22 abril 2026

Sylvio: destaque

A presença do presidente Lula na Europa falando de igual para igual, pedindo o fortalecimento da ONU como instituição responsável pela paz mundial e criticando as ações de guerra promovidas por Trump, mostra que o Brasil trilha o caminho certo e volta a ocupar lugar de destaque no cenário internacional.

Sylvio Belém     

Um mundo em transição https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Visões de mundo díspares

O imperador e o Papa (leitura do que está por trás das palavras)
Marcelo Barros*/Causas da vida    

Nesses dias, o papa Leão XIV concluiu sua primeira viagem missionária que o levou a três países da África. No entanto, o que mais ocupou a imprensa não foi o que o papa falou aos irmãos e irmãs africanos e sim o confronto entre o papa e o presidente dos Estados Unidos. O papa pronunciou-se a favor da paz e contra as guerras. O imperador reagiu conforme o seu estilo, com insultos e ameaças.

Leão XIV respondeu que pronunciou-se como pastor e não como político. Sem dúvida, essa foi sua intenção. No entanto, na realidade, ele é chefe de Estado do Vaticano, única monarquia absoluta do Ocidente. Trump nunca se preocuparia em responder à sua provocação se Leão XIV fosse apenas um líder religioso. A arcebispa primaz da Igreja Anglicana fez um pronunciamento pela paz e a favor da guerra. O Dalai Lama, chefe do Budismo Tibetano, ou o Patriarca Bartolomeu, líder das Igrejas orientais, ou qualquer outro líder religioso podem dizer e publicar o que quiserem. Trump não se preocupará em responder. Respondeu a Leão XIV, porque esse é chefe de Estado e o seu pronunciamento repercute na ONU. 

Até hoje, muitos irmãos do clero e da hierarquia, assim como grupos católicos continuam a pensar a Igreja como Cristandade, para a qual, o poder político, mesmo que seja apenas simbólico, pode facilitar a missão. É pelo fato do papa ser chefe de Estado que existem as “concordatas” entre o Vaticano e países laicos que possibilitam privilégios ao clero.

De fato, como bom frade agostiniano, Leão XIV sabe que, no século IV, Santo Agostinho (354-430 d.C.) concebe o Estado (Cidade dos Homens) como instituição, naturalmente, violenta. Diz que essa violência é necessária, por causa da natureza pecaminosa do ser humano. Para Agostinho, a violência inerente ao Estado é “remédio necessário” (benigna asperitas) para manter a ordem e conter a maldade humana. Assim, Agostinho defende a "guerra justa". Conforme essa visão, torna-se normal que o Papa considere-se mensageiro da paz, mas tenha, em torno de si, uma guarda armada e, em todo lugar onde chega, seja recebido com honras militares e acompanhado por escolta militar.

Em fevereiro de 2016, o saudoso Papa Francisco desembarcou no México, para a sua 12ª viagem missionária. Menos de dois anos antes, tinha acontecido o desaparecimento de 43 jovens, estudantes de uma escola rural em Iguala, estado de Guerrero.  Quando o papa chegou ao México, um grupo de mães que ainda procuravam os corpos de seus filhos pediu que o papa as recebessem para uma oração e para chamar a atenção do mundo para o que tinha acontecido. O Papa Francisco teve de responder que não podia recebê-las, porque o governo mexicano consideraria interferência de um chefe de Estado estrangeiro na política mexicana.

Infelizmente, poucos irmãos e irmãs, mesmo entre aqueles e aquelas que fazem parte da caminhada de libertação percebem que, enquanto a hierarquia católica insistir nessa forma de organização monárquica não superará o modelo medieval de Cristandade Colonial e não terá liberdade para exercer sua missão profética, nem parecerá coerente ao pregar a Paz.

