06 fevereiro 2026

Minha opinião

Em tempo real. Será?
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65      

"Em tempo real" tornou-se uma das expressões mais usadas na atualidade. Sinal de eficiência.

Será?

Tenho cá minhas dúvidas, por experiência própria.

Explico.

Quando leio algo escrito sobre papel, sinto-me compelido a dedicar alguns segundos mais a compreender melhor a informação.

Mas quando se trata de uma "postagem" em alguma plataforma digital, quase inconscientemente me vejo desafiado a apreender o conteúdo em fração de segundos.

Como que para provar que sigo lúcido, raciocinando com a agilidade necessária.

Por isso desconfio que se perde muito em conteúdo do que se lê em mensagens transmitidas numa fusão de palavras escritas ou em áudio e imagens atraentes, seja em vídeos curtos ou cards.

Os terráqueos da terceira década do século 21 se informam, e formam a sua opinião, através de mecanismo que superestima a variável tempo em prejuízo da qualidade do raciocínio. 

Em consequência, muito se sabe (ou se pensa que sabe) e pouco se entende (ou se entende de modo atravessado).

Prato feito para a classe dominante, numa sociedade cada vez mais marcada pela discrepância entre pouquíssimos que detêm quase toda a produção, a riqueza e a renda e as grandes maiorias crescentemente empobrecidas.

Karl Marx e Friedrich Engels demonstraram em "A ideologia alemã" que todas as formas de comunicação são utilizadas em favor de um pretenso consenso no conjunto da sociedade, cujo conteúdo essencial é a acomodação ao status quo. 

Na sociedade contemporânea, a internet é a menina dos nossos olhos. 

Mas é bom saber que ela tem donos e embora pareça nos facilitar a vida — e em certos aspectos facilita mesmo —, serve fundamentalmente para nos conduzir a um modo de vida que reproduz o lucro dos que detêm o capital e à acomodação ao mundo como ele é, e não como deveria ser para o bem de todos.

Escrevi essas mal traçadas linhas em pouquíssimos minutos, literalmente “ditando” o conteúdo ao smartphone, que o reproduziu no bloco de notas. 

Isto após resolver umas tantas coisas à distância, enquanto repouso numa rede no alpendre aqui da casa onde permaneço com a família por alguns dias de lazer de fim de ano. 

Tudo fácil assim com ajuda da tecnologia digital, porém arriscoso. 

Refletir sempre sobre o que acontece e o que fazemos segue indispensável, ainda que "desperdicemos" alguns minutos mais.

Para que tenhamos uma prática consciente e transformadora.

Leia também: Aconteceu e eu nem percebi https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_14.html

Postei nas redes

Corrigindo a oscilação do PSB quanto às eleições presidenciais nas últimas duas décadas, João Campos tem reafirmado com muita clareza o apoio a reeleição do presidente Lula. 

Palavra de ordem do PCdoB é frente ampla https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/pcdob-defende-frente-ampla.html 

Arte é vida

 

Candido Portinari 

Editorial do Vermelho

Caso Master aponta a necessidade de reformas estruturais
Sistema financeiro está desgovernado, vive dos ganhos astronômicos dos juros altos e não financia o desenvolvimento nacional
Editorial do 'Vermelho'
      

O caso Master pode ser a maior fraude bancária da história do país, conforme definição do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O “buraco” soma, apenas em seu rombo principal, mais de R$ 12 bilhões. A gravidade da situação também pode ser medida pela fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura dos trabalhos do Judiciário de 2026, no Supremo Tribunal Federal (STF), na segunda-feira (2), defendendo punição a “magnatas do crime, que vivem no andar de cima”. As investigações em torno do caso Master, disse o presidente, são um momento histórico para o país.

Uma teia de lideranças políticas e personalidades de espectro eclético estão envolvidas, todavia, nitidamente, o escândalo tem a cara e as digitais da direita brasileira. Daniel Vorcaro, o banqueiro do Master, como é comum no meio em que atua, estendeu seus tentáculos, mas encontrou na direita um porto seguro para suas ambições de amealhar bilhões de modo fácil.

