18 abril 2026

Conduta irresponsável

Trump errátil e inconsequente
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65   

Estranha forma de negociação a de Donald Trump: concomitantemente com gestões diplomáticas complexas e delicadas destinadas a por um fim à guerra, o presidente norte-americano alimenta a própria narrativa através de redes sociais e toma iniciativas que, na prática, negam as negociações.

Caso do bloqueio ao Estreito de Ormuz, que a China considera “irresponsável e perigosa”.

É o que o Global Times – publicação chinesa – registra ao mencionar o diálogo entre o chanceler chinês, Wang Yi, e o diplomata iraniano, Seyed Abbas Araghchi.

Para o governo chinês, o cerco militar não viola apenas a soberania iraniana, mas principal via para o transporte de petróleo mundial e o Irã tem o direito de exercer sua soberania sobre suas águas e recursos.

Mais o uso de sanções e cercos militares por parte dos Estados Unidos configura “chantagem econômica”, acirrando mais ainda o risco de um choque na economia global caso o conflito se prolongue sem perspectiva de paz.

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IA: Como a China está vencendo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ia-china-vence-eua.html

Palavra de poeta

Façamos uma limpeza geral
Amalia Bautista      

Façamos uma limpeza geral
e deitemos fora todas as coisas
que não nos servem para nada, essas
coisas que nós já não usamos, essas
coisas que ficam a apanhar pó,
as que evitamos encontrar porque
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos magoam, ocupam espaço
ou nunca quisemos ter junto a nós.
Façamos uma limpeza geral
ou, melhor ainda, uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
deixando-as onde sempre estiveram;
e vamos nós embora, vida minha,
para começar de novo a acumular.
Ou então deitemos fogo a tudo
e fiquemos em paz, com essa imagem
das chamas do mundo perante os olhos
e com o coração desabitado.

[Ilustração: Steve Hanks]

Verso e reverso da vida https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

17 abril 2026

Enio Lins opina

Um louco pelo poder quer assombrar e ameaçar o mundo
Enio Lins     

TRUMP ENDOIDOU? Atacar o Papa e insinuar-se como Jesus – ousando postar-se numa imagem como Cristo em trajes alvirrubros (sua cor partidária, dos Republicanos) – não são atitudes de quem se proclama conservador e defensor dos valores cristãos. Isto porque Leão XIV criticou a guerra e pediu para que Estados Unidos, Israel e Irã construam um entendimento pela paz. Antes, no dia 7 de abril, o sumo pontífice católico havia dito que era “inaceitável” a ameaça que “uma civilização inteira morrerá”.

LEÃO XIV tem se caracterizado pela discrição, chega a ser lacônico quando comparado a Francisco I, Bento XVI e João Paulo II. Como liderança suprema da maior e mais antiga igreja cristã do mundo, o Bispo de Roma não poderia ficar sem falar nada sobre a matança no Oriente Médio e, particularmente, silenciar sobre a ameaça real de destruição uma civilização, a persa, na qual – além de todos os valores humanitários – sobrevivem, espalhadas pelo território iraniano, referências materiais dos mais longevos cultos religiosos, inclusive edificações dos primeiros séculos do cristianismo, como o Mosteiro de São Tadeu, o Qara Kelisa, construído no século VII, a Catedral de Vank–Isfahan, no século XVI, e a Igreja de Santa Maria de Tabriz, no século XII, reconhecidos pela UNESCO como patrimônios da humanidade.

NA DUPLA PROVOCAÇÃO
 feita por Donald Trump estão contidos fundamentos autocráticos ancestrais, sendo o mais antigo deles o mito de que os reis representam os deuses. Essa concepção vigorou no Japão até o final da II Grande Guerra, e só deixou de existir legalmente em 1º de janeiro de 1946, quando o Imperador Hiroito publicou a “Declaração de Humanidade”, renunciando a sua condição de “divindade reencarnada, descendente de Amaterasu, a deusa do sol”. E para que a sociedade nipônica aceitasse isso foram necessárias duas bombas atômicas. No dito Ocidente, a perda do status divinal dos reis começou três séculos antes, em Londres, no dia 30 de janeiro de 1649, com a decapitação de Carlos I, rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda; Carlos perdeu a cabeça quando tentou peitar todas as demais forças políticas de seu reino apoiado exclusivamente em sua suposta ligação com o divino. O processo de desdivinização dos reis na banda ocidental foi concluído quando a guilhotina desceu - no dia 21 de janeiro de 1793, em Paris – sobre o pescoço do “cidadão Luís Capeto”, o ex-rei Luís XVI, ex-monarca absoluto, por direito divino, da França e Navarra.

