A reprimarização do Brasil e a possível virada
Nos anos 1980, um episódio da financeirização global abriu as portas para nosso retrocesso – mas o falta de um projeto de país a prolonga há quatro décadas. Surgem novas condições para revertê-la. Quais são elas e como aproveitá-las?
Marcio Pochmann/Outras Palavras
A história econômica do Brasil no século XX pode ser lida como a tentativa de transformar o agrarismo primário-exportador em sociedade urbana, industrial e tecnologicamente autônoma. Entre os anos de 1930 e 1980, o país construiu uma das estruturas produtivas mais complexas do mundo periférico, apesar de desigualdades persistentes.
A indústria de transformação, a expansão das cidades, o emprego formal, a engenharia nacional, as empresas estatais estratégicas e a organização sindical formaram a base material de uma sociedade salarial em consolidação. O Brasil não era apenas exportador de café, minério ou produtos agrícolas, participando da divisão internacional do trabalho também como exportador de manufaturas ao mundo.
A inflexão histórica começou no final dos anos 1970. A elevação abrupta das taxas de juros nos Estados Unidos, sob a política de Paul Volcker, presidente do Banco Central, transformou a dívida externa brasileira em uma armadilha financeira. O país passou da lógica da transformação estrutural para a lógica da gestão de emergências para a sobrevivência macroeconômica. A prioridade deixou de ser o investimento na ampliação da complexidade produtiva, para assumir cada vez mais a geração de superávits comerciais externos para pagar juros e amortizações do endividamento. Os anos de 1980 não foram apenas uma década perdida em termos de crescimento econômico, mas o período histórico em que o Brasil perdeu a continuidade de seu projeto de complexificação produtiva.
Naquele contexto, a política nacional de informática havia adquirido significado estratégico, pois expressava a tentativa de construir capacidade tecnológica própria em um setor que se tornaria central na economia do conhecimento. As pressões internacionais contra essa estratégia nacional revelaram que a disputa tecnológica não seria neutra. Países centrais defenderam a abertura quando já haviam consolidados suas vantagens competitivas ao passo que países periféricos como o Brasil enfrentavam enormes dificuldades quando tentam construir as suas, ademais dos obstáculos como os colocados pelos EUA nos anos de 1980.
A partir dos anos de 1990, a abertura comercial e financeira ocorreu sem uma política industrial de mesma intensidade. A valorização cambial recorrente, os juros elevados, a financeirização e a redução do investimento público enfraqueceram segmentos industriais intensivos em tecnologia e engenharia. O resultado terminou sendo uma desarticulação progressiva das cadeias produtivas nacionais com o aumento do conteúdo importado da produção e a perda de densidade da indústria de transformação.
O Brasil deixou de ampliar a sua presença como exportador de manufaturas e passou a depender crescentemente de produtos da natureza como a soja, milho, carne, minério de ferro, petróleo, celulose e outras commodities. O dinamismo externo passou a ser puxado por atividades baseadas em recursos naturais, muitas delas altamente eficientes, mas com menor capacidade de irradiar inovação tecnológica para o conjunto da economia. Consolidou-se, assim, uma estrutura produtiva mais especializada e menos complexa, com baixa produtividade agregada e empregos de menor remuneração.
Essa transformação alterou profundamente a posição do país na divisão internacional do trabalho. Enquanto economias asiáticas combinaram integração internacional com elevação do conteúdo tecnológico, o Brasil experimentou uma inserção externa mais subordinada, marcada pela exportação de bens primários e pela importação crescente de máquinas, equipamentos, componentes eletrônicos, semicondutores, softwares e tecnologias estratégicas. A dependência deixou de ser apenas comercial, tornando-se tecnológica, financeira e informacional.
A regressão não significa retorno ao passado agrário. O Brasil continua sendo uma economia urbana, com importante setor de serviços e ilhas de excelência industrial e científica. O ponto central é outro, pois relacionado à parte da capacidade de coordenar uma estrutura produtiva complexa, integrada e articulada. A indústria deixou de exercer o papel de eixo organizador do desenvolvimento nacional.
As consequências sociais foram profundas. A sociedade salarial, no sentido referido por Robert Castel em As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário, depende de empregos relativamente estáveis, proteção social e negociação coletiva. A grande fábrica urbana, que organizava identidades coletivas, carreiras e formas de representação política, perdeu centralidade. A substituição de empregos industriais por ocupações mais precárias, terceirizadas, informais ou de baixa produtividade enfraqueceu a base material da organização sindical e da representação laboral.