Vejamos.

Já no começo de 2024, o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ligado ao governo Bolsonaro, ignorou operações com sinais de negociatas no Master. A crise prosseguiu, diante de seus olhos, e levou Vorcaro a buscar aliados no Congresso Nacional. Foi o caso do senador Ciro Nogueira (PP-PI), ativo operador do chamado “Centrão”, que apresentou uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), denominada “emenda Master”, quadruplicando o valor da cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, barrada pela reação dos congressistas que agiram por pressão dos grandes bancos comerciais.

O Master buscou também guarida no Banco de Brasília (BRB), então presidido por Paulo Henrique Costa, preposto do governador Ibaneis Rocha, afastado do cargo por suspeitas de envolvimento com os atos golpistas do bolsonarismo de 8 de janeiro de 2023. O BRB chegou a comprar carteiras de crédito inexistentes do Master, uma operação de R$ 12 bilhões. Figurões da direita atuaram para tentar concretizar a fraude. O Master seria comprado pelo BRB, manobra interrompida pelo Banco Central já na presidência de Gabriel Galípolo.

No curso da negociata, o deputado Cláudio Cajado, vice-presidente do Progressistas (PP), apresentou um requerimento de urgência para acelerar a tramitação de um Projeto de Lei, de 2021, que autorizava o Congresso a destituir presidentes e diretores do Banco Central.

O governo do Rio de Janeiro, que tem à frente Cláudio Castro (PL), também se envolveu com o caso pelos investimentos da Rioprevidência, instituição que administra o pagamento de pensões a aposentados e pensionistas do governo do Estado do Rio de Janeiro, avaliados em R$ 970 milhões, assim como o Fundo de Previdência do Governo do Amapá e mesmo de municípios de vários estados.

Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, foi o maior doador individual da campanha presidencial de Jair Bolsonaro e para governador de São Paulo de Tarcísio de Freitas, em 2022, com o generoso montante de R$ 3 milhões e R$ 2 milhões, respectivamente.

A grande mídia tenta envolver outros segmentos, mas, à medida que as investigações avançam, as marcas da direita ficam mais visíveis.

O STF foi arrastado a este episódio por uma decisão de duvidosa pertinência jurídica que retirou o caso da primeira instância. Em seguida foram tomadas decisões polêmicas e algumas até questionadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR). A direita e a grande mídia se valeram dessa situação e acionaram o abjeto modo Lava Jato e empreendem um movimento para desmoralizar a instância máxima do Poder Judiciário, uma manobra que objetiva conter o alcance do papel daquela Corte na defesa da democracia e no combate decidido às ações golpistas do bolsonarismo, um processo ainda em andamento, sobretudo quanto à punição dos financiadores da tentativa de golpe de Estado. Trata-se, ainda, de uma tentativa de debilitar o STF no exercício das atribuições que lhe cabem, em conjunto com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na garant ia da lisura das eleições de 2026.

O caso Master, para além das investigações, julgamentos e punições que devem se realizar a fundo, respeitado o devido processo legal, evidencia a necessidade, em termos de urgência, como tem salientado o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), do debate e realização de reformas estruturais democráticas. Tais reformas visam a superar obstáculos que travam o desenvolvimento nacional e o progresso social.

Nestes termos, o elenco de reformas dá concretude à jornada pelo desenvolvimento soberano. Sem elas, o Brasil seguirá preso às amarras neoliberais e neocoloniais.

Entre as tarefas, se destaca, exatamente, a reforma do sistema financeiro que integra a grande obra indispensável de reconstrução do Estado Nacional. O Estado nacional foi enfraquecido, moldado nos últimos tempos para servir à oligarquia financeira. A chamada autonomia do Banco Central, as algemas do dito tripé macroeconômico de cunho neoliberal, são manifestações disso. Hoje o país, por pura imposição do mercado financeiro, tem seu crescimento alvejado pela segunda maior taxa real de juros do mundo.

