13 maio 2026

Palavra de poeta

Dorme, que a vida é nada
Fernando Pessoa     

Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.

Não há lugar nem dia
Para quem quer achar,
Nem paz nem alegria
Para quem, por amar,
Em quem ama confia.

Melhor entre onde os ramos
Tecem dosséis sem ser
Ficar como ficamos,
Sem pensar nem querer.
Dando o que nunca damos.

[Ilustração: Henri Matisse]

Leia também: "Bolas de vidro", poema de Cida Pedrosa  "https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_63.html 

Celso Pinto de Melo opina

Da ‘volta do mar’ ao improviso: quando a diplomacia vira aposta 
Trump 2, a política externa da tensão permanente e a erosão da mediação institucional
Celso Pinto de Melo/Sul 21    

“O diabo pode citar as Escrituras para seus próprios fins.”
– William Shakespeare, O Mercador de Veneza

 

Quando a previsibilidade deixa de ser virtude

Em 1494, na vila espanhola de Tordesilhas, às margens do rio Douro, Portugal e Espanha tentavam dividir um mundo que ainda não conheciam. O Tratado de Tordesilhas não foi negociado por navegadores, mas por diplomatas. Ainda assim, por trás daqueles homens havia algo decisivo: o conhecimento acumulado da navegação atlântica portuguesa.

Esse conhecimento tinha uma expressão concreta e quase paradoxal: a chamada “volta do mar”. Para retornar da costa africana, não bastava seguir o litoral. Era preciso afastar-se deliberadamente, avançar pelo oceano aberto e só então, num arco amplo, retornar com ventos favoráveis. Era uma técnica contraintuitiva. Para quem olhava de fora, parecia um erro. Mas era, na prática, o único caminho que funcionava.

Esse domínio empírico do Atlântico não era apenas operacional – ele teve consequências diretas na negociação. A insistência portuguesa em deslocar a linha de demarcação para 370 léguas a oeste não foi arbitrária. Ela refletia uma compreensão prática das rotas oceânicas e da necessidade de garantir liberdade de navegação nesse arco atlântico. O resultado, ainda que não plenamente antecipado, foi decisivo: abriu caminho para a futura incorporação do Brasil ao espaço português.

A lição que ela carrega é simples e profunda: a realidade dos sistemas complexos raramente coincide com a intuição imediata.

Cinco séculos depois, essa lição parece, em certos momentos, esquecida.

A mesa e o que está por trás dela

Nas negociações recentes envolvendo os Estados Unidos e o Irã, o contraste entre as delegações é revelador. Do lado iraniano, a composição não é apenas técnica ou diplomática – é estrutural. Figuras como Abbas Araghchi (diplomata de carreira e negociador central do dossiê nuclear) e Mohammad Bagher Ghalibaf (ex-comandante da Guarda Revolucionária e ator político de peso no sistema iraniano) aparecem ao lado de representantes da segurança nacional, da política interna, da diplomacia econômica e de instituições estratégicas.

A delegação, nesse sentido, não é apenas um grupo negociador. É uma síntese do próprio Estado iraniano, com suas múltiplas camadas de poder operando simultaneamente.

Do lado americano, a imagem é distinta. A linha de frente inclui nomes como Steve Witkoff (empresário do setor imobiliário, sem trajetória diplomática formal) e Jared Kushner (empresário e genro de Donald Trump, com atuação política construída no interior da Casa Branca). São figuras cuja trajetória se construiu fora da diplomacia profissional e da especialização técnica em temas estratégicos, como a não proliferação nuclear.

Isso não significa ausência de conhecimento. Ao contrário, ele existe em abundância, mas deslocado para os bastidores, onde operam equipes extensas de especialistas, analistas e técnicos.

O que mudou, portanto, não foi a disponibilidade de conhecimento, e sim sua posição no processo decisório. A técnica permanece – mas já não conduz a cena.

Do Estado à rede

Essa mudança revela algo mais profundo. A política externa americana, historicamente estruturada por instituições como o Departamento de Estado, o Conselho de Segurança Nacional e o aparato de inteligência, passa a incorporar, com maior intensidade, uma lógica de rede e de proximidade pessoal – uma forma de diplomacia de compadrio, baseada em confiança direta e não em trajetória institucional.

