04 fevereiro 2026

Thiago Modenesi opina

O marxismo como bússola em tempos de regressão
A luta de classes permanece o motor da história, agora visível nas greves globais, nas rebeliões contra a carestia e em eventos recentes, como a perseguição aos imigrantes pelo ICE nos Estados Unidos
Thiago Modenesi/Vermelho   

Em um cenário global marcado pelo avanço de forças ultradireitistas e pela erosão sistemática dos direitos trabalhistas e da democracia, a análise marxista se reafirma não como um relicário do passado, mas como uma ferramenta atual e incisiva para compreender e transformar a realidade.

A ofensiva da ultradireita frequentemente se apresenta como uma revolta contra “as elites”, mas o marxismo permite desvendar seu núcleo: uma reação burguesa em tempos de crise profunda do capital. Quando a acumulação se retrai e a lucratividade é ameaçada, frações do capital e setores médios radicalizados buscam bodes expiatórios (imigrantes, minorias, “esquerdas culturais”) para desviar o foco da luta de classes. O projeto é claro: intensificar a exploração, desmontar conquistas sociais históricas e fragmentar a classe trabalhadora através do nacionalismo e do ódio identitário.

A perda generalizada de direitos, com a precarização, a terceirização selvagem e os ataques a sindicatos e sistemas de previdência é a manifestação concreta deste momento, que se soma ao desmonte do sistema de freios e contrapesos do Estado capitalista pela própria burguesia.

O marxismo identifica nisso não um acidente ou simples má gestão, mas a lógica inerente do capital em sua fase neoliberal-financeirizada, que busca recompor suas taxas de lucro convertendo direitos em mercadoria e segurança em insegurança estrutural.

Mais do que nunca, conceitos marxistas fundamentais iluminam o presente. A luta de classes permanece o motor da história, agora visível nas greves globais, nas rebeliões contra a carestia e em eventos recentes, como a perseguição aos imigrantes pelo ICE nos Estados Unidos e os protestos advindos disso, assim como no conflito entre o capital financeiro especulativo e as necessidades humanas básicas.

A alienação se amplifica em novas formas, do controle algorítmico ao trabalho por aplicativo, que mascara a exploração com a falsa ideia de autonomia.

Além disso, o Materialismo Histórico demonstra como a crise econômica de 2008, nunca resolvida, criou o terreno fértil para a barbárie política e social que testemunhamos.

Portanto, a atualidade do marxismo reside em sua capacidade de fornecer uma análise unificadora que conecta a fúria reacionária na política à brutalidade econômica no quotidiano. Ele revela que a defesa dos direitos trabalhistas e a luta contra a ultradireita são fronts inseparáveis da mesma batalha: a resistência contra uma ofensiva coordenada do capital, que só pode ser enfrentada com solidariedade de classe internacionalista e consciência de que não há saída simples dentro dos limites de um sistema em crise estrutural.

Sua vigência está, assim, na pergunta crucial que nos obriga a fazer: crise para quem? E na resposta que organiza: a crise é do capital, e seu ônus recai sobre os trabalhadores. Superá-la exige mais do que resistência, exige projeto e organização para uma alternativa revolucionária e socialista, mas com os pés no chão, entendendo que é preciso compreender a correlação de forças, ampliar a politização de largas parcelas do povo, buscando o acúmulo para uma virada de chave num horizonte em que tenhamos acumulado forças para construir tal objetivo.

O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.html 

Arte é vida

Joan Miró

Lula nas redes

Lula lidera presença digital em 2025 entre os postulantes ao Planalto
Presidente tem a maior pontuação da pesquisa Nexus entre 11 nomes analisados para a disputa presidencial. Foram observadas as plataformas X, Facebook, Instagram, YouTube e TikTok
Murilo da Silva/Vermelho  

A presença digital do presidente Lula (PT) é maior entre os pré-candidatos à presidência da República. De acordo com o instituto de pesquisa Nexus, da FSB Holding, a presença de Lula nas redes sociais em 2025 possui um Índice de Relevância das Redes (IR² Nexus) de 79,92 pontos, entre 0 e 100.

