24 junho 2026

Qual Copa do Mundo?

A última barreira da lógica no futebol
Será que um dia teremos uma grande surpresa nas Copas? Propagandas de apostas invadem as transmissões dos jogos
Tostão/Folha de S. Paulo   

Na Copa 2026, como se esperava, acontece uma maciça propaganda comercial, especialmente de casas de apostas, até na parada para hidratação durante as partidas.

Certamente crescerão o número de viciados e os problemas mentais e financeiros. Muitos pobres gastam na jogatina o dinheiro reservado para necessidades essenciais. É fácil apostar, basta um clique. A mensagem no final dos anúncios comerciais que diz "Jogue com responsabilidade" é um cínico conselho, como já escreveu Sérgio Rodrigues, colunista desta Folha.

As enquetes, manchetes de recordes, estatísticas e comparações, muitas inúteis, com tantas variáveis, aumentaram bastante no Mundial. É a máquina de informações. As estatísticas costumam ser importantes, mas é preciso olhar, com profundidade, para o campo e para os números, como faz o colunista PVC.

Contra o Haiti, Carlo Ancelotti colocou Rayan porque ele tem características parecidas às de Raphinha, que entrava com velocidade em diagonal para receber a bola nas costas dos defensores adiantados.

Nesta quarta (24), contra a Escócia, que deve ter uma marcação recuada, perto da área, Luiz Henrique pode ser a melhor opção, por atuar aberto. Outra alternativa é escalar um centroavante.

Ancelotti deve manter o trio no meio-campo, com Casemiro centralizado, Bruno Guimarães de um lado e Paquetá do outro. Pela esquerda, Paquetá, com seus precisos lançamentos, facilita para Vinicius Junior. Além disso, Matheus Cunha, pelo meio e mais próximo à área adversária, não precisa voltar para marcar pela esquerda. O meio-campo com três fica mais preenchido, marca e constrói com mais eficiência.

As seleções, como se esperava, na média, estão mais intensas, compactas, pressionando mais para recuperar a bola no campo do adversário e fazendo mais gols. A Argentina foge do lugar comum, pois prefere marcar mais no meio campo em vez de pressionar, além de não ter pontas abertos, rápidos e dribladores.

Messi fez todos os cinco gols marcados pela seleção. Além da enorme criatividade, precisão técnica e da grande capacidade de definir rapidamente as jogadas, de tornar simples o que é complexo, possui a sabedoria de esperar o momento certo para brilhar. Como ele sabe? Sabendo.

Existe um saber inconsciente que antecede o raciocínio. Os neurologistas chamam de inteligência cinestésica.

Na Copa de 1994, nos EUA, há 32 anos, os americanos e os japoneses diziam que iam investir bastante no planejamento, na ciência esportiva, na formação de jogadores e que em 20 a 30 anos se tornariam uma potência mundial no futebol.

As duas e várias outras seleções evoluíram bastante, possuem ótimas equipes e excelentes jogadores, mas não chegaram a ponto de ser candidatas ao título da Copa. Faltam os craques. Por quê?

Os motivos devem ser culturais, sociais e genéticos. Parafraseando a musica de Noel Rosa, samba e futebol não se aprendem no colégio. Craques não são apenas os atacantes que fazem muitos gols.

Nos outros campeonatos com jogos mata-mata espalhados pelo mundo, como a Copa do Brasil, de vez em quando acontece uma surpresa, a conquista do título por uma equipe que não estava entre as favoritas. Por que nunca aconteceu em uma Copa do Mundo? Penso que a razão principal seja a seriedade com que as grandes seleções se preparam para a maior competição do futebol mundial.

Será que um dia teremos uma grande surpresa? É a última barreira da lógica a ser vencida pela imprevisibilidade do futebol.

