“Trabalho liberta”? A escala 6×1 e o espírito do
capitalismo
Artigo discute os valores que naturalizam exploração,
alienação e jornadas extensas, relaciona a escala 6x1 à desindustrialização
brasileira e defende desenvolvimento produtivo para ampliar direitos e
qualidade de vida
Carolina Maria Ruy e Igor Corrêa Pereira/Portal Grabois
A escala 6×1 e o espírito do capitalismo
O debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 transcende os
aspectos sociais e econômicos — ele também alcança dimensões culturais, morais
e até filosóficas e relig iosas.
Soou folclórica a fala do presidente do Republicanos, deputado Marcos Pereira
(SP), que afirmou à Folha de S.Paulo, em 26 de fevereiro de 2026,
que “lazer demais e o ócio demais fazem mal”. Ele acrescentou: “E, se tivessem
condições de faze r lazer, ok, tudo bem. O lazer é importante para o psíquico,
para o desenvolvimento mental, para a saúde. Mas a população vai fazer lazer
onde? O povo vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar. Pode ser o
contrário”.
Suas ideias, no entanto, chocaram menos pelo conteúdo do que pela forma bruta e
desprovida de filtros com que foram expostas. Na verdade, trata-se de
concepções muito mais disseminadas no cotidiano do que seu aspecto caricatural
pode sugerir.
O chamado “espírito do capitalismo”, que permeia
o senso comum, reforça a noção de que práticas de abnegação e sacrifício são
virtuosas — ainda que operem, na prática, como um verdadeiro dogma. A tendência
de atribuir às empresas um status quase familiar, o uso recorrente do termo
“colaborador” em lugar de trabalhador e a exigência simbólica de “vestir a
camisa da empresa” seguem essa lógica de endeusamento do trabalho duro. Esse
ideário também se manifesta no linguajar popular, em expressões como “Deus
ajuda quem cedo madruga”. Não por acaso, a frase “o trabalho liberta” foi
apropriada como lema pelo nazismo, estampada nos portões de campos de
extermínio onde prisioneiros eram submetidos a trabalhos forçados,
frequentemente até a morte.
Glamourização do trabalho árduo
Vivemos em um contexto no qual o trabalho árduo — independentemente de
sua finalidade — e a busca por soluções individuais são simultaneamente
glamourizados e sacralizados. Trata-se de um fetiche sustentado tanto pela
lógica de mercado quanto por mecanismos de coerção moral, ancorados em valores
de fundo religioso. Essa coerção mor al encobre a armadilha em que o país está
preso ao ser forçado, por suas elites — sócias menores do rentismo imposto pela
doutrina de Washington ao Sul Global —, a derreter sua capacidade
industrial e produtiva.
Dito de outra forma, presos na armadilha da
desindustrialização, resta aos poderosos dizer para o andar de baixo: “trabalhe
enquanto eles dormem”.
A exigência da escala 6×1 é, em certo sentido, um sintoma da estrutura
produtiva do país: ela emerge justamente nas atividades de menor valor
agregado, em setores como comércio, serviços simples, logística básica e parte da
indústria tradicional. A proliferação de lojas de açaí, cafeterias, barbearias,
serviços de entrega e trabalho por aplicativos cria
uma massa proletária de serviços, altamente precarizada, que só pode gerar
lucro aos patrões por meio de longas jornadas e baixos salários. Quanto mais
desindustrializada a economia, mais o trabalho se torna precário e mais se
reforça essa glamourização do trabalho duro.
Trabalho
(alienado) é virtude?
Na mesma semana em que as
centrais sindicais realizaram a Conclat 2026 — ocasião em que reivindicaram a
redução da jornada, o fim da escala 6×1 e a geração de emprego decente com base
no desenvolvimento produtivo e industrial —, o jornal O Estado de S. Paulo publicou
um artigo de opinião assinado pelo economista Roberto Macedo (UFMG, USP e
Harvard) e por Wilson Victorio Rodrigues, membro do Conselho Estadual de
Educação de São Paulo, intitulado “6×1? Trabalho não é castigo, é virtude!”.
O texto não provocou o
mesmo alvoroço que a fala do deputado, embora sustente ideias de mesma matriz.
