03 agosto 2026

Palavra de poeta

Do livro “O penúltimo olhar sobre as coisas”
Miró    

fico olhando o mundo,
não me sinto bem
agora, sinto um
desejo
de não estar mais aqui

mas agora que aqui estou
apoiando meus
54 quilos
e vários amores que se foram

a vida é um ônibus
vai levando você
o problema é em que parada
nós vamos descer

[Ilustração: Pablo Picasso]

Leia também: "Sonho Domado", de Thiago de Mello   https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_0945526495.html 

Estado & soberania nacional

Soberania e autonomia tecnológica
A experiência histórica brasileira comprova que, sem o protagonismo do Estado articulado ao capital nacional, a verdadeira soberania política e econômica se esbarra na dependência das tecnologias estrangeiras
Sergio Gonzaga de Oliveira*/A Terra é Redonda  

O Brasil, entre 1930 e 1980, viveu um período de crescimento econômico bastante acelerado. Durante 50 anos o PIB cresceu à taxa média de 6,7% ao ano. Sem dúvida um ritmo chinês. No entanto, o estágio de desenvolvimento foi muito limitado. O crescimento não foi acompanhado por uma distribuição de renda minimamente civilizada, nem uma eficácia de proteção ao meio ambiente. Além disso, uma herança escravizada e patriarcal formou uma sociedade racista e misógina, onde a maioria da população – composta por negros e mulheres – é cotidianamente violentada e relegada a um plano secundário.

Como isso não bastasse, o país desenvolveu um desenvolvimento econômico restrito ao ponto de vista tecnológico. Com poucas variantes, as empresas aqui condicionantes, mesmo que de capital nacional, dependem de importação de tecnologia com pagamentos sistemáticos de  royalties . Nos últimos 20 anos esses pagamentos aumentaram mais de quatro vezes, impulsionados por licenças industriais e de infraestrutura digital.

Soberania

Soberania não é um conceito simples. Controle do território, um governo único com legislação própria e uma população relativamente estável caracterizando uma nação formalmente soberana.

No entanto, a capacidade de um país controlar o seu próprio destino vai muito além dos aspectos formais. Soberania é um objetivo a ser conquistado. Não cai do céu, nem será oferecido de bandeja para outros países. Muito pelo contrário, a soberania é o resultado de um longo processo de conquista de autonomia em todas as suas vertentes.

Susan Strange (1923/1998)  [1], catedrática da  London School of Economics , em seu livro  States and Markets , desenvolveu um modelo abrangente em que relações de soberania de um país com quatro estruturas de poder bem definidas. Susan Strange argumentou que a soberania de um país é função direta de sua autonomia nas áreas de finanças, produção, segurança e conhecimento. Sob sua ótica, a soberania é um arranjo sistêmico que depende de cada uma dessas estruturas, mas, também, da inter-relação entre elas.

A autonomia financeira garante que as políticas fiscais, monetárias e cambiais não serão reféns de credores externos; a produtividade quebra a dependência de insumos e produtos necessários; a autonomia militar (segurança) dá o poder de dissuasão e autodefesa para sustentar o domínio do território e a integridade de sua população.

Por fim, a autonomia tecnológica (conhecimento) é a mãe de todas elas. A maioria dos aspectos que definem a soberania dependem do grau de desenvolvimento tecnológico. Contar com patentes, licenças e sistemas importados são formas conhecidas de dependência. Além disso, no século XXI, um país soberano deverá ser capaz de garantir minimamente a segurança cibernética de suas instituições.

Certamente, no mundo atual, altamente interligado, não é possível imaginar um país totalmente independente. No entanto, a dependência de determinados sectores pode ser catastrófica para o bem-estar da população quando uma crise se instala. Mesmo que o epicentro esteja localizado bem longe de suas fronteiras. Os recentes aumentos dos preços do petróleo, gás e fertilizantes, provocados pelas guerras da Ucrânia e do Irã, mostram o quanto isso é verdade. A inflação acelerou em quase todas as partes do mundo.

No Brasil, a autonomia tecnológica, herdada do período desenvolvimentista, é bastante limitada. Apesar disso, alguns setores atingiram atualização tecnológica, mostrando que existem caminhos próprios, conhecidos e testados. Nesse sentido, formulações teóricas consagradas merecem ser revisitadas.

