22 fevereiro 2026

Urariano Mota opina

Desprezo pela língua portuguesa na mídia é punido
Crônica relembra Diógenes Afonso e discute o dever educativo da mídia após ação contra a Globo por erro de pronúncia da palavra “recorde”
Urariano Mota/Vermelho  

Li esta crônica ontem à noite na Rádio Jornal do Recife.

Uma notícia vista na manhã de 19/02/2026 me fez lembrar do mestre da língua portuguesa Diógenes Afonso. Que saudade invade o peito da gente em razão da partida do mestre. Explico.

Ao escrever e comentar que os meios de comunicação têm atuado para deseducar a população com suas pronúncias de “Fê-linto”, em vez de “FIlinto”, ou de “Ô-linda”, em lugar de “Ó-linda”, recebo a opinião de que isso é uma besteira, ou, pior, coisa impronunciável no ar. Mas o problema é que tal deseducação se espalha e atinge jornalistas, comunicadores dignos e professores de todos os lugares. Vira uma doença propagada pelo vírus da poderosa rede de televisão. Todos falando de uma só maneira, da maneira “educada” entre aspas, que não foi a educação aprendida desde o leite materno em suas casas.

É da língua que raramente as nossas vogais “E” e “O” se pronunciam como se escrevem nas sílabas. Nem, muito menos, como “ê” e “ô”, ave Maria. Aliás, “ave” é bem ilustrativa da nossa variação, porque ora se pronuncia “ávi”, ora “avé”, como se escuta nos cânticos das igrejas católicas do interior do Nordeste. Assim também na palavra Recife, que ora é Ricife, ora é Ré-cife na pronúncia do povo. Ouça-se, a propósito, Alceu Valença cantando Voltei, Recife, e o Coral de Batutas de São José na música Evocação no. 1, de Nelson Ferreira. O coral em suas vozes eternas canta “Ré-cife adór-mecia, ficava a sonhar…”.

 O tão natural Pernambuco, que dizemos Pér-nambuco, se pronuncia agora como Pêr-nambuco.  E Petrolina, Pé-tró-lina, uma cidade de referência do desenvolvimento pernambucano, virou outra coisa: Pê-trô-lina. E mais este “Nóbel” da ortoépia televisiva: de tal maneira mudaram e mudam até os nomes das cidades nordestinas, que, acreditem, eu vi e ouvi: sabedores que são da tendência regional de transformar o “o” em “u”, um repórter rebatizou a cidade de Juazeiro na Bahia. Virou JÔ-azeiro! O que tem lá a sua lógica: se o povo fala jUazeiro, só podia mesmo ser Jô-azeiro.

Saudade do mestre Diógenes Afonso!

Copio da notícia publicada na Folha de S.Paulo:

“MPF processa a Globo e pede R$ 10 milhões por pronúncia incorreta da palavra ‘recorde’

Em uma ação civil pública movida pelo procurador Cléber Eustáquio Neves, a emissora é acusada de pronunciar de forma incorreta a palavra ‘recorde’. Ele pede que a empresa pague uma multa de R$ 10 milhões.

Na sua petição inicial, Neves diz que a Globo, junto com seus repórteres e apresentadores, tem adotado uma pronúncia errada da palavra ‘recorde’. Isso estaria causando um efeito manada na população, que falaria o termo também de forma errônea por culpa da emissora.

A palavra ‘recorde’ é paroxítona, com a sílaba tônica em cor: reCORde. Portanto, não leva acento gráfico e não deve ser pronunciada como proparoxítona. Leia-se RÉ-cor-de’, explica o procurador.

Para justificar a ação, ele adicionou vídeos do Jornal Nacional, do Globo Esporte e do Globo Rural. Em um deles, o procurador questiona a pronúncia de César Tralli, âncora do principal telejornal da Globo.

‘A Globo atua como um braço do Estado na difusão de informações, portanto, a utilização da norma culta da língua portuguesa não é uma opção estética, mas um modelo de qualidade e eficiência administrativa’, defende o procurador.

‘Quando uma concessionária de alcance nacional propaga, de forma reiterada e sistemática, um erro de pronúncia, conhecido por erro de prosódia, ela viola o direito difuso da sociedade a ter acesso a uma programação com finalidade educativa e informativa’, continua Neves.

