Aporte bilionário dos EUA em terras raras no Brasil desafia soberania
Governo americano tem tomado
medidas claras para defender os próprios interesses e atacar a China em todas
as frentes
AEPET
As peças do tabuleiro geopolítico mundial e as cifras bilionárias envolvidas na tentativa de controlar a extração de terras raras se moveram pelo menos duas vezes em direção ao Brasil no começo de 2026.
Foram além dos discursos do
presidente Lula, segundo os quais a reserva nacional, cerca de 25% do que se
conhece no planeta até agora, fará parte da soberania brasileira no setor
mineral, hoje muito mais na narrativa do que na realidade.
A discussão “olho no olho” com Donald
Trump, marcada para acontecer nas próximas semanas, será a primeira desde as
ameaças e os recuos do tarifaço e ocorrerá em um momento de altíssima tensão
internacional diante da guerra no Oriente Médio provocada pelos Estados Unidos
e Israel.
Antes desta conversa, os Estados
Unidos avançaram uma casa no xadrez dos minerais críticos tentando equilibrar o
jogo contra a China, parte de um pacote amplo para tentar diminuir a
dependência de importação e o controle que a China exerce no mercado internacional.
O Grupo Serra Verde, que se descreve
como o único produtor em larga escala de terras raras pesadas críticas
fora da Ásia, com sede em Minaçu (GO), anunciou ter obtido US$ 565 milhões (R$
3 bilhões) em financiamento da Corporação Financeira de Desenvolvimento
Internacional dos Estados Unidos (DFC).
O aporte financeiro da agência do
governo norte-americano, criada em 2019, inclui uma opção que permite ao
governo dos Estados Unidos adquirir uma participação minoritária na empresa.
A
potência asiática domina o processamento de terras raras no mundo e disputa
justamente com o governo Trump a primazia deste mineral que contém elementos
essenciais para as indústrias automotiva, de semicondutores, aeroespacial e
especialmente de defesa, que está ganhando mais espaço do que a transformação
energética. Para manter a sua máquina de guerra funcionando,
portanto, Donald Trump e cia precisam de terras raras.
O governo americano tem
tomado medidas claras para defender os próprios interesses e atacar a China em
todas as frentes. A invasão da Venezuela, o sequestro de Nicolas Maduro e a
tomada do petróleo venezuelano, assim como o bombardeio do Irã e o assassinato
do líder Ali Khamenei, que levou ao fechamento temporário do estreito de
Hormuz, por onde passa até 20% do petróleo mundial exportado principalmente
para a China, está esse contexto.
O anúncio do empréstimo
para a Serra Verde ocorreu no chamado “Project Vault”, programa do
governo norte-americano que investirá R$ 12 bilhões em minerais críticos,
alinhando ainda mais a produção da empresa aos planos dos Estados Unidos.
A mineradora já tem como
sócias duas empresas registradas no exterior com capital social declarado na
Receita Federal de R$ 1,8 bilhão. E a participação de outras empresas como
investidoras, também dos Estados Unidos: a Denham Capital e a EMG, além da
britânica Vision Blue. Estas duas últimas fizeram um aporte de
investimento de US$ 150 milhões na Serra Verde em outubro de 2024.
Ilustrando que quebrar a
dominância chinesa não será tarefa fácil, simples e rápida, a mineradora, que
iniciou suas operações comerciais em 2024, informa que mantém contratos de
exportação com a China, hoje um destino inevitável para mineradoras que extraem
terras raras, já que são os chineses que detêm a tecnologia de separação desses
elementos e processam cerca de 90% do volume final do mercado global.
Relevância brasileira no cenário de terras raras coloca o país
no centro geopolítico
Mas o que significa esse
passo dado pela gestão Trump na direção da empresa sediada no interior goiano
em uma cidade de 30 mil habitantes construída em torno de uma antiga mina de
amianto?
Especialistas ouvidos
pelo Observatório
da Mineração são unânimes de que se trata de um dos pontos
mais altos até agora da nova estratégia dos Estados Unidos no mercado de terras
raras em países emergentes. E que essa posição coloca o país no centro da
disputa dos norte-americanos com a China pelo controle deste mercado.
