09 março 2026

Palavra de poeta

O vento na Ilha
Pablo Neruda      

O vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.

Quer levar-me: escuta
como atravessa o mundo
para me levar até longe.

Esconde-me nos teus braços
só esta noite,
enquanto a chuva abre
contra o mar e a terra
a sua boca inumerável.

Escuta como o vento
chama por mim a galope
para me levar até longe.
A tua testa na minha testa,
a tua boca na minha boca,
os nossos corpos presos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem me conseguir levar.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e me procure
a galope na sombra,
enquanto eu, submerso
sob os teus grandes olhos,
só por esta noite
descansarei, meu amor.

[Ilustração: Andrea Antonon]

Leia "O bolero e o mar", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/palavra-de-poeta_17.html 

08 março 2026

Arte é vida

 

Albena Vatcheva

Leia 'A festa', poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/palavra-de-poeta_20.html 

8 de Março: história

8 de Março: a verdadeira origem da data que celebra as mulheres
Depois da chegada dos bolcheviques ao poder, o dia internacional de luta das mulheres foi oficializado entre os soviéticos como o que deu início ao processo revolucionário. Em 1975, a data foi reconhecida também pela ONU.
Portal Vermelho 

Se você já participou de alguma conversa sobre o que originou o dia internacional de luta das mulheres, provavelmente já ouviu a história de que surgiu em homenagem a trabalhadoras estadunidenses que, em greve, foram trancadas dentro de uma fábri ca têxtil em chamas. 
Houve greve e houve incêndio, mas a versão – que às vezes remete a 1857, às vezes a 1908 – de que seria esse o embrião do 8 de março é falsa. O dia internacional foi proposto pela primeira vez em um evento que reuniu mul heres socialistas de todo o mundo em 1910, na Dinamarca. 

As origens que consolidaram o 8 de março, no entanto, não se explicam apenas com esse marco. Elas estão conectadas com uma série de eventos históricos relacionados à luta de mulheres da classe trabalhadora na Rússia, nos Estados Un idos e em países europeus no início do século 20. 

O incêndio na fábrica têxtil de Nova Iorque

Era sábado à tarde, 25 de março de 1911, quando a Triangle Shirtwaist Company, na esquina das ruas nova-iorquinas Greene e Washington Place, pegou fogo. Já fazia um ano que o dia internacional de luta das mulheres havia sido proposto, na capital dinama rquesa. De acordo com a socióloga Eva Blay no artigo “8 de março: conquistas e controvérsias”, a fábrica empregava 600 pessoas, em sua maioria mulheres imigrantes de 13 a 23 anos. 

Com algumas portas trancadas e um ambiente com tecidos e chão de madeira, facilitando a propagação do fogo, muitas pessoas não conseguiram escapar. O saldo foi de 125 mulheres e 21 homens mortos. “A comoção foi imensa. No dia 5 de a bril houve um grande funeral coletivo que se transformou numa demonstração trabalhadora. Apesar da chuva, cerca de 100 mil pessoas acompanharam o enterro”, narra Blay. Hoje, o local onde houve o incêndio é a Universidade de Nova Iorque. 

A greve e o “Dia da Mulher” nos EUA

Na ocasião do incêndio da Triangle Shirtwaist Company, que repercutiu de maneira a fortalecer sindicatos estadunidenses, as trabalhadoras não estavam em greve. Esse mito é, na realidade, a mistura de dois fatos que aconteceram pouco tempo antes. Em nove mbro de 1909 foi feita uma greve de trabalhadoras da indústria têxtil de Nova Iorque, que durou até fevereiro do ano seguinte e também ficou conhecida como “o levante das 20 mil”. 

Uma de suas lideranças, na época com 23 anos, foi a ativista ucraniana e judia Clara Lemlich. Ela participou da diretoria do histórico sindicato International Ladies Garment Workers (União Internacional de Mulheres da Indústria Têxtil), um dos maiores dos EUA e o primeiro do país composto somente por mulheres. 

No ano anterior, em fevereiro de 1908, mulheres socialistas dos Estados Unidos organizaram uma manifestação por melhores condições de trabalho e pelo direito ao voto. O ato foi chamado de “Dia da Mulher”. Em 1909 repetiram a passeata que, s egundo Blay, reuniu duas mil pessoas em Manhattan. Possivelmente essa experiência influenciaria a proposta de uma data internacional unificada entre as socialistas, que seria aprovada em 1910 na Dinamarca.  

