21 fevereiro 2026

Desequilíbrio tecnológico

Indústria criativa pode perder até 24% das receitas globais por causa da IA
Unesco estima quedas significativas de receitas para criadores de música e audiovisual até 2028 devido ao aumento da produção de conteúdos por IA; quadro afeta financiamento público e ameaça liberdade artística.
ONU News      
 

A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura,  Unesco, divulgou um relatório sobre o futuro das políticas de criatividade com base em dados coletados em mais de 120 países. 

O estudo “Re-Shaping Policies for Creativity” analisa como a transformação digital, o crescimento da Inteligência Artificial, IA, mudanças no comércio global e riscos à liberdade artística estão transformando o panorama das indústrias culturais e criativas. 

Indústrias culturais subvalorizadas e frágeis

O documento apresenta mais de 8.100 medidas políticas identificadas e defende o reforço de políticas públicas para proteger artistas e profissionais da cultura face ao aumento de desigualdades e à precarização.

Apesar de as indústrias culturais e criativas serem cada vez mais reconhecidas como motores de crescimento económico, coesão social e desenvolvimento sustentável, os sistemas que apoiam este setor permanecem frágeis e desiguais.

Segundo os dados apresentados, 85% dos países que responderam incluem as indústrias culturais e criativas nos seus planos nacionais de desenvolvimento, mas apenas 56% definem objetivos culturais específicos, evidenciando uma diferença entre compromissos gerais e medidas concretas. 

Mercado e formatos

A Unesco aponta também que o comércio global de bens culturais duplicou e atingiu US$ 254 bilhões em 2023, sendo que 46% das exportações têm origem em países em desenvolvimento. 

No entanto, esses mesmos países representam apenas pouco mais de 20% do comércio global de serviços culturais, indicando um desequilíbrio crescente à medida que o mercado se desloca para formatos digitais. O relatório sublinha ainda que o financiamento público direto para a cultura permanece baixo, situando-se globalmente abaixo de 0,6% do Produto Interno Bruto, PIB, e continuando em tendência de queda.

Agravamento de desigualdades 

A Unesco assinala que a transformação digital ampliou o acesso a ferramentas e audiências, mas também intensificou desigualdades e aumentou a instabilidade financeira de criadores e profissionais do setor cultural.

De acordo com o relatório, as receitas digitais passaram a representar 35% do rendimento dos criadores, um aumento significativo face aos 17% registados em 2018, refletindo uma mudança estrutural no modelo económico das indústrias criativas. 

Contudo, este crescimento é acompanhado por maior precariedade e por uma exposição mais elevada a violações de propriedade intelectual. O relatório estima que, até 2028, a expansão de conteúdos produzidos por IA generativa poderá provocar perdas globais de receitas de até 24% para criadores de música e 21% para criadores do setor audiovisual. 

Divisão Norte-Sul

A Unesco destaca também que as competências digitais essenciais estão presentes em 67% da população dos países desenvolvidos, enquanto apenas 28% das pessoas em países em desenvolvimento possuem essas competências, reforçando a divisão Norte–Sul. 

O documento chama ainda a atenção para a concentração de mercado em poucas plataformas de streaming e para sistemas de curadoria de conteúdos descritos como opacos, que dificultam a visibilidade de criadores menos conhecidos. 

Apenas 48% dos países afirmam estar a desenvolver estatísticas para acompanhar o consumo cultural digital, o que limita respostas políticas eficazes.

Mobilidade artística e barreiras 

Outro ponto destacado pela Unesco é a persistência de obstáculos à mobilidade artística internacional, identificados no relatório como uma “muralha de vistos”. Segundo os dados apresentados, 96% dos países desenvolvidos apoiam a mobilidade artística para o exterior, mas apenas 38% facilitam a entrada de artistas provenientes de países em desenvolvimento. Esta assimetria é descrita como um fator que restringe oportunidades e dificulta a circulação internacional de criadores, sobretudo de regiões com menos acesso a financiamento e estruturas de apoio.

