17 fevereiro 2026

Big Techs invasivas

The nerd Reich
O Nerd Reich não ocupa territórios com tanques, mas invade cérebros com dados e vende a liberdade que diz proteger
Luiz Gonzaga Belluzzo M
anfred Back*/A Terra é Redonda      

1.

Vamos caminhar de Munique a Washington, da Baviera à Califórnia. Nessa caminhada histórica transitamos entre discursos inflamados nas tavernas de Munique e os laboratórios e datas centers do Vale do Silício.

Assim, lançamos também nossos olhares na transição entre as tropas de assalto da SA e o capitalismo de vigilância, comandado por dados, tecnologia, inteligência artificial e, lógico, muito dinheiro. São os libertários do monopólio: a liberdade individual se exprime nas redes controladas por outras redes.

No livro Wall Street and the rise of Hitler, Antony Cyril Sutton afirma que a contribuição do capitalismo americano para os preparativos de guerra alemães antes de 1940 só pode ser descrita como fenomenal. “As evidências sugerem que não apenas um setor influente dos negócios americanos estava ciente da natureza do nazismo, mas, para seus próprios fins, ajudou o nazismo sempre que possível (e foi lucrativo) – com plena consciência de que o resultado provável seria uma guerra envolvendo a Europa e os Estados Unidos”.

Os discursos da Era Trump contra a regulação dos governos, são usados como figura de linguagem para fazer exatamente o contrário: abocanhar o poder do Estado para submeter corpos e almas de cidadãos e cidadãs.

A tropa de assalto nazista servia para liderar ataques e penetrar defesas inimigas em nome do orgulho da pátria. A tropa de assalto do Vale do Silício lidera ataques e penetra nas vidas de todos por meio do uso de bancos de dados, em nome da liberdade individual e da soberania da informação.

“Às vezes, terceirizamos nossa inteligência para os varejos de informações, que oferecem cem destilações mais rápidas, simples e digeríveis, que nos poupam de pensar sobre nós mesmos”. (Maryanne Wolf, O cérebro no mundo digital). As tropas de assalto nazistas foram formadas pela ralé da baixa classe média alemã, de pequenos comerciantes, e as do Vale do Silício, pelos nerds dos algoritmos. O objetivo de um, assim como do outro, é o mesmo: comandar o mundo, mas de forma diferente.

Na Alemanha de Hitler, predominaram a violência e a anexação de territórios. No país do MAGA, a violência e o controle são exercidos pelo domínio dos dados e da inteligência artificial. Restaurar os anos de glória do Reich alemão é realizado hoje pelo comando das Big Techs, não apenas com dados e informações, mas também com o controle das mentes.

Os nerds conquistaram Washington por dentro, não só com Donald Trump, mas também com J. D.Vance.

2.

Na Alemanha nazista, Adolf Hitler e Joseph Goebbels se empenhavam na propaganda manipuladora de massas. Agora Peter Thiel e Curtis Yarvis, ex-nerds progressistas da Califórnia nos anos 1990, comandam a manipulação das massas. Os métodos são diferentes, mas semelhantes em seus propósitos. No III Reich, a meta era destruir o Estado por dentro, no Reich das Big Techs, trata-se de tomar conta do Estado.

O III Reich mobilizava sua polícia secreta, a Gestapo (Geheime Staatspolizei), e apontava sua truculência contra os inimigos do Estado alemão. As Big Techs entram no seu celular, na sua conta bancária, na sua televisão, no seu carro, na sua geladeira e no seu pensamento. Usa os dados e informações e os vende. A Gestapo artificial é muito mais eficiente e não menos truculenta contra os “cidadãos inimigos”, aqueles que resistem ao cancelamento, às fake news e aos trolls. A Gestapo invadia sua casa, a inteligência artificial invade seu cérebro.

Hannah Arendt abordou nas Origens do totalitarismo as transformações sociais e políticas na era da sociedade de massa capitalista. A economia dos monopólios substituiu a empresa individual pela coletivização da propriedade privada, ao mesmo tempo em que promovia a “individualização do trabalho”, engendrada pelas novas modalidades tecnológicas e organizacionais da grande empresa.

A operação impessoal das forças econômicas produziu, em simultâneo, o declínio do homem público e a ascensão do homem massa, cuja principal característica não é (somente) a brutalidade e a rudeza, mas o seu isolamento e sua falta de relações sociais normais.

“A força tornou-se a essência da ação política e o centro do pensamento político quando se separou da comunidade política à qual devia servir. É verdade que isso foi provocado por um fator econômico”. (Hannah Arendt, Origens do totalitarismo).

