Elogio a quem tem audácia
Movimento estudantil que deflagrou virada do segundo turno volta às ruas
disposto a influenciar os rumos do Lula4
Editorial do "Vermelho" www.vermelho.org.br
A volta
dos estudantes às ruas em 1º de novembro representou a continuidade de um
movimento decisivo para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A
jornada Brasil com S: das ruas às urnas, puxada pela União Nacional dos
Estudantes (UNE) e pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES),
envolveu entidades estudantis de diferentes partes do país.
O nome é
um contraponto ao brasão com a inscrição Estados Unidos do Brazil,
presente na carta divulgada em 28 de outubro pelo candidato da extrema direita
derrotado, Flávio Bolsonaro, foragido nos Estados Unidos, na qual contestou o
resultado eleitoral e se apresentou como “o verdadeiro presidente eleito”. O
Brasil com S tornou-se, assim, uma afirmação de identidade nacional.
A
mobilização teve como eixos a celebração da vitória de Lula, a defesa da
democracia e do resultado eleitoral, a afirmação da soberania nacional e da
vontade popular, além da denúncia da violência contra os povos indígenas, do
rechaço à interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral e da defesa da
educação pública, das universidades federais, da assistência estudantil e da
reforma agrária.
O
movimento reafirma o papel decisivo dos estudantes que deflagraram a grande
mobilização responsável pela virada que levou à vitória de Lula no segundo
turno. Foi a comprovação de que não se tratou de um processo espontâneo. A
articulação surgiu em Niterói, no Rio de Janeiro, no Centro Acadêmico Evaristo
da Veiga (CAEV), da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense
(UFF), e ganhou impulso com a campanha Estudantes com Lula, lançada pela
UNE em 6 de outubro, um dia após o primeiro turno.
Era a
largada. “Eu tenho certeza de que foi a juventude de Niterói que começou esse
movimento”, disse Hugo Silva, ex-presidente da UBES e estudante da Faculdade de
Direito da UFF, em entrevista ao Portal Vermelho. “Então a gente, no
curso de Direito, mobilizou uma assembleia no dia 5, por meio da chamada do
CAEV”, afirmou, revelando o que pode ser chamado de marco zero daquela
mobilização.
A
iniciativa expressava um plano nacional de organização que estabeleceu
assembleias nas universidades, distribuição de materiais, atividades em
terminais de transporte, ações nos bairros e manifestações até a véspera do
segundo turno. A UNE deu capilaridade à articulação, incorporando à disputa
eleitoral a estrutura de representação estudantil nas instituições de ensino.
A
presidente da UNE, Bianca Borges, anunciou uma etapa de mobilização permanente
e convocou os estudantes a impulsionar uma ampla participação popular. Para dar
consequência à decisão, chamou diretórios centrais, centros e diretórios
acadêmicos, entidades estaduais e uniões municipais a organizar assembleias e
plenárias. Cada encontro deveria produzir encaminhamentos, distribuir tarefas e
estabelecer um calendário de atividades. Ao anunciar essa nova etapa, Bianca
Borges declarou: “A partir de agora é estado permanente de mobilização. Os
estudantes serão decisivos para reeleger Lula. Não sairemos das ruas.”
A UBES
incorporou os estudantes do ensino médio a esse esforço. Grêmios e entidades
estaduais foram chamados a organizar atividades nas escolas e comunidades. A
presidente da UBES, Roberta Pontes, também defendeu a presença dos
secundaristas nas ruas. Em entrevista ao Correio Braziliense, ressaltou
a importância de conversar diretamente com a população e relacionou a
mobilização daquela geração à memória dos estudantes que enfrentaram a
ditadura.
Também
merece destaque o papel da União da Juventude Socialista (UJS) nessa
mobilização. Em seu 23º Congresso Nacional, realizado em julho, no Rio de
Janeiro, a entidade lançou a campanha O futuro é agora, o futuro é com Lula.
Educação, trabalho, ciência, tecnologia e soberania integraram a plataforma de
debates do evento. Em artigo publicado no Portal da UJS, sua presidente,
Rafaela Elisiário, orientou a realização de assembleias nas universidades e
escolas e a formação de brigadas estudantis.
A
juventude estava chamada a colocar em curso as ações que poderiam ser decisivas
para virar o jogo, escreveu. “Devemos organizar imediatamente assembleias de
apoio ao Lula em todas as universidades e escolas, consolidar brigadas de
estudantes com uma agenda definida para circular os bairros onde Lula perdeu a
votação no primeiro turno e onde os índices de abstenção foram significativos,
ocupar as redes sociais com nossas lideranças e atividades de apoio ao Lula,
descentralizar as iniciativas com objetivo de alcançar a parcela que pode virar
essa eleição, assim como, ocupar as ruas com mobilizações capazes de incentivar
que mais pessoas se engajem na batalha em curso.”
A
dimensão dessa operação apareceu no balanço apresentado por Gabriela Silveira,
diretora de Movimento Universitário da UJS Brasil. Em artigo publicado no
portal da organização, ela informou que mais de 30 assembleias haviam sido
realizadas em menos de 72 horas. Diretórios centrais, centros acadêmicos,
grêmios e associações de pós-graduandos participaram das atividades, em
articulação com a UNE, a UBES e a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG).
A
Juventude Pátria Livre (JPL) também desenvolveu ações de mobilização
significativas. Em 7 de outubro, a organização lançou uma convocação nacional
para que estudantes e jovens ocupassem universidades, escolas, bairros e
centros urbanos. A tarefa era conversar com eleitores indecisos, alcançar quem
não havia comparecido ao primeiro turno e ampliar a participação na votação. A
JPL acrescentou à articulação sua rede de militantes e atividades de convocação
direta.
O
resultado revelou a velocidade com que a mobilização se instalou nas
instituições de ensino e a extensão do trabalho de convocação. Seu alcance se
ampliou com a incorporação dos movimentos sociais e sindicais, de artistas,
intelectuais e de amplos setores populares, numa das maiores mobilizações desde
a redemocratização. Também surgiu o Exército do Lula, canal de WhatsApp
criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). Lançado em abril, o canal
cresceu rapidamente e ultrapassou onze milhões de integrantes.
A
presidente da UNE, Bianca Borges, afirma que a mobilização foi uma lição muito
importante, “que nos manterá nas ruas”. “Para quem tem dúvida, a gente não está
disposto a voltar para casa”, afirma. “O que vimos é que as manifestações
fizeram algo que foi muito importante, que foi mudar a temperatura política do
país.”
De fato,
a mobilização popular precisa ser permanente para apoiar as medidas
programáticas do governo Lula, enfrentar a pressão do mercado financeiro, da
mídia hegemônica e do imperialismo por um “ajuste fiscal” que compromete os
investimentos em infraestrutura e as políticas públicas e sociais, além de
rechaçar as investidas golpistas da extrema direita e de setores da direita.
“Tudo aquilo que foi prometido na campanha, podem ter certeza de que vai
acontecer”, disse o presidente Lula em vídeo publicado no dia 1º. A iniciativa
também tende a se tornar permanente, como parte importante dessa mobilização.
O “gosto amargo” da necessária amplitude https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_01301628229.html