O triângulo de Sábato

Em 1968, o Instituto para a Integração da América Latina e do Caribe (INTAL) publicou o artigo “ La ciencia y la tecnología en el desarrollo futuro de América Latina ”, de autoria do físico argentino Jorge Sábato e do político Natalio Botana. [2]

Para os autores o desenvolvimento econômico e soberano deriva diretamente de uma forte interação entre três aspectos principais: governo, estruturas produtivas e infraestrutura científico-tecnológica. Esses três agentes se relacionaram formando o que ficou conhecido como o Triângulo de Sábato.   

No vértice superior os autores destacaram o papel do Governo como estrategista, planejador, financiador e responsável pela implantação das instituições que permitem o desenvolvimento independente. Um planejamento de longo prazo acompanha o modelo.

A estrutura produtiva, formada por empresas estatais e privadas, ocupa o vértice esquerdo. É o elo que reúne os fatores de produção para levar ao mercado bens e serviços que atendem às necessidades da população. Interage com o governo e os centros de pesquisa, propondo alternativas e incorporando novas tecnologias.

Completando o triângulo, a infraestrutura científico-tecnológica ocupa o vértice direito. Tem conexão estreita com a base educacional. Este é um ponto crítico. O baixo nível educacional dificulta muito a atividade na área tecnológica. Universidades, Laboratórios e Institutos de Pesquisa, estruturados em rede, desenvolvem os projetos e programas acertados com os demais atores. Como escreveram Jorge Sábato e Natalio Botana no artigo já citado: "A pesquisa científica e tecnológica é uma ferramenta poderosa para transformar a sociedade. A ciência e a tecnologia são componentes dinâmicos do próprio tecido do desenvolvimento; são tanto efeito quanto causa; impulsionam-no e também são por ele reforçados".

O Triângulo de Sábato é um diagrama de forte impacto visual que sintetiza as relações permitidas entre as instituições que interferem na formação das políticas setoriais. Além disso, deve-se levar em conta que Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) tem diferenças na forma como é gerada e difundida, o que altera bastante a abordagem adequada a cada setor.

Geração e difusão de Pesquisa e Desenvolvimento

Quando o setor é constituído por grandes produtores, líderes em suas áreas, a Pesquisa e Desenvolvimento é normalmente realizada pela própria empresa que mantém o segredo tecnológico protegido por patentes ou barreiras à difusão. Nesses casos, o apoio governamental é mais restrito, geralmente limitado ao financiamento da atividade.

Em outras áreas, os setores são pulverizados, quando uma grande quantidade de produtores divide o mercado. Nesses casos a contribuição governamental tem muita importância. Os centros de pesquisa estatais são essenciais. Muitos ramos industriais, principalmente os que atuam na concorrência monopolista, adotam modelos híbridos onde Pesquisa e Desenvolvimento Próprio convivem com busca de atualização autonomia pelo Estado.

Richard Nelson, professor da Universidade Colúmbia, analisando a diversidade de geração e difusão da tecnologia, em seu livro  As fontes do crescimento econômico , escreveu: “O sistema que gera e espalha novas tecnologias na agricultura difere do sistema vigente na indústria farmacêutica. A indústria aeronáutica não tem semelhança todos com os bombeiros. Para alguns ramos, a concorrência schumpeteriana pode parecer um bom modelo; em outros aplicação a cooperação. (…) Os ramos dinâmicos são caracterizados por uma atividade significativa de P&D, seja pelas próprias atividades de P&D, seja pelas próprias atividades de P&D ramo, seja por empresas fornecedoras ou por programas financiados pelo governo. Nos ramos técnicos progressistas caracterizados pela concorrência oligopolista, as empresas geralmente são as principais fontes de inovação, progressistas e atomizados, o progresso tecnológico depende da atuação de agentes que estão fora dela”. [3]

A experiência brasileira

Na indústria aeronáutica o triângulo de Sábato foi definido pelo Governo com a criação do Centro Tecnológico da Aeronáutica (atual DCTA) em 1949, do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) em 1950 e da Embraer em 1969. Como resultado dessa ação, cerca de uma centena de empresas compõe o atual polo industrial-exportador da região de São José dos Campos, em São Paulo.

Com a fundação da Petrobrás em 1953, o Triângulo de Sábato foi igualmente atendido na área de petróleo e gás. Ao criar a Petrobrás, o governo colocou sob sua guarda a produção e a geração de tecnologia, bem como, a formação de quadros técnicos para o setor. Com isso, a Petrobrás foi muito além da autonomia na área, tornando-se exportadora. Não lembre que a extração de petróleo em águas profundas é uma atividade com alto conteúdo tecnológico.

