10 agosto 2026

Minha opinião

Redes nada inocentes

Luciano Siqueira  


Uso o Instagram, como milhões o fazem, porque infelizmente dispensá-la equivale a renunciar à comunicação com muita gente que me segue e outros tantos que eu sigo.

Tempo de comunicação digital. Que fazer?

Mas é preciso manter a vigilância. No site BBC News leio sobre o sistema de anúncios pagos do Instagram explorado por redes criminosas https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx2jdd94z52o

Mais uma investigação revela que anúncios pagos no Instagram estão promovendo material de abuso sexual infantil, valendo-se, inclusive, de termos explícitos (como palavras ligadas à violência e exploração de menores) nos textos das postagens patrocinadas.

Esquema ardiloso: os anúncios no Instagram atuaram como uma "vitrine", exibindo imagens e pequenas chamadas tipo "clique para assistir mais" para atrair o usuário.

Ao clicar, o link do anúncio redirecionava o usuário para canais ou grupos no aplicativo Telegram, onde o conteúdo da violação era disponibilizado e comercializado sem moderação.

Evidente falha no sistema de controle da Meta!

Consta que todos os anúncios pagos passam por um crivo de aprovação. Mas não é bem assim. Ou o mecanismo é vulnerável. Nesse caso, a tecnologia da Meta falhou ao não identificar termos e imagens abusivas.

Nesse caso, autoridades de cibersegurança apontaram que os criminosos se aproveitaram da navegação integrada e da falta de verificação cruzada entre as redes para recarregar o conteúdo caso alguma conta seja derrubada.

Unidades de cibersegurança destacam um número desproporcional de alertas vindos das plataformas da Meta em comparação com outras redes sociais.

Na verdade, a busca do lucro advindos dos anúncios pagos fala mais alto.

O caso confirma a negligência no uso de inteligência artificial/algoritmos para aprovação de anúncios comerciais. As grandes plataformas de tecnologia não assumem a responsabilidade pela segurança dos usuários e pela prevenção do tráfego de conteúdo.

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Leia também: "O Leviatã digital" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/poder-algoritmico.html 

Humor de resistência

 

Aroeira

"O foco das grandes legendas e os desafios de João" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01939828218.html 

Futebol brasileiro sofrível

Entre o caos e o êxtase
Últimos jogos da Copa do Brasil tiveram glória do Vitória e desorganização do Corinthians. Alvinegro, chutando a bola para a frente, nem parecia um time treinado por Fernando Diniz
Tostão/Folha de S. Paulo   

Na Copa do Brasil, estão definidos os oito classificados. O Vitória, que já tinha eliminado o Flamengo, goleou o Athletico Paranaense por 4 a 0. O técnico Jair Ventura mostrou, mais uma vez, que é bom também para jogar no ataque. O Corinthians, sem nenhuma organização, no caos, chutando a bola para a frente, venceu o Inter por 2 a 1, mas ficou de fora. Não parecia time treinado por Fernando Diniz.

Corinthians e Inter realizaram uma péssima partida. Muito confronto e nenhum futebol. Depois da partida, alguns disseram que decisão é assim mesmo. É a banalização da mediocridade. O jogo é um teatro de emoções e também de técnica individual e coletiva. Não pode ser o caos.

De vez em quando, é preciso repetir o óbvio. Alguns não conseguem enxergá-lo. As partidas mata-mata de Copa do Brasil, Libertadores e Copa Sul-americana são mais emocionantes, decisivas, mas no Brasileirão, um campeonato longo e por pontos corridos, é que podemos conhecer de maneira melhor os jogadores e as equipes.

Palmeiras e Flamengo são, novamente, os candidatos ao título do Brasileirão por terem os melhores elencos. Qualquer outro resultado será uma grande surpresa. O conceito de que o Flamengo possui um elenco superior ao do Palmeiras não é mais verdade. Hoje, são equilibrados.

A dupla de meio-campistas do Palmeiras formada por Marlon Freitas e Andreas Pereira tem sido brilhante e decisiva. Marlon, além de marcar muito, tem um ótimo e rápido passe e uma ampla visão do jogo. Andreas Pereira se movimenta muito bem de uma intermediária à outra, possui um bom passe e tem sido decisivo nos cruzamentos de bola parada. Assim saem muitos gols do Palmeiras e em todo o mundo.

