Da República de Weimar à imprensa brasileira
A imprensa tem o
dever de não legitimar novamente forças antidemocráticas em nome de interesses
políticos ou econômicos.
Luís Nassif/Jornal GGN
O ponto central de Irresponsables: ¿Quién llevó a Hitler al poder?,
do historiador francês Johann Chapoutot, é menos tranquilizador do que a
explicação convencional segundo a qual Hitler teria conquistado
democraticamente o poder pelo voto popular. Não conquistou. O Partido Nazista
tornou-se uma força de massas e foi o mais votado em julho de 1932, com 37,4%,
mas nunca obteve maioria absoluta em eleições livres. Em novembro daquele ano,
caiu para 33,1% e dava sinais de declínio. Hitler chegou à chancelaria em 30 de
janeiro de 1933 porque uma elite política, econômica, militar e midiática
resolveu entregar-lhe o governo.
O título do livro identifica essa elite: os irresponsáveis.
Eram conservadores que não gostavam da democracia de Weimar, temiam a
esquerda e acreditavam poder usar o movimento de massas nazista para restaurar
a hierarquia social, destruir os direitos trabalhistas e implantar um Executivo
autoritário. Franz von Papen convenceu o presidente Paul von Hindenburg de que
Hitler poderia ser cercado por ministros conservadores e mantido sob controle.
Alfred Hugenberg, líder nacionalista e magnata de um império de jornais,
agências de notícias e cinema, colocou sua máquina de comunicação a serviço da
radicalização da direita. Grandes empresários, banqueiros e latifundiários
viram nos nazistas uma barreira contra o movimento operário.
A tragédia foi produzida por decisões concretas de homens poderosos que
desprezavam a democracia, subestimavam Hitler e julgavam que os riscos seriam
pagos pelos outros.
Hitler não “gabaritou” a legalidade
Depois do fracasso do golpe de Munique, em 1923, Hitler adotou uma estratégia
legalista: chegaria ao Estado por eleições, nomeações e dispositivos
constitucionais para, de dentro dele, destruir a própria Constituição.
A justiça conservadora já lhe dera uma demonstração de benevolência.
Julgado por alta traição pelo golpe de 1923, Hitler recebeu a pena mínima de
cinco anos, cumpriu apenas alguns meses em condições privilegiadas e
transformou o tribunal em palanque. Os juízes aceitaram como nobres e
patrióticas as motivações dos golpistas e não aplicaram rigorosamente nem
sequer as regras que poderiam levar à deportação do réu austríaco. A tolerância
institucional ensinou-lhe que a República era menos capaz de defender-se do que
seus inimigos eram capazes de explorá-la.
Nos anos seguintes, a erosão ocorreu sem revogação formal da
Constituição. Os governos de Heinrich Brüning, Von Papen e Kurt von Schleicher
ampliaram abusivamente o artigo 48, que autorizava decretos presidenciais de
emergência. O Parlamento foi contornado; governar por exceção tornou-se rotina.
A República continuava de pé no papel, enquanto seu conteúdo democrático era
esvaziado.
Nomeado chanceler sem maioria parlamentar, Hitler recebeu as chaves de
pontos decisivos do Estado. Hermann Göring passou a controlar a polícia da
Prússia, o maior estado alemão. Depois do incêndio do Reichstag, o decreto de
28 de fevereiro de 1933 suspendeu liberdades civis e o devido processo.
Comunistas e social-democratas foram presos, publicações foram fechadas e a
oposição foi submetida ao terror das SA e da polícia. A Lei de Plenos Poderes,
de março, foi votada com deputados perseguidos ou impedidos de exercer o
mandato.
Portanto, não houve uma passagem limpa e democrática da legalidade à
ditadura. Houve legalismo combinado com violência, interpretação
abusiva da Constituição, captura policial, intimidação parlamentar e fabricação
permanente da exceção. A forma jurídica não impediu a barbárie; em vários
momentos, foi usada para dar aparência administrativa à destruição do direito.
O jurista Carl Schmitt forneceu parte da gramática dessa mutação. Na
fase final de Weimar, defendeu a primazia do presidente e da decisão soberana
sobre o pluralismo parlamentar. Depois de 1933, aderiu ao nazismo e tornou-se
seu “jurista da Coroa”. O perigo não estava apenas em juízes que descumpriam a
lei, mas em juristas capazes de reinterpretá-la até que a exceção parecesse a
verdadeira guardiã da ordem.
A função da imprensa na fabricação do
“mal menor”
A contribuição mais atual de Chapoutot está na descrição do processo
pelo qual uma elite transforma o extremista em solução aceitável. Hugenberg não
precisava concordar com cada delírio nazista. Bastava-lhe acreditar que Hitler
seria útil contra a esquerda, domesticável no governo e funcional aos interesses
econômicos conservadores.
A imprensa não atuou apenas como mensageira dos fatos. Parte dela
selecionou inimigos, construiu uma atmosfera de catástrofe, converteu conflitos
sociais em ameaça existencial e apresentou o autoritarismo como remédio de emergência.
A radicalização tornou-se razoável porque o adversário — marxistas, sindicatos,
a República, a cultura cosmopolita — havia sido previamente apresentado como
intolerável.
É nesse mecanismo, e não numa equivalência histórica simplista, que surgem
semelhanças com o Brasil.
O paralelo brasileiro
A imprensa brasileira não é um bloco único, assim como o Brasil
contemporâneo não é a Alemanha de 1932. Não há aqui a derrota numa guerra
mundial, o Tratado de Versalhes, a hiperinflação de Weimar, tropas paramilitares
disputando as ruas na mesma escala, antissemitismo de Estado nem partido
nazista prestes a instituir um regime totalitário e genocida. Comparar não é
igualar.
