09 março 2026

Riqueza cobiçada

Aporte bilionário dos EUA em terras raras no Brasil desafia soberania
Governo americano tem tomado medidas claras para defender os próprios interesses e atacar a China em todas as frentes
AEPET  

As peças do tabuleiro geopolítico mundial e as cifras bilionárias envolvidas na tentativa de controlar a extração de terras raras se moveram pelo menos duas vezes em direção ao Brasil no começo de 2026.

Foram além dos discursos do presidente Lula, segundo os quais a reserva nacional, cerca de 25% do que se conhece no planeta até agora, fará parte da soberania brasileira no setor mineral, hoje muito mais na narrativa do que na realidade.

A discussão “olho no olho” com Donald Trump, marcada para acontecer nas próximas semanas, será a primeira desde as ameaças e os recuos do tarifaço e ocorrerá em um momento de altíssima tensão internacional diante da guerra no Oriente Médio provocada pelos Estados Unidos e Israel.

Antes desta conversa, os Estados Unidos avançaram uma casa no xadrez dos minerais críticos tentando equilibrar o jogo contra a China, parte de um pacote amplo para tentar diminuir a dependência de importação e o controle que a China exerce no mercado internacional.

O Grupo Serra Verde, que se descreve como o único produtor em larga escala de terras raras pesadas críticas fora da Ásia, com sede em Minaçu (GO), anunciou ter obtido US$ 565 milhões (R$ 3 bilhões) em financiamento da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (DFC).

O aporte financeiro da agência do governo norte-americano, criada em 2019, inclui uma opção que permite ao governo dos Estados Unidos adquirir uma participação minoritária na empresa.

A potência asiática domina o processamento de terras raras no mundo e disputa justamente com o governo Trump a primazia deste mineral que contém elementos essenciais para as indústrias automotiva, de semicondutores, aeroespacial e especialmente de defesa, que está ganhando mais espaço do que a transformação energética. Para manter a sua máquina de guerra funcionando, portanto, Donald Trump e cia precisam de terras raras.

O governo americano tem tomado medidas claras para defender os próprios interesses e atacar a China em todas as frentes. A invasão da Venezuela, o sequestro de Nicolas Maduro e a tomada do petróleo venezuelano, assim como o bombardeio do Irã e o assassinato do líder Ali Khamenei, que levou ao fechamento temporário do estreito de Hormuz, por onde passa até 20% do petróleo mundial exportado principalmente para a China, está esse contexto.

O anúncio do empréstimo para a Serra Verde ocorreu no chamado “Project Vault”, programa do governo norte-americano que investirá R$ 12 bilhões em minerais críticos, alinhando ainda mais a produção da empresa aos planos dos Estados Unidos.

A mineradora já tem como sócias duas empresas registradas no exterior com capital social declarado na Receita Federal de R$ 1,8 bilhão. E a participação de outras empresas como investidoras, também dos Estados Unidos: a Denham Capital e a EMG, além da britânica Vision Blue. Estas duas últimas fizeram um aporte de investimento de US$ 150 milhões na Serra Verde em outubro de 2024.

Ilustrando que quebrar a dominância chinesa não será tarefa fácil, simples e rápida, a mineradora, que iniciou suas operações comerciais em 2024, informa que mantém contratos de exportação com a China, hoje um destino inevitável para mineradoras que extraem terras raras, já que são os chineses que detêm a tecnologia de separação desses elementos e processam cerca de 90% do volume final do mercado global.

Relevância brasileira no cenário de terras raras coloca o país no centro geopolítico

Mas o que significa esse passo dado pela gestão Trump na direção da empresa sediada no interior goiano em uma cidade de 30 mil habitantes construída em torno de uma antiga mina de amianto?

Especialistas ouvidos pelo Observatório da Mineração são unânimes de que se trata de um dos pontos mais altos até agora da nova estratégia dos Estados Unidos no mercado de terras raras em países emergentes. E que essa posição coloca o país no centro da disputa dos norte-americanos com a China pelo controle deste mercado.

O investimento estatal norte-americano por meio da DFC está em um contexto maior. De uma mudança na atuação estadunidense na economia, iniciada no primeiro governo Trump com apoio bipartidário, aprofundada na gestão Biden e que hoje é consolidada como uma política “explicitamente intervencionista”, segundo Edna Aparecida da Silva, pesquisadora do INCT-INEU que estuda, entre outros temas internacionais, os impactos da competição tecnológica entre EUA e China sobre o Brasil.

A mudança estratégica dos Estados Unidos, explica Edna, é de um papel mais ativo na regulação dos fluxos de investimento estrangeiro, com base em critérios de segurança nacional. O modelo, destaca a pesquisadora, envolve a triagem por nacionalidade e setor, interferência em fusões e aquisições e a adoção de marcos regulatórios para restringir a presença chinesa em setores considerados sensíveis.

“O caso da Serra Verde é parte desse novo padrão de coordenação entre Estado e capital em setores estratégicos, mobilizados como parte da política externa norte-americana: o investimento apoiado por capital público converte-se em instrumento de reorganização geoeconômica”, avalia Edna, doutora em Ciência Política pela Unicamp, pesquisadora de pós-doutorado do IREL/UnB e do INCT-INEU.

Para a especialista, a DFC é parte de uma estratégia de fortalecimento dos instrumentos financeiros norte-americanos como resposta à expansão da presença chinesa no Sul Global, em especial na América Latina.

