Na grande mídia neoliberal, o receio de que Flávio Bolsonaro nem vá ao segundo turno e Lula se reeleja com folga. Para o mercado financeiro, o dilúvio. Tomara.
Blog de Luciano Siqueira
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
05 fevereiro 2026
Postei nas redes
Minha opinião
Jacaré,
cobra d'água e porco espinho nas alianças eleitorais*
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Como sempre, nada surpreende no episódio eleitoral.
Feito no toré, na melhor tradição das tribos indígenas
nordestinas, polos em disputa condicionam os sentidos da dança e cada um se
pinta conforme as forças que arregimenta.
A legislação eleitoral permite uma miríade de composições que
se fazem para a eleição presidencial e para a disputa nos Estados.
Não necessariamente coerentes.
Não há e nunca houve uniformidade de legendas partidárias
quanto às dimensões nacional e estadual das alianças.
Agora Lula se fortalece, passo a passo, na esteira do bom
desempenho da economia— que se reflete na vida do povo —, e da politização do
discurso do presidente e do governo e da possibilidade de alargar mais ainda a
frente ampla.
No polo oposto, a extrema direita e o centro mais conservador
se esgarçam na disputa entre o bolsonarismo e a busca de uma alternativa
competitiva que corresponda aos propósitos do capital financeiro, do agro mais
reacionário e do complexo midiático dominante.
Em âmbito estadual, a diversidade de situações, aparentemente
incoerentes, é a tônica.
Governadores que tentam a reeleição, no Nordeste, sobretudo,
no mínimo não hostilizam o presidente, ou o apoiam, em razão das tendências do
eleitorado, captada pelas pesquisas.
O PCdoB não se vê em condições de apresentar nomes das suas
próprias fileiras para a disputa majoritária, mas cumpre papel ativo na feitura
das coligações mercê de orientação tática consequente. Como disse certa vez um
proeminente prócer emedebista, "na frente ampla quando não podem ser
tijolo, os comunistas agem como a argamassa que une".
Uma séria ameaça: a não superação da atual correlação de
forças na Câmara e no Senado. Tudo a ver com o uso das emendas parlamentares na
preservação das bases municipais dos atuais detentores de mandatos e a
fortíssima influência (à margem da lei) do poder econômico.
O nivel de consciência do eleitorado, ainda limitado, pode
ser em algum nível melhorado e os laços políticos com trabalhadores e camadas
populares a depender do conteúdo, das formas e dos métodos de campanha das
corrente de esquerda — não apenas nas redes, mas igualmente nos salões e nas
ruas.
É possível recuperar os laços políticos com os trabalhadores,
a juventude e camadas populares no curso da batalha? Em certa medida, sim — a
depender do discurso e das formas e métodos de campanha praticados pelas
correntes de esquerda.
*Texto da minha coluna semanal no portal ‘Vermelho’
Leia também O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.html
Povos originários
Notas sobre o marco temporal
O marco
temporal é a tentativa de transformar um passado de esbulho em vantagem
jurídica, negando a história viva dos povos que precedem o próprio Estado
Celso Pinto de Melo/A Terra é Redonda
“A formação
do povo brasileiro é uma síntese em que a presença indígena é constitutiva e
inesquecível” (Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro).
1.
A cultura chegou antes do direito.
Em Quarup (1967), romance ambientado no Xingu, Antônio Callado
delineou o retrato de um país que avançava sobre o território sem reconhecer os
povos que o habitavam. A modernização aparecia ali menos como encontro do que
como negação – não como diálogo entre mundos, mas como imposição de um projeto
que desconhecia a terra e seus habitantes.
Essa intuição literária ajuda a
compreender por que, décadas depois, o debate jurídico também passaria a
expressar essa mesma lógica de negação. Há construções jurídicas que revelam
menos técnica e mais ideologia. “Marco temporal” é uma delas.[1]
A expressão não consta da Constituição
de 1988 nem decorre do direito internacional; ela surge de forma lateral no
julgamento da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em 2009, quando passou a
circular a referência à data da promulgação constitucional, como elemento
fático do debate – jamais como regra geral. Convertida em dogma por interesses
fundiários e pressões políticas, essa leitura circunstancial foi
progressivamente descolada de seu contexto e convertida em tese jurídica.
