10 junho 2026

Minha opinião

Por enquanto, a Copa não emociona
Luciano Siqueira   
instagram.com/lucianosiqueira65   

Os apaixonados pelo futebol, que torcem e se emocionam em qualquer circunstância, certamente dirão que ainda é cedo. Quando a Copa efetivamente começar, na próxima quinta-feira, o clima em relação ao evento mudará.

Será?

Não sou ignorante nem noviço na matéria. Guardo na memória a Copa do Mundo de 1954, transmitida pelas ondas do rádio em autofalante que meu pai instalou na esquina da Mercearia Natalense, cruzamento das ruas Alberto Silva e São João, na Lagoa Seca, Natal.

Depois, a Copa de 1958 e as tantas outras que se seguiram, cercada de um clima de expectativa generalizada - inclusive entre os que de futebol apenas sabem que a bola é esférica -, torcendo pelo time e dando palpite sobre a escalação.

Havia uma intimidade coletiva entre grande parte dos brasileiros e brasileiras a ponto de Nelson Rodrigues asseverar que a seleção canarinho seria, comprovadamente, “a Pátria de chuteiras”.

Era. Hoje nem tanto.

Começa pelo tamanho da competição - 48 seleções em três países – e por uma particularidade de nosso selecionado: a maioria dos torcedores, mesmo os mais atentos, conhece pouco ou nada de uma parcela dos atletas convocados. Boa parte do elenco faz sua carreira na Europa e até na Ásia, tendo saído daqui no iniciozinho da carreira.

O fato é que a cidade ainda não exibe o brilho verde-amarelo, para elem. das lojas especializadas e bancas de vendedores ambulantes.

Há exceções, como a padaria aqui da esquina, ornamentada de verde-amarelo mesclado com motivos juninos, mas de um mau gosto tamanho que in cômoda, não entusiasma.

Talvez até pouco consciente seja também certa repulsa disseminada mundo afora, inclusive em nosso país tropical, a figura de Donald Trump e a verdadeira guerra em que está empenhado o departamento de imigração, constrangendo muita gente que dessem barca nos Estados Unidos para participar do evento.

Tem mais: se na estreia contra o Marrocos o Brasil não for bem, será difícil superar, pelo menos por enquanto, esse estranho clima morno.

[Ilustração: Maria Lassnig]

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O corpo, a técnica e a alma no futebol https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/selecao-alternativas-taticas.html 

Sylvio: como assim?

O deputado Nicolas ultrapassou todos os limites externando sua preferência pelos políticos de direita. Segundo ele, são mais bonitos e cheirosos. Afinal, qual é a tua Nicolas ?

Sylvio Belém 

Sem eira nem beira. Será? https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Enio Lins opina

Quando a censura aponta para um perigo ainda maior
Enio Lins     

MAS NÃO É QUE um ministro (Nunes, nomeado por Jair), atualmente na presidência do Tribunal Superior Eleitoral, suspendeu a divulgação dos resultados de uma pesquisa AtlasIntel que apontou o desabamento das intenções de voto para o filho do Jair? Os dados da pesquisa são sobejamente conhecidos desde 19 de maio. Devidamente registrada, a enquete ouviu 5.032 eleitores e eleitoras entre 13 e 18 de maio, com o fito anunciado – óbvio – de aferir o impacto da negociata gravada entre o banqueiro-presidiário Vorcaro e Flavito, o candidato-filho do presidiário Jair. Nada mais acertado que proceder a medição dos efeitos daquele torpedo no sentimento do eleitorado.

DURANTE 21 DIAS,
 os resultados dessa pesquisa – legal e legítima – foram divulgados, pois existia permissão judicial para isso, posto todos os ritos exigidos pela lei terem sido cumpridos. Os questionários comprovaram o previsto pelo bom senso: um baque da peste na candidatura de Flávio B. Apontaram também para um provável melhor desempenho no segundo turno de qualquer outro nome, dentre as inexpressividades bolsonaristas, do que o filhinho de papai presidiário. Como toda pesquisa, descortina apenas o momento no qual foi aplicada, e a queda de Flavito pode ter sido eventual, e a comparação com as futuras enquetes identificará se a rejeição à corrupção bolsonarista-Master foi efêmera. Uma sondagem natural e lídima.

