08 maio 2026

Palavra de poeta

Poesia de pires
Gianne Lorena     

quando eu era criança
tanto ficava vermelha
que nem parecia
morena

mas o tempo espelha
outras pessoas
ideias e palrações

mudam-se os refrões e
p l u f t !
estou moída

escuto cada coisa…
porém, minha vida curta
é tomada e substituída
pela mesma
coisa

e vou e volto
envolta ao arroio
humanitário

– não sou adubo
mas parece interessante ser
perante o que escutei
daquelas todas
que prezam o ter –

estou de qualquer lado
sou um tanto amarga
e não sei por que
tem gente que não larga

dizem que vicia,
vicia nada!
vicia o vício
que a mente inicia
pensando
no mascavo ou
no cristal

não, não, não
eu prefiro o normal

ser cafeína
é quase ser ninguém
só me sinto gente
quando desperto
neblina
que, na bruma
do meu efeito
convém

[Ilustração: Richard Diebenkorn]

Leia também um poema de José Martí https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/palavra-de-poeta_5.html 

07 maio 2026

Alienação & jornadas extensas

“Trabalho liberta”? A escala 6×1 e o espírito do capitalismo
Artigo discute os valores que naturalizam exploração, alienação e jornadas extensas, relaciona a escala 6x1 à desindustrialização brasileira e defende desenvolvimento produtivo para ampliar direitos e qualidade de vida
Carolina Maria Ruy e Igor Corrêa Pereira/Portal Grabois   


A escala 6×1 e o espírito do capitalismo

O debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 transcende os aspectos sociais e econômicos — ele também alcança dimensões culturais, morais e até filosóficas e relig iosas.

Soou folclórica a fala do presidente do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP), que afirmou à Folha de S.Paulo, em 26 de fevereiro de 2026, que “lazer demais e o ócio demais fazem mal”. Ele acrescentou: “E, se tivessem condições de faze r lazer, ok, tudo bem. O lazer é importante para o psíquico, para o desenvolvimento mental, para a saúde. Mas a população vai fazer lazer onde? O povo vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar. Pode ser o contrário”.

Suas ideias, no entanto, chocaram menos pelo conteúdo do que pela forma bruta e desprovida de filtros com que foram expostas. Na verdade, trata-se de concepções muito mais disseminadas no cotidiano do que seu aspecto caricatural pode sugerir.

O chamado “espírito do capitalismo”, que permeia o senso comum, reforça a noção de que práticas de abnegação e sacrifício são virtuosas — ainda que operem, na prática, como um verdadeiro dogma. A tendência de atribuir às empresas um status quase familiar, o uso recorrente do termo “colaborador” em lugar de trabalhador e a exigência simbólica de “vestir a camisa da empresa” seguem essa lógica de endeusamento do trabalho duro. Esse ideário também se manifesta no linguajar popular, em expressões como “Deus ajuda quem cedo madruga”. Não por acaso, a frase “o trabalho liberta” foi apropriada como lema pelo nazismo, estampada nos portões de campos de extermínio onde prisioneiros eram submetidos a trabalhos forçados, frequentemente até a morte.

Glamourização do trabalho árduo

Vivemos em um contexto no qual o trabalho árduo — independentemente de sua finalidade — e a busca por soluções individuais são simultaneamente glamourizados e sacralizados. Trata-se de um fetiche sustentado tanto pela lógica de mercado quanto por mecanismos de coerção moral, ancorados em valores de fundo religioso. Essa coerção mor al encobre a armadilha em que o país está preso ao ser forçado, por suas elites — sócias menores do rentismo imposto pela doutrina de Washington ao Sul Global —, a derreter sua capacidade industrial e produtiva.

Dito de outra forma, presos na armadilha da desindustrialização, resta aos poderosos dizer para o andar de baixo: “trabalhe enquanto eles dormem”.
A exigência da escala 6×1 é, em certo sentido, um sintoma da estrutura produtiva do país: ela emerge justamente nas atividades de menor valor agregado, em setores como comércio, serviços simples, logística básica e parte da indústria tradicional. A proliferação de lojas de açaí, cafeterias, barbearias, serviços de entrega e trabalho por aplicativos cria uma massa proletária de serviços, altamente precarizada, que só pode gerar lucro aos patrões por meio de longas jornadas e baixos salários. Quanto mais desindustrializada a economia, mais o trabalho se torna precário e mais se reforça essa glamourização do trabalho duro.

