18 agosto 2026

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Não é empáfia, é consciência do seu papel na cena brasileira e da enorme diferenciação com candidatos da direita. Na campanha, Lula mantém nível elevado e postura de governante. 

Soberania nacional é o pilar do Programa de governo de Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/editorial-do-vermelho_01066033204.html 

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Dusan Milosic  

Brasil: desafios do desenvolvimento

A reprimarização do Brasil e a possível virada
Nos anos 1980, um episódio da financeirização global abriu as portas para nosso retrocesso – mas o falta de um projeto de país a prolonga há quatro décadas. Surgem novas condições para revertê-la. Quais são elas e como aproveitá-las?
Marcio Pochmann/Outras Palavras 
 

A história econômica do Brasil no século XX pode ser lida como a tentativa de transformar o agrarismo primário-exportador em sociedade urbana, industrial e tecnologicamente autônoma. Entre os anos de 1930 e 1980, o país construiu uma das estruturas produtivas mais complexas do mundo periférico, apesar de desigualdades persistentes.

A indústria de transformação, a expansão das cidades, o emprego formal, a engenharia nacional, as empresas estatais estratégicas e a organização sindical formaram a base material de uma sociedade salarial em consolidação. O Brasil não era apenas exportador de café, minério ou produtos agrícolas, participando da divisão internacional do trabalho também como exportador de manufaturas ao mundo.

A inflexão histórica começou no final dos anos 1970. A elevação abrupta das taxas de juros nos Estados Unidos, sob a política de Paul Volcker, presidente do Banco Central, transformou a dívida externa brasileira em uma armadilha financeira. O país passou da lógica da transformação estrutural para a lógica da gestão de emergências para a sobrevivência macroeconômica. A prioridade deixou de ser o investimento na ampliação da complexidade produtiva, para assumir cada vez mais a geração de superávits comerciais externos para pagar juros e amortizações do endividamento. Os anos de 1980 não foram apenas uma década perdida em termos de crescimento econômico, mas o período histórico em que o Brasil perdeu a continuidade de seu projeto de complexificação produtiva. 

Naquele contexto, a política nacional de informática havia adquirido significado estratégico, pois expressava a tentativa de construir capacidade tecnológica própria em um setor que se tornaria central na economia do conhecimento. As pressões internacionais contra essa estratégia nacional revelaram que a disputa tecnológica não seria neutra. Países centrais defenderam a abertura quando já haviam consolidados suas vantagens competitivas ao passo que países periféricos como o Brasil enfrentavam enormes dificuldades quando tentam construir as suas, ademais dos obstáculos como os colocados pelos EUA nos anos de 1980.

A partir dos anos de 1990, a abertura comercial e financeira ocorreu sem uma política industrial de mesma intensidade. A valorização cambial recorrente, os juros elevados, a financeirização e a redução do investimento público enfraqueceram segmentos industriais intensivos em tecnologia e engenharia. O resultado terminou sendo uma desarticulação progressiva das cadeias produtivas nacionais com o aumento do conteúdo importado da produção e a perda de densidade da indústria de transformação.

O Brasil deixou de ampliar a sua presença como exportador de manufaturas e passou a depender crescentemente de produtos da natureza como a soja, milho, carne, minério de ferro, petróleo, celulose e outras commodities. O dinamismo externo passou a ser puxado por atividades baseadas em recursos naturais, muitas delas altamente eficientes, mas com menor capacidade de irradiar inovação tecnológica para o conjunto da economia. Consolidou-se, assim, uma estrutura produtiva mais especializada e menos complexa, com baixa produtividade agregada e empregos de menor remuneração.

Essa transformação alterou profundamente a posição do país na divisão internacional do trabalho. Enquanto economias asiáticas combinaram integração internacional com elevação do conteúdo tecnológico, o Brasil experimentou uma inserção externa mais subordinada, marcada pela exportação de bens primários e pela importação crescente de máquinas, equipamentos, componentes eletrônicos, semicondutores, softwares e tecnologias estratégicas. A dependência deixou de ser apenas comercial, tornando-se tecnológica, financeira e informacional.