FOI UM TIRO NO PRÓPRIO PÉ 
disparado pelo ministro nomeado por Bolsonaro. Tiro duplo. Autotiro 1: A decisão do ministro nomeado por Bolsonaro em censurar a quase-velha pesquisa chamou mais atenção sobre os resultados e sobre quanto incomodaram ao bolsonarismo, provocando uma enxurrada de replicações dos dados cuja divulgação esmaecia depois de 21 dias de abordagens. Autotiro 2: a decisão do ministro nomeado por Bolsonaro expõe escandalosamente o magistrado e seus próximos, escancarando as portas da corte, de banda a banda, para a visualização de movimentos internos no TSE cuja máxima discrição seria o ideal para os bolsonaristas.

VÊ-SE, COM NITIDEZ, 
pelo noticiário em todas os formatos de mídia, que o atual presidente do TSE, um ministro do STF nomeado por Bolsonaro, trouxe o outro ministro do STF nomeado por Bolsonaro (Mendonça), também integrando o Tribunal Superior Eleitoral, para fazer dupla num colegiado de três que julgará uma questão crucial: a propaganda eleitoral! Dois ministros identificados como terrivelmente bolsonaristas num fórum de três é de lascar. As lupas focam também no fato, quase despercebido, que duas outras ações, movidas contra o galopar de Flavito B em torno do filme-crime Dark Horse, foram parar na mesa de um mesmo ministro indicado por Bolsonaro (matéria no site https://valor.globo.com/). Enxerga-se ainda mais – através de reportagem na direitista 
revista Oeste, dentre outros veículos destros – que o indicado por Bolsonaro teria nomeado uma juíza, apontada como namorada de um ministro indicado por Lula (Toffoli), para um cargo comissionado especialmente criado no TSE nessa gestão Nunes-Mendonça, induzindo – a Oeste e outras mídias de direita – com esse gesto a suspeição de cooptação da autoridade indicada pelo petista (em 2009) para decisões em 2026. Valei-nos Padim Pade Ciço!

NÃO É JUSTO ANTECIPAR
 julgamentos. A conduta geral – e não um fato isolado – dos magistrados indicados pelo presidiário Jair é o que vai balizar as avaliações sobre a atuação deles no Tribunal Superior Eleitoral. A coisa não começa bem, é verdade, mas teremos muito chão (quente) pela frente, inclusive várias pesquisas próximas. Toda vigilância será pouca, como já se percebe. Vamos adiante, como dizia o slogan do saudoso Marcos Freire na campanha vitoriosa ao Senado por Pernambuco, em 1974: sem ódio e sem medo.

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Por que os Estados Unidos querem atingir o Pix? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/trump-contra-o-pix.html

Dica de leitura

Tecnologias quânticas 

Em sua coluna no portal Vermelho, que reproduzimos aqui no blog, a ministra Luciana Santos destaca o impacto estratégico da física quântica no cenário global: computação, criptografia e sensores quânticos estão redefinindo a segurança nacional e a economia mundial. Um desafio para o Brasil, que há que encarar o desafio atento à soberania nacional, apoiando-se em base científica sólida, com pesquisadores de excelência e institutos de ponta dedicados ao tema. Isto significa a ampliação de investimentos públicos e privados destinados a transformar o conhecimento científico em soluções industriais concretas. Isto mediante eficiente articulação entre governo, academia e empresas. Leia aqui https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-luciana_0673507353.html

[LS] 

Palavra de poeta

passos
Cida Pedrosa 

a rigidez das tuas botas 
espanta embuás
lagartas 
formigas 
e marca o chão 
longe da flor 


a rigidez das tuas botas 
conta passos 
e me permite ver 
a nudez deste parque 
encravado 
no centro de uma cidadela 
que se esvai