Trabalho (alienado) é virtude?

Na mesma semana em que as centrais sindicais realizaram a Conclat 2026 — ocasião em que reivindicaram a redução da jornada, o fim da escala 6×1 e a geração de emprego decente com base no desenvolvimento produtivo e industrial —, o jornal O Estado de S. Paulo publicou um artigo de opinião assinado pelo economista Roberto Macedo (UFMG, USP e Harvard) e por Wilson Victorio Rodrigues, membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, intitulado “6×1? Trabalho não é castigo, é virtude!”.

O texto não provocou o mesmo alvoroço que a fala do deputado, embora sustente ideias de mesma matriz. Expressas de forma mais polida e menos histriônica, suas formulações se aproximam ainda mais do senso comum. Para se opor à redução da jornada e ao fim da escala 6×1, os autores afirmam:

“O homem é vocacionado ao trabalho e deve persegui-lo com perspectivas amplas, elevadas, com o afã de levar adiante uma tarefa, empresa ou projeto, por vezes buscando a afirmação pessoal, mas também com a aspiração nobre de servir os demais e de contribuir com o progresso da sociedade”.

É verdade que o ser humano se diferenciou da natureza por sua capacidade de raciocínio, planejamento, transformação e trabalho. Nesse sentido, toda criação humana — e não apenas aquela mediada pelo salário — pode ser potencialmente transformadora.

No entanto, a abordagem do artigo omite a questão central que estrutura o debate sobre a redução da jornada e o fim da escala 6×1: a contradição entre capital e trabalho em uma economia desindustrializada. Os atributos exaltados dificilmente se realizam de forma plena nas condições concretas do trabalho alienado, predominante quando há pouca oferta de trabalho decente na indústria de ponta e muita oferta de empregos precarizados nos serviços e no comércio.

O texto também sustenta que “o trabalho é testemunho da dignidade do homem, de seu domínio sobre a criação; é meio de desenvolvimento da própria personalidade; é vínculo de união com os demais seres; fonte de recursos para o sustento da família” e que “em oposição à laboriosidade, temos a preguiça, vício capital e mãe de todos os vícios”.

Não se nega que todo trabalho possa desempenhar um papel relevante. Contudo, na sociedade capitalista, essa relação também é marcada por mecanismos de exploração e pela dominação de uma classe sobre outra. Isso ocorre porque o sistema impõe ao trabalhador a venda de sua força de trabalho como condição de sobrevivência, restringindo seu potencial de realização pessoal e criatividade. O trabalho se torna ainda mais opressivo quando precarizado em uma economia que encontra limites para desenvolver sua indústria, como a brasileira.

Resta, então, a pergunta: essas vozes estão, de fato, preocupadas com a produtividade e o desenvolvimento humano ou com a manutenção de mecanismos de coerção e de divisão de classe?

Uma concepção mais humanista do trabalho

A luta pela redução da jornada e pelo fim de uma escala abusiva representa, nesse contexto, um avanço possível no momento histórico atual: a busca por maior equilíbrio na distribuição do trabalho, do tempo e da riqueza produzida. No entanto, essa pauta deve estar articulada — como assinalou o documento da Conclat 2026 — à necessidade de geração de trabalho decente com base no desenvolvimento produtivo e industrial, no fomento à pesquisa e à inovação.

Trata-se de criar condições para que o trabalhador não apenas disponha de mais tempo livre, mas também tenha acesso a melhores oportunidades de formação, desenvolvimento pessoal e realização de suas vocações, superando a condição de mera engrenagem produtiva.

Mais do que isso, é necessário também um esforço crítico de revisão cultural, aliado a um projeto nacional de desenvolvimento, para que não se reproduzam, de forma acrítica, dogmas como o de que “o trabalho liberta” — ideias que, ao longo da história, serviram para encobrir a exploração e exaltar o sacrifício, sobretudo em uma economia que constrange o desenvolvimento.

