01 março 2026

Uma crônica de Urariano Mota

Episódio da história oculta da Copa do Mundo de 1970

Narrativa relembra o dilema político vivido pela esquerda durante a Copa de 1970, quando a ditadura usou o futebol como propaganda enquanto militantes tentavam resistir à euforia nacional.
Urariano Mota/Vermelho    


A Netflix divulgou nesta semana as primeiras imagens de “Brasil 70 – A Saga do Tri”, minissérie de ficção sobre a seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1970. O teaser aqui Brasil 70: A Saga do Tri | Teaser oficial | Netflix Brasil – YouTube

Na mídia, as notícias sobre a minissérie falam que “a produção também vai abordar o período político do país na época”, que é um modo suave de mencionar a ditadura brasileira em sua fase mais sangrenta.

O fato é que, na esquerda brasileira da época, havia o dilema de torcer contra ou a favor da Seleção Brasileira! Sim, isso aconteceu porque o ditador Médici capitalizava para si o sucesso do futebol. Esse dilema gerou episódios tragicômicos, como o que narro a seguir, que não estará na missérie. Como João Saldanha iniciava os seus comentários, “meus amigos…”, assim foi.  

No jogo da grande final da Copa do Mundo, em 21 de junho de 1970, o clima não era bom. Para os que andavam de mal com a ditadura, o tempo não estava bom. Apesar de cair em um domingo.

Mário Sapo, Spinelli e Anael bem que procuraram ocupação mais digna que ver a final da Copa do Mundo. Missão, como o título de um seriado da televisão da época, missão impossível. Havia uma final de copa do mundo escrita nas nuvens, no céu, no mar. O selecionado brasileiro de futebol estava em todas as coisas. Nos jornais, na televisão, no cinema, nas escolas, nas ruas, no amor, nas conversas. Aliás, outro assunto não era possível, a partir de todo e qualquer tema. — E a seleção? Perguntava-se a troco de nada, e o rumo na conversa mudava. 

Para complicar, havia um complicador, se nos permitem a complicação. Havia um complicador para o alheamento dos amigos àquela imensa alienação, àquela estupidez da alienação dos povos, àquele ópio dos ignorantes: a Copa do Mundo de 1970, assim mesmo, em maiúsculas, era a primeira Copa transmitida pela televisão. Ao vivo, como diziam. Do México, com imagens transportadas de um satélite. O que bem poderia ser dito por João Saldanha: “Meus amigos, toda realidade exterior ao futebol hoje está suspensa”.

Missão impossível para Mário, Spinelli, Anael, e todos os militantes socialistas do Brasil. Em algum lugar deve haver uma lição da dialética que ensina: se as missões se tornam impossíveis, o melhor é conviver com a sua impossibilidade. Mas não sabíamos disso então. Esta página ainda nos era arrancada, ou devia estar escrita em sânscrito intraduzível. Ninguém nos disse. Mário, o mais velho de nós, teve um primeiro recuo tático.

— Olha, a massa está sendo manipulada. A ditadura está usando esse jogo para sair fortalecida… — Primeira parte do discurso, indispensável, para não ser execrado. — … Agora… — Segunda e problemática parte, a mais importante. — … Agora, a gente não pode ser contra a massa. A gente não pode ser contra o povo. Se o povo está assistindo…

— Populismo, caralho. Se o povo está assistindo, nós também vamos assistir? É isso?! — cortava Spinelli. — A vanguarda repete a massa, é isso?

— Sim, Lênin — voltava Mário. — Sim, Lênin…

Ao que o magro Anael, sabedor por intuição e experiência aonde levavam os argumentos de Mário (libação, álcool, que ninguém é de ferro), intervinha, como um votante, porque democrático era o processo:

— Eu estou com Mário. O povo é quem sabe o rumo. — E adaptava um refrão: – Ruim com o povo, pior sem ele.

— Sim, mas — sentia-se encurralado Spinelli. — Sim, mas…

Mas antes que entrassem em discussão as categorias do conhecimento, o que é o povo, o que é a massa, o que é a vanguarda, e o tempo histórico, e sua urgência e emergência, Mário, o mais velho, propunha:

— Vamos discutir isso no Savoy.