Na ação civil pública, o MPF-MG pede uma retificação em rede nacional da palavra ‘recorde’ em telejornais e programas esportivos. Ele também solicita uma liminar em caráter de urgência para que a correção seja feita o quanto antes.

O procurador também quer que a empresa pague uma multa de R$ 10 milhões aplicada por ‘lesão ao patrimônio cultural imaterial da língua portuguesa’. A Globo foi notificada antes do Carnaval e ainda não apresentou sua defesa, o que deve ocorrer nos próximos dias”.

O que antes escrevíamos e parecia ser uma implicância bizarrice, agora vira sentença judicial. Era nosso dever antes e agora. O papel de todo escritor ou intelectual é ser um tribuno da educação. O que na medida de nossos meios modestos temos procurado fazer.  

Intolerável vício de linguagem https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_29.html

Humor de resistência

 

Miguel Paiva 

Palavra de poeta

Solidão
Mia Couto  

Aproximo-me da noite 
o silêncio abre os seus panos escuros 
e as coisas escorrem 
por óleo frio e espesso 

Esta deveria ser a hora 
em que me recolheria 
como um poente 
no bater do teu peito 
mas a solidão 

entra pelos meus vidros 
e nas suas enlutadas mãos 
solto o meu delírio 

É então que surges 
com teus passos de menina 
os teus sonhos arrumados 
como duas tranças nas tuas costas 
guiando-me por corredores infinitos 
e regressando aos espelhos 
onde a vida te encarou 

Mas os ruídos da noite 
trazem a sua esponja silenciosa 
e sem luz e sem tinta 
o meu sonho resigna 

Longe 
os homens afundam-se 
com o caju que fermenta 
e a onda da madrugada 
demora-se de encontro 
às rochas do tempo 

[Ilustração: F. Abderrahim]

Leia também: "Vinil", um poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-de-poeta_19.html 

21 fevereiro 2026

Minha opinião

Adolescência nublada 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65 

Verdade que já estou há algum tempo na categoria dos idosos, muito distante da minha adolescência. Entretanto, desperta a minha curiosidade o anúncio de que "adolescente sente tudo em demasia", segundo pesquisas mais recentes. 

Diz-se que além das mudanças físicas marcantes também as emoções ganham outro colorido e invulgar intensidade. 

Tudo bem. Como esses traços característicos daquela fase da vida se expressaram em mim? 

Eis um problema: tive sim uma adolescência intensa, como de resto todas as fases da minha vida, mas agora percebo que me faltam recordações mais nítidas a propósito de como evolui do ponto de vista anatômico e fisiológico e também emocional. 

Lembro apenas da abertura de um leque maior das minhas leituras: Isaac Asimov entrou na lista despertando meu interesse crescente pelas coisas da ciência; Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Guimarães Rosa, José Lins do Rego e mesmo Gilberto Freyre com o seu "Casa Grande e Senzala" me atraíram para uma melhor compreensão do país e da gente que nós somos, além dos clássicos da literatura universal que lhe foram apresentados pelo meu tio Paulo Rosas, desde que me contratou para cuidar da sua biblioteca particular. Eu tinha entre 15 e 16 anos. 

E as outras manifestações de transição física e espiritual própria da adolescência? Creio que passei por elas sem lhes dar muita importância, pois agora não consigo com nitidez.

Adiante, já no início da juventude, minhas emoções foram despertadas pelo curso médico na Universidade Federal de Pernambuco concomitantemente com a militância política organizada no Diretório Acadêmico e na Ação Popular, organização clandestina e de resistência à ditadura. 

Donde posso concluir que da minha adolescência propriamente dita resta uma memória meio que nublada. 

Meio estranho, não?, considerando que o cérebro passa por intensa reorganização neurológica em conexão com o cotidiano da vida, segundo cientistas especializados na matéria.

O jeito é viver intensamente a condição de idoso em boa parte com o espírito adolescente de abertura no plano das ideias, da experiência prática e das emoções.

