28 maio 2026

Minha opinião

Supressão da escala 6x1: extraordinária vitória parcial*
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65 
     

Finalmente, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou a proposta de emenda à Constituição (PEC) que suprime a escala 6×1 (seis dias de trabalho com apenas um de descanso) e reduz a jornada das atuais 44 para 40 horas semanais.

A matéria agora será apreciada e votada no Senado.

Larga vitória do povo, apesar da correlação de forças adversa. Mais uma vez, como em outros instantes marcantes de nossa História recente, prevaleceu a pressão popular.

Faz-me lembrar a eleição de Tancredo Neves para a presidência da República no Colégio Eleitoral, em janeiro de 1985, vencendo por 480 votos contra 180 dados a Paulo Maluf e 26 abstenções.

O tal Colégio Eleitoral fora constituído pela totalidade dos senadores e deputados, acrescida por dez parlamentares estaduais escolhidos pelas Assembleias Legislativas, de modo a assegurar uma sólida maioria sintonizada com o regime militar.

A Assembleia Legislativa de Pernambuco, onde eu ocupava uma cadeira pela legenda do PMDB mas assumidamente pelo PCdoB, os dez deputados foram escolhidos unanimemente pró-Maluf, a exemplo dos parlamentos estaduais em todo o país.

Ocorre que, mesmo diante de um pleito indireto, escoimado do voto popular, aconteceram em curto espaço de tempo manifestações públicas em favor de Tancredo e contra Maluf  tão vigorosas que até superaram a campanha das diretas-já, ocorrida pouco antes, em 1983-1984.

A correlação de forças se inverteu, Tancredo venceu no mesmo parlamento que havia se negado a votar a emenda Dante de Oliveira — que restabeleceria as eleições diretas — negando-lhe o quórum.

Agora acontece algo semelhante, embora as manifestações de rua nem de longe se assemelhem à dimensão das de então. Hoje, a pressão se faz multifacetada, nas ruas, nos salões e nas redes.

Apesar da desigualdade de forças no manejo dos instrumentos digitais, praticamente tudo o que o movimento popular e democrático realiza em praça pública de imediato se amplifica à enésima potência nas redes sociais e estimula a discussão nos ambientes de trabalho, nas escolas e que tais..

O internauta comum se manifesta mediante clics e postagens e contribui, no conjunto, para que a pressão ecoe no parlamento.

A maioria conservadora e de direita não se mantém incólume, tanto que a matéria avançou — obtendo as assinaturas necessárias para a sua tramitação formal — seja pela sua justeza e pelo amplo sentimento popular favorável, como pela proximidade das próximas eleições, em que parlamentares inicialmente contrários temem as inevitáveis cobranças em suas bases.

Agora se deu uma conjugação de forças entre a ação do governo Lula e das bancadas situadas à esquerda e, paulatinamente a crescente adesão de parlamentares do centro conservador.

No polo oposto, a extrema direita esperneou o quanto pôde, manobrando de todas as formas possíveis. Sem êxito.

Agora, a tramitação no Senado também encontra resistências – a partir mesmo do presidente ultraconservador e oportunista David Alcolombre, useiro e vezeiro dos poderes autocráticos da presidência da Casa em favor das elites dominantes e contrário aos interesses do povo.

A pressão popular deve prosseguir – no parlamento, nas ruas, nos salões (ampliando o debate “presencial” junto a variados setores da sociedade) e nas redes. 

*Texto da minha coluna semanal no portal ‘Vermelho’

[Na foto, parte da aguerrida e competente bancada do PCdoB na Câmara]

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A escala 6×1 e o espírito do capitalismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/alienacao-jornadas-extensas.html 

Editorial do 'Vermelho'

Na acirrada disputa presidencial, Lula passa à frente
Flávio Bolsonaro perde força, alvejado pelo caso Master. Lula impõe sua popularidade pela robustez de seu governo
Editorial do 'Vermelho' 
 

As pesquisas após as revelações de ligação financeira e pessoal do pré-candidato da extrema direita Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, sinalizam um novo momento da pré-campanha presidencial. Rompeu-se a tendência de empate técnico no segundo turno e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu uma vantagem, circunstancialmente, importante sobre o seu principal adversário.

