21 abril 2026

Palavra de poeta

Das utopias
Mário Quintana  

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las.
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!

[Ilustração: Waldomiro Sant'Anna]

Para além da superfície https://lucianosiqueira.blogspot.com/

China: redução da pobreza

Afinal, o que é uma democracia?  
China provou-se democrática ao reduzir a pobreza em proporção sem precedentes na história
César Calejon/Liberta   

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente – sobretudo, a máquina de propaganda estadunidense e os seus puxadinhos – foi extremamente eficaz no sentido de introjetar e solidificar uma ideia determinante para fazer a manutenção das suas propriedades hegêmonicas: as democracias liberais burguesas, a despeito dos seus problemas, conformam a única disposição de arranjo social coletivo capaz de superar o autoritarismo e representar os interesses dos povos do mundo.

Particularmente, estou convencido de que tal raciocínio não é somente impreciso, mas, em última análise, falso.

Vejamos: etimologicamente, como todas e todos sabemos, demos (povo) e kratos (poder ou governo) expressam a dimensão de “governo popular” ou algo como o “governo do povo”, o que nenhuma democracia formal chegou sequer perto de oferecer. Muito pelo contrário, aliás. Mas, afinal, a China pode ser considerada uma democracia então? O debate é imenso e cada um oferece a sua própria resposta para essa pergunta.

Poder e economia

A meu ver, estou alinhado com alguns dos principais estudiosos e especialistas com os quais conversei e/ou li sobre o tema durante os últimos anos: a China é uma democracia não liberal. Ou seja, um governo popular não submetido aos vícios do capital como processo, o que, nesse artigo, defino como Capital, em caixa alta.

Conforme explica o professor Elias Jabbour, autor do livro China: O Socialismo do Século XXI e profundo estudioso do tema: “A China é uma democracia não liberal, na qual o poder se exercita de baixo para cima e sem mediação do dinheiro. O deputado federal, na China, é eleito na base e tem que dar satisfações para essa base o tempo inteiro. Ele pode ser cassado por essa mesma base e não pelos seus pares”.

Essa dinâmica evita uma série de vícios que, invariavelmente, são muito deletérios aos interesses das camadas mais empobrecidas da população. Tais como: populismo eleitoral, corporativismo, corrupção, patrimonialismo etc.

Dados compilados pelo economista francês Thomas Piketty, no livro O Capital no Século XXI, vão ao encontro deste entendimento, quando demonstram que a participação do capital público no capital nacional era de cerca de 70% na China, em 1978, e se estabilizou em torno de 30% desde meados dos anos 2000. Nos países capitalistas, essa relação passou de 15%–30%, na década de 1970, e está próxima de zero ou negativa na década de 2020.

Intelectual e empresário chinês, Eric Li sintetiza essa relação entre poder e economia da forma mais elucidativa com a qual eu me deparei considerando esse debate. O trecho, publicado no meu último livro em coautoria com o economista André Roncaglia, explica o seguinte:

“Nos Estados Unidos, você pode mudar o partido político que está no poder, mas não pode mudar as políticas. Na China, você não pode trocar o partido, mas pode mudar as políticas. Em mais de 60 anos, a China tem sido governada por um único partido e, mesmo assim, as mudanças políticas que se viram nestas décadas foram mais amplas do que em qualquer outro país na história moderna. […] A China é uma vibrante economia de mercado, mas não é um país capitalista. Aqui está o porquê: é impossível que um grupo de bilionários controle o núcleo do Partido Comunista Chinês como os bilionários norte-americanos controlam as políticas públicas nos EUA. Então, na China há uma vibrante economia de mercado, mas o Capital não impõe seu domínio à autoridade política. O Capital não tem direitos sagrados. Nos EUA, os interesses do Capital e o próprio Capital têm precedência sobre a nação. A autoridade política não consegue conter o poder do Capital. Por isso, os Estados Unidos são um país capitalista e a China, não.”

Arranjo formal

Notem aqui, o cerne do debate: ao contrário do que o Ocidente nos disse por quase cem anos, capitalismo e democracia não combinam para além de um arranjo formal, que cria uma falsa ilusão de “eleições livres” e “mercados livres”. Livres? Para quem?

No Brasil, 49 milhões de pessoas não têm acesso a esgotamento sanitário adequado em suas casas (Censo 2022) e cerca de 90% dos brasileiros têm rendimento mensal inferior a R$ 3,5 mil (PNAD Contínua/IBGE). Isso é o que qualificamos como “democracia”.

