02 novembro 2022

Tática consequente

Vitória da frente ampla
Sem a frente, mantido no claustro do seu nicho tradicional, Lula também ficaria para trás
Luiz Manfredini, Vermelho www.vermelho.org.br

 

A vitória de Lula foi, sobretudo, a vitória de uma solução política de tática eleitoral, ou seja, a frente ampla. Solução que, diga-se, sofreu acerba oposição, a começar pelo próprio Lula, que saiu da prisão bastante radicalizado. Luminares do PT chegaram a produzir abaixo assinado contra a proposta da frente ampla, particularmente em relação a indicação de Geraldo Alckmin para vice. Filósofos que apreciam realizar análises políticas e outras personalidades proclamaram sua oposição à amplitude. Alegavam que, com ela, a esquerda perderia sua identidade.

Não pretendo minimizar o papel de Lula, personagem de extraordinária dimensão popular e histórica, que há décadas personifica o grito do povo brasileiro por democracia, igualdade social e soberania. Sem Lula, a frente ampla não assumiria a dimensão que assumiu e certamente seria derrotada. Mas sem a frente, mantido no claustro do seu nicho tradicional, Lula também ficaria para trás. Pode-se, portanto, dizer que existiu uma simbiose entre o candidato e a frente, cada um dependendo do outro.

O PCdoB, reconheça-se, foi pioneiro na defesa bem fundamentada da solução frentista e, mais tarde, o próprio Lula reconheceu que, para derrotar Bolsonaro, era indispensável reunir o maior número de segmentos da sociedade brasileira, por mais díspares que fossem. Aos poucos, a ideia foi se impondo. E Lula e os partidos que compõe a federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB, PV) afinal conseguiram compor um amplo e forte movimento nacional de natureza essencialmente democrática, capaz de enfrentar Bolsonaro e o bolsonarismo e conduzir Lula – ainda que por pequena margem, como ocorreu – a um terceiro mandato na Presidência da República.

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Frente ampla em torno de objetivos pontuais de interesses de forças políticas que pensam diferente é instrumento de solução política e eleitoral sempre disponível, quando não imprescindível, para marchas vitoriosas. Tal solução, obviamente, resulta em certas concessões programáticas das forças que se unem, mas esta é a grande engenharia: buscar nos programas singulares tudo aquilo que possa ser aceito por todos, e mesmo não tratando de certos aspectos sobre os quais não há acordo, ou o acordo é mais difícil, consolidando assim uma plataforma que a todos reúna em torno do objetivo pontual que perseguem. No caso específico das eleições deste ano, o centro a congregar diferentes foi a oposição a Bolsonaro. E, graças a isso, o objetivo foi alcançado.

A frente ampla, naturalmente, não é algo estático, ao contrário, segue o movimento do cenário político em que atua. Pode simplesmente se desfazer sob nova situação, ou alterar sua natureza, métodos e composição. Sendo eleito no bojo de um amplo movimento frentista, e de acordo com o atual estágio da correlação de forças políticas no país, Lula não poderá governar à margem desse movimento, ou seja, a frente ampla deverá subsistir ao longo do novo governo em favor da estabilidade e de e avanços democráticos, por mais modestos que sejam. Não será de fácil administração. As negociações deverão ser intensas e, algumas vezes, tensas, gerando apoios e críticas, quando não deserções. Por sua natureza, seus conhecimento e experiência, Lula saberá capitanear o barco do Brasil pelas tempestades que estão por vir.

[Ilustração: Nando Mota]

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Desordem declinante

Golpismo perde força no 3º dia; 563 vias já foram desbloqueadas. Só nas últimas 24 horas, houve 104 desbloqueios em todo o Brasil. Dez unidades federativas estão sem bloqueio nenhum em rodovias federais. Leia mais https://bit.ly/3T97PlK

Minha opinião

Ação golpista mal ensaiada

Luciano Siqueira


Não sei se é exatamente mal ensaiada. Pelo menos a juízo do quase ex-presidente Jair Messias Bolsonaro e dos membros mais íntimos do seu quartel general da desfaçatez e do ódio, provavelmente seria uma ação “inteligente”.

Tudo indica que o bloqueio de mais de 500 estradas pelo país afora, realizado por fragmentos da turba insana e ensandecida é parte do golpe que enfim se frustrou.