Veja e ouça: Caetano Veloso, "Sozinho" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/caetano-veloso-sozinho.html 

Fotografia

 

Luciano Siqueira

Leia: "Porque hoje é sábado" "https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/uma-cronica-de-abraham-sicsu.html 

Big Techs x Estados nacionais

Nações Digitais: o projeto das Big Techs para substituir os Estados nacionais
Por trás do discurso libertário, emerge um plano de reorganização do poder mundial baseado em criptomoedas, vigilância digital e controle das consciências.
Eduardo Siqueira/Portal Grabois https://grabois.org.br/     

Nos últimos anos, uma ideologia delirante cresceu e apareceu entre a elite do Vale do Silício vislumbrando repensar a governança tradicional, através de ideias como Estado Rede, sociedades dirigidas por criptomoedas e cidades totalmente governadas pelo setor privado. Nomes famosos como Peter Thiel, Elon Musk e Balaji Srinivasan lideram a empreitada, os dois primeiros também conhecidos como parte da máfia PayPal. Muitos deles acham que os Estados Unidos estão em declínio, mas a solução é a completa reimaginação da sociedade capitalista, não a sua reforma.

Balaji Srinivasan, principal dirigente tecnológico (Chief Technology Officer em inglês) da firma Coinbase e ex-sócio da companhia de investimentos financeiros Andreessen Horowitz, tem sido um dos maiores defensores da ideia. Ele escreveu o livro The Network State: How to Start a Country (O Estado em rede: como começar um país, em tradução livre), no qual elabora o conceito do que seriam comunidades virtuais descentralizadas com o objetivo de comprar terras e eventualmente funcionar como nações independentes. O livro esquematiza um modelo para administrar essas comunidades como corporações.

Este delírio utópico não é novo. A novela Atlas Shrugged, de Ayn Rand, e a ficção científica Terminus from Foundation, de Isaac Asimov, foram inspirações, já que o primeiro aborda uma utopia capitalista, enquanto o segundo sugere alternativas para um império em colapso. Curtis Yarvin (também conhecido como Mencius Moldbug), um blogueiro, analista político de extrema-direita dos Estados Unidos, com formação em computação, foi quem primeiro disseminou a ideia de um sistema “onde territórios soberanos pequenos, dominados por corporações, substituiriam governos tradicionais”. Os territórios priorizariam a eficiência em vez da opinião pública e manteriam controle através de tecnologias como vigilância biométrica.

Alguns dos chamados barões das Big Tech, como Thiel, investidores capitalistas como Balaji, Musk e os assessores do DOGE (Ministério da Eficiência Governamental) Marc Andreessen e Joe Lonsdale, entre outros, fazem parte de uma organização chamada Praxis, que defende uma utopia supostamente anarco-libertária denominada “Nação Digital.”  Os novos libertários globalistas usam Trump para dar peso à visão deles de reformatar o mundo e reescrever regras, ignorando completamente a opinião pública e a democracia. Trump na verdade já andou falando sobre a ideia de “Cidades Livres” em terras federais, como possíveis centros de inovação e progresso.

Dadas as relações de Trump com oligarcas como Peter Thiel, não há como achar apenas uma coincidência entre a afirmação do presidente e a visão dos magnatas do Vale do Silício sobre cidades totalmente privatizadas e governadas pelo setor privado. Aliás, Thiel argumentou em 2009 que a democracia é incompatível com a liberdade. O vice-presidente JD Vance discute abertamente as ideias de Yarvin e tem relações antigas com Thiel, o que sugere que deve haver uma articulação entre eles para mudar como se governa nos Estados Unidos e talvez além dos EUA.

A Groenlândia é vista como um nó potencial nessa rede, o que explica o interesse dos oligarcas em dominar a ilha, que se tornaria um laboratório potencial para eles administrarem, sem supervisão ou prestação de contas a ninguém. Na visão delirante dos oligarcas defensores da ideologia mal classificada como anarco-libertária, também apoiada pelo embaixador dos Estados Unidos na Groenlândia, Ken Howery, a ilha congelada seria uma cidade livre dos “Estados-Nações.”