Evgeny Morozov, no grande livro, Big Techs: a ascensão dos dados e a morte da política ensina que esse sistema emergente (liberal capitalista?) “não seja também neofeudal, com as grandes empresas de tecnologia desempenhando o papel de novos senhores que controlam quase todos os aspectos de nossa existência e definem os termos do debate político e social mais abrangente”.

Paulina Borsook, no final dos anos 1990, escreveu um livro intitulado Cyberselfish. A autora cuida das sementes que brotaram no discurso e na prática do Vale do Silício. Segundo ela, o entusiasmo financeiro transformou uma comunidade, antes sóbria, civicamente consciente e igualitária, em algo tóxico.

No começo dos anos 2000, Paulina Borsook fez outro alerta: o Vale do Silício, odeia governos, regras e regulamentos. Acredita que, se você é rico, também é inteligente. Pensava que as pessoas deveriam ser programadas como computadores. O “tecnolibertarianismo”, não tinha tempo para as realidades confusas de ser humano.

As nuvens de dados do capitalismo de vigilância administram seus interesses sempre acompanhadas da repressão e da violência real. As tropas de assalto nazistas são antecessoras da milícia paramilitar infiltrada no ICE (U.S. Immigration and Customs Enforcement).

A mulher assassinada em Minneapolis foi morta sem cometer crime algum. Citamos aqui o diálogo entre o agente e Renee Good de 37 anos: “eu não estou brava com você. Retrucou o agente do ICE “vagabunda”. Essa foi a última palavra do agente antes de atirar para matar.

Os Founding Fathers ( Pais Fundadores), George Washington, Thomas JeffersonBenjamin FranklinJohn AdamsJames Madison e Alexander Hamilton, estão se revirando no túmulo e psicografando a trajetória dos Estados Unidos da Revolução Americana ao Nerd Reich.

*Luiz Gonzaga Belluzzoeconomista, é Professor Emérito da Unicamp. Autor entre outros livros, de O tempo de Keynes nos tempos do capitalismo (Contracorrente). [https://amzn.to/45ZBh4D]

*Manfred Back é graduado em economia pela PUC –SP e mestre em administração pública pela FGV-SP.

Leia também: A disputa mar e terra pela geopolítica dos dados https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/uma-nova-dimensao-da-geopolitica.html 

Sylvio: contraste

De um lado, um presidente que veio do povo e trabalha pela melhoria de vida dos mais pobres é homenageado por uma das mais importantes manifestações do carnaval popular e, ao mesmo tempo, passa a ser alvo da extrema direita raivosa, que não tolera ver seu nome e sua história desfilarem na passarela do samba; do outro lado o maior representante dessa mesma extrema direita cumpre merecida pena por atentar contra a democracia. Duas faces de uma mesma moeda reconhecidas pelo nosso povo.

Sylvio Belém 

Jacaré, cobra d'água e porco espinho nas alianças eleitorais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_5.html 

Postei nas redes

"Analistas" da mídia dominante reconhecem que o bom desempenho da economia é uma das razões do favoritismo de Lula diante de candidatos da direita.

Jacaré, cobra d'água e porco espinho nas alianças eleitorais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_5.html 

Palavra de poeta

Preferência
Clarice Lispector      

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que para o tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

[Ilustração: Raul Córdula]

Leia também: “Vivos, lúcidos e ativos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/minha-opiniao_18.html 


Celso Pinto de Melo opina

Enquanto o Rei não fica nu
Crônica alegórica sobre poder, normalização e autoritarismo
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN     

“O problema de Eichmann era precisamente que tantos eram como ele, e que os muitos não eram perversos nem sádicos, mas eram, e ainda são, terrivelmente normais.”
Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal
 

No início, ninguém percebeu, porque tudo parecia fazer sentido. O homem não surgiu como político, nem como ideólogo, nem como salvador. Apresentou-se como alguém de fora, um empresário bem-sucedido no mundo dos negócios, com passagem pela mídia, habituado a lidar com audiências, tendências e narrativas. Dizia ter aprendido, ao longo dos anos, a reconhecer talentos, a separar ruído de potência real e converter visibilidade em poder. Contava histórias de empresas resgatadas do fracasso, de campanhas improváveis que se tornaram fenômenos, de projetos desacreditados que floresceram sob sua orientação.

Repetia que nunca gostara de governos, que detestava burocracias, que desprezava partidos. Acrescentava que especialistas complicavam o óbvio, que universidades produziam gente treinada para não enxergar o que estava diante dos olhos, que estudo excessivo deformava o instinto e que gente muito inteligente costumava ser incapaz de agir. Segundo ele, pensar demais era uma forma elegante de paralisia. Os grandes saltos da história, dizia, sempre foram dados por quem teve coragem de fazer antes de entender.