O Congresso das Mulheres Socialistas em 1910

Foi em Copenhagen, durante o 2º Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, que se formalizou a ideia de um dia para a realização de atos em defesa dos direitos das mulheres em escala global. Figura central sempre atrelada à proposição do 8 de março é a marxista alemã Clara Zetkin. Dentro do movimento operário, Zetkin se dedicava à luta pelo que na época se chamava de “igualdade entre os sexos”. Daí o nome Igualdade com o qual foi batizada a revista por ela fundada e dirigida ao longo de 16 anos.

O documento que propôs o “Dia da mulher”, ratificado pelas congressistas em 1910, é assinado por Zetkin, mas também pela menos conhecida Käte Duncker. Ambas militavam juntas no Partido Comunista Alemão. “As mulheres socialistas de todas as nacionalidades devem organizar a cada ano um Dia da Mulher, que deve promover, acima de tudo, a agitação pelo sufrágio feminino”, propuseram Zetkin e Duncker. “O Dia da Mulher deve ter caráter internacional e ser preparado cuidadosamente”, escreveram.

A ideia foi aceita, mas ainda sem data definida.  De acordo com Ana Isabel González no livro As Origens e a Comemoração do Dia Internacional das Mulheres (editora Expressão Popular), o 8 de março aconteceu internacionalmente pela primeira vez em 1914, na Alemanha, na Suécia e na Rússia. 
O impulso da Revolução Russa

Mas foi em 1917, em meio a 1ª Guerra Mundial, que o dia de luta das mulheres tomou outras proporções. Em 8 de março daquele ano (23 de fevereiro no calendário Juliano, que vigorava na Rússia czarista), russas tecelãs e familiares de soldados do exército tomaram as ruas de Petrogrado (hoje São Petersburgo). 

A despeito do inverno congelante, marcharam por “pão e paz”, reivindicando o fim da guerra, denunciando a fome que assolava o país e convocando o operariado russo a derrubar a monarquia. Convocando mesmo: batendo nas fábricas de porta em porta.
A mobilização se alastrou. Depois da chegada dos bolcheviques ao poder, o dia internacional de luta das mulheres foi oficializado entre os soviéticos como o que deu início ao processo revolucionário. Em 1975, a data foi reconhecida também pela ONU. 

Hoje

Mais de um século depois, para alguns o 8 de março é, como publicidades insistem em veicular, um dia para dar uma flor, um presente ou dizer “parabéns” a uma mulher. As lutas antissistêmicas da data, no entanto, não são esquecidas. Ao contrário: em todo o planeta, elas são atualizadas de acordo com os (não menores) desafios destes tempos.

8 de Março, palavra da UBM https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/8-de-marco-palavra-da-ubm.html

8 de Março: palavra de Lula

Lula denuncia feminicídio e reforça luta das mulheres no 8 de Março
Em pronunciamento nacional, presidente cobra combate ao feminicídio e defende fim da escala 6×1 enquanto mulheres ocupam ruas do país por direitos e igualdade.
Barbara Luz/Vermelho 

Na véspera do Dia Internacional das Mulheres, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, utilizou cadeia nacional de rádio e televisão para fazer um pronunciamento marcado pelo alerta diante do avanço da violência de gênero no país e pela defesa de políticas públicas voltadas à proteção e à autonomia das mulheres.

Logo no início do discurso, Lula chamou atenção para o crescimento dos casos de feminicídio no Brasil, que em 2025 chegaram à média de quatro mulheres assassinadas por dia. Para o presidente, a tragédia revela a persistência de uma cultura de violência profundamente enraizada na sociedade brasileira. “A cada seis horas, um homem mata uma mulher no Brasil. Cada feminicídio é o resultado de uma soma de violências diárias, silenciosas, naturalizadas. A maioria esmagadora dessas agressões acontece dentro de casa, no ambiente que deveria ser de proteção”, disse.

O presidente destacou que o endurecimento das penas não tem sido suficiente para conter o problema e afirmou que o país precisa enfrentar a violência contra as mulheres como uma questão pública e coletiva. “Mesmo com o agravamento da pena para o feminicídio, com até 40 anos de prisão para os assassinos, homens continuam agredindo e matando mulheres. Não podemos nos conformar”, acrescentou.

