10 março 2026

Oriente Médio: Trump atira no próprio pé

O desastre de Trump no Oriente Médio
Até agora, ninguém tem certeza de quais são exatamente os motivos para atacar o Irã
James N. Green/Liberta   

Os ataques conjuntos de Trump com Israel contra o Irã podem dar errado de inúmeras maneiras. O problema em avaliar os objetivos de guerra do presidente dos EUA é que ele ofereceu tantas justificativas diferentes na última semana que ninguém tem certeza de quais são exatamente os motivos para atacar o Irã. Parece que todos os resultados de guerra projetados pela Casa Branca e pelo Pentágono podem acabar enfraquecendo, fatalmente, sua presidência nos dois anos e nove meses restantes de seu mandato.

O objetivo é destruir o programa nuclear do Irã e eliminar seu sistema de mísseis balísticos? Ou é provocar uma mudança no regime, identificando e recrutando líderes dispostos a trabalhar com os Estados Unidos? Talvez seja impedir que os aliados do Irã (Hezbollah, Hamas, os Houthis e seus apoiadores na Síria e no Iraque) operem no Oriente Médio. Ou, ainda, será a meta apoiar a população civil que clama pelo fim do regime, a qual, presumivelmente, se levantará pacificamente e o derrubará?

O Rei Louco

Como Trump sabe tão bem, quando se oferecem muitas possibilidades confusas e contraditórias, basta apontar para aquela que acaba funcionando, declarar vitória e ir para casa.

Isso deve levar de um mês a cinco semanas, de acordo com o último cronograma anunciado por Trump. Durante esse período, ele e o primeiro-ministro israelense, Bibi Netanyahu, poderiam infligir danos significativamente maiores à infraestrutura militar do Irã, ou seja, às suas capacidades nucleares e de mísseis balísticos. Inevitavelmente, o número de vítimas civis também poderia aumentar exponencialmente.

Para fins de argumentação, vamos esquecer que, em junho de 2025, Trump proclamou que a força aérea dos EUA “obliterou total e completamente” as capacidades nucleares do Irã. Desde que fez essa afirmação exagerada, ninguém no atual governo dos EUA tem permissão para criticar Donald, o Rei Louco, sobre seu brilhantismo militar como comandante-em-chefe das forças armadas do país.

Assim, em agosto de 2025, quando o tenente-general Jeffrey Kruse, chefe da Agência de Inteligência de Defesa, divulgou um relatório afirmando que os ataques dos EUA apenas atrasaram o programa nuclear do Irã em alguns meses, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, o demitiu imediatamente. Parece que ninguém no governo quer imaginar o rei sem roupa.

Esquecendo, convenientemente, a ostentação do ano passado sobre a onipotência militar dos EUA, Trump ainda pode usar o argumento de que as capacidades nucleares do Irã ameaçam Israel e a paz no Oriente Médio. É uma forma de mobilizar setores céticos de sua base “América Primeiro” (MAGA, sigla do movimento Make America Great Again). Afinal, Trump tem feito campanha, desde 2016, afirmando ser contra envolvimentos estrangeiros e “guerras intermináveis”.

A ameaça militar “iminente”, que Trump e seus apoiadores alegam existir, pode encorajar os apoiadores do MAGA a se unirem em torno da bandeira e apoiarem a guerra, apesar de muitas reservas. No entanto, não devemos esquecer que essa estratégia não se mostrou muito eficaz para o presidente George W. Bush, quando insistiu, em 2003, que o Iraque possuía armas de destruição em massa (na verdade não as possuía).

E quanto a derrotar os apoiadores do Irã no Líbano, Gaza, Iêmen, Síria e Iraque? A guerra contra o Irã e a resposta do Hezbollah, com o lançamento de foguetes contra Israel, deram ao governo de Netanyahu a desculpa para infligir ainda mais danos à organização bem dentro das fronteiras do Líbano. Isso serve como sinal verde para dizimar o Hezbollah de uma vez por todas.