“O financiamento à Serra Verde não pode ser interpretado apenas como uma operação econômica. Não é um movimento neutro e pode, sim, influenciar os horizontes de autonomia da política mineral brasileira”, diz.

Para Luis Eslava, professor de Direito Internacional na Faculdade de Direito de La Trobe University (Austrália), duas “tensões estruturais”podem surgir com o aporte na empresa sediada em Goiás. A primeira, justamente a de soberania, já parte do discurso brasileiro atual, pois o financiamento oferece opções de capital e “inevitavelmente” insere os projetos em prioridades estratégicas mais amplas de potências externas. E a segunda, a de “captura de valor”.

“A menos que o Brasil integre tais investimentos a uma estratégia industrial coerente, corre o risco de reproduzir o padrão histórico de fornecimento de matérias-primas estratégicas, enquanto os segmentos de maior valor permanecem no exterior”, afirma Eslava.

O pesquisador também aponta que o Brasil faz parte de uma nova fronteira de exploração mineral no Sul Global. E que debate central deveria ser feito nos termos e condições da extração: respeito ao consentimento livre, prévio e informado (CLPI), consulta comunitária significativa, mecanismos de justiça distributiva e caminhos concretos para avançar nas cadeias de valor globais.

Como as terras raras passaram a ocupar os holofotes recentemente, ganhando atenção e cobertura inéditas até então, e diante da corrida global pela diversificação de fontes e processamento fora da China, o Brasil, atrasado, apenas iniciou um estudo que tem o objetivo de subsidiar a chamada “Estratégia Nacional de Terras Raras”.

Douglas Carvalho Ribeiro, doutor em Direito pela Universidade de Hamburgo (Alemanha) e pesquisador de pós-doutorado na mesma universidade na cátedra de Estudos de Ciência e Inovação, avalia que essa é uma clara tentativa de “ingerência” dos Estados sobre recursos críticos brasileiros.

Ribeiro vai na mesma linha de Eslava, ao apontar a ausência de um projeto nacional para o setor. “O que torna esse quadro particularmente grave é que não se vislumbra, no momento, um projeto nacional capaz de romper com essa dinâmica — seja pela ausência de uma política industrial voltada ao domínio tecnológico do processamento, seja pela própria inserção subordinada que esses financiamentos reforçam”, argumenta Ribeiro.

Acordo com a Índia indica articulação dos BRICS no eixo Sul-Sul

Apesar do investimento direto de Trump no caso da Serra Verde, e de vários acordos, memorandos de entendimento, reuniões, negociações e até um grupo de trabalho sobre minerais críticos que o Brasil possui com os Estados Unidos, o país também tem acenado para outros parceiros.

Para Edna Aparecida da Silva, o discurso de Lula sobre soberania tem um significado político, cercado por dois atos recentes e relevantes, com pesos políticos e diplomáticos.

O primeiro seria a decisão acertada, segundo a avaliação da especialista, na recusa em aderir ao Fórum sobre Engajamento Geoestratégico de Recursos (FORGE), proposto pelos Estados Unidos.

O segundo ponto, ainda nas relações internacionais, é o acordo sobre o tema fechado na semana passada com a Índia. “Não se trata de um gesto isolado: o Brasil buscou cooperação com um país que também vem reformulando sua posição no campo da política mineral, estruturando uma estratégia nacional voltada à internalização produtiva e à redução de dependências tecnológicas”, afirma.

De qualquer maneira, segundo a pesquisadora, a efetividade do discurso de soberania dependerá da capacidade do Brasil articular as políticas mineral, industrial e tecnológica de forma integrada, com coordenação estatal e horizonte de longo prazo, além de enfrentar os constrangimentos estruturais que ainda limitam a possibilidade de alterar os termos históricos de inserção internacional do país apenas como exportador mineral sem transformação.

O tabuleiro atual de terras raras, aponta Edna, é do domínio tecnológico e os controles regulatórios chineses e de outro, a tentativa norte-americana de estruturar um bloco mineral apoiado em financiamento público, coordenação diplomática e alinhamento regulatório.

“Nesse cenário, a capacidade brasileira de alterar os termos de sua inserção internacional dependerá menos do discurso soberano isoladamente e mais da construção de um projeto consistente de transformação produtiva”, avalia.

Além de também acreditar na validade do acordo com a Índia, Luis Eslava lembra das posições de outros países que mudaram a relação com as potências. Um dos exemplos foi as restrições da Indonésia às exportações de níquel bruto. Segundo o pesquisador, isso mostra que estados do Sul Global podem intervir para promover o processamento doméstico e a atualização industrial.

“Esse movimento provocou reações negativas de grandes potências econômicas, incluindo a União Europeia, mas mudou a posição da Indonésia na cadeia de valor do níquel. O precedente demonstra que quebrar a dependência extrativista é possível, embora politicamente custoso”, avalia.

Para não se submeter às duas grandes potências em disputa, o Brasil, na avaliação de Eslava, deve ter cuidado para não cair na dimensão de marketing dos confrontos contemporâneos. “A retórica anti-China generalizada pode cegar os formuladores de políticas. A tarefa é ouvir as necessidades de suas populações e navegar no contexto internacional de forma pragmática e solidária com outros estados”, diz.