Pacto contra o feminicídio e ações do governo

Ao questionar que tipo de futuro pode existir em um país onde mulheres seguem sendo vítimas cotidianas de violência, Lula reforçou o compromisso do governo com o Pacto Nacional – Brasil contra o Feminicídio, que reúne ações dos três poderes e prevê medidas de prevenção, proteção e responsabilização dos agressores.

Entre as iniciativas citadas está uma operação nacional coordenada pelo Ministério da Justiça para capturar agressores que descumprem medidas protetivas ou possuem mandados de prisão em aberto. “Para começar, um mutirão do Ministério da Justiça, em parceria com os governos dos estados, para prender mais de 2 mil agressores de mulheres que não podem e não vão continuar em liberdade. E estou avisando: outras operações virão”.

Em seguida, o presidente reforçou que a violência contra mulheres não pode mais ser tratada como assunto doméstico ou privado. “Violência contra a mulher não é questão privada onde ninguém mete a colher. É crime. E vamos, sim, meter a colher”.

Lula também citou políticas sociais que, segundo ele, contribuem para ampliar a autonomia econômica das mulheres, como o programa Pé-de-Meia, o Gás do Povo, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a distribuição gratuita de absorventes.

Fim da escala 6×1 e novas medidas contra violência digital

Outro ponto do pronunciamento foi a defesa do fim da escala de trabalho 6×1 — modelo em que o trabalhador cumpre seis dias de jornada e tem apenas um de descanso. Para o presidente, a mudança é especialmente importante para as mulheres, que frequentemente acumulam trabalho remunerado e responsabilidades domésticas.

“É preciso avançar no fim da escala 6×1, que obriga a pessoa a trabalhar seis dias por semana e ter um só dia de folga. Está na hora de acabar com isso, pois significará mais tempo com a família, mais tempo para estudar, descansar e viver. Essa é uma pauta da mulher brasileira”.

Lula também anunciou que o governo prepara novas medidas para combater o assédio e a violência no ambiente digital, com a entrada em vigor, no próximo dia 17 de março, do Estatuto Digital das Crianças e Adolescentes (ECA Digital). “O Brasil que queremos não é um país onde as mulheres apenas sobrevivam. É um país onde elas possam viver em segurança, com liberdade para se divertir, trabalhar, empreender e prosperar”. 

Pronunciamento dialoga com mobilizações do 8M

O discurso do presidente ocorre em um momento de intensa mobilização do movimento feminista no país. Neste 8 de março, mulheres ocupam ruas em diversas cidades brasileiras para denunciar a violência de gênero, exigir igualdade salarial e defender melhores condições de trabalho.

As manifestações também incluem reivindicações como a redução da jornada de trabalho sem redução de salários, o combate ao assédio no ambiente profissional e a implementação da Convenção 190 da Organização Internacional do Trabalho, que trata da violência e do assédio no mundo do trabalho. 

Convocados por organizações feministas e movimentos sociais, os atos reafirmam que a luta das mulheres segue profundamente ligada à defesa da democracia e à superação das desigualdades sociais. Em diversas cidades, as manifestações também denunciam o avanço da extrema-direita e reforçam o compromisso com a construção de um país mais justo e igualitário.

Em defesa do feminismo emancipacionista e anticapitalista https://vermelho.org.br/coluna/em-defesa-do-feminismo-emancipacionista-e-anticapitalista/ 

Editorial do 'Vermelho'

A violência contra a mulher exige ações enérgicas de todas e todos
Emancipação das mulheres é condição essencial para um projeto nacional de desenvolvimento.
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br   

Neste Dia Internacional das Mulheres, 8 de março, é importante ressaltar as trágicas estatísticas sobre a violência contra a mulher, situação que exige — sobretudo dos homens — atitudes condizentes com o enfrentamento desse gravíssimo problema social. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, citado pela Procuradoria Especial da Mulher do Senado Federal, aponta que oito em cada dez casos de feminicídio no país são cometidos por parceiros ou ex-companheiros.

Em 2025, foram registradas 1.568 vítimas de feminicídio, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. O levantamento revela também um recorte racial: 62,6% das vítimas são mulheres negras. A maioria dos crimes ocorre dentro da própria residência (66,3%). Em 48,7% dos casos são utilizados objetos comuns, como facas ou machados.