Evidentemente, isso não significa que a China não tenha os seus próprios problemas e contradições, bem como todos os arranjos sociais humanos. Contudo, assim como um autocrata não se caracteriza somente pela forma como o indivíduo ascende ao poder, mas, primariamente, pela maneira como exerce o poder uma vez estabelecido(a) no cargo, a legitimidade democrática também não vem só do voto, mas, principalmente, dos resultados entregues à população.

Neste contexto, a China provou-se um país muito mais democrático do que as democracias liberais, pois reduziu a pobreza, nas últimas décadas, em proporção massiva e sem precedentes na história humana, enquanto foi capaz de promover um acelerado crescimento econômico.

Além disso, conduziu a expansão da infraestrutura dos seus serviços públicos e alcançou a fronteira tecnológica global para rivalizar com os EUA o posto de principal superpotência do planeta. 

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IA: Como a China está vencendo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ia-china-vence-eua.html

Postei nas redes

Segunda dose da vacina contra Herpes zoster. Como da primeira, um dia inteiro de astenia, dores musculares, inapetência, náusea, sonolência. Incomoda, mas é necessária. 

O sentido dos fatos em poucas palavras https://lucianosiqueira.blogspot.com/  

20 abril 2026

O cigarro que não fumo

Meu crédito cognitivo 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65     

Leio agora na Folha de S. Paulo que parar de fumar, mesmo na meia-idade, desacelera a perda cognitiva do envelhecimento.

Opa! Se quem fumou há tanto tempo tem esse crédito todo, desde que pare no meio do caminho, quem nunca fumou tem pelo menos 50% de crédito. 

É o meu caso. Nunca fumei. Para mim o cigarro é tão insuportável que nem das cinzas acumuladas ocasionalmente em cinzeiro em cima da mesa chego perto.

Não me interessei pela leitura completa da notícia. Tenho mais o que fazer. Fico sem saber detalhes — a fisiologia do feliz retrocesso dos males causados pela nicotina. 

Mas gostei da ideia. 

Próximo da oitava década de vida, eu até me divirto com essas dicas de saúde com pose de descoberta científica que frequentam cadernos especializados nos grandes jornais. 

Afinal, sonhar é viver. Ou não?

[Ilustração: Christer Strömholm]

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Leia também: “Vivos, lúcidos e ativos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/minha-opiniao_18.html

Postei nas redes

Na grande mídia neoliberal se intensifica a publicação de matérias tendenciosas sobre um "desgaste público" de Lula hipoteticamente irreversível. Campanha eleitoral explícita! 

Sem agulha no palheiro https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Fotografia

 

Noemia Prada

Em cima do lance https://lucianosiqueira.blogspot.com/   

Baixo nível nas redes

Fim de feira na internet
Frutas que falam (só bobagem) compõem a nova safra da “merdificação”, uma espiral de declínio das redes sociais acelerada pela IA
Victor Calcagno/piauí  
 

“Ninguém pode saber que eu vejo isso.” Comentários assim, num tom meio envergonhado, meio debochado, são frequentes entre usuários da internet que se deparam com um novo tipo de conteúdo viral: as frutas antropomórficas. Elas aparecem em vídeos feitos com inteligência artificial que, pelo menos desde fevereiro, têm bombado no TikTok – primeiro em inglês e depois em outros idiomas. São, em geral, animações que contam histórias curtas ou meras cenas – microdramas supercoloridos, escandalosos e com roteiros simplórios, de quase nenhuma complexidade, quase sempre envolvendo alguma humilhação, adultério ou misoginia. Tudo vivido por frutas em corpos humanos. Uma mulher amarelada com uma cabeça de abacaxi, um homem todo roxo cujos cabelos são cachos de uvas, e por aí vai.

Com essa descrição, não é de se espantar que as pessoas reajam com humor e alguma perplexidade. Mas as frutas estão por toda a parte e dão audiência. A trend estourou quando surgiram vídeos desses personagens num reality show de namoro (o Fruit Love Island). Os episódios duravam de 1 a 3 minutos e rapidamente atingiram a marca de 10 milhões de visualizações cada. Desde então, as frutas aportaram em vários países, e o Brasil, que é prolífico nesse tipo de atividade, logo fez vídeos delas falando português, dançando funk, vestindo camisetas de times nacionais, trabalhando nos mercados da rede Atacadão e sofrendo violência policial. A precariedade das histórias é a mesma, mas, por aqui, as frutas ganharam ingredientes nacionais – a começar pelos nomes, como B ananildo, Moranguete, Abacatudo. Não faltou espaço para trocadilhos maliciosos, caso do personagem Tomatudo.