Construir uma concepção mais humanista do trabalho implica reconhecê-lo como atividade potencialmente emancipadora e coletiva — e isso só será possível com a retomada da industrialização brasileira e o aumento da complexidade produtiva. Quanto mais valor agregado, mais o trabalho se torna produtivo, mais se valoriza e menor é a necessidade de jornadas extensas.


Carolina Maria Ruy é jornalista e pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical e editora do Rádio Peão Brasil. Integra o Conselho Consultivo da Fundação Maurício Grabois e coordena seu Grupo de Pesquisa sobre a sociedade brasileira.

Igor Corrêa Pereira é técnico em assuntos educacionais e mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Membro do núcleo da CTB da UFRGS. Atualmente é vice-pró-reitor de Assuntos Estudantis da UFRGS.

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Centrais sindicais entregam pauta a Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/trabalhadores-com-lula.html

Sylvio: "fenômeno"

Lula dialoga em pé de igualdade com qualquer líder mundial, como fez em encontro com Trump. É uma prova de que o Brasil atualmente, graças a ele, ocupa lugar de destaque no cenário internacional, onde nossa participação é cada vez mais importante e decisiva. Na verdade, o nordestino semialfabetizado que saiu de Pernambuco num pau de arara é um fenômeno. 

Sylvio Belém 

Crise alimentar global

A crise global de alimentos – ácido sulfúrico
Frente ao bloqueio militar ostensivo, o cerco silencioso à produção de ácido sulfúrico revela a eficácia da guerra assimétrica na desestabilização da segurança alimentar e energética
Christophe Ginisty*/A Terra é Redonda       

1.

Enquanto Trump anunciava seu bloqueio, a China discretamente cortava o fornecimento de ácido sulfúrico. Ninguém comentava, mas essa era uma das decisões mais importantes desta crise.

Vamos começar pelo básico, pois este assunto é pouco conhecido, mas de vital importância.

O ácido sulfúrico é um dos produtos químicos industriais mais utilizados no mundo. Sem ele:

Sem fertilizantes fosfatados, portanto, menos alimentos.

Sem mineração de cobre, portanto, menos cabos elétricos, infraestrutura e uma transição energética mais lenta.

Sem baterias, portanto, menos veículos elétricos.

Sem refino de petróleo.

Sem têxteis.

É uma molécula invisível, essencial para quase tudo o que a civilização industrial produz.

Em 10 de abril de 2026, a China anunciou que suspenderia suas exportações de ácido sulfúrico a partir de maio, afetando as indústrias de metais e fertilizantes, já fragilizadas pelas interrupções causadas pela guerra no Irã.

Esse momento não é insignificante. Coincide com o anúncio do bloqueio do Estreito de Ormuz pelos EUA.

Para compreender a magnitude do choque, é preciso considerar o que está acontecendo simultaneamente em três frentes.

Primeira frente: O fechamento do Estreito de Ormuz bloqueia as exportações de enxofre do Oriente Médio, região responsável por um terço da produção mundial de enxofre, matéria-prima para o ácido sulfúrico.

Segunda frente: A China está interrompendo suas exportações de ácido sulfúrico refinado, privando o mercado global de suas duas principais fontes de abastecimento simultaneamente. Como resultado, os preços do enxofre já subiram 70% desde o início do conflito. Os preços do ácido sulfúrico no Chile aumentaram 44% em apenas um mês.

Terceira frente, as consequências em cascata: O Chile, maior produtor mundial de cobre, importa mais de um milhão de toneladas de ácido sulfúrico chinês anualmente. Aproximadamente 20% de sua produção de cobre depende de processos que requerem esse ácido. A República Democrática do Congo, a Zâmbia e a Indonésia (para níquel) também são diretamente afetadas.

2.

Menos cobre significa menos infraestrutura elétrica global. Menos fertilizantes significa pressão adicional sobre a segurança alimentar global em um contexto onde os mercados agrícolas já estão sobrecarregados.

Um analista da CRU resume: “A perda dos volumes chineses será difícil de compensar, dada a escassez paralela de matérias-primas de enxofre.”

Em última análise, é isso que essa sequência revela sobre a estratégia da China.

