28 fevereiro 2026

Editorial do 'Vermelho'

Solidariedade a Cuba é um dever da luta anti-imperialista
País sufocado pelo criminoso bloqueio iniciado logo após a Revolução simboliza a luta dos povos por seus direitos, por soberania e pelo direito internacional
Editorial do portal Vermelho www.vermelho.org.br   

A resistência cubana ao cerco imperialista desde os primeiros passos da Revolução de 1959 é um feito notável. Atualmente, o país enfrenta possivelmente o seu maior desafio, diante da ofensiva do presidente estadunidense Donald Trump, que incentiva inclusive atos como o caso da lancha que ingressou em águas cubanas e resultou na morte de quatro pessoas. “Cuba não está atacando nem ameaçando ninguém; já declaramos isso repetidamente. No entanto, confirmamos que Cuba se defenderá de forma resoluta e firme contra qualquer agressão terrorista ou mercenária que vise minar a soberania e a estabilidade nacional do país”, reagiu o presidente cubano Díaz-Canel.

O ministro das Relações Exteriores, Bruno Rodríguez Parrilla, afirmou que “desde 1959, Cuba tem enfrentado repetidamente incursões terroristas e agressivas dos Estados Unidos, que causaram um alto custo em vidas, feridos e danos materiais”. A constatação se insere no criminoso bloqueio econômico, comercial e financeiro iniciado com a Lei de Assistência Externa, de 1961, consolidado pelo presidente John Fitzgerald Kennedy e reforçado pela Lei Torricelli, de 1992, e pela Lei Helms-Burton, de 1996, anualmente condenado pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Tudo isso constitui retaliação à altivez do povo cubano, que instituiu o socialismo nas barbas do império. A Revolução Cubana marcou também um momento decisivo do projeto socialista, então em ascensão no mundo, em pleno período de agressividade da chamada Guerra Fria anticomunista. Ou seja: o bloqueio é a guerra por outros meios.

A Revolução, jurada de morte, sustentou-se essencialmente pelas próprias forças, sobretudo após o fim do bloco de países liderados pela União Soviética, em 1991, vencendo o duro teste de sobrevivência diante do fechamento das portas para suas atividades comerciais e para seu principal apoio político no cenário internacional. O chamado “período especial” ocorreu justamente quando o imperialismo viu uma oportunidade para impor a derrota da Revolução.

Mais tarde, nos anos 2000, Cuba foi incluída no “eixo do mal”, anunciado pelo então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, ao lado do Irã, do Iraque e da República Popular Democrática da Coreia. O país foi atingido por uma onda de ações terroristas, com sequestros de barcos e aviões — prática antiga que motivou o envio de agentes de inteligência cubanos para prevenir atos terroristas e que resultou na prisão, em 1998, em Miami, e posterior condenação nos Estados Unidos, dos chamados “cinco heróis”.

Cuba também foi incluída na lista de Estados Patrocinadores do Terrorismo pelo presidente Ronald Reagan, em 1982. A decisão foi revogada por Barack Obama, em 2015, restituída por Trump, em 2021, novamente retirada por Joe Biden e reinserida por Trump no início de seu atual mandato, em 2025.

Cuba enfrentou tudo isso com a força de seu povo, do Partido Comunista e de suas lideranças, sempre contando, em diferentes graus, com apoio e solidariedade de governos e povos. Ao mesmo tempo, desenvolveu programas de solidariedade internacional, como a Operação Milagro — lançada em 2004 em conjunto com a Venezuela para oferecer tratamento médico gratuito a pessoas com problemas oculares —, o método de alfabetização Yo, sí puedo e, sobretudo, o “internacionalismo médico” ou “diplomacia das batas brancas”: o envio de médicos a diferentes regiões do planeta, além da Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), voltada a estudantes de baixa renda de todo o mundo.

Foi igualmente ativa na solidariedade aos povos africanos, com o envio de trinta mil soldados, médicos e professores para Angola, na “Operação Carlota”, ação decisiva para a independência angolana, para o combate ao apartheid na África do Sul e para a libertação da Namíbia. Também apoiou organizações que lutaram contra as ditaduras na América Latina, inclusive no Brasil.