Carvalho Ribeiro tem uma posição cética sobre a capacidade brasileira de ser soberano no setor mineral, ir além do discurso e também de que os Estados Unidos queiram desenvolver uma cadeia tecnológica fora dos seus domínios. “Historicamente, transferência tecnológica entre centro e periferia nunca foi uma concessão espontânea — ela sempre foi resultado de uma política deliberada do país receptor. Sem essa política, o que resta é a extração”, avalia


Lucio Lambranho é repórter desde 1996. Menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog por reportagens sobre trabalho escravo publicadas no site Congresso em Foco. Foi um dos responsáveis pelas reportagens sobre a farra das passagens aéreas, série jornalística vencedora do Prêmio Embratel de Jornalismo Investigativo e do Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2009. Participou de investigações na Papel Social sobre trabalho escravo e infantil e danos ambientais causados pelas cadeias produtivas do açúcar e usinas de cana-de-açúcar, cera de carnaúba, cacau, construção civil, têxtil e reciclagem.

Fonte(s) / Referência(s): GGN/Observatório de Geopolítica

Terras raras, riqueza estratégica https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/editorial-do-vermelho_20.html 

Violência sexista

A misoginia e o futebol
Camila Santiago*/Brasil de Fato     

O clássico dos clássicos entre Sport e Náutico, no último domingo (1º), repercutiu no Brasil inteiro pela grande partida em campo, um jogo com 6 gols e uma linda festa das duas torcidas nas arquibancadas. Esses poderiam ter sido os únicos motivos para a final do Campeonato Pernambucano ser lembrada nas redes sociais, mas infelizmente vimos também um show de misoginia por parte de alguns torcedores.

Circularam nas redes sociais algumas imagens de bonecas vestidas com camisas do Náutico e pinturas que simulavam marcas de agressão, em posições sexuais e até uma imagem onde homens a ameaçavam com uma faca.

Quem acompanha futebol sabe que esse cenário não é novidade. Cânticos de cunho sexista e homofóbico são comumente entoados nas arquibancadas. Chamar a torcida adversária de “gay”, xingar os jogadores de “mulherzinha”, comentários em tom de piada falando sobre estuprar adversário e chamá-los por termos femininos, como “barbie” e “cachorra de peruca”. Na hora de cobrar os jogadores de seu próprio clube, torcedores costumam dizer que é preciso “jogar como homem” ou que “futebol é coisa para homem”.

Esse comportamento tem origem no mesmo lugar: na misoginia que estrutura nossa sociedade e na normalização da violência de gênero em ambientes majoritariamente masculinos.

O ódio às mulheres não é algo que começa com o feminicídio. Ele é construído desde a infância no imaginário de meninos, a partir de uma ideia de hierarquia entre os gêneros.

Nas brincadeiras esportivas, o futebol é incentivado aos meninos, inclusive como prova de masculinidade. Meninos que não gostam de futebol são taxados desde cedo de “menininha”. Já as meninas ficam num papel secundário do jogo, cabendo a elas assistir ou seguir para brincadeiras de cuidado, como cozinhar e cuidar de bonecas.

Meninas ficam em casa, com suas mães, enquanto meninos são levados aos estádios pelos pais para incentivar a torcer pelo seu time. Nesses espaços costuma ser liberado às crianças comportamentos que dentro da sua casa são repreendidos pela família, criando uma falsa ilusão de que o ambiente do estádio é um mundo à parte, onde tudo é permitido.

A violência de gênero no futebol começa de maneira sutil, na normalização desses comportamentos que são reprimidos noutros ambientes. Começa nos ensinamentos de que futebol é para menino porque são mais fortes. E que aquele ambiente não pertence às meninas. E que a fraqueza é sinônimo de mulher. Tudo isso é liberado de maneira quase natural, tornando aquele ambiente cada vez mais hostil para mulheres que desejam torcer pelos seus clubes ou jogar por eles.

É tão estrutural que até mesmo pessoas que repudiam comportamentos machistas, acreditam que não há maldade em reproduzí-los dentro dos estádios, sem perceber que a reprodução desses comportamentos dentro do futebol são os comportamentos que teriam fora dele caso houvesse a mesma tolerância.

No clássico entre Sport e Náutico, as imagens de uma boneca sendo ameaçada com uma faca saiu da “bolha” do futebol e circulou em páginas políticas, não só pela violência que a imagem carrega, mas principalmente pelo contexto em que está o Brasil, com recordes de feminicídio e média de 4 mulheres assassinadas por dia, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Ainda segundo o ministério, 227 mulheres foram vítimas de estupro por dia em 2024. Se formos fazer uma média comparativa com os 90 minutos de duração de uma partida de futebol, podemos considerar que é tempo suficiente para ao menos 14 mulheres serem vítimas de violência sexual.

Um dia antes da final, os principais veículos de notícia do Brasil estamparam a notícia de que 4 homens com entre 18 e 19 anos e um adolescente de 17 anos eram suspeitos de um estupro coletivo de uma menor de idade no Rio de Janeiro. Em Pernambuco, um dia após o clássico, uma mulher de 21 anos foi esfaqueada e teve o corpo queimado por um antigo colega de trabalho.

Embora essas notícias choquem, elas são cada vez mais frequentes e – ao contrário do que muitos costumam comentar – não são “monstros” que cometem esses crimes, mas homens que odeiam mulheres. Ódio que começa com a ideia socialmente construída de que o corpo das mulheres é território livre, onde vale o domínio através da força, força esta que pertence aos homens.