Proteção permanece limitada

O relatório aponta um aumento das preocupações em torno da liberdade artística e da segurança de criadores em diversas regiões. De acordo com o documento, apenas 61% dos países possuem organismos independentes para supervisionar a área. 

A Unesco destaca ainda que instabilidade política, conflitos e deslocações forçadas colocam profissionais da cultura em risco acrescido, mas apenas 37% dos países indicaram possuir iniciativas destinadas especificamente a protegê-los. 

O relatório acrescenta que mecanismos de apoio a artistas em risco continuam fragmentados e com recursos insuficientes, ao mesmo tempo que novas ameaças emergem no ambiente digital, incluindo vigilância e enviesamentos algorítmicos.

Mulheres na criação

A Unesco identifica avanços, mas também disparidades significativas no progresso rumo à igualdade de género nas indústrias culturais e criativas. 

O relatório indica que a liderança feminina em instituições culturais nacionais aumentou globalmente, passando de 31% em 2017 para 46% em 2024. 

No entanto, a distribuição é desigual, com mulheres a representarem 64% das líderes em países desenvolvidos, mas apenas 30% em países em desenvolvimento.

O documento acrescenta que muitos quadros políticos continuam a posicionar mulheres sobretudo como consumidoras de cultura, em vez de promoverem de forma consistente a sua participação como criadoras e líderes do setor.

Unesco reforça papel da Convenção de 2005 

O relatório enquadra estas conclusões no trabalho de mais de duas décadas da Unesco no âmbito da Convenção de 2005 sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, indicando que esta edição de 2026 é a quarta da série de relatórios que monitorizam a implementação desse instrumento internacional. 

O documento refere que o relatório foi publicado com o apoio do Governo da Suécia e da Agência Sueca de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento. 

A Unesco destaca ainda que apoiou mais de 100 países na criação ou reforma de políticas culturais, com foco em áreas como reforço de proteções socioeconómicas para artistas, apoio à transição digital dos setores criativos e capacitação de comunidades vulneráveis. 

Segundo o relatório, mais de 8.100 políticas e medidas culturais foram endossadas por Estados-Partes da Convenção de 2005 para fortalecer o papel das indústrias culturais e criativas no desenvolvimento sustentável. 

O texto acrescenta que, através do Fundo Internacional para a Diversidade Cultural, a Unesco apoiou 164 projetos em áreas como cinema, artes performativas, artes visuais e arte mediática, bem como design, música e publicação, em 76 países do Sul Global.

Necessidade de reforço de medidas de apoio

Com base em dados recolhidos em mais de 120 países, a Unesco conclui que o setor cultural enfrenta uma fase de transformação acelerada impulsionada pela digitalização e pela Inteligência Artificial.

Tal mudança tem impactos económicos projetados significativos para criadores, ao mesmo tempo que persistem desigualdades no comércio cultural, no acesso a competências digitais, na mobilidade internacional e na proteção da liberdade artística.

O relatório enfatiza ainda a necessidade de reforço de políticas públicas e mecanismos de apoio para garantir que a evolução tecnológica e económica não aprofunde fragilidades já existentes no setor cultural e criativo.

Há espaço para a Soberania Digital https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/brasil-na-era-digital.html

Humor de resistência

Fraga

Xadrez do Master, a maior crise institucional da história do mercado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/banco-master-por-luis-nassif.html 

20 fevereiro 2026

Palavra de poeta

Poema 18
Pablo Neruda   

Aqui te amo.
Nos escuros pinheiros desenreda-se o vento.
Fosforescente a lua sobre as águas errantes.
Dias comuns costumam seguir-nos sempre.

Liberando-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata desprende-se do entardecer.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.

Ou a cruz de um barco.
Só.
Às vezes amanheço, e até minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Este é um porto.
Aqui te amo.

Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou te amando ainda entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nesses barcos graves,
que correm pelo mar até onde não chegam.

Já me sinto esquecido nessas velhas âncoras.
São mais tristes os portos quando chega a tarde.
Fatiga-se a minha vida inútil e faminta.
Eu amo o que não tenho. E tu estás distante.

Meu tédio forceja com os lentos crepúsculos.
Mas, ao chegar, a noite já começa a cantar.
A lua faz girar o seu círculo de sonho.

Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros, na ventania,
querem cantar teu nome com suas folhas de arame.

[Ilustração: Gilvan Samico]

Leia também: "Soneto da busca", um poema de Carlos Pena Filho https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_40.html 

Apenas um drinque

Nem mais, nem menos

Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65    

Por que a capacidade de lidar com o álcool piora com a idade? Não sei. 

Certamente saberia se estivesse no exercício da medicina, mais ainda se fosse geriatra.

Na condição de cidadão comum, confesso meu absoluto desinteresse pelo tema. 

Bebo pouco ou quase nada: uma garrafinha de cerveja long neck, se estiver fazendo muito calor, apenas uma taça de vinho ou uma ou duas doses de whisky puro com gelo. 

Então não estou na onda dos pesquisadores que arriscam deitar sentença sobre as consequências do consumo de álcool para a turma que passou de 60. 

Também não me recordo agora, na minha enorme lista de contatos, de algum amigo ou amiga de idade avançada que emborque o copo além da conta. 

Apesar de tudo, arrisco um conselho aos idosos: uma boa dose de whisky tem efeito dilatador sobre os nossos vasos sanguíneos e abre a mente para ideias novas. Experimente.

"Vivos, lúcidos e ativos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/minha-opiniao_18.html

Arte é vida

 

Paul Klee 

Leia: "Beto de Shangai" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/05/minha-opiniao_11.html 

Autonomia tecnológica

Bens públicos digitais mostram que o Brasil não precisa ser colônia global
Em vez de depender de Big Techs, o Brasil deve fortalecer bens públicos digitais como estratégia de desenvolvimento, autonomia tecnológica e futuro nacional
Laura Rodrigues, Ergon Cugler e Nésio Fernandes/Le Monde Diplomatique  

Antes do hype das inteligências artificiais generativas, muito antes de executivos do Vale do Silício prometerem revoluções a cada nova atualização de software, você provavelmente já usou a Wikipédia para consultar alguma informação ou matar uma curiosidade. Mais recentemente, já fez um PIX. Se nem isso, com certeza você tem um CPF, acessou o SUS ou já foi contado, classificado e mapeado pelo IBGE. Esses gestos banais, quase automáticos, dizem muito mais sobre o Brasil digital do que qualquer apresentação de PowerPoint sobre inovação. 

A Wikipédia é um exemplo clássico de infraestrutura digital orientada ao bem comum. Um repositório de conhecimento mantido de forma colaborativa, aberta, reutilizável e acessível, que se tornou referência global sem depender de um modelo de negócio baseado em extração de dados ou publicidade predatória. O PIX, por sua vez, é uma infraestrutura pública de pagamentos criada pelo Banco Central do Brasil (BCB) que reorganizou o sistema financeiro brasileiro. Ao reduzir custos, eliminar intermediários e impor padrões abertos, mostrou que tecnologia pública pode ser mais eficiente do que soluções privadas orientadas exclusivamente ao lucro. 

O mesmo vale para o CPF, que não é apenas um número, mas um dos principais identificadores digitais do Estado brasileiro. Ele integra políticas públicas, sistemas de saúde, educação, assistência social e serviços privados, funcionando como uma espinha dorsal da vida administrativa e econômica do país. O SUS, além de política social, é uma gigantesca infraestrutura digital baseada em bases de dados, sistemas de regulação e vigilância epidemiológica. Já o IBGE produz dados públicos que estruturam decisões de governo, pesquisas acadêmicas e estratégias econômicas. Sem esses dados, simplesmente não existe planejamento nacional. 