As frutas falantes são um caso típico de AI slop – expressão que poderia ser traduzida como “IA barata” e é usada para se referir a conteúdos malfeitos, breves e repetitivos produzidos por ferramentas de IA generativa. O que há de novo nesse fenômeno é o formato. Até então, os AI slops circulavam principalmente como imagens estáticas ou animações de poucos segundos, numa estética próxima à dos memes tradicionais. Agora, proliferam também em vídeo. O resultado disso tem sido uma inundação de conteúdo artificial nas redes sociais. Cada vez mais, postagens orgânicas de nossos amigos e familiares têm sumido dos feeds, dando lugar a animações toscas que, de forma um tanto vulgar, produzem engajamento fácil, agradando os algoritmos. 

A esse processo, o romancista, blogueiro e ativista canadense Cory Doctorow deu um nome pouco sutil: merdificação. No livro Enshittification: Why everything suddenly got worse and what to do about it (lançado em 2025 e ainda sem tradução no Brasil), Doctorow mostra como empresas de tecnologia, sobretudo as que constituem monopólios ou oligopólios, não têm hesitado em piorar de propósito seus serviços em troca de um retorno financeiro mais direto e valorização acionária. Isso, segundo ele, acontece em três etapas. “Primeiro, as plataformas são boas com seus usuários. Depois elas abusam dos usuários para agradar seus clientes empresariais. Em seguida, elas abusam dos clientes empresariais para recuperar para si todo o valor [gerado nas plataformas]. No final, elas se tornaram um monte gigante de merda.”

Dos casos descritos por Doctorow, destaca-se o do Google. Dona de 90% do segmento de buscas na internet, a empresa tem tanta vantagem contra os concorrentes que seu vice-presidente de Finanças chegou a afirmar, de acordo com um memorando citado no livro, que “o Google é capaz de ignorar uma das leis fundamentais da economia… a de oferta e demanda”. Na prática, conta Doctorow, isso fez a empresa piorar de propósito seu sistema de buscas, de modo que sejam necessárias mais pesquisas para se atingir o mesmo resultado – e, com isso, o usuário visualiza mais e mais propagandas, gerando receita para o Google. A situação fica ruim para quem busca informação, por motivos óbvios, mas também para os anunciantes, já que sua propaganda, misturada a milhões de outras, perde eficácia.

Embora também aborde as IAs, o livro de Doctorow foi publicado antes do surgimento de trends como as frutas falantes. O retrato que ele pinta das big techs, no entanto, ajuda a explicar os fenômenos mais recentes. Afinal, tudo indica que as plataformas estão “merdificando” nossos feeds para, com isso, promover suas ferramentas de IA. Estamos diante de um cenário em que agentes de IA produzem e postam conteúdos sintéticos, promovidos por outros agentes IA que curtem, compartilham e comentam essas postagens. São redes sociais em que robôs interagem com robôs o tempo todo e cada vez mais, até o infinito. O usuário comum, humano, se vê numa espécie de cemitério, rodeado de plataformas-zumbi – ou como coloca Doctorow, “plataformas que continuam rastejando mesmo depois que já deviam ter sido abatidas e enterradas numa cova rasa”. Difícil ler essa afirmação e não pensar no Facebook e no X. 

Na corrida pela consolidação de seus modelos de IA, que envolve bilhões de dólares em investimentos, a “merdificação” parece ser um custo que as big techs estão, até agora, dispostas a pagar. Os usuários que aguentem todo o lixo – ou apenas parem de usar essas plataformas, se estiverem dispostos a pagar o preço que isso exige hoje. 

“Por que eu tô com tesão num abacaxi?”, pergunta uma pessoa. “Já estou ficando preocupada, chorei por causa de uma uvinha doce”, diz outra. A eficácia desse tipo de vídeo não deveria surpreender ninguém a essa altura. Há muitos anos, as empresas de tecnologia se tornaram exímias manipuladoras dos nossos impulsos e emoções. Especializaram-se em prender nossa atenção em segundos e em interpretar nosso jeito de rolar o feed para nos oferecer o tipo de conteúdo mais apelativo a cada um.

O apelo das frutas antropomórficas pode ser explicado por três características principais: o visual chamativo e supercolorido, os enredos que recompensam em um minuto e as personagens sexualizadas (sobretudo mulheres). Essa tríade costuma ser recompensada pelos algoritmos devido ao seu alto poder de engajamento. Enquanto as cores e figuras à la Disney atraem a atenção de crianças e jovens, os dramas bombásticos e as interações sexualmente sugestivas são isca certa para adultos. 