Na agricultura e pecuária o modelo foi diferente. Em 1973, na fundação da Embrapa, já existia no Brasil um número elevado de produções rurais, ou seja, as estruturas produtivas estavam dadas. Nessas condições, o governo criou a Embrapa para buscar tecnologias adequadas a cada um dos subsetores da agropecuária e coordenar a formação de força de trabalho especializada. Foi também um longo processo de desenvolvimento e consolidação.

Outros modelos, com forte participação estatal, foram o Proálcool e o Sistema Elétrico Interligado que até hoje são destaques na economia brasileira. A recente proposta de aumento da adição de etanol na gasolina de 30 para 32%, em resposta ao fechamento do estreito de Ormuz, mostra a importância do Proálcool.

Mas não é só isso. Modelos que priorizam o capital privado não são seguros. Empresas nacionais nas áreas de papel e celulose (Suzano e Klabin), cosméticos (Natura e Boticário), proteína animal (BRF, MBRF, Minerva e Aurora), equipamentos elétricos (Weg) e medicamentos genéricos (EMS, Prati e Eurofarma) adquirem autonomia tecnológica nos seus processos básicos. Mas não foram só estas.

Muitas outras empresas de capital nacional, como a Tupy, Iochpe, Marcopolo, Randon, Tramontina e Alpargatas percorreram o mesmo caminho. Neste caso, o capital privado investiu nas estruturas produtivas e na geração de tecnologia. A participação estatal esteve presente, principalmente pelo apoio financeiro do BNDES e da FINEP, fechando o Triângulo de Sábato.

Alguns programas por falta de continuidade ou por defeito de concepção sobreviveram aleatoriamente, mostrando resultados medíocres ou simplesmente foram abandonados. São exemplos o Programa Nuclear, a Indústria de Informática e Telecomunicações e a Construção Naval. No entanto, esses casos não devem ser tomados como padrão para descartar a busca pela autonomia. Em Pesquisa & Desenvolvimento as dificuldades fazem parte da rotina.

Os exemplos citados mostram que existe uma grande diversidade de modelos à disposição do planejamento central.

Uma das características mais marcantes de todo esse processo tem sido a predominância do capital nacional, estatal ou privado. Com empresas estrangeiras limitadas obterão autonomia tecnológica. Suas decisões serão sempre condicionadas pelo interesse de suas matrizes, buscando melhores oportunidades no mercado global. Isto sem considerar que o pagamento de royalties é uma forma de remunerar os investimentos aqui realizados.

Um programa para o desenvolvimento

Quando se discute a reindustrialização [4] e a política de terras raras e estratégicas minerais [5]  deve-se olhar para a experiência adquirida e, acima de tudo, perceber que a autonomia tecnológica, provocada ou renovada diretamente pelo governo, é uma parte vital da verdadeira soberania. Não à toa, a disputa pela hegemonia mundial entre os EUA e a China tem se transformado em uma verdadeira corrida tecnológica.

O governo tem ferramentas poderosas para desenvolver os setores incluídos no planejamento estratégico. Investimento direto, compras públicas, proteção alfandegária, transferência tecnológica obrigatória, proibição ou cotas de importação ou exportação e proteção ao capital nacional são os instrumentos mais comuns adotados ao redor do mundo. Para utilizá-los com eficiência, é preciso ter capacidade política para construir acordos programáticos, não legislativos ou fora dele, com esse objetivo.

Numa democracia, os programas de governo, especialmente os de longo prazo, precisam ser sustentados por grupos sociais que tenham interesse no desenvolvimento econômico, social e ambiental. Uma análise cuidadosa dos estudos existentes sobre classes, segmentos de classe e seus interesses pode fornecer uma base mais realista para uma política de alianças em busca da soberania.

Em outras palavras, as alianças políticas deveriam ser construídas em torno de um programa de desenvolvimento que colocasse a soberania como um dos principais fios condutores. Em todas as suas vertentes: financeira, produtiva, militar e tecnológica.

* Sergio Gonzaga de Oliveira  é engenheiro pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e economista pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) .

Notas


[1] Strange, Susam,  Estados e mercados , Bloomsbury Academic, Londres, Reino Unido, 2015.