Esses exemplos expõem uma verdade que o debate público por vezes ignora. Transformação digital não nasce por mágica em campus do Vale do Silício, nem brota do mercado como se fosse lei da natureza. Ela acontece quando Estado e sociedade constroem infraestrutura que pega no cotidiano e organiza a vida real. Wikipédia, PIX, CPF, SUS e IBGE são variações de um mesmo princípio: bens públicos digitais. E são esses bens públicos digitais que fazem o país funcionar, mesmo sem aplauso, mesmo sem hype, mesmo sem o rótulo. 

Quando a tecnologia vira dependência e não desenvolvimento 

Bens públicos digitais não são um jargão técnico nem uma moda conceitual importada de organismos multilaterais. São recursos estratégicos. Incluem softwares, bases de dados, padrões abertos, infraestruturas digitais e, cada vez mais, modelos de inteligência artificial desenvolvidos com lógica pública. O que os define não é apenas o fato de serem gratuitos, mas principalmente o fato de serem acessíveis, reutilizáveis e abertos. Eles não existem para maximizar lucro privado, mas para estruturar o bem comum. 

Essa distinção importa porque o debate sobre tecnologia foge da pergunta que decide tudo: poder. Fala-se de eficiência, inovação e competitividade, como se a infraestrutura fosse neutra. Mas a pergunta é simples: quem controla. Quem controla a infraestrutura controla o fluxo de informação, a decisão econômica, a política pública e, no limite, a soberania. Bens públicos digitais são isso: soberania em forma de infraestrutura. 

E assim, soberania digital não pode ser só slogan. Vira política quando tem base legal e instrumento concreto. E o Brasil já tem uma âncora constitucional poderosa para isso: o artigo 219, que trata o mercado interno como patrimônio nacional e liga sua proteção à autonomia tecnológica. Não é poesia. É mandato. 

Art. 219. O mercado interno integra o patrimônio nacional e será incentivado de modo a viabilizar o desenvolvimento cultural e socioeconômico, o bem-estar da população e a autonomia tecnológica do País, nos termos da lei federal. 

Parágrafo único. O Estado estimulará a formação e o fortalecimento da inovação nas empresas, bem como nos demais entes, públicos ou privados, a constituição e a manutenção de parques e polos tecnológicos e de demais ambientes promotores da inovação, a atuação dos inventores independentes e a criação, absorção, difusão e transferência de tecnologia. 

Isto é, se o mercado interno é patrimônio nacional, o Estado não é um mero espectador da economia, ele tem dever de incentivo estruturante para alcançar fins públicos claros, entre eles a autonomia tecnológica. Contudo, no capitalismo de plataformas, isso ganha uma dimensão nova: uma parte central do mercado interno hoje é digital e se move por um ativo específico, dados. 

Dados não são “informação” no sentido inocente do termo. São ativos econômicos e, na prática, matéria prima de poder. As plataformas estrangeiras das Big Techs vendem serviços enquanto coletam dados da população, do território, da economia, das relações e dos comportamentos. Capturam, tratam, predizem e monetizam. É assim que constroem vantagem e concentram controle. Se esses dados são gerados aqui e alimentam o próprio mercado interno digital, a conclusão é direta e compatível com o artigo 219: a exploração desse patrimônio precisa gerar contrapartida para desenvolvimento nacional e autonomia tecnológica. 

Isso não é fechar o país nem demonizar tecnologia. É fazer política econômica no século XXI. Se empresas globais querem operar aqui e capturar valor aqui, precisam devolver parte disso em capacidade tecnológica local: transferência de tecnologia, inovação, parque tecnológico, infraestrutura pública digital. O mercado interno, hoje, também é mercado de dados. Proteger o mercado interno, nesse contexto, é proteger dados nacionais. E isso tem um nome: soberania. 