[Ilustração: Nelson Leirner]

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Futebol: estratégia e arte https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/futebol-estrategia-e-arte.html 

Palavra do PCdoB

Avançar na construção da reeleição de Lula e na vitória do projeto eleitoral do PCdoB
Resolução da Comissão Política Nacional do PCdoB  


A acirrada disputa presidencial brasileira transcorre sob os impactos de um cenário mundial conturbado e marcado por transformações. O imperialismo estadunidense, em razão de sua progressiva perda de hegemonia, torna-se cada vez mais agressivo e beligerante. Arrasta o mundo para guerras e desata uma corrida armamentista. As potências da Europa e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) prorrogam a guerra entre Ucrânia e Rússia, sabotam as propostas de paz e injetam na Ucrânia bilhões de dólares em armas. Seguem em vigência tarifas unilaterais dos Estados Unidos, que afetam mais de 60 países, incluindo o Brasil. Como resultante, prognósticos de organismos internacionais apontam a desaceleração do crescimento global para a taxa mais baixa desde o início da pandemia de Covid-19, 2,5%, em meio a preços de energia mais altos, inflação mais acentuada e aumento dos juros. 

A ofensiva do imperialismo estadunidense sobre América Latina e Caribe prossegue, com ingerência aberta na Venezuela e interferência nas eleições da Colômbia e do Brasil, com assinatura de acordos militares com 17 países da região e exacerbação da pressão militar e do bloqueio econômico a Cuba. Os Estados Unidos atuam para criar as condições para transformar todo o hemisfério em zona estratégica de segurança nacional, sujeita a intervenção.

Em contraposição, a resistência dos povos se robustece e emergem articulações e parcerias, em especial do Sul Global, pela autodeterminação dos povos e pelo direito dos países ao desenvolvimento soberano, e crescem, em vários países, as mobilizações populares em defesa da paz. 

A vitória do governo e do povo do Irã sobre o eixo Estados Unidos e Estado de Israel, no curso de uma assimétrica e pesada guerra que buscava impor um governo títere e se apossar do petróleo iraniano, é mais uma prova de que a causa da soberania nacional pode, sim, vencer. Apesar dos crimes de guerra cometidos, os Estados Unidos tiveram que se curvar e assinar um cessar-fogo que patenteia a derrota. Igualmente, exemplifica a força da causa nacional a resiliência e a resistência de Cuba, que necessita de crescente e ativa solidariedade internacional. Do mesmo modo, a Palestina e o Líbano, que continuam sob execrável ocupação de tropas e hediondos ataques israelenses.

Candidatura de Lula se fortalece, a de Flávio Bolsonaro perde força

No Brasil, se afere que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avança na preferência do eleitorado, ante o recuo de Flavio Bolsonaro, rompendo, neste momento, um relativo equilíbrio que persistia desde dezembro de 2025.

As revelações dos vínculos do candidato Flávio Bolsonaro com a corrupção do Banco Master e a cena de subserviência a Donald Trump na Casa Branca, que resultou na classificação das facções criminosas como “organizações terroristas” e um novo tarifaço, impuseram-lhe perdas de apoio eleitoral, inclusive do eleitorado da direita. As empresas nacionais, o povo, os empregos, o Pix e o setor financeiro estão sob ameaças e prejuízos. O país fica exposto ao risco de intervenções, inclusive ações militares. 

Em termos de traição ao Brasil, o clã Bolsonaro se supera a cada dia. Eduardo Bolsonaro que mora nos Estados Unidos foi condenado, em 16 de junho, por unanimidade pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). Tramou a suspensão de vistos pelos Estados Unidos a ministros do STF e outras autoridades, igualmente a aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, e o tarifaço imposto pelos Estados Unidos contra os produtos brasileiros. Apunhalou o Brasil, se aliando a uma potência estrangeira, para coagir o Poder Judiciário, na tentativa de livrar os golpistas da cadeia, a começar de seu pai.

 Progressivamente, grande parte do eleitorado passa ver Flávio Bolsonaro e sua família tal como são: traidores da pátria atolados em escândalos de corrupção. Realidade que favorece a intensificação da luta de ideias, que desmascare a verdadeira face do candidato bolsonarista para mais camadas do eleitorado. 

