21 julho 2026

Minha opinião

“Governar na oposição”
Luciano Siqueira  

Reuniões em torno da reeleição de Lula empolgam, como agora as Convenções partidárias.

A militância sente-se partícipe de um projeto eleitoral correto e viável, ainda que tenha de enfrentar forças direitistas e conservadoras eleitoralmente fortes. 

A convicção militante é condição subjetiva indispensável à abordagem eficiente do eleitorado.

E é natural que se pretenda enxergar no arco-íris composto por correntes partidárias distintas a marca própria de cada componente. 

Vale inclusive para as federações partidárias, como a Brasil da Esperança, constituída pelo PT, PCdoB e PV.

A plataforma eleitoral comum não impede, antes recomenda a explicitação de traços característicos que distinguem cada componente. 

A reeleição de Lula por si mesma soluciona os impasses do país? Obviamente, não. Acontecerá no quadro geral de resistência à ofensiva da extrema direita neofascista que ocorre praticamente em todo o mundo ocidental. 

As limitações não se restringem ao parlamento, provavelmente ainda difícil ou adverso na futura legislatura, ainda que possamos avançar quantitativamente na eleição de senadores e deputados federais progressistas. 

O buraco é mais embaixo e tem nome: correlação de forças – onde o Brasil é parte destacada no subcontinente sul-americano, ora sob predomínio da direita; e no quadro geopolítico mundial.

Lula governará mais uma vez sob as condições limitantes de um Estado que tem sido corroído por PECs de conteúdo reacionário e também por legislação infraconstitucional que o fraciona e o enfraquece no exercício de políticas públicas específicas.

Então, cabe sim mobilizar com amplitude e entusiasmo a sociedade pernambucana pela eleição de João Campos governador e Lula presidente. Igualmente, também cabe esclarecer o eleitorado sobre as limitações do aparelho de Estado e a necessidade de enfrentá-las.

É o que Miguel Arraes demonstrava para justificar a assertiva de que “é preciso governar sem deixar de ser oposição... à máquina estatal”.

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Leia também: “O selo do PCdoB na frente pró-Lula” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/o-pcdob-e-lula.html 

Enio Lins opina

Ainda sobre crime organizado, milícias, e o mito famigerado
Enio Lins   

CAUSOU FUROR  a divulgação de uma fotografia de Zero-Um, o filhinho de papai miliciano, na maior intimidade, com o finado Sicário. O impacto da imagem de dois caras afetuosamente reunidos se explica pelo fato de que o seminu na foto jurou nunca ter visto o outro bandido. Antes, havia jurado, com semelhante desfaçatez, não saberia nada do financiamento milionário de Daniel Vorcaro para o pastelão Dark Crazy Horse.

"LUIZ PHILLIPI  Machado de Moraes Mourão, conhecido como 'Sicário', foi apontado pela Polícia Federal como coordenador do grupo 'A Turma', que atuou como milícia privada de Daniel Vorcaro. Ele foi preso em março de 2026 durante a 3ª Operação Compliance Zero" , conforme resumo do g1, explicando que  "segundo o investigador, 'Sicário' desempenhou papel central na organização criminosa, ocorrendo no monitoramento de alvos, na obtenção ilegal de dados e em ações de intimidação. Também acumulou antecedentes por crimes como estelionato, receptação, uso de documento falso e ameaça”.  Como se sabe, Luiz Phillipi/Sicário teria sido suicida nas dependências da Polícia Federal em Belo Horizonte, no mesmo dia em que foi preso, 4 de março de 2026, e resistiu numa UTI por mais dois dias antes de morrer.

ZERO-UM, O FLAVITO
 filho do Jair, sempre exibido – e exclusivo – suas ligações com o crime organizado. Então deputado estadual carioca Flávio Bolsonaro homenageou, por duas vezes, o notório criminoso Adriano Nóbrega: em 2003, com uma moção de honra, e em 2005, condecorando-o com a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Nóbrega, ex-capitão da PM carioca, foi célebre como assassino do serviço do crime organizado. Zero-Um fez questão de entregar pessoalmente a Medalha Tiradentes a seu homenageado, na época presa no Batalhão Especial Prisional, sob acusação de mais um homicídio. No mesmo período, Flávio Bolsonaro homenageou outro crime contumaz, o major PM Ronald Paulo Alves Pereira.

