27 fevereiro 2026

Minha opinião

Minha amiga Agatha
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65      

Amigos e amigas que adotei por conta própria, unilateralmente. Muitos já se foram, outros tantos permanecem vivos e ativos. Sempre possível reencontrá-los na estante de nossa biblioteca.

Agatha Christie da parte da turma mais antiga. Desde a minha adolescência. Depois, nos ensaios de amadurecimento de indivíduo adulto, ganhou mais importância ainda pela narrativa impar, pelo dom de me fazer refletir sobre a vida e as pessoas.

Críticos literários ensaiam análises diversas sobre a sua obra. Alguns a consideram elegante, simétrica e lógica. Pode ser.

A mim sempre impressionou o ponto de partida – a ocorrência de um crime – e as possibilidades quanto a quem o praticou. Muito parecido com o que aprendi em reuniões clínicas durante o curso médico, particularmente no exercício do diagnóstico diferencial. Afinal, qual a enfermidade que abatia o paciente portador de sinais clínicos comuns a várias?

Em muitas das suas obras os diversos personagens se mantinham sob a mesma mira, todos suspeitos e sob a fina observação da natureza humana pelo detetive Hercule Poirot ou pela Miss Marple. Ao final, através da compreensão de sentimentos e motivações próprios dos humanos, a descoberta de quem praticara o crime.

E um aviso de certo modo dramático e inquietante: mesmo a mais simplória das personalidades pode impelir o indivíduo a cometer um crime. Qualquer um. Inclusive o amigo ou a amiga com que se toma um café um Martini em fim de tarde.

Tudo parece relativizado, a despeito da dramaticidade de suas tramas.

Quase como uma afirmação ingênua da ética na sociedade desigual e fria, impulsionada pelo ideal do lucro máximo, Agatha invariavelmente conduz a narrativa a um clímax em que a justiça afinal triunfa.

De toda forma, amiga Agatha, tudo é possível sobre o chão do nosso planeta.

Leia também: O mundo cabe numa Organização de Base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html

Postei nas redes

Transloucado tarifaço de Trump abre mais espaço para a expansão das relações comerciais da China nos cinco continentes. 

China: Autossuficiência tecnológica e mercado interno https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/china-em-ascensao.html   

Quem bloqueou quem?

Detalhe irrelevante
Luciano Siqueira  
instagram.com/renatosq.escritor   

Matéria de certo destaque do Globo, que me aparece na tela do computador, convida o leitor a descobrir se alguém o bloqueou no WhatsApp. E completa: truque nas configurações da conversa dá a dica.

Há alguns poucos anos atrás esta certamente não era uma questão relevante. Nem havia a comunicação digital como hoje a conhecemos e, portanto, o cancelamento do interlocutor se dava de modo explícito, ao vivo e a cores. 

Ora, se é assim que as relações entre as pessoas acontecem, por que alguém esconderia que por alguma razão teria me bloqueado no WhatsApp? Muito mais fácil seria deixar explícito. 

É o que fiz nas pouquíssimas vezes em que me vi na necessidade de interromper fluxo de mensagens que não apenas não me interessavam, em absoluto, como sugeriam certos indícios de algo errado ou mesmo simples má intenção. 

Gente desconhecida, completo. 

De outra parte, se alguém me bloqueia é porque deve ter tido razões para tanto e já não faz sentido que eu insista em manter o contato. 

Jamais forcei a barra para ter a atenção de alguém que, por razões diversas, preferisse me ignorar. 

Melhor empatar o jogo. A rejeição mútua encerra o assunto e não há a menor necessidade de aprender truques contidos no aplicativo. 

E a vida segue.

Leia também: “Vivos, lúcidos e ativos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/minha-opiniao_18.html

Thiago Modenesi opina

Quadrinhos para refletir, formar senso crítico e novos leitores
Histórias em quadrinhos deixam de ser mero entretenimento e se afirmam como ferramenta essencial para formar novos leitores, ampliar o senso crítico e fortalecer o hábito da leitura.
Thiago Modenesi/Vermelho   

Tive a felicidade de ser apresentado a vários bons livros na minha infância e adolescência, isso se deu quase simultaneamente a minha descoberta das histórias em quadrinhos. 