Em 2023, o Supremo Tribunal Federal
rejeitou explicitamente o marco temporal como critério constitucional; o
Congresso reagiu aprovando lei ordinária em sentido contrário, depois
contestada no próprio STF; e, mais recentemente, avançou na tentativa de
inscrevê-lo no próprio texto constitucional por meio de emenda. Esse vaivém
institucional ajuda a explicar por que uma construção juridicamente frágil,
reiteradamente questionada, continua a reaparecer como instrumento político.
Para compreender o alcance dessa
distorção, é preciso situá-la no longo arco da ocupação branca dos territórios
indígenas no Brasil, uma trajetória marcada por expropriação sistemática,
epidemias induzidas, guerras assimétricas, confinamento territorial e
destruição deliberada de universos culturais. Não se trata de exagero retórico,
mas de constatação histórica: a expansão do Estado e do mercado sobre terras
indígenas não foi um efeito colateral do desenvolvimento, mas um de seus
métodos centrais.
“Nosso corpo é nosso território; nosso
ventre é nosso templo; nossas veias são nossos rios”, lembra Hamangaí Pataxó.[2] Há
milênios, muito antes da chegada dos colonizadores, os povos originários já
ocupavam e transformavam o território que hoje chamamos Brasil, em especial na
Amazônia. Longe do mito da floresta intocada, a arqueologia e a antropologia
vêm demonstrando de forma consistente o caráter profundamente antropogênico da
paisagem amazônica: a domesticação e seleção de espécies vegetais, a criação de
sistemas complexos de manejo florestal e agrícola e a produção da chamada terra
preta do índio – solos férteis artificialmente construídos, ainda hoje objeto
de intensa pesquisa científica – são evidências de uma ocupação contínua,
sofisticada e sustentável.
Esses povos não apenas habitavam a
terra: produziam paisagens, biodiversidade e conhecimento. Faziam-no em escalas
temporais que tornam quase grotesca a pretensão de julgá-los a partir de um
recorte jurídico de poucas décadas.
2.
Mesmo no século XX, já sob a retórica
da integração nacional, o padrão de expropriação e violência institucional se
manteve. A abertura de estradas, a implantação de grandes projetos energéticos
e a expansão mineral produziram colapsos demográficos dramáticos. Os
Waimiri-Atroari foram devastados durante a abertura da BR-174 e a construção da
usina de Balbina; os Panará quase desapareceram após o contato forçado
associado à abertura de frentes rodoviárias; os Yanomami sofreram o massacre de
Haximu, em 1993, reconhecido judicialmente como genocídio, e décadas depois
voltaram a ser vítimas de uma crise humanitária anunciada, marcada pelo garimpo
ilegal, pela contaminação por mercúrio e pela omissão deliberada do Estado.
Fora da Amazônia, os Guarani-Kaiowá, no
Mato Grosso do Sul, vivem há décadas sob um regime de confinamento territorial,
violência privada e suicídios em massa, resultado direto da recusa histórica do
poder público em concluir demarcações.
É precisamente esse passado – ainda
presente – que o marco temporal pretende apagar. Ao exigir a comprovação de
presença física em 1988, a tese desconsidera expulsões, massacres, remoções
forçadas e confinamentos anteriores. Na prática, converte a violência passada
em vantagem jurídica. Poucas construções legais seriam tão cúmplices do
esbulho.
Isso não significa, contudo, que a
história brasileira seja apenas um inventário de crimes. Ao longo do século XX,
também se construíram respostas civilizatórias, ainda que incompletas e
tensionadas. A atuação do marechal Cândido Rondon marcou uma inflexão ética
decisiva ao substituir a lógica da guerra aberta por uma política estatal de
proteção, ainda que sob o paradigma assimilacionista de seu tempo.
