18 julho 2026

Minha opinião

¡Vamos, Argentina!
Luciano Siqueira    

“Confira aqui: a Folha lhe ajuda a escolher por qual seleção torcer na final da Copa do Mundo.”

O "convite" está no caderno esportivo da versão online do jornal paulista.

Não li, passei adiante.

Superei a curiosidade de saber como — será por um robô? — poderia confortavelmente abrir mão dos meus sentimentos e juízos de valor e fugir ao desafio da escolha.

Escuto de amigos muitos argumentos favoráveis à Argentina e outros tantos em favor da Espanha. Poucas razões objetivas e muita subjetividade, como é próprio da paixão que arrebata os espíritos no futebol.

Tudo bem. Num mundo tão complexo, palmilhado de infelicidade, a opção por este ou aquele lado num jogo da dimensão da final da Copa do Mundo chega a ser um bálsamo. 

Por que então transferir o desafio para um mecanismo qualquer, talvez de inteligência artificial, adotado pelo jornal como que para facilitar a vida do torcedor brasileiro, mais uma vez excluído da final da Copa do Mundo?

Ora, as emoções dão cor à vida. A dúvida é criativa e a decisão liberta. 

Eu mesmo, ao invés de cotejar argumentos fundamentados a favor de um lado ou de outro, neste domingo serei 100% Argentina, em defesa dos povos colonizados do subcontinente sul-americano contra a Espanha colonizadora.

Mais: se o time de Lionel Messi vencer, na Buenos Aires de apenas 13 mil habitantes, na Zona da Mata Norte pernambucana (retratada no filme “Buenosaires”, dirigido por Tuca Siqueira, recém-lançado), onde há um Boca Juniors com torcida organizada, rolará muita euforia e cachaça.

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Quando Buenos Aires viu “Buenos Aires”, de Tuca Siqueira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/buenos-aires-o-filme.html

Editorial do 'Vermelho'

Governo Lula defende o Brasil contra o tarifaço Trump-Bolsonaro
Pesquisa aponta que maioria do povo responsabiliza Flávio Bolsonaro pelas tarifas. Cresce apoio a Lula, enquanto o neofacista perde apoio
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br
   

O governo de Donald Trump, dos Estados Unidos, oficializou a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, que entrará em vigor em 22 de julho, em um anúncio carregado de hostilidades. É preciso lembrar que o itinerário dessa decisão contou com a participação do candidato a presidente da extrema direita, Flávio Bolsonaro, que esteve na Casa Branca com Trump, acompanhado de seu irmão foragido Eduardo Bolsonaro e de outro comparsa, Paulo Figueiredo, em 26 de maio de 2026, e, mais recentemente, em 7 de julho, na conferência do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), quando somente ele, entre dezenas que usaram a palavra, não apresentou restrições às tarifas.

O secretário de Estado do governo Trump, Marco Rubio, disse nas redes sociais que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva Lula e seu governo “não negociaram com os Estados Unidos de boa-fé” ao pôr “seu próprio ego acima da realização de um acordo”. A publicação foi respostada por Flávio Bolsonaro, mais um lance de total subserviência à uma potência estrangeira que ataca o Brasil.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, disse que “desde o primeiro momento o presidente Lula buscou diálogo e enfatizou sua disposição de negociar”. As declarações do Secretário de Estado “são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros”, afirmou, ressaltando que só com Rubio e o representante de comércio, Jamieson Greer, foram 11 contatos, incluindo o encontro entre Lula e Trump na Casa Branca. “Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo”, protestou.

Uma nota da Secretaria de Comunicação da Presidência afirmou que “o dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e Estados Unidos como um marco lastimável”. “Não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país. Segundo estatísticas do próprio governo norte-americano, os Estados Unidos acumularam nos últimos 15 anos US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil”, destaca.

Em 2025, de acordo com a nota, 76% das importações originárias dos Estados entraram no país sem pagar imposto de importação, e a alíquota média efetivamente aplicada sobre produtos norte-americanos foi de apenas 3,1%. “O Brasil não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio. Apesar disso, nunca deixamos a mesa de negociação para defender os interesses nacionais”, afirma.

De acordo com a nota, “o governo do Brasil seguirá adotando medidas para reduzir os danos causados à economia e à renda dos brasileiros”. “Continuaremos a diversificar parcerias comerciais e a abrir novos mercados para nossos produtos, como fizemos ao firmar acordos do Mercosul com a União Europeia, a Associação Europeia de Livre Comércio e Singapura. Por meio do Plano Brasil Soberano, manteremos medidas de proteção aos setores afetados por tarifas ilegais e arbitrariamente impostas pelo governo dos Estados Unidos, preservando empregos e a capacidade produtiva nacional.” O governo brasileiro asseverou também que acionará a Lei da Reciprocidade.