Em 1966, portanto há 60 anos, logo depois do Concílio Vaticano II, Dom Helder Camara percebia isso. Escreveu ao Papa Paulo VI, propondo que o papa renunciasse a ser chefe de Estado, entregasse o Vaticano a ONU e voltasse a morar na Igreja de São João de Latrão, antiga residência do bispo de Roma. Alguns dias depois, recebeu uma resposta assinada pelo Cardeal Villot, secretário de Estado do Vaticano: “Excelência Reverendíssima, Sua Santidade, o Papa, recebeu a sua carta e lhe agradece. Mas, recorda a Vossa Excelência que não  estamos mais na época do Evangelho[1].

Hoje, seria importante que todos os irmãos e irmãs que, nesses dias solidarizam-se com o Papa Leão XIV pelo ataque injusto que sofreu, o ajudassem a assumir o que o Papa Francisco afirmava: A Cristandade morreu e pudesse tirar disso as consequências que o próprio Francisco não pode tirar.

O Papa Leão XIV sabe que tanto o genocídio perpetrado pelo governo sionista de Israel contra o povo palestino, como a guerra do império dos Estados Unidos contra os países que tentam ser independentes do império são guerras santas. Têm objetivos sociais, econômicos e políticos, mas movem-se por uma mística religiosa. O primeiro ministro de Israel chama o povo do Irã de amalecitas e pretende executar, hoje,  a ordem que, conforme o livro de Josué, Deus teria dado a Israel, de exterminar os cananeus. Do mesmo modo, os governantes  dos Estados Unidos, convertidos à fé bíblica e convencidos pelo dinheiro de bilionários sionistas, estão convencidos de que o seu país representa o novo povo eleito de Deus, encarregado de destruir os ímpios e estabelecer na terra o reino messiânico.

Infelizmente, durante toda a história da humanidade e até hoje,  o fator religioso tem mais provocado guerras e violências do que paz. Das mais de 50 guerras que, hoje, assolam a humanidade, mais da metade conta com o elemento religioso como um de seus componentes. Católicos e evangélicos continuam a se combater na Irlanda do Norte. Em algumas regiões da Turquia, a luta é entre ortodoxos e muçulmanos. Na Palestina, o Estado de Israel comete o genocídio contra os palestinos em nome do Judaísmo bíblico. No sul da Índia, conflitos opõem hinduístas e muçulmanos.  Cristãos e muçulmanos enfrentam-se em alguns países da África, sem falar na perseguição às religiões tradicionais por cristãos fundamentalistas, em vários países latino-americanos (nessa violência religiosa, o Brasil é campeão).

Também precisamos ler por trás das palavras o que, nessa controvérsia, afirmou Trump. Este respondeu ao papa que apenas cumpria a sua função de Presidente dos Estados Unidos. Foi como se dissesse: Eu apenas executo a política que o governo dos Estados Unidos planeja.

Nesse ponto, ele tem razão. Está, apenas, cumprindo o que reza o Documento Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (National Security Strategy - NSS), divulgado em 18 de dezembro de 2017, aprovado por todas as instâncias de governo do império. Esse documento mudou radicalmente a política externa do governo dos Estados Unidos. Tirou a máscara democrática, que antes o império usava contra o Comunismo. Jogou no lixo a preocupação com direitos humanos, que, antes, o mesmo governo usava como pretexto para intervir em outros países e suscitar ditaduras militares. Decidiu desrespeitar até as regras do neoliberalismo, que ele próprio promovia e passou a intervir no mercado com sansões contra todos os que lhes oferecerem qualquer resistência. É a execução concreta do lema: "America First" (América Primeiro)[2]

Trump faz isso do seu modo, histriônico, exibicionista e agressivo. Mas, de fato, como presidente dos Estados Unidos é símbolo do império. Quem manda mesmo é o sistema financeiro e a direita internacional. Eles foram responsáveis por sua eleição e estão por trás de suas palavras e ações. Enquanto as pessoas continuarem atribuindo a Trump a culpa por todas essas desumanidades, a elite econômica e agências de notícia dos Estados Unidos podem continuar tranquilas e planejar a próxima crueldade contra a humanidade e o planeta Terra, que ocupam apenas para explorar.