O sistema financeiro atua no Brasil como um setor desgovernado desde que a abertura e a desregulamentação financeira foram adotadas como regra suprema. O caso Master é apenas a ponta desse iceberg.

Isso proliferou e há uma miríade de instituições financeiras que atuam, praticamente, à margem do ordenamento do BC, isto é, sem o devido controle, o que resultou, inclusive, no uso de parte delas pelo crime organizado, como provou a operação Carbono Oculto.

A farra financeira se estende para cobranças abusivas de tarifas e de juros, a exemplo do extorsivo spread – a diferença entre os juros que os bancos pagam na hora de captar dinheiro (pegando emprestado de outros bancos ou de poupadores) e os juros que cobram sobre os empréstimos que fazem aos tomadores (pessoas físicas e jurídicas) –, um dos maiores do mundo.

Essa ciranda financeira, estimulada pelo próprio Banco Central, precisa de um ponto final. É inaceitável o descontrole do sistema financeiro, agravado pela “independência” do Banco Central, responsável por evitar casos como esse do Master.

O país precisa de uma reforma que estabeleça um sistema robusto que financie o desenvolvimento nacional, ofereça crédito ao setor produtivo, o que exige, no âmbito de um conjunto de medidas, uma questão principal: a volta do Banco Central à alçada do Estado brasileiro. Hoje parte considerável da política econômica do Brasil é decidida fora do governo, fora do Estado, isto é, por um BC regido pelos interesses da oligarquia financeira.

Como Paulo Guedes e o BTG construíram uma bolha bilionária em precatórios https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/a-bolha-dos-precatorios.html 

Arte é vida

Reynaldo Fonseca 

Planejamento estratégico

Do Plano de Metas às Missões do Século XXI
O Brasil volta a discutir planejamento estratégico, agora sob a forma de missões nacionais em inovação, educação e desenvolvimento
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN      

“Temos uma enorme capacidade criadora que é sistematicamente frustrada”
Darcy Ribeiro, A Universidade Necessária [1]

Quando se observa a rapidez e a coerência com que o Brasil executou o Plano de Metas (1956–1961), um elemento institucional costuma ficar em segundo plano no debate atual: os Grupos de Trabalho (GTs) criados no governo de Juscelino Kubitschek. Eles não eram comissões decorativas, mas núcleos técnico-políticos com capacidade real de coordenação, vinculados diretamente à Presidência da República, capazes de integrar ministérios, empresas estatais, financiamento público e execução. Esse arranjo institucional foi decisivo para transformar um programa desenvolvimentista em energia, indústria, infraestrutura e capacidade produtiva concreta  [2].

Essa leitura se conecta diretamente com a análise recente de Luís Nassif, que, ao revisitar o Plano de Metas de JK em contraste com o New Deal de Roosevelt, enfatiza que seu êxito não decorreu da criação de novas instituições, mas da capacidade política de coordenar estruturas já existentes, articulando bancos públicos, ministérios, empresas e técnicos sob um centro decisório claro. Como observa Nassif, tratou-se menos de um elenco de obras e mais de um método de governo, baseado em metas finitas, crédito direcionado e resolução política de conflitos no núcleo do Executivo – uma lição particularmente atual para o debate contemporâneo sobre missões nacionais e coordenação estatal no século XXI. 

Décadas depois, o Brasil volta a discutir planejamento estratégico, agora sob a forma de missões nacionais em inovação, educação e desenvolvimento [3]. A pergunta central, no entanto, não é se devemos planejar, mas como atualizar esse modelo para um Estado democrático, digital e baseado em conhecimento, sem recair nem no tecnocratismo do passado nem no improviso do presente.

