13 setembro 2026

Editorial do 'Vermelho'

Flávio Bolsonaro é o único candidato a presidente investigado por corrupção
A abertura dos autos revela o candidato da extrema direita enroscado numa engrenagem de corrupção, lavagem de dinheiro e outros delitos graves
Editorial do 'Vermelho'  
      

A decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, de mandar quebrar o sigilo de todo o caso Banco Master, dois dias depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva exigir que as investigações fossem abertas integralmente, “seja quem for, doa a quem doer”, tira o caso das sombras nas quais o também ministro André Mendonça o havia deixado. O que aparecia em pedaços começa a ser colocado sob a luz pública. E, quando a luz chega, a versão do candidato à Presidência da extrema direita, Flávio Bolsonaro, de que tudo não passaria de perseguição política começa a se desfazer diante de uma sucessão de fatos documentados.

A operação da PF de busca e apreensão relacionada à produtora e às pessoas envolvidas com o suposto financiamento do filme Dark Horse, autorizada pelo ministro do STF Flávio Dino, envolvendo recursos públicos e emendas parlamentares, tocou somente na ponta do iceberg. Mas já é evidente o contraste com a atitude de Mendonça, que meteu o pé no freio das investigações, chegando ao ponto de afastar o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada, além de determinar a interrupção da produção de relatórios de inteligência. Medida arbitrária que favoreceu as facções criminosos e bandidos de toda espécie, como o ex-banqueiro criminoso Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Dino reagiu justamente apontando o risco de paralisação de investigações em curso e determinou a reintegração dos dois dirigentes da PF.

Fachin acolheu pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) apontando que a divulgação feita por Mendonça não abrangia grande parte dos procedimentos relacionados à Operação Compliance Zero. A determinação agora é para que sejam encaminhados todos os procedimentos contidos ou relacionados, mantendo-se sob sigilo apenas as diligências cuja divulgação possa efetivamente comprometer sua realização.

Este episódio do levantamento total dos sigilos expôs, uma vez mais, a parcialidade de Mendonça, o papel espúrio de escudo de proteção de Flávio Bolsonaro. Depois que o ministro Dino liberou para divulgação os inquéritos do Dark Horse, Mendonça, acuado, se viu obrigado a fazer o mesmo em relação ao caso do Banco Master. Mas, providencialmente, em socorro ao Bolsonaro candidato, manteve trancada, exatamente, a parte que investiga as relações de dinheiro sujo entre Flávio e Vorcaro. Cedeu e abriu, finalmente, depois de sofrer nova carga de pressão por parte de seus pares e também da opinião pública.

Se destaca, do que foi revelado, que, por solicitação da PF, com aval da PGR, o ministro Mendonça não teve como se esquivar e emitiu despacho autorizando a instauração de procedimento investigatório contra Flávio Bolsonaro por fortes indícios de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e outros delitos relacionados ao suposto financiamento do filme Dark Horse, em operações que envolvem pelo menos R$ 134 milhões em negociações com Vorcaro.

Os documentos da PF revelam, como destacou o portal ICL Notícias, uma conexão até então desconhecida: o mesmo grupo que atuava na estratégia digital de Vorcaro para defender o Banco Master e atacar o Banco Central também monitorava as redes sociais de Flávio Bolsonaro. A sobreposição das duas atividades levanta novas questões sobre as relações entre o entorno político do candidato e a estrutura de comunicação mobilizada pelo ex-banqueiro.

É importante lembrar que Flávio Bolsonaro mudou sua versão sobre a relação com Vorcaro. A produtora do filme chegou a negar publicamente ter recebido dinheiro do ex-banqueiro, enquanto as investigações posteriormente identificaram as transferências. O escândalo ganhou dimensão ainda maior com as informações sobre transferências para uma estrutura financeira nos Estados Unidos associada a Eduardo Bolsonaro — irmão de Flávio, seu assessor de campanha e um de seus principais articuladores políticos —, o Havengate Development Fund LP, sediado nos Estados Unidos.

