24 setembro 2026

Palavra de poeta

Poema a Boca Fechada
José Saramago     
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é doutra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vasa de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.


[Ilustração: Giovanni Cassarà]

Leia também "Amei-te sem saberes", poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/palavra-de-poeta_01687211250.html 

Postei nas redes

Campanha de Lula reforça atos de rua na reta final em conexão com a ideia e a emoção nas redes digitais. Recife na agenda. 

A praça ainda é do povo? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_02118984853.html 

Editorial do 'Vermelho'

O estadista respeitado no mundo versus o sabujo de Trump e “irmão” de Vorcaro
Lula se destaca na ONU defendendo soberania, democracia e direitos, enquanto candidato da extrema-direita se mostra cada vez mais entreguista e desqualificado
Editorial do 'Vermelho'      

Na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em 22 de setembro, em Nova Iorque, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se destacou ao defender o multilateralismo, a soberania das nações, a democracia, o direito internacional e a liberdade dos povos para decidir seus destinos. Abordou também a necessidade de fortalecer a cooperação entre os países, preservar a autonomia das nações, defender os direitos dos trabalhadores, combater as jogatinas das bets, proteger os interesses nacionais e assegurar a cada país o direito de decidir sobre suas riquezas naturais.

Lula tratou ainda das guerras e da necessidade de soluções diplomáticas, da reforma das instituições internacionais, do combate ao crime organizado, das relações comerciais e das tarifas, das mudanças climáticas e da transição energética, dos minerais críticos e das terras raras, da inteligência artificial e da regulação das grandes plataformas digitais. Também abordou a fome, a pobreza e a desigualdade, o crescimento econômico, o emprego, a valorização dos salários, a proteção de crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital, o feminicídio, a saúde, a educação, a desinformação e a ciência, além da redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6×1. Vinculou a defesa do Pix à soberania nacional e à capacidade do país de desenvolver e preservar suas próprias soluções tecnológicas e financeiras.

O presidente também alertou sobre riscos ao processo eleitoral brasileiro. Afirmou que a democracia no Brasil está novamente em xeque e enfatizou que o país não permitirá que inimigos internos ou externos atentem contra a vontade popular, uma referência às ações do governo de Donald Trump, dos Estados Unidos, de apoio ao candidato presidencial da extrema-direita, Flávio Bolsonaro. Disse que a América Latina sofre pressões e declarou: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”

O alerta e a denúncia do presidente têm fundamentos sólidos. A exemplo das suspeitas de apoio à campanha de Flávio Bolsonaro que recaem sobre a Rockbridge Network, rede estadunidense de articulação política que tem no rol de fundadores J. D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos.

Há, também, o fato de 11 perfis no X que divulgaram conteúdos pagos, sem identificar quem financiou, sobre a alta do bolsonarista nas apostas da Polymarket, com o intuito de criar uma narrativa de vitória. O Partido dos Trabalhadores (PT) e a coligação Brasil pronto pra mais acionaram o STF e o TSE para apurar o abuso de poder econômico e político e o uso criminoso dos meios de comunicação relacionados à interferência estrangeira nas eleições.

Lula também defendeu a cooperação internacional contra o crime organizado, sem intervenção estrangeira. Afirmou que o Brasil não precisa de forças militares externas para combater as organizações criminosas e defendeu ações conjuntas para interromper o fluxo internacional de armas e dinheiro. “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, declarou.

Sobre os minerais críticos e as terras raras, Lula afirmou que o Brasil possui recursos necessários à transição energética e que suas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro. Defendeu que sua exploração ocorra em benefício do país, com geração de valor em território nacional, transferência de tecnologia e suprimento de setores estratégicos.

À margem da Assembleia da ONU, foi divulgada a declaração do chamado Escudo das Américas por 15 países sob a tutela dos Estados Unidos. Tendo como pretexto o combate ao narcotráfico e ao terrorismo, o documento vai forjando o discurso para justificar o domínio neocolonial do imperialismo estadunidense na América Latina e no Caribe. E, neste momento, obviamente, o foco é o Brasil. Entronizar no maior país da região um governo títere para se apossar de suas imensas riquezas.