Poucos exemplos ilustram melhor essa transição do que Paolo Zampolli, enviado político e representante do governo Trump 2 em fóruns multilaterais por nomeação direta. Trata-se de um empresário italiano radicado nos Estados Unidos, próximo de Donald Trump desde os anos 1990, tendo inclusive desempenhado papel na aproximação entre Trump e Melania. Sua atuação diplomática decorre dessa nomeação política – e não de trajetória institucional – e está associada a redes de relacionamento que orbitam o universo empresarial e social do trumpismo, marcadas pela centralidade do acesso pessoal e pela informalidade dos canais de influência.

Sua atuação recente, marcada por declarações controversas – como as que envolveram comentários sobre mulheres brasileiras, trazendo para o plano da diplomacia referências inadequadas à sua própria trajetória pessoal – e por propostas sem qualquer viabilidade institucional, como a sugestão de substituir o Irã pela Itália na Copa do Mundo FIFA 2026, não se encaixa no padrão clássico da diplomacia. Trata-se menos de negociação e mais de encenação reluzente, mais próxima do brilho superficial do que da substância estratégica. Menos de construção institucional e mais de sinalização política imediata.

Nesse contexto, a linguagem diplomática perde densidade e passa a oscilar entre o improviso, o voluntarismo e o gesto simbólico. Quando isso ocorre, o problema deixa de ser apenas de forma e passa a ser de substância.

O que se perdeu no caminho

Em momentos críticos do século XX, a política externa americana operava de outra maneira. Durante a crise dos mísseis de Cuba, John F. Kennedy reuniu uma equipe que combinava diplomacia, defesa, inteligência e formulação estratégica. Nomes como Dean Rusk, Robert McNamara e McGeorge Bundy não estavam ali apenas por proximidade política, mas sim por sua capacidade de compreender a complexidade do cenário.

Mesmo quando a diplomacia se tornou mais centralizada, como no período de Henry Kissinger (arquiteto da diplomacia estratégica americana durante a Guerra Fria), ela não abandonou a densidade analítica. Ao contrário, buscou integrá-la em uma estratégia coerente. O mesmo vale, com outra ênfase, para Zbigniew Brzezinski (conselheiro de segurança nacional de Jimmy Carter e formulador de uma visão geopolítica estruturada do sistema internacional), cuja leitura do equilíbrio global partia da premissa de que estabilidade exigia compreensão profunda das forças em jogo.

É difícil imaginar que qualquer um dos dois veria com tranquilidade uma diplomacia orientada por impulsos, negociações personalistas e declarações que confundem política externa com o horizonte mais curto da política doméstica.

E John Keegan?

Talvez a leitura mais dura viesse de John Keegan (historiador britânico e um dos principais intérpretes da guerra como fenômeno social e cultural). Ao longo de sua obra, Keegan insistiu em um ponto essencial: guerras não são apenas decisões políticas, mas também fenômenos complexos, enraizados em estruturas sociais, culturais e tecnológicas.

Ignorar essa complexidade é abrir espaço para formas de conflito que escapam ao controle dos Estados.

No mundo contemporâneo, essas formas assumem frequentemente a forma de guerras assimétricas, em que atores não estatais, redes informais e estratégias indiretas substituem os confrontos convencionais. Nesse cenário, a fragilização das instituições diplomáticas não reduz o conflito. Ao contrário, tende a torná-lo mais difuso, menos previsível e mais difícil de gerir.

Uma diplomacia baseada no improviso e nas relações pessoais pode funcionar em negociações pontuais. Mas dificilmente oferece respostas consistentes para conflitos dessa natureza.

De volta à “volta do mar”

A metáfora retorna, inevitável. No século XV, os navegadores portugueses aprenderam que confiar apenas na intuição – seguir a linha mais próxima, evitar o desconhecido – era uma receita para o fracasso. Era preciso aceitar o desvio, confiar no conhecimento acumulado e compreender a lógica mais profunda do sistema em que se navegava.

Hoje, parte da política externa parece fazer o movimento inverso. Em vez de confiar no acúmulo institucional, aposta na intuição. Em vez de integrar conhecimento, o desloca. No lugar de estruturar a negociação, aposta no voluntarismo – como se a complexidade pudesse ser dobrada pela vontade.

Mas o mundo continua sendo um sistema complexo. E, como no Atlântico do século XV, ele não recompensa atalhos.