A criação do Serviço de Proteção aos
Índios institucionalizou, ainda que de modo precário, a ideia de que os povos
indígenas não poderiam mais ser tratados como obstáculos descartáveis – embora
seus fracassos e crimes tenham sido brutalmente expostos pelo Relatório
Figueiredo.[3]
Essa virada alcançou seu ponto mais
alto com a criação, em 1961, do Parque Indígena do Xingu, fruto da atuação dos
irmãos Villas-Bôas. Pela primeira vez, o Estado brasileiro reconhecia que a
preservação das culturas indígenas exigia territórios amplos, contínuos e
protegidos da fragmentação fundiária. Esse entendimento seria consagrado
juridicamente pela Constituição de 1988, que reconheceu aos povos indígenas
direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas – direitos que
não nascem da Carta, mas que ela apenas reconhece.
3.
Foi esse espírito constitucional que
orientou a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, homologada no
governo Lula e confirmada pelo Supremo Tribunal Federal em 2009. O voto do
relator, Carlos Ayres Britto, permanece como uma das mais contundentes defesas
já feitas da pluralidade étnica e cultural do Brasil. É fundamental registrar:
Ayres Britto não é o autor do marco temporal. Ele próprio tem reiterado que seu
voto posteriormente descontextualizado e instrumentalizado por interesses
políticos alheios ao sentido original da decisão. Como deixou claro em
manifestações posteriores, direitos originários não nascem em uma data.
Nesse contexto, o Supremo Tribunal
Federal acaba de decidir pela invalidade da lei aprovada pelo Congresso em
2023, que tentou reintroduzir o marco temporal por via infraconstitucional, em
afronta direta ao entendimento firmado pela própria Corte. Ao fazer isso, o STF
volta a afirmar que os direitos territoriais indígenas são originários,
anteriores ao Estado e insuscetíveis de restrição por maiorias conjunturais.
No entanto, em nova investida, em
dezembro de 2025, o Congresso aprovou uma emenda constitucional destinada a
inscrever o marco temporal no próprio texto da Constituição. Isso não encerra o
conflito, ao contrário, o aprofunda, ao deslocá-lo para o terreno do controle
de constitucionalidade de emendas, no qual o Tribunal já afirmou reiteradamente
que nem mesmo maiorias qualificadas podem suprimir o núcleo essencial de
direitos fundamentais. O embate, assim, prossegue não como controvérsia
técnica, mas como um teste decisivo dos limites do pacto civilizatório firmado
em 1988.
A ofensiva recente em favor do marco
temporal revela, portanto, menos uma controvérsia jurídica e mais um conflito
de projetos de país. De um lado, a Constituição de 1988 e a ideia de um Brasil
plural, que reconhece a diversidade como valor civilizatório.
De outro, uma visão predatória que
trata a terra como mercadoria absoluta e os povos originários como entraves ao
crescimento. Essa visão encontrou sua expressão mais explícita durante o governo
de Jair Bolsonaro, que assumiu publicamente o compromisso de não demarcar
terras indígenas, desmontou mecanismos de fiscalização e estimulou invasões,
com consequências humanitárias e ambientais amplamente documentadas.
Ailton Krenak, então jovem liderança
indígena, marcou a Assembleia Constituinte de 1987 ao pintar o rosto com
jenipapo durante um debate no plenário, afirmando simbolicamente a presença
política dos povos originários. Décadas depois, já como membro da Academia
Brasileira de Letras, retoma essa crítica em chave contemporânea ao sustentar
que a crise ambiental não é um desvio do progresso, mas seu próprio desfecho –
resultado de uma civilização que rompeu seus vínculos com a Terra.
O marco temporal é a tradução jurídica
dessa ruptura. Ele tenta impor um ponto final à história e dispensar a memória.
Entre o ritual do quarup, criado para elaborar a perda e reafirmar a vida, e o
alerta de Ailton Krenak sobre o fim do mundo, o Brasil é chamado a decidir se
continuará negando a si mesmo ou se aceitará, enfim, que não há futuro
civilizado sem justiça para os povos originários.
*Celso Pinto de Melo é professor
titular de física aposentado da UFPE e membro da Academia Brasileira de
Ciências.