Assim, dependência tecnológica não é só planilha de custos e renovação de licença. É vulnerabilidade estrutural. É risco de embargo, de interrupção de serviço crítico, de sistema essencial que você não pode auditar, adaptar nem modificar. Num mundo de sanção, disputa geopolítica e guerra híbrida, depender do que você não controla é renunciar a autonomia estratégica. 

E tem o dano mais silencioso. A caixa de pandora corrói capacidade interna. Cada contrato fechado com Big Techs é uma escola que não se abre, uma competência que não se forma, um conhecimento que não se acumula. O país vira consumidor de solução pronta. Depois de um tempo, perde até o reflexo de imaginar, projetar e construir sua própria infraestrutura digital. 

Esse modelo custa caro no caixa. Bilhões saem todo ano em licença, assinatura e serviço. Dinheiro público que poderia financiar pesquisa, desenvolvimento e inovação alinhada ao país. Mas o custo mais grave é político e estrutural. Quem não domina sua base tecnológica vira periferia na economia digital, condenado a pagar pedágio para funcionar. 

Bens públicos digitais como projeto nacional de futuro 

É aqui que bens públicos digitais deixam de ser detalhe técnico e viram projeto nacional. Quando o Estado investe em solução aberta, reutilizável e interoperável, cada real gasto vira ativo coletivo. Código aberto não é só escolha ética. É estratégia econômica: reduz dependência, cria capacidade e multiplica retorno dentro do país. 

Ao adotar padrões abertos e softwares livres, o país cria uma base comum de conhecimento e infraestrutura. Essa base pode ser usada, adaptada e aprimorada por empresas nacionais, universidades, cooperativas e comunidades de desenvolvedores. Em vez de concentrar valor em poucos fornecedores globais, o investimento público passa a irradiar oportunidades econômicas internamente. Startups constroem serviços, empresas oferecem soluções especializadas, empregos de alta qualificação são gerados e o ecossistema tecnológico se fortalece. 

O mesmo vale para outros bens públicos digitais. Eles funcionam como infraestrutura básica, assim como estradas, portos e redes elétricas. Nenhum país sério terceiriza completamente suas rodovias a gestores estrangeiros sem controle público. Não faz sentido aceitar que a infraestrutura digital, ainda mais estratégica, seja entregue a interesses que não respondem ao projeto nacional. 

É a partir dessa compreensão que surge o Centro Nacional de Bens Públicos Digitais (CNBPD). O CNBPD não é um repositório burocrático de códigos esquecidos. Ele é uma peça estratégica do Estado brasileiro. Sua função é coordenar, fomentar e proteger soluções digitais abertas desenvolvidas com recursos públicos, garantindo que o conhecimento financiado pela sociedade permaneça como patrimônio coletivo. 

Mais do que produzir tecnologia, o CNBPD atua como instância de governança. Organiza padrões, evita duplicações, promove reutilização e cria escala. Cada solução deixa de ser um projeto isolado e passa a integrar uma arquitetura nacional de tecnologia pública. Isso gera eficiência, reduz custos e cria continuidade institucional, algo raro em políticas públicas brasileiras. 

No fundo, a disputa em torno dos bens públicos digitais é uma disputa sobre o futuro. Um futuro em que o Brasil pode escolher ser protagonista, desenvolvendo tecnologia alinhada às suas necessidades sociais, econômicas e culturais. Ou um futuro de dependência, no qual importa soluções, exporta dados e abre mão de autonomia. 

Bens públicos digitais não são um luxo nem uma pauta secundária. São a base material de um projeto de nação no século XXI. Quem controla a tecnologia controla a capacidade de planejar, investir e decidir coletivamente. A pergunta não é se o Brasil pode construir essa base. A pergunta é quanto tempo ainda aceitará não fazê-la. 

Laura Rodrigues é Coordenadora da Frente Hacker da UJS Brasil, graduada em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela FMU, graduanda em Desenvolvimento de Software Multiplataforma na Fatec. Entusiasta do código com propósito, atua como Profissional DevOps e Arquiteta de Sistemas. 

