Covid-19 –
Como e por que metade das mortes ocorridas este ano poderia ter sido evitada
No ritmo atual, o
país irá contabilizar 19.746.677 casos (e não os 20.530.439 previstos
anteriormente) e 552.103 mortes (e não 562.838) até 25/7.
Felipe A. P. L. Costa, Jornal GGN
Este artigo
atualiza os valores das taxas de crescimento (casos e mortes) publicados em
artigo anterior (aqui). Entre 5 e 11/7, essas taxas ficaram em 0,2419% (casos) e 0,2453% (mortes). O valor da taxa de novos casos é o mais baixo desde
o início da pandemia. O valor da taxa de mortes é o mais baixo desde a
primeira semana de novembro e é o segundo mais baixo desde o início da
pandemia. No ritmo atual, o país irá contabilizar 19.746.677 casos (e não os 20.530.439 previstos anteriormente) e 552.103 mortes (e não 562.838) até 25/7. Essas retrações já seriam
reflexos da vacinação. No ritmo atual da campanha, 70% da população do país
terá recebido ao menos uma dose até 1/9/2021. E mais: caso o ritmo atual da
vacinação tivesse sido adotado desde 1/2/2021 (quando a campanha alcançou 1% da
população), ao menos 150.214
mortes teriam sido evitadas.
Ontem (11/7), segundo o Ministério da
Saúde, foram registrados em todo o país mais 20.937
casos e 595 mortes. Teríamos
chegado assim a um total de 19.089.940 casos e 533.488
mortes.
Na
comparação com as estatísticas da semana anterior (28/6-4/7), os números de
casos e de mortes continuam a declinar. E de modo expressivo.
Foram registrados 320.132
novos casos – uma queda de 8,3% em relação à semana
anterior (349.310). Foi a 32ª semana com mais de 300 mil novos casos – 27
dessas semanas foram registradas em 2021.
Desgraçadamente,
foram registradas 9.071 mortes –
uma queda de 17% em relação à semana anterior (10.943). Foi a 34ª semana com
mais de 7 mil mortes – 26 dessas semanas foram registradas em 2021.
TAXAS
DE CRESCIMENTO.
Os
percentuais e os números absolutos referidos acima pouco ou nada dizem sobre o ritmo e
o rumo da
pandemia [1].
Para tanto, sigo a usar as taxas de crescimento no
número de casos e de mortes.
Vejamos
os resultados mais recentes.
Em comparação com os valores da semana
anterior (28/6-4/7), as médias da semana passada (5-11/7) tornaram a recuar
(ver a figura que acompanha este artigo).
A
taxa de crescimento no número de casos caiu de 0,27% (28/6-4/7) para 0,24% (5-11/7)
[2].
Este valor é o mais baixo desde o início da
pandemia.
Já
a taxa de crescimento no número de mortes caiu de 0,30% (28/6-4/7) para 0,24% (5-11/7).
Este valor é o mais baixo desde a primeira semana de novembro (ver a figura que
acompanha este artigo) [2, 3]. E é também o
segundo mais baixo desde o início da pandemia.
*
FIGURA. A figura que
acompanha este artigo ilustra o comportamento das médias semanais das taxas de
crescimento no número de casos (pontos
em azul escuro) e no número de óbitos (pontos
em vermelho escuro) em todo o país (valores expressos em porcentagem), entre 28/6/2020
e 11/7/2021. (Valores acima de 2% não são mostrados.) As médias mais baixas das
duas séries (casos e mortes) foram observadas entre 11/10 e 8/11, razão pela
qual o período é referido aqui como o melhor mês. Logo em
seguida, porém, note como as duas nuvens de pontos experimentaram rupturas e
mudaram de rumo. E note como o apagão que houve na divulgação das estatísticas,
na segunda quinzena de dezembro, rebaixou artificialmente as duas trajetórias.