Esses fatos reforçam os laços com as forças anti-imperialistas, compondo um movimento mundial de apoio ao povo e à Revolução Cubana. O ódio do império está intimamente ligado ao poder internacionalista do socialismo cubano. A crueldade de Trump — ao reforçar o bloqueio e ameaçar com agressão militar o fornecimento de petróleo após o ato terrorista que sequestrou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro — mostra a dimensão desse ódio.

A ordem executiva de Trump designa Cuba como “uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos” e impõe tarifas a qualquer país que forneça petróleo à ilha. Cuba produz apenas cerca de 40% de suas necessidades de combustível, dependendo fortemente de importações para sustentar sua economia e a produção de energia elétrica.

Trump expressa, com essa atitude, práticas do velho colonialismo, como suas pretensões de tomar posse da Groelândia e da Faixa de Gaza, na Palestina, além de ameaçar outros países. No caso de Cuba, reforça o estereótipo anticomunista de que o socialismo fracassou justamente num momento em que as ideias revolucionárias recuperam prestígio, sobretudo pela pujança da China. Faz isso proclamando uma nova era de força como método para combater todas as formas de resistência à opressão imperialista.

Neste momento em que Cuba emite um sinal de socorro, cabe ao mundo democrático, patriótico e progressista responder ativamente, a exemplo da presidente do México, Claudia Sheinbaum. “Continuaremos enviando ajuda humanitária, suprimentos alimentares e atendendo a outros pedidos feitos pelo governo cubano”, afirmou. E a organização humanitária Nuestra América convocou uma iniciativa de solidariedade internacional para levar ajuda humanitária à ilha em 21 de março.

No Brasil, movimentos sociais, entidades dos trabalhadores, partidos progressistas e personalidades conduzem ativa campanha de solidariedade a Cuba, tanto política quanto material. Campanha que deve prosseguir, mais ampla e mais forte.

O Brasil democrático e progressista, inclusive na esfera do governo Lula, tem esse dever para com um país que socorreu o povo brasileiro com o Programa Mais Médicos, no governo da presidente Dilma Rousseff, atendendo comunidades em locais de extrema precariedade no atendimento à saúde.

O governo brasileiro cultiva parcerias e apoios ao povo e ao governo cubano por meio de diversos ministérios. Entretanto, a situação que se impôs hoje é extraordinária e de extrema gravidade, exigindo um grau superior e emergencial de ajuda e solidariedade.

Ontem, a soberania atacada foi a da Venezuela; agora é a de Cuba que está sob ataque, pois privar a ilha de combustível, alimentos e remédios é uma forma de guerra. Amanhã, qual será o próximo país? Tais agressões imperialistas não podem se tornar o “novo normal” da América Latina e do Caribe. É preciso enfrentar a pressão e a chantagem do imperialismo e das classes dominantes para defender uma causa que, além de seu significado humanitário, ergue na região uma barreira contra a ofensiva neocolonial do governo Trump.

Trumpismo é neofascismo, uma ameaça a ser rechaçada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_26.html

Arte é vida

 

Juarez Machado 

Os votos que brotam da covardia e da morte de inocentes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/enio-lins-opina_28.html 

Dica de leitura

Em "De contos fiados e dose tostões de lembranças" Lilian Gondim consegue transformar a simplicidade do cotidiano e as lembranças do passado em arte narrativa, seja através da ficção ou da crônica. (Do prefácio de Lourdes Rodrigues).

De tudo um pouco www.lucianosiqueira.blogspot.com 

Retrocesso argentino

Neoliberalismo em modo turbo
Com apoio de Trump e FMI, reforma trabalhista de Milei bate recorde de retrocessos
Rogério Tomaz Junior/Liberta     

No início de 2020, poucos dias após ter deixado a presidência da Argentina (2015-2019), Mauricio Macri foi perguntado se tinha algum arrependimento a respeito da sua gestão. Ele não hesitou um segundo. “Se pudesse voltar atrás, teria feito as coisas que precisava fazer de forma mais célere, especialmente as reformas”, disse.

Javier Milei e seu entorno – ao qual se juntou o próprio Macri, no segundo turno da eleição de 2023 – devem ter aprendido a lição. Com apenas dez dias no cargo, o novo presidente enviou ao Congresso um decreto nacional de urgência (DNU 70/2023), com 366 artigos, os quais revogavam ou alteravam leis em praticamente todas as áreas do Estado e da vida social.