Segundo a PF, o fundo recebeu US$ 12,3 milhões em 2025, em remessas feitas pela Entre Investimentos e Participações, empresa ligada ao operador Antônio Carlos Freixo Júnior, a pedido de Vorcaro. O Havengate é administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. O irmão de Flavio, Eduardo, aparece como suspeito de direcionamento dos recursos para financiar crimes de lesa-pátria, como as atividades que contribuíram para o tarifaço de Trump contra o Brasil, operação que passou a integrar o foco das investigações.

A crise político-institucional, tendo como epicentro o STF, prossegue. Ela foi detonada por uma investida da extrema direita para prejudicar a campanha de reeleição do presidente Lula e favorecer o candidato de Donald Trump e da extrema direita.

No próximo dia 15, está marcada uma sessão plenária do STF, da qual resultarão desdobramentos da crise. Mendonça perdeu, devido à inquestionável parcialidade, as condições para seguir à frente das relatorias dos casos Master e INSS e precisa ser afastado delas. Na noite deste sábado,12, o presidente Fachin adotou medidas nesta direção. Sobre Mendonça, além da parcialidade, pairam outros graves delitos, tais como interferência nas investigações, o acúmulo dos papéis de juiz e investigador, e ainda há uma reunião privada que ele teve com Vorcaro, mantida oculta pelo ministro.

Há uma incerteza sobre qual rito regerá a sessão. A pauta também está sob disputa. O ministro Gilmar Mendes encaminhou oficio ao presidente Fachin para que fossem reunidos e examinados, conjuntamente, a solicitação de abertura de inquérito contra o ministro Alexandre de Moraes e o pedido com mesmo teor referente a Mendonça. Solicitação plausível. Fachin decidiu examinar separadamente. Na sessão do dia 15, o caso de Moraes, e o de Mendonça para o dia 23. Decisão controversa, que só aumenta o contencioso.

Parte da grande mídia pressiona por um desfecho unilateral: a cabeça de Moraes e ponto. Ao mesmo tempo, é indulgente com Mendonça e, na prática, pretende mantê-lo nas relatorias para que ele siga prejudicando a campanha de Lula.

É preciso que seja sanado, em definitivo, o dano provocado pelo ministro Mendonça. As prerrogativas da Presidência da República devem ser asseguradas, e o diretor-geral da Polícia e o diretor de Inteligência devem ser mantidos em suas funções.

As forças democráticas e progressistas, ao mesmo tempo em que atuam para que o STF supere a crise que enfrenta, precisam partir para a contraofensiva e a campanha à reeleição do presidente Lula retomar a iniciativa política, com a consciência de que a disputa entrou numa nova etapa, que demanda mudanças consoantes às exigências que emergiram.

Uma campanha que seja de confronto, de desmascaramento de Flávio Bolsonaro e propositiva, dando nitidez ao futuro de desenvolvimento soberano, ampliação da democracia e de elevação da qualidade de vida do povo, com valorização do trabalho e nova geração de direitos, caso o eleitorado brasileiro honre o presidente Lula com um quarto mandato.

A retomada da inciativa, além da ampliação da aliança e do reforço do engajamento da frente democrática e popular, exige alcançar um novo patamar da mobilização da larga base social de apoio de Lula. As mobilizações devem se estender por todo país.  Toda força, nas ruas e redes, redes e ruas!

A crise desencadeada começa a produzir efeitos contrários aos concebidos pela extrema direita e pelo imperialismo. Ela acendeu um sinal vermelho no campo partidário da nação e dos trabalhadores; ela começa a sacudir os ombros dos verdadeiros patriotas e democratas. Todos juntos para redobrar o empenho e os esforços para fortalecer a campanha da chapa Lula-Alckmin. No geral, os comícios de Lula têm reunido multidões. Praças imensas têm sido, completamente, lotadas, pulsando forte esperança e disposição de luta, a exemplo dos que se realizaram em Porto Alegre e Curitiba. E as últimas pesquisas atestam, apesar do bombardeio, a resiliência do presidente.

E já se vê uma face do efeito bumerangue. Uma pergunta está colocada para os eleitores e eleitoras: Flávio Bolsonaro, único candidato a presidente, investigado pela Polícia Federal, com autorização do STF, por crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, pode governar o Brasil? Quem vive do seu suor e de seu trabalho quer, no Palácio do Planalto, um candidato que sabota o fim da escala 6×1? Quem ama o Brasil deseja eleger um serviçal de Trump, que, se eleito, vai entregar as riquezas do país aos Estados Unidos? Quem valoriza a democracia dará seu voto a um candidato que, a exemplo do pai, planeja impor um regime autoritário-ditatorial?