[ilustração: David Alfaro Siqueiros]

Arte é vida

 

Luciano Pinheiro

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Uma crônica de Joaquim Ferreira dos Santos

A bola de couro n°5 foi minha primeira namorada
É Copa do Mundo e o 'futebolês' ajuda a explicar o país
Joaquim Ferreira dos Santos/O Globo
 

Trila o apito Sua Senhoria e autoriza o início do prélio fundamental da existência humana, a Copa do Mundo com o seu dicionário de escanteios, trivelas, gols estufando o véu da noiva e outros tantos entrando lá onde a coruja dorme. É o futebolês, o português roçando a língua de Cristiano Ronaldo. Da cabine de transmissão, o locutor pergunta a este repórter-cronista atrás do gol: “Diga aí, JFS, o que foi que só você viu?”.

Eu vi a minha primeira bola de couro número cinco, aquela que vinha com uma câmara de ar por dentro e precisava, para ser enchida, de uma bomba de bicicleta ou uma visita ao posto de gasolina. Vi também – e senti o cheiro – o pedaço de sebo que o açougueiro dava à molecada para passar na bola e mantê-la com ares de nova. A número cinco de couro foi a minha primeira namorada, o dicionário onde ainda procuro o drible da vaca e a folha seca para escrever.

O futebolês é minha pátria, minha língua, e, se a foto ao lado mostrasse a camiseta inteira, seria possível ler estampada nela – “Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência” – a frase do técnico Gentil Cardoso. Nos dias frios, quando não encontro um bom lugar nem para ler um livro, quando desaparece a vontade de vestir as chuteiras para fazer embaixadinhas com as palavras e ganhar a vida – é ela quem me põe em campo. Tenho dias de cabeça de bagre, de perna-de-pau, e os haters corneteiros não me deixam mentir. Às vezes, porém, no radinho Spica que me vai nas têmporas, ouço o locutor Orlando Batista comemorar comigo que “a nega tá lá dentro”. Era assim nos anos 60 – perdoai-os – a forma de gritar um gol.

Mas, agora, se lá da cabine à direita do gol de Ghiggia, o locutor perguntar novamente o que só você, JFS, tem visto por aí, eu – que nos próximos dias deixo de adorar os sabiás da crônica e tento emular Luiz Mendes, “o comentarista da palavra fácil” da Rádio Globo – eu diria em futebolês moderno que é preciso compactar a defesa dos valores brasileiros, ser mais vertical no ataque ao terço final do campo reacionário e usar mais pressão para abafar a saída de jogo dos que querem entregar a rapadura aos inimigos. Preencher os espaços desses cavadores de falta, perebas do carrinho por trás e da retranca democrática.

Tem os sambas do Chico, as mulatas do Di, as curvas do Niemeyer e a Pasárgada do Bandeira, mas nada nos explica com mais rapidez do que um elástico do Riva, uma pedalada do Robinho, os “Joões” do Garrincha, um passe de 40 metros do Gérson, uma ponte do Pompeia, a leiteria do Castilho, a bicicleta do Leônidas, a matada de costas do Neymar, as faltas do Zico, o voo do Pelé parando no ar para cabecear e o papo reto do “bola pro mato que é jogo de campeonato”.

O jogo da seleção anda pouco inspirado e o futebolês, que antes apostava na malandragem do “ripa na chulipa”, complicou o verbo – é um tal de falso 8, de jogadores escalados pela minutagem e até um segundo volante de contenção flutuando entre as linhas. Não me queixo. Tudo muda e o futebol vai junto. Neste terço final do gramado da existência, ouço vindo da cabine central do Maracanã o bordão filosófico do locutor Waldir Amaral: “O relóóóógio maaaaaaaarca!!!!!”.

[Ilustração: Carvall/Folha de S. Paulo]

Leia também: "Onde tudo se disputa" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_01973223157.html