Uma semana depois, antes mesmo de deputados e senadores se debruçarem sobre o DNU, Milei enviou um novo pacotão com mais alterações legislativas profundas, a chamada “Lei Omnibus”, um calhamaço com 664 artigos em 351 páginas.

Esse primeiro mês mostrou a pronta disposição para a guerra que Milei sempre alardeava como inevitável: uma disputa entre as suas “forças do céu” e a “casta parasitária” da política argentina.

Por um lado, essas medidas praticamente enfiavam uma nova Constituição goela abaixo do Parlamento e da sociedade. Por outro, anulavam de saída a capacidade da oposição de pautar o debate, mesmo com leve maioria tanto na Câmara quanto no Senado. Sem dúvida, uma estratégia resultante das experiências anteriores em que a direita esteve no comando da Casa Rosada (o que ocorreu em 26 dos últimos 50 anos, diga-se de passagem).

Após um primeiro ano muito difícil e conturbado, econômica e politicamente, Milei ganhou o presente que foi a eleição de Donald Trump. A ajuda do republicano foi decisiva para que a gestão do “libertário” se recuperasse em 2025.

Não à toa, vários nomes de peso da oposição dizem que o verdadeiro comando da Argentina atual se encontra nos Estados Unidos: na Casa Branca e no JP Morgan, companhia pela qual passaram o ministro da Economia (Luis Caputo) e seu adjunto (José Luis Daza), além do presidente do Banco Central (Santiago Bausili) e seu vice (Vladimir Herning).

Bicicleta financeira com respaldo do mercado

As vitórias nas eleições legislativas do segundo semestre de 2025 tiveram um duplo efeito. Primeiro, garantiram o respaldo do mercado para a continuidade da política econômica centrada na “bicicleta financeira”. Junto a isso, trouxeram alívio e confiança renovada para a cúpula do governo, que saiu empoderada para avançar com o experimento ultraneoliberal.

Os escândalos de corrupção envolvendo até a irmã do presidente e secretária-geral da presidência, Karina Milei; o golpe com a criptomoeda $Libra; a repressão às manifestações da sociedade e a perseguição a profissionais e veículos da imprensa; os cortes brutais no orçamento da educação e da saúde; a extinção ou a forte redução de programas para aposentados e pessoas com deficiência de baixa renda, como a oferta gratuita de tratamentos e remédios para doenças crônicas; sem falar nas diatribes chocantes do chefe de Estado… Nada disso foi capaz de frear o governo Milei, que obteve nas urnas as cadeiras necessárias para garantir o controle do Congresso.

A escancarada disposição de Trump – e, por tabela, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e de todo o sistema financeiro global – para socorrer financeiramente a Argentina, é vital destacar, pavimentou o caminho para o triunfo eleitoral.

E aí chegamos à reforma trabalhista. O projeto ganhou manchetes no mundo inteiro, não exatamente pelo suposto caráter modernizante, mas pela quantidade de retrocessos que trouxe ao longo dos mais de 200 artigos.

O termo retrocesso não é mera retórica política. Para Roberto Pompa, jurista argentino e ex-juiz do Trabalho, a reforma de Milei “contraria o princípio da progressividade e da não regressividade, considerado pela Suprema Corte de Justiça um princípio arquitetônico do Direito”. O preceito, ressaltou Pompa, está consagrado tanto na Constituição Nacional quanto em tratados internacionais dos quais a Argentina é signatária, tais como a Convenção Interamericana de Direitos Humanos, o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos.

A decisão de votar ainda em fevereiro, com o Congresso em recesso e convocando sessões extraordinárias, foi assumida publicamente como parte da estratégia para arrefecer a resistência. Debate? Apenas uma sessão nas comissões da Câmara e do Senado. Audiência pública? Nenhuma. Macri sorri de inveja.

Indenização por conta do empregado

Recuos? Um único: no artigo que determinava o corte de metade do salário durante afastamento por licença médica. Neste caso, o governo também confessou depois da aprovação na Câmara, que o item era uma isca para desviar a atenção do que considerava essencial: o fim do pagamento da indenização por demissão por parte da empresa.