Quando o problema já não é descobrir – mas compreender

Em Tordesilhas, dividia-se um mundo desconhecido. Hoje, negocia-se um mundo amplamente conhecido – mas profundamente instável. A diferença é que, antes, o desafio era descobrir o caminho. Agora, é não perder a capacidade de compreendê-lo. Porque, no fim, a política externa continua sendo feita por pessoas.

A questão é saber se elas ainda reconhecem os limites entre intuição e realidade – ou se passaram a confundi-los perigosamente.

(*) Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

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Como a China contornou o tarifaço https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/china-x-estados-unidos.html 

Sylvio: contaminação

A Anvisa agiu certo e prontamente ao proibir a venda  dos produtos de limpeza Ypê face a possibilidade de contaminação que os mesmos contêm. Isso deve ser divulgado largamente para que não haja maiores prejuízos à população. 

Sylvio Belém  

A ameaça de jogo sujo nas eleições de 2026 https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/redes-sociais-eleicoes.html 

12 maio 2026

Humor de resistência

Cellus

Atomatização & pós-verdade

A crise da verdade na era digital
A ascensão do regime de pós-verdade na contemporaneidade é o ápice de um processo histórico de automatização e simulação, no qual a racionalidade algorítmica substitui progressivamente o discernimento humano
Marcio Pochmann/A Terra é Redonda     

1.

A era digital mergulhou a sociedade numa crise profunda. A distinção entre a verdade e a mentira tornou-se cada vez mais nebulosa.

O problema não é apenas a existência da falsidade, presente em toda a história humana. O problema é mais grave, uma vez que os critérios coletivos que permitem separar o fato da invenção, o real do fabricado, a informação da manipulação – estão sendo perdidos.

A pós-verdade nasce exatamente desse cenário. Trata-se de um regime social em que emoções, crenças identitárias e algoritmos passam a ter mais força do que fatos verificáveis. A verdade deixa de organizar o debate público. Em seu lugar, avançam o engajamento, a indignação e a conveniência ideológica.

Essa crise, porém, não começou com a internet. Suas raízes estão no próprio desenvolvimento da técnica moderna e da computação.

Em 1950, Alan Turing apresentou o famoso jogo da imitação, depois conhecido como Teste de Turing. A pergunta central já não era apenas se uma máquina poderia pensar, mas se ela poderia simular tão bem a inteligência humana a ponto de tornar indistinguível o humano do artificial. Ali surgiu um dos grandes dilemas do nosso tempo: quando a simulação se torna perfeita, como reconhecer a autenticidade?

John von Neumann também percebeu que a computação inaugurava um novo estágio civilizatório. A automação deixava de ser simples ferramenta humana e passava a organizar a realidade. A racionalidade algorítmica começava a substituir a mediação humana na vida social.

Décadas depois, Joseph Weizenbaum, criador do ELIZA, um dos primeiros programas de processamento de linguagem natural, fez uma crítica decisiva à ilusão tecnocrática. Em Computer Power and Human Reason, advertiu que máquinas podem simular compreensão sem possuir consciência.

Esse era o risco central: confundir processamento de informação com sabedoria humana. Para Joseph Weizenbaum, o perigo maior não estava apenas nas máquinas inteligentes, mas na disposição humana de entregar julgamento moral aos sistemas computacionais.

Lewis Mumford também antecipou essa crítica. Ao refletir sobre a “megamáquina”, mostrou que a técnica moderna cria sistemas gigantescos de organização social, nos quais os seres humanos passam a funcionar como peças subordinadas de engrenagens técnicas, burocráticas e econômicas. Nesse processo, velocidade, eficiência e automação substituem experiência, memória histórica e reflexão crítica.

2.

Hoje, essa transformação alcança novo patamar com as plataformas digitais. Jean Baudrillard descreveu esse processo como a ascensão do simulacro: representações que já não apenas refletem o real, mas passam a substituí-lo.

A imagem viral, o meme, o corte de vídeo, a notícia falsa e a inteligência artificial podem adquirir mais força social do que a experiência concreta. A realidade passa a ser mediada por fluxos digitais de representação.

No campo político, Hannah Arendt já havia advertido que a destruição da verdade factual seria a condição decisiva para formas autoritárias de poder. Uma sociedade incapaz de distinguir fato de ficção perde o terreno comum necessário à democracia. Torna-se-ia vulnerável à manipulação permanente.

