05 abril 2026

Sistema partidário furta-cor

Dança das cadeiras 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65       

Nada contra a mudança de legenda por parlamentares dos três níveis federativos no limite da chamada janela partidária. Faz parte da reacomodação de forças e alianças na atual fase pré-eleitoral. 

Nada contra, inclusive porque o meu partido, o PCdoB, também acolheu novos filiados detentores de mandato pelo Brasil afora. 

Mas tudo contra a legislação partidária e eleitoral vigente, expressão da fragilidade dos partidos políticos no Brasil. 

Com raras exceções — o PCdoB, por exemplo —, são legendas constituídas de acordo com os requisitos legais mínimos, mas que abrigam interesses locais ou regionais ou de pequenos grupos sem nenhuma consideração para com o programa partidário. 

Não há como superar essa anomalia agora. Talvez futuramente como desdobramento de uma nova Assembleia Nacional Constituinte, que venha a corrigir graves defeitos do Estado de Direito democrático, acumulados nas últimas décadas mediante emendas constitucionais e mesmo, numa certa medida, através de legislação infraconstitucional. 

Por enquanto, é travar a luta no terreno possível de modo a conquistar espaços institucionais e contribuir para a elevação da consciência crítica do povo brasileiro.

Alianças de quem com quem? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/fator-de-instabilidade.html

Seleção: quem vai à Copa?

A postura coletiva dos campeões
Danilo, reserva do Flamengo, estará na Copa do Mundo; parece estranho, mas não é. Experiente e bom jogador, ele é um líder, um representante ético e coletivo do grupo
Tostão/Folha de S. Paulo    

A principal dúvida de Carlo Ancelotti foi resolvida na partida contra a Croácia. Antes, Vinicius Junior jogava no centro do ataque porque, pela esquerda, sua melhor posição, teria de voltar para marcar. Ancelotti escalou um centroavante (João Pedro), deixou Vini pela esquerda, sem precisar recuar para defender, e mudou a posição de Matheus Cunha.

Em vez de ser um meia centralizado e avançado, Matheus jogou no meio-campo, marcando pela esquerda e formando um trio com Casemiro e Danilo Santos. Matheus Cunha tem jogado dessa maneira no Manchester United. Com isso, Vini ficou livre no ataque. Não são mais quatro atacantes. São três no meio-campo e três no ataque. Matheus Cunha tem outra grande qualidade, o jogo solidário.

Um dos momentos de que mais gosto da Copa do Mundo de 1970 é o quarto gol do Brasil contra a Itália. Eu, que era um centroavante, desarmei o adversário na lateral do nosso campo, e a partir daí começou a troca de passes que resultou no gol de Carlos Alberto. Antes de Pelé dar o passe para o lateral finalizar, eu já estava na minha posição, a de centroavante, gritando para Pelé e mostrando com a mão que Carlos Alberto estava livre. É um dos lances coletivos mais destacados e bonitos da história do futebol.

Ancelotti resolveu uma dúvida importante e arrumou outra. Com a volta de Raphinha, onde ele vai jogar? Ele não tem características para fazer a mesma função de Matheus Cunha nem é um centroavante. Ele terá de jogar pela direita no lugar de Luiz Henrique ou Estêvão. Raphinha joga da direita para o centro, enquanto Luiz Henrique e Estêvão são pontas, rápidos e dribladores.

Outra dúvida surgiu após o jogo contra a Croácia. Ancelotti deve estar convencido de que Endrick não é jogador para a Copa de 2030. É para agora. Sempre que entra, joga bem. No mínimo, será uma ótima opção, ainda mais que ele, com sua incrível velocidade, potencializa a principal qualidade do time, as jogadas rápidas de contra-ataque em direção ao gol.

O meio-campista Danilo Santos deve ter conquistado um lugar no Mundial. Ele une muita força física e velocidade para defender e atacar. Porém dizer que ele deveria ser o titular no lugar de Bruno Guimarães por causa de um bom jogo e de um gol é uma opinião apressada, habitual no futebol brasileiro.