Li A Droga da Obediência, Meninos sem Pátria, clássicos de Machado de Assis e Aluísio Azevedo, Vito Grandam, de Ziraldo, do qual também degustei O Menino Maluquinho e vários outros. Tudo isso mais ou menos nos mesmos anos em que conheci O Lobo Solitário, na sua primeira versão, publicado em formato americano pela Editora Cedibra, American Flagg, de Howard Chaykin, O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, que completou 40 anos de publicado em 2026, os quadrinhos nacionais de Laerte, Angeli e Glauco que brilhavam nas páginas da Chiclete com Banana e os nostálgicos formatinhos, publicados pela Editora Abril, trazendo quadrinhos da Marvel e DC, os álbuns europeus que chegavam por aqui importados pela Meribérica do Brasil, uma subsidiária da editora portuguesa Meribérica/Líber, e outros milhares que aprec io até o presente.

Durante décadas, as histórias em quadrinhos foram vistas com certo preconceito, rotuladas como um mero passatempo infantil ou um gênero menor dentro da literatura. No entanto, essa visão não poderia estar mais distante da realidade atual, e também já foi bastante superada academicamente. Hoje, as HQs não apenas conquistaram seu espaço como a Nona Arte, mas também se consolidaram como uma ferramenta ainda poderosa e essencial para a formação de novas gerações de leitores.

Dezenas de pequenas e grandes editoras inundam a internet e lojas especializadas com quadrinhos para todos os gostos, infelizmente não o fazem como antigamente em bancas de jornal, porque essas se tornaram cada vez mais escassas, mas nunca tivemos um cardápio tão vasto e variado como o que vemos a partir dos anos 2000 em nosso país.

O universo dos quadrinhos passou por uma transformação significativa. Longe de se limitarem a super-heróis e tramas simplórias, os romances gráficos contemporâneos (também chamadas de graphic novels, alguns acreditam que O Contrato com Deus, de Will Eisner, pode ter sido o marco zero desse formato e alcunha) abordam temas profundos e complexos, como memória, identidade, luto e política. Obras como Maus, de Art Spiegelman (que venceu o Prêmio Pulitzer), Persépolis, de Marjane Satrapi, Watchmen, de Alan Moore e Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá, são provas cabais de que os quadrinhos podem alcançar o mesmo nível de sofisticação e relevância dos melhores romances da literatura tradicional.

Essa diversidade temática é o primeiro grande atrativo para cativar novos leitores. Para uma criança ou um adolescente, a barreira de entrada para um livro denso ainda pode ser grande. A combinação sinérgica entre texto e imagem auxilia na compreensão da narrativa, enriquece o vocabulário e desenvolve o letramento visual, uma habilidade cada vez mais necessária em um mundo dominado por telas e estímulos rápidos. Ao ler uma HQ, o jovem leitor não está apenas decodificando palavras, mas interpretando cores, traços e enquadramentos, exercitando a leitura em múltiplas camadas.

Além disso, ao crescerem e descobrirem que as HQs também falam com os adultos, esses leitores mantêm o contato com o hábito da leitura. Eles percebem que o formato não é algo a ser deixado de lado com a maturidade, mas sim um meio que amadureceu junto com eles. Essa continuidade é vital: um leitor que se sente representado e desafiado pelas histórias que consome dificilmente abandona os livros.

Portanto, incentivar a leitura de histórias em quadrinhos é, acima de tudo, incentivar o prazer de ler. Seja pela fantasia descompromissada que diverte ou pela narrativa profunda que faz refletir (e por vezes ganha prêmios), os quadrinhos formam leitores mais críticos, criativos e preparados para o mundo. E, no final das contas, o que importa não é o formato, mas a magia da história que ele carrega e a sua capacidade de formar, entre crianças e adultos, uma sociedade de leitores.

Parece algo óbvio, mas no momento em que se lê pouco, e o nosso país ainda está entre os que leem muito pouco, e as redes sociais e internet tomam praticamente todas as atenções de crianças, jovens, adultos e idosos, a defesa da leitura e da busca por novos leitores é uma necessidade basilar para termos cidadãos com mais e melhores condições de interpretar e transformar a realidade.

Mergulhar fundo para avançar na superfície https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/11/meu-artigo-no-portal-da-fundacao.html

Humor de resistência

 

Aroeira

"Por onde anda Marcianita?" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/minha-opiniao_22.html 

26 fevereiro 2026

Palavra de poeta

Soneto para Greta Garbo
(em louvor da decadência bem comportada)
Carlos Pena Filho 

Entre silêncio e sombra se devora
e em longínquas lembranças se consome
tão longe que esqueceu o próprio nome
e talvez já não sabe por que chora

Perdido o encanto de esperar agora
o antigo deslumbrar que já não cabe
transforma-se em silêncio por que sabe
que o silêncio se oculta e se evapora

Esquiva e só como convém a um dia
despregado do tempo, esconde a tua face
que já foi sol e agora é cinza fria

Mas vê nascer da sombra outra alegria
como se o olhar magoado contemplasse
o mundo em que viveu, mas que não via.

