23 junho 2026

Minha opinião

No São João não sou ex*
Luciano Siqueira   

Encontro casualmente o amigo que não vejo há anos:
 
— E aí doutor Luciano, pronto para dançar muito forró?
 
— Nada...
 
— Então é um ex-forrozeiro?
 
Na verdade, a essa altura do campeonato, a idade avançada, sou ex muita coisa — artesão, médico, deputado, vereador, vice-prefeito, presidente do PCdoB —, mas ex-forrozeiro, não.
 
Creio que por duas razões, digamos, viscerais. Não sou dado a dançar e sofro com incômoda alergia à fumaça das fogueiras. Durante toda a festa lacrimejo e espirro, continuamente.
 
O fato que estarei no animadíssimo forró familiar, disciplinadamente.
 
Só isso.
 
No máximo tomarei umas boas lapadas de cachaça ou uísque e farei fotos da festança.
 
E confesso que se me jogasse pra valer na festa deixaria de lado essas quadrilhas estilizadas, hoje lamentavelmente majoritárias em toda parte. 
 
A quadrilha típica, tradicional, cede espaço para essa que parece muito influenciada pelo country norte-americano — e que em nada combina com pamonha, canjica, bolo de milho, pé de moleque e quejandos.
 
Prefiro cantarolar (lembrando a voz de Silvio Caldas) "é noite de Sáo João/o meu balão vou soltar/balão que fiz com as cartas/daquela que não me quis amar..."

*Essa crônica é reprise aqui no blog

[Ilustração: Alfredo Volpi]

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo. 

Leia também: São João repleto de foguetes no ar e fogueiras na terra https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/enio-lins-opina_24.html 

Postei nas redes

O Digimais, o banco do pastor Edir Macedo, fez igual ao Master ao superavaliar ativos com rentabilidade desproporcional, segundo a Polícia Federal. No mundo da usura e sob a ilusão de acesso às altas finanças quem perde é o pequeno investidor. 

O Partido Digital Bolsonarista: síntese analítica, por Luís Nassif https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/por-fora-das-instituicoes.html


Editorial do 'Vermelho'

Irã: os povos e a paz podem, sim, vencer guerras imperialistas
Depois de quatro meses da guerra que visava a derrubada do regime para se apossar do petróleo, Trump foi obrigado a se curvar à resistência do Irã
Editorial do portal Vermelho  
 

Na primeira sessão de negociações de paz na Suíça após a assinatura do Memorando de Entendimento entre os Estados Unidos e o Irã, o presidente estadunidense, Donald Trump, voltou a protagonizar um ato de provocação. No domingo (21), a delegação iraniana chegou a abandonar o local das negociações após Trump ameaçar com novos ataques. Segundo a agência de notícia Irna, do Irã, as conversas, mediadas por Paquistão e Catar, “entraram em uma fase difícil após 80 minutos de discussões e uma interrupção, devido a uma mensagem ofensiva publicada pelo presidente dos Estados Unidos”.

Mas, de acordo com os mediadores, as conversas iniciais terminaram com “progressos encorajadores”. Foram anunciados resultados como a suspensão temporária das sanções petrolíferas contra o Irã, que pode auxiliar na retomada da economia do país, após anos de restrições, e o descongelamento de  US$ 6 bilhões iranianos. O governador do banco central do Irã, Abdolnasser Hemmati, afirmou que “os memorandos necessários foram assinados” para iniciar a liberação dos ativos, de acordo com uma entrevista publicada pela agência de notícias iraniana Tasnim.