Os produtos atingidos incluem etanol, máquinas agrícolas, roupas e calçados e material elétrico. O presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), Ricardo Alban, disse, em comunicado, que as tarifas prejudicam as empresas nos dois países. A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) calcula que a medida deve afetar mais de US$ 11 bilhões em exportações da indústria e do agronegócio, e classificou a decisão como um resultado “muito negativo” para a relação bilateral entre os dois países.

Por sua vez, Paulo Skaff, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em vez de sair em defesa da indústria paulista, optou por atacar o governo brasileiro. Responsabilizou o presidente Lula, levianamente, sem base na realidade, pela decisão dos Estados Unidos. Skaff apoiou Jair Bolsonaro tanto em 2018 quanto em 2022. Mais uma vez, confirma sua conduta antipatriótica e de subordinação ao imperialismo estadunidense.

As alegações de práticas desleais de comércio pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos são falsas. A começar pelo Pix, sistema que prescinde de operadoras de cartões de crédito e empresas de tecnologia – como a Visa e a Apple –, público, aberto e seguro, que protege a população de taxas e serviços digitais. “O Pix é um patrimônio do nosso povo e referência internacional de infraestrutura pública digital”, disse a nota do Palácio do Planalto.

Da mesma forma, são falaciosos os argumentos de que no Brasil os problemas relacionados à corrupção, comércio digital e desmatamento não são tratados adequadamente, além de aberta ingerência em assuntos internos com a indisfarçável tentativa de ajudar Flávio Bolsonaro.

A nota do Palácio do Planalto afirma que os Bolsonaro “são falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros. Não se pode amar o Brasil apenas quando vencemos eleições. Proteger a nossa soberania é uma obrigação que está acima de todos os partidos e todas as tendências. O governo brasileiro não vacilará em seu dever de preservá-la.”

Uma pesquisa Genial/Quaest, divulgada na quinta-feira (16), revela que a maioria dos brasileiros atribui a Flavio Bolsonaro a decisão dos Estados Unidos: 51% citaram Lula e 30% o candidato da extrema direita. Mesmo entre os eleitores bolsonaristas houve queda na aprovação das ações de Flávio Bolsonaro. Outro dado relevante é a constatação de que seis em cada dez brasileiros (63%) acreditam que o tarifaço vai prejudicar sua vida e a de suas famílias.

Sobre a corrupção, é preciso constatar que o Judiciário brasileiro tem atuado com rigor na aplicação dos preceitos do Estado Democrático de Direito, tanto na anulação dos abusos da Operação Lava Jato quanto na punição ao golpismo bolsonarista. Sobre o desmatamento, no ano passado houve um recuo para o menor nível desde 2019 e ficou, pela primeira vez, abaixo da barreira de um milhão de hectares. “O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023, combatemos de forma incisiva os ilícitos ambientais e reduzimos drasticamente o desmatamento em todos os biomas brasileiros”, afirma a nota.

A proteção da propriedade intelectual e a aplicação de regras para as big techs igualmente seguem princípios de soberania e do direito constitucional. “No Brasil, não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas. A liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade”, diz a nota.

Lideranças do campo patriótico, popular e democrático ergueram a voz em defesa do país. A exemplo da presidente interina do PCdoB Nádia Campeão. “A medida (o tarifaço) é um ataque descarado dos Estados Unidos com o claro objetivo de interferir nas eleições em favor da família Bolsonaro”, disse ela numa postagem nas redes sociais. Acrescentou, ainda, que o Brasil se manterá de cabeça erguida e “defenderá a soberania nacional”. Concluiu asseverando que os comunistas seguirão denunciando as ações dos Estados Unidos contra a soberania nacional, denúncia “contra todos aqueles que dão as costas ao Brasil.”

Desde o ano passado, Flávio Bolsonaro, seu clã e a extrema-direita comemoram os tarifaços e demais agressões do governo Trump contra o Brasil. Em documento assinado, o candidato da extrema direita disse que, se eleito, disponibilizará uma equipe de transição a Trump, uma “generosa oferta”, segundo Marco Rubio. Chegou ao descaramento de afirmar que seriam bem-vindas ações militares dos Estados Unidos no litoral do Rio de Janeiro. Está claro, como a luz do sol, que a essência de seu programa de governo é a entrega das riquezas do Brasil aos Estados Unidos.

Por tudo isto, a soberania nacional é o ponto chave das eleições presidenciais. Com ela, o país reforça a democracia e o papel do Estado como indutor do desenvolvimento nacional e barreira contra investidas da direita e da extrema direita entreguistas e sabotadoras do futuro da nação e do povo.