“NO KINGS!”,
 não por coincidência, é a bandeira aglutinadora dos protestos da banda da população estadunidense que resiste bravamente ao autocrata e oligarca Donald Trump. “Sem Reis!” evoca o brado dos guerrilheiros, nos idos de 1675, na então colônia inglesa na América, em rebelião contra o Rei George III, monarca do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda e senhor absoluto de meio-mundo de colônias, inclusive 13 situadas na costa leste do que viria a ser os Estados Unidos, cuja independência foi proclamada em 4 de julho 1776, mas só reconhecida em setembro de 1783, depois de oito anos, quatro meses e 15 dias de guerra aberta entre os plebeus americanos e a monarquia inglesa (que ainda se achava ungida por deus, mesmo depois da cabeça Carlos I ter rolado, 134 anos antes). Em 28 de março deste ano, uma nova onda de protestos contra “King Trump”, a terceira desde 2025, se irradiou por mais de três mil cidades nos 50 estados americanos, mobilizando milhões de pessoas denunciando o monarca da Casa Branca.

PROVOCAR O CRISTIANISMO 
é mais uma ação diversionista no reality show de Donald, aquele que quer dizer-se divino, acima da ética e das leis dos reles humanos, meros e desprezíveis mortais. Não é loucura, é método. Tais ações, aparentemente tresloucadas, são movimentos táticos seguindo uma estratégia definida: distraem o público do problema principal, atraindo a atenção geral para questões secundárias.

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O jogador, sua aposta e a desordem mundial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-e-ordem-mundial-fissurada.html 

Arte é vida

 

Mike Stilkey 

Escolhas e conflitos https://lucianosiqueira.blogspot.com/


IA no cotidiano da China

A China e a Inteligência Artificial
IA domina o cotidiano do cidadão chinês em todos os níveis – do mais prosaico ao mais complexo
João Cezar de Castro Rocha/Liberta     

Impressões de viagem

O tema deste artigo poderia pertencer a uma enciclopédia dos contos de Jorge Luis Borges: múltiplo e potencialmente infinito. Serei, contudo, mais modesto. Limitarei minha perspectiva às viagens acadêmicas que tenho feito à China nos últimos anos. E, antes mesmo de principiar, um reconhecimento, ainda mais modesto: em nenhuma circunstância, devo ser visto como especialista em China. Há no Brasil pesquisadores que se dedicam há anos ao tema e têm muito a nos ensinar. Penso em nomes como Elias Jabour, Evandro Carvalho e Maurício Santoro – aprendo bastante com o trabalho deles.

(Sou apenas um professor latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e nem sei mandarim.)

O que posso oferecer, portanto, é a memória recente de duas viagens, em particular, nas quais fui exposto à forma como a cultura chinesa incorpora ativamente a Inteligência Artificial no dia a dia em planos os mais diversos.

Tratarei das viagens em ordem cronológica.

Tradução e Inteligência Artificial

Entre 2021 e 2023, tive a grande honra de receber o título de “Xiaoxiang Scholar / Visiting Researcher – Hunan Normal University / Humboldt Centre for Interdisciplinary Research”. Como parte das minhas obrigações, passei dois meses em Changsha, capital da província de Hunan, o estado no qual nasceu Mao Zedong.

O cotidiano para o cidadão chinês já é dominado pela difusão da Inteligência Artificial em todos os níveis – do mais prosaico ao mais complexo. Muitos dos estudantes que conheci, por exemplo, nunca tinham tido uma cédula de yuan em mãos! Para alguns, e não eram poucos, o conceito de “chave de casa” era tão abstrato quanto Tlon e Uqbar para o leitor de Borges. O “Abre-te Sésamo” dependia de reconhecimento facial ou de um QR Code disponível no celular.