Entretanto, o Irã intensificou a guerra atacando países árabes que permitiram bases americanas em seus territórios, reacendendo ressentimentos e rivalidades seculares entre sunitas e xiitas. Curiosamente, nem os analistas de notícias, nem o Pentágono e a Casa Branca parecem levar em consideração essa divisão incrivelmente importante dentro do Islã.

Risco de perda de controle

Nas primeiras horas da guerra, vários países árabes, aliados dos Estados Unidos, recusaram-se a permitir que o Pentágono usasse seu espaço aéreo. No entanto, as retaliações do Irã contra os Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Iraque e Jordânia os levaram a entrar na guerra. Resta saber se eles atacarão o Irã, mas existe um risco real de que a guerra possa rapidamente se tornar um conflito regional difícil de conter.

Há também a questão da mudança de regime. No primeiro dia da guerra, ataques aéreos aniquilaram quase toda a liderança do República Islâmica. Tendo capturado com sucesso Nicolás Maduro na Venezuela e permitido que sua vice-presidente, Delsy Rodríguez, permanecesse no poder, Trump agora parece acreditar que esse é o modelo a ser empregado no Irã.

Ao anunciar, em 3 de março, que “alguém de dentro” do governo iraniano poderia ser a melhor escolha para assumir o poder, assim que a campanha militar EUA-Israel terminasse, Trump, no entanto, admitiu que “a maioria das pessoas que tínhamos em mente está morta”. Ele continuou a refletir: “Agora, temos outro grupo, que também pode estar morto, segundo relatos. Então, teremos uma terceira onda. Em breve, não saberemos de ninguém.” Que belo planejamento militar estratégico para o dia seguinte.

Dois nomes importantes, entre vários outros que circulam na mídia ocidental como possíveis sucessores do aiatolá Khamenei, são seu filho linha-dura, Mojtaba Khamenei, e Hassan Khomeini, o suposto neto reformista do fundador da República Islâmica.

Há outros líderes ligados à Guarda Revolucionária Islâmica, cujos nomes são comentados. Eles fazem parte de uma estrutura governamental sofisticada e complexa, com capacidade significativa para sufocar quaisquer levantes internos contra o regime atual. Representam continuidade, não ruptura. Como Trump corretamente aponta, a situação pode ser ainda pior do que antes da guerra.

E o que acontece depois que os bombardeios cessarem? Presumivelmente, de acordo com a análise de Trump, será uma oportunidade única para centenas de milhares de iranianos irem às ruas exigir a queda da República Islâmica. A maioria dos especialistas acredita que eles serão brutalmente reprimidos, como aconteceu no ano passado, quando Trump prometeu socorrê-los e depois recuou.

Linha vermelha

Se o massacre de manifestantes for a linha vermelha que, se cruzada, provocará uma resposta vigorosa de Trump, quase inevitavelmente será necessária a intervenção de tropas estrangeiras.

Isso representa um problema para Trump com sua base anti-intervencionista e pró-América Primeiro. Figuras importantes do movimento MAGA – Tucker Carlson, Megyn Kelly e Matt Walsh – já manifestaram sua oposição à guerra, sugerindo não necessariamente uma divisão, mas sim refletindo uma potencial desmoralização de alguns eleitores republicanos e independentes.

Frustrados com a mudança radical na política de Trump, um número significativo pode se abster nas importantíssimas eleições de meio de mandato de novembro, dando o controle do Congresso aos democratas.

Embora os parlamentares republicanos tenham permanecido unidos a Trump, votando contra uma tentativa de conter sua conduta por meio do uso da Lei de Poderes de Guerra, o público não é muito convencido da atual política do presidente para o Oriente Médio. Uma pesquisa da NBC indica que 54% dos americanos são contra a guerra. Há uma diferença de 13 pontos percentuais entre aqueles que se opõem à guerra e aqueles que são a favor da atuação de Trump em relação ao Irã, com um pequeno número demonstrando incerteza.

Os resultados mostram uma polarização contínua entre democratas e republicanos, mas alguns destes últimos parecem estar abandonando o presidente.

Ainda é cedo demais para dizer quantos.