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Competente, corajosa, múltipla https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/combativa-sem-perder-leveza-jamais.html 

Sylvio: Copa do Mundo

Em manchete "Spain is brilliant, but Argentina has Messi", o New York Times resume o que vai ser a decisão  da Copa do Mundo. De um lado, o ótimo futebol espanhol e do outro o mais completo jogador do mundo atualmente. 

Sylvio Belém 

Governo obriga alerta de dependência em publicidade de apostas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/restricoes-as-bets.html 

Humor de resistência

 

Miguel Paiva

Conflito sem limites https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_02106193163.html 

Urariano Mota opina

A vitória contra os nazistas
Da Conferência de Potsdam à visita de Lula a Moscou, a memória da derrota do nazismo é associada à luta antifascista, ao legado soviético e à resistência comunista.
Urariano Mota/Vermelho      

Os registros históricos indicam que a Conferência de Potsdam aconteceu em Potsdam, Alemanha (perto de Berlim), a partir do dia 17 de julho de 1945. Os participantes foram os Aliados vitoriosos da Segunda Guerra Mundial, entre os quais Stalin se destacou com o glorioso Exército Vermelho.

Agora e sempre é o momento de se manter firme contra toda a propaganda dos países capitalistas: essa vitória esmagadora do Exército Vermelho sobre os nazistas não teria existido, é claro, sem a Revolução de 1917.

Assim falam os personagens no romance “A mais longa duração da juventude”, que narra a juventude ardorosa contra a ditadura brasileira. Eles refletem no Recife o heroísmo da resistência mundial, soviética ao nazismo:

“A revolução de 1917 deve muito à condução prática de Lênin. Ou não? – Alberto fala. Ele é a própria contradição de Mao Tsé-Tung. Imprevisível, ele vai de um ponto a outro feito mercúrio de termômetro, ora frio, ora quente. Zacarelli tenta acompanhar as oscilações da escala Celsius:

– É claro. Sem Lênin, não havia 1917

– Danou-se. – me espanto. – Ele fez o tempo? Não deve ter sido assim.

– Lênin foi fundamental, rapaz! – Alberto quase supera o volume da wurlitzer. – Sem ele, não tinha 1917.

– Assim… – Zacarelli dá um passo à frente, dois atrás. – Assim… não é que sem ele não haveria a revolução. Mas sem ele a revolução não teria a cara que venceu na história”.

Então, a resistência para o conjunto dos jovens socialistas no Brasil era a memória transmitida pelos mais velhos comunistas, de um modo mais clandestino em conversas com a voz baixa e panfletos ocultos. Recebíamos a herança como um DNA da cultura e da história. Ninguém possuía relatos como “A guerra não tem rosto de mulher” de Svetlana Aleksiévitch, por exemplo:

“Estávamos atravessando a Prússia Oriental, todos já estavam falando da Vitória. Ele morreu … Morreu instantaneamente … Pelos estilhaços … Morte instantânea. Em um segundo. Me informaram que o corpo tinha sido trazido, corri para lá … Eu o abracei e não deixei que o levassem. Para enterrar. Na guerra, faziam os enterros logo em seguida: no dia da morte, se a batalha era rápida, juntavam todos na hora, traziam de todos os lugares e cavavam uma grande fossa. Cobriam. Às vezes, só com areia seca. E se você olhasse muito tempo para essa areia, parecia que ela se mexia. Tremia. A areia sacudia. Porque lá … Para mim, ainda havia gente viva, estavam vivos havia pouco. Eu os via, falava com eles … Não acreditava … Todos nós andávamos por ali e não acreditávamos que eles tinham ido para lá … Lá onde?

Não permiti que ele fosse enterrado ali. Queria que ainda tivéssemos mais uma noite. Deitar ao lado dele. Olhar … Afagar …

De manhã … Decidi que o levaria para casa. Para a Bielorrússia. E isso ficava a milhares de quilômetros. Estradas de guerra … Uma confusão … Todos acham que eu tinha ficado louca de tanta dor. ‘Você precisa se acalmar. Tem que dormir’. Não! Não! Eu ia de um general a outro, e assim cheguei ao comandante do front, Rokossóvski. No começo ele recusou … Estava louca! Quantos já estavam enterrados em valas comuns, em terras estrangeiras …

Tentei mais uma audiência com ele:

‘Quer que fique de joelhos?’

‘Eu entendo … Mas ele já está morto …’

‘Não tive filhos com ele. Nossa casa foi reduzida a cinzas. Até as fotografias foram perdidas. Não ficou nada. Se eu o levar para a nossa terra, restará ao menos o túmulo. E vou poder voltar para lá depois da guerra.’

Ele ficou calado. Andava pelo gabinete. Andava.