Referências
Ribeiro, D., O povo brasileiro:
a formação e o sentido do Brasil. 2006, São Paulo: Companhia das Letras.
Callado, A., Quarup. 1967,
Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
Petição 3.388/RR – Terra Indígena
Raposa Serra do Sol. 2009, Supremo Tribunal Federal.
Recurso Extraordinário n. 1.017.365/SC
(Tema 1031 da Repercussão Geral). 2023, Supremo Tribunal Federal.
Ribeiro, D., Os índios e a
civilização: a integração das populações indígenas no Brasil moderno. 1996,
São Paulo: Companhia das Letras.
Balée, W., Cultural forests of
the Amazon: a historical ecology of people and their landscapes. 2013,
Tuscaloosa: University of Alabama Press.
Neves, E.G., Arqueologia da
Amazônia. 2006, Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Amazonian dark earths: origin,
properties, management. 2004, Dordrecht: Springer.
National Geographic, B., Ditadura
militar e o massacre do povo Waimiri-Atroari. 2019.
Survival, I., Panará: threats. 2019.
Habeas Corpus 82.424/RR (Caso Haximu). 2006,
Supremo Tribunal Federal.
Repórter, B., Conflitos
fundiários e suicídios entre Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul. 2025.
Conselho Indigenista, M., Relatório
Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil: Dados de 2023. 2024, CIMI:
Brasília.
Rondon, C.M.d.S., Índios do
Brasil. 1946, Rio de Janeiro: Conselho Nacional de Proteção aos Índios /
Ministério da Agricultura.
Brasil. Ministério do, I., Relatório
Figueiredo. 1967, Ministério do Interior: Brasília.
Constituição da República Federativa do
Brasil de 1988. 1988, Senado Federal: Brasília.
Britto, C.A., Entrevistas e
palestras sobre direitos indígenas e marco temporal. 2019, Supremo Tribunal
Federal; eventos acadêmicos e jurídicos.
Ações Diretas de Inconstitucionalidade
contra a Lei n. 14.701/2023 (marco temporal). 2025, Supremo Tribunal Federal.
Instituto, S., Retrocesso
ambiental e indígena no Brasil (2019–2022). 2022, Instituto Socioambiental:
São Paulo.
Krenak, A., Ideias para adiar o
fim do mundo. 2019, São Paulo: Companhia das Letras.
Notas
[1] Marco
temporal é a tese que condiciona a demarcação de terras indígenas à comprovação
de ocupação física em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da
Constituição. A interpretação desconsidera expulsões e violências anteriores.
[2] Frase
atribuída a Hamangaí Marcos Melo Pataxó, liderança indígena, em falas públicas
e materiais de ativismo sobre os direitos dos povos originários.
[3] O
chamado Relatório Figueiredo, produzido em 1967 por determinação do Ministério
do Interior e coordenado pelo procurador Jader de Figueiredo Correia,
documentou de forma sistemática graves violações cometidas por agentes do
próprio Estado brasileiro no âmbito do Serviço de Proteção aos Índios. O
relatório descreve massacres, envenenamento de comunidades, disseminação
deliberada de doenças, trabalho forçado, espancamentos, estupros, apropriação
de terras e corrupção administrativa, envolvendo servidores públicos e
particulares associados. Considerado um dos mais contundentes documentos
oficiais sobre violência estatal contra povos indígenas no Brasil, o relatório
levou à extinção do SPI e à criação da FUNAI, mas permaneceu parcialmente
oculto por décadas durante a ditadura militar, sendo redescoberto apenas nos
anos 2010.
Leia também: Os comunistas e a questão racial no Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/06/o-pcdob-e-questao-racial.html
Juros altos
Selic a 15% e os efeitos dos juros altos sobre a economia real
“Água demais mata a planta”: juros restritivos sufocam a produção, reforçam o rentismo e, à luz de Keynes, revelam escolhas que limitam investimento, emprego e crescimento
Luis Carlos Pereira/Portal Grabois https://grabois.org.br/
Na primeira reunião de 2026, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve, pela quinta vez consecutiva, a taxa Selic em 15% ao ano, o nível mais alto desde meados dos anos 2000. A justificativa oficial do Banco Central (BC) fala em cautela diante de pressões inflacionárias ainda não completamente dissipadas, mas na economia real o impacto é direto: crédito caro, investimentos adiados, consumo retraído e uma capacidade produtiva sufocada pelo custo do dinheiro, enquanto o setor financeiro coleta rendimentos elevados sem produzir emprego ou tecnologia.