Aqueles corpos frágeis, sensíveis – que pertencem às mulheres – não são delas de fato, mas dos homens que as desejarem, sendo retirado do gênero visto como mais frágil o direito às escolhas e ao “não”.

Ao naturalizar a ideia de que “é cultural” xingar o adversário através de adjetivos femininos; de que é pejorativo relacioná-lo ao universo das mulheres; ou de que é engraçado simular que ele é uma mulher que foi agredida; de que “é apenas piada” utilizar de violência sexual para se referir ao rival; ao naturaliza isso, contribuímos para uma ideia de mundo onde esses comportamentos podem ser tolerados. Educamos os meninos acreditando que meninas são inferiores e que há lugares que não pertencem a elas.

O ódio às mulheres não começa com o feminicídio, como disse recentemente em entrevista a rapper Ebony. “O feminicídio é o estágio final de uma doença que começa na infância dos meninos.”

Para curar essa doença nós precisamos desconstruir os estereótipos de gênero, inclusive nos ambientes em que eles são consolidados, como no caso do futebol. Para construirmos um mundo com igualdade, respeito e sem violência, não podemos ter ambientes onde é naturalizado, permitido e incentivado o ódio às mulheres e a tudo que é relacionado ao feminino.

Assim como cânticos racistas foram abolidos e não são mais tolerados, mesmo que um dia tenham feito parte da “cultura de arquibancada” de alguns clubes, precisamos varrer dos estádios essa cultura misógina que faz homens acreditarem que lá dentro eles podem tudo, inclusive odiar mulheres.

*Professora, gestora pública, feminista e torcedora do Náutico

8 de Março, palavra da UBM https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/8-de-marco-palavra-da-ubm.html 

EUA-Israel x Irã: até quando?

Erro de cálculo?
A superpotência delinquente e o estado genocida atacam o Irã
Paulo Nogueira Batista Jr./Vermelho      

Os colunistas de jornal, revista e internet costumam se queixar de falta de assunto ou da dificuldade de dizer coisas novas sobre temas candentes. Dostoiévski e Nelson Rodrigues, dois dos maiores colunistas de todos os tempos, volta e meia reclamavam disso. Dostoiévski em especial expressou, com humor e verve, a banalidade do que se publicava e o enorme esforço requerido para dizer o que ele chamava de “uma palavra nova”. E transformava isso mesmo em tema de crônicas e colunas.

Com a eclosão da guerra criminosa contra o Irã, movida pela superpotência delinquente, os Estados Unidos, e pelo estado genocida de Israel, não sofremos de falta de assunto, ao contrário. May you live in interesting times (que você viva em tempos interessantes), antiga maldição que continua verdadeira (ainda que desgastada por excesso de uso). Persiste, entretanto, a dificuldade de acrescentar algo original. Se o gênio russo enfrentava esse drama, imagine o que acontece com colunistas modestos como eu.

Mas vamos lá.  Começo com as crianças, lembrando o bombardeio estarrecedor de uma escola de meninas no Irã, que matou mais de 160 pessoas. Do sofrimento das crianças, escreveu Dostoievsky,  pode-se derivar o absurdo de toda a realidade histórica. Apesar de tudo, ele acreditava em Deus. No meu livro mais recente, Estilhaços, fui mais longe, dizendo que “o sofrimento das crianças não só desmente a existência de Deus, como prova a do Diabo.”

Nos dias de hoje, o Diabo toma a forma de Donald Trump e Benjamim Netanyahu. O tempo dirá, mas parece que a dupla diabólica cometeu um gigantesco erro de cálculo. Ou seria melhor inverter a ordem e escrever Netanyahu e Trump? Já que no comando dessa agressão estão Israel e o poderoso lobby sionista em Washington e Nova Iorque, como revelou, de maneira simplória, o ministro das relações exteriores dos EUA, Marco Rubio. Veja, leitor ou leitora, o que disse esse mentecapto para justificar a agressão ao Irã. “Havia uma ameaça iminente aos EUA”, sustentou. “Sabíamos que se o Irã fosse atacado por Israel, eles imediatamente nos atacariam”. Segundo ele, o governo Trump agiu “proativamente” e  “de forma defensiva”, ao agredir o Irã. Parece claro que Israel é quem dá as cartas, definindo o momento do ataque.

Talvez eu esteja exagerando um pouco. Os Estados Unidos têm seus próprios objetivos de dominação no Oriente Médio. Seja como for, uma coisa ficou evidente. O Irã é um osso duro de roer. Não é a Palestina indefesa, submetida a destruição e massacre pela covardia israelense. Não é o Líbano, também indefeso e sob ataque de Israel. Não é a Síria, despedaçada por uma agressão dos EUA, de Israel e da Turquia. Nem é uma Líbia. Nem um Iraque. E não é uma Venezuela, que foi subjugada com facilidade por uma intervenção relâmpago dos Estados Unidos.

O Irã é uma potência militar que vem conseguindo impor pesadas perdas aos agressores, inclusive aos aliados ou satélites árabes dos Estados Unidos e Israel no Golfo Pérsico. Esses países árabes (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar e Bahrein) abrigam bases militares americanas em seu território. Dessas bases, ataques são feitos ao Irã, o que converte o território desses países em alvo legítimo para os iranianos.  