Todavia, apesar de todo desgaste a base bolsonarista mantém apoio a Flávio Bolsonaro. E as demais candidaturas da direita apresentam, até aqui, um desempenho irrisório.

Já o presidente Lula cresce por seu mérito de governar com a defesa da soberania nacional de forma assertiva, vincando a convicção em largas camadas do povo de um presidente que defende o Brasil e proporciona mais direitos, repelindo os ataques de Trump e enfrentando a subserviência do clã Bolsonaro. 

Lula beneficia-se também da percepção popular sobre medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda de Pessoa Física, que beneficia mais de 15 milhões de contribuintes; o Desenrola 2.0, que já beneficiou mais de 6 milhões de pessoas; o programa Acelera INSS, um conjunto de medidas para reduzir ou zerar o número de requerimentos de benefícios que estão atrasados.

O desenrolar da disputa vai dando mais nitidez aos perfis dos candidatos, com uma desproporção gigantesca entre a autoridade política e moral do presidente Lula, em seu país e no exterior, face a face com um adversário cujo principal de seu currículo é uma ficha corrida de vínculos com as milícias, casos de corrupção e parceria com o pai no golpismo contra a democracia. Além da mediocridade, é claro.

De conjunto, o campo governista deve aproveitar este momento favorável. Talvez o melhor da pré-campanha. Mas é preciso repelir qualquer euforia e manter a consciência de que a disputa segue dura e acirrada. Não se pode subestimar a pressão imperialista e a produção de falcatruas para favorecer a candidatura da extrema direita. É preciso estar alerta e exigir que a Justiça Eleitoral e as instituições democráticas brasileiras combatam a ingerência estrangeira e os crimes eleitorais nas eleições de 2026.

A perspectiva de poder avivada, nesta fase, cria maiores possibilidades para ampliar os apoios, alargar ao máximo a aliança e reforçar a composição dos palanques estaduais. 

É necessário prosseguir com novas conquistas para o povo. No presente, se destaca a grande e decisiva batalha para aprovar, também no Senado Federal, a significativa vitória na Câmara dos Deputados com a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o fim da escala 6×1 e a redução da jornada máxima de trabalho. Razão pela qual a extrema direita e a direita estão bloqueando a sua tramitação.

É imperativo que se eleve o empenho do governo, mas a vitória, de sentido histórico, somente será selada com empenho total da mobilização, pressão e persuasão sobre os/as senadores/as pelo fórum das centrais sindicais, pelo conjunto dos movimentos, dos partidos políticos, dos parlamentares democráticos e progressistas e dos movimentos religiosos.

Na esfera do governo, é necessário sustentar o duro combate às organizações criminosas, persistir na garantia da paz e da segurança, em especial às pessoas que vivem sob a opressão e a exploração das facções criminosas em territórios por elas dominados. Daí o empenho do presidente Lula, a pressão que ele faz para que o Senado Federal aprove a PEC da Segurança Pública. Outra causa de máxima importância é o reforço das ações e programas contra o feminicídio, uma terrível tragédia nacional.

E cuidar para que o programa da reeleição do presidente tenha um conteúdo avançado, apontando um futuro de forte soberania e mais democracia, desenvolvimento acelerado sob o impulso da industrialização em novas bases tecnológicas e de prosperidade para o povo. 

O PCdoB está participando da elaboração das “Diretrizes para o desenvolvimento do plano de governo 2027-2030”. Integra um núcleo constituído pelas fundações que foram convidadas a interagir com o trabalho. Indicou também um elenco de quadros para os núcleos temáticos. Como sempre fez desde a redemocratização, o PCdoB em breve apresentará suas propostas ao programa de reeleição do presidente Lula. 

