Portos da América Latina
viram epicentro da guerra pelos mares
Rotas marítimas se transformam em alvo de acirrada
disputa entre EUA e China
Jamil Chade/Liberta
O controle dos oceanos foi sempre um aspecto fundamental na
geopolítica e na construção de impérios. No século 21, esses mares voltam a ser
cúmplices e teatro da cobiça pelo poder. Pilar fundamental da defesa
contemporânea, as rotas marítimas são, hoje, alvos de uma acirrada disputa entre os EUA e a
China.
Se,
na Venezuela, o sequestro de Nicolás Maduro por parte do governo de Donald
Trump resultou no fim do abastecimento de petróleo a preços subsidiados para a
economia chinesa, uma decisão adotada há uma semana – sem disparar um só tiro –
minou a influência de Pequim sobre o Canal do Panamá. Em jogo, está o controle
dos mares.
Gesto inédito
No
final de janeiro, a Corte Suprema do Panamá considerou como inconstitucionais
os contratos de uma empresa chinesa que operava no canal estratégico entre os
oceanos Pacífico e Atlântico. Sob intensa pressão da Casa Branca, que chegou a
ameaçar usar militares para retomar a passagem na América Central, o tribunal
ordenou o cancelamento dos contratos com CK Hutchison, com sede em Hong Kong,
que operava portos nas duas extremidades do Canal.
Para
analistas em Washington, trata-se de uma vitória fundamental para a ofensiva
americana no sentido de frear o domínio chinês na indústria naval global. Assim
que a assumiu a Casa Branca, Trump se apressou a tomar medidas para tentar
conter a influência de Pequim nos mares do planeta, inclusive, taxando navios.
Uma trégua entre Xi Jinping e Donald Trump permitiu que o tema fosse congelado
por 12 meses. Mas ninguém ousa prever como tal embate será resolvido.
Antes
mesmo da eleição de 2024, uma equipe do republicano confessou a diplomata
brasileiros que não iria tolerar a presença chinesa no controle de portos
estratégicos da América Latina.
Num
recente artigo, Elaine Dezenski, diretora da entidade conservadora Foundation for Defense of Democracies,
apontou que o governo chinês, atualmente, exerce “um controle absoluto sobre a
indústria marítima”. “A China controla mais de 100 portos ultramarinos em todos
os continentes, exceto na Antártida. Ela fabrica mais de 95% dos contêineres
marítimos e 70% dos guindastes portuários”, disse.
“Isso
inclui 80% dos guindastes usados nos Estados Unidos – que legisladores
destacaram como possíveis ferramentas de vigilância chinesa. Além disso, a
China possui 69 vezes mais navios mercantes do que os EUA e tem 232 vezes a
capacidade de construção naval”, alertou.
No
Hemisfério Ocidental, a China agora está presente em 35 portos. Os dois portos
do Canal do Panamá em disputa eram, portanto, os mais importantes em termos
estratégicos, já que aproximadamente 40% de todo o tráfego de contêineres dos
EUA passa por essa hidrovia.
“Se
o domínio marítimo da China se expandir, os EUA e seus aliados correm o risco
da mesma dependência que enfrentam atualmente em relação a minerais críticos e
terras raras. Eles correm o risco de ficar à mercê de Pequim, implorando por
acesso a portos de propriedade chinesa, enquanto não possuem navios ou
contêineres construídos internamente”, alertou.
A
história da disputa pelo Panamá, porém, revela uma intrincada rede de
interesses políticos e comerciais.
Assim
que assumiu, em janeiro de 2025, Trump anunciou que usaria sua força militar,
se fosse necessário, para “retomar” o Canal do Panamá. O governo do país
centro-americano, na época, afirmou que a soberania do Canal não estava em
discussão, que ele era operado pelo Panamá e assim permaneceria.
Mas,
já nos primeiros dias de seu governo, num gesto inédito, o secretário de Estado
norte-americano, Marco Rubio, escolheu justamente a América Central como seu
primeiro destino internacional para uma missão. O chefe da diplomacia do
republicano deixou o Panamá com o compromisso do governo local de que romperia
acordos com a China.
Leis antitrustes
Em
março de 2025, a empresa CK Hutchison, que controlava dois portos no Canal do
Panamá, anunciou a venda de seus ativos nos
portos fora da China para um consórcio formado pela gestora de ativos americana
BlackRock e pela gigante europeia do transporte marítimo MSC. O contrato
superaria a marca de US$ 22 bilhões e foi “abençoado” por Trump.
Mas
a operação sofreu um golpe quando a China tentou bloquear o negócio, recorrendo
às leis antitrustes. Para que o acordo não fosse bloqueado, ela exigia que a
empresa estatal chinesa COSCO Shipping recebesse uma participação majoritária.
Como
tanto BlackRock, a MSC e a CK Hutchison têm interesses comerciais
significativos na China, a sinalização foi a de que o acerto poderia ocorrer.
Mas,
neste momento, o protesto veio da Casa Branca. Washington alertou que não
toleraria que a CK Hutchison fosse substituída por uma empresa ligada ao
Partido Comunista Chinês no controle do Canal do Panamá.
O
impacto do acordo iria além. CK Hutchison controla portos considerados como
vitais para os interesses americanos. Com o pacto, sua administração ficaria
também nas mãos da China. Isso incluiria o Canal de Suez, o Estreito de Malaca,
o Estreito de Ormuz e o Estreito de Bab-el-Mandeb, no Mar Vermelho, além de
ativos na Europa, México, Coreia do Sul e Austrália.
O
caminho escolhido por Trump foi o de pressionar o governo do Panamá a usar suas
cortes para denunciar o acordo entre a CK e os chineses. Sem alternativas, o governo
local foi aos tribunais e, no final do mês passado, conseguiu uma vitória.
No
fundo, a decisão declara como ilegal o controle chinês dos portos do Canal e se
transforma numa peça fundamental da ofensiva de Trump para eliminar a
influência chinesa no Hemisfério Ocidental. O objetivo do republicano é o de
reafirmar o domínio incontestável dos EUA, do Estreito de Magalhães à
Groenlândia.
Frear
a China pelo mundo, porém, será uma tarefa bastante mais desafiadora. Mesmo com
os ataques e tarifas de Trump, Pequim garantiu o maior número de novas
encomendas de construção naval em todo o mundo em 2025, apesar de uma ligeira
queda na participação de mercado.
No
ano passado, os estaleiros chineses garantiram 107,8 milhões de toneladas de
porte bruto (TPB) em novas encomendas, representando 69% do mercado global,
contra 74,1% em 2024, segundo dados divulgados no domingo pela Associação
Chinesa da Indústria Naval Nacional.
De
fato, em 2025, os principais estaleiros chineses fortaleceram ainda mais sua
competitividade global, garantindo o primeiro lugar em novas encomendas para 16
dos 18 principais tipos de embarcações.
A
China, portanto, atingiu seu 16º ano consecutivo na liderança no setor global,
superando a Coreia do Sul e o Japão.
Leia também: A chegada de Trump 2.0 e a era da
turbulência global https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/fator-de-desequilibrio-global.html