Veja: Chico Pinheiro entrevista Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/chico-pinheiro-entrevista-cida-pedrosa.html 

Celso Pinto de Melo opina

A crise brasileira e a reconstrução da Escola
Em meio a seu fracasso educacional, país debate, há muito, “projetos pedagógicos”. Não é disso que se trata. A transformação do ensino não pode partir dele mesmo, mas de uma opção radical pela igualdade. Há caminhos para tanto
Celso Pinto de Melo/Outras Palavras   

“A equidade na educação não é apenas uma questão de justiça social;
é condição para a coesão democrática”
Andreas Schleicher [1]


Este artigo integra uma série de quatro textos dedicados a discutir os impasses estruturais da educação brasileira e as condições políticas para uma reforma educacional de longo prazo. Neste primeiro texto da série, como a escola pública deve ser entendida como infraestrutura democrática e pacto de cidadania.

Educação além da política setorial

Há momentos históricos em que sociedades percebem que a escola pública não pode continuar a ser tratada como um mero serviço administrativo do Estado. Em contextos de reconstrução nacional, transições econômicas profundas ou risco de fragmentação social – como ocorreu na Finlândia e no Japão no pós-guerra, ou na Coreia do Sul após o conflito coreano – a educação passa a ser vista como infraestrutura estratégica de coesão social, mobilidade e pertencimento cívico, e não apenas como política setorial [1, 2]. 

Quando a desigualdade social é profunda, o direito formal à educação torna-se insuficiente. Crianças entram pela mesma porta da escola, mas saem para mundos radicalmente distintos. Nessas condições, a escola deixa de ser um espaço de encontro e passa a operar como um mecanismo silencioso de triagem social. Não é apenas a mobilidade que se rompe, mas sim a própria ideia de comunidade política compartilhada.

Quando a desigualdade se torna problema de sistema

Foi diante desse dilema que alguns países, ao longo da segunda metade do século XX, decidiram enfrentar a desigualdade educacional não como fatalidade histórica, mas como falha de arquitetura institucional. A pergunta que se colocaram não foi simplesmente “como melhorar a educação”, mas algo mais incômodo: que tipo de desigualdade o sistema escolar está autorizado a produzir e legitimar?

A experiência da Finlândia é emblemática. Até meados do século passado, o país mantinha um sistema educacional dual, seletivo e socialmente estratificado. A reforma iniciada no final dos anos 1960 não resultou de entusiasmo pedagógico abstrato, mas de uma decisão política clara: não é aceitável que o destino educacional – e, por extensão, social – seja definido cedo demais. A resposta foi a construção de uma escola comum, longa e exigente, sustentada por investimento deliberado na formação, na autonomia e no prestígio social dos professores. A equidade não apareceu como correção posterior, mas como princípio de projeto [2].

Equidade como princípio de projeto

A Coreia do Sul seguiu um caminho distinto, marcado pela urgência da reconstrução nacional, pela escassez de recursos e por uma intensa pressão social pela escolarização. Ainda assim, enfrentou o mesmo problema estrutural: a desigualdade entre as escolas. A política de equalização do ensino médio, com regulação da seleção e redistribuição de oportunidades, expressou a mesma intuição fundamental: não basta expandir o acesso se o sistema continua a produzir hierarquias educacionais rígidas e socialmente previsíveis [3, 4].

Esses casos estão longe de serem modelos perfeitos. Enfrentaram resistências, produziram efeitos colaterais e exigiram correções de rumo. Ainda assim, compartilham um traço decisivo: trataram a desigualdade educacional como um problema sistêmico, e não como uma falha individual dos estudantes ou déficit moral das famílias.

O mito da neutralidade escolar

Como mostraram Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, sistemas escolares aparentemente neutros tendem a converter desigualdades sociais prévias em desigualdades escolares “legítimas”, apresentadas como resultado de mérito individual [5]. As grandes reformas educacionais do século XX podem ser lidas como tentativas – sempre imperfeitas, mas politicamente conscientes – de interromper esse mecanismo de reprodução da desigualdade.