Pequim não precisa declarar guerra. Basta fechar uma torneira. Essa é precisamente a doutrina da guerra econômica assimétrica que a China vem praticando metodicamente há quinze anos: usar sua posição dominante nas cadeias de suprimentos globais como alavanca, sem confronto militar direto.

A cada vez, o método é o mesmo: identificar o ponto invisível de dependência, esperar o momento de máxima tensão e, então, fechar a torneira. Simples assim.

Trump, por sua vez, anuncia um bloqueio marítimo espetacular em letras maiúsculas nas redes sociais. A China responde com uma decisão burocrática discreta, transmitida internamente aos seus produtores.

Um está agindo. O outro está jogando xadrez.

Em Le Pantin de la Maison Blanche (“O Fantoche da Casa Branca”), analiso como este governo responde a crises com ferramentas do século XX contra adversários que construíram armas do século XXI. Um bloqueio naval é uma arma de 1962. O controle das cadeias de suprimentos globais é uma arma de 2026.

E enquanto Donald Trump tuíta “Blown to hell” (“explodidos para o inferno”), Pequim está silenciosamente cortando o fornecimento da molécula da qual depende a produção global de alimentos.

A guerra da qual ninguém fala é, muitas vezes, a mais eficaz.

*Christophe Ginisty é especialista em inteligência de mídias sociais e fundador da Agorep Research. Autor do livro Le Pantin de la Maison Blanche: Comment le pouvoir réel s’exerce pendant que Trump fait le spectacle.

Publicado originalmente no X (ex-Twitter) do autor [https://x.com/cginisty/status/2043658080768909446]

Este é o segundo artigo de uma série de textos selecionados por Ruben Bauer Naveira. Para ler o primeiro clique em https://aterraeredonda.com.br/a-crise-global-de-alimentos/

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A hora da verdade do Brics https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/brics-novos-desafios.html 

Soberania ameaçada

Câmara aprova projeto sobre minerais críticos que põe em risco a soberania
A líder do PCdoB na Câmara, Jandira Feghali (RJ), encaminhou voto contra porque no texto não estava “expressamente” garantida a soberania do país
Iram Alfaia/Vermelho
        

Em votação simbólica, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou na noite desta quarta-feira (6) o projeto que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). São minerais cruciais na produção de tecnologias como smartphones, carros elétricos e sistemas militares. A matéria segue ao Senado.

Contudo, na forma como foi aprovado, o substitutivo do relator, deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), é considerado uma ameaça à soberania do país.

Embora reconheça o esforço dele e do governo federal na construção de um texto que busque proteger o interesse nacional, a líder do PCdoB na Câmara, deputada Jandira Feghali (RJ), posicionou-se contra o substitutivo porque nele não está “expressamente” garantida a soberania do país.

“Observando inclusive o artigo 172 da Constituição, aqui está escrito, a lei disciplinará, com base no interesse nacional, os investimentos e o capital estrangeiro e incentivará os reinvestimentos e regulará a remessa de lucros, ou seja, a lei precisa deixar claro até onde pode ou não pode o capital estrangeiro intervir ou incidir sobre o interesse brasileiro”, explica a líder.

Para ela, isso é importante por se trará de uma área “absolutamente estratégica para o desenvolvimento no século 21”.

“Eu não vejo a expressão, inclusive, terras raras nesse texto. O mundo inteiro procura essas reservas e o Brasil as tem. China e Brasil são as duas grandes reservas e o mundo quer botar a mão aqui, quer tirar a nossa riqueza em benefício da sua tecnologia e da sua soberania e não da nossa”, diz líder.

Jandira cita o caso da empresa norte-americana USA Rare Earth (USAR) que comprou a brasileira Serra Verde, que opera a mina Pela Ema, em Minaçu (GO).

“Eles sabem do que eles estão tratando, nós sabemos do que está sendo tratado, nós estamos falando de transição digital, de transição energética, de defesa nacional, estamos falando de defesa ambiental. São questões no mundo de hoje que são absolutamente definidoras da geopolítica mundial”, afirma a líder.

A deputada diz que essa é a grande disputa mundial. “É a disputa geopolítica que os Estados Unidos querem vir aqui buscar nossa reserva para disputar, inclusive, com a China, de onde eles dependem”, disse.