Em 2015, foi promulgada a lei que incorpora o conceito de que a violência de gênero é um fenômeno estrutural e de que mulheres são mortas por serem mulheres — crime denominado feminicídio para distingui-lo do homicídio comum, por decorrer de discriminação, dominação e violação de direitos nas relações de gênero. Em 2024, outra lei definiu o feminicídio como crime autônomo, antes qualificado como homicídio doloso.

São medidas destinadas a tornar a legislação mais rigorosa, reforçando o Código Penal, que estabelece que o estupro pode resultar em penas de seis a dez anos de prisão, com agravantes — como quando a vítima é menor de idade, caso em que a pena pode chegar a doze anos. Para estupro coletivo, uma lei sancionada em 2018 prevê prisão de até 16 anos e oito meses.

Mas os números mostram que não bastam leis severas para combater a violência. É preciso rigor também na investigação para que haja punição efetiva, além da formação de um juízo coletivo de que as vítimas precisam de justiça e proteção. A convicção social de que esses crimes devem ser duramente punidos retira dos agressores a aposta na impunidade. Os dados impõem a urgência de atitudes efetivas que incentivem denúncias e, sobretudo, consolidem a compreensão de que esses crimes são intoleráveis, quebrando paradigmas que estereotipam a mulher e a colocam em situação de vulnerabilidade.

Uma importante iniciativa nesse sentido foi o Pacto Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, proposto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e firmado em 4 de fevereiro de 2026 com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Edson Fachin; o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB); e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). O documento formaliza compromissos institucionais entre os Três Poderes e prevê cerca de R$ 200 bilhões destinados a políticas públicas voltadas às mulheres, de acordo com a ministra das Mulheres, Márcia Lopes.

Mas é preciso ir além. É fundamental construir uma rede direta de apoio, sobretudo nas pequenas cidades, como ressaltou a ativista Maria da Penha — que dá nome à lei que criou mecanismos para coibir a violência doméstica contra a mulher — durante o seminário Brasil pela vida das meninas e mulheres, organizado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS) no dia 4, com o objetivo de reafirmar o enfrentamento ao feminicídio como prioridade nacional e compromisso de Estado.

De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024, municípios com até cem mil habitantes registraram taxa de 1,7 feminicídio por cem mil mulheres, acima da média nacional (1,4). Nas cidades com até vinte mil habitantes, a taxa chegou a 1,8 — 28,5% superior à média do país. Embora 41% das brasileiras vivam em municípios com até cem mil habitantes, essas cidades concentraram 50% dos feminicídios. Apenas 5% dessas cidades possuem Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher; 3% contam com Casa Abrigo; e 27,1% dispõem de ao menos um serviço especializado da rede de proteção.

O problema é antigo e decorre da estrutura patriarcal que persiste nas relações sociais capitalistas, constatação que remete às formulações históricas sobre a luta pela emancipação da mulher e a superação desse estágio histórico. No Brasil, a situação se agravou com a ascensão da extrema direita, que disseminou em larga escala a misoginia, o ódio e os chamados “valores conservadores”, frequentemente utilizados como justificativa para práticas que, na realidade, incitam a violência — agravada ainda pela facilitação da circulação de armas e munições.

A gravidade do problema exige medidas urgentes e de amplo alcance, entre elas o empoderamento das mulheres em diferentes esferas da vida social, como a igualdade salarial e a ampliação da representação política. Atualmente, na Câmara dos Deputados as mulheres ocupam apenas 18,1% das vagas (93 cadeiras) e, no Senado Federal, são 14,8% (12 senadoras), condição que coloca o Brasil em posição internacional constrangedora: o país ocupa a 133ª colocação no ranking mundial de participação parlamentar feminina. É preciso também considerar que a redução da jornada de trabalho é fundamental para as mulheres, frequentemente sobrecarregadas com tarefas domésticas e responsabilidades familiares.

Outra questão fundamental é a regulação das chamadas Big Techs, espaços nos quais a violência contra a mulher tem crescido de forma preocupante. Em 2025, o tema motivou a campanha global UNA-se para acabar com a violência digital contra todas as mulheres e meninas, promovida pela ONU durante os 21 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres. Pesquisas demonstram que a cultura de ódio e misoginia disseminada nas redes sociais contribui para o aumento desses crimes.