As nações digitais e a Praxis

Segundo a revista Vanity Fair, a Praxis (praxisnation.com) foi criada para salvar a civilização ocidental. Defende uma rede global de cidades que funcionaria fora do controle de Estados-Nações, fora de qualquer controle financeiro e governada por oligarcas das Big Techs. Para a Praxis, Estados-Nações são coisas do passado e “Nações Digitais, alinhadas em comunidades em cadeia com aspirações de status de Estado, emergirão como o novo paradigma político global”. Em manifesto intitulado Nações Digitais, postula:

“O sistema global moderno, no passado o maior poder na história humana, se tornou uma frágil, improvisada engenhoca incapaz de realizar as mais básicas funções. Administradores dos “Estados-Nações” estão correndo para manter o seu sistema diante de uma onda crescente de crises. Enquanto estas instituições que governam continuam a degradar-se, as pessoas se darão conta de que ninguém está do lado delas e que elas são abandonadas pelos mesmos sistemas cujo objetivo era servi-las. Quando reconhecerem esse fato, entenderão que a sua sobrevivência e prosperidade não depende das estruturas existentes, mas de sua reunião com outras pessoas em um mundo crescentemente fraturado. Simultaneamente, as ferramentas da Internet para alinhamento, coordenação e financiamento estão ficando cada vez mais potentes. Enquanto os “Estados- Nações” fracassam, as “Nações Digitais” tornam-se inevitáveis.”

Os ideólogos de um futuro baseado em “Nações Digitais” acreditam que a principal batalha no mundo atual é conquistar as mentes dos indivíduos, porque tudo depende das mentes, seja das massas, seja daqueles que controlam bens estratégicos, em contraste com a posse da terra, que foi no passado o espaço primordial dos confrontos. Para eles, “hoje nos encontramos em um ponto de inflexão, onde o poder é determinado de forma progressiva pela habilidade de capturar o ‘mercado de consciências’ (mindshare em inglês) de comunidades globais dispersas. Os tradicionais Estados-Nação, construídos sobre territórios físicos e governos de cima para baixo, não estão mais alinhados com a maneira como as pessoas formam suas identidades e organizam suas vidas.”

Um aspecto central da teoria sobre o futuro do mundo divulgada pelos líderes ditos anarco-libertários é a substituição das velhas moedas pelas criptomoedas, que, para eles, já criou um novo e completo sistema financeiro paralelo. As “Nações Digitais” serão parteiras das “Cripto Nações”, uma vez que “o frenesi especulativo atual das cripto está atraindo os colonos e catalisando a infraestrutura necessária para transformar um planeta estéril em uma criptocivilização próspera.”

A Praxis é o primeiro “Estado Rede, uma aliança de nativos da internet para acelerar o progresso tecnológico e revitalizar a civilização ocidental. Mais de 14.000 praxianos residem em 84 países e fundaram companhias no valor de 400 bilhões de dólares. As “Nações Digitais” criam uma nova economia de criptomoedas ao integrar a infraestrutura ‘onchain’ em instituições paralelas que suplantam as funções centrais do sistema global.”

A primeira “Nação Digital” construída pela organização é uma comunidade de projetos financiados por vaquinha (crowdfunding em inglês) com o objetivo de tornar realidade a sua visão para o futuro — começando por uma cidade nova. A Praxis anunciou recentemente que a primeira vaquinha arrecadou  525 milhões de dólares para construir esta cidade, com a participação das empresas Arch Lending, GEM Digital, Manifold Trading, entre outras, e o apoio de Tom Schmidt (sócio da Dragonfly), Rob Hadick (sócio da Dragonfly), Anirudh Pai (sócio da Dragonfly), Mert (CEO dos Laboratórios Helius), Max Novendstern (cofundador da Worldcoin), Will Price e muitos outros.

A organização justifica a necessidade desta nova cidade por três razões principais:

  1. Liberar possibilidades tecnológicas e científicas através da formação de uma Zona de Aceleração — ou Zona Econômica Especial — com forte densidade de talentos, reduzindo barreiras regulatórias e permitindo inovações disruptivas em inteligência artificial, criptomoedas, biotecnologia, energia e manufatura avançada.
  2. Criar modos de vida mais bonitos e heroicos através do desenvolvimento cultural e institucional.
  3. Demonstrar ao mundo que é possível construir uma grande cidade no século 21.

Essa e outras iniciativas são difundidas como defensoras da liberdade e da inovação, mas, na verdade, parecem promover ditaduras de corporações, nos quais o uso de tecnologias de vigilância, políticas de exclusão e o controle de terras revelam os reais objetivos dos projetos.