No Brasil existe um ditado popular que diz que “água demais mata a planta”. A expressão cai como uma luva para descrever a atuação recente do Banco Central, que tem despejado irrigação farta nos vasos estéreis do rentismo, enquanto o solo onde germina o capital produtivo permanece ressecado. A política monetária nesse nível de restrição tem favorecido a quem vive apenas de juros e desincentivado a economia real – aquela que gera emprego, inovação e competitividade.
O que é a Selic e por que ela importa?
Antes de avançar no debate, é importante relembrar que a Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia) é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela funciona como referência para todas as demais taxas, do crédito empresarial ao financiamento imobiliário, e influencia diretamente o custo do capital e os incentivos ao investimento.
Quando a Selic sobe, o crédito encarece e os investidores tendem a buscar remuneração segura na renda financeira. Quando ela cai, o crédito se torna mais acessível e pode impulsionar a produção e o consumo.
Com a Selic estacionada em 15%, aplicações em títulos públicos e instrumentos de renda fixa tornam-se um “negócio perfeito”: alta rentabilidade, baixo risco e liquidez imediata. Esse cenário, porém, desloca recursos da economia produtiva para o rentismo financeiro. O capital que poderia ser destinado à expansão de fábricas, contratação de mão de obra ou inovação tecnológica acaba sendo atraído por ganhos seguros e imediatos.
John Maynard Keynes já alertava para esse fenômeno ao falar da “preferência pela liquidez”, isto é, a tendência de investidores manterem seus recursos em ativos líquidos e seguros em vez de financiar projetos produtivos mais arriscados (Keynes, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, 1936).
Com a tendência dos agentes em manterem seus recursos guardados em ativos líquidos, o mercado tem que oferecer juros cada vez mais altos para que esse dinheiro volte a circular. O resultado é uma dinâmica perversa: juros elevados, renda financeira abundante e baixo crescimento econômico.
Setor produtivo em alerta
A reação do setor produtivo tem sido firme e crítica. Entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) destacam que a Selic em 15% impõe um custo elevado à economia, travando investimentos e reduzindo a competitividade das empresas brasileiras. A inflação, por sua vez, dá sinais de desaceleração, o que poderia abrir espaço para reduzir os juros sem risco imediato de descontrole de preços.
Empresas enfrentam custo maior para financiar capital de giro, projetos industriais são engavetados, e pequenas e médias empresas lutam para sobreviver em um ambiente de crédito proibitivo.
A pressão pela revisão da política monetária ganhou um tom ainda mais incisivo quando Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), encaminhou uma carta ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, criticando a manutenção da Selic em 15% e questionando sua moralidade diante do bem-estar social e econômico do país.
Skaf afirma que o Brasil atingiu um “patamar extremo” sob o atual nível de juros, gerando um quadro de sufocamento da economia real, com empresas sólidas sofrendo desvalorização e a inadimplência avançando em níveis alarmantes. Ele também critica o impacto do custo financeiro sobre o setor produtivo e questiona:
“Por que empreender, inovar ou expandir operações se o capital é mais bem remunerado na inércia da renda fixa?”
Além disso, Skaf chama atenção para a diferença entre a taxa básica e os juros efetivamente pagos por empresas e famílias, que enfrentam spreads e prêmios que tornam o crédito ainda mais caro na ponta final.
Para ele, as condições já estariam dadas para iniciar um ciclo de afrouxamento monetário, e a manutenção prolongada da Selic elevada representa, na prática, uma punição ao setor produtivo brasileiro.