“O conteúdo é uma porcaria, mas gosto de assistir para me desestressar”, diz Nicole Belastro, empresária paulistana de 40 anos que comentou num desses vídeos e, contatada pela piauí, aceitou conversar. Seu comentário, debochando da aparente inexistência de métodos contraceptivos no universo hortifruti, continha a mesma verve irônica de muitos outros. Ela atribui o sucesso das frutas falantes aos impactos da pandemia, época em que, segundo ela, muita gente se entregou ao “entretenimento volátil, que não demanda muito da nossa atenção”. Nicole conta que não deixa que o filho de 7 anos assista aos Abacatudos e Moranguetes. E diz que, apesar de ter embarcado na trend por um tempo, já enjoou. Acha que a modinha logo vai passar.

A onda de frutas falantes pode ser enquadrada naquilo que se chama de brainrot, expressão em inglês usada para se referir a conteúdos de qualidade tão duvidosa que “apodrecem” o cérebro de quem assiste. No início de 2025, o campeão nessa categoria era o brainrot italiano, uma onda de imagens produzidas por IA com personagens grotescos batizados com nomes pseudoitalianos (como o macaco Chimpanzini Bananini). As frutas falantes levaram esse tipo de material a outro nível, graças, em parte, ao aprimoramento das ferramentas audiovisuais de IA generativa, como Veo (do Google), Movie Gen (Meta), Grok Imagine (X), Seedance (da ByteDance, empresa dona do TikTok) e Sora (da OpenAI, que será descontinuado).

No Brasil, as contas de TikTok e Instagram dedicadas aos dramas tutti frutti superam as centenas. A grande semelhança entre elas – com vídeos idênticos e enredos repetidos – dá a impressão de que até mesmo a divulgação desses conteúdos é automatizada, formando uma linha de produção inteiramente sintética, em que as postagens são criadas, publicadas e promovidas por inteligência artificial. Não é nenhum delírio apocalíptico imaginar que boa parte do que vemos hoje, em nossos feeds, foi produzido por agentes IA configurados individualmente para cumprir certas tarefas. O trabalho humano, nesse caso, seria apenas o de supervisionar o processo e, claro, embolsar o dinheiro que a monetização desses vídeos tende a produzir.

Uma evidência disso é o fato de que, nesses mesmos perfis, são ofertados cursos para quem deseja “lucrar com vídeos de frutas falantes”. Um deles, segundo o anúncio, custa “aponas R$ 19,99” – erro de grafia sinalizando que, ao menos nesse texto, houve algum trabalho humano. Outra propaganda diz, em letras garrafais, que “VOCÊ ESTÁ PERDENDO A CHANCE DE FATURAR COM NICHOS VIRAIS!” Embora muitas dessas contas tenham sido criadas há pouco tempo (fato atestado pelo selo de “novo”), várias somam milhares de seguidores, o que costuma ser um indício de que robôs estão alavancando os números. A piauí tentou contato com treze perfis do gênero. Só três responderam: um negou conceder entrevista, e os outros dois, depois de aceitarem inicialmente, pararam de responder às mensagens.

Os conteúdos de AI slop são, sem dúvida, lucrativos, mas é difícil prever a durabilidade desse modelo de negócios. Embora as redes sociais constituam um oligopólio, não é totalmente improvável que o usuário comum, cansado da “merdificação” de seu próprio feed, se afaste das plataformas. Com isso, sairão também os anunciantes, que ainda são os responsáveis por grande parte das receitas no Vale do Silício. Talvez por isso, o YouTube anunciou no fim do ano passado que estava banindo ou desmonetizando canais 100% sintéticos que vinham inundando a plataforma com milhares de vídeos diários feitos sob medida para os algoritmos. O problema, porém, não foi embora, e tem afetado principalmente o público infantil, já que o YouTube Kids é um dos terrenos mais f&eacut e;rteis para a proliferação de AI slop. No começo de abril, mais de duzentas entidades e especialistas em educação infantil assinaram uma carta pública pedindo a remoção desses conteúdos da plataforma.

Nas outras redes, o circo continua solto. As frutas, provavelmente, serão em breve substituídas por novos personagens de IA tão ou mais eficazes em prender a atenção dos usuários numa fração de segundos. Resta saber até quando esse formato será lucrativo para as big techs – e até quando os humanos vão tolerar tanto entulho.

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Engrenagem mistura propaganda política, dinheiro sujo e plataformas que lucram https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/mafia-digital-milionaria.html