O Memorando de Entendimento tem grande abrangência. Composto por 14 pontos, ele estabelece o fim imediato e permanente das operações militares em “todas as frentes”, incluindo o Líbano; que o Irã não terá arma nuclear (em acordos anteriores já havia esse compromisso); a criação de um fundo de US$ 300 bilhões para a “reconstrução e o desenvolvimento econômico” do país; a reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã e o fim do bloqueio naval dos Estados Unidos a portos iranianos; a liberação do dinheiro de fundos do Irã no exterior; e a permissão para a comercialização do petróleo iraniano. Durante os sessenta dias de vigência do Memorando, as partes irão discutir um elenco de pontos pendentes sob o compromisso de busca de um acordo de paz.

A promessa de Trump de que não haveria acordo com o “inimigo”, mas apenas “rendição incondicional” para “mudança de regime”, encontrou no Irã um país unido e que, por estar ameaçado há muito tempo, se preparou para enfrentar a agressão e se organizou para defender a sua integridade, a sua civilização milenar, a sua soberania e as suas riquezas. Fator decisivo foi ter acumulado capacidades de defesa e ataque, bem representada pela indústria de mísseis balísticos e de drones. A guerra foi um choque entre o neocolonialismo, o saque e a rapinagem e a força da causa nacional que amalgamou a coesão no Irã. O poderoso ataque bélico dos Estados Unidos e de Israel, tendo como alvo as cidades, o povo, as autoridades religiosas e a infraestrutura do país, os crimes de guerra uniram a nação em torno da resist&eci rc;ncia.

O Irã rompeu o isolamento ao fechar o estreito de Ormuz: atacar o país passou a ser, também, afetar severamente a economia mundial. Teerã jogou por terra o mito de proteção infalível dos Estados Unidos aos seus aliados, as monarquias árabes da região. Atacou bases estadunidenses, resultando no fechamento de portos e aeroportos por longos períodos, abalando a economia desses países que, por sua vez, passaram pressionar Trump pelo fim da guerra. O Irã também usufruiu das parcerias estratégicas construídas ao longo do tempo com a China, a Rússia e outros países.

As consequências deste confronto se juntaram aos efeitos da guerra entre Ucrânia e Rússia, que se arrasta por quatro anos. Mesmo com a assinatura do Memorando, deverá acontecer a desaceleração do crescimento global para a taxa mais baixa desde o início da pandemia de Covid-19, em meio a preços de energia mais altos, inflação mais acentuada e aumento dos juros, segundo a edição mais recente do relatório Perspectivas Econômicas Globais do Grupo Banco Mundial. O documento prevê que o crescimento global caia para 2.5% em 2026, o que representa uma desaceleração em relação aos 2,9% registrados em 2025.

Essa retração atingiu grande parte do mundo, inclusive, os Estados Unidos, o que fez piorar a queda de popularidade de Trump. Esses fatores, de conjunto, esmagaram a arrogância do presidente estadunidense ao afirmar que apenas um acordo amplamente vantajoso ao seu país seria aceito, usando como comparação o acordo de 2015 fechado pelo então presidente Barack Obama, abandonado por ele unilateralmente em 2019. Diante do custo político e econômico da guerra, se curvou à realidade.

O líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, afirmou que Trump fechou o acordo “por desespero” e reafirmou que o Irã não cederia às “exigências excessivas” dos Estados Unidos. Seyed Abbas Mousavi, diplomata de carreira iraniano conhecido principalmente por sua atuação no Ministério das Relações Exteriores iraniano, disse que havia apenas um “pequeno número” de críticos em seu país e chamou o Irã de “claro vencedor” tanto da guerra quanto das negociações. Esmail Baghaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, comparou o trabalho dos diplomatas iranianos ao das tropas “atrás dos lançadores e nas trincheiras”.

A China também manifestou otimismo. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, afirmou que o acordo tem um significado positivo, por aliviar as tensões e consolidar o cessar-fogo. “A China saúda essa iniciativa e espera que todas as partes envolvidas, incluindo os Estados Unidos e o Irã, respeitem o espírito do acordo e cumpram seus compromissos com seriedade”, afirmou, destacando que “a força não resolve problemas” e que “a negociação em pé de igualdade é o caminho certo”. “A China espera que tanto os Estados Unidos quanto o Irã abordem as negociações da segunda fase com uma atitude racional e pragmática, encontrem um meio-termo e trabalhem juntos para alcançar resultados positivos na próxima etapa das conversas”, enfatizou.

