Quero falar sobre orgulho e gratidão”, afirmou a presidenta licenciada do PCdoB, Luciana Santos, que, em 2015, substituiu Renato no cargo. “Renato Rabelo é e seguirá sendo um dos mais importantes dirigentes da história do Partido Comunista do Brasil”.

Luciana lembrou que a trajetória de Renato se estendeu por mais de 60 anos, desde sua iniciação política no movimento estudantil. Segundo ela, é preciso valorizar igualmente o papel da esposa, Conceição Leiro Vilan, a Conchita, sua companheira de vida desde a década de 1960. “Minha homenagem especial a você, Conchita, que, lado a lado com Renato, vivenciou todos esses momentos.”

Muito emocionada, Luciana citou a mensagem de pesar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “A democracia brasileira perdeu hoje um de seus maiores nomes, o meu querido companheiro Renato Rabelo”, destacou Lula. Para Luciana, os pontos altos da mensagem do presidente foram os elogios a Renato pela “visão estratégica” e pela “capacidade de reunir forças políticas em prol da soberania e justiça social”.

De acordo com a presidenta do PCdoB – que também é ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação –, Renato foi “a expressão da serenidade ativa”, unindo “firmeza com gentileza, reflexão estratégica sem hesitação, esperança construída com disciplina e método”. Para Luciana, “seu legado não se encerra com sua partida. Ele vive nas ideias que ajudou a formular, nas organizações que ajudou a fortalecer e nas gerações que ajudou a formar”.

“Apontando caminhos”

Além de Luciana, discursaram o ex-ministro José Dirceu; o secretário nacional de Juventude do PCdoB, Gustavo Petta; o dirigente nacional do Partido Aldo Arantes; a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ); o presidente da Fundação Maurício Grabois, Walter Sorrentino; e o vice-presidente do PCdoB, Carlos Lopes.

Dirceu – que conheceu Renato no movimento estudantil – discursou em nome do Partido dos Trabalhadores. “Trago aqui o abraço do presidente Lula e de todo o PT”, afirmou o ex-ministro. “Renato, ao lado do (ex-presidente do PCdoB) João Amazonas, foi decisivo na construção da Frente Brasil Popular em 1989 e nas eleições de Lula.” Segundo ele, nos “momentos críticos” – como a crise do mensalão e a Lava Jato –, Renato esteve “sereno, firme, apontando caminhos”.

Companheiro de luta de Renato desde a década de 1960, quando militavam na Ação Popular (AP), Aldo Arantes destacou o papel de Renato na reação à crise do socialismo. “Diversos partidos passaram a renegar o marxismo-leninismo. Mas o PCdoB – tendo João Amazonas no comando e Renato com participação destacada – reafirmaram o socialismo.” Para ele, o dirigente deixou marca na “preocupação em desenvolver a teoria marxista” e em superar “concepções dogmáticas”, aliando visão estratégica a flexibilidade tática.

Gustavo Petta ressaltou o vínculo de Renato com as novas gerações, enfatizando sua atuação na criação da UJS (União da Juventude Socialista), em 1983. “Renato compreendeu como poucos o papel dos jovens na revolução”, afirmou, citando uma frase recorrente do dirigente: “A juventude é sempre lutadora, é sempre abnegada. Ela vai adiante”.

Jandira destacou as contribuições de Renato à atuação parlamentar comunista. “Devemos muito à orientação do Renato, que fez com que nossa bancada fosse vista pela sociedade como forte, combativa e guerreira”, declarou. Em seguida, dirigiu-se carinhosamente à viúva: “Conchita, você merece todo nosso amor. Sem a família, ele (Renato) não teria tamanha resistência e capacidade.”

“Mais estrelas”

Sorrentino definiu a trajetória do dirigente como um “mosaico” de contribuições e sublinhou o Novo Programa Nacional de Desenvolvimento, pilar do Programa Socialista aprovado no 12º Congresso do Partido, em 2009. “Sua memória será maior que sua morte”, afirmou.

Carlos Lopes lembrou o papel de Renato “na integração de quadros do MR-8 e do PPL ao Partido”. Segundo o dirigente do PCdoB, “ele deixou o ambiente extremamente propício para que continuássemos a luta.” E resumiu a despedida numa imagem: “Quanto mais escura é a noite, mais virão estrelas”.

Uma segunda cerimônia em homenagem a Renato foi realizada no Crematório da Vila Alpina, onde o corpo do ex-presidente do PCdoB foi levado após o velório. Em homenagem a Renato, o músico João Vitor Romano executou, com violino, o hino universal do movimento comunista, A Internacional, e a Ode à Alegria, o último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven, que era a canção preferida de Renato.