Ancelotti tem outras dúvidas. O único jogador anunciado por ele no Mundial é Danilo, reserva do Flamengo. O técnico disse que ele será o substituto dos oito defensores (quatro zagueiros e quatro laterais). Parece estranho, mas não é. Ancelotti já disse gostar muito do seu comportamento. Danilo é mais que um experiente e bom jogador. Ele é um líder, um representante ético e coletivo do grupo.

Absurdos foram os insultos racistas vindos da arquibancada contra os muçulmanos de parte da torcida da Espanha no amistoso contra o Egito. Pior, o maior craque da Espanha é muçulmano, Lamine Yamal. Ele classificou os gritos como intoleráveis. Manifestações racistas e homofóbicas estão a cada dia mais presentes nos estádios de futebol. O ser humano não piorou. Ele apenas tem hoje mais espaço para demonstrar suas idiotices e preconceitos. Perderam a consciência crítica interna. Não há mais limites.

Futebol entre a tática e o talento https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/futebol-taticamente-avancado.html 

04 abril 2026

Palavra de poeta

Um poema de Ana Estaregui

II.


há sempre um degrau

entre o que se escreve

e o que se gostaria

de ter escrito

e quando há um poema

inexaurível

desses que nunca mais se pode

parar de ler

que não se pode mais soltar

porque no meio dele há um vórtice

um poço d’água potável

onde se pode nadar muito

em círculos, sem pressa

onde se pode apanhar com as mãos

os peixes intermináveis

não há como não ponderar

sobre qual seria o verdadeiro poema

aquele outro ainda maior

mais robusto

que alguém tentou escrever

 

[Ilustração: Gustav Klimt]

Leia também: "A pulga, a ciência e a paz mundial" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/a-pulga-quem-diria.html 

Arte é vida

 

Pablo Picasso

Quem procura, acha https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Falar e esclarecer

Comunicar por qual via?
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65   

Todo governo despende recursos com a comunicação institucional. Natural e necessário: o complexo midiático dominante faz uma divulgação seletiva das políticas públicas e do posicionamento político do governante. Distorce fatos e palavras conforme a posição política que adotam os donos das grandes redes e demais canais de comunicação midiática. 

Em relação ao governo Lula e a figura do presidente predomina uma comunicação seletiva e tendenciosa. 

O complexo midiático está a serviço sobretudo do capital financeiro e tem lado nas eleições. Desde já tenta gerar condições para impedir a reeleição de Lula. 

Nessas circunstâncias, nos limites estritos da comunicação institucional, cabe ao governo divulgar o que pensa e o que faz. E a população tem o direito de saber. 

Hoje circula a notícia de que o governo Lula agora aumenta os gastos com os meios de comunicação monopolizados pelas big techs e que o Google e a Meta passam a faturar mais do que o SBT e a Band.

Sim, por que não? Redes como Facebook, Instagram e WhatsApp hoje têm um alcance maior do que os citados canais de televisão.

É uma distinção de ordem prática. Só isso. A comunicação institucional através dos canais digitais é imprescindível.

Terceira via carece de chão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_19.html 

Juventude: presente e futuro

Juventude brasileira entre o realismo capitalista e a formação do novo sujeito coletivo
Ela é mais instruída que as gerações anteriores. Mas deprime-se nas telas, num país estagnado há 40 anos e em pouca esperança de vida florescente. Há duas saídas: ou o ultraindividualismo, ou um novo engajamento político, ainda por construir
Marcio Pochmann/Outras Palavras    

A crescente incidência de sofrimento psíquico entre jovens brasileiros, registrada pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE com apoio dos ministérios da Saúde e da Educação, já não pode ser tratada como um problema isolado ou passageiro. Ela expressa uma mudança mais profunda na sociedade brasileira que resulta da perda de dinamismo econômico, enfraquecimento das promessas de mobilidade social e a transformação das formas de poder e de socialização.