O governo de Benjamin Netanyahu, que somente sobrevive pela política de guerra permanente, em razão do forte desgaste interno, se opõe ao cessar-fogo, instaurando uma contradição momentânea com o governo Trump. A essência colonialista e neofacista do Estado de Israel sob o comando de Netanyahu, a oposição que faz a qualquer possibilidade de paz, a ocupação da Palestina e do Líbano, o genocídio em Gaza e a matança contínua na região o isolam cada vez mais no plano internacional e aumentam a fervura das contradições no próprio país.

Circunstância que favorece a pressão mundial pela paz na região, que passa pela solução dos dois Estados, assegurando o território e os demais direitos ao povo palestino e a desocupação imediata do Líbano.

Não há certezas do que acontecerá nestes sessenta dias de vigência do cessar-fogo, pela natureza do governo Trump de agressões e guerras e por maquinações que o Estado de Israel possa empreender. Mas há que se destacar que as causas indispensáveis aos povos, a defesa da paz e da soberania nacional obtiveram, pela resistência iraniana, uma vitória de grande relevância.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Quem ganha o quê? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0912473985.html 

Sylvio: quinta-coluna

Se a final da Copa do Mundo for entre Brasil e Estados Unidos, por quem torcerá a família Bolsonaro?

Sylvio Belém 

Lula avança e candidato de Donald Trump recua https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/editorial-do-vermelho_01899426184.html 

Enio Lins opina

Escândalo Master, apuração e diversionismo – capítulo 1
Enio Lins   

JACQUES WAGNER tem um histórico dos mais notáveis da política brasileira. Carioca de origem judaica, filho de judeus poloneses (Joseph Wagner e Cypa Perla) que migraram para o Brasil antes da ascensão do Nazismo na Europa. O jovem Wagner, em 1973, aos 22 anos de idade, deixou a Engenharia Elétrica na PUC/Rio pelo risco de vida por sua atuação como presidente do Diretório Acadêmico. Com o apoio dos pais, mudou-se para a Bahia em 1974, e recomeçou a vida como técnico na indústria petroquímica, em Camaçari.

BAIANO POR ADOÇÃO,
 Wagner tornou-se presidente do Sindiquímica/BA. Em 1980 participou da fundação do Partido dos Trabalhadores e da CUT, e foi o primeiro presidente estadual do PT e da CUT na Bahia. Em 1990 elegeu-se deputado federal, reeleito em 1994 e 1998. Concorreu à prefeitura de Camaçari em 2000 e a governo da Bahia em 2002, ampliando sua projeção como liderança em todo Estado, mesmo sem ganhar esses dois pleitos. Em 2003, o Presidente Lula levou-o para o Ministério do Trabalho. Em 2005 estava como Ministro da Relações Institucionais, e Secretário Especial do 
Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República. Em 2014, a presidenta Dilma o escalou para o Ministério da Defesa, e depois para a Casa Civil.

JACQUES WAGNER 
foi o responsável pela derrota histórica do “Carlismo” na Bahia, processo de renovação iniciado de forma sustentável com sua eleição para o governo baiano em 2006. Reeleito em 2010, enfrentou desafios de grande monta, como greves de professores e de policiais. Fez seu sucessor, Rui Costa (eleito em 2014 e reeleito em 2018), que fez o sucessor, Jerônimo Rodrigues, em 2022. Uma sequência impactante, pois a força política e eleitoral de Antônio Carlos Magalhães segue muito forte mesmo depois de sua morte, em 2007. O papel de Wagner, ao longo dessas quatro décadas, extrapolou o território baiano como articulador habilíssimo, contribuindo para a relevância do PT no cenário nacional, e para a preservação do Estado Democrático de Direito.