ADRIANO E RONALD FORAM,
 anos depois de homenageados pelo parceiro Flávio Bolsonaro, identificados como dois dos executores do motorista Anderson Gomes e da vereadora Marielle Franco (combativa parlamentar cujo principal desafeto é o vereador Carlucho Bolsonaro). No dia 9 de fevereiro de 2020, Adriano, em fuga, teria reagido à voz de prisão: teve seu CPF cancelado num alegado confronto com a Polícia Militar da Bahia. Ah, sim: Quando a vereadora e o motorista foram assassinados, em 14 de março de 2018, a segurança pública do Rio de Janeiro estava sob o comando do General Braga Netto, que viria a ser um dos homens fortes do desgoverno Bolsonaro e, em 2022, foi candidato a vice-presidente do mito na frustrada reeleição. Coincidência danada!

COINCIDÊNCIAS DANADAS 
são comuns à família Bolsonaro. Então deputado federal, Jair foi assaltado no dia 4 de julho de 1995, em Vila Isabel, zona norte do Rio. Na ocasião o ex-capitão esqueceu-se de ter sido “treinado para matar”, como sempre se jactou. Aos prantos, entregamos uma moto Honda XLX 350 e uma pistola Glock 380. Dentre as várias versões para o incidente, o fato é que uma pistola e uma moto foram devolvidas a Jair – pelo cabo PM Ronnie Lessa. Anos mais tarde, expulso da corporação por vários crimes de conflito, Ronnie tornou-se vizinho de Jair no luxuoso Condomínio Vivendas da Barra. Lessa hoje cumpre pena – condenado como assassino confesso da vereadora Marielle e do motorista Anderson – na Penitenciária IV do Distrito Federal, em Brasília, cidade na qual também cumpre pena, em prisão domiciliar, seu velho amigo Jair, o Zero-Zero.

COMO SE VÊ, FLAVITO 
se deixou fotografar, com um sorriso orelha a orelha, abraçado a um fã desconhecido que passava, por acaso, num local qualquer onde ele usufruía sua seminudez. Como cantou o É o Tchan: 
Sabe de nada, inocente.

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Competente, calorosa, múltipla  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/combativa-sem-perder-leveza-jamais.html  

Humor de resistência

 

Enio

O selo do PCdoB na frente pró-Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/o-pcdob-e-lula.html 

20 julho 2026

Jandira Feghali x Flávio Bolsonaro

Brasil por elas? Flávio Bolsonaro reduz a Lei Maria da Penha a “pedaço de papel”
Após lançar um programa para atrair o eleitorado feminino, Flávio Bolsonaro desqualifica a Lei Maria da Penha e é rebatido pela relatora da legislação, Jandira Feghali
Natália Padalko/Vermelho     

A ofensiva de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para ampliar sua presença entre o eleitorado feminino encontrou um obstáculo criado pelo próprio pré-candidato. Menos de 48 horas depois de lançar o programa Brasil por Elas, iniciativa apresentada como a principal vitrine de sua agenda para as mulheres, o senador classificou a Lei Maria da Penha como “um pedaço de papel” e afirmou que ela “não é o que vai defender as mulheres”.

A declaração foi provocada pela deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), relatora da legislação na Câmara, e reacendeu o debate sobre uma das principais políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero no país.

Durante encontro do Partido Liberal (PL), realizado no sábado (18), em Vitória (ES), Flávio defendeu o endurecimento das penas para agressores e criticou as audiências de custódia quando afirmou:

"A gente tem lei no Brasil e esses marginais vão ter que ficar, sim, muito mais tempo presos. Não vão mais sair em audiência de custódia. Esse pedaço de papel que é a Lei Maria da Penha não é o que vai defender as mulheres."

Na sequência, o senador apresentou como alternativa um sistema de monitoramento eletrônico para impedir a aproximação de agressores das vítimas e permitir o acionamento imediato da polícia.

O mecanismo citado por Flávio, porém, já integra uma política pública de enfrentamento à violência doméstica. Em abril deste ano, a Lei nº 15.383 alterou a Lei Maria da Penha para incluir o monitoramento eletrônico de agressores como medida protetiva inteligente, prevenindo o uso de tornozeleiras e dispositivos de alerta para as vítimas em situações de risco ou de descumprimento de medidas protetivas.