Poderíamos acrescentar a isso a possibilidade de um número crescente de baixas entre os soldados americanos, especialmente se Trump for forçado a enviar tropas terrestres. Além disso, os preços do petróleo já estão subindo rapidamente, criando inflação e minando a capacidade do presidente de reduzir os preços e abordar a questão do acesso ao combustível, que será um tema fundamental nas próximas eleições. Adeus àquela promessa crucial de campanha.

Como sugerido acima, é verdade que Trump, o vigarista, poderia simplesmente declarar que venceu a guerra em algum momento de abril e, mais uma vez, exigir que receba o Prêmio Nobel da Paz. Mas fica a dúvida se esses gestos irão apaziguar parte de sua base e os “eleitores independentes”, que precisarão comparecer em grande número para apoiar os candidatos republicanos em novembro, caso Trump queira garantir a continuidade do controle do Congresso.

Neste momento, nenhum desses cenários, nem outros, parece favorável ao presidente. Talvez ele, assim como os soldados que, segundo relatos, desprezou com comentários pejorativos no passado, também seja um perdedor? 

Multilateralismo aos frangalhos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/diplomacia-em-segundo-plano.html 

Fotografia

 

Luciano Siqueira

"Meu ideal seria escrever...", crônica de Rubem Braga https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/uma-cronica-de-rubem-braga.html 

Palavra do PCdoB

PCdoB reafirma compromisso com reeleição de Lula e legado de Rabelo e Cabreira
www.pcdob.org.br         

A Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) divulgou resolução em que aborda os principais desafios de 2026, ano do 104º aniversário do partido mais antigo do país em atividade.

O documento chama atenção para dois pontos centrais: lutar pela reeleição de Lula e pela vitória do projeto eleitoral dos comunistas e fortalecer o partido com o legado de Renato Rabelo e Márcio Cabreira, dois grandes dirigentes comunistas falecidos em fevereiro.

A resolução ressalta que a disputa presidencial deste ano será acirrada, “o que exige, desde já, engajamento na batalha do conjunto das forças democráticas, patrióticas e populares”. E continua: “Para o PCdoB, a campanha de Lula deve ser à base de uma ampla composição política, social, econômica, cultural, a construção de uma larga frente, impulsionada pela mobilização popular, em defesa de quatro bandeiras: soberania nacional, democracia, desenvolvimento e valorização do trabalho”.

O documento ainda enaltece o legado de Rabelo e Cabreira, salientando que “os exemplos de vidas tão intensas quanto realizadoras” de ambos os camaradas “serão seiva viva para fazer avançar o movimento para revigorar o PCdoB”.

Leia abaixo a íntegra da resolução:


PCdoB, 104 anos
Lutar pela reeleição de Lula e pela vitória do projeto eleitoral dos comunistas
Fortalecer o Partido com o legado de Renato Rabelo e Márcio Cabreira

O PCdoB celebra seus 104 anos na linha de frente da jornada pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para que Brasil avance no caminho do desenvolvimento soberano, e livre o país da ameaça de retorno ao poder da extrema-direita, constituída por traidores da pátria e neofacistas.

Simultaneamente, busca a vitória de seu projeto eleitoral, centrado na reeleição e ampliação da bancada na Câmara dos Deputados. Realiza uma pré-campanha ampla, entusiástica, embandeirada com a defesa da soberania nacional, engajada na luta pela redução da jornada de trabalho, pelo fim da escala 6×1, na mobilização contra o feminicídio, pela redução dos juros e reindustrialização do país, por mais desenvolvimento, mais democracia, pela valorização do trabalho e mais direitos ao povo.

O Partido convida o eleitorado democrático e progressista para participar da pré-campanha. Convida lideranças para se filiarem para se candidatar e para se engajarem nesta batalha histórica. É indispensável uma esquerda forte para impedir os retrocessos da direita e da extrema-direita.

O PCdoB ergue a bandeira da paz mundial e contra as guerras imperialistas. Condena, veementemente, a ofensiva guerreira de Donald Trump para oprimir os povos e saquear as riquezas dos países. Internacionalista, empreende ações de solidariedade aos povos e países agredidos: à Cuba, sob brutal bloqueio; ao povo palestino, vítima de genocídio; à Venezuela, seu povo e seu governo; ao Irã, sob os bombardeios de uma guerra imperialista que abala o mundo.