[2] Sábato, Jorge e Botana, Natalio,  La ciencia y la tecnología en el desarrollo de América Latina , Tiempo Latinoamericano, Editorial Universitaria, Chile, 1970.

[3] Nelson, Richard,  As Fontes do Crescimento Econômico , Editora da UNICAMP, Campinas, 2006.

[4] Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Nova Indústria Brasil – Plano de Ação, Governo Federal, Brasil, 2023

[5] Câmara dos Deputados, PL 2780/2024, Minerais Críticos e Estratégicos, Congresso Nacional, 2026

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Luís Nassif: Por que a economia brasileira tem voo de galinha?  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/entraves-superar.html

Humor de resistência

 

Quinho

Cada campanha é uma campanha https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao.html 

Palavra de Lula

Lula convoca mobilização popular para conquistar quarto mandato em 2026
Em convenção que oficializou sua candidatura à reeleição, presidente defendeu legado do governo, soberania nacional, desenvolvimento e unidade das forças democráticas
Lucas Toth/Vermelho 
 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve sua candidatura à reeleição oficializada neste domingo (2), durante a Convenção Nacional do PT, em São Paulo, e convocou as forças que integram sua aliança a mobilizarem o país em torno da conquista de um quarto mandato presidencial.

Diante dos militantes e representantes dos sete partidos que integram a aliança eleitoral, além de dirigentes, governadores e parlamentares, Lula apresentou as realizações de seu terceiro governo como ponto de partida para a disputa de outubro. 

Geraldo Alckmin (PSB) foi confirmado novamente como candidato a vice-presidente.

“Quem fez pode prometer mais, quem não fez não tem o que prometer. Essa é a lógica da nossa campanha”, afirmou Lula.

O presidente orientou candidatos e apoiadores a levarem para cada estado e município o balanço das políticas executadas desde 2023. Para Lula, os resultados não devem ser apresentados como obra individual do presidente, mas como construção do conjunto de forças políticas e sociais que sustentam o governo.

“Porque é importante falar o governo Lula, fala o nosso governo. Porque o governo não é só meu, e eu sozinho não faria o que está sendo feito”, disse.

Segundo o presidente, a presença de investimentos e programas federais em praticamente todo o território nacional dá à aliança condições de disputar politicamente o legado do atual governo.

“Nós temos autoridade moral em cada cidade, em cada estado, e defender com orgulho aquilo que nós fizemos. Não aquilo que o Lula fez, aquilo que nós fizemos”, declarou.

Quarto mandato

Ao falar sobre a disputa eleitoral, Lula recorreu ao futebol para lembrar sua trajetória eleitoral. Caso vença em outubro, ele se tornará o primeiro presidente brasileiro eleito pelo voto popular para quatro mandatos.

“Se eu ganhar essa são quatro Copas. Eu não vou ter chance de tentar o penta”, brincou.

Durante o discurso, Lula recuperou a trajetória de alianças construída pela esquerda brasileira, mencionando especialmente a aproximação histórica com o PCdoB.

O presidente também defendeu a permanência de Alckmin na chapa e destacou sua atuação à frente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

“É essa competência que faz você ser meu vice outra vez. Além da competência, a lealdade e o companheirismo”, afirmou.

Desenvolvimento, emprego e renda

Lula dedicou parte do pronunciamento aos resultados econômicos e sociais alcançados desde 2023. 

Citou o crescimento da economia, a redução do desemprego, a retomada dos investimentos públicos, a valorização do salário mínimo e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda.

O presidente também destacou o novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e os investimentos realizados pela União nos estados e municípios. A orientação à militância e aos candidatos da aliança é apresentar essas realizações durante a campanha como demonstração concreta do projeto defendido para os próximos quatro anos.

Ao tratar da política industrial, Lula afirmou que a retomada do setor produtivo ocupa posição central na estratégia do governo e elogiou a atuação de Alckmin no MDIC.

Lula também voltou a defender maior justiça tributária, com contribuição proporcionalmente maior daqueles que concentram renda e patrimônio.

“Não é nada de colocar pobre contra rico, é fazer o rico saber que ele também pertence a uma comunidade, que ele também tem que colaborar com o desenvolvimento nacional. Que não é porque ele mora na cobertura que ele não tem que pagar condomínio, que era o que acontecia no Brasil até 2022”, afirmou.

