Terceira via carece de chão*
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Três juízos de valor a propósito das eleições
de outubro:
Um - A radicalização de tendências no
eleitorado, captada nas pesquisas até agora divulgadas, é fruto da luta no
campo das ideias — cada vez mais acirrada sobretudo nas redes digitais —, mas
corresponde, sim, a uma base social marcada pelo conflito de extremos: os 10%
mais ricos detêm mais de 40% da riqueza do país, enquanto os 50% mais pobres
concentram menos de 15%. Não há um reflexo mecânico ou esquemático dessa
contradição na medida em que o polo rico - a chamada elite dominante – leva
vantagem na "guerra cultural" mediante poderosos instrumentos
midiáticos e digitais e conta com influente rede conservadora na base da
sociedade, inclusive representada pela expansão de igrejas evangélicas,
sobretudo as neopentecostais.
Dois — São variados e complexos os fatores
que contribuem para a vantagem inicial de Lula em relação ao oponente da
extrema direita. Inclusive na esfera subjetiva, decorrente do complexo jogo de
forças cuja face principal se revela na esfera parlamentar — Senado e Câmara
dos Deputados —, mas se traduz no cotidiano de cada "aldeia" como
fruto de múltiplos fatores — incluindo desvairado clientelismo, que parte da
base progressista do governo também pratica. Em outras palavras, para além da
polarização social assentada economicamente, a ação política institucional
(mandatos parlamentares, governos locais, organizações corporativas diversas,
etc.) tanto podem contribuir em favor da reeleição do presidente, como servir
de base para o fortalecimento do seu oposto. A luta concreta decidirá.
Três — Nesse contexto, sobra pouco espaço
para uma candidatura de centro-direita, apresentada como "terceira
via". Prevalece o cabo de guerra, onde o extremo vitorioso terá sido mais
eficiente num discurso compreensível e assimilável pela maioria do eleitorado;
e mais sagaz e competente na ampliação do arco de forças que o apoiem. Quanto
mais ampla a coalizão político-eleitoral que seja capaz de construir, maior
chances de vitória.
Ou seja, uma nova vitória de Lula será parida
numa disputa radicalizada na qual sejamos capazes de unir do lado de cá amplas
e variadas correntes e grupos de interesse e, pelo menos, neutralizar segmentos
desgarrados da candidatura da extrema direita mas não dispostos a integrar a frente
ampla democrática.
Sem nenhum laivo de estreiteza politica e
sectarismo.
Nessas circunstâncias, uma candidatura
presidencial caracterizada como "terceira via", sequer serviria para
formar bancadas parlamentares mais robustas.
*Texto da minha coluna semanal no portal 'Vermelho'
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