Aliás, o celular é onipresente e possui mil e uma utilidades. Pensei no Brasil e fiquei preocupado. Perguntei a um aluno: mas e quando a conexão falha, o que fazem? Como entram em casa, como pagam a conta? O aluno não entendeu a pergunta. Tentei explicar. Nonada! Contei como funciona o 5G no Brasil. “Não pode ser”, me respondeu o estudante. “Assim não é 5G!”. Confesso que me senti ligeiramente embaraçado, mas não me dei por rogado: mas e se houver um problema com seu servidor? “Ah! Raro, muito raro. Para essas ocasiões, temos um servidor reserva”.

Na Universidade Normal de Hunan, junto com dois brilhantes colegas chineses, Chen Zhongyi e Ren Haiyan, organizamos Montanhas e Pescadores – Crítica Cultural Chinesa Contemporânea (Editora Autêntica, 2024), livro com a participação de 17 destacados professores e professoras, a fim de apresentar à universidade brasileira a produção universitária da China atual.

Um enorme desafio! Ora, pensei, quanto tempo precisaremos para traduzir os textos do mandarim para o português? “Dois meses”, me informou Ren Haiyan, notável jovem pesquisadora. Dois anos? – corrigi minha amiga, com delicadeza. Ren sorriu e confirmou “60 dias”. Como?! “Inteligência Artificial!”. Reagi: Não! Sou um velhinho humanista!

“João… Veja como fazemos: a primeira versão é feita rapidamente com Inteligência Artificial e com um grau de acuidade impressionante. Passo seguinte: uma professora, especialista em português e literatura, verifica linha a linha a tradução. Quando tivermos certeza de sua correção, aí você entra no circuito para assegurar a adequação do estilo final do texto. E sempre em diálogo com a especialista chinesa”.  Fiquei atônito: a ideia era brilhante! O resultado? Publicamos o livro no Brasil em menos de um ano, graças ao excepcional trabalho de revisão da professora da Universidade de Pequim, Fan Xing.

Aprendi muito sobre a mentalidade chinesa nessa experiência: é perda de tempo discutir se a Inteligência Artificial deva ou não ser empregada, pois ela já é realidade. A questão é inventar formas para que sua utilização seja proveitosa e, sobretudo, controlada pelo usuário e não pelo algoritmo.

Inteligência Artificial e Futuro

Em novembro de 2025, estive em Beijing para participar de evento organizado pelo governo chinês sobre o processo de modernização em escala planetária e para oferecer conferências na Universidade de Pequim.

Numa das atividades programadas pelo evento, fomos levados a um parque de inovações tecnológicas voltadas para a indústria, assim como para um laboratório de robótica, igualmente direcionado para aplicações práticas no dia a dia.

Fui transportado à experiência de tradução em Hunan: os chineses estão muito à frente na combinação de pesquisa científica com preocupação pragmática, aceitação da realidade – a onipresença da Inteligência Artificial no futuro imediato e mesmo já no presente –, mas incorporação ativa desse dado. Em outras palavras, como se preparar para que os efeitos da Inteligência Artificial sejam mantidos sob controle?

Inteligência Artificial lida com palavras de Confúcio: “Merece ser um professor o homem que descobre o novo ao refrescar na sua mente aquilo que ele já conhece”.

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IA: Como a China está vencendo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ia-china-vence-eua.html 

Thiago Modenesi opina

Como décadas de desregulação e guerras pariram o neofascismo de Trump
Análise conecta crise social, financeirização e complexo militar à ascensão autoritária, mostrando como elites econômicas moldaram o cenário político global.
Thiago Modenesi/Vermelho 

A eleição e o retorno triunfante de Donald Trump à Casa Branca em 2024 não foram uma aberração da história, mas sim o desfecho lógico de meio século de hegemonia neoliberal. O neoliberalismo, com sua financeirização, desmantelamento do Estado social e guerra permanente contra os direitos populares, criou o terreno fértil para o neofascismo trumpista. Mais do que isso: as mesmas oligarquias que lucraram com as políticas de Reagan, Bush pai e Bush filho, Clinton, Obama e Biden, incluindo as indústrias bélicas e petrolíferas beneficiadas pela guerra dos EUA e Israel contra o Irã, foram as que, diante da crise orgânica do capital, apoiaram Trump como seu mais eficiente carrasco da democracia.