Em breve saberemos exatamente o que ocorreu no palácio da Alvorada nas 40 horas que antecederam o murcho pronunciamento do presidente candidato derrotado, que durou pouco mais de dois minutos.

Plausível é a hipótese de que o capitão teria buscado apoios para uma tentativa de rejeitar o resultado das urnas e instalar uma situação de anormalidade institucional.

A intensa disseminação de mensagens de cunho golpista, no âmbito da realidade paralela alimentada pelas milícias digitais, usou e abusou de referências ao artigo 142 da Constituição, na interpretação tendenciosa bolsonarista a chave para que o presidente, com o apoio das Forças Armadas e de uma banda do parlamento e das "ruas em protesto", pudesse decretar ilegal o resultado do pleito.

Estaria assim instituído o ambiente apropriado à permanência do capitão na chefia do governo e, numa versão amena da trama golpista, a convocação de novas eleições.

Porém tudo falhou desde o início. O presidente da Câmara dos Deputados, deputado Arthur Lyra, se apressou no reconhecimento da vitória de Lula, o mesmo acontecendo com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco.

Depois, os ministros do STF foram sagazes e consequentes ao só aceitarem o encontro com o presidente após este fazer seu pronunciamento oficial, e assim mesmo os receberam na sede da suprema corte ao invés de se deslocarem ao Planalto.

Antes formalizaram, em nota oficial, a compreensão de que o presidente já havia reconhecido a derrota e autorizara seus ministros a iniciarem a transição para o novo governo.

Assim, a persistência dos bloqueios de estradas pelas exatas 72 horas consideradas condição sine qua non para o golpe, estribado na interpretação fajuta do tal artigo 142 da Constituição, restou como tragicomédia.

A invasão do Capitólio à moda tupiniquim acaba hoje, ridícula.

Leia também: Lula tem respaldo jurídico para exigir dados e cooperação técnica desde já https://bit.ly/3Du805j

Na guerra

Depois de uma campanha intensa, em que mergulhei na base militante e junto ao povo, reconheço um certo cansaço. Gostaria de uma parada momentânea. Mas não está fácil.

A gente se encontra em várias trincheiras https://bit.ly/3vhYCww

Arte é vida: Tarsila do Amaral

Tarsila do Amaral

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Estertores golpistas


Bolsonaro perde condições para golpe, mas evita jogar a toalha

Presidente tenta manter tropa mobilizada para demonstrar força e negociar proteção
Bernardo Mello Franco, O Globo

 

A história acontece como tragédia e se repete no Brasil como arruaça. O bloqueio de rodovias faz parte de um enredo premeditado por Jair Bolsonaro: a tentativa de melar, pela via do tumulto, o resultado da eleição presidencial.

O capitão sempre buscou imitar Donald Trump. No ano passado, o republicano incentivou seus apoiadores a invadirem o Capitólio. Queria barrar a posse de Joe Biden, eleito pela maioria dos americanos.

Na versão tupiniquim, a baderna foi menos organizada. Os bolsonaristas se limitaram a parar o trânsito, com a cumplicidade da cúpula da Polícia Rodoviária Federal. Outros grupos de extrema direita armaram piquetes em frente a quartéis, onde clamam por golpe e prisão de ministros do Supremo.

Bolsonaro está isolado. Seus aliados já começaram a reconhecer a vitória de Lula na noite de domingo. O discurso do presidente da Câmara, Arthur Lira, serviu como senha para o desembarque do Centrão.

Enquanto o capitão esperneava, escudeiros mais antigos também começaram a pular do barco. Até a senadora eleita Damares Alves admitiu a derrota. Faltava a fala do chefe, que se escondeu no palácio após a apuração dos votos.

Depois de 45 horas em silêncio, Bolsonaro reapareceu ontem à tarde no Alvorada. Num pronunciamento de dois minutos, evitou assumir que perdeu e se negou a citar o nome do presidente eleito. Terceirizou a tarefa ao ministro Ciro Nogueira, encarregado de tocar a transição.

O capitão passou a mão na cabeça de seus radicais. Descreveu os atos golpistas como reações legítimas a um sentimento de “indignação” e “injustiça” diante do resultado das urnas. Só fez uma ressalva quanto à forma dos protestos. “Nossos métodos não podem ser os da esquerda”, declarou.

Bolsonaro perdeu as condições objetivas para virar a mesa. Os governadores eleitos com seu apoio não estão interessados em confusão com o Judiciário. Os líderes de todos os países do G8 já cumprimentaram Lula pela vitória.