São dados e informações que devem servir à reflexão neste 8 de março, data que lembra o papel histórico da luta das mulheres, oficializada pela ONU em 1977. Mulheres e homens devem se manifestar erguendo as bandeiras dessa luta histórica, conscientes da gravidade dessa violência, exigindo as medidas imediatas necessárias e fortalecendo o ideal da emancipação feminina — condição essencial para a emancipação de toda a humanidade.

Em defesa do feminismo emancipacionista e anticapitalista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/feminismo-emancipacionista.html 

07 março 2026

Feminismo emancipacionista

Em defesa do feminismo emancipacionista e anticapitalista
Feminismo emancipacionista propõe enfrentar patriarcado e capitalismo juntos, articulando a luta das mulheres à transformação radical da sociedade.
Caio Botelho/Vermelho   

A luta pela emancipação das mulheres atravessa séculos de história e assume diferentes formas conforme o contexto social, econômico e político em que se desenrola. No cenário contemporâneo, marcado pela hegemonia neoliberal e pelo aprofundamento das desigualdades, torna-se fundamental reafirmar a perspectiva de um feminismo que não se contente com reformas superficiais, mas que aspire à transformação radical das estruturas que perpetuam a opressão. Um feminismo que compreenda que a libertação das mulheres é inseparável da emancipação do conjunto da humanidade e da superação do sistema capitalista.

A base material da opressão das mulheres

O capitalismo, embora não tenha criado o patriarcado, soube apropriar-se de suas estruturas para servir aos interesses da acumulação de capital. Como demonstrou Friedrich Engels em sua obra fundamental “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, a opressão das mulheres intensificou-se historicamente com o surgimento da propriedade privada e da divisão da sociedade em classes. A família monogâmica, tal como se consolidou sob o capitalismo, não representa uma forma natural ou eterna de organização social, mas uma instituição histórica que serve à transmissão da propriedade e à reprodução da força de trabalho.

A divisão sexual do trabalho, ao atribuir às mulheres a responsabilidade principal pelo trabalho doméstico e de cuidado não remunerado, cumpre função estratégica para o capital. Auguste Bebel em “A Mulher e o Socialismo”, já no século XIX, observou que o trabalho feminino no lar sustenta toda a estrutura produtiva sem que por ele se pague. Esse trabalho invisibilizado contribui decisivamente para a redução dos custos de reprodução da força de trabalho, permitindo ao capital extrair mais-valor sem arcar com os custos integrais de manutenção e formação dos trabalhadores.

Paralelamente, quando as mulheres ingressam no mercado de trabalho assalariado, enfrentam a superexploração: recebem salários inferiores aos dos homens pelo exercício das mesmas funções, concentram-se em setores precarizados e sofrem dupla ou tripla jornada de trabalho. Como apontaram Arruzza, Bhattacharya e Fraser, “o trabalho assalariado para a obtenção de lucro não poderia existir sem o trabalho (na maioria das vezes) não assalariado da produção de pessoas”. A opressão de gênero, portanto, possui uma sólida base material – não se reduz a uma questão meramente cultural ou ideológica, mas articula-se profundamente com os mecanismos de exploração capitalista.

As insuficiências do feminismo liberal

O campo feminista é plural e atravessado por disputas políticas e teóricas fundamentais. As correntes emancipacionistas distinguem-se precisamente por estabelecer a conexão entre patriarcado e capitalismo, compreendendo que a libertação definitiva das mulheres não será alcançada nos marcos do sistema vigente. Essa perspectiva contrapõe-se criticamente às visões liberais do feminismo, hegemônicas em grande parte dos espaços midiáticos e institucionais e com grande força no seio do próprio movimento.

O feminismo liberal concentra esforços na conquista da igualdade formal e na ascensão individual de mulheres a posições de poder dentro das estruturas existentes. Pautas como a paridade em cargos de liderança corporativa ou a representação feminina em espaços políticos tradicionais, embora representem conquistas importantes, não questionam as estruturas produtoras da desigualdade. Como afirmam Arruzza, Bhattacharya e Fraser, esse feminismo busca “um mundo onde a tarefa de administrar a exploração no local de trabalho e a opressão no todo social seja compartilhada igualmente por homens e mulheres da classe dominante”.