Avança a pré-campanha do PCdoB

No cômputo geral, a pré-campanha do PCdoB se desenvolve bem, mesmo considerando gradações e ritmos diferenciados. A escassez de recursos, obviamente, pressiona, mas, no geral, os comitês estaduais e as candidaturas estão enfrentando o desafio com altivez e iniciativas. A arrecadação de finanças, nos termos da lei, é tarefa política das candidaturas e dos dirigentes, posto que o Fundo Eleitoral é insuficiente. 

É um projeto concentrado a partir do objetivo central de ampliar nossa bancada na Câmara dos Deputados, harmonicamente relacionado com a meta de também de assegurar boa presença nas assembleias legislativas. O projeto também se reforça ao batalhar pelo êxito de aliados que são candidatos/as ao Senado e aos governos estaduais.

Um dado importante do momento é a Copa do Mundo de futebol, que impacta a dinâmica da pré-campanha. Com criatividade, as campanhas, em todos os âmbitos, devem se inserir nessa dinâmica para estar presente no cotidiano das pessoas nesse momento de celebração de um símbolo nacional. 

A vinculação da campanha com as lutas concretas do conjunto dos movimentos sociais. Campanhas que interagem e apoiam o calendário de eventos das entidades e movimentos, a exemplo dos congressos nacionais da UBM, UJS, CONAM e a Plenária Nacional da UNEGRO que se realizarão em junho e julho

O Partido – os comitês estaduais, municipais e frentes de lutas – está coeso em torno de seu projeto, num esforço para que seja a força motriz e dirigente de uma campanha ampla, massiva, a um só tempo alegre e combativa, nas ruas e nas redes, que engaje lideranças do povo, aliados e amigos. Uma campanha que não se dilui, que vinca sua identidade e a face própria de suas candidaturas, com suas ideias e programas. 

Cabe ao coletivo dirigente e ao coletivo de militantes e de filiados agarrarem com toda energia, trabalho e total prioridade o grande desafio de construir e assegurar a vitória do projeto eleitoral dos comunistas, decisivo para fortalecimento do Partido.  

Os comunistas na linha de frente de um confronto histórico    

Mergulhado de corpo e alma na reeleição do presidente Lula, engajado na mobilização do povo e dos trabalhadores para impor uma nova derrota à extrema-direita, aos neofacistas, aos traidores da pátria, inimigos da democracia, o PCdoB e as suas candidaturas fazem ecoar, pela voz de milhares, a perspectiva de um futuro de desenvolvimento soberano para o país, com mais democracia, vida de prosperidade, de paz e segurança para o povo. 

Sem cantar vitória antes da hora, alertando quanto à dureza do confronto, os comunistas convidam a população e os trabalhadores a se engajarem nessa memorável jornada pela vitória de Lula, pela eleição de uma forte bancada do PCdoB na Câmara dos Deputados e nas assembleias legislativas. Venha fazer história, construir o futuro participando da campanha de Lula e dos/as candidatos/as do PCdoB.

Brasília, 20 de junho de 2026

Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil-PCdoB

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Leia também: Para além do “economicismo governamental” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html

Palavra de Guimarães Rosa

“Viver é um rasgar-se e remendar-se.” (Guimarães Rosa) 

Idosos em suas trincheiras https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/renovacao-conscienciosa.html 

Nós e Cabo Verde

Futebol, memória e ancestralidade
O engajamento maciço dos brasileiros com a seleção de Cabo Verde vai além do esporte e revela a força da ancestralidade diaspórica frente à crescente artificialidade mercadológica do futebol moderno
OLIVIA DA ROCHA ROBBA*/A Terra é Redonda   

1.

Na primeira semana da Copa do Mundo da FIFA, nos deparamos com a seleção de Cabo Verde e, em especial, seu goleiro Josimar José Évora Dias, mais conhecido como Vozinha, que se tornou um dos fenômenos mais marcantes do torneio. Após a histórica atuação no empate sem gols contra a Espanha no dia 15 deste mês, o goleiro cabo-verdiano de 40 anos, fez sete defesas e conquistou rapidamente a simpatia do público brasileiro, que mobilizou uma verdadeira campanha de apoio nas redes sociais. Em poucos dias, seu perfil no Instagram saltou de cerca de 50 mil seguidores para mais de 10 milhões, impulsionado principalmente pelo engajamento de torcedores brasileiros.