O falso patriotismo de Flávio Bolsonaro já havia sido desmascarado. Agora, pela força dos fatos, se vê o quão hipócrita é o vozerio bolsonarista sobre combate à corrupção. Flávio Bolsonaro não apresentou o contrato – se é que ele existe – de financiamento quase exclusivo do filme Dark Horse, que beatifica seu pai, que está preso, pelo banqueiro Daniel Vorcaro, criminoso responsável pela maior fraude financeira do país.

Na verdade, não está esclarecido o destino real dos R$ 61 milhões repassados por Vorcaro. Ao contrário, há um rol de versões que se contradizem. Na última delas, Waldemar Costa Neto, presidente do PL, disse à imprensa que Flávio Bolsonaro visitou o banqueiro, em prisão domiciliar, para “ver se conseguia o restante do dinheiro”, enquanto o senador havia afirmado que o encontro ocorreu apenas para “colocar um ponto final” na relação.

De conjunto, esse episódio empurrou a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro para o declive, mas há uma razão objetiva. O crescimento de Lula começa a se impor aos olhos do eleitorado, inclusive das camadas intermediárias entre os polos em disputa, pela comparação da estatura e do significado político dos dois candidatos, o que representam para o presente e o futuro imediato do Brasil. Lula também reforçou a sua representatividade enraizada no povo, um líder reconhecido e respeitado em todo o mundo.

Flávio Bolsonaro é o oposto de Lula. Trata-se de uma figura menor, sem currículo próprio relevante, que ostenta como credencial apenas o sobrenome do pai criminoso. Sua ficha registra casos como a homenagem, quando foi deputado estadual no Rio de Janeiro, com a Medalha Tiradentes – maior honraria do estado – ao ex-capitão a Adriano Magalhães da Nóbrega (Capitão Adriano), a pedido de seu pai, apontado como chefe da milícia de Rio das Pedras e integrante do grupo de assassinos de aluguel conhecido como “Escritório do Crime”.

Estão também no seu currículo o esquema chamado de “rachadinhas”, o desvio de salários de assessores em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Como senador, exerce um mandato apagado, cujo “ponto alto” é a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre privatização de praias.

O que preocupa os eleitores, de fato, é a perspectiva para o país. O que importa é a previsão de como estará o Brasil e a vida de cada família no próximo quadriênio. Isso explica o empuxo da campanha de Lula e a perda da tração de Flávio Bolsonaro, a comparação entre os dois candidatos para se vislumbrar como o país será conduzido. E um desses elementos é a comparação entre os governos Lula e Jair Bolsonaro.

O governo bolsonarista tem como herança maldita recessão, falência de milhares de empresas e perda de milhões de postos de trabalho, um quadro de tragédia social, de aviltamento da soberania nacional, de ataque contínuo à democracia e de centenas de milhares de mortes pela conduta irresponsável e criminosa do então presidente da República durante a pandemia da Covid-19. Os governos liderados por Lula têm um legado de importantes conquistas para o povo e para o país e jamais ameaçaram a democracia.

Essa analogia está presente na atual disputa presidencial. Flávio Bolsonaro, dia sim outro também, vai à Faria Lima reafirmar seu pacto com os banqueiros, enquanto Lula vai ao encontro do povo, defendendo com altivez a economia nacional, com valorização do trabalho e geração de emprego e renda.

Flávio Bolsonaro e seu clã se juntaram ao presidente Donald Trump para impor o tarifaço contra o Brasil, assumindo o papel de traidores da pátria. Agora, foi mendigar uma audiência com o presidente estadunidense, implorar por uma boia para a sua pré-candidatura.

O desespero para agarrar-se a Trump é tal que se pavoneia pela mídia de uma agenda atrativa à Casa Branca: se juntar ao governo estadunidense em defesa das big techs e contra o governo brasileiro que, recentemente, estabeleceu regras que podem puni-las caso não removam conteúdo criminoso.

A pré-campanha de Lula precisa aproveitar esse bom momento e avançar nas distintas dimensões. Neste instante, o presidente está à frente de uma larga articulação política, social, partidária, econômica e parlamentar para proporcionar aos trabalhadores a conquista da redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1, sem redução salarial, enquanto senadores da aliança de Flávio Bolsonaro tentam dificultar ao máximo a aprovação dessas medidas, propondo inclusive retrocessos como o “trabalho por hora”.

Lula está correto ao mandar às favas a ladainha neoliberal que acusa o governo de “irresponsabilidade fiscal”, “gastança” ou coisa que o valha. Foram construídas as condições para conquistas como o novo programa Desenrola; o programa Move Aplicativos; e o programa Brasil Contra o Crime Organizado.