Longe de oferecer uma solução, o feminismo liberal torna-se parte do problema ao difundir a ilusão de que é possível superar a opressão das mulheres sem tocar nas bases do sistema capitalista. Ao tratar as mulheres como “grupo sub-representado” e buscar garantir que algumas poucas almas privilegiadas alcancem cargos e salários iguais aos dos homens de sua própria classe, essa perspectiva ignora que a ampla maioria das mulheres – trabalhadoras, negras, periféricas, imigrantes – permanece submetida a condições de superexploração e opressão.

O feminismo liberal oferece ainda o álibi perfeito para o neoliberalismo: ocultando políticas regressivas sob uma aura de emancipação, permite que as forças que sustentam o capital global retratem a si mesmas como progressistas. Celebrar uma mulher CEO ou uma primeira-ministra que implementa políticas de austeridade, bombardeia países ou desmantela direitos trabalhistas nada tem a ver com a libertação feminina. É fundamental reconhecer, como fez Clara Zetkin, que a solidariedade de classe é mais profunda que qualquer suposta solidariedade de gênero abstrata e descolada das condições materiais de existência.

Crítica ao feminismo pós-moderno e ao chamado feminismo radical

Outras correntes também apresentam limitações significativas para a luta emancipatória. O feminismo de matriz pós-moderna, ao dissolver as categorias de análise material e enfatizar exclusivamente as dimensões discursivas e identitárias da opressão, perde de vista as bases econômicas e estruturais da dominação. Embora as lutas por reconhecimento sejam legítimas e necessárias, sua desconexão da luta contra a exploração capitalista leva ao risco de cooptação e fragmentação dos movimentos sociais.

O chamado feminismo radical, por sua vez, ao localizar a opressão das mulheres exclusivamente no patriarcado, compreendido como sistema autônomo e independente, deixa de estabelecer os nexos fundamentais entre a dominação de gênero e a estrutura de classes. Essa perspectiva tende a conceber todos os homens como inimigos e a subestimar as possibilidades de construção de alianças de classe na luta pela transformação social. Como demonstrou Alexandra Kollontai em seus escritos sobre a questão feminista, a experiência histórica dos processos revolucionários mostra que a emancipação das mulheres avança quando homens e mulheres da classe trabalhadora se unem na luta contra a ordem do capital.

Por um feminismo de classe e anticapitalista

A tarefa histórica que se coloca é disputar o feminismo com uma perspectiva de classe que unifique o combate ao patriarcado com a luta contra o capitalismo. Como afirmou Clara Zetkin, figura central do movimento socialista internacional e da organização das mulheres trabalhadoras, “de mãos dadas com o homem de sua classe, a mulher proletária luta contra a sociedade capitalista”. Esta formulação expressa com nitidez a compreensão de que a luta pela emancipação das mulheres não se dá contra os homens em geral, mas contra um sistema de exploração e opressão que desumaniza tanto homens quanto mulheres, ainda que de formas distintas.

Um feminismo verdadeiramente emancipacionista compreende que a opressão das mulheres assume diferentes formas conforme a posição de classe, a raça, a nacionalidade e outras condições sociais. Proclamações abstratas de “sororidade global” que ignoram essas diferenças são contraproducentes, pois transmitem a falsa impressão de homogeneidade. Uma trabalhadora doméstica e uma executiva de uma corporação transnacional não compartilham os mesmos interesses materiais, ainda que ambas sejam mulheres. Como advertem Arruzza, Bhattacharya e Fraser, “nada que mereça o nome de ‘liberação das mulheres’ pode ser alcançado em uma sociedade racista, imperialista”. O feminismo emancipacionista não se limita às chamadas “questões das mulheres” e articula-se, portanto, com todas as lutas contra a explo ração, a opressão e a dominação.

O papel dos homens na luta pela emancipação das mulheres

Uma questão crucial para o avanço da luta emancipatória diz respeito ao papel dos homens da classe trabalhadora no combate à opressão das mulheres. É fundamental reconhecer que, embora os homens não sofram a opressão de gênero da mesma forma que as mulheres, o machismo e o patriarcado também os desumanizam e os impedem de desenvolver plenamente suas potencialidades. Mais importante ainda: o machismo fragmenta a classe trabalhadora e enfraquece sua capacidade de enfrentar o capital.