Não há saída para a paz e a fraternidade humana, se insistimos na Cristandade colonial e em falar de um Deus como todo-poderoso, que premia os bons e castiga os maus. Só a libertação na direção da espiritualidade das Igrejas locais possibilitará no mundo e nas Igrejas uma cultura de paz, baseada na recomendação que, em 1968, ao tratar da juventude, na conferência de Medellín, os bispos católicos latino-americanos afirmaram:  “que, na América Latina (hoje, podemos acrescentar: e no mundo inteiro) apresente-se a Igreja com o rosto de uma Igreja pobre, despojada dos meios de poder, missionária e pascal, consagrada à libertação de toda humanidade e de cada ser humano, em todas as suas dimensões pessoais” (Med. 5, 15).

[1] - Cf. BARROS, Marcelo. Não deixe cair a profecia. A herança de Dom Helder Camara para a humanidade do século XXI. Recife, 2022, p. 149. CASTRO, Marcos de. Dom Helder: misticismo e santidade. Rio de Janeiro:  Civilização Brasileira, 2002, pp. 202- 206. ;

[2] - FIORI, José Luis. A síndrome de Babel e a disputa do poder global. Petrópolis: Vozes, 2020.

Marcelo Barros é monge beneditino, escritor, assessor de movimentos populares e no diálogo entre as religiões, biblista e doutor em ciências da religião.

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Caminhos tortuosos da vida https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Palavra de poeta

prelúdio
Cida Pedrosa 

te quis ontem 
sob a festa da lua 
que teimava espiar da janela 
mas só existiam minhas mãos 
que teimavam andar sobre mim. 
indecentes, estás duas: 
mão e lua 
autoras deste prelúdio de paixão. inevitavelmente me fiz tua 
por minhas próprias mãos 
pela fresta da janela 
que me mostrava nua à lua.

 
[Iustração: Pablo Picasso]
 
Leia também: "De que serve a bondade", poema de Bertold Brecht  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/palavra-de-poeta_16.html 

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Desinteresse pela Copa do Mundo de futebol bate recorde e alcança 54% dos brasileiros, segundo Datafolha. Por que? 

Jacaré e porco espinho não combinam https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

21 abril 2026

Emprego sobe

Brasil tem 103 milhões de pessoas trabalhando, maior nível da série histórica
Dado considera série dessazonalizada dos 12 meses encerrados em fevereiro. Naquele mês, desemprego foi de 6,2%, 0,9 p.p. abaixo do mesmo período de 2025, segundo o Ipea
Priscila Lobregatte/Vermelho   

O mercado de trabalho brasileiro vem se mantendo em trajetória favorável, com taxas de desemprego em patamar historicamente baixos, índice elevado de ocupação e aumentos dos rendimentos reais. O contingente pessoas trabalhando atingiu 103,4 milhões em fevereiro, o maior nível da série histórica.

Em fevereiro, a taxa de desemprego foi de 6,2%, 0,9 pontos percentuais (p.p.) abaixo da observada no mesmo período de 2025, quando foi de 7,1%.

É o que demonstra a Carta de Conjuntura do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que abarca o primeiro trimestre de 2026 e compara com períodos anteriores.

O documento destaca que esse movimento positivo de deu mesmo com o esfriamento da atividade econômica brasileira, o que levou a certa perda de fôlego no mercado de trabalho.

“Na comparação com janeiro, a dessazonalização mostra que, em fevereiro, a desocupação ficou estável em 5,6%. De fato, desde abril de 2025, a taxa de desocupação mantém-se abaixo de 6%”, aponta o levantamento, que se baseia em informações da Pesquisa Nacional

por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE.

De acordo com a Carta, “embora parte da redução da taxa de desemprego esteja parcialmente influenciada por fatores estruturais como menor crescimento da força de trabalho e mudanças demográficas, mantendo a taxa de participação em níveis reduzidos, o ritmo de crescimento da população ocupada ainda surpreende positivamente, contribuindo para a manutenção deste cenário virtuoso do mercado de trabalho no país”.