Foram 11 nomes analisados durante todo o período do ano anterior nas plataformas X, Facebook, Instagram, YouTube e TikTok. A notícia contrasta com análises que indicam que a esquerda tem pouca presença nas redes e demonstra que Lula se mantém forte no mundo digital.

O presidente alcança as maiores pontuações no Facebook, Instagram e TikTok. Nesta última plataforma, Lula chega a 97,98 pontos, mais do que o dobro da registrada por Eduardo Bolsonaro (PL), que vem na segunda posição geral e tem as maiores presenças no X e no YouTube.

Inclusive, a plataforma focada em vídeos é um ponto de atenção para Lula e onde o presidente apresenta pior desempenho, com 60,74 pontos.

Como já mencionado, na segunda posição geral com 62,42 pontos está o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que fugiu para os Estados Unidos com medo de eventuais processos penais. Em certo momento o seu nome foi aventado como pré-candidato, algo hoje impensável dados os prejuízos que trouxe ao Brasil ao incentivar o tarifaço contra o Brasil.

Depois dele vem o seu irmão, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com 57,71 pontos. Ele, que se lançou como pré-candidato com a bênção do pai, Jair Bolsonaro, tenta amealhar apoio à sua candidatura, ou arrastá-la até que se obtenha alguma vantagem ao tirá-la de campo. No segundo semestre de 2025, após se colocar na posição de representante da extrema direita, o senador teve crescimento expressivo nas redes, alcançando um pico de 77 pontos em referência somente ao mês de dezembro. Para efeito comparativo mensal, em agosto a presença digital do senador era estimada em 35 pontos.

De acordo com a Nexus, o IR² Nexus tem metodologia própria que visa observar as performances com base nas frequências de postagens, no alcance e no engajamento, com pesos distintos para cada rede.

Na quarta posição está o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), com 28,77 pontos. Depois estão o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), 14,46 pontos; o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), 13,90 pontos; o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), 13,75 pontos; o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), 10,84 pontos; o ex-governador do Ceará, Ciro Gomes (PSDB), 9,68 pontos; a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), 8,83 pontos; e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), 7,90 pontos.

Leia também: Para além do “economicismo governamental” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html

As emoções no futebol

O futebol não é só estratégia, é um teatro de emoções
Jornalistas de outras áreas, escritores e poetas poderiam tratar mais sobre o tema. Sem vícios, clichês e futebolês, eles poderiam enriquecer a crônica esportiva
Tostão/Folha de S. Paulo   

No Brasileirão, as incertezas e as variações nas atuações e nos resultados são frequentes, ainda mais em um campeonato com poucas diferenças técnicas entre muitas equipes. Na primeira rodada, os três mais bem colocados do ano passado não venceram. O Palmeiras empatou, e o Cruzeiro e o Flamengo perderam.

Como Paquetá atua geralmente em uma posição próxima à de Arrascaeta, Filipe Luís pode escalá-lo do lado para o meio, como joga Carrascal, ou colocá-lo na posição de meio-campista centralizado, ao lado e perto de Jorginho.

Palmeiras, no empate com o Atlético MG, utilizou, como faz sempre, com bons resultados, as bolas cruzadas na área e os lançamentos longos da defesa para o ataque. Porém Abel deveria alternar essa postura com a de ter mais o domínio da bola e trocar mais passes para envolver o adversário. Para isso, ele tem dois ótimos meio-campistas, Marlon Freitas e Andreas Pereira.

Como em todo o mundo, está cada dia mais difícil trocar passes no meio-campo devido à marcação por pressão. Os times têm usado muito os lançamentos longos da defesa para o ataque, que podem dar bons resultados desde que essa não seja a principal estratégia. Assim saiu o gol de empate do Palmeiras marcado por Vitor Roque contra o Galo.

O Cruzeiro, na goleada sofrida para Botafogo por 4 a 0, repetiu a estratégia usada na derrota para o Atlético Mineiro, de marcar por setor sem pressionar quem está com a bola. No comando de Leonardo Jardim, a equipe pressionava demais, jogava com mais intensidade e recuperava mais rapidamente a bola para chegar ao gol.