O Bar Savoy no Recife era uma festa, sempre. Foi para ele que Carlos Pena escreveu “são trinta copos de chope / são trinta homens sentados / trezentos desejos presos / trinta mil sonhos frustrados”. Foi lá que a Jomard Muniz de Brito ocorreu que “o Recife é um chope”. Foi para ele que os personagens de Os Corações Futuristas estenderam os olhos mendigos de cerveja, porque ali se podia beber a felicidade em mesinhas de ferro. O Savoy era uma festa.

Os nossos amigos, os nossos, naquelas circunstâncias, heróis, sentaram-se a um canto, um pouco à margem do aglomerado, que rodeava um dos televisores no Savoy. Diabo de copa do mundo; vieram ali para conversar os próximos rumos do movimento e do Brasil. De costas para a alienação. Acintosamente alienados da alienação. No entanto, Mário, sempre o mais precavido dentre nós, sentou-se de frente para a televisão. Porque ver, o simples ver, não atrapalha, ou não devia atrapalhar todo e qualquer desenvolvimento da argumentação, da mais reles matéria à metafísica.

— A gente aqui pode falar à vontade. Ninguém nos escuta — Spinelli dizia. E por isso retomava: — A Revista da Civilização é a melhor frente de esquerda hoje no Brasil. Vocês viram a deste mês?

— Eu prefiro a fonte. Eu prefiro o original — Anael argumentava um tanto incômodo e angustiado pelo rumor às costas.

— É, é…  Mário ia respondendo, enquanto movia os olhos, pensativo, mui pensativo, a todo e qualquer encaminhamento da dialética que ouvisse.— Não, rapaz, em relação a muita coisa, Nelson Werneck Sodré não é reformista, entende?

— Claro… É… — Mário ia respondendo.

Havia uma tensão no ar, uma carga explosiva que se ia acumulando, sem alarde. Um movimento surdo passando, que ninguém percebia, ainda que todos dele participassem. Um coletivo de gozo ou desespero a irromper. Então de repente, como se por força de um comum desejo, no décimo e oitavo minuto da exposição do destino dos povos, o povo mais próximo, no Savoy, explode:

— Gooool! Gol, gol, gol! Goool!

Mário, por estar mais integrado à massa, por esse motivo também se levantou:

— Gool! É gol, é gol…   

Spinelli e Anael, como bons subversivos, escolados (“a primeira tarefa do revolucionário é não se denunciar”), por isso também se ergueram:

— Gol! Foi gol, cara… De quem, de quem?

E Mário, o flexível, o flexível atento, anunciou:

— De Pelé. De Pelé, porra!

— Ah, tinha que ser — reconheceu o mais sábio.

Os garçons do Savoy, mais atentos que todos os atentos, comemoravam, e em igual movimento de comemoração enchiam as mesas de cervejas, e entre as mesas a dos nossos heróis. Que se achavam, na altura dos 20 minutos de jogo, os próprios terroristas disfarçados. Fantasiados de povo, a beber no Savoy, em jogo de copa do mundo. Mas não demoraram muito no disfarce, ainda que isto lhes parecesse uma eternidade. A máscara caiu aos 38, ainda no primeiro tempo da fantasia e da defesa.

— Gol… foi gol… Porra, que merda! Presta atenção, seu porra! Manda essa bola pra tua mãe… — ouviu-se, foi-se ouvindo, aqui e ali, às costas, à frente, de lado, do teto e das paredes, do chão e da Avenida Guararapes.

— Gol, foi gol…

Um carrasco de nome Boninsegna havia driblado o nosso goleiro, o verdadeiro herói lá na televisão, e sem piscar enfiou o empate da seleção da Itália. Mário, o tático, assumiu então as suas características de sapo, porque inflou as bochechas e mal olhava agora para a pequena tela, como se estivesse na iminência de coaxar. Anael lhe seguia, com movimentos na bochecha, à sua imagem e semelhança. Na verdade, à direita, à esquerda, acima e abaixo da ditadura, todos no Savoy ficaram meio sapo, de papo inchado, carrancudos, raivosos. Spinelli, ao ver a geografia humana ao redor, susteve a frase na garganta, “futebol é alienação”, e achou mais prudente, e natural, ficar em terra de sapo de cócoras com ele. Em silêncio, todos danaram-se a beber, que os garçons de Savoy serviam bem na alegria e na desgraça. Mercenários, tiravam partido da pátria em qualquer circunstância.