Ressalta que, no âmbito de uma realidade mundial marcada por múltiplas crises do capitalismo e relevantes mudanças, o socialismo retoma prestígio. A República Popular da China é a sua maior expressão, mas se destaca também no Vietnã e outros países.

O PCdoB no seu aniversário comunica que desencadeou o processo de pesquisas e debates à atualização de seu Programa Socialista para o Brasil e adequá-lo às mudanças no Brasil e no mundo.

As reflexões iniciais indicam que se impõe, como eixo aglutinador de um polo constituído pela esquerda e por forças patrióticas e populares a jornada por reformas estruturais democráticas destinadas a remover os obstáculos e amarras neoliberais e neocoloniais que travam o desenvolvimento brasileiro. E suprir a falta de um projeto nacional de desenvolvimento, que afeta o campo político progressista.

Homenagem ao legado de Renato Rabelo e Márcio Cabreira

O PCdoB marcou presença continua nos principais acontecimentos da história brasileira desde a sua fundação, em 25 de março de 1922, uma longeva e realizadora atuação que decorre do trabalho de gerações de comunistas que construíram e trouxeram o Partido até a contemporaneidade.

À sua frente estiveram Astrojildo Pereira, seu principal fundador e líder da primeira geração de comunistas; Luiz Carlos Prestes, destacada liderança popular, líder da segunda geração; João Amazonas, seu principal construtor e ideólogo e liderança da terceira geração; e Renato Rabelo, que esteve à frente da quarta geração.

Renato faleceu em 15 de fevereiro de 2026, causando forte impacto no Partido. As condolências de todo país e do exterior denotam a dimensão e força de seu legado. Renato integrou o núcleo dirigente do Partido por mais de meio século.

Foi também um ativo construtor e ideólogo, com ampla respeitabilidade entre as forças democráticas e de esquerda no Brasil. Cultivou relações e intercâmbios com partidos e organizações comunistas e revolucionárias em diferentes continentes.

Como disse o presidente Lula, Renato foi um homem notável, “uma das figuras mais relevantes da história política do Brasil”. Da mesma forma, a ex-presidente Dilma Roussef classificou Renato como “um baiano doce de alma revolucionária, que segue o melhor da tradição comunista, combinando ação e pensamento, teoria e combate, comprometido com o desenvolvimento nacional, a emancipação do povo brasileiro e a construção do socialismo”.

O PCdoB enaltece também o legado do dirigente Márcio Cabreira, que faleceu em 10 de fevereiro, aos 54 anos de idade. Desde a juventude foi um destemido e talentoso lutador das causas da soberania nacional, dos direitos do povo e do socialismo. Pertenceu com notável valor ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) e ao Partido Pátria Livre (PPL). Foi o seu dirigente que fez os primeiros contatos que se desdobraram no histórico processo de integração do PPL ao PCdoB.

Cabreira Integrou o Comitê Central do PCdoB, a Comissão Executiva Nacional, a Comissão Política Nacional, Exerceu as funções de secretário-adjunto de Organização e secretário de Relações Institucionais. Conquistou liderança e admiração do coletivo militante por seu perfil que associava capacidade política, elevado compromisso revolucionário, dedicação incansável e fator de unidade, pelo seu estilo de diálogo e construções.

Os exemplos de vidas tão intensas quanto realizadoras dos camaradas Renato Rabelo e Márcio Cabreira serão seiva viva para fazer avançar o movimento para revigorar o PCdoB.

Um confronto crucial ao presente e ao futuro do país

O PCdoB ressalta que o Brasil, novamente, se encontra diante de dois caminhos antagônicos: o da afirmação da soberania nacional, o que lhe permitirá abrir espaço para um novo ciclo de desenvolvimento soberano, preservando e ampliando a democracia, melhorando fortemente a vida do povo, e o retorno do bolsonarismo, da extrema-direita e os setores a ela associados, com um programa de traição nacional, de regressão neoliberal e neocolonial, sob uma ordem autoritária, com degradação social e cultural crescente. Esse antagonismo está estampado nas pré-candidaturas do presidente Lula, e do serviçal de Donald Trump, Flávio Bolsonaro, ungido pelos banqueiros, pelo capital financeiro e por setores da burguesia agroindustrial.