‘O senhor já amou alguma vez, camarada marechal? Eu não estou enterrando meu marido, estou enterrando meu amor.’

Silêncio.

‘Senão, também quero morrer aqui. Para que vou viver sem ele?’

Ele passou muito tempo calado. Depois, se aproximou e beijou minha mão.

Deram-me um avião especial por uma noite. Entrei no avião … Abracei o caixão… E perdi a consciência.

Efrossínia Grigórevna Breus, capitã, médica”

Mas em 1970 a juventude mais bela que este narrador conheceu era de militantes com ardor, pobreza e perseguição do Estado. Como nesta página do romance A mais longa duração da juventude:

“- O companheiro Célio não tem onde dormir.

– Sei – respondo. E olho para todos, que são Célio, Selene e Luiz do Carmo. Mas todos olham para mim. Eu sou a salvação escolhida. E gaguejo, numa pretensão de resposta:

– Olha, no meu quarto só tem uma cama. – Silêncio nos olhos fitos em mim. E continuo: – É um calor infernal. A gente sua em bicas.

Ela me responde:

– É bem melhor que dormir na rua. O companheiro está clandestino e pode ser preso.

 – Sei. Mas como ele pode dormir? Só pago uma vaga.

Eu ainda não havia aprendido que no movimento clandestino as dificuldades se contornavam. Que haveria sempre um drible esperto. E que as dificuldades legais – o “moralismo burguês” – tinham que ser superadas pela esperteza. Aliás, esperteza, nada, apenas uma ação necessária para a ética da revolução. Roubo, furto, nada disso existia. Expropriação era o nome. E se fosse o furto para um indivíduo? Ainda assim, porque os indivíduos da revolução já estavam desculpados pelo uso irrecorrível de uma ferramenta para a vida clandestina: livros, carro, carteira de identidade, roupas, alimentos, todas as coisas de terceiros estavam sob a mira da sobrevivência do militante. E eu vinha falar que só uma pessoa podia dormir na sauna, porque eu pagava só uma vaga.

– Companheiro… – e a precoce revolucionária me fala didática, do alto da sua experiência provada. – Companheiro, ele sobe com você mais tarde, sem barulho. E qualquer coisa que acontecer é um amigo de visita. Antes que a dona da pensão acorde, ele já estará fora da pensão. Certo?

– Certo – mal falo. A clandestinidade tinha suas leis, todas fora da lei. Eu aprenderia”.

Mas em 9 de maio de 2025 chegamos com Lula, um presidente progressista, à visita a Moscou. Chegamos. Portanto, não perguntem por quem os sinos dobram. Não perguntem jamais se valeu a pena.

*Texto publicado em inglês no The Left Chapter Victory against the Nazis

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Avanço do comércio internacional chinês desafia barreiras dos EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/china-x-eua.html 

Sylvio: falsidade

É cada vez mais difícil de entender a posição do senador Flávio Bolsonaro, em relação ao absurdo tarifaço imposto por Trump ao Brasil. É  favorável, mas não pode demonstrar por conta das eleições. Assim, finge ser contra e, pasmem, acusa o presidente Lula de ser o responsável, justamente ele que adotou uma firme posição contrária desde o início. 

Sylvio Belém   

Pesquisa mostra Lula à frente em todos os cenários para 2026 https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bons-sinais.html

Palavra de poeta

Soletrando no escuro a tua voz
Jaci Bezerra   


O amor, por vezes, causa dano
enquanto a noite acesa passa
deixando atrás o desengano
brisa que dorme e que se esgarça
ainda assim, dentro do inverno,
sempre abrasado amor eterno.

Na noite longa, quando passas,
é luminoso todo o inverno
e o coração que não se esgarça
mais do que luminoso, é terno.

Ramo de luz, meu desengano
foi te causar um dia dano.

É meu o luminoso inverno
e o passageiro desengano.

O teu rosto, dourado e terno,
acima paira desse dano,
pois tua mão serena esgarça
minha ternura quando passas.

Ao escutar meu desengano
deixas à margem, quando passas,
o lodo e o limo desse dano
que o vendaval do tempo esgarça
e traz, lavado pelo inverno,
um rastro de ternura eterno.

A tua voz doída esgarça
palavras no abrasado inverno,
doendo, inteira, quando passas
escondendo os teus olhos ternos.

Dói, meu amor, o desengano
que mágoa te causou, e dano.

Sinto que é longo e que é eterno
meu sofrimento quando passas
na correnteza desse inverno
que o vendaval do tempo esgarça,
por isso dói meu desengano
quando te causo mágoa e dano.

 
[Ilustração:
Edvard Munch]

Leia também um poema de Pablo Neruda https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/palavra-de-poeta_30.html