Lula foi sagaz, equilibrado e ganhou importantes apoios internacionais ao abordar temas como o genocídio palestino perpetrado pelo Estado de Israel sob o governo de Benjamin Netanyahu. Falou também da barbárie representada pela guerra na Ucrânia, envolvendo a Rússia, uma tragédia desencadeada pelo aviltamento do direito internacional pelo poderio militar da Otan. Ao fazê-lo, avivou o perfil de um dos principais estadistas da contemporaneidade.

As posições do presidente demarcam bem o profundo contraste com Flávio Bolsonaro, que recentemente voltou a ser notícia por seu envolvimento com criminosos, com a informação de que sua assessoria negociou a liberação de uma emenda de R$ 199.999,79 solicitada por Robson Calixto da Fonseca, o “Peixe”, condenado pelo STF por integrar organização criminosa no caso do assassinato de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL, assassinada em 2018.

Suas relações com milicianos são bem conhecidas, além de casos flagrantes de corrupção, o mais notório deles revelado pela dinheirama do ex-banqueiro criminoso Daniel Vorcaro na mal explicada história do financiamento do filme Dark Horse, sobre seu pai, o ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, condenado e preso por atentar contra o Estado Democrático de Direito, que envolvia crimes como assassinatos de autoridades, inclusive o presidente Lula.

Insere-se também no rol de suas condutas delituosas o conluio com o governo Trump para apoiar o tarifaço contra o Brasil e a ingerência dos Estados Unidos, com graves ameaças à soberania nacional no caso da caracterização de facções criminosas como “terroristas”, nitidamente um pretexto para interferir no processo eleitoral e ameaçar o Brasil. Suas declarações não deixam dúvidas de que, se eleito, o Estado brasileiro será moldado para atender aos interesses estadunidenses, sobretudo a entrega das riquezas nacionais.

A gravidade do momento convoca uma ampla união e combativa mobilização de democratas, patriotas e trabalhadores à reta final do primeiro turno. A palavra de ordem é: Avançar, não esperar acontecer e tomar iniciativa. Como se viu no grande ato político da cultura realizado na cidade do Rio de Janeiro.

Outra iniciativa de grande importância também é o manifesto da Confederação dos Bispos do Brasil (CNBB), que, sem declarar voto, convoca o povo a não se abster, pedindo que compareça em peso às urnas para digitar o voto consciente. Em outra frente, o presidente Lula cuida de ampliar bases de apoio e neutralizar setores das classes dominantes. Participará, nesta sexta-feira, 25, na cidade de São Paulo, de um encontro com empresários e executivos de grupos econômicos e financeiros.

Carga total nas ruas e redes. Desmascarar Flávio Bolsonaro e disseminar que o futuro do Brasil, caso os eleitores honrem Lula com um quarto mandato, será marcado pela defesa intransigente da pauta do povo, a exemplo do fim das bets e da escala 6×1, da ampliação da democracia e do fortalecimento da soberania nacional. Encher as ruas e praças do país, no próximo domingo (27), de alegria, esperança e vibração de uma campanha que constrói a vitória apoiada na força do povo.

Na ONU, Lula sobe o tom contra o imperialismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/lula-na-onu.html 

Postei nas redes

Ação contra crime organizado atinge Banco Genial e grupo envolvido com dinheiro do filme Dark Horse. Alguém lembra que filme é esse? 

A sujeira vem de longe https:// lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/editorial-do-vermelho_0412311635.html?m=1

Trump: megalomania e crueldade

Imperator Nero Claudius Caesar Donald Trump
A ascensão e o estilo de liderança de Donald Trump refletem a mesma megalomania e crueldade de Nero, atualizando para o século XXI a alienação, a destruição ambiental e a perseguição a minorias que marcaram o fim do Império Romano
Michael Löwy*/A Terra é Redonda   

1.

É curioso como os imperadores do período de decadência do Império norte-americano assemelham-se aos do Império Romano decadente. Não é preciso dizer que enormes diferenças distinguem o Império Romano do século I d.C. do Império norte-americano do século XXI d.C. O que torna ainda mais surpreendentes as semelhanças entre seus líderes: figuras megalomaníacas, grotescas, brutais, que monopolizam o poder e são responsáveis por grandes catástrofes.