A regressão não significa retorno ao passado agrário. O Brasil continua sendo uma economia urbana, com importante setor de serviços e ilhas de excelência industrial e científica. O ponto central é outro, pois relacionado à parte da capacidade de coordenar uma estrutura produtiva complexa, integrada e articulada. A indústria deixou de exercer o papel de eixo organizador do desenvolvimento nacional.

As consequências sociais foram profundas. A sociedade salarial, no sentido referido por Robert Castel em As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário, depende de empregos relativamente estáveis, proteção social e negociação coletiva. A grande fábrica urbana, que organizava identidades coletivas, carreiras e formas de representação política, perdeu centralidade. A substituição de empregos industriais por ocupações mais precárias, terceirizadas, informais ou de baixa produtividade enfraqueceu a base material da organização sindical e da representação laboral.

O trabalhador da era industrial concentrava-se em espaços comuns e compartilhava ritmos de produção. O trabalhador da era digital e da fragmentação produtiva frequentemente atua de forma dispersa, intermitente ou plataformizada. A passagem da máquina ao algoritmo não significou automaticamente emancipação tecnológica, em muitos casos, significou individualização do risco e dificuldade de organização coletiva. 

A verdadeira questão do século XXI supera a escolha entre a indústria e a natureza para se situar em torno da reconstrução da economia capaz de combinar recursos naturais abundantes com conhecimento, tecnologia e serviços avançados. Países líderes da transição energética, da bioeconomia e da economia digital não abandonaram suas vantagens naturais, pois as transformaram em plataformas de inovação.

O Brasil possui condições excepcionais para isso. Poucos países reúnem simultaneamente grande mercado interno, base científica diversificada, matriz energética relativamente limpa, biodiversidade, capacidade agroindustrial, sistema financeiro sofisticado e experiência industrial acumulada. A emergência climática, longe de representar apenas um risco, abre oportunidades em energias renováveis, hidrogênio verde, biocombustíveis avançados, química de base biológica, economia circular, monitoramento ambiental e infraestrutura resiliente.

Nesse contexto, a antiga ideia de complexidade produtiva precisa ser atualizada. No século XX, ela estava associada principalmente à grande indústria integrada, enquanto no século XXI, a complexidade avançou para a capacidade de articular manufatura avançada, serviços intensivos em conhecimento, inteligência artificial, dados, biotecnologia e sustentabilidade. A nova fronteira tecnológica tem sido menos vertical e mais conectada em redes.

Essa transformação também exige repensar a sociedade do trabalho. O enfraquecimento relativo do emprego industrial tradicional não significa necessariamente o fim da proteção social ou da representação coletiva. Significa que novas formas de trabalho como as digitais, criativas, científicas, tecnológicas, de cuidado e ambientais precisam ser incorporadas a um novo pacto de cidadania econômica. O desafio está em ampliar a qualificação, a proteção e a capacidade de organização em um mercado de trabalho mais heterogêneo.

O Brasil já demonstra sinais do curso dessa transição. O crescimento de setores ligados à tecnologia da informação, serviços empresariais, pesquisa aplicada, economia criativa, fintechs, saúde, educação e soluções ambientais revela que a economia brasileira não está apenas se simplificando, pois está se reorganizando. O risco existe sempre quando esses setores permanecem desconectados de uma estratégia nacional de desenvolvimento.

Por isso, o debate sobre desindustrialização deve avançar mais para o salto inteligente da industrialização. Não se trata de reproduzir o modelo dos anos 1970, mas o de ampliar a construção de capacidades em semicondutores, equipamentos para energia renovável, fármacos, defesa, agricultura de precisão, infraestrutura digital, computação em nuvem, inteligência artificial e bioindústria. O objetivo não está em fechar a economia, e sim aumentar sua capacidade de gerar tecnologia, produtividade e empregos qualificados.

A experiência histórica brasileira mostra que períodos de maior dinamismo ocorreram quando o país conseguiu articular Estado, empresas, ciência e sociedade em torno de um projeto de transformação produtiva. Essa lição continua atual. Em um mundo marcado pela disputa tecnológica, pela reorganização das cadeias globais e pela transição ecológica, o Brasil pode ocupar posição mais relevante do que ocupou nas últimas décadas.