Com base na unidade da esquerda e do campo progressista, a pré-campanha de Lula deve seguir construindo aliança, a mais ampla possível, estendendo-se ao centro e à centro-direita. Ampliar ações como o chamado que fez ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para que coloque em votação a PEC da Segurança Pública. É preciso, também, prosseguir com a mobilização do povo, na esteira do vigoroso brado que ecoa nas ruas pela redução da jornada de trabalho.

A pré campanha precisa deixar patente que um eventual quarto mandato do presidente Lula irá além em termos de conquistas e realizações. Tudo o que foi feito deve ser apresentado como alicerce para uma nova etapa do desenvolvimento nacional. Essa mensagem de perspectiva arrojada precisa adquirir visibilidade por um programa de governo avançado que tenha a soberania nacional como vértice, entrelaçada com o desenvolvimento, a democracia e a valorização do trabalho.

Um quarto mandato que crie condições para que se realizem as reformas estruturais democráticas, condição para que o país palmilhe o caminho do desenvolvimento soberano, capaz de elevar enormemente a qualidade de vida do povo.

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Leia também: Unidade e luta são decisivas para o presente e o futuro dos trabalhadores https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/editorial-do-vermelho.html 

Postei nas redes

A mídia neoliberal dominante parece ter desistido de Flávio Bolsonaro: é cacete o dia todo e o senador segue se explicando sem convencer. Quem será o novo candidato da Rede Globo? 

Enrolados e hipócritas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/minha-opiniao_0898482679.html 

Celso Pinto de Melo opina

A terceira onda brasileira
Do otimismo de JK ao desafio de 1968 – e o que está em jogo em 2026
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN    


“Se muito vale o já feito, mais vale o que será” (Nos Bailes da Vida, de Milton Nascimento e Fernando Brant)

Há momentos raros em que um país deixa de duvidar de si próprio. O Brasil viveu pelo menos dois desses momentos no século XX – e ambos foram mais do que simples conjunturas econômicas ou ciclos culturais. Foram estados de espírito coletivos.

O primeiro, no final dos anos 1950, foi o do otimismo desenvolvimentista. Sob Juscelino Kubitschek, o país crescia, construía Brasília e passava a se enxergar como uma nação moderna em formação. No início dos anos 1960, a seleção conquistava o bicampeonato mundial, o basquete repetia a façanha em 1959 e 1963, Maria Esther Bueno brilhava em Wimbledon, Éder Jofre tornava-se campeão mundial de boxe, enquanto a Bossa Nova projetava para o mundo uma imagem sofisticada e cosmopolita do Brasil.

Em Brasília, a arquitetura de Oscar Niemeyer e o plano urbanístico de Lúcio Costa materializavam uma ambição inédita: a de que o país podia não apenas crescer, mas também reinventar sua própria paisagem e propor uma estética moderna ao mundo. A Bossa Nova traduzia essa mesma renovação em linguagem musical. Brasília e a Bossa Nova anunciavam, cada uma à sua maneira, que o futuro parecia ter finalmente chegado ao país.Não era apenas desempenho esportivo ou artístico. Era confiança histórica. Era a sensação de que o país, por fim, superava o “complexo de vira-latas” diagnosticado por Nelson Rodrigues após 1950. Havia projeto, crescimento e autoestima.

A segunda onda foi mais paradoxal. No final dos anos 1960, sob a ditadura, emergiu uma geração que transformou repressão em invenção. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gal Costa, Maria Bethânia, Paulinho da Viola e Geraldo Vandré não apenas produziram grandes canções – também produziram gestos públicos. Se o Tropicalismo reorganizou a linguagem cultural brasileira, Vandré simbolizou o momento em que a canção se tornava um enfrentamento público. No cinema, Glauber Rocha e o Cinema Novo radicalizavam a crítica social e política, propondo uma estética da fome que confrontava a desigualdade estrutural do país.

O estado de espírito já não era o da euforia confiante, mas o da inteligência desafiadora. A censura exigiu metáfora; a repressão estimulou sofisticação. A cultura tornou-se espaço de resistência e elaboração crítica.

Nada disso foi casual. Nos dois casos, havia tensão histórica. Nos anos JK, a aceleração econômica alimentava a crença no futuro. No final dos anos 1960, o avanço do autoritarismo exigia uma resposta estética. Quando a história se intensifica, a cultura responde.

