19 março 2026

Minha opinião

Terceira via carece de chão* 
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65    

Três juízos de valor a propósito das eleições de outubro: 

Um - A radicalização de tendências no eleitorado, captada nas pesquisas até agora divulgadas, é fruto da luta no campo das ideias — cada vez mais acirrada sobretudo nas redes digitais —, mas corresponde, sim, a uma base social marcada pelo conflito de extremos: os 10% mais ricos detêm mais de 40% da riqueza do país, enquanto os 50% mais pobres concentram menos de 15%. Não há um reflexo mecânico ou esquemático dessa contradição na medida em que o polo rico - a chamada elite dominante – leva vantagem na "guerra cultural" mediante poderosos instrumentos midiáticos e digitais e conta com influente rede conservadora na base da sociedade, inclusive representada pela expansão de igrejas evangélicas, sobretudo as neopentecostais.

Dois — São variados e complexos os fatores que contribuem para a vantagem inicial de Lula em relação ao oponente da extrema direita. Inclusive na esfera subjetiva, decorrente do complexo jogo de forças cuja face principal se revela na esfera parlamentar — Senado e Câmara dos Deputados —, mas se traduz no cotidiano de cada "aldeia" como fruto de múltiplos fatores — incluindo desvairado clientelismo, que parte da base progressista do governo também pratica. Em outras palavras, para além da polarização social assentada economicamente, a ação política institucional (mandatos parlamentares, governos locais, organizações corporativas diversas, etc.) tanto podem contribuir em favor da reeleição do presidente, como servir de base para o fortalecimento do seu oposto. A luta concreta decidirá.

Três — Nesse contexto, sobra pouco espaço para uma candidatura de centro-direita, apresentada como "terceira via". Prevalece o cabo de guerra, onde o extremo vitorioso terá sido mais eficiente num discurso compreensível e assimilável pela maioria do eleitorado; e mais sagaz e competente na ampliação do arco de forças que o apoiem. Quanto mais ampla a coalizão político-eleitoral que seja capaz de construir, maior chances de vitória.

Ou seja, uma nova vitória de Lula será parida numa disputa radicalizada na qual sejamos capazes de unir do lado de cá amplas e variadas correntes e grupos de interesse e, pelo menos, neutralizar segmentos desgarrados da candidatura da extrema direita mas não dispostos a integrar a frente ampla democrática. 

Sem nenhum laivo de estreiteza politica e sectarismo.

Nessas circunstâncias, uma candidatura presidencial caracterizada como "terceira via", sequer serviria para formar bancadas parlamentares mais robustas.

*Texto da minha coluna semanal no portal 'Vermelho'

Leia também: O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.html 

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