Acabado o primeiro tempo, quase todos no Savoy tiveram a mesma ideia, porque se aglomeram no banheiro. Ambiente para lá de carregado, elétrico. Spinelli, magro e desengonçado, entra no círculo ácido do mijo. E até hoje ele não sabe por que razão, e até hoje ele oculta dos seus o momento raro do perigo que passou, e que soubemos depois do abismo. Na volta do banheiro, em um corredor estreito e infernal, ele esbarra em um popular irado, nervoso e tenso. Esbarrou por acaso, por maldito azar, mas o popular, essa categoria ótima para uma tese, mas bem arisco ao vivo, assim não entendeu.

— Tá cego? — e empurrou o nosso amigo contra a parede.

Spinelli, alto para os padrões do Recife, lutador de judô em aulas clandestinas, porque assim faria a segurança nas passeatas, reagiu ao empurrão. Ou seja, empurrou o popular de volta, como quem cumprimenta e vai embora. (Não era sua intenção saber o valor prático das aulas orientais que recebera, naquela hora e em outras.) Que faz, que fez? O popular lhe responde com um mais vigoroso empurrão. Spinelli volta, como se a parede do estreito corredor fosse um elástico, que lhe desse um exemplo da terceira lei de Newton. E volta com o impulso da sua pequena massa inercial, somente para dar um instante breve de resposta ao segundo empurrão. Nisto, e como prova insofismável de que a toda desgraça corresponde outra maior, surge um indivíduo tão alto quanto o nosso amigo, porém mais volumoso em carnes, vontade de brigar e músculos. Que vinha a ser o amigo do popular irritado. E lhe diz, a Spinelli:

— Ei, magro, é briga, é?

Spinelli olhou de cima a baixo, e da direita para a esquerda o homem-guarda-roupa. Sabemos nós, à distância, que os manuais de filosofia ensinam que só se deve correr quando houver possibilidades de espaço e circunstância. Mas o que não se encontra em nenhum manual, nem nos melhores livros, foi a resposta de gênio que achou o nosso amigo, naquela hora de angústia, agonia, desespero e aflição. Acreditem e creiam, porque em pleno intervalo do jogo final da copa do mundo, o nosso amigo gritou, com os braços erguidos e levantados:

— Viva o Brasil!

O amigo do popular, espantado com aquele golpe baixo, de gênio, reagiu como bom patriota. Abraçou Spinelli como se abraça um companheiro de torcida.

— Viva! Viva o Brasil!

Com as costas ainda a estalar nos ossos, o nosso amigo voltou ao abrigo de nossa mesa. E todos nós assistimos ao final de Brasil e Itália. De frente para a pequena tela, para melhor integração. E comemoramos, e pulamos, e gritamos gol. Sem remorso e sem dor na consciência. E saímos de lá abraçados e bêbados rumo ao Zumbi, onde morava Mário Sapo. Felizes a cantar. Afinal, estávamos todos metidos em nossa face legal. A de patriotas, no país de calções e chuteiras.

Leia também: Feliz Ano Novo em Santana do Ipanema https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/12/minha-opiniao_31.html

Palavra do PCdoB

Irã: Ataque ao país persa exige imediata reação internacional
Em nota divulgada neste sábado (28) por sua Comissão Executiva Nacional, o PCdoB condena os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
www.pcdob.org.br    

“O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) condena tais atos nos termos mais veementes e aponta a necessidade de que mobilizações populares massivas em defesa da paz estejam aliadas a uma firme posição de todos os países ciosos da soberania no sentido de isolar e deter a escalada insana de ameaças, agressões e guerras promovidas por Donald Trump contra a humanidade”. Confira a íntegra da nota:

Irã: Ataque ao país persa exige imediata reação internacional

Após semanas de ameaças e movimentações militares intimidatórias, com o maior destacamento norte-americano em décadas no Oriente Médio, mais uma vez os EUA passam por cima da Carta da ONU e do direito internacional para atacar o território de um país soberano. Mesmo em meio a negociações entre Washington e Teerã, na madrugada do dia 28 de fevereiro de 2026, o Irã foi alvo de bombardeios dos EUA e de Israel. Grandes explosões foram vistas na capital, Teerã, e nas cidades de Isfahan e Karaj, que vivem um dia útil com milhões de pessoas no trabalho, nos mercados e nas escolas.

