O sadismo digital da Casa Branca diante da morte de iranianos
Trump converte a Operação Epic Fury em espetáculo digital, usando memes e estética de games para desumanizar vítimas e mascarar crimes de guerra no Irã
Davi Molinari/Vermelho
O horror da guerra encontra um novo e perverso aliado: a gamificação da morte. Sob o comando de Donald Trump, a Casa Branca e o Pentágono converteram a tragédia da “Operação Epic Fury” em um espetáculo de escárnio digital. Enquanto 1.230 civis iranianos jazem sob escombros, os perfis oficiais do governo dos EUA inundam as redes sociais com memes, vídeos inspirados em filmes de Hollywood e estéticas de videogames, vendendo o extermínio de seres humanos como se fosse uma partida de Call of Duty.
A barbárie viral: sangue transformado em likes
A estratégia é tão sofisticada quanto cruel. Vídeos de 15 a 60 segundos, que já acumulam dezenas de milhões de visualizações no X, TikTok e Instagram, misturam imagens reais de ataques de drones com computação gráfica. Em um dos conteúdos mais chocantes, o personagem Bob Esponja aparece rindo sobre explosões em instalações iranianas com a legenda debochada: “Querem me ver fazer de novo?!”.
Outros vídeos utilizam o contador de “kills” (mortes) típico de jogos de tiro enquanto um caça F-35 persegue alvos reais. Até mesmo animações da Disney Pixar, como o personagem de Elio, são subvertidas para simular o “toque” em telas que detonam hospitais e escolas. Para o público “MAGA” e os jovens cooptados pela estética da extrema direita, a guerra deixou de ser uma tragédia geopolítica para se tornar entretenimento niilista.
O eco de Goebbels: a pedagogia da desumanização
Não se trata apenas de mau gosto, mas de uma tática sistemática de desumanização que encontra paralelo direto na máquina de propaganda de Joseph Goebbels. Assim como o ministro nazista retratava judeus e inimigos como “vermes” em cartoons para justificar o Holocausto, a atual administração estadunidense transforma meninas iranianas em “pontos no placar”.
Goebbels usava o humor sádico para anestesiar a empatia da população alemã. Hoje, a Casa Branca repete a fórmula: ao tratar hospitais bombardeados como power-ups de um jogo e mortes reais como imagens de arquivo recicladas, o governo Trump busca sufocar qualquer consciência crítica. A vítima é despojada de sua humanidade até se tornar um pixel descartável em uma narrativa presunçosa e dominadora.
Enquanto os memes viralizam nas redes sociais, a realidade no solo iraniano revela uma crueza insuportável, marcada pelo massacre na escola Shajareh Tayyebeh, em Minab, que foi atingida por três mísseis em pleno horário de aula. O episódio, já classificado pela UNESCO como crime de guerra, resultou na morte de mais de uma centena de meninas com idades entre 7 e 12 anos, somando-se a um cenário de colapso hospitalar onde treze unidades foram atingidas e médicos da OMS são forçados a operar em tendas sem suprimentos básicos.
Em meio a essa crise humanitária galopante, prevalece o silêncio dos agressores, com postagens oficiais que celebram a força bruta sem mencionar nomes, rostos ou as histórias das vítimas. Até mesmo as baixas do lado americano, com a confirmação de seis soldados mortos, são tratadas com uma tristeza superficial pelo General Caine, jamais alcançando o protagonismo conferido aos vídeos épicos que exaltam a tecnologia de destruição.
A Injustiça Gamificada
Ao trocar a diplomacia pela promoção da morte usando games de guerra de múltiplos jogadores, Trump mergulha o mundo em uma era onde o extermínio do “outro” é celebrado com um emoji de risada. Por trás de cada explosão “cool” no TikTok, existe o choro inconsolável de famílias em Teerã e o sangue de crianças que nunca verão o amanhã. A propaganda de guerra mudou de formato, mas o cheiro de enxofre permanece o mesmo.
A Guerra EUA x Irã e Clausewitz https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_5.html