Uma lei que mudou a resposta do Estado

Sancionada em 2006, a Lei Maria da Penha representou uma mudança estrutural na forma como o Estado brasileiro enfrenta a violência doméstica. A legislação criou medidas protetivas de urgência, ampliou os instrumentos de responsabilização dos agressores e passou a orientar uma atuação integrada entre Judiciário, forças de segurança, assistência social e saúde no atendimento às vítimas. Também impulsionou a criação de Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, Patrulhas Maria da Penha, Casas da Mulher Brasileira, varas judiciais especializadas e centros de referência.

A importância da Lei Maria da Penha também recebeu reconhecimento internacional. No relatório do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM), então agência da ONU focada na promoção dos direitos das mulheres, a legislação brasileira foi apontada como uma das três mais avançadas do mundo no combate à violência de gênero.

Jandira: “A Lei Maria da Penha salva vidas”

A declaração de Flávio foi rebatida pela deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), relatora da Lei Maria da Penha na Câmara dos Deputados. Em vídeo publicado nas redes sociais, um parlamentar afirmou que o senador desqualifica uma conquista construída pelas mulheres brasileiras e lembrou que a legislação promove mudanças profundas no sistema de Justiça.

"Essa lei mudou o sistema de Justiça. Mudou o Código Penal, o Código Civil, a Constituição. Está cientificamente comprovado que, onde ela é aplicada, salva vidas. Como já salvou milhares de mulheres no Brasil."

Na sequência, Jandira também questionou a atuação legislativa do senador e afirmou que ele desrespeita uma lei construída a partir da mobilização de mulheres de todo o país.

“Você, que em oito anos de mandato como senador não tem nenhuma lei em vigor, respeite as mulheres. Respeite o nosso trabalho. Essa lei foi construída pelas mulheres brasileiras.”

A deputada ainda afirmou que o bolsonarismo enfraqueceu políticas públicas externas ao enfrentamento da violência de gênero e defendeu a preservação da Lei Maria da Penha como um dos principais instrumentos de proteção às mulheres.

Novo desgaste na estratégia para atrair mulheres

O episódio ocorre em meio ao esforço de Flávio Bolsonaro para reduzir a exclusão ao bolsonarismo entre o eleitorado feminino. Nas últimas semanas, a pré-campanha já envolveu o rompimento político com Michelle Bolsonaro, as declarações do influenciador Paulo Figueiredo de que as mulheres “votam estatisticamente muito mal” e a fala do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, segundo quem “mulher arruma enguiço com 20” ao explicar o fim da presidência nacional do PL Mulher.

Agora, a tentativa de apresentar uma agenda externa às mulheres acabou ofuscada pela polêmica em torno da Lei Maria da Penha. Em vez de consolidar o lançamento do Brasil por Elas, a declaração de Flávio deslocou o debate para a defesa da principal legislação brasileira de enfrentamento à violência doméstica.

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Cida: luta, consciência e afeto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0343482442.html

Palavra de poeta

Luta
Reginaldo Muniz    

Luta é palavra
Avessa ao sossego
Parece vaga
A quem dela tem medo
Tal luz que se apaga
Em autodesterro.

A palavra é luz 
Em movimento 
Não está posta à mesa 
Nem se perde no vento 
Rejeita a fraqueza 
Do eterno lamento. 

A palavra no tempo 
Revela seu acerto 
Em novo recomeço
- Cotidiano concreto - 
Em outro relevo. 
(Criança no berço.) 

A palavra tem preço. 
A todo momento 
Construir o processo 
Permanente e atento 
Avesso ao sossego 
Avesso ao lamento.

[Ilustração: David Alfaro Siqueiros]

Leia também: " Faz anos navego o incerto", poema de Caio Fernando Abreu   https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/palavra-de-poeta_7.html 

Fotografia

Luciano Siqueira 

"Fragmento" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/notas-avulsas.html
 

Poder algorítmico

O Leviatã digital
Ao converter reações emocionais em índices preditivos, o poder algorítmico substitui o debate racional pela modulação invisível dos afetos Eduardo S. Vasconcelos*/A Terra é Redonda      

1.