Eles dependem, ademais, da passagem pelo Estreito de Ormuz para escoar as suas exportações de petróleo e gás natural (dos cinco mencionados, só a Arábia Saudita conta com outros canais). O Irã fechou esse estreito cirurgicamente, excetuando apenas os navios dos seus aliados estratégicos – Rússia e, sobretudo, China. Os outros navios que tentam passar estão sendo bombardeados.

Como envelheceu mal, diga-se de passagem, a recente declaração do presidente Lula, poucos dias antes do início da guerra, quando estava a caminho de Abu Dhabi: “Não estou preocupado com o que os Estados Unidos vai fazer com o Irã” (!), mas sim, disse, com o comércio e as relações entre os Emirados Árabes Unidos e o Brasil! Uma de muitas declarações infelizes que o presidente brasileiro vem dando desde o ataque à Venezuela. Vejam bem: o presidente de um país que se declara pacifista “não se preocupa” com uma agressão militar iminente. Além disso, ironicamente, o nosso comércio com os Emirados, a prioridade definida por ele, ficará reduzido a zero ou quase zero com a eclosão da guerra. Contudo, depois do início da guerra, essa derrapada foi corrigida por manifestações oficiais brasileiras condenando o ataque ao Irã.

Uma civilização milenar e pacífica, um grande país

O Irã  é uma civilização milenar. Trata-se de um país orgulhoso de suas tradições. Nunca foi uma colônia, embora tenha sido submetido a uma relação semicolonial em certos períodos por potências estrangeiras, principalmente Inglaterra e Estados Unidos. A última invasão do Irã a algum país remonta ao século 18.

Agora, os iranianos não estavam atacando ninguém e nem se preparavam para fazê-lo. Ao contrário, tentavam uma solução negociada com os Estados Unidos, quando foram apunhalados pelas costas.

Não se deve perder de vista a dimensão do Irã. São mais de 90 milhões de iranianos, vivendo num território maior do que a soma dos territórios da França, Espanha, Alemanha e Itália. Comparem com a pequena Palestina, com população inferior a 6 milhões, vítima do genocídio e limpeza étnica praticados por Israel. O Irã não será varrido do mapa.

Os iranianos vem-se preparando há décadas para esse enfrentamento. Apesar das sanções aplicadas pelos Estados Unidos durante mais de 40 anos, com a colaboração de outras nações do Ocidente coletivo, o Irã acumulou grande capacidade de retaliação, como estamos vendo agora. A consciência iraniana de que essa preparação era necessária remonta a 1980, quando o Irã foi atacado pelo Iraque de Sadam Hussein (sim, ele mesmo!), armado e incentivado pelos Estados Unidos e por Israel. O Irã foi pego de surpresa e se deu conta das suas vulnerabilidades militares. E tirou a lição correta, transformando-se numa potência militar.

A resistência do Irã e a coesão interna do país só aumentaram com a decisão realmente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá Khamenei. Uma liderança extraordinária, um homem fora do comum foi transformado em mártir e símbolo da resistência iraniana à ameaça existencial que o país enfrenta. Portou-se como um herói. Nunca será esquecido.

A verdade é que os Estados Unidos e Israel são sociedades profundamente doentes. Trump e Netanyahu expressam essa doença. E esses dois países converteram-se em ameaça para os demais.

O que pretende a dupla diabólica? Os Estados Unidos buscam escapar do declínio e naufrágio civilizacional do Ocidente. E estão dispostos a tudo. Querem retomar à força a sua hegemonia mundial, crescentemente contestada. O alvo último é a China, “o país mais poderoso relativamente a nós desde o século 19”, como destacou o documento de estratégia de defesa nacional dos EUA, divulgado agora em janeiro.

Israel, por seu turno, quer levar adiante o projeto de domínio do Oriente Médio. Apenas dois países de peso se opõem a esse projeto – Irã e Turquia. Se o Irã sucumbir, a Turquia será provavelmente a próxima vítima.

E o Brasil?

Somos um país vulnerável. Há muito tempo. Durante a década de 1980, quando passamos por uma redemocratização pacifista e antimilitar, o problema se agravou. Basta lembrar, leitor ou leitora, que os constituintes introduziram na Constituição de 1988 um dispositivo que renuncia à energia nuclear como instrumento de defesa – como se tivéssemos sido derrotados em uma guerra! Depois veio o entreguista-mor, Fernando Henrique Cardoso, um mero procônsul do Império, e aderiu vergonhosamente ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Em oito anos na Presidência (1995 a 2022), o que fez FHC para fortalecer a defesa nacional? Para fortalecer as escolas militares? Nada. Isso não fazia parte do projeto político implementado pela corja tucana.

Depois vieram Lula 1 (2003 a 2006), Lula 2 (2007 a 2010), Dilma 1 (2011 a 2014), Dilma 2 (2015 e parte de 2016) e Lula 3 (2023 até hoje). O que fizeram os governos comandados pelo PT para fortalecer a defesa nacional em mais de 16 anos? O que fizeram os ministros da Defesa desses governos? Tomaram, ou tentaram tomar, iniciativas importantes no campo da defesa nacional. Mas não nos retiraram da condição de vulnerabilidade militar.