Ainda assim, o capitão evitou jogar claramente a toalha. Quer ganhar tempo e manter sua tropa mobilizada — seja para cultivar a imagem de “imbrochável” ou para negociar algum tipo de proteção a partir de 1º de janeiro.

[I,lustração: Cellus]

Leia também: Um desvio de mais R$ 10,5 bilhões que seriam destinadas à saúde, ciência e educação para agregar metade do valor ao “orçamento secreto” https://bit.ly/3Sxz8Wr

A segundo plano

Lula e STF tocam país para 2023 e ignoram golpismo permanente de Bolsonaro

Presidente não reconhece derrota e tenta manter confusão permanente, agora ou em 2023
Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

 

Jair Bolsonaro tomou providências a fim de evitar mais um flagrante de seus tantos crimes, como bloquear o processo legal de transição para o próximo governo e ser conivente com o paradão de estradas. Afinal, há algum risco de que seja processado, talvez julgado e condenado.

Mas não reconheceu o resultado da eleição coisa alguma. Ainda pior, disse o contrário em seu pronunciamento bananeiro desta terça-feira: "Os atuais movimentos populares [o paradão] são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral". Fez um discurso de líder da extrema direita e da baderna subversiva, para o que muito comentarismo político passou pano.

O comando da transição para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e o PT sabem o que Bolsonaro está fazendo. Mas fingem ignorar a incitação à baderna a fim de reforçar a ideia de que o país vai voltar à vida normal.

Gleisi Hoffman, presidente do PT, comentou as tratativas com Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil de Bolsonaro, como se vida normal houvesse; o "governo" de transição começou a ser nomeado. Mas, logo depois da bananada de Bolsonaro, Nogueira disse apenas que "vai cumprir a lei". Palavra alguma sobre colaboração —nem por diplomacia.

Mas a vida segue ou ressurge no país das trevas.

Lula vai participar da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2022 (COP-27), no Egito, que ocorre entre 6 e 18 de novembro. Ou seja, vai começar sua diplomacia bem antes da posse. O senador eleito Wellington Dias (PT-PI) discute com o relator do Orçamento, senador Marcelo Castro (MDB-PI), como encaixar as promessas de Lula nas contas federais de 2023.

Nos tribunais superiores, a atitude foi similar.

Desde as batidas da Polícia Rodoviária Federal de domingo, Alexandre de Moraes, do TSE e do Supremo, se comporta como "o que vem de baixo não me atinge". Reprimiu a malandragem sem fazer alarde.

Nesta terça-feira, o Supremo soltou nota em que registra a "importância do pronunciamento do Presidente da República em garantir o direito de ir e vir em relação aos bloqueios e, ao determinar o início da transição, reconhecer o resultado final das eleições". Ministros do Supremo ainda vazaram que Bolsonaro teria dito a eles que "acabou" (sobre as eleições).

Bolsonaro não garantiu nada, não tomou providência contra o paradão. Não reconheceu nada, está apenas tentando evitar o crime flagrante. O Supremo finge ignorar a baderna bolsonarista a fim de reforçar a ideia de que o isolamento político de Bolsonaro é fato consumado.

Como um parasita, Bolsonaro suga o sangue das instituições "que estão funcionando" enquanto fuça na sujeira um modo de manter o tumulto, difundir a mentira e atacar o "sistema" (no discurso bananeiro, voltou a dizer que governou "enfrentando o sistema").

É o Bolsonaro de sempre: se o golpismo "colar, colou". De outro modo, finge se adaptar às regras, à espreita de oportunidades como um predador carniceiro, e mantém seu projeto de tumulto permanente.

É assim que se fez na política (lembram do apoio ao caminhonaço de 2018?). Não importa se vai prejudicar indústria, agropecuária, supermercados, abastecimento em geral, menos ainda agora, que vai deixar o poder.

Os governos maiores do mundo reconheceram Lula e mesmo começam conversas sobre clima. Os donos do dinheiro grosso, credores do governo e "o mercado" em geral estão entre neutros e otimistas com as possibilidades do novo governo (ao menos por ora, o que e visível nos indicadores financeiros). Etc.

O país quer seguir a vida. Bolsonaro é de morte.

Leia também: Transição: Lula tem respaldo jurídico para exigir dados e cooperação técnica desde já https://bit.ly/3Du805j