Entre os representantes mais conhecidos dessas dinastias imperiais romanas, podemos citar: Calígula, conhecido por ter nomeado seu cavalo para o Senado; Caracala, por ter massacrado a população de Alexandria (100 mil mortos); Heliogábalo, por levar uma vida de devassidão e exigir que fosse adorado como sumo sacerdote; Cômodo, por ordenar o assassinato de sua esposa Victorina e por rebatizar Roma de “Colonia Commodiana”. Por fim, Domiciano reinou como um monarca de direito divino, fazendo com que fosse tratado de Dominus; ele introduziu as lutas das gladiadoras.

Mas há uma figura que parece encarnar ao máximo o espírito dessa decadência imperial: Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus, conhecido como Nero. Sua fama negativa atravessou os séculos. Consideradas as devidas proporções, ele é um digno antepassado do imperador Donald Trump.

2.

Alguns episódios do reinado de Nero (54-68 d.C.) e o do imperador Donald Trump ilustram sua semelhança, através dos séculos:

O incêndio de Roma (64 d.C.): a maior parte da cidade de Roma foi consumida por um incêndio que algumas fontes antigas atribuíram ao próprio Nero. Enquanto a cidade ardia e seus habitantes fugiam, Nero, instalado nas alturas do Quirinal, tocava lira e cantava. Seu equivalente de 2026 d.C., o Imperador Donald Trump, assiste, confortavelmente instalado nas janelas da Casa Branca, ao incêndio das florestas e de inúmeras casas, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o planeta.

Não foi ele quem ateou fogo diretamente, mas, por meio de seu negacionismo climático (“é uma farsa”), sua recusa a qualquer política de descarbonização, seu apoio entusiástico às energias fósseis e seu desmantelamento de toda pesquisa sobre o clima, lançou mais combustível ao fogo. É verdade que ele não cantou nem tocou lira, mas jogou tranquilamente golfe enquanto o mundo queimava. Os gramados estavam bem regados com a água que faltava aos bombeiros.

Após o incêndio, Nero estava interessado em reconstruir a cidade de acordo com seu gosto estético e mudar seu nome para “Nerópolis”. O imperador Donald Trump, por ser muito modesto, não propõe mudar “Washington” para “Trumptown”: limita-se a transformar o famoso Kennedy Center no “Donald Trump Center”.

Nero mandou construir palácios suntuosos em Roma, mesmo que isso significasse destruir vastas construções. Sua “Casa Dourada”, Domus Aurea, era um enorme complexo palaciano que se estendia por quase todo o Monte Palatino e parte do Esquilino. O imperador Donald Trump está construindo um salão de baile gigantesco – 8.360 metros quadrados! – na Casa Branca. Primeira etapa, já concluída: destruição da ala leste da Casa Branca e do Jardim Jacqueline Kennedy. Custo estimado: 400 milhões de dólares.

Diante da ira popular, em busca de um bode expiatório, Nero acusou os cristãos de terem provocado o incêndio. Seu sucessor de 2026, o imperador Donald Trump, apontou os imigrantes latinos sem documentos como responsáveis por todos os males dos Estados Unidos. Nero entregou os cristãos aos leões na arena; Donald Trump entregou os imigrantes aos assassinos do ICE.

Nero tentou comprar a simpatia da plebe: cada cidadão recebeu 400 sestércios na ascensão do imperador. O imperador Donald Trump quer comprar o voto dos cidadãos prometendo a cada um 5.000 dólares caso os republicanos vençam as eleições de meio de mandato.

Para comemorar seus aniversários, ou as festas romanas, os imperadores organizavam jogos, espetáculos circenses e lutas para entreter a multidão: “Panem et Circenses”, “Pão e Circo”, escreviam os cronistas. Nero organizou corridas de bigas e lutas de gladiadores. O confronto dos cristãos com os leões fazia parte do espetáculo. Para comemorar seu aniversário e o 250º aniversário da independência dos Estados Unidos, Donald Trump organizou uma espécie de circo: uma enorme jaula e uma enorme arena para lutas de MMA, um esporte brutal de confronto em que todos os golpes são permitidos. O jornal Le Monde definiu os lutadores como “gladiadores dos tempos modernos”.