Expressas de forma mais polida e menos histriônica, suas formulações se
aproximam ainda mais do senso comum. Para se opor à redução da jornada e ao fim
da escala 6×1, os autores afirmam:
“O homem é vocacionado ao
trabalho e deve persegui-lo com perspectivas amplas, elevadas, com o afã de
levar adiante uma tarefa, empresa ou projeto, por vezes buscando a afirmação
pessoal, mas também com a aspiração nobre de servir os demais e de contribuir com
o progresso da sociedade”.
É verdade que o ser humano
se diferenciou da natureza por sua capacidade de raciocínio, planejamento,
transformação e trabalho. Nesse sentido, toda criação humana — e não apenas
aquela mediada pelo salário — pode ser potencialmente transformadora.
No entanto, a abordagem do
artigo omite a questão central que estrutura o debate sobre a redução da
jornada e o fim da escala 6×1: a contradição entre capital e trabalho em uma
economia desindustrializada. Os atributos exaltados dificilmente se realizam de
forma plena nas condições concretas do trabalho alienado, predominante quando
há pouca oferta de trabalho decente na indústria de ponta e muita oferta de
empregos precarizados nos serviços e no comércio.
O texto também sustenta que
“o trabalho é testemunho da dignidade do homem, de seu domínio sobre a criação;
é meio de desenvolvimento da própria personalidade; é vínculo de união com os
demais seres; fonte de recursos para o sustento da família” e que “em oposição
à laboriosidade, temos a preguiça, vício capital e mãe de todos os vícios”.
Não se nega que todo
trabalho possa desempenhar um papel relevante. Contudo, na sociedade
capitalista, essa relação também é marcada por mecanismos de exploração e pela
dominação de uma classe sobre outra. Isso ocorre porque o sistema impõe ao
trabalhador a venda de sua força de trabalho como condição de sobrevivência,
restringindo seu potencial de realização pessoal e criatividade. O trabalho se
torna ainda mais opressivo quando precarizado em uma economia que encontra
limites para desenvolver sua indústria, como a brasileira.
Resta, então, a pergunta:
essas vozes estão, de fato, preocupadas com a produtividade e o desenvolvimento
humano ou com a manutenção de mecanismos de coerção e de divisão de classe?
Uma
concepção mais humanista do trabalho
A luta pela redução da
jornada e pelo fim de uma escala abusiva representa, nesse contexto, um avanço
possível no momento histórico atual: a busca por maior equilíbrio na
distribuição do trabalho, do tempo e da riqueza produzida. No entanto, essa
pauta deve estar articulada — como assinalou o documento da Conclat 2026 — à
necessidade de geração de trabalho decente com base no desenvolvimento
produtivo e industrial, no fomento à pesquisa e à inovação.
Trata-se de criar condições
para que o trabalhador não apenas disponha de mais tempo livre, mas também
tenha acesso a melhores oportunidades de formação, desenvolvimento pessoal e
realização de suas vocações, superando a condição de mera engrenagem produtiva.
Mais do que isso, é
necessário também um esforço crítico de revisão cultural, aliado a um projeto
nacional de desenvolvimento, para que não se reproduzam, de forma acrítica,
dogmas como o de que “o trabalho liberta” — ideias que, ao longo da história,
serviram para encobrir a exploração e exaltar o sacrifício, sobretudo em uma
economia que constrange o desenvolvimento.
Construir uma concepção
mais humanista do trabalho implica reconhecê-lo como atividade potencialmente
emancipadora e coletiva — e isso só será possível com a retomada da
industrialização brasileira e o aumento da complexidade produtiva. Quanto mais
valor agregado, mais o trabalho se torna produtivo, mais se valoriza e menor é
a necessidade de jornadas extensas.
Carolina Maria Ruy é
jornalista e pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical e editora
do Rádio Peão Brasil. Integra o Conselho Consultivo da Fundação Maurício
Grabois e coordena seu Grupo de Pesquisa sobre a sociedade brasileira.
Igor Corrêa Pereira é técnico em assuntos
educacionais e mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFRGS). Membro do núcleo da CTB da UFRGS. Atualmente é vice-pró-reitor de
Assuntos Estudantis da UFRGS.
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