Trump e Xi Jinping se reúnem em Pequim sob sombra da guerra contra o Irã
Trump busca pressionar Xi Jinping a isolar o Irã e conter avanços em IA, enquanto Pequim foca em pragmatismo comercial e na defesa de sua soberania
Davi Molinari/Vermelho
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desembarca na China nesta quinta-feira (14) para uma visita de Estado de dois dias ao presidente Xi Jinping. O encontro em Pequim marca a primeira viagem oficial do republicano ao país desde 2017 e ocorre em um momento de extrema volatilidade geopolítica. A cúpula, inicialmente prevista para o início do ano, foi adiada em decorrência da escalada militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciada em fevereiro, que alterou o equilíbrio de forças no Oriente Médio e impôs novos desafios à diplomacia global.
De acordo com a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, a reunião busca estabilizar a relação entre as duas maiores economias do mundo. Entretanto, o cenário é de forte pressão. Washington pretende cobrar de Pequim um posicionamento mais rígido em relação a Teerã. Atualmente, a China é o principal parceiro comercial do Irã, absorvendo cerca de 90% das exportações de petróleo iraniano. Dentro da política de hegemonia energética, o governo estadunidense quer asfixiar o fluxo financeiro do Irã proveniente da China, alegando que ele sustenta atividades militares na região. Já Pequim defende a legitimidade das trocas comerciais e a soberania energética.
Em manifestações recentes, Trump elevou o tom ao afirmar que a China enfrentará represálias caso envie armamentos ao Irã, reforçando a estratégia de pressão máxima sobre o eixo Pequim-Teerã-Moscou. Em contrapartida, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, mantém a diretriz de que a posição chinesa é imparcial e objetiva. O governo de Xi Jinping reafirmou o apoio ao direito do Irã ao uso pacífico de energia nuclear e sinalizou que não aceitará imposições que comprometam seus parceiros estratégicos para atender aos interesses de Washington.
Poderio militar chinês incomoda a Casa Branca
A modernização militar chinesa e o controle de arsenais nucleares também integram a pauta prioritária. O subsecretário de Controle de Armas dos EUA, Thomas DiNanno, afirmou recentemente nas Nações Unidas que foram detectados testes explosivos por parte da China e criticou a suposta falta de transparência sobre o arsenal de Pequim. Relatórios setoriais indicam o desenvolvimento de uma nova geração de armamentos com capacidades de manobra avançadas. Contudo, a China recusa-se a participar de negociações trilaterais com EUA e Rússia, argumentando que seu poderio é significativamente inferior ao americano e que limites unilaterais desequilibrariam a segurança na Ásia.
No campo tecnológico, o avanço da Inteligência Artificial (IA) é outro ponto de atrito. O lançamento do modelo chinês DeepSeek-V4, em abril de 2026, demonstrou alta eficiência a custos reduzidos, o que é interpretado por assessores de segurança nacional dos EUA como um risco estratégico. Há expectativa de que Trump e Xi anunciem a criação de um grupo técnico para discutir protocolos de segurança em sistemas de defesa, visando evitar que o uso de algoritmos em armamentos leve a erros de cálculo militares fatais.
Apesar das divergências estruturais, o pragmatismo econômico pauta as negociações envolvendo a Boeing e o setor agrícola. Pequim estuda a aquisição de até 600 aeronaves da fabricante americana, incluindo os modelos 737 MAX e 787 Dreamliner, gesto que pode ser anunciado como uma sinalização de boa vontade comercial. Além disso, discute-se a criação de um Conselho de Comércio e um Conselho de Investimento para institucionalizar o diálogo e evitar novas guerras tarifárias. Tais mecanismos visam garantir a estabilidade no fornecimento de minerais de terras raras, controlados majoritariamente pela China e essenciais para a indústria de alta tecnologia dos EUA.
Taiwan permanece como o tema mais sensível e a principal “linha vermelha” para Pequim. Enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, reforça o compromisso de Washington com a ilha sob a ótica da cooperação de defesa, o governo chinês reitera que o território é inalienável e que qualquer solução deve ocorrer sem interferência externa. Analistas destacam que, para além da soberania, o controle da produção de semicondutores em Taiwan constitui o epicentro da disputa, afetando diretamente a competitividade tecnológica e a hegemonia global no século XXI.
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