Autonomia do BC em tensão com projeto de desenvolvimento
A justificativa oficial do Banco Central para manter a Selic em patamares elevados tem sido a necessidade de preservar a credibilidade do regime de metas e as expectativas de inflação ancoradas. De fato, o IPCA vem apresentando desaceleração consistente, indicando convergência para o centro da meta. No entanto, a manutenção prolongada de juros em níveis historicamente restritivos sugere um descompasso entre o diagnóstico técnico e os efeitos reais da política monetária.
O Banco Central parece exagerar na porção ao sustentar uma taxa básica de 15% mesmo em um cenário de inflação em queda. Vale lembrar que, com a manutenção da Selic nesse percentual, o Brasil passa a ocupar a 2ª posição no ranking de juros reais mais altos, com 9,23%, atrás apenas da Rússia (9,88%) e à frente de países como Turquia (7,63%) e Argentina (6,45%). Nessa circunstância, o custo marginal de manter os juros elevados supera seus benefícios: a política deixa de atuar apenas como instrumento de estabilização de preços e passa a operar como freio direto ao investimento produtivo, ao crédito e ao crescimento econômico.
Na prática, juros persistentes altos encarecem o capital de giro das empresas, desestimulam projetos de longo prazo, comprimem o consumo das famílias e elevam o custo da dívida pública. O resultado é um ambiente de baixo dinamismo produtivo, no qual o setor financeiro é favorecido por rendimentos elevados enquanto a economia real enfrenta restrição de crédito e desaceleração do emprego. Trata-se, portanto, de uma escolha distributiva, e não meramente técnica.
Esse ponto é central: a política monetária não é neutra. Ao priorizar exclusivamente a estabilidade de preços, inclusive quando a inflação está controlada, o Banco Central acaba subordinando objetivos como crescimento, renda e industrialização. A autonomia institucional, concebida para proteger decisões de curto prazo, transforma-se, assim, em isolamento decisório, pouco permeável ao debate democrático sobre os rumos do desenvolvimento.
Essa postura entra em tensão com o projeto defendido pelo 3º governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que aposta na expansão do crédito, na reativação produtiva e na geração de empregos como motores do crescimento. Quando a autoridade monetária mantém uma estratégia excessivamente conservadora, mesmo diante de indicadores benignos de inflação, produz-se um conflito entre o mandato tecnocrático do controle de preços e o mandato político conferido pelas urnas.
Dessa forma, o debate sobre a Selic deixa de ser apenas uma questão de calibragem econômica e assume caráter político: trata-se de decidir quais interesses serão priorizados. Manter juros estruturalmente altos significa privilegiar rentistas e o sistema financeiro; reduzi-los de forma responsável significa ampliar o espaço para investimento, produção e emprego. A disputa, portanto, é menos sobre números e mais sobre o modelo de desenvolvimento que o país deseja construir.
Keynes como chave para entender a política monetária
A obra de Keynes, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de 1936, nos ajuda a interpretar esse dilema. Para Keynes, a taxa de juros não é simplesmente um número técnico, mas um determinante fundamental da propensão a investir.
Ele argumenta que quando os juros são mantidos altos, aumenta a preferência pela liquidez. Como já observado, esse movimento desloca recursos da produção para aplicações financeiras, comprimindo a geração de emprego e enfraquecendo o dinamismo da economia.
O recado que o Banco Central está mandando aos agentes econômicos é que eles serão mais bem remunerados com seu dinheiro guardado do que investido em empreendimentos de risco imprevisível e de prazo indeterminado para retorno. Na prática, o Banco Central está pagando para que os ânimos incertos dos investidores não se exaltem.
Assim, a crítica de John Maynard Keynes à primazia do rentismo permanece atual. Em Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, o autor demonstra que a taxa de juros é o prêmio pago pela renúncia à liquidez; quando excessivamente elevada, ela estimula a retenção especulativa da riqueza financeira em vez de sua conversão em investimento produtivo. Ao elevar o custo do capital acima da eficiência marginal esperada dos projetos, a política monetária desincentiva o investimento, comprime a demanda efetiva e reduz o nível de emprego. Nessas circunstâncias, consolida-se um circuito de rendimentos financeiros de baixo risco que pouco contribui para a expansão da capacidade produtiva, da inovação tecnológica ou da geração de trabalho, reforçando a predominância do rentismo sobre a economia real.