Nero adorava organizar noites de devassidão e violência, nas quais eram “convidados” jovens mulheres e homens, alguns dos quais acabavam mortos. Donald Trump, antes de sua ascensão ao trono imperial, participou de várias “festas” com “mulheres muito jovens” (Trump dixit), organizadas por seu amigo Jeffrey Epstein.

Como todos os imperadores, Nero gravou sua imagem nas moedas de prata romanas. O imperador Donald Trump colocou sua efígie nas moedas de um dólar e nas notas de 250 dólares americanos.

As atrocidades de Nero acabaram por levantar contra ele a Gália, a Lusitânia e a Espanha. Ele mobilizou suas legiões para derrotá-las, mas acabou sendo traído por seus próprios pretorianos. O imperador Donald Trump também mobilizou suas legiões contra os persas, mas acabou num impasse total. Ressaltemos, no entanto, algumas diferenças: Nero assassinou sua própria mãe, Agripina, e sua esposa, Popeia; pelo que se sabe, esse não é o caso de Donald Trump.

Enredado em suas manobras, Nero foi obrigado a se suicidar. Seu herdeiro moderno, o imperador Donald Trump, cometeu uma espécie de suicídio político, enredado nos meandros do Estreito de Ormuz.

*Michael Löwy é diretor de pesquisa em sociologia no Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS). Autor, entre outros livros, de Marx, esse desconhecido (Boitempo). [https://amzn.to/3FaMmEe]

Tradução: Fernando Lima das Neves.

[Ilustração: Gilmar]

Os fracassos de Donald Trump https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/potencia-decadente.html 

Arte é vida

 

Pablo Picasso

Leia: “Sala de espera", uma crônica de Luis Fernando Veríssimo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/uma-cronica-de-luis-fernando-verissimo.html 

Minha opinião

A disputa pelo Senado*
Luciano Siqueira   


Óbvio que no próximo domingo 4 de outubro, a conquista da Presidência da República é crucial e prioritária. 

Como acentua o PCdoB, em Manifesto lançado às vésperas da campanha, o possível próximo mandato do presidente poderá abrir a possibilidade de um ciclo de crescimento econômico associado à geração de empregos qualificados, tendo como fatores essenciais a ciência, a inovação, a transição energética e tecnologias digitais.

E um acúmulo de forças que viabilize reformas estruturais indispensáveis ao desenvolvimento soberano, democrático e socialmente avançado.

Isto na contramaré da onda conservadora e de direita, que varre o mundo ocidental e o subcontinente sul-americano, em particular.

Mas há uma pedra no caminho: a correlação de forças no parlamento – no Senado em especial.

Daí a direita e o centro conservador acomodados em grandes legendas (PP, União Brasil, Republicanos) se eximirem de apoios formais às candidaturas à Presidência da República, liberando suas seções estaduais para variadas alianças na busca de mais cadeiras na chamada Câmara Alta.

Tudo a ver com a perspectiva de controle relativo sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) e com permanente chantagem sobre o governo.

Como se sabe, é o Senado que aprova, ou não, nomes para o Supremo Tribunal Federal (STF) e julga pedidos de impeachment de seus ministros.

Agora, na reta final da campanha, das 54 cadeiras em disputa - dois terços da composição atual - estima-se, com base em pesquisas disponíveis, que a renovação das bancadas possa alcançar 40%.

Porém não exatamente uma renovação de caráter progressista.

Na disputa do voto, as diferenças se fazem tênues e nebulosas ao olhar do eleitor comum. 

O clientelismo, hoje reforçado pelo sistema de emendas parlamentares, em grande parte à margem da lei, segue como um dos fatores de "incoerência espontânea" de parcela majoritária do eleitorado. 

O eleitor vota em Lula, mas escolhe senadores e deputados federais de legendas oposicionistas.

Tanto que nas três vitórias do atual presidente e nas duas da presidente Dilma, jamais as forças progressistas alcançaram maioria no Senado e na Câmara. 

Portanto, um desafio irrecusável das correntes de esquerda e progressistas, em indissociável vinculação com a reeleição do presidente Lula.

Que nessa reta final e decisiva, nos inspiremos em Guimarães Rosa: "O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem."

*Texto da minha coluna no portal Vermelho

Na reta final detalhes importam https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_01182604884.html