Ergon Cugler de Moraes Silva é Conselheiro da Presidência da República no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), o Conselhão do Governo Federal. Graduado e pós-graduado pela USP, mestre em administração pública e governo pela FGV e cientista de dados pós-graduado pela Universitat de Barcelona. Atua como pesquisador CNPq do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop/FGV). 

Nésio Fernandes é médico sanitarista e hansenologista, foi Secretário de Atenção Primária do Ministério da Saúde, Presidente do Conselho Nacional de Secretários de Estado da Saúde (CONASS) e Secretário da Saúde do Estado do Espírito Santo e de Palmas/TO. É ciberativista, com atuação em saúde coletiva, inovação em gestão e transformação digital aplicada a políticas públicas. Mestrando em Função Social do Direito pela FADISP e em Saúde Coletiva pela UFES.  

Lula defende governança global da IA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/lula-na-india-posicao-avancada.html 

Lula na Índia

Lula impulsiona nova governança global na Índia e desafia hegemonia tecnológica
Presidente busca parcerias estratégicas e soberania digital para o Brasil em cenário de disputa por tecnologias críticas
Jornal GGN    

A recente viagem do presidente Lula à Índia para a cúpula em Nova Délhi é um marco importante no cenário global, avaliou Rey Aragon, jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (UFF). Em entrevista a Luís Nassif, Aragon analisou que a cúpula se diferencia da lógica do capital do Vale do Silício, focando em aplicações da inteligência artificial em áreas como medicina, defesa, indústria e comércio, e buscando uma abordagem contra-hegemônica. 

A parceria do Brasil com a Índia, costurada desde a cúpula do BRICS do ano passado, visa diversificar os parceiros comerciais do Brasil. Além disso, Lula expressou apoio à concepção de uma nova governança global para a internet, parte de um projeto chinês que integra iniciativas de desenvolvimento, segurança e civilização global, reformulando a ONU e defendendo a soberania tecnológica do Sul Global.

Aragon destacou que o século XXI será impulsionado por tecnologias como terras raras, semicondutores, software, redes soberanas e infraestruturas de comunicação. A computação em nuvem, por exemplo, traz desafios como a mineração de minerais críticos, que se tornará um ativo fundamental.

A mídia tradicional, no entanto, não tem dado a devida atenção a esses temas, o que, para Aragon, reflete a falta de interesse em um debate público amplo sobre soberania e desenvolvimento, áreas onde o governo Lula tem um discurso forte. Ele apontou que as grandes empresas de tecnologia, com sua influência no Congresso, não têm interesse em discutir a soberania tecnológica.

No que tange às políticas públicas, o Brasil, historicamente vanguardista na internet com o CGI, enfrenta desafios. Apesar de ter tido grandes investimentos em ciência e tecnologia nos primeiros governos Lula e Dilma, a instabilidade democrática do país compromete projetos de longo prazo, como o desenvolvimento de tecnologias de litografia. O baixo investimento atual em ciência, tecnologia e inovação, com recursos bloqueados pelo Congresso, também é um obstáculo. No entanto, o Brasil possui alta capacidade em programação, matemática e sistemas, com um movimento forte de software livre e militância pela soberania digital.

Aragon ressaltou a importância de programas como o Redata, que visam a implementação de data centers, mas questionou a forma como são conduzidos. Ele defendeu que o Brasil deveria investir em sua própria infraestrutura e oferecer serviços, em vez de entregar o controle total a grandes empresas de tecnologia.

O Brasil, segundo maior detentor de reservas de minerais críticos, precisa de uma estatal e regulação para o setor, a fim de negociar a venda desses minerais com valor agregado, em vez de exportar apenas a matéria-prima bruta, evitando que estados e empresas privadas negociem diretamente com potências estrangeiras sem a participação da União.

Há espaço para a Soberania Digital https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/brasil-na-era-digital.html