A visão de mundo das Big Techs e a hora dos monstros

A visão de mundo que vem sendo elaborada por representantes da elite tecnocrática do Vale do Silício precisa ser mais conhecida por todos, sobretudo por aqueles que se preocupam com o monopólio das Big Techs e seus aliados sobre a mídia, a internet e as redes sociais em quase todos os países do planeta.

Muitas das ideias e projetos resumidamente descritos acima parecem roteiros de filmes de ficção científica. Também podem ser considerados delírios típicos de “barões ladrões” — os antigos robber barons dos EUA do início do século 20 — divorciados das realidades dos povos. Na verdade, porém, eles expressam a análise profunda que esse setor da burguesia monopolista faz da crise do capitalismo financeirizado e das soluções que vislumbra para resolvê-la mantendo sua hegemonia. O desejo de criar um Éden baseado em novas tecnologias e muita testosterona revela que pretendem destruir os Estados e as nações para substituí-los por uma nova estrutura utópica na qual serão dominantes através de uma rede de cidades livres de qualquer lei ou regra atualmente vigente.

Figuras como Peter Thiel, fundador da Palantir, ou Musk demonstram não ter nenhuma solidariedade com bilhões de seres humanos que sofrem com as consequências das revoluções coloridas, guerras e invasões imperialistas organizadas pelo chamado Estado Profundo dos Estados Unidos e seus aliados no Reino Unido e na OTAN. Não é à toa que colaboram com o sionismo do Estado de Israel para desenvolver tecnologias de vigilância e monitoramento, via inteligência artificial, usadas também pela polícia de imigração (ICE) no governo Trump 2.0. A Palantir, por exemplo, tem recebido contratos no valor de bilhões de dólares do governo dos EUA, principalmente do Ministério da Guerra, para desenvolver software e inteligência artificial para analisar dados d os cidadãos coletados por diversos órgãos do governo.

Se, por um lado, estes supostos libertários entendem corretamente que o império dos Estados Unidos está decadente e, portanto, incapaz de manter sua hegemonia por muito mais tempo, por outro ocultam que as Big Techs que sustentam o império dependem das tetas do governo, como diria Delfim Neto, para continuar a crescer, bloquear a concorrência com a China e os BRICS e fortalecer todo tipo de manifestação neofascista, entreguista, racista, homófoba e misógina que prolifera nas redes cada vez menos sociais.

A caracterização desta ideologia como anarquista é também falsa. Embora se proponha como alternativa inevitável aos falidos “Estados-Nações”, o anarquismo de uma rede de cidades livres e autônomas em um “criptomundo” nada mais é do que a substituição dos Estados nacionais por “Nações Digitais” vigiadas, organizadas e dirigidas por uma “tecnoelite” globalizante, que se acha mais inteligente, democrática e progressista, porém sem nenhuma ética ou compromisso com a democracia, com o planeta e, por que não dizer, com a humanidade. Ademais, a ideologia das tais “Nações Digitais” lembra muito o mundo distópico imaginado por Orwell no livro 1984, onde a sociedade era dirigida por uma elite ditatorial que controlava as mentes e os comportamentos dos indivíduos.

Gramsci um dia escreveu no livro Cartas do Cárcere:

“O velho mundo está morrendo e o novo mundo luta por nascer: agora é a hora dos monstros.”

Ele se referia ao declínio da aristocracia e do capitalismo no início do século 20, na Europa, combinado com a falência da democracia liberal, que levou o continente europeu ao confronto entre o fascismo e o socialismo. Durante este período de transição entre o velho e o novo, segundo Gramsci, a instabilidade, a incerteza e forças reacionárias predominam, criando um caldo de cultura para o extremismo, ditaduras e monstros políticos ou movimentos reacionários que ganham força nos tempos de desordem.

Qualquer semelhança entre o que pensam e fazem Trump e seus asseclas como Marco Rubio ou JD Vance, os líderes europeus Starmer, Merz, Macron, Von der Leyen, Rutte, Kallas, entre outros — sem falar na rede de pedofilia liderada por Epstein — além de Thiel e Musk, entre muitos outros, não é nenhuma coincidência. Podemos também incluir nesta lista os papagaios de pirata, amigos dos monstros, do sul do Equador, como Bolsonaro, Milei, Noboa ou Bukele. A aliança de neofascistas com falsos anarquistas libertários faz parte de uma complexa combinação de interesses de classe em desenvolvimento há pelo menos uma década, sustentada pelo capital financeiro e conglomerados de empresas transnacionais de tecnologia informacional que produzem mentiras no atacado para tentar enganar a grande maioria dos povos do Sul e Norte globais.