A campanha de vacinação teve início em 17/1. Os percentuais em azul escuro (1%,
5% etc.) indicam a parcela da população brasileira vacinada com ao menos uma
dose, entre 1/2 (0,99%) e 9/7/2021 (40,08%) [4]. A chamada CPI
da Covid foi oficialmente instalada em 27/4.
CODA.
No
ritmo atual, o país irá contabilizar 19.746.677 casos (e
não os 20.530.439 previstos anteriormente) e 552.103 mortes (e
não 562.838) até o último domingo de julho (25/7).
As
sucessivas quedas observadas nas taxas de crescimento (casos e mortes) nas
últimas semanas já seriam reflexos da campanha de vacinação. (O que significa
dizer que a imunização individual – obtida por meio da vacinação – estaria a se
converter enfim em um fenômeno populacional perceptível, a chamada imunidade
coletiva ou i. de rebanho.)
No
ritmo atual da campanha de vacinação [5], 70% da população
terá recebido ao menos uma dose até 1/9/2021. E mais: caso o ritmo atual da
campanha tivesse sido adotado desde 1/2/2021 (quando a campanha alcançou 0,99%
da população), ao menos 150.214 mortes teriam sido evitadas [6].
Em outras palavras, ao menos metade das
mortes contabilizadas até agora em 2021 poderia ter sido evitada.
*
NOTAS.
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quatro volumes. Para mais informações ou para adquirir (por via
postal) os quatro volumes (ou algum volume específico), faça contato pelo
endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros
artigos e livros, ver aqui.
[1] Insisto em dizer que a pandemia
chegará ao fim sem que a maior parte da imprensa brasileira (grande ou pequena;
reacionária ou progressista) se dê conta de que está a monitorar a pandemia de
um jeito, digamos, desfocado – além de burocrático e bastante superficial. Para
capturar e antever a dinâmica de processos populacionais, como é o caso da
disseminação de uma doença contagiosa, devemos recorrer a um parâmetro que
tenha algum poder preditivo. Não é o caso da média móvel. Mas é o caso da taxa
de crescimento – seja do número de casos, seja do número de mortes. Para
detalhes e discussões a respeito do comportamento da pandemia desde março de
2020, em escala mundial e nacional, ver as referências citadas na nota 3.
[2]
Entre 19/10 e 11/7, as médias semanais exibiram os seguintes valores: (1) casos:
0,43% (19-25/10), 0,4% (26/10-1/11), 0,3% (2-8/11), 0,49% (9-15/11), 0,5%
(16-22/11), 0,56% (23-29/11), 0,64% (30-6/12), 0,63% (7-13/12), 0,68%
(14-20/12), 0,48% (21-27/12), 0,47% (28/12-3/1), 0,67% (4-10/1), 0,66%
(11-17/1), 0,59% (18-24/1), 0,57% (25-31/1), 0,49%(1-7/2), 0,46% (8-14/2),
0,48% (15-21/2), 0,53% (22-28/2), 0,62% (1-7/3), 0,59% (8-14/3), 0,63%
(15-21/3), 0,63% (22-28/3), 0,5% (29/3-4/4), 0,54% (5-11/4), 0,48% (12-18/4),
0,4026% (19-25/4), 0,4075% (26/4-2/5), 0,4111% (3-9/5), 0,4114% (10-16/5), 0,4115%
(17-23/5), 0,38% (24-30/5), 0,37% (31/5-6/6), 0,39% (7-13/6), 0,4174%
(14-20/6), 0,39% (21-27/6), 0,27% (28/6-4/7) e 0,2419% (5-11/7);
e (2) mortes:
0,3% (19-25/10), 0,26% (26/10-1/11), 0,21% (2-8/11), 0,3% (9-15/11), 0,29%
(16-22/11), 0,3% (23-29/11), 0,34% (30-6/12), 0,36% (7-13/12), 0,42%
(14-20/12), 0,33% (21-27/12), 0,36% (28/12-3/1), 0,51% (4-10/1), 0,47%
(11-17/1), 0,48% (18-24/1), 0,48% (25-31/1), 0,44%(1-7/2), 0,47% (8-14/2),
0,43% (15-21/2), 0,48% (22-28/2), 0,58% (1-7/3), 0,68% (8-14/3), 0,79%
(15-21/3), 0,86% (22-28/3), 0,86% (29/3-4/4), 0,91% (5-11/4), 0,80% (12-18/4),
0,66% (19-25/4), 0,60% (26/4-2/5), 0,51% (3-9/5), 0,45% (10-16/5), 0,43%
(17-23/5), 0,40% (24-30/5), 0,35% (31/5-6/6), 0,4171% (7-13/6), 0,4175%
(14-20/6), 0,33% (21-27/6), 0,30% (28/6-4/7) e 0,2453% (5-11/7).