A política contemporânea talvez esteja diante de uma transformação mais profunda do que supõe análises comuns sobre  fake news , polarização, inteligência artificial ou redes sociais. Essas considerações são importantes, mas talvez sejam apenas sintomas de uma mudança maior: o posicionamento do poder para o interior da própria formação da consciência pública.

O problema já não é apenas o que o cidadão pensa. Não é assim que ele passa a desejar, temer, reagir e perceber o mundo antes mesmo de pensar.

Durante muito tempo, imaginamos o poder como algo visível: o Estado, a lei, a polícia, o parlamento, o governo, o partido, a imprensa, a empresa, a igreja, a escola. Hoje, no entanto, uma parte decisiva do poder tornou-se ambiental. Ele não aparece como ordem. Parece como recomendação. Não se impõe como censura direta. Aparece como fluxo. Não exige aprovação explícita. Produz permanência, dependência, reprodução e engajamento.

É nesse cenário que proponho pensar o conceito de “Leviatã digital” [1] : uma nova arquitetura de poder formada por plataformas, algoritmos, dados, vigilância, inteligência artificial, economia da atenção e administração dos afetos coletivos. Ele não substitui o Estado, mas passa a disputar com ele a organização da vida pública.

O Leviatã de Thomas Hobbes nasceu como resposta ao medo. Diante da ameaça de guerra de todos contra todos, os indivíduos entregariam parte de sua liberdade a uma autoridade soberana capaz de garantir ordem, segurança e previsibilidade.

O Leviatã clássico era visível. Tinha forma estatal. Legislava, punia, julgava, arrecadava, vigiava e comandava. O Leviatã digital é mais difuso. Não possui uma cabeça única. Não se limita ao Estado. É composto por empresas globais, plataformas digitais, infraestruturas algorítmicas, bancos de dados, sistemas de recomendação, publicidade comportamental, influenciadores, militâncias digitais e inteligência artificial.

Seu poder não está apenas em proibição. Está em orientação. Não está apenas em reprimir. Está em modular. Não está apenas em vigiar. Está em previsão.

O poder soberano dizia: obedeça. O poder algorítmico sugere: continue rolando a tela.

2.

A atenção tornou-se uma das principais mercadorias do capitalismo contemporâneo. Mas ela não é uma mercadoria. A atenção é a porta de entrada da consciência. Quem controla a atenção controla parte da percepção. Quem controla a percepção influencia o julgamento. Quem influencia o julgamento interfere no comportamento político.

A economia da atenção transforma o cidadão em usuário, o usuário em dado, o dado em previsão e a previsão em mercadorias. A vida subjetiva passa a ser extraída, calculada, segmentada e vendida. Nesse ambiente, a política não precisa mais convencer apenas por argumentos. Ela precisa capturar afetos. Medo, raiva, ressentimento, indignação, humilhação e pertencimento tornam-se recursos de mobilização. A política deixa de ser apenas disputa de projetos e passa a ser disputa pela arquitetura emocional da sociedade.

Jürgen Habermas criou a esfera pública como espaço de argumentação, crítica e formação racional da vontade coletiva. Essa ideia nunca se cumpriu, mas serviu como horizonte democrático.

O Leviatã digital corrói esse horizonte. A esfera pública está fragmentada em bolhas. A realidade comum é compensada por versões afetivas da realidade. O debate vira fato. A divergência vira ameaça. A dúvida vira fraqueza. A complexidade vira inimiga da viralização.

A democracia precisa de tempo. O algoritmo exige velocidade. A democracia precisa de escuta. O algoritmo prêmio fato. A democracia precisa de mediação. O algoritmo radicaliza o conflito. O resultado é uma política cada vez mais emocionalizada, performática e tribalizada.

Shoshana Zuboff chamou atenção para o capitalismo de vigilância: um regime econômico baseado na captura de experiências humanas transformadas em dados comportamentais. Mas a questão não é apenas econômica. É política. Quando a subjetividade passa a ser rastreada, prevista e influenciada, a democracia enfrenta um problema novo. A manipulação deixa de ser apenas propaganda pública e passa a operar no nível micropsicológico da experiência individual.

Guy Debord mostrou que a sociedade moderna transformou a vida em espetáculo. Pierre Bourdieu demonstrou que o poder simbólico opera quando é reconhecido como legítimo. Michel Foucault demonstrou que o poder moderno não apenas reprime, mas produz sujeitos.

