O imperador e o Papa (leitura do que está por trás das palavras)
Marcelo
Barros*/Causas da vida
Nesses dias, o papa Leão XIV concluiu sua primeira viagem missionária que o levou a três países da África. No entanto, o que mais ocupou a imprensa não foi o que o papa falou aos irmãos e irmãs africanos e sim o confronto entre o papa e o presidente dos Estados Unidos. O papa pronunciou-se a favor da paz e contra as guerras. O imperador reagiu conforme o seu estilo, com insultos e ameaças.
Leão XIV respondeu que pronunciou-se como pastor e não como político. Sem dúvida, essa foi sua intenção. No entanto, na realidade, ele é chefe de Estado do Vaticano, única monarquia absoluta do Ocidente. Trump nunca se preocuparia em responder à sua provocação se Leão XIV fosse apenas um líder religioso. A arcebispa primaz da Igreja Anglicana fez um pronunciamento pela paz e a favor da guerra. O Dalai Lama, chefe do Budismo Tibetano, ou o Patriarca Bartolomeu, líder das Igrejas orientais, ou qualquer outro líder religioso podem dizer e publicar o que quiserem. Trump não se preocupará em responder. Respondeu a Leão XIV, porque esse é chefe de Estado e o seu pronunciamento repercute na ONU.
Até hoje, muitos irmãos do clero e da hierarquia, assim como grupos católicos continuam a pensar a Igreja como Cristandade, para a qual, o poder político, mesmo que seja apenas simbólico, pode facilitar a missão. É pelo fato do papa ser chefe de Estado que existem as “concordatas” entre o Vaticano e países laicos que possibilitam privilégios ao clero.
De fato, como bom frade agostiniano, Leão XIV sabe que, no século IV, Santo Agostinho (354-430 d.C.) concebe o Estado (Cidade dos Homens) como instituição, naturalmente, violenta. Diz que essa violência é necessária, por causa da natureza pecaminosa do ser humano. Para Agostinho, a violência inerente ao Estado é “remédio necessário” (benigna asperitas) para manter a ordem e conter a maldade humana. Assim, Agostinho defende a "guerra justa". Conforme essa visão, torna-se normal que o Papa considere-se mensageiro da paz, mas tenha, em torno de si, uma guarda armada e, em todo lugar onde chega, seja recebido com honras militares e acompanhado por escolta militar.
Em fevereiro de 2016, o saudoso Papa Francisco desembarcou no México, para a sua 12ª viagem missionária. Menos de dois anos antes, tinha acontecido o desaparecimento de 43 jovens, estudantes de uma escola rural em Iguala, estado de Guerrero. Quando o papa chegou ao México, um grupo de mães que ainda procuravam os corpos de seus filhos pediu que o papa as recebessem para uma oração e para chamar a atenção do mundo para o que tinha acontecido. O Papa Francisco teve de responder que não podia recebê-las, porque o governo mexicano consideraria interferência de um chefe de Estado estrangeiro na política mexicana.
Infelizmente, poucos irmãos e irmãs, mesmo entre aqueles e aquelas que fazem parte da caminhada de libertação percebem que, enquanto a hierarquia católica insistir nessa forma de organização monárquica não superará o modelo medieval de Cristandade Colonial e não terá liberdade para exercer sua missão profética, nem parecerá coerente ao pregar a Paz.
Em 1966, portanto há 60 anos, logo depois do Concílio Vaticano II, Dom Helder Camara percebia isso. Escreveu ao Papa Paulo VI, propondo que o papa renunciasse a ser chefe de Estado, entregasse o Vaticano a ONU e voltasse a morar na Igreja de São João de Latrão, antiga residência do bispo de Roma. Alguns dias depois, recebeu uma resposta assinada pelo Cardeal Villot, secretário de Estado do Vaticano: “Excelência Reverendíssima, Sua Santidade, o Papa, recebeu a sua carta e lhe agradece. Mas, recorda a Vossa Excelência que não estamos mais na época do Evangelho”[1].
Hoje, seria importante que todos os irmãos e irmãs que, nesses dias solidarizam-se com o Papa Leão XIV pelo ataque injusto que sofreu, o ajudassem a assumir o que o Papa Francisco afirmava: A Cristandade morreu e pudesse tirar disso as consequências que o próprio Francisco não pode tirar.