O objetivo dos ataques é apoderar-se das riquezas da nação iraniana, instalando um governo títere, além de eliminar qualquer resistência aos planos de genocídio do sionismo contra o povo palestino.

O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) condena tais atos nos termos mais veementes e aponta a necessidade de que mobilizações populares massivas em defesa da paz estejam aliadas a uma firme posição de todos os países ciosos da soberania no sentido de isolar e deter a escalada insana de ameaças, agressões e guerras promovidas por Donald Trump contra a humanidade.

Estamos firmemente solidários ao Irã e ao seu povo. Defendemos o diálogo como caminho para resolver divergências entre as nações, mas reconhecemos o direito de o Irã usar os meios necessários à sua defesa contra um ataque injusto e não provocado, o que é garantido pela Carta das Nações Unidas.

Abaixo a agressão imperialista e sionista contra o Irã!

Em defesa da paz e da soberania!

Comissão Executiva Nacional do PCdoB

Brasília, 28 de fevereiro de 2026

O mundo gira. Saiba mais  https://lucianosiqueira.blogspot.com/

28 fevereiro 2026

Palavra de poeta

brisa
Cida Pedrosa

nesta noite 

uma brisa de outono 

brindou minhas saias 

que não mais pensavam bailar.


levanto a cabeça e acordo. 

não tenho mais rosto ou corpo. 

existe o caminho de tuas mãos. 


o sol 

e as janelas sonolentas 

me trazem o cheiro de pão 

e as vozes dos que trabalham. 


definitivamente acordo 

e aos meus olhos despertos 

surge a cidade.


[Ilustração: Edgar Degas]


Leia também um poema de Pablo Neruda https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-de-poeta_26.html

Fotografia

 

Luciano Siqueira

Reagan, Trump e a “destruição inovadora” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-roteiro-de-conflitos.html


Celso Pinto de Melo opina

O mapa mental do poder
Como elites governamentais decidem em cenários complexos – e os riscos de transformar a máquina pública em arma de guerra cultural
Celso Pinto de Melo/Substack   


“O ideal do governo totalitário não é o homem convicto, mas o homem para quem a distinção entre fato e ficção não existe mais”(Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo) [1]

 

Introdução

Em momentos de crise, a política revela o que costuma esconder: a qualidade real de quem decide. E, em democracias, uma dúvida retorna com insistência: quem ocupa os cargos centrais do governo – ministros, secretários e conselheiros – está preparado para lidar com o mundo real?

Frequentemente, essa inquietação se traduz numa comparação simplificada: onde estudaram essas pessoas? Que títulos têm? A que universidades pertencem? É um impulso compreensível, mas enganoso. E pode produzir um elitismo disfarçado de análise.

Dois alertas para evitar o fetichismo

Convém começar por dois alertas.

O primeiro é direto: não pode haver fetichismo de currículos. Chefes de governo não precisam ser acadêmicos – e muitas vezes não o são. O essencial é outra coisa: discernimento, experiência de vida acumulada e a capacidade de escolher bem seus assessores, ouvindo cenários divergentes, avaliando riscos e tomando decisões com prudência. Um exemplo notório é Luiz Inácio Lula da Silva: torneiro mecânico e líder sindical que se tornou presidente e estadista respeitado internacionalmente, em grande parte por sua habilidade de negociação, leitura política e construção de equipes capazes de transformar decisões em ação.

O segundo alerta é ainda mais decisivo: títulos acadêmicos não conferem atestado de integridade, humanidade ou superioridade moral. A história mostra, com brutal clareza, que sociedades altamente escolarizadas podem produzir barbaridades administradas com eficiência.

A Conferência de Wannsee, realizada em 20 de janeiro de 1942, é o exemplo mais sinistro e pedagógico. Quinze altos dirigentes do Reich e do aparelho de segurança (oito deles com título acadêmico de doutorado) se reuniram para coordenar e viabilizar administrativamente a chamada “Solução Final da Questão Judaica” – isto é, a deportação sistemática e o assassinato em massa dos judeus europeus, articulando os ministérios civis, o aparato policial e a administração territorial sob uma mesma lógica de extermínio [2].