O investimento estatal
norte-americano por meio da DFC está em um contexto maior. De uma mudança na
atuação estadunidense na economia, iniciada no primeiro governo Trump com apoio
bipartidário, aprofundada na gestão Biden e que hoje é consolidada como uma
política “explicitamente intervencionista”, segundo Edna Aparecida da
Silva, pesquisadora do INCT-INEU que estuda, entre outros temas internacionais,
os impactos da competição tecnológica entre EUA e China sobre o Brasil.
A mudança estratégica
dos Estados Unidos, explica Edna, é de um papel mais ativo na regulação dos
fluxos de investimento estrangeiro, com base em critérios de segurança
nacional. O modelo, destaca a pesquisadora, envolve a triagem por nacionalidade
e setor, interferência em fusões e aquisições e a adoção de marcos regulatórios
para restringir a presença chinesa em setores considerados sensíveis.
“O caso da Serra Verde é parte desse novo padrão de coordenação
entre Estado e capital em setores estratégicos, mobilizados como parte da
política externa norte-americana: o investimento apoiado por capital público
converte-se em instrumento de reorganização geoeconômica”, avalia Edna, doutora em Ciência
Política pela Unicamp, pesquisadora de pós-doutorado do IREL/UnB e do INCT-INEU.
Para a especialista, a
DFC é parte de uma estratégia de fortalecimento dos instrumentos financeiros
norte-americanos como resposta à expansão da presença chinesa no Sul Global, em
especial na América Latina.
“O financiamento à Serra Verde não pode ser interpretado apenas
como uma operação econômica. Não é um movimento neutro e pode, sim, influenciar
os horizontes de autonomia da política mineral brasileira”, diz.
Para Luis Eslava,
professor de Direito Internacional na Faculdade de Direito de La Trobe University
(Austrália), duas “tensões estruturais”podem surgir com o aporte na empresa
sediada em Goiás. A primeira, justamente a de soberania, já parte do
discurso brasileiro atual, pois o financiamento oferece opções de capital e
“inevitavelmente” insere os projetos em prioridades estratégicas mais amplas de
potências externas. E a segunda, a de “captura de valor”.
“A menos que o Brasil integre tais investimentos a uma
estratégia industrial coerente, corre o risco de reproduzir o padrão histórico
de fornecimento de matérias-primas estratégicas, enquanto os segmentos de maior
valor permanecem no exterior”, afirma Eslava.
O pesquisador também
aponta que o Brasil faz parte de uma nova fronteira de exploração mineral no
Sul Global. E que debate central deveria ser feito nos termos e condições da
extração: respeito ao consentimento livre, prévio e informado (CLPI), consulta
comunitária significativa, mecanismos de justiça distributiva e caminhos
concretos para avançar nas cadeias de valor globais.
Como as terras raras
passaram a ocupar os holofotes recentemente, ganhando atenção e cobertura
inéditas até então, e diante da corrida global pela diversificação de fontes e
processamento fora da China, o Brasil, atrasado, apenas iniciou um estudo
que tem o objetivo de subsidiar a chamada “Estratégia Nacional de Terras
Raras”.
Douglas Carvalho
Ribeiro, doutor em Direito pela Universidade de Hamburgo (Alemanha) e
pesquisador de pós-doutorado na mesma universidade na cátedra de Estudos de
Ciência e Inovação, avalia que essa é uma clara tentativa de “ingerência” dos
Estados sobre recursos críticos brasileiros.
Ribeiro vai na mesma
linha de Eslava, ao apontar a ausência de um projeto nacional para o setor. “O
que torna esse quadro particularmente grave é que não se vislumbra, no momento,
um projeto nacional capaz de romper com essa dinâmica — seja pela ausência de
uma política industrial voltada ao domínio tecnológico do processamento, seja
pela própria inserção subordinada que esses financiamentos reforçam”, argumenta
Ribeiro.
Acordo com a Índia
indica articulação dos BRICS no eixo Sul-Sul
Apesar do investimento
direto de Trump no caso da Serra Verde, e de vários acordos, memorandos de
entendimento, reuniões, negociações e até um grupo de trabalho sobre minerais
críticos que o Brasil possui com os Estados Unidos, o país também tem acenado
para outros parceiros.