Nesse sentido, a ansiedade revelada em setor crescente da parcela juvenil da nova sociedade de serviços, hiperconectada na era digital, deixa de ser vista apenas como um problema individual ou psicológico. Ela passa a ser compreendida como expressão social de um tempo histórico marcado pela incerteza. Desde os anos 1990, com a adoção de políticas neoliberais, o Brasil perdeu dinamismo econômico, sofreu a desindustrialização, aprisionou-se na financeirização e fragilizou os mecanismos de ascensão social. O resultado tem sido a formação de nova geração cuja subjetividade é atravessada pela instabilidade.

Em um país historicamente desigual, esse processo agravou a sensação de bloqueio social. Embora mais escolarizada do que as gerações anteriores, grande parte da juventude passou a encontrar um mundo do trabalho mais precário, instável e fragmentado. A educação continuou sendo apresentada como caminho de ascensão, mas a correspondência entre esforço e recompensa se enfraqueceu.

Durante o período de industrialização de elevada expansão econômica ocorrida entre as décadas de 1930 e 1980, predominou, apesar das desigualdades, a percepção de que o tempo trabalhava a favor da melhora de vida. Escola, emprego e urbanização apontavam, ainda que de modo desigual, para alguma perspectiva de avanço socieconômico. A partir dos anos 1990, contudo, essa narrativa foi sendo corroída. Em seu lugar, consolidou-se uma sociedade de serviços hiperconectada, porém incapaz de garantir inclusão ampla, segurança e horizonte estável.

É nesse contexto que os dados recentes da PeNSE ganham maior significado. O aumento da tristeza, solidão, ansiedade, exposição à violência e experiências de abuso não deve ser lido apenas como questão sanitária ou psicológica. Esses indicadores expressam uma época em que o futuro perdeu força como promessa coletiva. O horizonte de expectativas superiores se estreitou.

O mal-estar que emerge desse processo não aparece, ao menos por enquanto, como revolta organizada. Ele surge de forma mais difusa, íntima e silenciosa. A juventude brasileira não está apenas ansiosa. Ela percebe, muitas vezes de forma sensível e imediata, que o modelo social que antes prometia alguma melhora deixou de funcionar. A insegurança não decorre apenas do excesso de estímulos digitais, mas também da falta de perspectivas concretas.

A hiperconectividade faz parte desse problema, mas não o explica sozinha. Ao sair das telas de celulares e redes sociais, muitos jovens encontram um mundo que pouco os acolhe. A ansiedade não nasce apenas da conexão permanente, mas da experiência cotidiana de escassez de oportunidades, de fragilidade dos vínculos e de bloqueio do futuro.

Nesse quadro, o neoliberalismo produz mais do que políticas econômicas, pois gera uma forma de experiência social. Ele dissemina a sensação de que não há alternativa, de que cada indivíduo deve resolver sozinho problemas que são coletivos. Mesmo informados, conectados e escolarizados, muitos jovens percebem que poucas portas realmente se abrem. O resultado é uma geração marcada pela incerteza estrutural.

Mais do que uma “geração ansiosa”, trata-se de uma geração formada sob o signo da insegurança. A ansiedade, nesse caso, não é uma anomalia isolada, mas um sintoma de um modelo de desenvolvimento que perdeu a sua maior capacidade de inclusão. Ainda assim, esse sofrimento costuma ser interpretado como falha individual. Ao jovem que não consegue “dar certo”, resta a exigência de se reinventar continuamente como empreendedor de si mesmo. 

Com isso, a pressão não desaparece. Ela apenas se internaliza. O peso de uma estrutura social instável é carregado no próprio corpo e na própria mente. A frustração deixa de ser episódica e se torna estrutural. Muitos jovens fizeram o que lhes foi pedido, estudaram, buscaram qualificação e adaptaram-se às novas exigências. Ainda assim, encontram-se à margem de um projeto real de futuro.