A casa estava bagunçada. Alguém precisava arrumá-la. Não prometia igualdade. Não prometia justiça. Prometia ordem. Criou cedo um lema simples, fácil de memorizar, repetido em entrevistas, transmissões improvisadas e postagens: Ordem, força e grandeza

As pessoas, cansadas de ambiguidades, agarraram-se àquela tríade como quem segura o corrimão de uma escada escura. Convidaram-no para coordenar um pequeno grupo consultivo, algo provisório, quase simbólico. Ele aceitou, com uma relutância cuidadosamente encenada, afirmando que não queria poder, apenas ajudar. Recebeu um estúdio improvisado, que logo transformou em um centro de reuniões, transmissões e encontros. Chamou aquilo de O Movimento. Nunca explicou exatamente o que isso significava. E, de algum modo, isso reforçava seu apelo às massas.

Falava muito, mas raramente de modo direto. Seus raciocínios serpenteavam, misturavam dados, metáforas, intuições, acusações vagas e promessas grandiosas. Para observadores externos, soavam confusos. Para os primeiros seguidores, soavam profundos. A sensação de entender algo que os outros não viam tornou-se um vício.

O homem tinha um talento peculiar para identificar ressentimentos e traduzi-los em linguagem de missão. Aproximava-se de pessoas frustradas, ambiciosas, marginalizadas, e dizia enxergar nelas grandeza sufocada. Convencia cada uma de que fazia parte de uma minoria lúcida cercada por massas cegas. 

Criou pequenos círculos de iniciados. Pertencer a esses círculos passou a ser sinal de distinção. O Movimento cresceu. Vieram patrocinadores. Vieram influenciadores. Vieram empresários inquietos, militares aposentados, policiais ressentidos, religiosos em busca de palco.

Desde cedo, porém, havia um detalhe que poucos pareciam notar: todas as decisões econômicas relevantes, todas as reformas silenciosas, todos os rearranjos práticos apontavam sempre na mesma direção. Incentivos, contratos, perdões fiscais, desregulações e exceções beneficiavam os mesmos grupos. Os grandes ficavam maiores. Os poderosos, mais blindados.

O Movimento avançava entre as massas, falando em dignidade, mas operava como uma engrenagem afinada para concentrar riqueza no topo. Quando alguém apontava a contradição, o homem respondia que, primeiro, era preciso salvar os fortes para que, depois, algo pudesse respingar nos demais. Poucos se davam conta de que o “depois” nunca chegava. 

O homem nunca organizou essas pessoas em estruturas claras. Preferia redes frouxas, dependentes de sua mediação, atravessadas por rivalidades sutis. Alimentava disputas internas, alternava elogios e desprezo, distribuía pequenas migalhas de prestígio. Aprendeu desde cedo que as pessoas inseguras são mais leais.

Aos poucos, deixou de falar apenas de eficiência. Passou a falar de identidade. Dizia que as sociedades adoecem quando perdem os critérios. Que critérios não nascem da compaixão, mas da força. Que força não é violência, mas capacidade de impor forma ao caos. Afirmava que o mundo era simples, embora conspiradores profissionais o quisessem fazer parecer complexo. Segundo ele, só existiam dois tipos de pessoas: as que constroem e as que atrapalham. Quem tentava introduzir zonas intermediárias era acusado de confundir para proteger culpados.

Começou, então, a surgir a figura do inimigo interno. Não um inimigo visível, organizado. Mas tipos humanos incompatíveis com grandeza. Não falava em maldade. Falava em inadequação. Falava em defeito. Falava em erro estrutural. A palavra “diferente” passou a circular com uma tonalidade negativa. Depois vieram “desajustado”, “degenerado”, “parasita social”. 

O Movimento começou a produzir relatórios vagos, dossiês imprecisos e listas sem critérios transparentes. Não diziam exatamente qual era o problema, mas deixavam claro que ele existia, espalhado, infiltrado, disfarçado. O homem falava em teias ocultas, conexões subterrâneas, alianças invisíveis que atravessavam instituições. Falava em universidades capturadas, redações contaminadas, centros de pesquisa transformados em fábricas de mentira. Quanto menos evidências apresentava, mais convicto soava.

No início, cada pequeno ato de agressão causava choque. Em poucas semanas, virava polêmica. Em poucos meses, tornava-se rotina. Até que deixou de ser assunto. Parte crescente da mídia passou a tratar os episódios como excessos isolados, ruídos de transição, efeitos colaterais inevitáveis. Fazia malabarismos retóricos para explicar que talvez fosse cedo para julgar, cedo para condenar, cedo para chamar as coisas pelo nome. Chamavam brutalidade de método. Chamavam perseguição de correção. Chamavam medo de governabilidade.