No São Paulo, mais tranquilo com a vitória sobre o Flamengo, Crespo deveria posicionar Marcos Antônio para atuar de uma intermediária à outra, pois tem habilidade, mobilidade e talento para marcar, construir e avançar, em vez de escalá-lo como meia ofensivo, entre o meio-campo e a defesa do adversário.

futebol brasileiro, com a prevista profissionalização dos árbitros, a esperada melhoria dos gramados, a contratação de bons treinadores e jogadores de outros países sul-americanos, até da Europa, como Paquetá, deve evoluir nos próximos anos. Para isso, é fundamental acabar com o enorme tumulto promovido pelos jogadores durante as partidas, algumas vezes com mau exemplo dos treinadores. Todos nós da crônica esportiva precisamos também melhorar.

Jornalistas de outras áreas, escritores e poetas que gostam de futebol poderiam escrever e falar mais sobre o assunto, como era mais frequente no passado. Eles, por escrever, falar muito bem e não ter os vícios, os clichês e o futebolês, enriqueceriam a crônica esportiva, mesmo que não conhecessem bem os detalhes técnicos e táticos. O futebol não é só estratégia. É também um teatro de ensinamentos, entretenimento e de emoções.

Mestre Armando Nogueira, jornalista, escritor e poeta, com quem convivi e aprendi na TV Bandeirantes, dizia que assistia aos jogos no Maracanã ao lado de Nelson Rodrigues. Quando acabava a partida, Nelson o segurava pelo braço e perguntava: "Como foi o jogo? Quem foi o craque?". Nelson ia para a redação do jornal e, com seus delirantes e espetaculares exageros e metáforas, escrevia os mais belos e prazerosos textos que li sobre futebol.

[Ilustração: Robert Tavener]

A teoria e a prática no futebol https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/futebol-fatores-que-se-cruzam.html

Palavra de poeta

O impossível carinho
Manuel Bandeira  

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

[Ilustração: Armando Barrios]

Leia também "Elogio da aprendizagem", poema de Berthold Brecht https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/palavra-de-poeta_28.html 

03 fevereiro 2026

Minha opinião

Contrastes de carnaval*
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     

Leio no Twitter da prefeitura de Olinda informações quentíssimas sobre o desfile das “Virgens” e, na postagem seguinte, a conspícua notícia de que a partir das 10 horas haverá canto gregoriano no Mosteiro de São Bento. Carnaval é assim: contrastes para todos os gostos.

Afastado da folia de Momo desde que, vice-prefeito do Recife, que fui por oito anos consecutivos, não tinha a liberdade de ir à rua com a simplicidade costumeira – tênis, bermuda, camiseta e seja o que Deus quiser -, apenas me divirto à distância com notícias como essas. E com as imagens na TV, quando tenho saco pra isso. Ou com as fotos nos jornais.

Por isso não estranho que se misture o espetáculo de seres do gênero masculino fantasiados como se fossem do gênero feminino (veja a linguagem solene) com a serenidade mística do canto gregoriano na voz de bem comportados monges. Na rua também é assim: tem gente alegre, gente triste; gente que está ali para se divertir e gente que vai “para soltar a franga”; gente que exulta de felicidade e gente que purga fracassos nos negócios e no amor. Gente que na quarta feira de cinzas (os que param na quarta-feira) enfrenta religiosamente ressaca e dores amorosas, e gente que com um bom suco de limão e muita água mineral já se levanta de bem com a vida, celebrando a beleza do amor correspondido.

No Brasil, são territórios democráticos a praia, o campo de futebol e o carnaval de rua (gratuito e livre, em Pernambuco). Por isso todos têm os mesmos direitos: o cara que conversa em voz alta no guarda-sol ao lado, proclamando aos quatro ventos o que a gente não quer ouvir; o que liga o radinho de pilha a todo volume aqui na arquibancada, como se a gente também precisasse de um narrador para entender o que se passa dentro do campo; e o sujeito que amarra a burra junto de mim e quer porque quer discutir política em plena folia.

Desses chatos que querem a minha opinião sobre as medidas anti-inflacionárias justo na hora em que o Elefante vai passando, o frevo rasgado e a multidão em delírio, já me livrei há muito tempo. Porque fico longe, repito.