A primeira mudança é conceitual. Nos anos 1950, os GTs estavam organizados em torno de setores e gargalos materiais bem definidos. As missões do século XXI lidam com problemas complexos e sistêmicos: transição energética justa, soberania em saúde, educação científica, soberania digital, bioeconomia e reindustrialização, entre outros. Isso implica abandonar a lógica setorial clássica e adotar uma lógica orientada a problemas, como tem sido defendido no debate internacional sobre políticas orientadas por missões [4]. Um GT de Missão não substitui ministérios nem agências; ele existe para alinhar políticas públicas, ciência, educação, financiamento e produção em torno de objetivos claros e socialmente legitimados.

A lição de JK, contudo, permanece intacta: sem coordenação forte no centro do governo, a fragmentação administrativa tende a prevalecer. Por isso, missões só funcionam se estiverem vinculadas diretamente à Presidência ou à Casa Civil, com direção política inequívoca e uma coordenação técnica executiva profissionalizada. A execução, por sua vez, deve ser distribuída e articulada por meio de instituições já existentes – como o BNDES, a FINEP, a EMBRAPII, a CAPES e o CNPq – e de instrumentos estruturantes de financiamento, como o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), todos operando sob uma estratégia comum. O papel do GT não é operar editais isolados, mas prover coerência temporal, metas verificáveis e critérios públicos de avaliação à ação do Estado.

Aqui surge uma diferença decisiva em relação aos anos 1950: a educação deixa de ser um pano de fundo e passa a constituir infraestrutura estratégica da própria missão. Não há transição energética, soberania digital ou complexo econômico-industrial da saúde sem formação técnica, científica e docente acumulada ao longo do tempo. Esse argumento é desenvolvido de forma sistemática em duas Notas Técnicas recentes: “Brasil: do arquipélago ao continente – além do modelo linear de inovação” [3] e “Educação como Missão Nacional (2027–2050)” [5]. Ambas convergem na mesma constatação: políticas de desenvolvimento fracassam quando ignoram a dimensão cognitiva, institucional e intergeracional da formação de capacidades.

O que torna esse modelo viável hoje – e não o tornava no tempo de JK – é a disponibilidade de novas ferramentas tecnológicas de coordenação e governança. Plataformas interoperáveis de dados públicos, identidade digital segura, compras públicas digitais e rastreáveis, painéis de acompanhamento em tempo quase real e mecanismos de participação qualificada permitem algo inédito: coordenação central forte sem autoritarismo, combinando eficiência administrativa, transparência e controle democrático [6]. A tecnologia, aqui, não substitui a política; ela a torna exequível.

O exemplo mais didático é o da Estônia, frequentemente associado ao projeto e-Estonia. Ali, a digitalização do Estado não foi tratada simplesmente como modernização administrativa, mas sim como infraestrutura nacional, comparável à energia ou aos transportes. A adoção de identidade digital universal, a interoperabilidade obrigatória entre sistemas públicos e o princípio do once only – pelo qual o Estado não pode solicitar duas vezes a mesma informação ao cidadão – ampliaram a capacidade de ação estatal, reduziram custos, fortaleceram a confiança pública e criaram um ecossistema favorável à inovação privada [7, 8]. A lição é clara: digitalizar o Estado é ampliar sua soberania funcional, não reduzi-la.

Essa perspectiva ajuda a responder a uma questão recorrente no debate sobre missões: qual deve ser o papel das empresas e do setor produtivo? Parceiros meramente executores, chamados apenas na fase final, ou participantes ativos desde o nascedouro? A experiência histórica e comparada sugere que nenhum dos extremos funciona. Quando empresas entram apenas ao final do processo, a inovação tende a ser superficial e o aprendizado produtivo, limitado. Quando passam a definir sozinhas a agenda desde o início, o risco é a subordinação das prioridades públicas a interesses privados de curto prazo, fenômeno amplamente documentado na literatura sobre mal-sucedidas políticas industriais [9].