As multas, agora, ficarão a cargo de um fundo e poderão ser pagas em até 12 parcelas. Aliás, o Fundo de Assistência Laboral (FAL) contará com aportes dos próprios trabalhadores. Sim, o empregado vai pagar uma parte da sua própria indenização.

Jornada de até 12 horas diárias, fim do pagamento de horas extras, “salário dinâmico” (com critérios de bonificação subjetivos e definidos pelos patrões) e forte restrição ao direito de greve são outras joias da reforma. Até agora, nenhum porta-voz ou parlamentar governista conseguiu apontar onde ela beneficia os trabalhadores.

Ah, e até 20% do salário poderá ser pago em alimentação e alojamento. Nas redes sociais, a piada corrente é que os apoiadores de Milei votaram nele esperando receber em dólar, mas acabarão sendo pagos em pacotes de macarrão.

Mas nem todos consideram esta nova legislação trabalhista o fim do mundo. Na era Milei, uma surpresa pior sempre está à espreita.

Um dos empresários mais militantes no apoio ao governo, Natalio Grinmam presidente da Câmara de Comércio, resume assim: “Alguns vão ficar pelo caminho, mas é o preço a pagar para se ter uma Argentina normal”. A definição do que seria “normal” fica por conta da imaginação de cada um.

Leia também: América do Sul: um continente partido e tutelado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/america-do-sul-ameacas-e-desafios.html

Humor de resistência

 

Céllus

Trump e o velho imperialismo americano sem maquiagem https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/enio-lins-opina_21.html

China: planejamento democrático

Como a China constrói seus Planos Quinquenais?
Muita gente fora da China trata o 15º Plano Quinquenal (2026–2030) como algo já pronto, a realidade é que o plano ainda está em construção
Iara Vidal/Observatório de Geopolítica/Jornal GGN   

Ao longo do último inverno, autoridades, técnicos e pesquisadores chineses estavam em ebulição silenciosa trabalhando na elaboração do documento mais importante da política econômica e social do país para os próximos cinco anos: o Plano Quinquenal, conhecido em chinês como Wǔnián Guīhuà (五年规划).

Embora muita gente fora da China trate o 15º Plano Quinquenal (2026–2030) como algo já pronto, a realidade é outra. O plano ainda está em construção — e esse detalhe é central para entender como funciona o sistema de planejamento chinês. 

Desde o primeiro Plano Quinquenal, lançado em 1953 com foco na industrialização básica, esse instrumento passou por mudanças profundas. De ferramenta rígida de economia planificada, tornou-se um mecanismo estratégico de coordenação entre Estado, mercado e sociedade. Hoje, os planos orientam prioridades como inovação tecnológica, transição energética, redução de desigualdades, segurança econômica e estabilidade social.

O 15º Plano, portanto, não é apenas mais um documento técnico. Ele faz parte de uma tradição de planejamento que molda o rumo do desenvolvimento chinês há mais de sete décadas — e que, neste momento, ainda está em gestação.

É aqui que surge um dos equívocos mais comuns no Brasil. As diretrizes aprovadas pelo Partido Comunista da China (PCCh) na sua 4ª sessão plenária do 20º Comitê Central, realizada em outubro de 2025, não são o plano em si. São, em certo sentido, o ponto de partida. Definem os grandes eixos, os limites e as prioridades estratégicas. Funcionam como uma bússola — não como o mapa completo.

Confundir essas diretrizes com o Plano Quinquenal acabado é perder de vista uma das características centrais do sistema político chinês: um processo de construção coletiva que envolve o Partido, o Estado, governos de níveis provinciais, ministérios, universidades, centros de pesquisa e especialistas de diferentes áreas.

Entender esse processo não é detalhe técnico. É condição básica para compreender por que o planejamento chinês se consolidou, ao longo das últimas décadas, como um dos instrumentos de desenvolvimento mais consistentes e duradouros do mundo contemporâneo.

Consulta pública: como a sociedade participa da construção do Plano Quinquenal

Um aspecto pouco compreendido fora da China — e frequentemente ignorado no debate brasileiro — é que a elaboração dos Planos Quinquenais não ocorre a portas fechadas. Há mais de duas décadas, o governo chinês vem incorporando mecanismos formais de consulta pública ao processo de planejamento nacional. No caso do 15º Plano Quinquenal (2026–2030), esse processo foi ampliado, sistematizado e tornou-se mais visível.