Aos estádios já não vou desde que minhas duas filhas eram pequenas, por uma escolha pessoal: nunca troquei um bom domingo com elas e a mãe por uma partida do chamado esporte bretão.

Praia, prefiro as quase desertas. Em Boa Viagem, que frequento, simplesmente caminho – livre portanto da turma que faz questão de contar a vida para quem tiver por perto ouvir.

Você que me lê agora pode até ficar com má impressão: “Esse cara tá ficando um velho chato”. Não é isso, creia. Porque gosto de tudo – de praia, de futebol e de carnaval. Gosto dos contrastes da vida. Acredito, como Castro Alves, que a dor e o prazer, a tristeza e a alegria são as expressões mais nítidas da existência humana. Apenas não gosto de gente chata. Só isso.

*Uma crônica de março, 2011

Leia também: A desumana partilha do tempo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_89.html

Incertezas no horizonte

Se o fim do mundo está tão próximo, carnavalizemos a vida
A próxima 5ª feira é um dia chave. A partir dele, tudo poderá ser História (ou não)
Luís Costa Pinto/Liberta     

Em 5 de fevereiro de 2026, cessa a validade do Tratado de Redução de Armas Estratégicas, assinado em 1991. Ele marcou o fim da Guerra Fria e reduziu drasticamente os arsenais nucleares.

Nossa geração foi contemporânea daquele 31 de julho, há 35 anos, quando George W. Bush (o pai) e Mikhail Gorbachev olharam à frente de seus próprios tempos sobre a Terra e se comprometeram a fazer as duas nações que lideravam – um ribombante Estados Unidos e uma União Soviética em liquefação – desativarem cerca de 80% das armas e ogivas nucleares existentes no planeta.

Naqueles tempos, o Relógio do Juízo Final ajustou as engrenagens de seu cronômetro para marcar os horários mais distantes da meia-noite (momento em que o mundo acaba): 17 minutos para a 0h.

Criado em 1947 pelo Boletim de Cientistas Atômicos, apenas dois anos depois do lançamento das bombas nucleares em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, o Relógio do Juízo Final marcava 7 minutos para a meia-noite ao surgir como uma convenção moderadora universal.

Na última 5ª feira, 29 de janeiro de 2026, apenas 85 segundos nos separavam da “meia-noite” hipotética e convencional de relógio. Às vésperas de o Tratado de Redução de Armas Estratégicas perder a validade fomos colocados na antessala da hecatombe cataclísmica.

Não é preciso ser catastrofista ou pessimista para ficar inculcado com essas nuvens cinza-chumbo que tornam o horizonte perversamente translúcido a ponto de vermos nele miragens de cogumelos de fumaça. Basta ser pragmático e fatalista.

Número inédito de guerras e conflitos simultâneos

Na passagem de 2025 para 2026, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha contava 120 conflitos armados no mundo de média para alta intensidade. Eram guerras civis ou disputas transnacionais. O Instituto de Pesquisas de Paz de Oslo, na Noruega, e o Uppsala Conflict Data Program, na Suécia, contabilizavam 61 conflitos envolvendo Estados diferentes – ou seja, guerras de uma nação contra outra. Desse total, 13 delas foram classificadas como “grandes guerras”, onde há mais de 1.000 mortes em combates por ano.

Suecos e noruegueses estão reativando os bunkers antibombas atômicas em seus territórios. Na Escandinávia, as crianças em idade escolar têm treinamento regular para saberem agir em caso de bombardeio russo ou ataque nuclear. Treinam a ação em situações distópicas como essas da mesma forma que nossas crianças e adolescentes treinam a evacuação das escolas em caso de incêndio.

Assustadora por si, a naturalização da escalada de guerras e conflitos armados no mundo na passagem do réveillon não se deu sob a neblina histórica do sequestro de Nicolás Maduro e sua extração da Venezuela. Ela se deu por meio de uma inédita invasão territorial de país sul-americano por tropas dos Estados Unidos.

Tampouco as previsões foram fruto de análises feitas por baixo das brumas incendiárias da ameaça extorsiva de Donald Trump de anexar a Groenlândia ao território norte-americano, ou da iminente eclosão de um conflito armado inimaginavelmente devastador no Oriente Médio caso o Irã seja atacado em meio a um surto delirante de Donald Trump.