O fenômeno Vozinha revela aspectos importantes das formas de identificação construídas entre brasileiros, até mesmo aqueles que não gostam de futebol, e seleções africanas em competições internacionais. A acolhida recebida por Cabo Verde não pode ser explicada apenas pela admiração por uma equipe considerada azarão diante de uma potência do futebol mundial. Em um país profundamente marcado pela diáspora africana, a simpatia por atletas e seleções do continente africano frequentemente mobiliza sentimentos de pertencimento, memória e reconhecimento histórico que podem ser compreendidos a partir da nossa ancestralidade.

Talvez parte da comoção provocada por Vozinha decorra justamente daquilo que muitos brasileiros sentem faltar na atual seleção nacional: a capacidade de despertar encantamento. Enquanto a equipe brasileira frequentemente aparece associada a estratégias de marketing, discursos padronizados e uma relação distante com a torcida, a seleção cabo-verdiana apresentou ao público uma narrativa de autenticidade, superação e emoção. O goleiro de 40 anos, que desafia os limites da idade imposta pelo mundo dos esportes, e enfrenta uma potência mundial com coragem no seu jogo de estreia em copas do mundo, tornou-se, para muitos, um símbolo de um futebol vivido com paixão e humanidade, valores que ocupam lugar central na memória afetiva do torcedor brasileiro.

Esse tipo de identificação não é recente. Em diferentes edições da Copa do Mundo, seleções africanas despertaram forte simpatia entre os torcedores brasileiros. A campanha de Camarões em 1990, na Itália, liderada por Roger Milla, conquistou admiradores ao desafiar as hierarquias tradicionais do futebol mundial e se tornar a primeira equipe africana a alcançar as quartas de final. De modo semelhante, a seleção do Senegal, em 2002, tornou-se uma das favoritas do público brasileiro após derrotar a então campeã mundial, a França, na partida de abertura e avançar até as quartas de final. Em ambos os casos, a admiração pela superação de equipes oriundas de países historicamente submetidos ao colonialismo articulou-se a sentimentos de proximidade cultural e identificação simbólica presentes na sociedade brasileira.

 

2.

A trajetória da República Democrática do Congo na Copa Africana de Nações produziu uma imagem bastante emblemática. O torcedor Michel Kuka Mboladinga chamou a atenção da imprensa internacional ao permanecer durante os 90 minutos da partida vestido com as cores nacionais, com o braço erguido e praticamente imóvel nas arquibancadas, reproduzindo a célebre estátua de Patrice Lumumba, líder da independência congolesa e primeiro-ministro do país, assassinado em 1961 em meio às disputas políticas que marcaram o violento processo de descolonização africana.

A repercussão da homenagem foi tão significativa que Michel Kuka Mboladinga foi incorporado à delegação congolesa e convocado com a seleção para a Copa, embora não tenha conseguido estar presente na partida de estreia do seu time. A expectativa em torno da sua presença evidencia como o futebol pode se transformar em um poderoso espaço de atualização da memória histórica, permitindo que símbolos, personagens e lutas do passado sejam ressignificados e reapropriados no presente.

Nesse contexto, a torcida ultrapassa os limites do espetáculo esportivo e converte-se em um ato de afirmação identitária, articulando esporte, nacionalismo e memória coletiva. A homenagem a Patrice Lumumba demonstra como as lembranças das lutas anticoloniais continuam a desempenhar papel fundamental na construção das identidades africanas contemporâneas, sendo mobilizadas inclusive em eventos esportivos de alcance global.