Mas alguns mecanismos de irresponsabilidade são
reconhecíveis.
1. A criação prévia de um ambiente antipolítico
Durante anos, os grandes meios de comunicação apresentaram a política
quase exclusivamente pela linguagem da corrupção, do escândalo e da
incompetência do Estado. Quando ilegalidades de atores distintos recebem pesos
radicalmente diferentes, a denúncia deixa de ser controle democrático e passa a
reorganizar o campo político.
A criminalização generalizada da política abriu espaço para o “outsider”
que prometia limpar o sistema pela força. O candidato que exaltava a ditadura,
homenageava torturadores e tratava adversários como inimigos foi recebido
muitas vezes como uma resposta, ainda que grosseira, a um sistema considerado
apodrecido.
2. A falsa simetria
Em 2018, parte importante da cobertura tratou a eleição como confronto
entre “dois extremos”. De um lado estava um partido constitucional, sujeito à
alternância de poder e às regras eleitorais. Do outro, um candidato que nunca
escondeu sua admiração pela ditadura, atacava direitos de minorias e já
colocava sob suspeita o sistema de votação.
Ao chamar de polarização o conflito entre democracia e ameaça
autoritária, o jornalismo produz uma neutralidade enganosa. A obrigação de
ouvir lados diferentes não exige atribuir o mesmo valor factual e democrático a
todos eles. Equidistância entre o incêndio e o bombeiro não é imparcialidade.
3. A preferência de classe convertida em critério de normalidade
Assim como os conservadores de Weimar enxergaram nos nazistas uma força
útil contra sindicatos e a esquerda, parcelas do establishment brasileiro viram
em Bolsonaro o veículo eleitoral de uma agenda econômica que desejavam: redução
de direitos trabalhistas, privatizações, austeridade e enfraquecimento da
capacidade reguladora do Estado.
As grosserias são lamentáveis, mas a equipe econômica é confiável. O
autoritarismo foi rebaixado a problema de estilo; o programa econômico, elevado
a certificado de racionalidade. O mercado funcionou como salvo-conduto moral.
4. A legitimação pelo procedimento
O argumento “foi eleito, portanto é democrático” repete o erro de
confundir origem eleitoral com prática democrática. Eleições conferem mandato,
não autorização para destruir controles institucionais. Um governo pode nascer
das urnas e trabalhar diariamente contra o pluralismo, a liberdade de imprensa,
a ciência, o sistema eleitoral e a separação de Poderes.
Em Weimar, a legalidade formal foi manipulada para normalizar a exceção.
No Brasil, o risco apareceu quando ataques às urnas, ameaças ao Supremo,
celebrações do golpe de 1964 e pressões sobre as Forças Armadas eram tratados
como bravatas destinadas apenas a mobilizar a base. A tentativa de golpe
revelada depois mostrou que a retórica não era mero teatro.
5. A ilusão de que o extremista será controlado
Von Papen acreditava que, cercado por conservadores, Hitler ficaria
“encurralado”. Empresários e dirigentes brasileiros imaginaram que Congresso,
militares, mercado e imprensa conteriam Bolsonaro, aproveitando sua
popularidade para executar uma agenda convencional. Em ambos os casos, o
cálculo transfere à sociedade o risco de uma aventura decidida no andar de
cima.
O extremista, porém, não entra no sistema para ser educado por ele.
Entra para capturar seus recursos, degradar seus freios e tornar cada reação
institucional prova de que existe uma conspiração contra o “povo verdadeiro”.
6. O jornalismo de declaração como correia de transmissão
Movimentos autoritários aprenderam a produzir acontecimentos pela fala.
Cada provocação garante manchetes, mobiliza seguidores e desloca a pauta.
Quando a imprensa apenas reproduz a frase e registra a reação do adversário,
transforma mentira em controvérsia e ameaça em espetáculo.
O dever jornalístico não é esconder a declaração, mas enquadrá-la desde
o título: dizer o que é falso, qual regra está sendo atacada, quem se beneficia
e qual sequência estratégica aquela fala integra. Sem contexto, a cobertura
multiplica gratuitamente a propaganda que pretende fiscalizar.
Os novos irresponsáveis
A semelhança decisiva entre a Alemanha nazista e o Brasil pré-eleições
está no método de normalização.
Primeiro, escolhe-se um inimigo absoluto. Depois, todo abuso cometido
contra ele parece tolerável. Nenhuma crítica à manipulação das investigações do
Master por André Mendonça, nenhuma palavra sobre sua decisão de implodir o
sistema, denunciando um Ministro do Supremo, o Procurador Geral da República e
o Delegado Geral da Polícia Federal. Nem aos seus negócios, montados à sombra
da influência de seus votos no STF e no Tribunal Superior Eleitoral.
A imprensa se torna irresponsável quando troca a apuração pela campanha,
a pluralidade pela uniformidade de classe e a defesa das regras democráticas
pela conveniência do momento. Torna-se ainda mais perigosa quando imagina que
poderá apoiar a demolição seletiva das garantias — desde que contra o
adversário certo — e recuperá-las intactas depois.
A lição de Chapoutot não é que toda crise atual terminará em fascismo. É
que nenhuma democracia possui seguro contra a estupidez, a soberba e o
oportunismo de suas elites. Hitler não caiu do céu nem foi irresistivelmente
empurrado ao poder por uma maioria nacional. Foi conduzido até a porta por
homens que tinham informação suficiente para conhecer o risco e poder suficiente
para escolher outro caminho.
A responsabilidade histórica da imprensa brasileira começa exatamente
aí: não transformar novamente o inimigo da democracia em alternativa
legítima apenas porque ele promete derrotar seus adversários, proteger seus
interesses ou cumprir sua agenda econômica.
Ilustração: imagem produzida por IA
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