Em um mês, no curso desse janeiro de 2026, pioramos muito do ponto de vista da civilidade e das condições objetivas para a permanência de nossa espécie no planeta. Estamos, afinal, a 85 segundos do Fim do Mundo, de acordo com o relógio criado para medir o tempo que temos até o momento derradeiro da humanidade.

Em 2020, na pandemia, os cientistas que cuidam de ajustar esses ponteiros do juízo final regularam-no para 100 segundos antes da meia-noite. Nos primeiros 60, 90 dias de agressão avassaladora do vírus sobre os cinco continentes, não houve quem não tivesse certeza de que começávamos ali a acertar as contas da passagem por essa criação divina, a Terra, aguardando no limbo celestial a hora de sermos julgados perante Deus e seus arcanjos delegados.

Ou não?

Eleição: chance para manter a esperança

Analisada a superestrutura do momento em que vivemos, desçamos à reles infraestrutura de cada um. Aqui no Brasil, as vésperas do Juízo Final chegam justamente em ano eleitoral. Teremos eleição presidencial para decidir se a Democracia segue valendo no país nos dias que nos restam, ou se vamos retroceder ao quinto dos infernos cujas encruzilhadas atravessamos depois de vivermos a Era Trágica dos anos 2016-2022, tempos de Michel Temer e de Jair Bolsonaro à frente de suas quadrilhas em Brasília.

Em três anos, de 1º de janeiro de 2023 para cá, restauramos o ambiente de esperança no país. Vencemos um golpe de Estado que, no ápice do delírio aventureiro dos golpistas, destruiu as sedes dos Três Poderes da República na capital brasileira.

Com percalços, fizemos o Executivo, o Legislativo e o Judiciário abrirem os porões de suas idiossincrasias e conflitos internos e das brigas entre si para que ganhassem lufadas de transparência – só há Democracia onde há transparência, eleições livres, alternância de poder sacramentada pelo voto da maioria e previsibilidade no cumprimento de contratos.

Pegando essa definição de “ambiente democrático”, é impossível dizer que não vivemos sob o império dele: e é por isso que, em meio ao caos lá de fora, aqui dentro temos de celebrar a possibilidade de confirmar nas urnas o caminho escolhido pela maioria dos brasileiros.

O caminho da normalidade, o rumo do crescimento sustentável e do resgate social permanente – que deve se dar mais rápido do que a atual velocidade de retomada imprimida a ele, menos gradual (precisamos de saltos bíblicos nesse resgate) – tem de ser obviamente seguro como a certeza de que urna eletrônica é a maquininha mais revolucionária já criada por um brasileiro depois dos aviões de Santos Dumont.

Carnaval, momento para mudar tudo

O mundo não pode acabar antes de o Brasil cumprir a sua sina de ser o ponto de inflexão da tristeza para a felicidade sobre a Terra. E em que momento isso nos parece mais possível de ser verdade, e não mera aspiração? No Carnaval. Claro!

É no Carnaval que nós, aqui, na vida real, e até o elenco estelar de O Agente Secreto no roteiro magistral da ficção de Kléber Mendonça Filho, esquecemos os conflitos universais e também os particulares para viver a eternidade e os sonhos que tínhamos para ela no breve intervalo de quatro dias.

Estamos a duas semanas desses quatro dias, ou a 85 segundos da meia-noite no Relógio do Fim do Mundo que carregamos dentro de nós, para decidirmos zerar o jogo todo, abaixar as armas aqui dentro do Brasil e escrever um novo fim para a história de eleições conflituosas e eivadas de ódio, como as duas últimas que realizamos.

Se nos guardávamos para quando o Carnaval chegasse e a partir dele mudarmos tudo, então, a hora da virada chegou. O dia 5 de fevereiro de 2026, quando cessar a vigência do Tratado de Redução de Armas Estratégicas, tomemos uma atitude: vamos estancar a escalada de violências, de agressões e de iniquidades e carnavalizemos tudo para restaurar a esperança no futuro. Em algum futuro, pelo menos.

Leia também Turbulências na economia global https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/turbulencias-na-economia-global.html