De acordo com a agência Xinhua, o 11º Plano Quinquenal (2006–2010) marcou uma mudança importante na forma como a China passou a planejar suas políticas. Nesse período, o país deixou de usar a ideia de jihua, ligada a um plano mais rígido, e adotou o conceito de guihua, que é mais amplo, estratégico e orientado por políticas públicas. Com essa mudança, o processo de elaboração dos planos passou a seguir um método mais organizado, incluindo pesquisas, consultas, articulação entre diferentes órgãos do governo e avaliação de especialistas. Esse novo modelo criou as bases para que, nos planos seguintes, a China ampliasse gradualmente as formas de ouvir a sociedade.

No 14º Plano Quinquenal (2021–2025), por exemplo, o governo central recebeu mais de 1 milhão de sugestões da população, enviadas por meio de plataformas digitais oficiais, cartas, fóruns temáticos e consultas regionais organizadas por governos locais.

Para o 15º Plano Quinquenal, o processo seguiu lógica semelhante, mas com escala maior e coordenação mais centralizada. Em 2025, o Conselho de Estado e a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC, sigla em inglês) abriram canais oficiais para o envio de propostas, com campanhas públicas incentivando a participação de cidadãos, empresas, universidades, associações profissionais e governos locais. 

Essas contribuições não entram diretamente no texto final do plano. O processo funciona em camadas. Primeiro, as sugestões são classificadas por tema — economia, inovação, meio ambiente, bem-estar social, urbanização, educação, saúde, energia, segurança alimentar, entre outros. Em seguida, equipes técnicas vinculadas à NDRC e a ministérios setoriais avaliam a viabilidade, a coerência com as diretrizes estratégicas do Partido e os impactos econômicos e regionais das propostas.

Somente uma parte dessas sugestões é incorporada — e quase nunca de forma literal. Elas aparecem como ajustes de prioridade, ênfase em determinados setores, mudança de ritmo na implementação ou inclusão de novos eixos de política pública. O objetivo não é atender demandas individuais, mas captar tendências sociais, gargalos reais e expectativas coletivas.

Um elemento novo neste ciclo foi a abertura controlada à participação de estrangeiros. Diferentemente de planos anteriores, algumas plataformas oficiais aceitaram contribuições de estrangeiros residentes na China, pesquisadores internacionais e representantes de empresas estrangeiras com atuação no país. Em certos casos, os formulários estavam disponíveis também em inglês, algo ainda incomum em processos de planejamento estratégico chineses.

É importante frisar: essa participação estrangeira não tem caráter decisório nem interfere nas prioridades centrais do plano. Ela funciona como insumo técnico e informativo, especialmente em áreas como inovação tecnológica, sustentabilidade, cooperação internacional e cadeias globais de produção. A decisão final permanece inteiramente sob responsabilidade das instituições chinesas.

Esse modelo ajuda a explicar por que os Planos Quinquenais combinam, ao mesmo tempo, centralização política e escuta social, direção estratégica clara e flexibilidade operacional. Não se trata de um exercício de democracia liberal nos moldes ocidentais, mas de um mecanismo próprio de governança, no qual o planejamento incorpora informações vindas da base da sociedade sem abrir mão do controle político do processo. 

O que existe hoje — e o que ainda não existe

Até o momento, o que existe de forma pública é um documento político, não o plano em si: as linhas gerais aprovadas pelo Comitê Central do PCCh na 4ª sessão plenária do 20º Comitê Central, realizada em outubro de 2025. É ali que aparecem as grandes prioridades que vão orientar o debate nacional:

●      crescimento de alta qualidade;

●      modernização industrial avançada;

●      liderança global em inovação;

●      segurança energética e alimentar;

●      autonomia tecnológica;

●      transição verde e metas climáticas;

●      coesão social e novo modelo de urbanização;

●      redução das disparidades regionais.

Esses pontos dizem muito — mas não dizem tudo. São diretrizes, não metas quantificadas. Entre a divulgação dessas diretrizes e a aprovação do plano final há vários meses de trabalho intenso. Trata-se de um processo estruturado, que atravessa diferentes camadas do sistema político e administrativo chinês, envolvendo debates técnicos, consultas regionais, ajustes setoriais e definição de prioridade.

