Como o ricaço falido virou presidente dos EUA
Nos negócios, Trump driblou as leis como agora burla as regras do esporte que o mundo ama e ele mal conhece
Heloisa Villela/Liberta
Os Estados Unidos são o mesmo país das oportunidades! Onde mais um sujeito que se distribuía convencendo todo o mundo que nadava em dinheiro quando estava falido e levou vida de bilionário enquanto seus cassinos quebravam se voltariam, finalmente, o ricaço que imaginava ser ao ocupar uma cadeira de presidente da República? Pois Donald Trump, enfim, chegou lá, driblando a ética, enfrentado as leis e, agora, criando as próprias regras até para um esporte que o mundo ama e ele mal conhece.
Eu imagino como o jornalista e escritor David Cay Johnston deve estar… Vencedor do Prêmio Pulitzer, Johnston escreveu mais de um livro revelando detalhes da trajetória errática de Donald Trump. Um dos melhores, The Making of Donald Trump , narra a passagem desastrosa de Trump por Atlantic City e a negociação competitiva da dívida milionária que ele acumulou. Nessa época, começo dos anos 1990, acompanhei de perto duas negociações de porte em Nova York: a da dívida de Trump e a da dívida externa do Brasil. Os problemas tinham origens muito diferentes. O que havia em comum entre eles era a mobilização da turma da bufunfa na volta da mesa.
Máfia do cimento
No caso do Brasil e de outros países do terceiro mundo, foram mudanças nos Estados Unidos que fizeram disparar o valor das dívidas nacionais. Mas Trump não. Foi a má administração mesmo, e os gastos pra lá de excessivos que levaram o falso milionário à mesa de negociação. E ele saiu por cima! Aqui entra a investigação de Johnston para explicar o milagre. Envolvimento com mafiosos, compra de favores e influência, um bom e fiel “consertador” (o quebra-galho das situações) e o tradicional bullying que o mundo inteiro hoje conhece bem.
Para disparar no mercado imobiliário nova-iorquino, negócio que herdou do pai, Donald Trump se aliou aos mafiosos do setor de cimento que os demais empresários da construção civil combateram com auxílio da polícia. Para Trump, nunca faltou o insumo básico, mesmo quando a máfia manipulou o sindicato e promoveu greves para forçar o aumento dos preços. Em Atlantic City, ele dobrou as regras que regulamentavam o negócio dos cassinos para entrar no mercado e ser dono de três estabelecimentos. Para Trump, nunca valeu a exigência de um ano de espera e investigação minuciosa do passado do pretendente. Ele conseguiu a licença mesmo tendo sido alvo de quatro investigações, o que eliminaria qualquer outro candidato.
Se seguisse as regras, a comissão de Atlantic City não teria se arrependido amargamente mais tarde, quando os cassinos, verdadeiras minas de ouro para qualquer dono, se tornassem insolventes nas mãos de Trump . Era muito ouro para ele não aproveitar… Na época, Trump disse a todos os jornalistas que eram bilionários, que valia U$ 3 bilhões. Quando pararam a roda e fizeram as contas, Trump DEVIA U$ 3,2 bilhões. Cerca de mil advogados, representantes do falso bilionário e dos cerca de 70 bancos que têm quebrado, fecharam um acordo para Trump sobreviver. Johnston descreveu com perfeição o negócio e eu faço aqui uma tradução livre:
"Parte do acordo estabelecia uma mesada para Trump. Ele teria que sobreviver com U$ 450 mil por mês, menos do que os U$ 583 mil meses que gastaram em maio de 1990 (o equivalente a mais de um milhão de dólares em 2016). A mesada era tão surpreendentemente grande que o The New York Times publicou uma fala de um bilionário dizendo: 'Eu não tenho a menor ideia de como gastar US$ 450 mil em um mês'. Mas Trump gastou”.
Ele só conseguiu a bênção da Comissão de Cassinos de Atlantic City porque os diretores foram coniventes com a quebra de todas as regras na hora de permitir que entrasse no mercado. Para puni-lo depois, mantenha que admita o erro original. E foi assim ao longo da “carreira”. Quebrar regras pra todo lado e com um único objetivo: chegar ao topo. Por isso, ele sempre processou de volta quem o questionava na justiça. Não admitia perder e dizia que jamais fechava acordos para evitar processos. Mentira. E essa é outra arma que ele usa com frequência.
Todos os ingredientes desse passado nebuloso estão em campo e bem à vista até hoje. Cartão vermelho, nem pense! Trump deu um telefonema para o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e resolveu o problema da seleção dos Estados Unidos na Copa do Mundo. Num passe de mágica, fez desaparecer a sombra de Folarin Balogun. Livre da conversa, o titular poderia participar da goleada que tirou os Estados Unidos do Mundial. “Vai tarde”, disse o mundo depois da manobra de Trump, que contornou com a subserviência de Infantino para desconsiderar as regras do torneio.
Jogatina financeira
O “Laranjão” não se limita a ditar as regras dos jogos, no gramado ou nos cassinos. A jogatina financeira das criptomoedas serviu muito bem aos interesses de um presidente que usa a carga para encher o bolso. No primeiro ano deste segundo mandato, segundo o New York Times, Trump faturou US$ 1,4 bilhão com essas moedas. No ano passado, levou outros U$ 2,2 bilhões. E foi uma empresa dos Emirados Árabes Unidos que garantiu boa parte desses faturamentos ao comprar quase metade da companhia de criptomoedas da família presidencial. Na sequência da transação, Trump contrariou as regras previstas pelo Congresso dos Estados Unidos e permitiu que os Emirados comprassem chips de computador para uso em Inteligência Artificial.
O presidente que criticou as critpo, dizendo que eram o paraíso de traficantes, usou essas moedas para enriquecer desde o primeiro dia do segundo mandato. Hoje, Trump é um dos maiores operadores do mercado para o que deveria ditar regras de funcionamento. Ele, que não respeita leis, regras e normas do próprio país, quer ditar regulamentações em campo alheio. E usa o arsenal militar para ameaçar, e até punir, quem se recusa a obedecer sem contar com armas capazes de enfrentar o valentão.
Foi assim com o sequestro de Nicolás Maduro , na Venezuela, e com o assassinato de pessoas descobertas pelos ataques de Trump em pequenas embarcações na costa do país. No Irã, ele redescobriu os limites do poder bélico dos Estados Unidos. Com a China, aí sim, os limites são claros. Ele fala grosso, mas afina nas negociações.
No caso do Brasil, o resultado ainda é uma incógnita. Trump avançou no caminho de uma agressão militar. Já tomei os primeiros passos ao declarar como terroristas as facções criminosas (CV e PCC). Mais uma vez, subverte as regras, agora no cenário internacional, se dá o direito de interferir em qualquer país, quando bem entender. Cuba vive, como nunca, a ameça de um ataque iminente enquanto sobrevive, como pode, ao cerco econômico desumano que mata por falta de comida, remédios e combustível.
Mas os direitos humanos, as regras internacionais, a diplomacia, nada disso tem valor ou sentido para quem venceu desrespeitando leis e normas de todo tipo. E, essa trajetória, foi premiada, e não punida, por um sistema político e econômico que se diz honesto, exemplo para o mundo. Um sistema que nunca colocou limites em quem tem dinheiro e poder. Agora que ele tem os dois, quem vai pisar no freio?
[Imagem publicada no Valor Econômico]
Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.
"250 anos do império decadente dos EUA" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/eua-decadencia.html