Essa constatação ganha densidade ainda maior quando se lê Christian Ingrao: em “Crer & Destruir”, o autor reconstrói como parte significativa da inteligência acadêmica alemã – juristas, historiadores, economistas e doutores em humanidades – aderiu à SS e colocou repertório, método e ambição intelectual a serviço da violência [3]. Mais do que cúmplices, muitos desses quadros ajudaram a transformar guerra e ocupação no Leste europeu em um projeto “racional”, combinando doutrina racial com linguagem administrativa: produziram relatórios, memorandos, mapeamentos e estimativas que convertiam povos inteiros em categorias gerenciais – “populações excedentes”, “grupos indesejáveis”, “números a deslocar”. A barbárie, assim, não dispensou a inteligência: ela a recrutou.

Por isso, a questão central não é quantos diplomas há no governo. É outra: que valores, que visão de mundo e que responsabilidade ética orientam o uso do poder.

O primeiro escalão como “mapa mental” do Estado

Feitos esses alertas, a pergunta decisiva fica mais útil: que tipo de repertório intelectual, institucional e humano predomina no primeiro escalão?

Formação e trajetória não são medalhas. Elas funcionam como lentes. Moldam reflexos, definem prioridades e influenciam o que uma elite governante reconhece como risco real – e o que ela despreza como detalhe.

Num século marcado por crises sistêmicas – pandemias, guerras híbridas, energia, tecnologia, migrações, inflação – essas lentes pesam mais do que slogans.

O primeiro escalão é o sistema nervoso do Executivo. É ali que se decide o que é urgência e o que é rotina; o que exige negociação e o que vira confronto; o que deve ser coordenado com método e o que pode ser improvisado como gesto. É nesse ponto que as diferenças entre elites governamentais – e não apenas entre presidentes – ficam nítidas.

A tradição do Estado como coordenação

Em muitas administrações norte-americanas do pós-guerra, apesar de variações ideológicas e de estilo, consolidou-se uma tradição: governar era entendido como coordenar complexidade.

O Estado era percebido como um sistema: um conjunto de instituições, rotinas, limites legais, compromissos internacionais e consequências não intencionais. Isso não significa governos prudentes ou éticos: erros graves atravessam a história de todas as democracias.

Mas, em geral, existia um ethos institucional claro. Dito de forma simples: governo não era apenas palco; era máquina.

A inflexão do trumpismo: do Estado-sistema ao Estado-conflito

É nesse contraste que se compreende o sentido mais profundo da inflexão recente associada ao trumpismo.

Não se trata de ausência de inteligência, nem de uma suposta “degeneração educacional” do poder. Trata-se de uma mudança no modo de selecionar, legitimar e organizar a elite governamental. Onde antes se privilegiava a pergunta “quem consegue administrar, negociar e coordenar?”, passa a ganhar centralidade outra lógica: “quem consegue mobilizar, combater e vencer a guerra política?”.

Isso muda o perfil do primeiro escalão. Cresce o peso de quadros voltados ao confronto simbólico, à comunicação agressiva, à guerra cultural e à disciplina interna. Não desaparece a elite. Ela muda de natureza.

Política performática e risco cognitivo

Essa transformação se combina com um fenômeno típico do século XXI: quanto mais complexo o mundo se torna, maior a demanda social por explicações simples.

A política performática explora isso com habilidade. Ela transforma dilemas técnicos em dramas morais. Converte incerteza em certeza agressiva. E substitui problemas estruturais por culpados bem identificáveis.

O risco cognitivo é evidente. Em cenários de ansiedade e polarização, coerência narrativa pode valer mais do que as evidências. “Parecer firme” vale mais do que “ser prudente”. O problema é que os governos não operam no teatro da retórica. Operam no terreno das consequências. Em política externa, sinais importam. Em economia, expectativas importam. Na saúde pública, método importa. Em gestão de crise, coordenação importa.

O segundo governo Trump e a “roteirização” do Estado

No segundo governo Trump, essa inflexão ganha um componente adicional: a consolidação de uma espécie de governo por manuais do poder.

Documentos como o Project 2025, formulado no entorno da Heritage Foundation, defendem uma reorganização estrutural do Executivo, ampliando a capacidade presidencial de remodelar a burocracia federal e enfraquecendo proteções típicas do serviço civil baseado em mérito [4]. Não se trata apenas de escolher ministros alinhados, algo normal na política. Trata-se de redesenhar o Estado para que o critério central deixe de ser competência institucional e passe a ser, antes de tudo, fidelidade política.