A claque inicial começou a se formar. Logo centenas. Depois milhares. Cores semelhantes. Símbolos improvisados. Gestos repetidos. O homem passou a ser chamado de Chefe. Não corrigiu. Enquanto a multidão crescia, surgiam grupos que se organizavam espontaneamente para “monitorar” ambientes considerados contaminados: escolas, universidades, redações, centros culturais.

O homem jamais ordenava. Limitava-se a comentar que certos lugares estavam infestados por mentalidades tóxicas. Horas depois, surgiam vídeos de pessoas sendo humilhadas, expulsas, agredidas. Ele dizia não apoiar excessos, mas lembrava que a paciência dos normais tinha limites.

Ordem, força e grandeza. Começou a circular a ideia de que não fazer nada era, em si, traição. Era melhor errar agindo do que acertar refletindo. A dúvida passou a ser vista como um luxo de covardes.

Paralelamente, o Movimento ganhou braços. Criaram-se unidades auxiliares de apoio, oficialmente destinadas à proteção de instalações e de eventos. Na prática, grupos armados, com treinamento precário, autoridade ampla e identidade difusa. O homem passou a falar em limpeza moral. Comparava sociedades a organismos que, às vezes, precisam de amputações para sobreviver. Empresários críticos perdiam contratos. Jornalistas eram expostos. Professores eram silenciados. Pesquisadores tinham financiamentos suspensos. Juízes recebiam ameaças. Não havia decreto geral. Havia um terror difuso. 

Havia também satisfação visível na divisão. Havia conforto em saber de que lado se estava. Ser “nós” tornou-se mais importante do que ser justo. O Chefe parecia no auge. Falava como quem já não precisava convencer. Anunciava ambições cada vez maiores. Dizia que o país era pequeno demais para seu destino. Que fronteiras eram construções artificiais. Que aliados haviam se acomodado. Rompeu acordos históricos com naturalidade. Celebrava traições como coragem. Passou a dizer, sem rodeios, que os acordos só valiam enquanto fossem úteis. Que direito era ferramenta dos fracos. Que, no mundo real, mandava quem podia.

“Quem vai impedir?”, perguntava, com um sorriso sarcástico. Afirmava que não precisava de pesquisas, porque sentia o país pulsar dentro de si. “Quando eu falo, é o povo que fala.” A multidão delirava.

Por um tempo, o mundo aprendeu a aceitar. Primeiro, com desconforto. Depois com justificativas. Mais tarde, com silêncio. Até que o absurdo passa a parecer apenas mais um traço da paisagem.

Mas às vezes um único gesto de recusa é suficiente para que a névoa comece a se dissipar – um ponto inicial de ruptura, e todo o espelho trinca de repente.

Basta. Não dá mais. Um corpo que não obedece, uma voz corajosa e dissonante, um gesto que desmonta a encenação. Nesse instante, o Rei se faz nu.

Pode ser sofrido, pode demorar. Mas quando finalmente o pesadelo terminar, a pergunta que restará não será sobre o Chefe, mas sobre nós: como permitimos que isso viesse a acontecer?

Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Leia também: Reagan, Trump e a “destruição inovadora” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-roteiro-de-conflitos.html 

Humor de resistência

Gilmar

Uma crônica de Abraham Sicsu

E a vida continua...
Abraham B. Sicsu     

Não tenho ressaca. Tenho, sim, um leve temor. Acho que meu corpo guarda tudo para explodir de uma só vez. Mas, como já sou idoso, melhor aproveitar o álcool e as gorduras deglutíveis sem muito remorso, sem um gosto amargo na vida.

É domingo de Carnaval. Festa que para mim sempre acabou no sábado. Brinquei o que podia, sexta e sábado de alegria. Com direito a café da manhã festivo, desfile de rua, boa música de corais femininos e muita farra musical, comida e bebida não faltaram, feijoada e caipirinha, muito mais.

Passou, tudo correu bem. Muita gente feliz, muitos inconsequentes que esquecem, de propósito, que haverá o amanhã. Para que se preocupar hoje? Quando a realidade, os problemas, voltarem se resolve.

Descrença nos acompanha. Ministro da Suprema Corte gerando desconfiança.  Na véspera de Natal marcou acareação entre acusados e Diretor do Banco Central. Sem depoimentos prévios que permitissem confrontação, sem razão explícita alguma.