A partir dos anos 1970, o neoliberalismo impôs a cartilha da desregulação, da flexibilização trabalhista e do Estado mínimo para os pobres, mas máximo para o capital financeiro. Nos EUA, isso significou a destruição de sindicatos, a estagnação salarial por quatro décadas e a concentração de renda em níveis nunca vistos. Como consequência, vastas camadas da classe trabalhadora branca e de setores médios empobrecidos perderam qualquer horizonte de futuro. Nesse vácuo de esperança, a raiva contra o “sistema” foi canalizada não para a esquerda, mas para o discurso neofascista de Trump: xenofobia, racismo, misoginia e outros absurdos. O neoliberalismo matou o sonho do progresso social, o neofascismo ofereceu o bode expiatório.

Um dos pilares do neoliberalismo é a acumulação por espoliação via complexo industrial-militar. Desde os anos 1980, os EUA e Israel construíram uma narrativa de ameaça existencial iraniana, alimentada por interesses geopolíticos e, sobretudo, econômicos: controle do petróleo, venda de armas e hegemonia no Oriente Médio. As décadas de sanções contra o Irã, o assassinato de Qasem Soleimani (2020) e as constantes ameaças de bombardeio a instalações nucleares foram operações lucrativas para a Lockheed Martin, a Raytheon e o lobby israelense nos EUA (AIPAC). Trump, já em seu primeiro mandato, rompeu o acordo nuclear (JCPOA) e pavimentou o caminho para uma escalada que, em 2026, levou ao confronto direto. Essa política não é antagônica ao neoliberalismo, é sua expressão mais crua: a guerra como neg&oacu te;cio, financiada com dinheiro público e executada por empresas privadas.

Parece paradoxal: o candidato que dizia atacar as “elites globais” foi o mesmo que cortou impostos para os super-ricos (a reforma de 2017 beneficiou o 1% mais rico com US$ 60 bilhões anuais) e desregulou Wall Street. Mas não há paradoxo. As oligarquias (financeira, agroindustrial, bélica e de tecnologia) perceberam que Trump era mais eficiente que os democratas em garantir suas três demandas centrais de repressão ao trabalho e aos movimentos sociais (com a cumplicidade do judiciário e da polícia), das guerras lucrativas (como a contra o Irã, que eleva os preços do petróleo e vende mísseis) e o desmonte de qualquer regulação ambiental ou trabalhista.

Além disso, Trump oferecia um bônus: a destruição dos restos do Estado de bem-estar social e a criminalização da oposição de esquerda. Para as oligarquias que enriqueceram com o neoliberalismo, Trump não era uma ameaça, mas o segurança particular do capital.

O neofascismo trumpista não é uma ruptura com o neoliberalismo, é seu ápice. Enquanto o neoliberalismo clássico (Friedman, Hayek) até tentava ter uma fachada democrática para operar, o neofascismo dispensa as formalidades. Sob Trump, o governo é abertamente uma filial das corporações: secretários do petróleo, da educação, da saúde saídos diretamente dos conselhos de administração. A guerra contra o Irã serve a dois propósitos neoliberais: 1) destruir mais um Estado que ousa ter soberania sobre seus recursos naturais; 2) fornecer um espetáculo bélico que desvia a atenção da crise interna e legitima o autoritarismo.

A lição para o Brasil, para a América Latina e para o mundo é inequívoca: não se combate o neofascismo de Trump (ou de seus equivalentes, como Bolsonaro, Milei ou Kast) com uma volta ao neoliberalismo “de rosto humano”. O neoliberalismo, em sua lógica de exploração, desigualdade e guerra, é o ventre que gestou o monstro.

Apoiar a guerra dos EUA e Israel contra o Irã, ou mesmo manter-se neutro diante dela, é alimentar a mesma máquina que financia o trumpismo. Por isso, a luta pelo socialismo e pela democracia em 2026 passa necessariamente pela derrota eleitoral de Trump e seus aliados pelo mundo e pela construção de uma alternativa anti-imperialista calcada em amplitude nas alianças e na política para derrotar o câncer neoliberal. Sem enterrar o neoliberalismo, o neofascismo sempre voltará, com novas roupagens e velhas bombas.

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Trump joga WAR tendo o mundo como tabuleiro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/thiago-modenesi-opina_15.html 

Humor de resistência

 

Quinho