Entender esse intervalo é essencial para compreender como o planejamento chinês funciona na prática — e por que ele não pode ser lido como um anúncio pronto, mas como um processo em movimento.

Etapa 1 — A formulação estratégica: quando o PCCh define o horizonte

O ponto de partida é que o PCCh define a direção estratégica do país. Não se trata de um detalhe nem de um ritual formal: é o momento em que se estabelece o que a China entende como prioridade sistêmica para o próximo ciclo de desenvolvimento.

Na sessão plenária, o Partido debate temas estruturais, como:

●      o papel da China no sistema internacional;

●      os gargalos que limitam a inovação de ponta;

●      os riscos associados à dependência tecnológica;

●      a necessidade de proteger cadeias produtivas estratégicas;

●      o fortalecimento da economia digital, da inteligência artificial e da manufatura avançada;

●      a conciliação entre crescimento econômico e metas climáticas mais rigorosas.

Isso ainda não é o plano. Mas é o que molda tudo o que virá depois. Trata-se da visão estratégica que orienta o processo. 

Etapa 2 — Os institutos de pesquisa entram em campo

Com a orientação política definida, entra em funcionamento outra engrenagem central do sistema chinês: a dos institutos de pesquisa e think tanks estatais. Essas instituições atuam sob a orientação estratégica do Partido e do Estado e têm papel decisivo na formulação de políticas de médio e longo prazo.

Participam desse processo, entre outros:

●      a Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS, na sigla em inglês);

●      o Development Research Center of the State Council (DRC);

●      institutos ligados à Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC, na sigla em inglês);

●      centros de pesquisa vinculados a ministérios como ciência e tecnologia, agricultura, meio ambiente, transporte e energia.

É nesse estágio que as diretrizes políticas são traduzidas em propostas técnicas. Esses órgãos produzem dados, cenários, avaliações de impacto e sugestões de mecanismos de implementação, além de mapear conflitos potenciais entre objetivos. Surgem aqui versões preliminares — que não são públicas — de partes do plano que podem ou não integrar o texto final. Esse trabalho raramente aparece no noticiário, mas constitui o núcleo do planejamento chinês.

Etapa 3 — As províncias apresentam seus próprios planos

A China não opera de forma estritamente vertical. O sistema funciona por engrenagens acopladas. Antes de existir um texto nacional consolidado, cada província e cada grande cidade apresenta seu próprio plano regional.

Essa fase é marcada por negociações intensas. Províncias industrializadas buscam metas mais avançadas em inovação e tecnologia; regiões agrícolas solicitam recursos para impulsionar a modernização rural; polos energéticos discutem prazos de descarbonização compatíveis com suas realidades; áreas costeiras defendem políticas voltadas à abertura econômica e ao comércio exterior.

Cabe ao governo central conciliar demandas frequentemente contraditórias para construir um plano nacional coerente. Esse processo ajuda a explicar por que os Planos Quinquenais chineses conseguem ser, ao mesmo tempo, ambiciosos e executáveis: eles nascem de uma articulação organizada entre regiões, setores e interesses. 

Etapa 4 — A consolidação ministerial: o plano ganha corpo

Após receber as propostas regionais e os estudos técnicos, o governo central inicia a fase de consolidação. Nesse momento, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC, na sigla em inglês) assume papel central, articulando o trabalho de diversos órgãos, entre eles:

●      Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação;

●      Ministério da Ciência e Tecnologia;

●      Ministério do Comércio;

●      Ministério da Agricultura e dos Assuntos Rurais;

●      Ministério de Ecologia e Meio Ambiente;

●      Administração Nacional de Energia;

●      Ministério das Finanças;

●      além de outros órgãos especializados.

Cada ministério elabora seus capítulos setoriais — indústria, tecnologia, energia, agricultura, infraestrutura, transporte e meio ambiente. Esses textos passam por um processo de harmonização, para evitar contradições e definir metas mensuráveis apenas quando há consenso técnico. É só aqui, meses depois da plenária do Partido, que começam a aparecer os contornos reais do documento final. 

Etapa 5 — Revisão política final

Mesmo após a consolidação técnica, o texto retorna ao Partido para uma nova rodada de avaliação. O PCCh analisa a coerência interna do plano, seu alinhamento com as prioridades estratégicas nacionais, as implicações para a segurança nacional, os impactos regionais e os efeitos geopolíticos internacionais.