Vai se confirmando o prognóstico de que a disputa será acirrada, o que exige, desde já, engajamento na batalha do conjunto das forças democráticas, patrióticas e populares. Para PCdoB, a campanha de Lula deve ser à base de uma ampla composição política, social, econômica, cultural, a construção de uma larga frente, impulsionada pela mobilização popular, em defesa de quatro bandeiras: soberania nacional, democracia, desenvolvimento e valorização do trabalho. Combinar a mensagem de esperança com políticas e compromissos focados na forte melhoria da qualidade de vida do povo.

Será necessário repelir e neutralizar a interferência estrangeira, que tende a se manifestar por ações do governo Trump, via as big tech, com chantagens e agressões por diversos meios. Ao mesmo tempo, é preciso travar a luta de ideias para responder aos desafios da guerra cultural empreendida pela extrema-direita.

O confronto será duro, mas o PCdoB está convicto de que, com muita luta, amplitude e sagacidade, a nação e a classe trabalhadora irão conquistar mais uma vitória com a reeleição do presidente Lula.

07 de março de 2026
Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)

As duas cabeças do monstro que assombra o Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/bastioes-da-direita.html

Arte é vida

 

Ademir Martins

Indústria criativa pode perder até 24% das receitas globais por causa da IA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/desequilibrio-tecnologico.html 

Minha opinião

A turma da usura abalada
Luciano Siqueira 

Em breve pausa para um cafezinho no shopping, sou abordado por cidadão de meia idade, de bom trato, como se dizia no século passado:

- Sei que não é do seu ramo, mas pergunto se concorda que o sistema está vazando que nem peneira...

- Que sistema?

- O sistema financeiro, depois desse escândalo do Banco Master.

- Ah, sim...

- Sou das antigas, tudo o que consegui juntar na vida apliquei em imóveis, nunca me arrisquei com ações nem títulos na Bolsa...

A conversa não prosperou, felizmente, porque ambos estávamos apressados. Eu, que já pagando o café; e ele que estava apenas de passagem.

Já a caminho das Graças, dirigindo o carro, imaginei as centenas de milhares (ou milhões?) de pequenos investidores que arriscam suas economias na Bolsa, agora inseguros quanto aos destinos de suas aplicações diante da derrocada do Banco Master, que culminou em liquidação extrajudicial pelo Banco Central no final do ano passado e na prisão de seu controlador, o banqueiro Daniel Vorcaro.

Um dos episódios mais traumáticos para a credibilidade do sistema financeiro brasileiro na última década. Mais do que um caso isolado, a revelação de fissuras institucionais que atingem desde o pequeno investidor até os pilares da regulação estatal.

Tudo como resultado de um modelo de negócios apoiado em práticas que, segundo a Operação Compliance Zero, da Policia Federal, envolvia a fabricação de carteiras de crédito falsas e a oferta de CDBs com rendimentos irreais para captar recursos além da conta.

Mais: a revelação de uma rede de influência que chegava às altas esferas do Estado, incluindo consultorias informais prestadas por servidores do Banco Central justamente responsáveis pela fiscalização.

Ao cidadão comum cabe a pergunta: quem disse que o mercado financeiro é um ambiente de regras iguais para todos? Quando a influência política e vantagens pessoais vêm à tona, os riscos se mostram sistêmicos.

Mais: o impacto no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), cujo desembolso ultrapassa R$ 51 bilhões para ressarcir centenas de milhares de credores, perto de um terço do seu caixa.

Na prática, todo o sistema é atingido, inclusive porque os demais bancos são levados a aumentar seus aportes no Fundo, o que encarece o crédito para o consumidor.

​Enfim, um sistema vulnerável. E duramente atingido em sua credibilidade.