O Flamengo não tem um bom reserva com as características de Pedro. O veloz Bruno Henrique é melhor pela ponta esquerda. Não entendo por que o mediano lateral direito Emerson Royal é quase sempre escalado.

No Brasileirão, das equipes abaixo de Palmeiras e Flamengo, a que tem mais chance de evoluir e de terminar entre os quatro primeiros é o Cruzeiro, embora o time sinta a falta do lateral esquerdo Kaiki e do meia/ponta Christian, negociados.

O Cruzeiro depende muito de Matheus Pereira e de Gerson. Muitos queriam Matheus Pereira na Copa do Mundo, por ser um clássico meia centralizado, camisa 10, que se movimenta bastante e cria belíssimos lances de gol. Este tipo de jogador é ainda importante desde que não seja o único responsável pela armação das jogadas. A maioria dos times brasileiros ainda divide o meio-campo entre os volantes que marcam e o camisa 10 que cria as jogadas ofensivas. Nada mais ultrapassado.

Formação de jogadores

A contratação pelos clubes brasileiros de um imenso número de jogadores de outros países sul-americanos prejudica a formação de jogadores no Brasil, além de diminuir as chances dos jovens nas principais equipes.

Décadas atrás, os europeus tiveram o mesmo problema por causa das contratações de jogadores de outros continentes. Eles resolveram o problema, mantendo as contratações, mas criando condições técnicas para formar grandes jogadores, como vimos na Copa do Mundo. As seleções e os times são fortes. O Brasil necessita resolver esse dilema. Não tem de ser uma coisa ou outra.

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Leia também: Futebol brasileiro banaliza a mediocridade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/futebol-brasileiro-em-baixa.html    

Postei nas redes

Sabe-se agora que a propaganda eleitoral do candidato do PL usará apenas "Flávio", excluindo o sobrenome Bolsonaro. Sintomático, não? 

Três "questões de ordem" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0658357328.html 

Minha opinião

Campo de batalha preferencial 

Luciano Siqueira    


Muito se tem falado (e demonstrado) sobre os superpoderes do Congresso Nacional, fruto de distorções acumuladas na história recente, sobretudo no governo Bolsonaro, quando se adotou a aberração das emendas parlamentares acoitadas pela cumplicidade e pelo oportunismo.

A Folha de S. Paulo de hoje, em matéria assinada por Ana Luiza Albuquerque, traz à luz dados de pesquisa realizada pela Fundação FHC.

Nada de novo, mas oportunamente sublinhado.

Na prática, super poderes do parlamento, apoiados em normas informais e em crescente concentração de poder nas mãos dos presidentes das Casas, tornam crescentemente anêmico do chamado “presidencialismo de coalizão” pautado em relações harmônicas entre o Executivo e o Legislativo.

No próprio parlamento, há uma deterioração crescente das instâncias deliberativas, afetando negativamente as comissões temáticas e procedimentos equânimes de deliberação.

A exacerbação de procedimentos como a votação híbrida/remoto, o uso excessivo de urgência e compensação de projetos, inclusão de propostas relevantes (incluindo PECs) em tramitações conjuntas sem as etapas formais suficientes para debate consistente e esclarecedor.

Medidas Provisórias são condenadas à caducidade, privando a sociedade da necessária transparência quanto ao posicionamento do Congresso.

Não é sem razão que grandes legendas partidárias do Centrão e da Direita https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0658357328.html tenham optado pela neutralidade em relação ao pleito presidencial, liberando as seções estaduais para composições as mais diversas – inclusive com frentes comprometidas com a reeleição do presidente Lula -, no intuito de elegerem mais senadores e deputados federais.

Numa visão de médio e longo prazo e tendo em mira o desenvolvimento democrático e soberano do país, tais anomalias reforçam a necessidades de reformas estruturais a serem encetadas adiante, sob correlação de forças favorável.

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PCdoB aprova manifesto por novo ciclo de desenvolvimento com Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-do-pcdob_0907726579.html 

Sylvio: psicopata

 Ao tomar conhecimento dos primeiros insultos proferidos por Milei contra o presidente Lula, fiquei a imaginar qual a razão que teria levado o povo argentino a escolher um moleque despreparado para o mais alto cargo do país. Com a continuidade e maior contundência das agressões, a figura do moleque em minha imaginação é substituída por a de um psicopata, que põe em risco as relações entre os dois países parceiros econômicos e historicamente irmãos. Responder no mesmo nível não me parece a posição desejável, mas não dar nenhuma resposta é estimular a molecagem ou omissão diante da psicopatia.

