30 março 2026

Capital financeiro

John Maynard Keynes e os mistérios do dinheiro
A incerteza radical e o comportamento financeiro moldam decisões de investimento além dos modelos matemáticos
Manfred Back & Luiz Gonzaga Belluzzo*
 

Em um seminário realizado sobre o livro Teoria geral, do juro, do emprego e da renda na Universidade de Campinas, um dos escribas desse artigo teve contato com a grande economista inglesa Joan Robinson, professora em Cambridge.

Conseguiu através dela o contato de John Maynard Keynes, que topou fazer uma entrevista por e-mail. Nesse artigo, vamos destacar alguns pontos dessa entrevista histórica, sobre um dos capítulos fundamentais da Teoria geral, o capítulo XII – “O estado da expectativa a longo prazo”.

Nesse capítulo John Maynard Keynes nos brinda com a psicologia, incerteza, estado de confiança, limitação da matemática e importância da liquidez e o mercado financeiro.

Lord Keynes, ao sair em 1944, da reunião de Bretton Woods foi visionário, ao declarar: I am not a Keynesian (Eu não sou keynesiano), quando percebeu que os ditos keynesianos estavam transformando sua teoria em dogma, ficando marcado como o economista do estímulo de déficit. Essa banalidade não considera que John Maynard Keynes rompeu com as simplificações da ortodoxia.

1.

Nós: Prezado Lord, hoje vemos o predomínio da escola de expectativas racionais, onde as expectativas são formalizadas estatisticamente e matematicamente. Você, que é um grande matemático e estatístico, como vê essa crença de reproduzir dados do passado para prever o futuro?

John Maynard Keynes: “É, portanto, razoável que nos deixemos guiar, em grande parte, pelos fatos que merecem nossa confiança, mesmo se sua relevância para os resultados esperados for menos decisiva do que a de outros fatos a respeito dos quais o nosso conhecimento é vago e limitado. Por essa razão, os fatos atuais desempenham um papel que, em certo sentido, podemos julgar desproporcional na formação de nossas expectativas a longo prazo, sendo que o nosso método habitual consiste em considerar a situação atual e depois projetá-la no futuro, modificando-a apenas na medida em que tenhamos razões mais ou menos definidas para esperarmos uma mudança”.

John Maynard Keynes: posso me alongar nessa questão? Nós:com certeza!

John Maynard Keynes: “O estado da expectativa a longo prazo, que serve de base para as nossas decisões, não depende, portanto, exclusivamente do prognóstico mais provável que possamos formular. Depende, também, da confiança com a qual fazemos este prognóstico – na medida em que ponderamos a probabilidade de o nosso melhor prognóstico revelar-se inteiramente falso”.

Nós: o que deve ser observado com profundidade?

John Maynard Keynes: “Nossas conclusões devem fundamentar-se, principalmente, na observação prática dos mercados e da psicologia dos negócios”.

Nós: por quê? Mesmo com computadores, banco de dados?

John Maynard Keynes: “O fato de maior importância é a extrema precariedade da base do conhecimento sobre o qual temos que fazer os nossos cálculos das rendas esperadas. O nosso conhecimento dos fatores que regularão a renda de um investimento alguns anos mais tarde é, em geral, muito limitado e, com frequência, desprezível. Se falarmos com franqueza, temos de admitir que as bases do nosso conhecimento para calcular a renda provável dentro de dez anos de uma estrada de ferro, uma mina de cobre, uma fábrica de tecidos, a aceitação de um produto farmacêutico, um navio transatlântico ou um imóvel no centro comercial de Londres pouco significam e, às vezes, a nada levam”.

2.

Nós: sentimos uma tentativa contemporânea de parte dos economistas de quererem reinventar a roda. A moda é caracterizar tudo como financeirização,e na formação binária da corrente majoritária nos cursos de economia, essa coisa de lado real x lado monetário. E um total desconhecimento da importância do mercado financeiro como elemento constituinte do sistema. Estamos corretos?

John Maynard Keynes: “Mas a bolsa de valores reavalia, todos os dias, os investimentos e estas reavaliações proporcionam a oportunidade frequente a cada indivíduo (embora isto não ocorra para a comunidade como um todo) de rever suas aplicações. É como se um agricultor, tendo examinado seu barômetro após o café da manhã, pudesse decidir retirar seu capital da atividade agrícola entre as dez e as onze da manhã, para reconsiderar se deveria investi-lo mais tarde, durante a semana”.

Nós: Lord, no seu entendimento avaliações diárias a respeito da liquidez, podem interferir e mudar as expectativas de investimento?

Keynes: “Todavia, as reavaliações diárias da bolsa de valores, embora se destinem, principalmente, a facilitar a transferência de investimentos já realizados entre indivíduos, exercem, inevitavelmente, uma influência decisiva sobre o montante do investimento corrente. Isso porque não há sentido em criar uma empresa nova a um custo maior quando se pode adquirir uma empresa similar existente por um preço menor, ao passo que há indução a aplicar recursos em um novo projeto que possa parecer exigir uma soma exorbitante, desde que esse empreendimento possa ser liquidado na bolsa de valores com lucro imediato”.

Nós: Lord, ao longo do capítulo XII, nos indica que devemos ter humildade para fazer previsão futuro e que a incerteza não é exata, como creem muitos economistas?