Vale notar também o que essas reformas não fizeram. Elas não começaram por tecnologia, nem por avaliações punitivas, nem por slogans de eficiência. Começaram por decisões de alto nível que redesenharam o sistema educacional em torno de alguns eixos recorrentes: mais tempo de escola comum, professores como eixo da qualidade, financiamento redistributivo, governança estável e avaliação voltada à melhoria, não à exclusão [1, 6]. 

Os bloqueios estruturais do caso brasileiro

No Brasil, esses dilemas assumem contornos particularmente complexos. Um obstáculo central para qualquer reforma educacional orientada à equidade reside na condição material, profissional e simbólica do magistério. Até hoje, não houve um projeto nacional consistente que articule formação inicial, formação continuada, carreira, remuneração, reconhecimento social e condições de trabalho como partes de uma mesma arquitetura institucional. Sem enfrentar esse nó estrutural, toda promessa de equidade tende a se dissolver na retórica.

A desigualdade educacional brasileira também é profundamente territorial. As condições de funcionamento das escolas – bibliotecas, laboratórios, conectividade, saneamento – variam drasticamente entre regiões, redes e contextos urbanos e rurais. Falar em equidade sem enfrentar essas assimetrias materiais é ignorar que o direito à aprendizagem começa pelo direito a uma escola minimamente equipada.

Há ainda uma contradição estrutural difícil de contornar: enquanto as classes de maior renda recorrem majoritariamente ao ensino privado de melhor qualidade, a escola pública tende a ser percebida como alternativa residual. Essa segregação educacional fragiliza a legitimidade política da escola pública e esvazia sua função como espaço comum de formação cidadã. Experiências internacionais indicam que reformas orientadas à equidade exigem, em algum grau, o fortalecimento da escola pública como referência compartilhada – inclusive pelas classes médias.

Tecnologia, risco e soberania cognitiva

A esses desafios soma-se um novo elemento. A escola deixou de ser o principal ambiente de circulação do saber. Crianças e jovens vivem imersos em plataformas digitais, algoritmos e sistemas de recomendação. Silenciosamente, a inteligência artificial já participa da formação de expectativas, da atenção, da linguagem e das visões de mundo.

Isso cria um risco e uma oportunidade.

O risco é imaginar que as plataformas e a inteligência artificial irão substituir uma política educacional que nunca foi feita. Sem um projeto explícito de equidade, a tecnologia tende a amplificar desigualdades já existentes, agora com aparência de modernização.

A oportunidade é reconhecer que a cidadania do século XXI inclui uma dimensão nova: soberania cognitiva – a capacidade de compreender, verificar, argumentar e decidir em ambientes informacionais complexos, sem subordinação à desinformação, à opacidade algorítmica ou à dependência tecnológica.

Equidade como escolha política

Nada disso será resolvido por decretos rápidos ou por soluções mágicas. As reformas educacionais que mudaram países levaram décadas. Mas deixaram uma lição clara: a equidade educacional não é subproduto do crescimento econômico; é uma escolha política de longo prazo, que redefine a integração nacional e o próprio sentido de cidadania.

Este texto abre uma série de reflexões sobre educação como pacto nacional. Nos próximos artigos, serão discutidos os desafios específicos do caso brasileiro e os contornos de uma agenda de possível transformação educacional compatível com a diversidade do país e com os desafios do século XXI.

Bibliografia


1.  OECD, Equity in Education: Breaking Down Barriers to Social Mobility. 2018, Paris: OECD Publishing.

2.  Sahlberg, P., Finnish Lessons 3.0: What Can the World Learn from Educational Change in Finland? 2021, New York: Teachers College Press.

3.  Korea Educational Development, I., Analyzing the Effects of the High School Equalization Policy (Lottery and Allocation System). 2004, Korea Educational Development Institute: Seoul.

4.  Kim, S. e J.-H. Lee, The Secondary School Equalization Policy in South Korea. KDI Journal of Economic Policy, 2002. 24(2): p. 1–30.

5.  Bourdieu, P. e J.-C. Passeron, La reproduction: éléments pour une théorie du système d’enseignement. 1970, Paris: Éditions de Minuit.

6.  OECD, Equity and Quality in Education: Supporting Disadvantaged Students and Schools. 2012, Paris: OECD Publishing.

Foto: Sebastião Salgado

Leia também: As corporações querem professores-robôs https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/ensino-ad-precarizacao.html