Geopolítica

Para o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), a soberania sobre minerais críticos, estratégicos ou terras raras, expressão que ganha espaço no debate público, não deve ser tratada como tema ideológico, nem como tema acadêmico.

“É um tema central da geopolítica mundial, e o Brasil e o Congresso Nacional deveriam tratá-lo nesses termos (…) Não tenho a menor dúvida em afirmar que o projeto de lei sobre terras raras é uma ameaça à soberania nacional brasileira, porque não estabelece limites para o controle societário de empresas estrangeiras, nem limites para o acesso a informações geológicas estratégicas do Brasil”, afirma.

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A inteligência artificial e a nova fronteira da desigualdade no Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ia-desigualdade-social.html 

Arte é vida

 

Candido Portinari

"A pulga, a ciência e a paz mundial" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/a-pulga-quem-diria.html 


Minha opinião

Raimundo Rodrigues Pereira, presente!
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65    

Uma amizade de cinco décadas alimentada a conta-gotas, muito menos pela frequência (esporádica) com que nos víamos, mais pela dimensão do diálogo em nossos encontros — de 1977 a anos recentes.

Ex-preso político empenhado na reorganização do PCdoB em Pernambuco e próximo da conclusão do curso médico, tornei-me responsável pela sucursal do jornal Movimento em momento de efervescência política: a anistia, o retorno de Miguel Arraes, Francisco Julião e outros tantos exilados, os primeiros impulsos do movimento sindical que se reorganizava, as batalhas travadas pelo então MDB nas últimas eleições sob a ditadura...

Algumas vezes, em reunião do jornal em São Paulo e semanalmente por correspondência, a partir do copião que enviava dando conta dos fatos mais relevantes cá na província, que poderiam ou não, a critério do editor Raimundo, ensejar matérias.

Nos anos que se seguiram, aqui e acolá nos vimos em diversas circunstâncias. 

Aparecia esporadicamente em Pernambuco para contatos políticos, oportunidade em que nos encontrávamos.

Algumas vezes, o governador Miguel Arraes me convidou para almoço com Raimundo.

— Vamos conversar, dizia Arraes. 

— De que se trata?

— Deve ser um projeto novo dele...

Sim, bem sabemos, Raimundo persistiu em projetos sucessivos: após Opinião e Movimento, Retrato do Brasil, Editora Manifesto...
Também aconteceu da mesma forma, anos depois, com o governador Eduardo Campos: almoço em palácio para ouvir Raimundo. 

Numa das vezes, tratava-se de reportagem em construção sobre a privatização da água nos centros urbanos. Terminado o almoço, nos despedimos e ele permaneceu para uma primeira entrevista com o engenheiro João Bosco, presidente da Companhia Pernambucana de Saneamento, trazido à nossa presença pelo governador.

Quando vice-prefeito do Recife, reservava um expediente inteiro para recebê-lo, manhã ou tarde. Cabia tudo: literatura, imprensa e, naturalmente, a conjuntura política.

Numa das oportunidades, promovemos um debate público no auditório da Prefeitura em que ele discorreu sobre a situação política no mundo e no Brasil.

Para mim sempre um aprendizado. Concordando ou eventualmente divergindo, impressionava o absoluto rigor com que ele tratava as informações no exercício do jornalismo. 

Na epidemia do Zika vírus (2015-2016), a seu pedido, consegui que fosse recebido no Instituto Materno-Infantil de Pernambuco (IMIP), hoje Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, para entrevistas com um núcleo de pesquisadores. 

Mais de um mês após me enviou por e-mail a primeira versão da reportagem contendo a ausculta de especialistas de vários centros de pesquisa e lavrada com a rigorosa objetividade de sempre. 

Nos anos recentes não tivemos mais contato, mas em inúmeras oportunidades me referi às nossas conversas e, sobretudo, à histórica aventura do jornal Movimento.

Como escreveu Carlos Azevedo no Portal Grabois, Raimundo morreu! Raimundo vive!

*Texto da minha coluna semanal no Portal Vermelho

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As voltas que o mundo dá https://lucianosiqueira.blogspot.com