O Papa Leão XIV sabe que tanto o genocídio perpetrado pelo governo sionista de Israel contra o povo palestino, como a guerra do império dos Estados Unidos contra os países que tentam ser independentes do império são guerras santas. Têm objetivos sociais, econômicos e políticos, mas movem-se por uma mística religiosa. O primeiro ministro de Israel chama o povo do Irã de amalecitas e pretende executar, hoje, a ordem que, conforme o livro de Josué, Deus teria dado a Israel, de exterminar os cananeus. Do mesmo modo, os governantes dos Estados Unidos, convertidos à fé bíblica e convencidos pelo dinheiro de bilionários sionistas, estão convencidos de que o seu país representa o novo povo eleito de Deus, encarregado de destruir os ímpios e estabelecer na terra o reino messiânico.
Infelizmente, durante toda a história da humanidade e até hoje, o fator religioso tem mais provocado guerras e violências do que paz. Das mais de 50 guerras que, hoje, assolam a humanidade, mais da metade conta com o elemento religioso como um de seus componentes. Católicos e evangélicos continuam a se combater na Irlanda do Norte. Em algumas regiões da Turquia, a luta é entre ortodoxos e muçulmanos. Na Palestina, o Estado de Israel comete o genocídio contra os palestinos em nome do Judaísmo bíblico. No sul da Índia, conflitos opõem hinduístas e muçulmanos. Cristãos e muçulmanos enfrentam-se em alguns países da África, sem falar na perseguição às religiões tradicionais por cristãos fundamentalistas, em vários países latino-americanos (nessa violência religiosa, o Brasil é campeão).
Também precisamos ler por trás das palavras o que, nessa controvérsia, afirmou Trump. Este respondeu ao papa que apenas cumpria a sua função de Presidente dos Estados Unidos. Foi como se dissesse: Eu apenas executo a política que o governo dos Estados Unidos planeja.
Nesse ponto, ele tem razão. Está, apenas, cumprindo o que reza o Documento Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (National Security Strategy - NSS), divulgado em 18 de dezembro de 2017, aprovado por todas as instâncias de governo do império. Esse documento mudou radicalmente a política externa do governo dos Estados Unidos. Tirou a máscara democrática, que antes o império usava contra o Comunismo. Jogou no lixo a preocupação com direitos humanos, que, antes, o mesmo governo usava como pretexto para intervir em outros países e suscitar ditaduras militares. Decidiu desrespeitar até as regras do neoliberalismo, que ele próprio promovia e passou a intervir no mercado com sansões contra todos os que lhes oferecerem qualquer resistência. É a execução concreta do lema: "America First" (América Primeiro)[2].
Trump faz isso do seu modo, histriônico, exibicionista e agressivo. Mas, de fato, como presidente dos Estados Unidos é símbolo do império. Quem manda mesmo é o sistema financeiro e a direita internacional. Eles foram responsáveis por sua eleição e estão por trás de suas palavras e ações. Enquanto as pessoas continuarem atribuindo a Trump a culpa por todas essas desumanidades, a elite econômica e agências de notícia dos Estados Unidos podem continuar tranquilas e planejar a próxima crueldade contra a humanidade e o planeta Terra, que ocupam apenas para explorar.
Não há saída para a paz e a fraternidade humana, se insistimos na Cristandade colonial e em falar de um Deus como todo-poderoso, que premia os bons e castiga os maus. Só a libertação na direção da espiritualidade das Igrejas locais possibilitará no mundo e nas Igrejas uma cultura de paz, baseada na recomendação que, em 1968, ao tratar da juventude, na conferência de Medellín, os bispos católicos latino-americanos afirmaram: “que, na América Latina (hoje, podemos acrescentar: e no mundo inteiro) apresente-se a Igreja com o rosto de uma Igreja pobre, despojada dos meios de poder, missionária e pascal, consagrada à libertação de toda humanidade e de cada ser humano, em todas as suas dimensões pessoais” (Med. 5, 15).
[1] - Cf. BARROS, Marcelo. Não deixe cair a profecia. A herança de Dom Helder Camara para a humanidade do século XXI. Recife, 2022, p. 149. CASTRO, Marcos de. Dom Helder: misticismo e santidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, pp. 202- 206. ;
[2] - FIORI, José Luis. A síndrome de Babel e a disputa do poder global. Petrópolis: Vozes, 2020.
Marcelo Barros é monge beneditino, escritor, assessor de movimentos populares e no diálogo entre as religiões, biblista e doutor em ciências da religião.
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