Já seus filhos, André e Nina, agradeceram ao Partido pela solidariedade e pelas palavras de conforto. “O PCdoB foi, sem dúvida, sua segunda família”, afirmou Nina. A atriz Ana Petta, que representou o PCdoB nessa segunda solenidade, resumiu: “É difícil terminar essa despedida, porque faltam palavras e sobram emoções. Resta, para simbolizar esse momento de tristeza profunda, uma reverência muito sentida a tudo o que você (Renato) representou.”

Lula diz que Brasil perde um dos maiores nomes da democracia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/lula-renato-rabelo-companheiro-de-luta.html 

Arte é vida

Lula Cardoso Ayres

A sensibilidade e o prazer ao longo do tempo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_7.html 

 

Palavra de poeta

Depois da opção
Henriqueta Lisboa     

Um reposteiro o mais espesso
caia sobre a tragédia dos Andes.
Os que a viveram não falem.
A língua que provou a carne
de seus irmãos emudeça
da mais humana miséria
para não se desnaturar
em sem remédio
depois da opção

Em estátuas de pedra
se transformem os seres
que amargaram a ponto
de negação a si mesmo
imprensados
entre o vulcão de sangue
e a geleira: fantasmas
caminhando brancas nódoas
negras hóstias em travo
depois da opção.

A dor de quem viu palpou
compreendeu e perdoou
o que a si próprio não
se perdoaria é covardia.
Heróica é a dor dos que sofrem
não pela fome ou sede ou frio
ou cegueira que sofreram

mas pela crua memória
do jamais deglutido
nos desvãos ruminando
entre a alma e os ossos
depois da opção.

[Ilustração: Alexander John White]

O carnaval segundo Clarice Lispector https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/o-carnaval-segundo-clarice-lispector.html 

Rede de intrigas

Grampo no Supremo: a volta do estilo Veja
O estilo Veja já era conhecido: gravações clandestinas de conversas, uso de arapongas ligados a Carlinhos Cachoeira.
Luís Nassif/Jornal GGN    

A informação de Mário Sabino, diretor da sucursal paulista do Metrópoles, de que o jornalista Márcio Aith assessora o ministro Dias Toffoli e é, também, colunista do Poder 360, fecha o ciclo. Reforça a convicção de que a gravação da reunião reservada do Supremo Tribunal Federal — na qual se deliberou sobre a situação do próprio Toffoli — foi feita pelo próprio Toffoli e encaminhada por Aith, em artigo não assinado no jornal. 

Mas é curioso como o mundo dá voltas.

Quando decidi, em 2008, enfrentar a máquina de destruição de reputações da Veja — armado apenas de um blog —, uma de minhas fontes era justamente Márcio Aith. Ele e Reinaldo Azevedo respondiam a Mário Sabino numa subordinação de caráter quase humilhante. Reinaldo chegou a publicar textos me atacando com todos os ingredientes do estilo Sabino — cujas interferências nos textos da redação equiparei, na época, a prego sobre vinil. Já Aith me trazia informações com o objetivo de queimar Eurípides Alcântara. Mário e Eurípides disputavam o comando da revista.

O estilo Veja já era conhecido: gravações clandestinas de conversas, uso de arapongas ligados a Carlinhos Cachoeira — como documentei no site O Caso Veja, que montei na época.

O fluxo de informações durou até o dia em que publiquei um artigo mostrando que Sabino havia alterado os critérios da lista de livros mais vendidos da revista para encaixar um romance de sua autoria. Aí, Aith entrou em pânico. Ligou desesperado, pedindo que eu “descesse o cacete” nele — e me forneceu alguns argumentos contra ele próprio. Fiz o que pediu. Nos comentários do artigo, leitores lamentaram o episódio: conheciam e tinham grande respeito por seu pai, advogado formado na Faculdade do Largo de São Francisco.

Pouco tempo depois, a Veja desistiu da disputa jornalística e entrou com cinco processos contra mim. No processo movido por Sabino, Aith compareceu como testemunha de acusação. Entrou tão curvado na sala do juiz, sem ousar erguer os olhos na minha direção, que preferi não humilhá-lo mais. Logo depois, Sabino foi demitido da Veja — e Aith foi junto. Passou então a atuar como informante de advogados: contratado para levantar dados em defesa de clientes e para atacar a parte contrária.

Contei essa história no artigo Márcio Aith, minha fonte no caso Veja”. O conteúdo completo do site sobre o caso está disponível aqui em PDF. E o livro “O Caso Veja”, aqui.