Como Paulo Guedes e o BTG construíram uma bolha bilionária em precatórios https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/a-bolha-dos-precatorios.html

Ciência, tecnologia & desenvolvimento

Quem controla a tecnologia controla o jogo
Porque alguns setores constroem plataformas tecnológicas competitivas em escala global, e outros permanecem presos a posições subordinadas?
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN     

“O progresso técnico não se difunde espontaneamente da economia central para a periferia; ele precisa ser apropriado e internalizado”

Raúl Prebisch [1]

O Brasil não é um país sem exemplos de sucesso industrial. Produz motores elétricos que competem com fabricantes alemães, aeronaves comerciais que disputam mercados globais com empresas norte-americanas e canadenses e controla uma parcela majoritária da oferta mundial de nióbio. Ao mesmo tempo em que se afirmava como grande exportador de minério de ferro, o país não estruturou investimentos compatíveis para convertê-lo internamente em aço de alta qualidade, ligas estratégicas e bens industriais complexos – e, paralelamente, fragmentou um sistema nacional de telecomunicações que, nas décadas de 1970 e 1980, sustentava um dos mais importantes centros de pesquisa aplicada do hemisfério sul.

A questão, portanto, não é ausência de capacidade técnica. É a existência – ou não – de continuidade estratégica.

Neste texto, argumenta-se que a comparação entre as empresas WEG, Embraer, Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), Vale e Telebrás revela um divisor central: controle do núcleo tecnológico contra dependência estrutural em cadeias globais. A Fig. 1 organiza visualmente esse argumento, posicionando as empresas analisadas, segundo dois eixos: domínio do núcleo tecnológico e posição na cadeia

Engenharia como núcleo: o caso WEG

A WEG S.A., fundada em 1961, em Jaraguá do Sul (SC), carrega em seu nome as iniciais dos três jovens empresários catarinenses que a criaram. Nasceu como fabricante de motores elétricos de pequeno porte [2]. Ao longo de seis décadas, transformou-se em uma das maiores empresas globais de equipamentos eletroeletrônicos industriais.

Em 2025, registrou faturamento superior a R$ 40 bilhões, com cerca de 49 mil empregados, dos quais mais de 5 mil engenheiros – a maioria no Brasil [2]. Possui fábricas em mais de 15 países e exporta para mais de 135 mercados.

Mas o que explica sua trajetória não é apenas números.

A WEG estruturou-se com base em um domínio de engenharia própria. Projeto eletromagnético – isto é, o cálculo e a modelagem dos campos magnéticos e elétricos que determinam a eficiência, o torque, as perdas e o desempenho térmico dos motores – tornou-se competência interna. A empresa internalizou capacidades em materiais, eletrônica de potência, automação e integração de sistemas industriais.

Esse ponto é decisivo: não se tratava de montar motores, mas de projetá-los.

A abertura comercial de orientação liberal dos anos 1990 funcionou como um teste de estresse. Muitas empresas industriais tecnicamente competentes não resistiram. O contraste é instrutivo.

A Metal Leve, tradicional fabricante de pistões e componentes automotivos, foi adquirida pela Mahle, grupo alemão, na década de 1990. A Cofap, produtora de amortecedores, foi incorporada pela Magneti Marelli, do grupo Fiat [3]. Ambas eram empresas relevantes, mas estavam inseridas em cadeias globais controladas pelas montadoras.

Quando a liberalização coincidiu com a consolidação internacional da indústria automotiva, o centro decisório deslocou-se para fora do país. Tornaram-se fornecedoras subordinadas em uma arquitetura produtiva que não controlavam.

A diferença entre esses casos e o da WEG não foi ideológica. Foi estrutural: quem controla o projeto do produto controla seu destino.

Estado indutor e preservação tecnológica: Embraer

A Embraer S.A., criada em 1969 como empresa estatal vinculada ao Ministério da Aeronáutica, era parte integrante de um projeto estratégico associado ao ITA e ao Centro Técnico Aeroespacial [4]. Sua missão era desenvolver indúst ria aeronáutica nacional.

Privatizada em 1994, poderia ter sido reduzida a uma montadora. Isso não ocorreu.