Soberania entra no centro da disputa

Outro eixo destacado na convenção foi a defesa da soberania nacional. Em meio às pressões imperialistas sobre o Brasil e à crescente disputa internacional por minerais estratégicos, Lula defendeu o controle brasileiro sobre suas riquezas e fez referência direta às terras raras.

“Tem muita gente metendo os dedos em nossas terras, isso vai parar”, afirmou.

A soberania também apareceu nas intervenções de dirigentes e aliados. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou que as eleições colocarão em confronto projetos distintos para o futuro do país e defendeu o enfrentamento ao entreguismo e às tentativas de intervenção externa.

Alckmin relacionou o tema à defesa da democracia e criticou as aproximações da família Bolsonaro com forças políticas estrangeiras. Ao mencionar os ataques às urnas eletrônicas e a presença do presidente argentino Javier Milei na convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro, o vice-presidente ironizou:

“A urna eletrônica é tão competente que não aceita voto de argentino e americano.”

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Três "questões de ordem" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0658357328.html 

02 agosto 2026

Minha opinião

Gastando muito? Corra ao endocrinologista! 

Luciano Siqueira      

O amigo é consumidor compulsivo. Em viagem à China, roubou de tudo – pelo menos quase tudo do que lhe foi oferecido: gravatas, relógios “Rolex” de eficiência duvidosa, bolsas e apetrechos vincados como se de grifes famosas... e até prosaicos e muito úteis pares de meia.

Na viagem de volta, mil truques para segurança e bugigangas na bagagem, de modo a não pagar excesso de peso – em dólares! Afinal, ao chegarmos ao Aeroporto dos Guararapes, juro que – exaurido e sonolento em razão das muitas horas de voo – o ouvi perguntar ao carregador, que se aproximava empurrando o carrinho de bagagens: “Quanto custa?” Mas minhas testemunhas idôneas garantiram que tal não aconteceu, foi pura imaginação, talvez devido ao porre de consumo que havia presenciado na longa viagem...

Pois bem. Essa coisa de consumir sem limites, uns dizem que é doença, outros acham que nem tanto, e muitos consideram reflexo da propaganda imensa na TV, que associa prazer e felicidade à aquisição dos mais variados bens – dos inalcançáveis ​​​​barcos a vela e carros de última geração a perfumes, desodorantes, refrigerantes e uísques diversos.

Tem outra explicação, cientificamente embasada. Pelo menos é o que agora leio no Valor Econômico, em matéria assinada por Noemi Jaffe. O cientista Dan Ariely, dedicado ao estudo do "comportamento econômico dos macacos" (sic), garante que os seres humanos também cometem "erros econômicos básicos", como "não agir em função do futuro e repetir nossos erros sempre da mesma maneira".

Está no livro "Eu Compro, sim! Mas a Culpa é dos Hormônios...", de Pedro de Camargo, onde se indica tratamento endocrinológico para a superação do impulso de consumo irrefreável.

Imaginar. O cara chega ao consultório médico e, questionado sobre o que o incomoda, sapeca de pronto: - Doutor, estamos muito doentes, eu e minha conta bancária. Não paro de comprar coisas e no final do mês não há renda que me impeça de operar no vermelho!

E o médico, por sua vez, após análise detalhada e exame físico específico, solicitação bateria de testes laboratoriais, com ênfase em dosagens hormonais. Sem retorno, o paciente sai com a prescrição do medicamento X, comprovadamente eficiente na cura da nova entidade clínica, conhecida como “síndrome da gastança”.

Tempo moderno!, diria a minha avó Neném, que à sua época se espantava com tudo o que era novo, a partir do mesmo uso de calças compridas pelas mulheres, que ela nunca aceitou.

É uma disputa no mercado? Por outro lado, os varejistas apoiam cada vez mais campanhas publicitárias concebidas para explorar, por meio de estímulos visuais e sonoros, a liberação de hormônios que conduzem às vítimas à primeira loja da esquina. Do outro, a indústria farmacêutica anunciando a última descoberta, um inibidor hormonal, capaz de curar o mais incontrolável comprador de quinquilharias. Uma guerra pra gente grande, sem dúvida.

É isso, minha avó: assim caminha a Humanidade!   

[Ilustração: imagem produzida por IA]

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Leia também O cigarro que não fumo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/o-cigarro-que-nao-fumo.html 

Palavra de poeta

SONHO DOMADO
Thiago de Mello       

Sei que é preciso sonhar.

Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.

Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.

A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.

Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.

Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.

É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.

[Ilustração: Andrey Remnev]

Leia também "Soletrando no escuro a tua voz", poema de Jaci Bezerra https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/palavra-de-poeta_010771146.html 

Fragilidades de Trump contra Irã

Guerra: Trump com poucas cartas na mão
Diante de um Irã fortalecido e desafiador, presidente alterna insultos e pedidos de trégua. Conflito alastra-se; faltam mísseis e combustíveis. A três meses das eleições, EUA parecem vítimas de sua aposta supremacista e apolínea
Alastair Crooke, no Strategic Culture | Tradução: Rôney Rodrigues/Outras Palavras 

Trump ordenou que as Forças Armadas dos EUA não realizassem novos ataques contra o Irã na noite de 24/7, apesar de ter aprovado anteriormente um “ataque massivo demoninado ‘Portões do Inferno’” contra Teerã.

Os EUA solicitaram agora um novo cessar-fogo temporário e buscam o retorno ao Memorando de Entendimento (MoU) que entrou em colapso e foi suspenso, com discussões que incluam o Iêmen, e com Trump buscando tornar o movimento houthi parte das negociações.

É evidente que o presidente está irritado e teme que a guerra esteja consumindo sua presidência (e seu legado). O Irã rejeitou categoricamente todas as negociações ao longo da última semana e confirmou que não iniciará negociações sob nenhuma circunstância. Em termos simples, por que Teerã consentiria em dar tempo aos EUA para se reorganizarem e se rearmarem antes de lançarem outra rodada de ataques contra o Irã, quando tem os EUA “na defensiva”? 

Um retorno ao Memorando de Entendimento cuja credibilidade Trump repetidamente destruiu? Improvável.

Will Schryver observa que circulam rumores de que o Pentágono está pressionando Trump a cancelar a guerra com o Irã porque os EUA quase esgotaram seus estoques de interceptores de defesa aérea e mísseis de ataque de longo alcance. Os principais assessores do presidente também estão preocupados com a perspectiva de uma guerra cada vez mais ampla no Oriente Médio, com o afastamento de aliados-chave do Golfo, vulneráveis a novos ataques iranianos, e com a iminente crise energética. “Poucos, se é que alguém, no círculo íntimo de Trump acreditavam que o plano de escalada fosse sensato, disseram as duas pessoas a par da situação”, relata o New York Times.

Parece também que as manobras em torno da situação exata do abastecimento de combustível nos EUA podem ter contribuído para a mudança de rumo de Trump. Larry Johnson relata que –

“[Um] relatório elaborado por Karl Miller investiga como as operações secretas de aquisição e exportação de combustível pelas Forças Armadas dos EUA estão esgotando as reservas nacionais de diesel e combustível de aviação, especialmente durante um período em que os estoques domésticos já estão criticamente baixos”.

Em resumo, Miller afirma que –

“grande parte dessa exportação (secreta) de combustível é encaminhada por canais opacos, como o centro de transbordo de Roterdã, onde a alocação final para fins militares ou para o exterior não é divulgada publicamente, deixando a economia norte-americana exposta a riscos de escassez – enquanto operações militares e no exterior – ‘notadamente em Israel’ – recebem acesso prioritário”.

Este relatório de Miller parece estar relacionado à manipulação aberta, por parte das autoridades estadunidenses, dos índices de referência do petróleo, com o objetivo de convencer os mercados de que não há perigo de escassez de combustível decorrente da liberação emergencial em andamento da SPR (Reservas Estratégicas de Petróleo) de 172 milhões de barris, iniciada para combater choques de oferta decorrentes do conflito com o Irã. 

Embora o limite mínimo de segurança previsto em lei seja de 250 milhões de barris (o nível atual é de cerca de 300), promove-se a narrativa de que a retirada pode ir ainda mais longe (até 70 mbpd). Será possível? Qual é o nível mínimo que as reservas estratégicas de petróleo podem atingir? A questão é mais complicada do que apenas um grande tanque de petróleo bruto com um nível específico. A SPR é composta por muitas cavernas e contém diferentes tipos de petróleo bruto, que estão sendo retirados em ritmos distintos, com algumas cavernas suscetíveis de desabar se forem esvaziadas em excesso. Em resumo, ninguém sabe até onde é demais. É tudo suposição.