Sylvio Belém

Charge: Quinho   

Com Lula rumo a um Brasil soberano e desenvolvido https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-do-pcdob.html

Uma crônica de Cícero Belmar

Pedra que canta e brilha
Cicero Belmar    

Cada lugar, por mais simples, tem um caráter que o torna único. O natural do Sertão do Araripe, por exemplo, é essa terra árida, plantas com espinho, beleza difícil. Na cidade onde nasci e vivi por alguns anos, Bodocó (PE), há uma pedra. De tão imensa, ela não está no meio do caminho, como no poema do itabirano Drummond.

É pedra que exige tempo para ser apreciada. Ninguém diz que passou por ela, mas que esteve nela. Está reclinada sobre largo trecho da Serra do Araripe e sua beleza é o tamanho gigantesco que está nele. Perguntem a Cida Pedrosa, que já escreveu um livro inteiro de versos metrificados sobre essa pedra, e a poeta responderá que a Claranã é feita de minérios e poesia.

E que ela é uma pedra que canta. Isso mesmo, dizem que canta. A verdade é que o som, vindo da pedra, em noites de ventos assustadores, é apenas reação. A pedra é chicoteada pelo vento, e a violência do choque produz um som.

O canto da pedra nada mais é do que o vento transgredindo a sua dimensão de potência invisível, a sua natureza passageira. É som intenso, com ressonância e eco, música de pedra, que não estamos acostumados a ouvir, linguagem própria.

Além de cantar, é pedra que reluz. O que não é muito difícil de acontecer, por causa do sol permanente do Sertão. O sol bate na pedra e a luz bate na gente. Sol ardente contrastando com a melancolia do tempo, a pedra reluz e canta. De minha parte, eu mesmo nunca vi nem ouvi. Os mais velhos dizem que sim.

Há uma lenda de que a pedra brilhava. É história de antigamente, apenas repasso. Dizem que, quando o sol refletia na pedra, nas primeiras horas do dia, de longe se via o clarão cor de prata. Clarão claranã, daí o nome da pedra. É preciso aprender poesia com aqueles que sabem olhar: essa melancolia sob o sol inspira as palavras.

Os mais antigos eram povos originários que habitavam a Pedra do Claranã. Existem registros de séculos passados dizendo que havia uma tribo nômade, a Kariri, que percorria quatro “grandes pedras encantadas” sobre a Serra do Araripe. Elas se localizam entre os atuais estados de Pernambuco e do Ceará. Os sertanejos ancestrais migravam conforme as secas e os períodos de colheitas.

Entre as encantadas, estava e está a Pedra do Claranã. Ela teria sido batizada por aqueles povos, que viam o clarão à distância. Viam a Claranã no seu prateado. O clarão era a bússola do trajeto. Repito, é preciso aprender a ver para saber contar.

Não digo que a pedra é encantada. Mas reconheço que tenha lá os seus mistérios. Na semana passada, por exemplo, uma amiga da religião da Jurema esteve na pedra, onde nunca havia estado antes. Disse sentir energias de espíritos de caboclos e de indígenas ao percorrer as cavernas que existem por lá. Detalhe, a minha amiga não sabia que a pedra foi morada dos povos originários nômades.

Algumas lendas ainda habitam a pedra. Uma delas é a do arco do desejo. É uma formação natural, um marco de passagem, que tem esse apelido porque, segundo os mais românticos, quem passar sob ele, e fizer um pedido, o amor acontece.

Outra lenda relata um amor impossível. Abaixo da pedra, segundo a crença, há um reino que foi extinto por castigo dos céus. A princesa do reino teria se apaixonado por um plebeu. Para impedir o romance, um rei autoritário, preconceituoso e infeliz, mandou matar o rapaz. A princesa caiu em depressão profunda e também morreu.

Como castigo ao ditador, os deuses do amor resolveram destruir o reino do mal. Jogaram uma imensa pedra, lá dos astros, que hoje seria a Claranã. Ao cair na terra, destruiu o reino. O espírito dos dois amantes flutuou, transformando-se em imensos gaviões que ainda hoje habitam o alto da pedra. Entre lendas, mistérios e poesia, a pedra existe. E não seria a mesma se fosse apenas minério.

[Ilustração: Manabu Mabe]

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Leia também "Retorno", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_0433487496.html