Não custa lembrar: Os valores citados acima são médias semanais
de uma taxa diária. Outra coisa: para fins de monitoramento, é importante ficar
de olho nas taxas de crescimento (casos e mortes), não em valores absolutos. Considere
uma taxa de crescimento de 0,5%. Se o total de casos no dia 1 está em 100.000,
no dia 2 estará em 100.500 (= 100.000 x 1,005) e no dia 8 (sete dias depois),
em 103.553 (= 100.000 x 1,0057; um
acréscimo de 3.553 casos em relação ao dia 1); se o total no dia 1 está em
4.000.000, no dia 2 estará em 4.020.000 e no dia 8, em 4.142.118 (acréscimo de
142.118); se o no dia 1 o total está em 10.000.000, no dia 2 estará em
10.050.000 e no dia 8, em 10.355.294 (acréscimo de 355.294). Como se vê, embora
os valores absolutos dos acréscimos referidos acima sejam muito desiguais
(3.553, 142.118 e 355.294), todos equivalem ao mesmo percentual de aumento
(~3,55%) em relação aos respectivos valores iniciais.
[3] Sobre o cálculo das taxas de
crescimento, consulte qualquer um dos três primeiros volumes da coletânea A
pandemia e a lenta agonia de um país desgovernado (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).
[4] Fonte: ‘Coronavirus (COVID-19)
Vaccinations’ (Our World in Data, Oxford, Inglaterra).
[5] Com base nos números do Our
World in Data (ver nota 4), o país teria saltado de 30%
para 40% da população vacinada, entre 21/6 (30,13%) e 9/7 (40,08%). O que está
longe de ser uma proeza. Afinal, a julgar pelo que dizem alguns especialistas
(e.g., aqui) ou
a julgar pelas notícias (e.g., aqui), o
sistema de saúde do país pode ser ainda mais ágil.
, as estatísticas
desta e das próximas semanas devem seguir em trajetórias declinantes.
Como escrevi em artigos anteriores, uma saída rápida para a
crise (minimizando o número de novos casos e, sobretudo, o de mortes)
dependeria de dois fatores: (i) a adoção de medidas
efetivas de proteção e confinamento; e (ii)
uma massiva e acelerada campanha de vacinação.
Como também escrevi anteriormente, os efeitos da vacinação só
seriam percebidos – na melhor das hipóteses – quando mais da metade dos
brasileiros tivesse sido vacinada. (O que só será possível agora no segundo
semestre.) De resto, devemos continuar tomando cuidado com as armadilhas
mentais que cercam a campanha de vacinação. Três das quais
seriam as seguintes: (1) a imunização
individual não é instantânea nem nos livra de continuar adotando as medidas de
proteção social (e.g., distanciamento espacial e uso de máscara); (2)
a imunização coletiva só será alcançada depois que a maioria (> 75%) da
população tiver sido vacinada; e (3) a população
brasileira é grande, de sorte que a campanha irá demorar vários meses (mais de
um ano, talvez).
[6] O que equivaleria a 44,5% das
337.470 mortes ocorridas em 2021. (Outras 196.018 ocorreram em 2020,
totalizando assim as 533.488 mortes referidas no início deste artigo.)
.
Veja:
A CPI continua botando mais caroço para o indigesto angu de
Bolsonaro https://bit.ly/3dkvSvC

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