Os homens trabalhadores devem ter, portanto, interesse objetivo na superação da opressão das mulheres. Uma classe trabalhadora dividida por preconceitos de gênero, raça ou nacionalidade é uma classe trabalhadora enfraquecida em sua capacidade de luta.

Sob a direção política das mulheres organizadas, que conhecem na própria pele a realidade da opressão, os homens devem engajar-se ativamente no combate ao machismo em todas as suas formas. Isso implica questionar práticas cotidianas, assumir responsabilidades pelo trabalho doméstico e de cuidado, combater o assédio e a violência contra as mulheres, e reconhecer a legitimidade da autonomia organizativa das mulheres em seus espaços de luta. Não se trata de uma concessão pretensamente generosa, mas de uma necessidade histórica para a construção de uma sociedade verdadeiramente livre e igualitária.

A emancipação como obra coletiva

A superação definitiva da opressão contra as mulheres somente ocorrerá com a superação do sistema capitalista e com a emancipação do conjunto da humanidade. Esta não é uma tarefa que possa ser realizada por um setor isolado da sociedade, mas uma obra a ser construída coletivamente por mulheres e homens da classe trabalhadora e das massas oprimidas. Como demonstraram as experiências históricas dos processos revolucionários, avanços significativos na condição das mulheres estão associados a transformações profundas nas estruturas econômicas e sociais.

O capitalismo produz periodicamente crises que afetam de forma particularmente severa as mulheres trabalhadoras. A forma atual, neoliberal, do capitalismo está esgotando sistematicamente as capacidades individuais e coletivas para reconstituir os seres humanos e para sustentar os laços sociais. O desmantelamento de serviços públicos, a precarização do trabalho, o ataque aos direitos sociais – tudo isso recai de forma desproporcional sobre as mulheres, que seguem sendo as principais responsáveis pelo trabalho de reprodução social.

Diante desse quadro, é fundamental construir um feminismo que não celebre CEOs que ocupam escritórios luxuosos, mas que busque construir um mundo justo, onde a riqueza e os recursos naturais sejam compartilhados por todos, e onde a igualdade e a liberdade sejam premissas, não aspirações distantes. Um feminismo que compreenda que a produção de pessoas não pode ser tratada como mero meio para gerar lucro, mas deve ser valorizada por si mesma, em uma sociedade que assegure as bases materiais para o pleno desenvolvimento de cada indivíduo.

Conclusão

O feminismo emancipacionista e anticapitalista apresenta-se, assim, como uma perspectiva política que articula de forma inseparável a luta contra a opressão das mulheres e a luta contra o sistema capitalista. Inspirado nas contribuições dos grandes pensadores e pensadoras marxistas – de Bebel a Engels, de Kollontai a Zetkin –, esse feminismo compreende que a libertação das mulheres é parte indissociável da emancipação humana universal.

Contra o feminismo liberal, que se contenta com a diversificação das elites; contra as perspectivas que fragmentam a luta em identidades isoladas. É preciso dar seguimento ao esforço de construir um feminismo verdadeiramente transformador, que seja fonte de esperança para toda a humanidade.

Esta é a tarefa histórica colocada para o movimento feminista do século XXI: ser parte integrante e fundamental da luta por uma sociedade socialista, onde mulheres e homens possam, finalmente, desenvolver plenamente suas potencialidades humanas, livres da exploração e da opressão. Uma sociedade onde o trabalho doméstico e de cuidado seja socializado e valorizado, onde não haja espaço para a violência de gênero, onde as mulheres tenham pleno controle sobre seus corpos e suas vidas, e onde todas e todos possam viver com dignidade, igualdade e liberdade.

Referências

ARRUZZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%: um manifesto. São Paulo: Boitempo, 2019.

BEBEL, Auguste. A Mulher e o Socialismo. São Paulo: Expressão Popular, 2019.

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. São Paulo: Boitempo, 2019.

KOLLONTAI, Alexandra. A Nova Mulher e a Moral Sexual. São Paulo: Expressão Popular, 2005.

KOLLONTAI, Alexandra. Marxismo e Revolução Sexual. São Paulo: Global Editora, 1982.