O novo mundo já nasceu e cresce a passos rápidos, liderado pela China e Rússia, em aliança cada vez mais sólida com países que fazem parte do BRICS Plus, da Organização de Cooperação de Xangai e muitos outros da Ásia e da África Subsaariana. Neste mundo novo, o que está em pauta é a soberania dos “Estados Civilização”, dos “Estados-Nação”; o comércio e o desenvolvimento ganha-ganha; o multilateralismo; a paz; a diversidade de culturas; enfim, o futuro compartilhado por todos e para todos, conforme tem afirmado o presidente da China, Xi Jinping. Neste novo mundo, não haverá espaço para monstros!


Eduardo Siqueira é professor na Universidade de Massachusetts, Boston, EUA e pesquisador do Observatório Internacional da FMG.

[Iustração: A arquitetura tecnológica global torna-se o novo terreno da disputa por hegemonia e reorganização da soberania estatal. Foto: Nabeel Hussain / Unsplash]

Há espaço para a Soberania Digital https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/brasil-na-era-digital.html

Uma crônica de Ruy Castro

Da tela para a vida
Quem inventou 'Ninguém é perfeito', 'Siga o dinheiro' e 'Elementar, meu caro Watson?' Frases boas de filmes são aquelas que entram para o nosso dia-a-dia e não sabemos de onde vieram
Ruy Castro/Folha de S. Paulo    

Todas as reportagens que se fizeram sobre o excepcional ator Robert Duval, morto no domingo (15), citaram sua fala no papel do tenente-coronel Kilgore em "Apocalipse" (1979), de Francis Ford Coppola. De farda, mas sem o dólmã e com um chapéu de ranger da Cavalaria americana, em meio às explosões no Vietnã, ele diz, já com uma ponta de nostalgia da guerra: "Adoro o cheiro de napalm pela manhã".

É uma grande fala, escrita pelo roteirista John Milius. Duval a imortalizou, mas só tem sentido no filme. Você nunca a aplicou na vida real. Frases boas de filmes são aquelas que entram para o nosso dia-a-dia e não se sabe de quem são ou de onde vieram. Como "Ninguém é perfeito", que Joe E. Brown diz para Jack Lemmon em "Quanto Mais Quente Melhor" (1959), de Billy Wilder. Quem a escreveu? I.A.L. Diamond, parceiro de Billy como roteirista em 12 filmes.

E "Quando a lenda supera a realidade, publica-se a lenda", em "O Homem que Matou o Facínora" (1962), de John Ford? De quem é? De James Warner Bellah. E "Amar é não ter de pedir perdão", em "Love Story" (1970), de Arthur Hiller? De Erich Segal. E "Vou fazer uma proposta que [você] não conseguirá recusar", em "O Poderoso Chefão" (1972), também de Coppola? De Mario Puzo. E "Siga o dinheiro", em "Todos os Homens do Presidente" (1976), de Alan J. Pakula? De William Goldman.

"Casablanca" (1942), de Michael Curtiz, deixou duas frases para a história: "Nós sempre teremos Paris", suspira Humphrey Bogart para Ingrid Bergman, e "Prenda os suspeitos de sempre", ordena ao soldado o chefe de polícia Claude Rains. De quem são? De Howard Koch ou dos irmãos Julius e Philip Epstein, dos vários que trabalharam no roteiro.

E "Elementar, meu caro Watson"? Ficou famosa por causa de um filme, "As Aventuras de Sherlock Holmes" (1939), de Alfred Werker, criada pelos roteiristas Edwin Blue e William Drake e dita por Basil Rathbone como Sherlock. Não consta de nenhum dos 66 contos e quatro romances de Arthur Conan Doyle sobre Holmes. Cinema também é cultura.

Ilustração: Heloisa Seixas

"Nosso amado planeta vítima da indiferença" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_9.html