Gol contra de André Mendonça https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_01494046490.html 

Palavra de poeta

BOLETIM DE OCORRÊNCIA 
Anita Dubeux    

Amanhã os jornais não noticiarão
a explosão de saudade que vitimou 
um coração, em plena sessão de 
cinema no subúrbio da Província.
 
Desmoronou a edificação do 
esquecimento penosamente erigida 
na tristeza da ausência — efêmero 
sedimento de lágrimas e sonho, forjado 
na vigília intangível da melancolia.

[Ilustração: Alcides Santos]

Leia também "Contranarciso", poema de Paulo Leminsi https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/palavra-de-poeta_10.html 

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Pesquisas Quaest e Datafolha mais indicam empate técnico entre Raquel Lira e João Campos, com ligeira vantagem para a governadora. Com um detalhe: Raquel permanece onde estava e João cresce. Na reta final, tudo passa a ser decisivo. 

"Dois trunfos em favor de João Campos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao.html 

Dica de leitura

O que estava sob sigilo

Luciano Siqueira   

Na edição de setembro da revista piauí, matéria intitulada "As 196 páginas de sigilo" https://piaui.uol.com.br/web/as-196-paginas-sigilo-stf-vorcaro-toffoli/ revela dados esclarecedores sobre informações mantidas em sigilo pelo ministro André Mendonça.

Na verdade, o Supremo Tribunal Federal recebeu dois relatórios secretos produzidos pela Polícia Federal para apurar as relações entre os ministros da Corte e o empresário/banqueiro Daniel Vorcaro. Enquanto outros documentos ou apurações vieram a público, um relatório específico de 196 páginas foi mantido em sigilo por meses no STF.

A peça de 196 páginas, subscrita por quatro delegados da Polícia Federal, detalha e investiga as relações financeiras e institucionais entre o ministro Dias Toffoli e o empresário Daniel Vorcaro.

Entre as descobertas reveladas pela reportagem, a Polícia Federal aponta a suspeita de que Toffoli possa ser o “beneficiário final” de um fundo offshore/paraíso fiscal que teria recebido cerca de R$ 3,5 milhões ligados a negócios de Vorcaro.

Mais uma vertente do novelo de informações comprometedoras sob apreciação (a maioria secreta) no âmbito do STF.

Leia também: A sociologia do golpe https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/natureza-do-golpe.html

Postei nas redes

Matéria no site da BBC menciona que analistas do audiovisual contestam a divisão orçamentária do filme Dark Horse — que destinou apenas 13,9% para a etapa de filmagens propriamente dita. No padrão da indústria cinematográfica internacional, cerca de 50% do orçamento é direcionado às filmagens, o que gerou dúvidas sobre o destino real dos recursos repassados.  

Três "questões de ordem" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0658357328.html 

Minha opinião

Instrumento estratégico
Luciano Siqueira    

Nem sempre com o destaque que cabe, o Novo Banco de Desenvolvimento - NBD (sustentado pelo BRICS) gradativamente se converte em importante fator ativo na cena global.

Tudo a ver com a autonomia financeira dos países membros em meio à desorganização das relações internacionais promovida incessantemente pelos EUA do presidente Donald Trump. Essencial para o financiamento de infraestrutura, transição energética e projetos sustentáveis ​​em economias emergentes.

Nesse quadro, o papel crescentemente ativo do BRICS no incremento do comércio recíproco e os financiamentos em moedas nacionais, diminuindo, em consequência, a dependência do dólar americano e os riscos decorrentes das flutuações internacionais.

Na prática, a possibilidade real do NBD cumprir papel destacado ao possibilitar termos de financiamento isentos de condicionalidades políticas ou econômicas habitualmente impostas pelo FMI e o Banco Mundial.

Uma variável a ser acompanhada com atenção no quadro global de transição à multipolaridade.

Leia também: Mais de 40 trilhões de dólares https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0876986250.html 

Fotografia

 

Luciano Siqueira

O pensamento crítico na era dos algoritmos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bolha-algoritmica.html