Para fechar o ciclo, Reinaldo foi contratado pelo Metrópole – o veículo mais empenhado em atacar o Supremo. Um mês antes deu uma declaração repleta de autopiedade, pedindo para seus leitores rezarem por ele. Julguei que tivesse sido acometido de doença grave. Mas era o UOL se desfazendo dele, devido às suas qualidades. Será curioso ver como se comportará no Metrópole, o veículo mais empenhado em atacar o Supremo.

Aqui, o capítulo sobre ele, no Caso de Veja.

Em mensagem que me enviou, depois de ter esta reportagem, Dias Toffoli nega o grampo.

Leia também: O caso Master e a crise regulatória do mercado de capitais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/a-cvm-e-o-caso-master.html

Arte é vida

 

Candido Portinari

Carnaval: rebeldia e prazer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/meu-artigo-para-o-portal-grabois-4.html 

17 fevereiro 2026

O poeta e o carnaval

Diante do Carnaval
Carlos Drummond de Andrade   

Ora pois, chegou o momento de cessar o trabalho e entoar o cântico e desmanchar o corpo em sacolejos convulsos. Teus amigos se dividiram em duas hostes: a que se retraiu para montes e praias, e a que, vestindo os disfarces mais leves, saiu por aí saracoteando e gritando. Entre as duas formas de viver o carnaval, ficaste sozinho e desarmado: no centro do acontecimento, sem participar dele.

Velhos carnavais afloram a tua memória. Por tê-los brincando, conquistaste o direito de eximir-te aos novos. Foste moço e ainda não és velho. Recusas-te a aderir; recusas-te a fugir. Elegeste para estes quatro dias o pijama, o livro, o jardinzinho, o cigarro, a música, o sono, a paz. E todas essas riquezas, vais desfrutá-las a dois passos do clube de onde desce e se espraia um rumor rouco de água rolando, coral frenético onde se misturam imagens e interesses da vida cotidiana, penas de amor, invocações a uma alegria que é apenas prazer, a um prazer que busca subjugar o tempo e dissolver o importuno senso de realidade, mais duro e agressivo que a realidade mesma. Tua situação é quase a de um sábio recolhido ao hospício, ou a do puma no jardim zoológico, entre siriemas e quatis. Essas coisas não te dizem respeito, e passas ileso entre elas. Mas evita o orgulho; se há uma razão pessoal para não ceder ao calendário, sobram mil outras para obedecer-lhe. Tua razão individual é uma vitória sobre os ritos, que ainda não amadureceu para outros, e talvez jamais amadureça. Repara nos velhos foliões que se esbaldam junto a brotinhos. Se são autênticos, não podes condená-los, embora também não os invejes. A criança, e não o sátiro, continua neles a desenvolver um jogo pueril, e, mortos, amanhã sorrirá na lembrança desses velhos um pouco do que dançaram.

O carnaval não mudou senão nas formas aparentes, e não tens direito de suspirar que naquele tempo, sim, era melhor, e hoje tudo é porcaria, da decoração aos sambas. O carnaval cresce e se agita dentro de cada um, seja ou não patrocinado pela prefeitura, e dinamiza músculos e cordas vocais, restituindo ao homem um pouco de animalidade comprometida menos pela civilização que pelo seu uso mecânico. O poeta imaginou compor um carnaval, como o de Schumann, “todo subjetivo”. São todos subjetivos, quando vividos intensa e profundamente na zona sensível de cada um, que transforma e valoriza a circunstância exterior. Não te rebaixes a falar mal do carnaval que já não te procura.

Estás só. É bom estar só, quando companhias sutis nos embalam, como sejam o livro muito folheado, o navio de Segall na parede, um gato austero. Outros estão sós, como tu, mas presos a uma inibição ou a uma disciplina. Para os doentes no hospital, o dia é mais longo, para as enfermeiras é mais árido. Motorneiros e condutores, nossos irmãos admiráveis, estão sós no infinito barulho e promiscuidade, na ilha de trabalho a que se condenaram. E o faroleiro no seu farol, o aviador na sua máquina, e esse homem ou essa mulher sem rosto, que velam por um gerador ou mexem uma panela na chapa de ferro, e que ajudam a vida a continuar, em sua humildade sem prêmio.

Entre o prazer e a abstenção, encontraste no carnaval este secreto encanto: é uma festa que a uns permite a extroversão, a outros dá ensejo de fugas marítimas ou campestres, e a ti oferece o exercício da arte difícil e nobre de estar só.

[Ilustração: D. Esteves]

O carnaval segundo Clarice Lispector https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/o-carnaval-segundo-clarice-lispector.html