Nesse ecossistema, o chamado Project Esther aparece como outro roteiro político-ideológico. O documento procura redefinir as fronteiras entre dissenso, ativismo, universidade e ameaça pública, propondo estratégias legais e administrativas de contenção e enquadramento [5]. Ainda que esses documentos não se convertam automaticamente em política oficial integral, sua circulação e influência sinalizam um princípio: o Estado deixa de ser mediador de conflitos e passa a ser um instrumento de conflito.

Quando o conhecimento vira inimigo

Nesse ponto, vale mencionar – com parcimônia – declarações e atitudes de figuras centrais desse ambiente político, ridicularizando a academia, a ciência e o conhecimento especializado. Não se trata de colecionar frases estapafúrdias, mas de registrar um sintoma: quando o conhecimento é apresentado como “inimigo”, o Estado perde seus instrumentos de autocrítica e de correção institucional. O desprezo performático pela expertise funciona como sinal político e como instrumento de disciplina institucional, reduzindo o espaço do dissenso técnico e transformando instituições produtoras de conhecimento em alvo permanente.

No campo da saúde pública, a ascensão de figuras como Robert F. Kennedy Jr., associado há anos ao ativismo antivacinas, evidencia o risco institucional de decisões orientadas por suspeita ideológica em vez de evidência [6].

É aqui que surge um nome-chave: Stephen Miller, um dos principais formuladores do núcleo duro do trumpismo no segundo mandato, descrito como peça central na máquina interna de decisão e na condução de políticas, especialmente em temas de imigração e segurança interna [7]. Em temas como a imigração, Miller tem rejeitado e atacado evidências acadêmicas sobre a contribuição de imigrantes para a ciência e tecnologia, em contraste com um amplo corpo de pesquisa disponível. Em vez de debater dados, esse tipo de retórica recorre a frases de efeito que tratam universidades e especialistas como parte de uma “máquina” a ser derrotada – e não como instituições públicas a serem aprimoradas. E isso não é um detalhe retórico: é uma “teoria do Estado” em ação, onde o conhecimento deixa de ser um instrumento de diagnóstico e vira inimigo político.

A mensagem é simples e dura: não se trata de aperfeiçoar políticas públicas. Trata-se de vencer uma batalha cultural.

Um contraste internacional

A comparação internacional ajuda a completar o quadro – e mostra que a questão não é “ter diplomas”, mas sim qual o tipo de elite um Estado recruta e forma para governar.

Ao longo do século XX, os Estados Unidos produziram, em diversas conjunturas, elites dirigentes que combinavam repertório intelectual e experiência administrativa. Basta lembrar o ecossistema de quadros que orbitou Franklin D. Roosevelt, com o New Deal e a profissionalização das agências federais, ou de John F. Kennedy, que mobilizou especialistas e gestores para lidar com os dilemas estratégicos da Guerra Fria. Mesmo em governos conservadores, como o de George H. W. Bush, manteve-se por décadas uma tradição de Estado em que a política externa, a defesa e a economia eram tratadas como campos complexos, exigindo prudência institucional, negociação e burocracia qualificada.

Na Europa ocidental, com diferenças nacionais, o padrão foi ainda mais claro. Na França, a formação das elites administrativas nas grandes escolas e nas carreiras de Estado consolidou um modelo tecnocrático voltado ao planejamento e à execução de políticas públicas. Já na Alemanha, a cultura de serviço público e da legalidade reforçou uma elite dirigente treinada para conciliar eficiência e previsibilidade. E no Reino Unido, o serviço público sustentou um ethos duradouro: governos mudam, mas o Estado preserva continuidade, método e capacidade de implementação.

Cada modelo tem riscos próprios. Tecnocracias podem se afastar do eleitorado. Elites securitárias, formadas no entorno de aparelhos de segurança e defesa, podem naturalizar coerção. A existência de partidos-Estado (isto é, sistemas em que o partido dominante se confunde com o aparelho estatal, reduzindo a alternância e subordinando as instituições a uma hierarquia política única) pode limitar ou impedir a diversidade de opiniões. Ainda assim, há um ponto em comum: tais sistemas tendem a produzir elites com socialização institucional profunda, treinadas para operar máquinas estatais complexas, comparar cenários e ajustar rumos.