O resultado disso é negativo, pois é justamente desse arranjo macroeconômico, no qual juros elevados estimulam a retenção financeira e desestimulam o investimento produtivo, que emergem os efeitos sociais mais profundos. À luz da teoria de Keynes, o aumento da preferência pela liquidez desloca recursos da produção para aplicações seguras, comprimindo a eficiência marginal do capital, reduzindo a demanda efetiva e, consequentemente, o emprego. O resultado é um processo silencioso de transferência de renda: enquanto uma minoria rentista captura retornos elevados sem risco, a maioria da população enfrenta crédito proibitivo, menos oportunidades de trabalho e estagnação do padrão de vida, aprofundando desigualdades e enfraquecendo as bases de crescimento inclusivo.
O gigante Brasil resiste ao freio monetário
Mesmo com esses entraves, a economia real segue demonstrando vitalidade. Complexos logísticos como os portos de Itajaí (SC), Santos (SP) e Pecém (CE) continuam escoando produção, sustentando cadeias industriais e conectando o país ao comércio internacional; polos tecnológicos como a Embraer e a agroindústria exportadora mantêm investimentos, inovação e empregos. Esses exemplos deixam claro que o problema brasileiro não é a falta de capacidade produtiva, mas o custo do dinheiro para o setor produtivo.
A manutenção prolongada de juros altos pelo Banco Central do Brasil, portanto, não é apenas uma escola técnica de combate à inflação, mas uma decisão política com efeitos distributivos profundos. Ao privilegiar a renda financeira em detrimento do investimento produtivo, a política monetária transforma o crédito em obstáculo e o crescimento em exceção.
Diante desse quadro, a resposta não pode ser apenas tecnocrática. É necessária uma ampla mobilização política e social, envolvendo governo, Congresso, trabalhadores, setor produtivo e organizações civis, capazes de construir um novo pacto de desenvolvimento. Se a taxa de juros define quem ganha e quem perde na economia, sua orientação deve refletir prioridades democráticas: mais investimento, mais trabalho, mais produção.
Referências
– AGÊNCIA BRASIL. Setor produtivo reage à manutenção da Selic em 15% ao ano. Brasília, 2026.
– KEYNES, John Maynard. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Obra original publicada em 1936).
– BANCO CENTRAL DO BRASIL. Atas e comunicados do Comitê de Política Monetária (COPOM). Brasília: BCB, 2026.
– B3 BORA INVESTIR. Brasil segue com 2ª maior taxa de juros real do mundo; veja ranking entre 40 países, 29 jan. 2026.
– GIANNETTI, Roberto. O BC está exagerando na dose com esses juros atuais. Brazil Economy, 2026.
– CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA (CNI). Notas técnicas e posicionamentos sobre política monetária e taxa Selic. Brasília: CNI, 2025–2026. Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2026.
– FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO (FIESP). Carta ao Banco Central sobre a taxa Selic e seus impactos na economia real. São Paulo: FIESP, 2026.
– BRAZIL ECONOMY. Paulo Skaf questiona Galípolo e diz que Selic a 15% asfixia. 29 jan. 2026.
– SUPERINTENDÊNCIA DO PORTO DE ITAJAÍ. Relatórios de movimentação portuária e desempenho logístico. Itajaí: Autoridade Portuária, 2025–2026.
Luis Carlos de S. Pereira é economista, mestre em Economia Política pela PUC-SP e especialista em Gerenciamento de Projetos pela FGV. É diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach) e desenvolve pesquisas nas áreas de educação, financiamento público e desenvolvimento econômico.
Leia também: O sequestro do fundo público https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/fundos-depauperados.html
Humor de resistência
As incertezas do futuro para Trump https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/trump-em-caixa-de-maribondo.html
04 fevereiro 2026
Palavra de poeta
CORRIDINHO
Adélia Prado
O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
[Ilustração: Young Park]
Leia também: Vinícius de Moraes: "A brusca poesia da mulher amada" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_94.html
Fotografia
Leia: Convergência necessária e possível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_15.html