ZETKIN, Clara. La Cuestión Femenina y el Reformismo. In: ZETKIN, Clara. Escritos Selectos. Moscou: Editorial Progreso, 1984.

ZETKIN, Clara. Selected Writings. Edited by Philip S. Foner. New York: International Publishers, 1984.

8 de Março, palavra da UBM https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/8-de-marco-palavra-da-ubm.html

Lava Jato 2?

Pare o país, que quero descer!
A partir de agora, a Lava Jato 2 está a pleno vapor, desviando o foco dos cúmplices maiores e concentrando em quinquilharias políticas.
Luís Nassif/Jornal GGN  



Tinha-se, até então, um escândalo firmemente ancorado no Centrão, com os aportes feitos por governadores do grupo e as relações pessoais de Daniel Vorcaro. Depois, as relações foram se estendendo a outros personagens.

Com o inquérito do Master entregue à CPMI do INSS por André Mendonça, o controle dos vazamentos ficou nas mãos da Polícia Federal, ansiosa por ocupar o lugar de destaque que teve na Lava Jato 1, e com os parlamentares do Centrão.

Com os dados, divulgados hoje pelo O Globo, a bomba estourou definitivamente no centro do Supremo Tribunal Federal. Já não há espaço para dúvidas sobre o envolvimento amplo e direto do Ministro Alexandre de Moraes com o Master e, por tabela, dos negócios do Ministro Dias Toffoli.

Não há o menor sinal de bolsonarismo na história, apesar dos indícios:

  1. O celular de Vorcaro mostra uma ameaça explícita ao jornalista Lauro Jardim. Fanfarronice ou não, está registrada.
  2. Declarações do Bebiano, de 2019, já falavam dessa tentativa de assédio, em uma denúncia contra a tropa que circundava Bolsonaro. Fica nítido que se referia a esse fato.
  3. Mesmo depois de indicado em um inquérito, em 2019, Vorcaro conseguiu do Banco Central, gestão Roberto Campos Neto, a autorização para adquirir o Banco Máxima (que depois se tornou Master) e ingressar no Sistema Financeiro Nacional. As investigações mostraram o envolvimento direto de dois funcionários do BC. Mas nenhuma instituição consegue o status de entrar no SFN sem a expressa autorização do presidente do banco. Uma investigação isenta certamente comprovará relações pouco republicanas entre os diretores e seu chefe, Campos Neto.

Há outras conclusões a se tirar desses vazamentos.

Ganha verossimilhança a informação de que Alexandre de Moraes telefonou várias vezes para Gabriel Galípolo, presidente do BC, intercedendo pelo Master. Pode explicar parte da demora na liquidação do banco, mas mostra que Galípolo atuou corretamente, indo até o final.

A suposta tentativa de suicídio do tal Sicário – o barra pesada do grupo – tem uma hipótese bastante razoável, levantada pelo jornalista Dante Matiussi. É possível que tenha recebido o R$ 1 milhão mensal de Vorcaro, para comprar adesões, e tenha embolsado o dinheiro. A conversa sobre o DCM é nítida. Ele fala em pagamentos, mas o jornal continuava claramente crítico a Vorcaro.

É incrível que o homem responsável pelo mais amplo processo de corrupção da história moderna do país, tenha sido enganado por um marginal de terceira categoria. Mais incrível ainda é o fato de personalidades públicas, que sempre tiveram vida profissional correta, terem embarcado no canto de sereia de um aventureiro desse nível.

A partir de agora, a Lava Jato 2 está a pleno vapor, desviando o foco dos cúmplices maiores e concentrando em quinquilharias políticas. 

Hoje, o grande escândalo do Metrópoles é que Lulinha fez três transferências de dinheiro para uma Secretária do governo do Ceará. A Secretária é de Direitos Humanos e amiga antiga de Lulinha. E as transferências tiveram o vultoso valor de R$ 2 mil, R$ 800 e R$ 500.

E o país entrará em uma eleição decisiva com um Congresso desses, um Supremo desses, uma Polícia Federal dessas, e uma mídia dessas. Mendonça e a PF agiram em conluio, para liberar diálogos pessoais que nada tinham a ver com os casos investigados. Confirmam um país dominado pelo crime.

Pare o país, que quero descer!

Espionagem e rede de intrigas contra o STF https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/rede-de-intrigas.html