Nesse sentido, a ancestralidade não se restringe à ideia de descendência biológica. Refere-se a um conjunto de heranças culturais, experiências históricas compartilhadas e vínculos simbólicos que ultrapassam as fronteiras e nos conectam a um passado comum. A forte presença africana na formação da sociedade brasileira, tão marcante na língua, na religiosidade, na culinária, na música e em inúmeras manifestações culturais, contribui para que muitos brasileiros reconheçam nas trajetórias de equipes africanas elementos de uma história comum.

As reflexões feitas por intelectuais como Aimé Césaire e Frantz Fanon acerca da experiência colonial e dos processos de construção identitária no mundo afrodiaspórico nos ajudam a compreender esse fenômeno que se repete a cada Copa do Mundo. Aimé Césaire defendia a valorização das heranças culturais africanas e a recuperação de uma memória histórica compartilhada como formas de resistência à desumanização produzida pelo colonialismo. Para o martinicano, a afirmação da identidade negra constituía um processo de reconquista da dignidade histórica dos povos submetidos à dominação colonial e à negação de suas culturas.

Frantz Fanon, por sua vez, enfatizou os efeitos psicológicos, sociais e políticos do colonialismo sobre os sujeitos colonizados, destacando a importância do reconhecimento e da afirmação cultural nos processos de emancipação. Em suas análises, a recuperação da autoestima coletiva e da consciência histórica aparece como elemento fundamental para a superação das hierarquias produzidas pela ordem colonial.

Sob essa perspectiva, o sucesso de seleções africanas em competições globais pode ser interpretado como um momento simbólico de visibilidade e reconhecimento internacional de sociedades que, durante séculos, foram representadas por discursos de inferiorização e marginalidade.

O entusiasmo despertado por Vozinha e pela seleção cabo-verdiana durante a Copa de 2026 pode, assim, ser compreendido como a manifestação desses laços históricos e culturais. Mais do que uma simples torcida por uma equipe considerada surpreendente, trata-se de um fenômeno que mobiliza memórias da diáspora, sentimentos de ancestralidade e formas de solidariedade simbólica construídas ao longo de séculos de conexões entre África e Brasil.

Nesse processo, o futebol converte-se em um espaço privilegiado de expressão de identidades, afetos e reconhecimentos mútuos, revelando a permanência de vínculos históricos que continuam a aproximar brasileiros e africanos no imaginário da população.

*Olivia da Rocha Robba é doutoranda em história social na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Foto: ROBERTO SCHMIDT/AFP

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Como o povo brasileiro transformou o futebol em símbolo nacional https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/nosso-futebol-ja-foi-o-melhor.html 

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Estima-se que a FIFA deve faturar US$ 10,9 bilhões na Copa do Mundo em direitos de transmissão, ingressos e patrocínios. É o grande negócio do futebol.

A Copa do Mundo agora e no passado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0995517251.html 

Humor de resistência

Aroeira

Ascensão e declínio

O auge e o início da decadência do futebol brasileiro
A crise estrutural do futebol brasileiro não começou recentemente, mas teve suas origens ainda nos anos 1970, justamente no período em que o Brasil alcançava o auge de seu prestígio esportivo com a conquista do tricampeonato mundial na Copa do México
Alexandre Machado Rosa/Portal Grabois 

 

A crise estrutural do futebol brasileiro começou a se manifestar ainda na década de 1970. E isso constitui um dos maiores paradoxos da história esportiva nacional, pois foi justamente no auge simbólico da conquista da Copa do Mundo de 1970 que o futebol brasileiro iniciou um lento processo de decadência técnica, institucional e cultural.

Um dos impulsionadores do início da decadência foi a ditadura militar apropriar-se politicamente daquela conquista como instrumento de propaganda nacionalista. O regime utilizou a euforia popular para fortalecer a ideia de um “Brasil grande”, moderno e vitorioso, ocultando a repressão política, a censura e a violência de Estado. O futebol passou a ser tratado como questão estratégica de governo. A derrubada de João Saldanha do comando da seleção em 1970 era o indício de que algo não estava indo bem.