O futuro brasileiro não precisa ser o de uma economia baseada apenas em produtos da natureza e mão de obra barata. A abundância de recursos naturais pode se tornar a base de uma nova economia do conhecimento tropical, capaz de combinar sustentabilidade, inovação e inclusão social. O país já demonstrou, em diferentes momentos de sua história, capacidade de construir instituições, ampliar mercados, formar competências e realizar transformações estruturais.

A grande oportunidade do nosso tempo é transformar a herança da industrialização do século XX e as vantagens naturais do século XXI em uma nova etapa de desenvolvimento. Não se trata de retornar ao passado e sim avançar para uma economia mais complexa, mais verde, mais digital e mais integrada ao conhecimento. O Brasil está diante da oportunidade inédita de reinventar o seu projeto nacional.

José Bertotti: Transformação ecológica conecta estratégias de desenvolvimento de Brasil e China https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/jose-bertotti-opina.html 

Humor de resistência

 

Aroeira

"Somos todos Lula em torno de um cafezinho" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/convite-vamos-nessa.html 

Boa notícia

Brasil amplia exportações e projeta superávit recorde, apesar de Trump
Revisão mostra força das exportações brasileiras, sobretudo de petróleo e soja, apesar do tarifaço de Trump e da retração das vendas aos Estados Unidos
Cezar Xavier/Vermelho 
 

A balança comercial brasileira pode terminar 2026 com um resultado ainda mais expressivo do que se imaginava. A Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) revisou para US$ 94 bilhões sua projeção de superávit comercial para o ano — alta de 38% ante os US$ 68,166 bilhões apurados em 2025, impulsionada principalmente pelo crescimento das exportações de petróleo e soja.

O número chama atenção porque surge em um cenário internacional adverso, marcado pelo recrudescimento da política protecionista de Donald Trump e pela imposição de tarifas adicionais sobre produtos brasileiros. A revisão sugere que, embora o tarifaço produza perdas importantes em determinados setores e mercados, não conseguiu até agora impedir a expansão global das vendas externas brasileiras.

O documento lista uma série de fatores que impactam diretamente o comércio exterior brasileiro, com destaque para o tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Outros vetores de impacto são o conflito entre Ucrânia e Rússia, o confronto entre Estados Unidos e Irã, os bloqueios do Estreito de Ormuz, o dinamismo comercial da China e possíveis reflexos climáticos de El Niño são outros agravantes.

O dado ganha ainda mais relevância quando comparado ao desempenho efetivamente registrado. No primeiro semestre, as exportações brasileiras cresceram 11,5%, enquanto as importações avançaram 5,1%, produzindo superávit de US$ 42,36 bilhões, 40,3% acima do registrado no mesmo período de 2025.

Petróleo assume papel central

O petróleo aparece como um dos principais motores dessa melhora.

A indústria extrativa apresentou crescimento de 58,4% nas exportações em junho, impulsionada pela forte expansão das vendas de petróleo bruto. No mês, as exportações brasileiras alcançaram US$ 36,28 bilhões, recorde para qualquer mês da série histórica.

O desempenho do petróleo não é apenas conjuntural. O Brasil consolidou-se como exportador líquido do produto e mantém superávit no comércio de petróleo e derivados desde 2018. No primeiro semestre de 2026, o saldo comercial do setor passou de US$ 15,3 bilhões para US$ 22 bilhões em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo a FGV.

A expansão da produção brasileira, combinada ao comportamento dos preços internacionais, amplia a capacidade do petróleo de compensar eventuais perdas em outros segmentos.

Soja e agro ajudam a diversificar

A outra estrela é a soja.

Segundo as projeções divulgadas com a revisão da AEB, a soja pode superar US$ 50 bilhões em exportações pela primeira vez, beneficiada pela perspectiva de uma safra e de volumes embarcados elevados.

O agronegócio funciona, nesse cenário, como uma espécie de amortecedor externo. Mesmo quando um mercado específico fecha parcialmente suas portas, a produção brasileira encontra compradores em outras regiões.