Caso algum ponto seja considerado desalinhado, o texto volta para ajustes. Trata-se de um processo de dupla validação — técnica e política.

Etapa 6 — Aprovação estatal nas “Duas Sessões”

O plano final é apresentado e votado durante as chamadas “Duas Sessões”, geralmente realizadas em março:

●      a Assembleia Popular Nacional (APN);

●      a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPCh).

É nesse momento que o plano se torna público, detalhado e oficial, com metas para cinco anos, orientando políticas nacionais, investimentos públicos, incentivos, prioridades financeiras e indicadores de desempenho. 

Por que é importante compreender esse processo?

Entender como a China constrói seus Planos Quinquenais é fundamental para interpretar corretamente temas centrais do debate global atual, como:

●      a transição energética chinesa;

●      a expansão das tecnologias de inteligência artificial;

●      a reorganização das cadeias produtivas globais;

●      a substituição de importações em setores estratégicos;

●      a política industrial que hoje influencia o ritmo da economia mundial;

●      o avanço chinês em energias renováveis, semicondutores, manufatura avançada e novos materiais, incluindo fibras têxteis sustentáveis.

Quando o mundo afora trata diretrizes iniciais como se fossem políticas públicas já finalizadas, perde a chance de acompanhar o que realmente está em curso: um processo dinâmico, marcado por deliberações internas, ajustes técnicos, negociações regionais e revisões sucessivas. Perde também ao deixar de observar esse modelo como referência. A China não cresce por espontaneidade — cresce porque planeja, revisa e executa.

Onde acompanhar a construção do Plano Quinquenal

Para quem busca compreender esse processo com maior precisão, os veículos do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês) são hoje uma das fontes mais consistentes para acompanhar, em tempo real, os debates, sinalizações políticas e prioridades em discussão durante a elaboração do Plano Quinquenal.

Entre esses veículos estão: a CGTN, com cobertura internacional e análises voltadas ao público global; a CCTV, principal emissora de televisão da China, com reportagens sobre decisões políticas e econômicas; e a China National Radio (CNR), que acompanha debates internos e regionais.

Dentro desse conjunto, a CGTN em Português se destaca por oferecer entrevistas, dados oficiais e análises acessíveis ao público dos países de língua portuguesa, permitindo uma leitura direta das prioridades chinesas.

Os conteúdos já divulgados indicam que a China pretende:

●      acelerar a pesquisa em inteligência artificial e computação avançada;

●      fortalecer a autonomia tecnológica;

●      ampliar investimentos em indústria verde;

●      modernizar a agricultura com foco em segurança alimentar;

●     intensificar políticas de redução das desigualdades regionais; investir em tecnologias disruptivas ligadas a novas cadeias produtivas.

Acompanhar esse conjunto de informações de forma integrada permite oferecer ao público fora da China uma visão mais precisa da potência asiática— não como caricatura, mas como sistema político em funcionamento. 

O plano que ainda não existe

O 15º Plano Quinquenal é um organismo vivo, ainda em formação. Ele não nasce pronto. Não sai de uma sala fechada. Não é escrito por um único órgão ou líder.

É resultado de decisões políticas do Partido, estudos técnicos especializados, negociações entre ministérios, articulações regionais, revisões sucessivas e até opinião dos cidadãos, e, por fim, aprovação formal pelo Estado.

Em fevereiro, o mundo ainda não conhece o plano. O que existe é o seu embrião — as diretrizes que orientam sua construção. Compreender esse processo é mais do que um exercício analítico: é entender a lógica que estrutura o desenvolvimento chinês.

O 15º Plano Quinquenal está em andamento — mas ainda não nasceu.

E é justamente agora, neste período de construção, que olhar para Beijing faz toda a diferença.

Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

China: Autossuficiência tecnológica e mercado interno https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/china-em-ascensao.html

27 fevereiro 2026

Palavra de poeta

 PARA OS QUE VIRÃO
Thiago de Mello    

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular – foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
— muito mais sofridamente —
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

[Ilustração: Beatriz Díez Lopez]

Leia também: "Vinil", um poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-de-poeta_19.html