Para Edna Aparecida da
Silva, o discurso de Lula sobre soberania tem um significado político, cercado
por dois atos recentes e relevantes, com pesos políticos e diplomáticos.
O primeiro seria a
decisão acertada, segundo a avaliação da especialista, na recusa em aderir ao
Fórum sobre Engajamento Geoestratégico de Recursos (FORGE), proposto pelos
Estados Unidos.
O segundo ponto, ainda
nas relações internacionais, é o acordo sobre o tema fechado na semana
passada com a Índia. “Não se trata de um gesto isolado: o
Brasil buscou cooperação com um país que também vem reformulando sua posição no
campo da política mineral, estruturando uma estratégia nacional voltada à
internalização produtiva e à redução de dependências tecnológicas”,
afirma.
De qualquer maneira,
segundo a pesquisadora, a efetividade do discurso de soberania dependerá da
capacidade do Brasil articular as políticas mineral, industrial e tecnológica
de forma integrada, com coordenação estatal e horizonte de longo prazo, além de
enfrentar os constrangimentos estruturais que ainda limitam a possibilidade de
alterar os termos históricos de inserção internacional do país apenas como
exportador mineral sem transformação.
O tabuleiro atual de
terras raras, aponta Edna, é do domínio tecnológico e os controles regulatórios
chineses e de outro, a tentativa norte-americana de estruturar um bloco mineral
apoiado em financiamento público, coordenação diplomática e alinhamento
regulatório.
“Nesse cenário, a capacidade brasileira de alterar os termos de
sua inserção internacional dependerá menos do discurso soberano isoladamente e
mais da construção de um projeto consistente de transformação produtiva”,
avalia.
Além de também acreditar
na validade do acordo com a Índia, Luis Eslava lembra das posições de outros
países que mudaram a relação com as potências. Um dos exemplos foi as
restrições da Indonésia às exportações de níquel bruto. Segundo o pesquisador,
isso mostra que estados do Sul Global podem intervir para promover o
processamento doméstico e a atualização industrial.
“Esse movimento provocou reações negativas de grandes potências
econômicas, incluindo a União Europeia, mas mudou a posição da Indonésia na
cadeia de valor do níquel. O precedente demonstra que quebrar a dependência
extrativista é possível, embora politicamente custoso”, avalia.
Para não se submeter às
duas grandes potências em disputa, o Brasil, na avaliação de Eslava, deve ter
cuidado para não cair na dimensão de marketing dos confrontos contemporâneos.
“A retórica anti-China generalizada pode cegar os formuladores de políticas. A
tarefa é ouvir as necessidades de suas populações e navegar no contexto
internacional de forma pragmática e solidária com outros estados”, diz.
Carvalho Ribeiro tem uma
posição cética sobre a capacidade brasileira de ser soberano no setor mineral,
ir além do discurso e também de que os Estados Unidos queiram desenvolver uma
cadeia tecnológica fora dos seus domínios. “Historicamente, transferência
tecnológica entre centro e periferia nunca foi uma concessão espontânea — ela
sempre foi resultado de uma política deliberada do país receptor. Sem essa
política, o que resta é a extração”, avalia
Lucio Lambranho é repórter desde 1996.
Menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog por reportagens sobre trabalho escravo
publicadas no site Congresso em Foco. Foi um dos responsáveis pelas reportagens
sobre a farra das passagens aéreas, série jornalística vencedora do Prêmio
Embratel de Jornalismo Investigativo e do Prêmio Esso de Melhor Contribuição à
Imprensa em 2009. Participou de investigações na Papel Social sobre trabalho
escravo e infantil e danos ambientais causados pelas cadeias produtivas do
açúcar e usinas de cana-de-açúcar, cera de carnaúba, cacau, construção civil,
têxtil e reciclagem.
Fonte(s) / Referência(s): GGN/Observatório de Geopolítica
Terras raras, riqueza estratégica https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/editorial-do-vermelho_20.html