Os dados oficiais ilustram esse movimento. Até a quarta semana de julho, as exportações brasileiras acumulavam US$ 212,36 bilhões, alta de 11,2% em relação ao mesmo período de 2025. As vendas de soja haviam crescido 24,6%, enquanto as de petróleo bruto avançavam 31,4%.

O tarifaço machuca, mas não paralisa

Isso não significa que as tarifas de Trump sejam inofensivas.

Os Estados Unidos continuam sendo um mercado importante para o Brasil, mas as exportações brasileiras para o país caíram 12,2% entre janeiro e julho, para US$ 21 bilhões, segundo levantamento da Amcham. Entre os produtos submetidos às sobretaxas mais elevadas, a retração chegou a 31,5%.

A diferença está na capacidade brasileira de deslocar suas vendas.

Enquanto as exportações para os Estados Unidos recuaram, as exportações totais do Brasil para o mundo cresceram 10,5% no período analisado pela Amcham. A Ásia ampliou sua participação nas exportações brasileiras, passando de 42,7% para 46,3% entre os primeiros semestres de 2025 e 2026; a China, isoladamente, avançou de 28,9% para 31,6%.

É justamente aí que aparece uma das consequências estratégicas do tarifaço: ao tentar pressionar o Brasil, Washington também estimula empresas brasileiras a diversificar mercados e reduzir sua dependência relativa do consumidor norte-americano.

Uma resposta pela diversificação

O fenômeno não elimina os problemas provocados pelas tarifas. Setores industriais mais dependentes do mercado americano, especialmente aqueles sujeitos às sobretaxas mais altas, enfrentam perda de competitividade. E a nova estrutura tarifária norte-americana elevou significativamente a desvantagem brasileira diante de concorrentes internacionais.

Mas o comércio exterior brasileiro possui uma característica que ganha valor em tempos de guerra comercial: a diversidade de destinos e de produtos.

China, União Europeia, Oriente Médio e outros mercados tornam-se ainda mais importantes. A estratégia deixa de ser apenas vender mais e passa a ser vender para mais parceiros.

Nesse sentido, o desempenho da balança comercial oferece um contraponto à narrativa de que o tarifaço inevitavelmente produziria uma crise externa brasileira. Até aqui, os números apontam para uma realidade mais complexa: há perdas concentradas, mas elas vêm sendo parcialmente compensadas pela expansão de outros mercados e pelo aumento dos volumes exportados.

Um superávit que também revela desafios

Há, contudo, uma ressalva importante. Superávit comercial não é sinônimo automático de desenvolvimento econômico.

O resultado externo é particularmente positivo quando decorre da expansão de produção, investimentos, emprego e maior agregação de valor. O desafio brasileiro é justamente transformar a força exportadora de commodities em uma plataforma para ampliar a participação de produtos industrializados e tecnológicos no comércio mundial.

Ainda assim, a projeção de US$ 94 bilhões da AEB representa um sinal de resiliência da economia brasileira diante de uma conjuntura internacional marcada pelo protecionismo.

O paradoxo do tarifaço de Trump começa a aparecer nos números: ao tentar fechar o mercado americano para o Brasil, a política comercial de Washington pode estar contribuindo, involuntariamente, para acelerar uma mudança que o país já vinha buscando — uma inserção internacional mais diversificada, menos dependente de um único mercado e apoiada por relações comerciais com diferentes polos da economia mundial.

No comércio exterior, às vezes, fechar uma porta apenas ensina o exportador a procurar outras. E o Brasil, neste momento, parece estar encontrando algumas delas.

Soberania nacional é o pilar do Programa de governo de Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/editorial-do-vermelho_01066033204.html 

Arte é vida

 

Luciano Pinheiro 

Poderosa força de energia e esperança https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/editorial-do-vermelho_02024167950.html 

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Pesquisa Reuters/Ipsos revela que Trump é rejeitado por 64% dos estadunidenses e aprovação do seu governo é a menor do mandato. 

Trump e a diplomacia anárquica https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01291229765.html