Na véspera do Carnaval, com muita pressão, fundamentada em seu envolvimento com personagens chaves do caso, abre mão da relatoria. Não porque quisesse. Lembro que sempre fui funcionário público e mesmo quando tive funções de relevo sempre recebia um livrinho com normas de conduta. Por que não no STF?

Notar, em datas que acobertam para o grande público a importância dos atos. O povão preocupado com os festejos não dispersa para outras pautas. Os fatos e motivos que encurralaram a autoridade, nada explícitos, sem explicações plausíveis sendo dadas, ficam quase acobertados.

O ano continua lindo, pelo menos, na economia. Nada de estouro na inflação, dólar se desvalorizando, Bolsa subindo. Sem grandes preocupações no emprego. Mas, é ano eleitoral. Terão que gerar polêmica, já começou, terão que dizer que está tudo errado. Até chamar Presidente de carro velho. E eu que adoro carros antigos, muito mais um Opala, têm charme, bem cuidado faz muito sucesso, brilha, muito admirado.

Ganhamos uma medalha. E é de ouro. Somos deuses no Olimpo do Inverno nevado.  O país do calor, tropical, brilha na neve. Um nascido na Noruega optou por competir pelo Brasil. Não interessa se teve sua formação lá, o importante é que a medalha veio para nós. Os jornais exultam, o nacionalismo quase xenofóbico aflora. Só dá isso no noticiário da manhã. Algo inusitado, uma madrugada atípica em que conseguimos sentir o frio em um país tórrido. Acho estranha tanta euforia. Em todo o caso, todos felizes, também fico.

Leituras me marcam. “Parque Industrial” da militante revolucionária Pagu. Os anos da primeira metade do século passado. O Brasil em sua formação. O sofrimento dos empobrecidos, das mulheres que foram sendo alijadas do crescer social, párias que se tornavam com a miséria. Seus corpos eram das poucas coisas que lhes trazia sobrevivência. Dizem que melhorou muito, tenho minhas dúvidas. Os excluídos têm pouco a comemorar nesta vida, infelizmente, até hoje.

“A Filha Única” de uma autora mexicana, Guadalupe Nettel. Fantástica. Livro muito bem escrito. Acabei faz instantes. As novas “famílias”, a maternidade como opção, as contradições e os valores, o amor e quatro mulheres. Cada vez mais complexo num mundo competitivo. Em que o ser mãe se choca com a profissional, em que o se dedicar aos filhos é razão de vida, ou não, mesmo não sendo recompensado socialmente. 

Mulheres abrindo mão de uma vida mais serena, enfrentando doenças e, ás vezes, tendo que conviver com a clareza escancarada da finitude intrínseca a todas as vidas humanas. Mais ainda quando desacreditados pelos semideuses médicos que tudo sabem.

A leitura me faz pensar nas muitas jovens que, hoje, têm a firme decisão de não parir, as tendências, nos países mais ricos, de diminuição demográfica, frente um mundo da pobreza onde a população continua a explodir. E a fome também. O arbítrio individual e a sua estreiteza nos dias atuais.

A questão ambiental surge nas folhas dos periódicos. A crise é grave. As metas de controle para aquecimento global foram todas ultrapassadas. Está no jornal de hoje. Um mundo em que o imediatismo ameaça as perspectivas de gerações futuras. Questões que não são tratadas com a serenidade necessária. Medidas de precaução abandonadas.

Na mesma linha, novas mensagens que recebo. O grupo dos “ecochatos” propõe o “fim da sociedade atual” sem dar alternativas concretas. Prendem-se a experiências de sociedades isoladas, países minúsculos, impossíveis de serem generalizadas. Não há uma proposta séria. Enquanto isso, o Imperador do Norte arma a estratégia para a volta da massificação do carvão, para inundar o mundo de petróleo, sem muito disfarçar, sem muito abdicar.

Uma época em que as máquinas substituem os homens. Aprendi esses dias o que são agentes de inteligência artificial. Explicitado um problema eles, per si, definem estratégias e caminhos para sua solução. Não são homens, são algoritmos computacionais. Os mais eficientes possíveis. Mesmo que para resolver esse problema gerem transtornos muito maiores. Autonomamente fazem e não se consegue parar. O homem perdeu o controle dos processos transformadores.

Parece que a vida continua. No entanto, ainda é Carnaval. Tudo esquecido, somente suor e muita alegria. Deixemos tudo para depois da quarta feira. Pois, “há frevo ainda, apesar da quarta feira, no cordão da saideira vendo a vida se enfeitar.” Grande Edu Lobo sempre teve razão.

[Ilustração: Georg Baselitz]

Leia também: Após o carnaval tudo pode acontecer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_29.html