Os dados mostram, ainda, que na análise do período de março de 2025 a fevereiro deste ano, a força de trabalho avançou, em média, 0,7%.

Em fevereiro, segundo a Pnad Contínua, o total de ocupados alcançou 102,3 milhões de pessoas, o que representa alta de 1,6% na comparação interanual. “No acumulado dos 12 meses encerrados em fevereiro de 2026, a população ocupada cresceu, em média, 1,7%, evidenciando desaceleração diante dos 2,9% registrados nos doze meses anteriores. Ainda assim, na série dessazonalizada, o contingente de ocupados atingiu 103,4 milhões em fevereiro, configurando o maior nível da série histórica”, explica o boletim.

Emprego formal

Outro dado importante revelado pelo levantamento é que a maior parte do crescimento do emprego vem ocorrendo em segmentos formais da economia brasileira. “Os dados extraídos da pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, enquanto a população ocupada formal cresce a uma taxa média de 3,6%, nos últimos 12 meses, a expansão da ocupação informal é de 0,5%. Desta maneira, a taxa de formalidade no mercado de trabalho brasileiro avançou de 61,2% para 62,5% nos últimos dois anos”.

O desempenho apontado converge com os dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged), “em fevereiro de 2026, foram criados 255,3 mil postos líquidos de trabalho, volume bem inferior ao registrado no mesmo mês de 2025 (440,4 mil). Já no acumulado dos últimos 12 meses, o setor privado gerou 1,05 milhão de vagas com carteira assinada, o que representa uma queda de 46% em relação ao observado em fevereiro do ano anterior (1,79 milhão)”.

Quando o cenário é avaliado do ponto de vista setorial, o boletim informa que mesmo com todos os segmentos registrando expansão do emprego, “o dinamismo segue concentrado no setor de serviços, principal motor do mercado de trabalho brasileiro”.

Em termos relativos ao estoque de trabalhadores, destacam-se os serviços domésticos (16,6%); as atividades de arte, cultura, esporte e recreação (7,7%) e os serviços profissionais, científicos e técnicos (5,0%).

Já no caso dos setores mais intensivos em capital, como a construção civil e a indústria de transformação, o crescimento foi mais moderado, com altas de 3% e 0,7%, respectivamente.

Rendimentos

Conforme o documento, o bom desempenho do mercado de trabalho brasileiro também é evidenciado pela alta dos rendimentos reais. “De fato, mesmo que a taxas de crescimento mais amenas, os salários reais ainda mostram trajetória bastante favorável”, salienta.

No último trimestre, os rendimentos médios habitual e efetivamente recebidos apontam aumentos de 5,3% e 4,3%, respectivamente. “Logo, a combinação entre expansão da ocupação e rendimentos reais crescentes vem gerando altas sucessivas da massa salarial real habitual e efetiva, cujas taxas de crescimento de 6,9% e 5,9%, no último trimestre, vêm contribuindo positivamente para a manutenção do consumo das famílias”.

Segundo o Ipea, as perspectivas para o restante de 2026 são de continuidade do “bom comportamento do mercado de trabalho, porém em ritmo mais moderado”. Com efeito, acrescenta, “diante das estimativas de um crescimento do produto interno bruto (PIB) próximo a 1,8%, ainda há espaço suficiente para sustentar um mercado de trabalho relativamente aquecido” e “espera-se manutenção de taxas de desemprego em níveis historicamente baixos”.

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PCdoB alerta para desafios eleitorais e ofensiva imperialista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/palavra-do-pcdob.html

Arte é vida

 

José Cláudio 

Ver, compreender, mudar https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

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Tem ainda muito chão pela frente, mas é expressiva a vantagem de João Campos sobre Raquel Lyra na mais recente pesquisa Datafolha para o governo de Pernambuco: 50% x: 38%. 

Escolhas e conflitos https://lucianosiqueira.blogspot.com/