Hoje emprega cerca de 19 mil profissionais, mantém centros avançados de engenharia e domina nichos estratégicos como jatos regionais e executivos. O desenvolvimento dos E-Jets – uma classe de aeronaves comerciais regionais a jato – e do cargueiro KC-390 ilustra o domínio de integração sistêmica complexa pela empresa.

A privatização da Embraer foi desenvolvida visando a preservação de seu núcleo estratégico. A União manteve uma golden share com poder de veto sobre decisões sensíveis, a sede e os centros de engenharia permaneceram no Brasil e a empresa continuou integrada ao sistema de defesa nacional, dependente de certificação estatal, do financiamento público e de encomendas militares. Além disso, o mercado aeronáutico é estruturalmente oligopolizado e exige domínio de engenharia própria para competir. Não existe alternativa viável baseada apenas na montagem de componentes importados.

Em outras palavras: na indústria aeronáutica, a engenharia própria não é um diferencial opcional – é condição de sobrevivência competitiva.

Assim como na WEG, a engenharia permaneceu no centro da estratégia empresarial.

Recurso natural ou plataforma tecnológica? Os casos da CBMM e da Vale

A CBMM, sediada em Araxá (MG) e pertencente ao grupo Moreira Salles, controla cerca de 80% do mercado global de ferronióbio. Emprega aproximadamente 1.800 trabalhadores e exporta para mais de 50 países.

Seu diferencial não é apenas a jazida de pirocloro, o minério de onde se extrai o metal. É a decisão de agregar valor metalúrgico, desenvolver aplicações em ligas especiais e investir continuamente em pesquisa aplicada [5].

Transformou um recurso natural em uma plataforma tecnológica.

Já a Vale S.A. é uma das maiores mineradoras do mundo, com receitas superiores a US$ 38 bilhões em 2024 e cerca de 120 mil empregados diretos e indiretos. Sua eficiência logística é notável. Mas seu modelo permanece concentrado na exportação de minério com baixo grau de transformação doméstica. A empresa domina escala e logística; não estruturou, a partir disso, um ecossistema tecnológico equivalente.

A distinção ecoa Prebisch: participar do comércio internacional não é o mesmo que internalizar progresso técnico.

O contraexemplo da ruptura: a Telebrás

Criada em 1972 durante o regime militar, a Telebrás estruturou um sistema nacional integrado de telecomunicações. Seu braço tecnológico, o CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações), reunia mais de mil engenheiros e pesquisadores e foi pioneiro no desenvolvimento de sistemas digitais e de tecnologias de fibra óptica no Brasil [6].

Não sofria de defasagem tecnológica. Em segmentos como a comutação digital e a engenharia de redes ópticas, o CPqD operava próximo à fronteira internacional e desenvolvia soluções próprias, adaptadas à escala continental brasileira. Existia uma coordenação estatal com capacidade real de inovação tecnológica sistêmica.

Com a privatização do Sistema Telebrás em 1998, durante o governo FHC, as operadoras regionais de telefonia fixa e móvel foram vendidas a consórcios formados por grupos privados nacionais e estrangeiros, como Telefónica, Telecom Italia e Portugal Telecom. O antigo sistema integrado foi desverticalizado e fragmentado em empresas regionais sob a regulação da Anatel. Nos anos seguintes, a infraestrutura de telecomunicações – centrais digitais, redes ópticas troncais, backbone nacional e, sobretudo, a telefonia móvel – foi significativamente expandida.

O desenho institucional da privatização foi profundamente distinto daquele da Embraer. O sistema integrado foi regionalizado e o centro de pesquisa separado das operadoras, com a nova arquitetura regulatória sendo concebida sob a lógica da competição e da universalização do acesso, não a da preservação de um núcleo nacional de inovação. Não se tratou apenas de reorganização administrativa, mas de desarticulação estratégica: dissolveu-se o arranjo que concentrava capacidade própria de engenharia sistêmica no setor.

Além disso, diferentemente da indústria aeronáutica, o setor de telecomunicações já era dominado por grandes fornecedores multinacionais de equipamentos (como Ericsson, Siemens e Alcatel). O novo modelo tornou estruturalmente aceitável operar redes adquirindo tecnologia estrangeira pronta. O que antes era um sistema capaz de desenvolver soluções próprias transformou-se em um mercado de integração de tecnologias externas. O núcleo de engenharia deixou de ser prioridade e passou a ser dispensável.