NÃO É UNANIMIDADE, 
entretanto. Recebe muitas críticas por ter integrado a Organização da Juventude Sionista no Brasil e nunca ter revisto esse posicionamento. Em 19/01/2015, o PSTU divulgou um artigo de Diego Cruz, intitulado “Sionista toma posse: Jacques Wagner é o novo ministro da Defesa”, onde desfia as ligações de Wagner com a política israelense contemporânea. Em 7/10/2025, o jornalista e ativista judeu Breno Altman, em postagem no X (ex-Twitter), detonou o senador Wagner: “Incapaz de apoiar o presidente Lula na denúncia do genocídio palestino em Gaza, pusilânime na defesa do regime sionista e odioso contra a resistência anticolonial”. Em 17/12/2025, o senador Renan Calheiros o criticou duramente pela aprovação da “Lei da Dosimetria”, mutreta que beneficiou Jair Bolsonaro e demais golpistas condenados pelo STF.

NO OLHO DO FURAÇÃO
 por conta das investigações da Polícia Federal sobre as falcatruas do Banco Master, Jacques Wagner pode ter adquirido nódoa indelével sobre seu currículo. Ou não. Mas o mais grave é que sua permanência como Líder do Governo no Senado, depois dos indícios apontados, confunde a opinião pública, atraindo para si atenções que devem seguir concentradas nos principais responsáveis pelo escândalo do Banco Master, a saber: Daniel Vorcaro, família Bolsonaro, Campos Neto. O governo Lula, que identificou e promoveu a apuração dos crimes do Banco Master, não pode, através de sua liderança no Senado, ou de outros próceres, permitir ser confundido – por um átimo sequer – com os bandidos que promoveram esse assalto. Jamais se esqueçam das manipulações feitas pela famigerada Lava-Jato. Moro, Detantan & cia não foram fato isolado, nem nunca sofreram punições à altura dos delitos cometidos.

Seguiremos no tema por mais um capítulo. Aguardem carta.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Lula avança e candidato de Donald Trump recua https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/editorial-do-vermelho_01899426184.html 

22 junho 2026

Palavra de poeta

Humildade
Cecília Meireles    

Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.
.
Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...
até o fim do mundo assinando papéis.
.
E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.
(E uma canção tão bela!)
.
Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem para quê.
 
[Ilustração: Georges Seurat]
 
Leia também "Errata", poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/palavra-de-poeta_6.html 

Minha opinião

Onde Trump não deve se meter
Luciano Siqueira 

Se já está ruim, mexer demais pior fica. É o que ocorre em relação à especulada (e reivindicada pelos bolsonaristas) intervenção de Donald Trump nas eleições brasileiras.

O candidato ungido pelo pai presidiário ex-presidente, senador Flávio Bolsonaro (PL), não une a extrema direita nem segmentos do centro conservador que se opõem a Lula. E suscita todo tipo de desconfiança, especialmente quanto ao provável desempenho eleitoral abaixo do desejado. Um imenso telhado de vidro.

Nessas circunstâncias, qualquer interferência de Donald Trump poderia, paradoxalmente, beneficiar o presidente Lula. A defesa da soberania nacional a um só tempo esclarece, emociona e mobiliza.

Demais, a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros adotada por Trump (que os bolsonaristas assumem como reivindicação apresentada ao presidente dos Estados Unidos), prejudica a economia, afetando diretamente as exportações e a oferta de empregos.

Ambiente assim polarizado oferece diminuta margem a outras candidaturas

Também favoreceria a ampliação da frente democrática que respalda a candidatura do presidente Lula, como já ocorreu em outras ocasiões.

[Ilustração: imagem gerada por IA]

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Leia também “O Partido Digital Bolsonarista: síntese analítica, por Luís Nassif” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/por-fora-das-instituicoes.html