John Maynard Keynes: “Os resultados reais de um investimento, no decorrer de vários anos, raras vezes coincidem com as previsões originais. Também não podemos racionalizar a nossa atitude argumentando que para um homem em estado de ignorância, os erros em qualquer sentido são igualmente prováveis e que, portanto, subsiste uma esperança estatística baseada em probabilidades iguais. Isso porque podemos facilmente demonstrar que a hipótese de probabilidades aritmeticamente iguais, baseada em um estado de ignorância, conduz a absurdos… o mercado estará sujeito a ondas de sentimentos otimistas ou pessimistas, que são pouco razoáveis e ainda assim legítimos na ausência de uma base sólida para cálculos satisfatórios”.

*Luiz Gonzaga Belluzzoeconomista, é Professor Emérito da Unicamp. Autor entre outros livros, de O tempo de Keynes nos tempos do capitalismo (Contracorrente). [https://amzn.to/45ZBh4D]

*Manfred Back é graduado em economia pela PUC –SP e mestre em administração pública pela FGV-SP.

Leia também: "Quem controla a tecnologia controla o jogo" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ciencia-tecnologia-desenvolvimento.html 

Postei nas redes

Folha de S. Paulo admite que "moderação alardeada por Flávio esbarra em projeto bolsonarista e no seu passado político".  Enfim, descobriu a pólvora! 

Benéfica polarização https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/enio-lins-opina_19.html 

Humor de resistência

 

Aroeira

Minha opinião

Alianças híbridas

Luciano Siqueira

instagram.com/lucianosiqueira65     

No Brasil, as alianças “híbridas” – composições para a presidência da República destoantes nos estados, em alianças para os governos locais – são um fenômeno recorrente. O mapa que se vai criando para o pleito deste ano o confirma.

As dinâmicas regionais obedecem a interesses locais, forças oligárquicas e rivalidades históricas que, muitas vezes, ignoram as diretrizes nacionais dos partidos, estes em sua grande maioria não programáticos, e sim legendas que abrigam um somatório de interesses individuais ou de grupos relativamente autônomos.

O eleitorado parece habituado a essa discrepância. Vota em Lula para presidente, por exemplo, e num candidato a governador do campo oposto; assim como para o Senado, Câmara e Assembleias Legislativas segundo critério individual e não partidário.

Escrevi aqui e em outros veículos sobre isso muitas vezes. É um fenômeno que reflete a complexidade das diferenças regionais no país, o nível de consciência política da maioria da população e um sistema eleitoral que tudo ou quase tudo permite.

Nesse cenário, o voto em lista para as Casas legislativas, e não uni nominal, como hoje ocorre, seria um passo adiante. O eleitor seria instado a optar por deter minado programa partidário e os eleitos teriam que guardar fidelidade a esse programa. Mas só numa correlação de forças majoritariamente progressista, que hoje não existe, poderá mudar o sistema. Há muita estrada a percorrer.

Duas pedras no jogo de Raquel https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao-joao-x-raquel.html   

Palavra de poeta

o bolero e o mar
Cida Pedrosa
  

a água dissolve o sol
e meu ouvido rapta ravel

não sou inefável
nem quero a certeza do mar

nesta tarde de barcaças
quero apenas tua boca
a tocar a minha razão

[Ilustração: Lasar Segall]

Leia também “Segunda-feira”, poema de Primo Levi https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/palavra-de-poeta_48.html 

Sylvio: sem interferência externa!

A foto de um conselheiro de Trump com Flávio Bolsonaro e sua indicação como futuro presidente do Brasil, além de uma piada é uma grande tentativa de interferência na nossa politica. É melhor que os americanos se preocupem com suas eleições legislativas deste ano, cujas pesquisas são bem desfavoráveis ao Partido Republicano. Cuidem de  seu quintal e fiquem fora do nosso!

Sylvio Belém 

[Ilustração: Cláudio/FSP] 

Qual futebol?

Ai de ti, futebol brasileiro

Luciano Siqueira

instagram.com/lucianosiqueira65    

Faz tempo só vejo futebol pela TV. Não me entusiasma ir aos estádios, inclusive pelo risco que a violência das torcidas organizadas impõe ao simples torcedor. Vejo na TV quando posso.

Não são poucas as vezes que abandono o jogo antes de terminar. Ontem fui até o fim para um teste de paciência. Athletico Paranaense, apenas mediano, sapecou 4 x 1 no Botafogo cheio de craques e sem técncio, nem tática, nem entusiasmo.

Um jogo parecido com muitos outros em solo brasileiro. Nosso futebol vive um paradoxo: enquanto exporta talentos precocemente para a Europa, amarga o esvaziamento da sua identidade criativa em solo nacional. O ex-craque campeão do mundo Tostão tem abordado isso com frequência em sua coluna na Folha de S. Paulo. Aquele futebol bonito, que emocionava pelo drible e surpreendia pela improvisação criativa hoje se faz esquemático ao excesso, apoiado no vigor físico.

​Uma deformidade técnica que tem a ver a desigualdade financeira entre os clubes de todas as divisões, a partir mesmo da Série A, e com uma espécie de pressão pela formação de atletas segundo o padrão europeu.

Será possível um retorno às nossas origens com desenho moderno? Não sei se viverei para ver.

Futebol entre a tática e o talento https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/futebol-taticamente-avancado.html