Hoje, o Brasil vive um terceiro momento – ainda em formação. Não há euforia, tampouco confronto aberto com um regime fechado. Há reconstrução democrática sob pressão geopolítica. Após anos de radicalização política, corrosão institucional e fragmentação do debate público, o país tenta recompor seu tecido político e reposicionar-se em um mundo em disputa. A rivalidade entre Estados Unidos e China reconfigura cadeias produtivas, impõe escolhas tecnológicas e redefine margens de autonomia. Transição energética, reindustrialização verde, soberania digital e política externa ativa voltaram ao centro da agenda.

O país voltou a discutir neoindustrialização, minerais estratégicos, semicondutores, bioeconomia e integração sul-americana – temas que haviam praticamente desaparecido do horizonte nacional poucos anos antes. Ainda de forma desigual e incompleta, reaparece a ideia de que desenvolvimento não é apenas crescimento econômico, mas também capacidade de produzir tecnologia, cultura e autonomia política.

No plano cultural, surgem sinais que não devem ser subestimados. Obras como Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, produções recentes como O Agente Secreto e peças como Lady Tempestade retomam a memória histórica, o autoritarismo e a identidade nacional sob ângulos distintos – do cinema à cena teatral. Não é celebração. É elaboração. O país parece empenhado em compreender o que viveu para decidir o que quer ser.

O estado de espírito atual, porém, permanece em disputa. A esfera pública fragmentou-se em bolhas digitais, a confiança coletiva é frágil e a desigualdade persiste como um obstáculo estrutural. Ao mesmo tempo, a sociedade é mais plural e mais consciente de suas próprias fraturas do que nas décadas anteriores.

Durante parte da última década, contudo, prevaleceu um clima distinto. O país experimentou um período de desalento cívico, enfraquecimento institucional e retração do horizonte coletivo. O clima de beligerância permanente, o esvaziamento de políticas públicas estruturantes e o rebaixamento do debate público produziram não apenas instabilidade política, mas também uma sensação difusa de perda de rumo. A confiança – aquela matéria-prima invisível das grandes ondas culturais – tornou-se escassa.

Grandes ondas culturais raramente surgem em sociedades que perderam completamente a capacidade de imaginar o futuro.

A questão central talvez seja esta: o Brasil conseguirá transformar a reconstrução democrática em uma afirmação soberana e mais igualitária diante dos desafios do século XXI?

Se conseguir, poderá emergir um novo clima cultural – não de euforia ingênua, nem apenas de resistência defensiva, mas de maturidade afirmativa. A primeira onda foi movida por um otimismo confiante. A segunda, por desafio criativo ao autoritarismo. Uma terceira dependerá da capacidade de combinar democracia estável, projeto nacional e redução consistente das desigualdades. Sem inclusão social, não há horizonte compartilhado. Sem soberania produtiva e tecnológica, não há autoestima duradoura. 

O “complexo de vira-latas” reaparece sempre que o país se percebe sem rumo. Ele prospera na sensação de impotência. Mas recua quando a sociedade identifica um caminho plausível e bem sustentado. Confiança não nasce de slogans; nasce de resultados e de propósito coletivo.

Pela primeira vez em muitos anos, o país parece se aproximar de uma escolha que ultrapassa programas de governo e alcança visões antagônicas sobre o próprio significado de desenvolvimento, democracia e soberania nacional.

As eleições de 2026 serão decisivas nesse processo. Não se tratará apenas de escolher um governo, mas de definir a orientação histórica do país. Elas indicarão se o Brasil consolida um pacto democrático capaz de sustentar um projeto de longo prazo, baseado em inclusão, soberania e reconstrução institucional, ou se reabre um ciclo de instabilidade institucional e erosão das bases civilizadas de convivência pública – cenário que inevitavelmente comprometeria qualquer horizonte cultural consistente.

A arte costuma antecipar o que a política tarda em organizar. Foi assim nos anos 1960. Pode voltar a ser agora.

O Brasil talvez não esteja às vésperas de uma nova euforia, mas pode estar diante de algo mais sólido: a afirmação consciente de uma nação que decide combinar democracia, soberania e igualdade como a base do seu futuro.

Quando isso acontece, a imagem do vira-lata deixa de definir o país – e o Brasil volta a se reconhecer como protagonista de sua própria história.

Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências 

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Extrema direita patina na lama https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/minha-opiniao_01219044875.html 

Sylvio: soberania

O Brasil tem prestígio junto aos Estados Unidos, apesar do governo Lula, diz Flávio Bolsonaro. Puro engano ou deslavada mentira. O prestígio de que desfruta nosso País é resultado da postura corajosa do presidente Lula, que trata de igual para igual com qualquer líder mundial, sem perder um milímetro sequer de nossa soberania.

Sylvio Belém   

Riqueza de Serra Verde é do Brasil! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/editorial-do-vermelho_28.html 

Programa social bem-sucedido

Bolsa Família, o preconceito e a luta pela renda
Lucilene Barbosa*  

De tempos em tempos, algumas pessoas criticam o Bolsa Família, dizendo que o programa cria dependência e desmotiva o trabalho. Esse tipo de opinião ignora a desigualdade histórica do Brasil e acaba culpando as pessoas pela pobreza. O Bolsa Família não é um privilégio, mas uma política de proteção social que garante o mínimo necessário para milhões de famílias sobreviverem e contribui para reduzir a pobreza, a extrema pobreza e a desigualdade.

Os resultados do Bolsa Família aparecem claramente na vida das famílias. Pesquisas mostram que houve melhorias na alimentação, no acesso à saúde, na frequência escolar e na proteção de crianças e adolescentes. O programa também ajudou a reduzir a mortalidade infantil e a prevenir doenças evitáveis. Não é verdade que o Bolsa Família prende as pessoas ao benefício: milhões de famílias deixam de receber quando conseguem aumentar a renda por meio do trabalho ou de outras formas de inclusão econômica. Além disso, estudos recentes do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social mostram que o programa ajudou cerca de 256 mil beneficiários a entrar no ensino superior, ampliando as oportunidades educacionais e profissionais para quem antes não tinha acesso à universidade.

As críticas ao Bolsa Família geralmente trazem outro problema: a desconfiança constante em relação às famílias pobres. Em vez de discutir a desigualdade, o desemprego ou a precarização do trabalho, parte do debate passa a tratar essas pessoas como suspeitas por definição, insinuando que há fraude, má-fé ou algum “jeitinho” para continuar recebendo o benefício. Pesquisas sobre o programa e sobre a opinião pública mostram que esse preconceito não existe apenas por falta de informação: mesmo quando as pessoas recebem dados corretos sobre o funcionamento e os resultados do Bolsa Família, as opiniões negativas muitas vezes permanecem, o que revela um forte preconceito de classe, e não apenas desinformação, negando às pessoas pobres o direito de serem reconhecidas como sujeitos de direitos.

No dia a dia das famílias em situação de vulnerabilidade, o que se vê não é acomodação, mas sim um esforço constante para garantir comida, transporte, material escolar e cuidados básicos, mesmo em meio a trabalho precário e renda instável. Muitas pessoas já chegam aos serviços públicos sobrecarregadas por várias violações de direitos e encontram no Bolsa Família um dos poucos instrumentos de proteção social que garantem o mínimo para sobreviver e proteger as crianças. Olhando de perto, fica claro que o programa não substitui o trabalho, mas ajuda a reduzir os efeitos de um modelo econômico que gera exclusão.

Ao mesmo tempo, uma nova ameaça pesa sobre o orçamento das famílias: as apostas on-line, conhecidas como bets. Em poucos anos, esse mercado passou a movimentar bilhões de reais por mês e já é um dos principais fatores de endividamento das famílias, afetando ainda mais quem tem menor renda. Enquanto uma política pública busca garantir direitos básicos, as bets disputam essa mesma renda com promessas de ganho fácil, que muitas vezes acabam em dívidas, ansiedade e perda de controle do orçamento doméstico.

Defender o Bolsa Família é defender a dignidade de quem enfrenta muitas dificuldades. Isso significa combater o preconceito contra os beneficiários e também denunciar mecanismos que tiram renda das famílias e aumentam o endividamento, como as apostas on-line. Entre culpar quem precisa de proteção social e enfrentar as estruturas que criam desigualdade e exploração, a escolha mostra o tipo de sociedade que queremos construir.

*Lucilene Barbosa é assistente social, pesquisadora do GEPE/UFPE

[Ilustração: imagem produzida por IA]

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Leia também Luciana Santos: O papel estratégico do CTVacinas para o Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/boa-noticia_28.html 

27 maio 2026

Palavra de poeta

Nada é impossível de mudar
Berthold Brecht   

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar
.

[Ilustração: Eugeniusz Zak]

Leia também: A palavra e o gesto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/minha-opiniao_14.html