Com a ofensiva militar de Trump enfraquecida, o único caminho de volta às negociações seria oferecer concessões reais logo no início. Mas, mesmo que Trump fizesse isso, será que acreditaria nele? E será que o estado mental de Trump aguentaria tal humilhação implícita?

O principal obstáculo no caminho de volta às negociações com o Irã é que ele e seu círculo íntimo entendem o Irã de cabeça para baixo. Afirmam acreditar que estão lidando com uma liderança intransigente e linha-dura, enquanto os iranianos como um todo anseiam por uma saída. Esta concepção está errada; é exatamente o contrário. É a liderança que é pragmática, e é “a rua” que, em geral, é mais linha-dura e exige vingança. E exige saber por que deveria haver negociações, para começar.

Por outro lado, a equipe de Trump e seus defensores da Fox News abandonaram a antiga visão que os EUA mantinha sobre si mesmos — uma nação redentora… — e caíram em uma “autocaracterização” maniqueísta radical, escreve o professor Michael Vlahos, na qual –

“as ‘boas novas’ americanas foram substituídas pelo espectro sempre presente do Mal e pela ameaça do uso da força. As palavras sagradas, Liberdade e Democracia, embora ainda sejam entoadas, tornaram-se um mantra vazio. O ‘evangelho’ americano não prega mais sobre trazer redenção e expiação: agora se preocupa com imposição e punição. A reviravolta ocorreu em um instante, no 11 de setembro e com Guantánamo”.

O problema, então, está centrado na atitude: como é possível negociar ou dialogar com a personificação do mal (como Trump se refere aos iranianos)? Não é possível, é claro. Esse era o objetivo de retratar os inimigos em termos tão sombrios. Isso impede uma verdadeira mediação. Impede uma solução que possa ser vista como a ascensão ao poder de “um dos povos mais malignos da história”, liderando uma “gangue de bandidos sanguinários”. Isso reduz a política à busca pelo domínio sobre a “alteridade”.

O Ocidente pratica uma maneira específica de pensar que considera representar a essência do que é humano. Esse modo de pensar (frequentemente denominado apolíneo) está ligado ao patriarcado, à lei e a um pensamento vertical, de cima para baixo, secular, racional e mecanicista. Ele oferece pouco espaço para o “entre-dois”. As coisas são ou “A” ou “não-A”.

No entanto, outra esfera (frequentemente denominada dionisíaca) expressa a dualidade energética tanto na natureza quanto no ser humano – masculino e feminino; ordem e transgressão exuberante; e retidão e degeneração. Elas formam os pólos dentro da consciência que coexistem em nós e que se constituem mutuamente. (O logos dionisíaco pode ser visto, talvez, como a sombra, ou mesmo como a revolta contra Apolo).

E então há Perséfone (o reverso da “sombra” dionisíaca), que expressa a existência ctônica e feminina. Aqui não há polo masculino, mas apenas uma deusa que irradia a essência da terra e o princípio feminino da reprodução, o processo de crescimento e de cuidado, e o conhecimento do submundo (chamado de intuição) — simbolizando a Vida cíclica de Afrodite, a decadência, a morte e a renovação definitiva.

A arrogância imperial de Trump está começando a encarar o fato de que ele terá dificuldade — talvez lhe seja impossível — de encontrar uma solução para o Oriente Médio. Ver o mundo a partir da perspectiva puramente apolínea é masculino e exclusivista e não permite compreender a “alteridade”; ao contrário, baseia-se em privilégios excepcionais. Simplesmente não reconhece — e não pode reconhecer — a pluralidade de mentes.

Os EUA perderam a guerra. Ao adotar uma linguagem maniqueísta e intransigente como essa, Trump efetivamente se afastou de qualquer solução diplomática em potencial. Ao ampliar a guerra (Líbano, Iêmen, Síria e Iraque), ele complicou gravemente qualquer via diplomática. Todos os elementos estão inter-relacionados, mas também têm agendas distintas. Assim, uma solução envolve uma matriz complexa de questões, em vez de uma disputa binária apenas entre os EUA e o Irã. Os EUA acabarão tendo que capitular, o que resultará na ascensão do Irã como potência regional (fortalecendo a Rússia e a China), enquanto a região, aos poucos, aceitará essa nova realidade do Oriente Médio.

Ilustração: Adrià Fruitós

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Hegemonia imperialista em crise https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/decadencia-imperialista.html