O trumpismo, em contraste, expressa uma elite típica da democracia hiper midiatizada: menos baseada em carreiras institucionais e mais na mobilização permanente, na guerra cultural e na disputa narrativa. Em vez de administrar divergências, a prioridade torna-se vencer adversários; em vez de coordenar complexidade, simplificar conflitos. É nesse contexto que documentos como o Project 2025 ganham centralidade: não apenas para orientar políticas, mas também para reordenar o próprio Estado, deslocando o eixo do mérito para a lealdade. O resultado é uma mudança de linguagem – e de método: o Estado deixa de ser visto como um sistema que exige aprendizado e moderação e passa a ser tratado como um instrumento de combate.

Os custos: instabilidade global e fratura interna

Essa mudança de “mapa mental” não afeta apenas a eficiência administrativa do Estado. Ela traz riscos maiores, com impactos que ultrapassam fronteiras.

No plano geopolítico, quando governos passam a operar sob a lógica de confronto permanente, cresce a probabilidade de decisões tomadas como gestos. E gestos podem virar escaladas. Adversários leem imprevisibilidade como ameaça. Aliados leem inconstância como abandono.

A estabilidade internacional depende, em grande parte, da capacidade dos Estados de sinalizar compromissos, honrar pactos e modular tensões – evitando que crises se convertam, por inércia ou por cálculo político, em escaladas irreversíveis. Uma política externa convertida em extensão da guerra cultural doméstica fragiliza esse equilíbrio e amplia as instabilidades.

No plano interno, o custo pode ser ainda mais corrosivo: a erosão da coesão social e da confiança institucional. Quando burocracia, ciência, imprensa e universidade passam a ser tratadas sistematicamente como inimigas do povo – e não como instituições criticáveis, porém necessárias –, o debate público deixa de ser disputa entre projetos e vira disputa entre identidades irreconciliáveis.

O resultado é conhecido: dissensões se aprofundam, ressentimentos se intensificam e o espaço para mínimos consensos nacionais se reduz. Justamente aqueles consensos indispensáveis para enfrentar crises sem romper o tecido social.

Conclusão: não é “pedigree”, é gramática de Estado

A elite governamental associada ao trumpismo destoa de modelos centrados em coordenação institucional. Mas não por pedigree. Destoa por razões práticas: pela centralidade da lealdade como critério de recrutamento, pela conversão de instituições técnicas em alvos preferenciais e pela predominância de decisão por narrativa e confronto, em detrimento da coordenação e da revisão por evidências.

Nada disso garante o fracasso por si só – assim como também não impedia erros nos governos anteriores. Mas altera a gramática do Estado.

E, num mundo de crises sistêmicas, governar como espetáculo aumenta o preço da realidade. O dilema democrático do nosso tempo talvez seja este: como combinar legitimidade popular com competência institucional, sem cair nem no elitismo que despreza a sociedade, nem no anti-intelectualismo que despreza as evidências.

Porque, quando a política transforma o Estado em guerra permanente, o preço não recai só sobre os adversários: recai sobre o país – e, no caso da maior potência do planeta, sobre o mundo.

Bibliografia

1. Arendt, H., Origens do totalitarismo. 2013, São Paulo: Companhia de Bolso.

2. United States Holocaust Memorial, M. Wannsee Conference and the “Final Solution”. Holocaust Encyclopedia 2026 2026–01–19; https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/wannsee-conference-and-the-final-solution.

3. Ingrao, C., Crer & destruir: os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista. 2015, Rio de Janeiro: Zahar.

4. Heritage, Foundation, Mandate for Leadership: The Conservative Promise (Project 2025). 2022, The Heritage Foundation: Washington, DC.

5. Heritage, Foundation, Project Esther: A National Strategy to Combat Antisemitism. 2024, The Heritage Foundation: Washington, DC.

6. Caplan, A., D. Milbank, e R. Kocher. RFK Jr.’s history of medical misinformation raises concerns over HHS nomination. Brookings Institution 2025 2025–02–06; https://www.brookings.edu/articles/rfk-jr-s-history-of-medical-misinformation-raises-concerns-over-hhs-nomination/.

7. Cook, N. Who Is Stephen Miller? The Trump Aide Driving Policy in the Second Term. Bloomberg 2026 2026–01–09; https://www.bloomberg.com/news/features/2026-01-09/who-is-stephen-miller-the-trump-aide-driving-policy-in-the-second-term.


[1] Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Questão nacional e transição socialista no século XXI https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/soberania-socialismo.html