Contudo, a seleção tricampeã no México representou o ápice do chamado “futebol-arte”. O Brasil construiu sua identidade futebolística a partir da genialidade individual, consagrada na figura de Pelé, o Rei do Futebol. O país se consagrou mundialmente pela capacidade de produzir jogadores habilidosos, criativos e imprevisíveis, capazes de decidir partidas em jogadas de improviso, dribles rápidos e soluções intuitivas.

Após 1970, a interferência política na Confederação Brasileira de Desportos (CBD) intensificou-se. A preparação para a Copa do Mundo de 1974 foi marcada por excessiva rigidez disciplinar, militarização da comissão técnica e obsessão por métodos físicos inspirados em modelos europeus. O resultado foi uma seleção excessivamente rígida taticamente, menos criativa e distante da liberdade técnica que havia encantado o mundo quatro anos antes. O Brasil terminou apenas em quarto lugar, enquanto o planeta assistia ao surgimento do “Carrossel Holandês” liderado por Johan Cruyff.

A Copa de 1974 representou uma ruptura simbólica importante. O futebol brasileiro passou a ser visto como tecnicamente ultrapassado diante da evolução tática europeia. O chamado “futebol total” holandês revolucionou conceitos de ocupação de espaço, intensidade física e movimentação coletiva. A partir daquele momento, dirigentes, técnicos e parte da imprensa esportiva passaram a defender uma espécie de “europeização” do futebol nacional.

Iniciou-se então uma tentativa contraditória de abrasileirar esquemas europeus sem compreender plenamente suas bases culturais e organizacionais. O problema não residia propriamente na assimilação de inovações táticas internacionais, mas na incorporação acrítica de modelos que frequentemente ignoravam as características históricas e culturais do futebol brasileiro. O resultado foi um conflito permanente entre identidade e pragmatismo. O Brasil começou a abandonar progressivamente elementos centrais de sua tradição futebolística. A improvisação, o drible, a criatividade e a liberdade técnica foram trocadas em nome de um futebol mais físico, defensivo e mecanizado.

A crise aprofundou-se com o encerramento da chamada “Era Pelé”. Quando o maior jogador da história despediu-se da Seleção Brasileira em 1971, encerrava-se também um ciclo simbólico de confiança nacional no futebol como expressão máxima da genialidade brasileira. Sem Pelé, o país perdeu não apenas um craque, mas um eixo organizador de sua identidade esportiva.

Ao mesmo tempo, os problemas estruturais do futebol brasileiro tornavam-se mais evidentes. Os campeonatos nacionais eram desorganizados, inchados e frequentemente subordinados a interesses políticos regionais. A ausência de planejamento financeiro consolidava administrações amadoras e patrimonialistas nos clubes. Presidentes agiam como donos das instituições, reproduzindo práticas clientelistas profundamente arraigadas na cultura política brasileira.

O cenário econômico nacional também contribuiu para o processo de decadência. O chamado “Milagre Econômico” chegou ao fim em meio à crise internacional do petróleo e ao aumento da inflação. A recessão da segunda metade da década de 1970 afetou diretamente o consumo popular, inclusive a frequência aos estádios. O futebol deixava gradualmente de ser espaço central de convivência das classes trabalhadoras urbanas.

Paralelamente, o aumento da violência nos estádios afastava famílias e ampliava a sensação de insegurança. A precariedade da infraestrutura, a ausência de políticas de segurança pública e o crescimento das torcidas organizadas sob lógica de confronto contribuíram para deteriorar o ambiente do futebol brasileiro.

Enquanto isso, a Europa iniciava um amplo processo de modernização esportiva. Clubes europeus passaram a investir em ciência do esporte, categorias de base, gestão profissional e infraestrutura. O Brasil, ao contrário, permaneceu preso ao improviso administrativo e à dependência da genialidade individual de seus jogadores.

[Ilustração: Gustavo Rosa]

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Anarquia criativa e racional no futebol https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/futebol.html