O modelo mais consistente é o das empresas como participantes ativos desde o início, mas sob regras públicas claras. Elas contribuem com conhecimento tecnológico aplicado, capacidade de engenharia, avaliação de viabilidade produtiva, domínio de processos industriais e potencial de escala, enquanto o problema a ser resolvido – transição energética, soberania em saúde, educação científica, infraestrutura digital – é definido politicamente e legitimado socialmente. Missões verdadeiras envolvem risco e incerteza; por isso, exigem compartilhamento de riscos, contrapartidas verificáveis, compromissos de formação de pessoal, difusão tecnológica e reinvestimento produtivo. Sem isso, não há parceria; há apenas transferência de recursos [10].

É nesse ponto que as ferramentas do século XXI fazem diferença. Compras públicas de inovação, encomendas tecnológicas e acompanhamento digital por marcos tecnológicos permitem que empresas participem desde o início, sem comprometer a autonomia decisória do Estado. No caso estoniano, empresas privadas ajudaram a construir o Estado digital, mas dentro de uma arquitetura pública interoperável, com padrões abertos e com o Estado atuando como guardião dos dados e do interesse coletivo [8].

Nesse enquadramento, a inovação precisa ser recolocada em seu devido lugar. Mais produtivo do que tratá-la como uma missão genérica adicional é compreendê-la como uma capacidade transversal, uma ferramenta habilitadora que atravessa todas as missões nacionais. Nas missões discutidas nas Notas Técnicas – da educação como infraestrutura cognitiva à reorganização da inovação, passando pela saúde, pela transição digital e pela economia de baixo carbono – a inovação aparece como meio operativo, na articulação entre ciência e engenharia, na superação dos gargalos entre pesquisa e escala produtiva, no uso intensivo de dados, plataformas digitais, inteligência artificial e manufatura avançada, e na capacidade de transformar políticas públicas e compras governamentais em motores permanentes de aprendizado tecnológico [3, 5]. Inovar, nesse sentido, não é estimular criatividade de forma abstrata, mas organizar sistemas de produção, uso e difusão tecnológica orientados por problemas nacionais concretos. A inovação deixa de ser um slogan e passa a funcionar como infraestrutura invisível das missões.

A atualização do legado dos GTs de JK como missões modernas, digitalmente estruturadas, não é nostalgia desenvolvimentista nem fetiche tecnológico. É reconhecer que, em um mundo complexo e acelerado, o Estado precisa recuperar capacidade de coordenação, aprendizado e correção de rumos em tempo real. O desafio contemporâneo não é apenas crescer, mas sim decidir coletivamente o destino da tecnologia, do investimento e do conhecimento.

Ontem, Juscelino Kubitschek demonstrou que o Brasil era capaz de planejar, decidir e executar, transformando o projeto em infraestrutura e a intenção em capacidade produtiva. Hoje, o desafio é mais complexo – e mais decisivo: provar que o país pode planejar o futuro, aprender continuamente e inovar com direção, articulando Estado, empresas e sociedade em torno de missões claras, socialmente legitimadas e orientadas ao bem comum. Sem isso, restam apenas iniciativas dispersas e promessas vazias. Com isso, torna-se novamente possível falar em projeto nacional – não como retórica, mas como escolha política.

Bibliografia

1.    Ribeiro, D., A Universidade Necessária. 1975, Rio de Janeiro: Paz e Terra.
2.    Lafer, C., JK e o Programa de Metas (1956–1961): processo de planejamento e sistema político no Brasil. 2002: Fundação Getulio Vargas.
3.    de Melo, C.P., Brasil: do arquipélago ao continente – além do modelo linear de inovação: missões nacionais e soberania tecnológica (2027–2050). 2025, Nota Técnica.
4.    Mazzucato, M., Mission Economy: A Moonshot Guide to Changing Capitalism. 2021: Allen Lane.
5.    de Melo, C.P., Educação como Missão Nacional: equidade, capacidades e futuro comum no Brasil (2027–2050). 2026, Nota Técnica. https://blogdecelsopdemelo.wordpress.com/2025/12/22/22-12-2025-brasil-do-arquipelago-ao-continente/
6.    Organisation for Economic, C.-o. and Development, Government at a Glance 2023. 2023, OECD Publishing: Paris.
7.    Kalvet, T., Innovation: A Factor Explaining E-government Success in Estonia. Electronic Government, an International Journal, 2012. 9(2): p. 142–157.
8.    Vassil, K., Estonian E-government Ecosystem: Foundation, Applications, Outcomes. 2015, World Bank.
9.    Amsden, A.H., The Rise of “The Rest”: Challenges to the West from Late-Industrializing Economies. 2001: Oxford University Press.
10.  Mazzucato, M., The Entrepreneurial State: Debunking Public vs. Private Sector Myths. 2018: Penguin.

Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Leia também: A disputa mar e terra pela geopolítica dos dados https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/uma-nova-dimensao-da-geopolitica.html 

Uma crônica de Abraham Sicsu

Sensível: uma lição na vida
Abraham B. Sicsu    

“Tudo que se recebe pode ser levado”. A frase não me sai da cabeça. Num filme que tem leituras, interpretações. A perda de um filho. Dor insuportável, angústia que acompanha a vida, sofrimento que não se dissolve. Superação, se possível, somente pela arte.

Segunda feira à tarde. O cinema deve estar vazio. Nada melhor para fazer. Para lá vou. Ledo engano. Época de férias. Jovens e seus companheiros com demonstrações amorosas. Muitos ociosos como eu.  Aposentados nem se fala.

Muita pipoca e confeitos para atrapalhar o olfato e a audição. Sem contar com a luz enervante das lanternas dos celulares para encontrar o assento ou para atender chamadas inoportunas.  Abstraio para poder me concentrar na tela.

Agnes, mulher, principal personagem, atriz fantástica. A bruxa, a feiticeira. Sua interpretação comove. A ligação com a natureza, com as plantas, com os animais. O falcão, símbolo de força e poder, mas também de amizade e companheirismo. A mãe protetora, umbilicalmente ligada aos filhos, à família. Mulher que não se afasta de suas raízes por saber que sua razão de existir lá se encontra.

William Shakespeare, o ator, o escritor, o artista maior. Sua busca pela perfeição, seu desejo de exprimir, na arte, sentimentos que nem todos conseguimos ter.

Um ator primoroso, que consegue passar seu mundo interior nos palcos londrinos, nos afagos familiares. A interpretação faz com que entremos no personagem.

A trama se passa centrada na perda de um filho que cumpre a promessa feita ao pai de cuidar da família, da mãe, das irmãs. Promessa que não pode ser rompida. Promessa que o leva, simbolicamente, em época de peste, a assumir o lugar da irmã. Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, o filme.

Um filme para ser visto. Uma tragédia que leva ao insuportável: a perda de um filho de 11 anos. Perda que na visualização do artista leva à criação de uma peça memorável da literatura universal, Hamlet, peça retratando como o luto transforma o personagem na busca de compreensão do infortúnio, na necessidade de destruição de todos os “fantasmas”.

O silêncio, a dor profunda, a revolta, somente podem ser vividos com o surgimento de algo maior internalizado, o amor e admiração pelo companheiro que fica e não nos abandona. Companheiro que em sua obra apresenta tudo o que seu coração sentiu, seu infortúnio com a perda.

Companheiro, o único a quem podia culpar pela ausência, mesmo que irracionalmente, o único que pode dar uma saída, aquele que com a arte fez com que os pensamentos se transformassem e ganhassem perspectivas enriquecedoras, esperança e crença de que não foi necessariamente em vão, deve ter havido uma razão não decifrável claramente, razão para continuar a caminhada.

Perda, morte, sentimento feminino de maternidade, reações humanas, tudo isso com uma doçura e busca que numa obra de cinema encontra sua  morada, com uma leitura nada convencional.

Uma tarde que me foi gratificante. Recomendo verem.

Leia também: "Manhã", poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_29.html