O trabalhador da era industrial concentrava-se em espaços comuns e compartilhava ritmos de produção. O trabalhador da era digital e da fragmentação produtiva frequentemente atua de forma dispersa, intermitente ou plataformizada. A passagem da máquina ao algoritmo não significou automaticamente emancipação tecnológica, em muitos casos, significou individualização do risco e dificuldade de organização coletiva.
A verdadeira questão do século XXI supera a escolha entre a indústria e a natureza para se situar em torno da reconstrução da economia capaz de combinar recursos naturais abundantes com conhecimento, tecnologia e serviços avançados. Países líderes da transição energética, da bioeconomia e da economia digital não abandonaram suas vantagens naturais, pois as transformaram em plataformas de inovação.
O Brasil possui condições excepcionais para isso. Poucos países reúnem simultaneamente grande mercado interno, base científica diversificada, matriz energética relativamente limpa, biodiversidade, capacidade agroindustrial, sistema financeiro sofisticado e experiência industrial acumulada. A emergência climática, longe de representar apenas um risco, abre oportunidades em energias renováveis, hidrogênio verde, biocombustíveis avançados, química de base biológica, economia circular, monitoramento ambiental e infraestrutura resiliente.
Nesse contexto, a antiga ideia de complexidade produtiva precisa ser atualizada. No século XX, ela estava associada principalmente à grande indústria integrada, enquanto no século XXI, a complexidade avançou para a capacidade de articular manufatura avançada, serviços intensivos em conhecimento, inteligência artificial, dados, biotecnologia e sustentabilidade. A nova fronteira tecnológica tem sido menos vertical e mais conectada em redes.
Essa transformação também exige repensar a sociedade do trabalho. O enfraquecimento relativo do emprego industrial tradicional não significa necessariamente o fim da proteção social ou da representação coletiva. Significa que novas formas de trabalho como as digitais, criativas, científicas, tecnológicas, de cuidado e ambientais precisam ser incorporadas a um novo pacto de cidadania econômica. O desafio está em ampliar a qualificação, a proteção e a capacidade de organização em um mercado de trabalho mais heterogêneo.
O Brasil já demonstra sinais do curso dessa transição. O crescimento de setores ligados à tecnologia da informação, serviços empresariais, pesquisa aplicada, economia criativa, fintechs, saúde, educação e soluções ambientais revela que a economia brasileira não está apenas se simplificando, pois está se reorganizando. O risco existe sempre quando esses setores permanecem desconectados de uma estratégia nacional de desenvolvimento.
Por isso, o debate sobre desindustrialização deve avançar mais para o salto inteligente da industrialização. Não se trata de reproduzir o modelo dos anos 1970, mas o de ampliar a construção de capacidades em semicondutores, equipamentos para energia renovável, fármacos, defesa, agricultura de precisão, infraestrutura digital, computação em nuvem, inteligência artificial e bioindústria. O objetivo não está em fechar a economia, e sim aumentar sua capacidade de gerar tecnologia, produtividade e empregos qualificados.
A experiência histórica brasileira mostra que períodos de maior dinamismo ocorreram quando o país conseguiu articular Estado, empresas, ciência e sociedade em torno de um projeto de transformação produtiva. Essa lição continua atual. Em um mundo marcado pela disputa tecnológica, pela reorganização das cadeias globais e pela transição ecológica, o Brasil pode ocupar posição mais relevante do que ocupou nas últimas décadas.
O futuro brasileiro não precisa ser o de uma economia baseada apenas em produtos da natureza e mão de obra barata. A abundância de recursos naturais pode se tornar a base de uma nova economia do conhecimento tropical, capaz de combinar sustentabilidade, inovação e inclusão social. O país já demonstrou, em diferentes momentos de sua história, capacidade de construir instituições, ampliar mercados, formar competências e realizar transformações estruturais.
A grande oportunidade do nosso tempo é transformar a herança da industrialização do século XX e as vantagens naturais do século XXI em uma nova etapa de desenvolvimento. Não se trata de retornar ao passado e sim avançar para uma economia mais complexa, mais verde, mais digital e mais integrada ao conhecimento. O Brasil está diante da oportunidade inédita de reinventar o seu projeto nacional.
José Bertotti: Transformação ecológica conecta estratégias de desenvolvimento de Brasil e China https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/jose-bertotti-opina.html