Do fundo do coração, exclamo, vivo: Viva o SUS!
Enio Lins
HOSPEDEI-ME NO HOSPITAL DA CIDADE na segunda-feira, 5, por 48
horas. Prédio muito bem projetado para tal finalidade por Pedro Cabral,
Arquiteto e companheiro de lutas com mais talento, mais humor e mais stents que
eu. Adentrei pela porta do SUS, depois de uma caminhada iniciada na UPA de
Marechal Deodoro, por conta de umas dores renitentes na caixa dos peitos.
Atendimentos de primeira qualidade em todas as etapas. Os primeiros exames
teimavam em não indicar nada de preocupante, mas o incômodo não saía de cartaz,
daí os testes foram se aprofundando até que uma angiografia coronariana
localizou obstruções merecedoras de intervenção urgente.
ROBERTO LÚCIO foi o médico responsável pelo procedimento realizado
no dia 5. Um craque. Enquanto ele pilotava o catéter e conduzia, com maestria,
um stent até a coronária danificada, permutamos
reminiscências. A sedação superficial deixa o cabra consciente, meio de porre,
e a anestesia local elimina a dor no ponto da punção; no caso, o pulso direito.
Enquanto, grogue, tentava acompanhar pelo telão o andar da carruagem, falamos
sobre o movimento estudantil dos anos 70/80. Relembramos a retomada das
atividades – interrompidas pela repressão em 1973 – do Teatro Universitário de
Alagoas, com Ponto de Partida, peça de Gianfrancesco Guarnieri, em
cujo elenco figurava Roberto Lúcio de Gusmão Verçosa, o Beto. Era 1980 e na
direção do TUA estava Dênisson Menezes, acadêmico da Es cola de Ciências
Médicas, preso e duramente torturado sete anos antes do espetáculo ser exibido
no Teatro de Arena, em Maceió. Desenhei o cartaz, há 46 anos, usando o braço
por onde, naquela segunda-feira, a cânula estava andando em busca do ponto
exato onde consertaria o vaso parcialmente obstruído. Dentre os presentes, só
eu e Beto falávamos – os demais nasceram depois.
SEM ESCALAS, DA SALA de cirurgia fui levado a UCI (Unidade de
Cuidados Intermediários). Espaço arrumado. Um magote de pacientes, impacientes
alguns, divide a área sob a tênue proteção de cortinados. O atendimento, 24
horas no ar, fica por conta de um batalhão de técnicos, enfermeiros e médicos.
Da companheirada acamada, duas pessoas me chamaram a atenção: José e João.
Descobri que ambos enfrentavam problemas maiores que o meu. José, com 71 anos,
praticamente morava na unidade; e João, aos 17, estava de passagem e sua
cardiopatia não tinha um diagnóstico conclusivo. O trato humanista,
simultaneamente técnico e carinhoso, da equipe do Hospital da Cidade, ficou
patente – e me emocionou – especialmente nesses dois casos de idades tão
extremadas. João dividia as atenções da enfermagem e de seus familiares ; por
ser de menor, tinha acompanhamento permanente de alguém da família. José é a
alegria do lugar, e a cena de seu barbear teve uma espécie de transmissão ao
vivo em que ele repetia insistentemente para as técnicas de enfermagem:
“Meninas, cuidado com meu bigode!”, arrancando risos gerais numa algaravia em
um ambiente onde se supõe dominado por dores e temores. Ao sair, me despedi de
todo mundo, mas cumprimentei particularmente José (ele me lembrou meu pai, pela
cor bronze, mas com vastos bigodes brancos que Seu Miro nunca cultivou) e fui
cumprimentado pelo imberbe João (que me achou parecido com o avô dele).
COM ENCANAÇÃO NOVA no velho coração, me sinto como se tivesse
estufado o peito e gritado “Shazam!” (quem gosta de gibis
entenderá). Volto ao batente hoje, agradecendo – nos nomes dos doutores, e
amigos de longa data, Roberto Lúcio, José Wanderley, Cid Célio, Rodrigo Perez,
Diógenes Bernardes – a todos os profissionais de saúde pelos quais fui atendido
nessa longa batalha travada desde dezembro do ano passado. Recebo alta com
disposição redobrada, neste ano eleitoral, para guerrear, votar, e pedir votos
para quem defenda o SUS, para quem se comprometa a ampliar os investimentos
sociais sem medo dos mitos neoliberais. Vamos à luta!
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