A diferença, portanto, não foi simplesmente “privatizar ou não privatizar”. Foi substituir uma estratégia de autonomia tecnológica por um modelo de inserção subordinada em cadeias globais dominadas por fornecedores estrangeiros.

Ficou provado que manter a capacidade tecnológica sem estabilidade na estratégia não se sustenta.

O padrão que emerge

Observando esses casos em conjunto, emerge um padrão claro. A Tabela 1 sintetiza os dados estruturais que distinguem esses modelos empresariais. Empresas que preservaram domínio da engenharia do produto, reinvestimento consistente, inserção internacional ativa e horizonte estratégico de longo prazo construíram posições globais robustas.

Onde houve subordinação estrutural em cadeias globais ou ruptura institucional abrupta, a capacidade acumulada se dissipou ou foi absorvida externamente.

A diferença entre Embraer e Telebrás não reside no fato de ambas terem sido privatizadas, mas na forma como o Estado tratou o caráter estratégico de cada setor. Na aeronáutica, o núcleo de engenharia foi protegido como um ativo nacional crítico. Nas telecomunicações, a coordenação sistêmica foi desmantelada, sem se estabelecer qualquer mecanismo de preservação da capacidade acumulada.

Onde o núcleo de engenharia foi reconhecido como condição de soberania tecnológica, ele foi preservado. Quando prevaleceu a lógica da abertura irrestrita e da confiança na provisão externa de tecnologia, a capacidade própria foi progressivamente esvaziada.

A escolha que retorna

Os exemplos da WEG, da Embraer e da CBMM mostram que o Brasil pode construir plataformas tecnológicas competitivas. O caso da Vale mostra que alcançar grande escala exportadora não implica, por si só, elevar o grau de complexidade produtiva nem ampliar a participação de setores de média e alta intensidade tecnológica na economia. Já a derrocada da Telebrás evidencia o custo de uma ruptura institucional que não foi acompanhada de mecanismos capazes de preservar as capacidades tecnológicas acumuladas.

O Brasil já demonstrou que pode internalizar progresso técnico. Resta decidir se fará disso regra – ou exceção.

Bibliografia

1.  Prebisch, R., The Economic Development of Latin America and its Principal Problems. 1950, New York: United Nations.

2.  Weg, S.A., Relatório Anual 2024. 2024, WEG: Jaraguá do Sul.

3.  Suzigan, W. e J. Furtado, Política industrial e desenvolvimento. Revista de Economia Política, 2006. 26(2).

4.  Dagnino, R., A indústria aeronáutica brasileira. 2007, Campinas: Unicamp.

5.  Cbmm, Relatório de Sustentabilidade 2023. 2023, CBMM: Araxá.

6.  de Melo, J.M., História das telecomunicações no Brasil. 2014, São Paulo: Intercom.


Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Riqueza estratégica para o desenvolvimento soberano https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/editorial-do-vermelho_20.html

Palavra de poeta

Até mesmo

Anne Morrow Lindbergh      

 

Aquele que amo, desejo que seja
livre:

Livre como um ramo despido
no alto de uma árvore,
alheio à luta entre os galhos
que se agitam em busca da luz.
Livre da escura mortalha,
onde tombam as sombras –
voltado para o olho dourado
do céu.
Livre como a gaivota,
sozinha num sopro de ar,
invisível,
onde
ninguém poderá tocá-la,
nenhuma voz alcançá-la,
ninguém vir
surpreendê-la.

Livre como uma folha
de grama,
em meio ao verde,
anônima,
entre inúmeras iguais,
que se espicham, se alinham,
recobrindo a terra,
felizes,
apontando o azul,
repartindo o sol,
envoltas,
ainda, uma a uma,
em frescas gotas
de orvalho.

Aquele que amo, desejo que seja
livre –
até mesmo de mim.

[Ilustração: Angel Cestac]

Leia também: "Solidão", poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-de-poeta_22.html