Com Temer e depois Bolsonaro, meros fantoches do Império, a nossa situação piorou. Bolsonaro, em especial, um imitador servil e ignorante de Donald Trump, só fez agravar a fragilidade militar nacional, intensificando a cooperação em matéria de defesa com os Estados Unidos e chegando a ponto de inscrever o Brasil como “importante aliado extra OTAN”, designação adotada por Washington para aliados militares não membros da organização.  

Por essas e várias outras razões, é que devemos considerar a eleição de 2026 como a mais importante da nossa História. Lula, com todas as suas limitações, ainda mantém certa resistência ao projeto colonial e assassino comandado por Trump e Netanyahu. O governo brasileiro condenou o genocídio em Gaza, recusou-se a aderir às sanções contra a Rússia, manteve relações estratégicas com a China e acabou condenando também o ataque ao Irã.

Se cairmos nos braços de Flávio Bolsonaro, o Brasil ficará reduzido à posição subordinada da Argentina de Milei. No atual ambiente internacional, isso significará a destruição da soberania brasileira.

Multilateralismo aos frangalhos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/diplomacia-em-segundo-plano.html

O "espetáculo" da guerra

O sadismo digital da Casa Branca diante da morte de iranianos
Trump converte a Operação Epic Fury em espetáculo digital, usando memes e estética de games para desumanizar vítimas e mascarar crimes de guerra no Irã
Davi Molinari/Vermelho  

O horror da guerra encontra um novo e perverso aliado: a gamificação da morte. Sob o comando de Donald Trump, a Casa Branca e o Pentágono converteram a tragédia da “Operação Epic Fury” em um espetáculo de escárnio digital. Enquanto 1.230 civis iranianos jazem sob escombros, os perfis oficiais do governo dos EUA inundam as redes sociais com memes, vídeos inspirados em filmes de Hollywood e estéticas de videogames, vendendo o extermínio de seres humanos como se fosse uma partida de Call of Duty.

A barbárie viral: sangue transformado em likes

A estratégia é tão sofisticada quanto cruel. Vídeos de 15 a 60 segundos, que já acumulam dezenas de milhões de visualizações no X, TikTok e Instagram, misturam imagens reais de ataques de drones com computação gráfica. Em um dos conteúdos mais chocantes, o personagem Bob Esponja aparece rindo sobre explosões em instalações iranianas com a legenda debochada: “Querem me ver fazer de novo?!”.

Outros vídeos utilizam o contador de “kills” (mortes) típico de jogos de tiro enquanto um caça F-35 persegue alvos reais. Até mesmo animações da Disney Pixar, como o personagem de Elio, são subvertidas para simular o “toque” em telas que detonam hospitais e escolas. Para o público “MAGA” e os jovens cooptados pela estética da extrema direita, a guerra deixou de ser uma tragédia geopolítica para se tornar entretenimento niilista.

O eco de Goebbels: a pedagogia da desumanização

Não se trata apenas de mau gosto, mas de uma tática sistemática de desumanização que encontra paralelo direto na máquina de propaganda de Joseph Goebbels. Assim como o ministro nazista retratava judeus e inimigos como “vermes” em cartoons para justificar o Holocausto, a atual administração estadunidense transforma meninas iranianas em “pontos no placar”.

Goebbels usava o humor sádico para anestesiar a empatia da população alemã. Hoje, a Casa Branca repete a fórmula: ao tratar hospitais bombardeados como power-ups de um jogo e mortes reais como imagens de arquivo recicladas, o governo Trump busca sufocar qualquer consciência crítica. A vítima é despojada de sua humanidade até se tornar um pixel descartável em uma narrativa presunçosa e dominadora.

Enquanto os memes viralizam nas redes sociais, a realidade no solo iraniano revela uma crueza insuportável, marcada pelo massacre na escola Shajareh Tayyebeh, em Minab, que foi atingida por três mísseis em pleno horário de aula. O episódio, já classificado pela UNESCO como crime de guerra, resultou na morte de mais de uma centena de meninas com idades entre 7 e 12 anos, somando-se a um cenário de colapso hospitalar onde treze unidades foram atingidas e médicos da OMS são forçados a operar em tendas sem suprimentos básicos.

Em meio a essa crise humanitária galopante, prevalece o silêncio dos agressores, com postagens oficiais que celebram a força bruta sem mencionar nomes, rostos ou as histórias das vítimas. Até mesmo as baixas do lado americano, com a confirmação de seis soldados mortos, são tratadas com uma tristeza superficial pelo General Caine, jamais alcançando o protagonismo conferido aos vídeos épicos que exaltam a tecnologia de destruição.

A Injustiça Gamificada

Ao trocar a diplomacia pela promoção da morte usando games de guerra de múltiplos jogadores, Trump mergulha o mundo em uma era onde o extermínio do “outro” é celebrado com um emoji de risada. Por trás de cada explosão “cool” no TikTok, existe o choro inconsolável de famílias em Teerã e o sangue de crianças que nunca verão o amanhã. A propaganda de guerra mudou de formato, mas o cheiro de enxofre permanece o mesmo.

A Guerra EUA x Irã e Clausewitz https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_5.html

Minha opinião

Mídia parcial é arma de guerra

Luciano Siqueira  
instagram.com/lucianosiqueira65


O conflito EUA/Israel x Irã da oportunidade a que a grande mídia ocidental, cujas informações e “análises” nos chegam, confirme uma vez mais o seu caráter parcial em toda linha.