Os autores contemporâneos da pós-verdade aprofundam esse diagnóstico. Lee McIntyre mostra que a pós-verdade subordina os fatos às narrativas ideológicas e emocionais. Ralph Keyes aponta a naturalização social da mentira conveniente. Byung-Chul Han observa que o excesso de informação e transparência digital produz, paradoxalmente, mais desorientação, fragmentação e incapacidade de discernimento.

Shoshana Zuboff acrescenta outro elemento central associado as plataformas digitais operando segundo a lógica do capitalismo de vigilância. Dados comportamentais são capturados para prever, induzir e modular condutas humanas. Nesse modelo, a verdade importa menos do que a capacidade de gerar atenção, engajamento e lucro.

Esse é o paradoxo contemporâneo com a crise da verdade não nascendo da falta de informação, mas do seu excesso. Nunca se produziu tanto dado, imagem, opinião e conteúdo. Mas, exatamente por isso, cresce a incapacidade coletiva de discernimento. A mentira emocional circula mais rápido do que a verdade complexa. O algoritmo privilegia choque, medo e indignação porque emoções extremas geram cliques, compartilhamentos e receita.

No limite, a crise da verdade expressa uma mutação histórica profunda. A civilização fundada na mediação humana do conhecimento ficou para trás diante de outra organizada pela mediação algorítmica da realidade.

Alan Turing revelou a possibilidade técnica da imitação perfeita. John von Von Neumann estruturou a lógica computacional da automação. Joseph Weizenbaum alertou para o risco de delegar julgamento moral às máquinas. Lewis Mumford denunciou a submissão da cultura à megamáquina tecnológica. Os teóricos da pós-verdade mostraram como o capitalismo digital transformou a verdade em variável secundária diante da economia da atenção.

A questão decisiva, portanto, já não é apenas saber se a máquina imita o humano. Mas saber se a sociedade ainda pode ser capaz de reconhecer a verdade quando a mentira se tornar mais rápida, mais lucrativa e mais sedutora do que o próprio real.

*Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

Referências


ARENDT, H. Verdade e política. In: ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 1972.

BAUDRILLARD, J. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D’Água, 1991.

HAN, B. Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Petrópolis: Vozes, 2022.

KEYES, R. The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life. New York: St. Martin’s Press, 2004.

MCINTYRE, L. Post-Truth. Cambridge: MIT Press, 2018.

MUMFORD, L. Art and Technics. New York: CUP, 1952.

TURING, A. Computing machinery and intelligence. Mind, Oxford, v. 59, n. 236, p. 433-460, 1950.

VON NEUMANN, J. The Computer and the Brain. New Haven: YUP, 1958.

WEIZENBAUM, J. Computer Power and Human Reason: From Judgment to Calculation. San Francisco: W. H. Freeman, 1976.

ZUBOFF, S. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

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A ameaça de jogo sujo nas eleições de 2026 https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/redes-sociais-eleicoes.html   

Dica de leitura

Inferno astral de Milei  

Em artigo recente publicado no site Outras Palavras, "Milei: hipóteses sobre uma derrota catastrófica, Mariano Schuster e Pablo Stefanoni consideram que a política de "motosserra" de Javier Milei, embora tenha freado a inflação de curto prazo via recessão induzida, gerou um colapso social sem precedentes.

A destruição do consumo interno e da produção de bens criou uma armadilha econômica da qual o governo dificilmente escapará sem gerar convulsão social.

Fatores como grave e empobrecimento da chamada classe média e isolamento politico no Congresso travam reformas estruturais levam o governo à inanição.

Por outro lado, a severa repressão aos protestos populares sinaliza contribui para o crescimento isolamento politico do governo.

Segundo os autores, a derrocada de Milei pode não vir apenas pelas urnas, mas por uma implosão do sistema econômico. A aposta de que o mercado resolveria todas as mazelas ignora a fome e do desemprego, colocando o governo em vias de uma catástrofe política iminente.

Confira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/sinais-de-mudanca-na-argentina.html?m=1 

[LS] 

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Quanto mais os holofotes mirarem ministros do STF pior para o presidente Lula — diz colunista do Globo. Oxente, o que é que tem a ver o cuscuz com as calças!? 

Releio e anoto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/teoria-pratica.html