Bancos e Baques
Grande mídia defende a política de juros do Banco Central, enquanto denúncias contra instituições financeiras e a crise do Banco Ueno, no Paraguai, expõem contradições do setor.
Urariano Mota/Vermelho
A Folha não Falha. Quero dizer, a Folha de São Paulo não falha nunca em seu reacionarismo. No editorial desta sexta-feira 6 de outubro, “Isolado, BC fez o necessário ao interromper corte dos juros”, o jornal publica já no seu primeiro parágrafo:
“Com a incerteza provocada pelos sinais erráticos dados por governo e PT desde a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, e em meio à rápida piora das expectativas para a inflação, o Banco Central não tinha alternativa senão interromper o ciclo de cortes da taxa de juros”.
E mais adiante:
“Declarações recentes de membros do governo e do próprio presidente da República dão a entender que não há ajuste orçamentário relevante a ser feito —o que se aventa, na prática, não passa de perfumaria que em nada mudará a escalada da dívida pública.
Do lado do partido, vê-se entusiasmo com soluções mágicas para a queda dos juros e, em consequência, dos encargos financeiros do Tesouro Nacional”.
Torna-se desnecessário ir mais adiante na transcrição do editorial, porque em resumo é: qualquer possibilidade do governo Lula será um fracasso, porque o combate em obediência ao capitalismo que sustenta o jornal. Mas neste caso brasileiro, o jornal, como toda grande mídia no Brasil, é mais realista que o rei, o que vale dizer, é mais reacionária que a imprensa capitalista em todo o mundo. Esqueçam toda mídia conservadora de nome Times, por exemplo, Financial Times, The Economic Times, The New York Times, até a revista Time, que publica artigo com o título: “Lula’s Victory in Brazil Is a Defeat for Trumpism” (A vitória de Lula no Brasil é uma derrota para o Trumpismo).
Esqueçam, mas lembrem: o jornal brasileiro, quanto trata de bancos, trata-os muito bem, obrigado. Para esses, a defesa do grande capital é tranquila, porque, afinal, tem que defender a excelência dos anunciantes. Vemos que nada consta nos registros dos jornais brasileiros, ou nos programas jornalísticos da Rede Globo, contra o Bradesco ou Itaú, por exemplo. E no entanto, há muitas dnúncias na vida real:
Mesmo com lucro de R$ 13,861 bi no semestre, Bradesco segue demitindo e fechando agências | Sindicato dos Bancários
Ou aqui:
Bancários do Itaú denunciam aumento abusivo de metas e dificuldades para atingir resultados | Sindicato dos Bancários
Ou denúncias de roubos sem uso de revólveres ou facas:
Itaú agiu com “extrema má-fé” ao esconder cobranças indevidas a clientes por 14 anos, diz MP – BSB REVISTA
Bradesco está sendo cobrado na Justiça por cobranças abusivas e ainda está sendo obrigado a pagar indenização, alerta advogada – Portal 6
Sim, as notícias aparecem, mas somente fora da grande mídia. Até quando essa proteção aos bancos? Esperam uma grande crise econômica, uma revolta coletiva do povo, quando noticiarão, na melhor das hipóteses, os fatos excluindo as causas? Ainda nesta semana, tivemos a queda estrondosa do Banco Ueno no Paraguai. Uma crise política e social sem tamanho., O grande jornalista e escritor Andrés Colmán Gutiérrez publicou no jornal El País:
“Às 03h24 da madrugada de terça-feira, 3 de novembro, o aplicativo dos quase três milhões de clientes do Ueno Bank ficou subitamente em branco. Esse banco paraguaio, que cresceu rápido em seus três anos de existência e gerenciava fundos milionários de órgãos estatais, substituiu a visualização por uma única mensagem: ‘Não podemos mostrar o saldo’.
Na mesma hora, a diretoria do Banco Central do Paraguai divulgava em suas redes sociais um grave comunicado, avisando que havia decidido iniciar o ‘procedimento de resolução’ do Banco Ueno, o que significava sua intervenção e liquidação, após ter detectado ‘uma insuficiência severa em seu índice de solvência abaixo de 50%’.
A notícia causou desespero e escalou rapidamente até se tornar a maior crise política do governo do presidente Santiago Peña. Dezenas de pessoas se aglomeram desde terça-feira na sede central do banco em Assunção e nas suas 75 filiais do país para tentar sacar suas poupanças. Quando chegam, se depararam com os locais fechados e protegidos por seguranças. Houve cenas de gritos e prantos de poupadores que não recebiam respostas. ‘Preciso sacar dinheiro para comprar remédio para o meu filho, que está muito doente’, soluçava a cabeleireira Susana Morínigo em San Lorenzo. ‘Eu preciso conseguir dinheiro para comprar comida, caso contrário meus filhos não vão poder comer, reclamava o pedreiro Jorge Mendieta na cidade de Itauguá”
Há muitos anos, o seu João do Caldíssimo, que vendia cachaça com caldo de feijão no bairro de Água Fria, no Recife, criou uma máxima que julgávamos estranha, risível. Quando perguntado por que não depositava o dinheiro das vendas em sua barraca nos bancos, ele respondia: “Os bancos quebram”. Além de genial, o seu João era um profeta.
Vencemos. E agora? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/minha-opiniao.html