É nesse ponto que a questão ganha dimensão política. O que está em formação não é apenas uma geração frustrada, mas um novo sujeito social, ainda fragmentado, instável e sem linguagem política clara. Trata-se de uma experiência comum de insegurança, bloqueio e perda de sentido, que ainda não se traduziu plenamente em organização coletiva.

Esse sujeito, por enquanto, sente antes de formular. A ansiedade pode ser entendida, nesse sentido, como uma de suas primeiras formas de expressão. Ela ainda não aparece como programa político ou ação organizada, mas revela algo importante como a percepção difusa de que o jogo social mudou profundamente.

O risco é evidente. Esse mal-estar pode ser capturado por soluções individualizantes, por discursos de autoajuda ou por promessas de simples adaptação a uma realidade injusta. Também pode ser absorvido por formas regressivas de pertencimento, que oferecem identidade sem projeto coletivo. Mas existe outra possibilidade, ainda aberta: a de que essa ansiedade contenha o início de uma nova consciência histórica.

Não se trata, necessariamente, de uma consciência de classe nos moldes tradicionais. Trata-se, antes, de uma sensibilidade compartilhada diante de um mundo que deixou de oferecer sentido e direção. Algo que ainda não se organiza claramente em partidos, sindicatos ou movimentos duradouros, mas que circula em afetos, frustrações e percepções comuns de injustiça.

Se for assim, os dados da PeNSE deixam de ser apenas um alerta de saúde pública. Eles passam a registrar estatisticamente uma mutação social em curso. O Brasil pode estar diante de uma geração que já não acredita no futuro como promessa garantida, mas que, justamente por isso, talvez venha a recolocá-lo como problema político. Nesse caso, a ansiedade não seria o fim da história. Poderia ser justamente o começo de outra.

O Brasil vive uma silenciosa marcha para o interior https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/marcha-para-o-interior.html

Que dia é hoje?

Sábado para quê?
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65  

Cresci encarando o sábado como dia comum, produtivo. Às 5 horas despertava para acompanhar meu pai à feira do Alecrim, que desde a Lagoa Seca, bairro de Natal onde morávamos, levava talvez uns 20 a 25 minutos, creio. A pé.

Era comum outras pessoas irem juntas. Conversavam com seu Renato Siqueira, respeitado comerciante do bairro.

Nos dias que correm, o ritmo alucinante engole o prazer do sábado, sobretudo para trabalhadores obrigados a jornada de trabalho estafante. Mas também para os ansiosos de todos os naipes.

Há uma neurótica imposição de certo padrão de vida por si mesmo ansioso. Você se vê quase que obrigado a correr dez quilômetros, organizar o que está ou não desorganizado em casa, não perder a última postagem na sua rede predileta.

Relaxar não pode. É como se você se recusasse a estar bem informado sobre o que ocorre a seu redor e mundo afora.

Aqui em casa a gente resiste. E vence, pelo menos por enquanto.

Sim, há a feira de orgânicos entre as cinco e seis horas; o café na padaria; a entrega de frutas e verduras na portaria de onde residem filhas, genros e netos. Mas por volta das dez horas, a brisa do fim de semana aos poucos nos envolve.

Há tempo para ouvir música, ler, escrever ou simplesmente nada fazer. Rotina prazerosa só interrompida, eventualmente, por alguma reunião do Partido.

À noite, espaço quase sagrado para um filme, em casa ou na tela grande do ETC. Um drinque. Ou nada fazer.

Infelizes os obrigados à desumana escala 6 x 1 (seis dias de trabalho por um de descanso), alvo de campanha nacional encetada por sindicatos, movimentos sociais diversos e partidos de esquerda, o PCdoB com destaque.

Por um sábado semelhante ao meu e por uma vida digna.

Mais atenção à realidade concreta! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_26.html