O Leviatã digital articula essas três dimensões: espetáculo, poder simbólico e produção de subjetividade. Ele produz o sujeito conectado, indignado, vigiado, segmentado, ansioso e permanentemente convocado a reagir.

3.

O cidadão contemporâneo já não é apenas eleitor, trabalhador ou consumidor. Ele também é terminal afetivo de circulação política. Recebe estímulos. Reage. Compartilha. Indigná-se. Confirma a convicção. Adversários do Ataca. Defenda identidades. Produz dados. Alimenta o sistema que a captura.

Essa é a sofisticação do Leviatã digital: ele transforma a participação em depreciação. Cada gesto de engajamento parece liberdade, mas também alimenta a máquina que aprende a conduzir novos gestos. O sujeito acredita estar apenas expressando sua opinião. Muitas vezes, porém, está funcionando como vetor de circulação de narrativas que foram projetadas para explorar suas vulnerabilidades.

A democracia não desaparece. À medida que as eleições continuam. Os parlamentos continuam. Os tribunais continuam. Os partidos continuam. Mas todos passam a funcionar sob pressão de uma nova camada de poder.

Os parlamentares precisam atuar para suas bases digitais. Os governos precisam disputar narrativas em tempo real. Os gestos públicos passam a ser específicos por análises de imagem. Campanhas eleitorais segmentam medos. Crises institucionais são aceleradas por cortes virais. A mentira organizada circula mais rápido que sua correção.

A política pública, que exige continuidade e planejamento, passa a concorrer com a lógica do espetáculo permanente. O risco é grave: governar deixa de ser resolver problemas e passa a ser administrar percepções.

Nenhuma sociedade enfrenta aquilo que não consegue nomear. O conceito de “Leviatã digital” não pretende substituir outras categorias já fundamentais, como capitalismo de vigilância, sociedade do espetáculo, esfera pública, biopolítica ou poder simbólico. Ele busca articuladas essas dimensões em uma imagem política capaz de descrever nosso tempo.

Estamos diante de uma estrutura que não apenas comunica a política. Ela reorganiza a política. Não apenas transmite conflitos. Produz conflitos. Não apenas informa cidadãos. Modelo percepções. Não apenas observe comportamentos. Aprenda a induzi-los.

A democracia brasileira ainda discute, com razão, eleições, instituições, golpes, corrupção, desigualdade e representação. Mas precisa acrescentar outra pergunta ao seu vocabulário crítico: quem controla o ambiente mental no qual os cidadãos formam suas escolhas políticas?

O Leviatã Digital ainda não governa como Estado. Mas talvez você já esteja aprendendo a governar antes do Estado. E é justamente por isso que compreendê-lo deixou de ser uma curiosidade teórica. Tornou-se uma urgência democrática.

Eduardo S. Vasconcelos, professor e diretor geral do Instituto Federal Goiano (IF Goiano), é doutor em ciências pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) .

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ARENDT, Hannah.  Entre o passado e o futuro . São Paulo: Perspectiva, 2016.

BAUMAN, Zygmunt.  Modernidade líquida . Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BOURDIEU, Pierre.  O poder simbólico . Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

DEBORD, Guy.  A sociedade do espetáculo . Rio de Janeiro: Contraponto, 2017.

FOUCAULT, Michel.  Microfísica do poder . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

HABERMAS, Jurgen.  Mudança estrutural da esfera pública: investigações sobre uma categoria da sociedade burguesa . São Paulo: Editora Unesp, 2014.

HAN, Byung-Chul.  No enxame: perspectivas do digital . Petrópolis: Vozes, 2018.

HAN, Byung-Chul.  Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder . Belo Horizonte: Âyiné, 2018.

HOBBES, Thomas.  Leviatã, ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil . São Paulo: Martins Fontes, 2019.

MOROZOV, Evgeny.  Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política . São Paulo: Ubu, 2018.

ZUBOFF, Shoshana.  A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder . Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

Nota


[1] Leviatã Digital é uma categoria analítica proposta pelo para designar a arquitetura contemporânea de poder experimentar pela interação entre plataformas digitais, algoritmos, inteligência artificial, economia da atenção, vigilância de dados e produção de capital simbólico, cuja atuação influencia a formação da opinião pública e o funcionamento das democracias contemporâneas.

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