​​Um exemplo de como o enquadramento jornalístico pode servir a interesses geopolíticos, a partir da “chave” simplista: o "Ocidente democrático" contra a "Teocracia autoritária".

​Ações militares dos EUA são frequentemente descritas como "defensivas", "preventivas" ou "respostas a provocações", enquanto as ações iranianas são invariavelmente rotuladas como "agressões" ou "terrorismo".

Quando do assassinato do general Qasem Soleimani, em 2020, a notícia foi veiculada como uma "operação de precisão contra um alvo terrorista", minimizando o fato de que se tratou de uma execução arbitrária de um alto funcionário de um Estado soberano em solo de um terceiro país, o Iraque.

​O complexo midiático pró-EUA omite o contexto como modo de confundir. Tende a iniciar a "cronologia do conflito" a partir de um ato iraniano recente, ignorando eventos precedentes que explicam a postura iraniana. Tudo na maior superficialidade.

​Importantes eventos que ajudam a compreender o que se passa na atualidade são simplesmente omitidos: O golpe de 1953 (Operação Ajax) orquestrado pela CIA; o apoio dos EUA a Saddam Hussein durante a Guerra Irã-Iraque; a saída unilateral dos EUA do acordo nuclear (JCPOA) em 2018. Isto de modo a pintar o Irã como um "agressor irracional", e não como um ator racional agindo sob décadas de cerco econômico e militar.

​Na tentativa de tornar críveis suas versões, as grandes redes de notícias (CNN, Fox News, BBC) usam como fontes ex-oficiais do Pentágono ou analistas de think tanks financiados pela indústria militar norte-americana. Assim, a solução militar é apresentada como a única saída viável. As vozes da sociedade civil iraniana ou de acadêmicos críticos à política externa de Washington são, na maioria das vezes, relegadas a segundo plano ou simplesmente omitidas.

​A absurda parcialidade midiática se apoia na distorção dos fatos através de versões distorcidas.

Ligue a TV ou visite sites e perfis nas redes digitais confirme o quanto parcial é a cobertura jornalística deste conflito, como de resto o que acontece na arena global.

Colonialismo digital: a nova fronteira da dependência latino-americana https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/o-desafio-da-autonomia-tecnologica.html

Quando a astúcia pode vencer

Guerra de guerrilhas ao estilo do Irã
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65    

Interessante matéria da BBC News aborda como o Irã transformou sua indústria militar ao investir em uma estratégia de "guerra assimétrica", utilizando drones suicidas (como o famoso Shahed-136) para projetar poder e desestabilizar adversários no Oriente Médio e além.

O conceito de “baixo custo", no caso, tem tudo a ver com a associação da simplificação à tecnologia de ponta. Cada instrumento em sua medida e em seu lugar.

Distintos dos mísseis de precisão norte-americanos e israelenses, como o Reaper americano (que custam milhões de dólares), os drones iranianos são fabricados com componentes "de prateleira": motores civis, até baseados em modelos de cortadores de grama ou motocicletas; eletrônicos acessíveis, como o GPS civil e componentes eletrônicos encontrados em lojas de consumo comum.

Astúcia sem limites!

Mais: estima-se que um drone Shahed custe entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, uma fração mínima do custo de um míssil interceptor usado para derrubá-lo.

Tudo apropriado à estratégia do caos: os iranianos se valem da enxames: lançam dezenas de drones, simultaneamente, sobrecarregando os sistemas de defesa antiaérea (como o Iron Dome de Israel ou os sistemas Patriot). Ainda que 90% sejam interceptados, os poucos que passam conseguem atingir alvos estratégicos, causando danos psicológicos e materiais desproporcionais ao investimento feito.

O Irã fornece essa tecnologia para aliados, como os Houthis no Iêmen, o Hezbollah no Líbano e milícias no Iraque. Isso possibilita que esses grupos ataquem infraestruturas críticas (como refinarias de petróleo na Arábia Saudita) sem que o Irã precise assumir a autoria direta.

A produção desse artefato escapa a qualquer mecanismo proibitivo de sua fabricação, inclusive porque seus componentes adotam a dualidade civil e militar.

No lado oposto, os países ocidentais gastam milhões em mísseis de alta tecnologia para abater drones que custam o preço de um carro popular.

O artifício se assemelha à guerra de guerrilhas bem sucedida no enfrentamento de um exército inimigo poderoso.

Acompanhemos os desdobramentos.

Contradições aguçadas no mundo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/palavra-do-pcdob.html

Urariano Mota opina

Por que falham tanto os jornalistas sobre a agressão contra o Irã?
Cobertura da mídia ocidental sobre o conflito é criticada por reproduzir narrativas geopolíticas dos EUA e Israel, ocultando vítimas civis e simplificando a guerra como defesa democrática.
Urariano Mota/Vermelho      
 

Se lemos somente os textos da mídia dominante, somos levados a crer que Israel e os Estados Unidos fazem uma guerra de defesa contra poderoso inimigo, nesta ordem: pelos valores democráticos e pelo ameaçado território da pátria imperial. Então, primeiro, vemos a enganosa palavra “guerra”, em lugar de mortes de crianças pelo imperialismo, depois vemos “democracia” e “defesa do território”. Mas tudo antecedido e coberto pelo que chamam de luta contra a ditadura do Irã. 

Outra coisa não podemos concluir diante das notícias, no g1Os Estados Unidos estão vencendo [a guerra] de forma decisiva, devastadora e sem piedade. (…) Estamos batendo neles enquanto eles estão caídos. (…) Vamos continuar atacando o Irã até decidirmos que está bom, e o regime iraniano não poderá fazer nada sobre isso”, afirmou Hegseth”.

Ou na BBC Brasil: “’Teerã está sendo pulverizada e não há plano para o dia seguinte. Iranianos não querem sair para protestar enquanto mísseis caem do céu’, diz pesquisadora”.

Ou na Folha de S.Paulo: “O chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, general Eyal Zamir, disse nesta sexta-feira (6) que o ‘golpe de abertura’ foi dado, e que ‘estamos nos movendo para a próxima fase. Vamos intensificar os ataques à fundação do regime e às suas capacidades militares. Nós temos jogadas adicionais em nossas mãos’, afirmou. Nesta manhã de sexta, Israel disse que 50 de seus caças destruíram o que havia sobrado do bunker de Khamenei, ainda usado por autoridades, lançando cerca de cem bombas no local”.

Os jornais transformam a guerra num jogo de videogame. E a brincadeira de matar é esta: quem bombardear mais, que será “o nosso lado” deles, ganhará a guerra contra o terror do Irã. E no passo seguinte, já “vencemos”! Para o Irã, game over. Mas um game over para sempre.     

Como deseja o jornal O Globo: “Um Irã gravemente enfraquecido não intimidará nem ameaçará seus vizinhos da mesma forma, e o impacto regional poderá ser comparável ao colapso da União Soviética”. Tomara, ele quer dizer.

Se não lemos o Vermelho, o Brasil 247, o Jornal GGN, podemos ser levados a erro. Como bem escreve Davi Molinari no Vermelho: “Desde o início da ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em fevereiro (28), a cobertura da grande mídia ocidental tem se revelado uma extensão fiel da narrativa oficial da Casa Branca. Manchetes enviesadas e omissões sistemáticas dominam o discurso, enquanto vítimas civis são relegadas a números frios. Essa distorção reflete uma assimetria informativa que favorece Washington e Tel Aviv, diluindo responsabilidades por possíveis crimes de guerra. Um exemplo flagrante é o bombardeio da Escola Primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã, que matou entre 148 e 171 meninas. A ação é tratada pela imprensa ocidental com o um ‘equívoco’ técnico — um ‘erro de alvo’ baseado em supostas falhas de inteligência —, em vez de uma denúncia explícita de massacre e violação ao direito internacional”.

E Luis Nassif, no Jornal GGN, nesta esclarecedora recuperação: “a CIA infiltrou centenas de jornalistas mundo afora para plantar narrativas, moldar opiniões e sufocar soberanias. No Brasil, o esquema ganhou solo fértil via institutos de fachada como o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), que operaram como Estados paralelos de 1961 a 1971. Hoje, na cobertura sobre o Irã, a herança persiste: refinada, mas intacta. A estrutura de cooptação evoluiu em algoritmos e pautas globais, garantindo que o desejo do imperialismo seja lido sempre como ‘consenso global’”.

E José Reinaldo Carvalho no Brasil 247: “O poder global não se expressa apenas por meios militares, mas também por fatores econômicos, tecnológicos, diplomáticos e institucionais. Nesse contexto, a ascensão da China tornou-se um dos elementos mais marcantes das transformações em curso. Nas últimas décadas, o país registrou crescimento econômico acelerado, impetuoso desenvolvimento multidimensional, consolidando-se como uma das maiores economias do planeta e como potência central no comércio e nas cadeias produtivas globais. Paralelamente, ampliou sua presença diplomática e política em diversas regiões, fortalecendo sua assertividade e capacidade de influência no cenário internacional”.

Mas tanto no cenário internacional quanto no do Brasil, repete-se a ofensiva da mídia contra a informação justa, digna, formadora de consciências, o que os jornais renegam com ardor.  Pelo contrário, divulgam notícias que podem confundir até mesmo jovens leitores, cidadãos ao lado do progresso. O que dizer dos “comentários”, da GloboNews, e da nova serpente do fascismo pátrio, Malu Gaspar, em O Globo? Queremos dizer, das montagens criminosas contra o ministro Alexandre de Morais nas mensagens do celular de Vorcaro?

“Segundo blog de Malu Gaspar, de O Globo, banqueiro falou de negócios. Não é possível saber o que o ministro do STF respondeu porque as mensagens são prints do bloco de notas de visualização única. Defesa de Vorcaro criticou vazamento; ministro não se manifestou”. Você viram. Em mais de uma oportunidade, ou melhor, sempre, ela é a repórter que faz notícia da insinuação. A jornalista que transforma em verdade o que o seu veneno achar que é. Imagino o que ela diria dos casos que Jesus teria cometido na maior baderna sexual com os apóstolos. Num deles, Pedro beijou Jesus. O que seria o comentário da jornalista para o escândalo? Este: “Aí tem”.

Amigos, aqui termino. E pensar que comecei a manhã de hoje a escrever sobre os 99 anos do nascimento de Gabriel García Márquez. Mas o vazamento dos crimes da mídia não deixou.

Para o Irã, vencer é simplesmente não ser vencido https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ira-guerra-prolongada.html