30 junho 2026

Palavra de poeta

Perda
Geraldino Brasil 

Hoje me acordei tarde.
Perdi o frio
de quem desperta cedo
e pode dormir mais.

Perdi o sol que saiu
da moldura da janela

Perdi o canto do pássaro
da manhã na árvore.

Para sempre o perdi.

[Ilustração: Marcos Guinoza]

Leia também: Meu pardal amigo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2010/12/cronica-em-minha-coluna-semanal-no.html 

Quem defende o quê?

As críticas ao programa Bolsa Família
A tentativa de deslegitimar programas sociais serve como cortina de fumaça para ocultar os reais obstáculos ao crescimento, como a política de juros que asfixia investimentos
Roberto Vital Anav*/A Terra é Redonda    


1.

Recentemente, um animador de programas de TV, com grande audiência – que chegou a cogitar lançar-se à Presidência da República – afirmou, durante o 5º. Fórum Esfera no Guarujá (SP), que o Programa Bolsa Família falha em gerar estímulo para que as famílias superem a pobreza e que os beneficiários criariam “atalhos” para continuar recebendo o benefício.

A declaração repercutiu na mídia e nas redes sociais, reacendendo antiga polêmica. Esta se prolonga desde a criação do Programa há mais de duas décadas. O debate, no início, era normal, em vista da novidade do programa e das visões filosóficas e programáticas diversas existentes sobre o combate à pobreza extrema. Na atualidade, dados abundantes permitem sair do terreno genérico, do aplauso acrítico e do ataque meramente opinativo para a avaliação fundamentada.

Alguém com a responsabilidade de exercer influência sobre milhões de telespectadores, ainda mais tendo cogitado disputar a gestão presidencial, tem obrigatoriamente que dominar as numerosas informações existentes para avaliar um programa já consolidado há tempo.

No entanto, a fala de Luciano Huck não demonstrou qualquer conhecimento de fartos dados disponíveis. O que se ouviu foram apenas opiniões baseadas em preconceitos arraigados em amplos segmentos da elite social brasileira contra os mais pobres – infelizmente, repetidos por parcela expressiva da classe média que gosta de espelhar-se na tosca burguesia brasileira.

Teria sido muito fácil ao apresentador, até valendo-se de seus numerosos auxiliares, coletar dados e informações disponíveis a qualquer cidadão com interesse em informar-se sobre as políticas públicas existentes no Brasil. Um exemplo recente é o estudo “Filhos do Bolsa Família”, realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), órgão acadêmico e de pesquisas de grande prestígio e respeitabilidade, para o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.

Em breve síntese, o estudo demonstrou que mais de 60% dos beneficiários de 2014 deixaram o programa até 2025. A razão foi a conquista de melhores fontes de renda e, portanto, o abandono da condição precária que habilita ao programa. A saída foi mais elevada para os que eram adolescentes em 2014: 68,8% na faixa de 11–14 anos e 71,3% na faixa de 15–17 anos. Também se constatou a saída expressiva do Cadastro Único e aumento da inserção no mercado formal, o que indica maior autonomia e mobilidade socioeconômica por parte desses beneficiários.

Por outro lado, fatores geoeconômicos (regiões com atividades econômicas mais e menos dinâmicas), nível escolar da família, etnia, gênero, condições de moradia, continuam a diferenciar os resultados, tornando o programa ainda essencial para aqueles mais prejudicados pelos atributos citados. Ou seja, a um só tempo, observa-se o efeito positivo e os desafios que ainda devem ser enfrentados para atingirmos melhores resultados.

O que não se observa no estudo é justamente a estagnação generalizada na pobreza, atribuída por Luciano Huck e muitos dos críticos do programa. 

2.

Nota-se, em muitas críticas, o inconformismo com o fato de muitos beneficiários recusarem trabalhos que pagam salários irrisórios, uma vez que já recebem baixos valores pelo programa e não teriam vantagem financeira significativa na troca. O que essas críticas indicam é um mecanismo auto revelador sobre seus autores: a sombra persistente do escravagismo, do qual fomos um dos últimos países a sair. Segundo esses críticos, os cidadãos muito pobres deveriam expressar gratidão a quem lhes oferecesse o equivalente a um prato de comida em troca de trabalho exaustivo.

Não cogitam, os inconformados críticos, de testar se ofertas mais compensadoras de remuneração e jornada não gerariam outra atitude. O resultado apurado pelo estudo da FGV permite afirmar que sim, ao menos em grande parte dos casos. O programa torna as pessoas um pouco (muito pouco, na verdade), mais seletivas, recusando salários de fome. Mas isso, para pessoas presas à mentalidade de que os pobres só merecem esmola ou trabalho semiescravo, seria um privilégio inaceitável.

Ocorre também um efeito completamente desconsiderado pelos mesmos críticos, embora simples de entender. O PBF ativa o consumo das famílias beneficiárias. O consumo amplia a demanda e com ela, a produção e o emprego. Em certas regiões do país, economias de microrregiões e até mesorregiões são fortemente influenciadas pelos beneficiários do programa. Porém, mesmo em localidades mais distantes o efeito acaba chegando sobre a produção de bens populares (agrícolas e industriais), além do comércio.

Um dado mais atualizado permite agregar percepções adicionais sobre o efeito benéfico do PBF. O Brasil atingiu, pela primeira vez na sua história, o nível muito alto de desenvolvimento humano, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Ultrapassamos, finalmente, o limite de 0,8 para o Índice de Desenvolvimento Humano, patamar que caracteriza os países desse nível mais elevado. E o PBF tem forte influência nessa conquista.

A economista Betina Barbosa, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do escritório do PNUD no Brasil, que participou da elaboração da pesquisa, afirmou: “Quando a gente desagrega os dados por décimo de renda, ou seja, os 10% mais pobres, depois os 20% mais pobres, [onde há maior] importância desses programas: nesses décimos de renda é onde você vê a melhoria dos indicadores de educação, nesse período”. “É o programa Bolsa Família que retira uma quantidade enorme de crianças do mundo do trabalho e dá a elas a condição da escola –e a obrigatoriedade, também, de estar na escola, porque senão esse programa é interrompido”. (UOL, 26/5/26) 

3.

Registre-se que aqui também, nos dados do IDH, verifica-se tanto o efeito benéfico do PBF e de outras políticas públicas – em especial, o SUS -, quanto os desafios que permanecem, para atingirmos efetivamente patamares mais desenvolvidos.

O IDH possui três componentes: longevidade – resultado direto das condições de saúde da população –, educação e renda. O primeiro é o mais elevado dos três; sofreu forte queda na pandemia, mas voltou a se recuperar. Com todas as dificuldades do SUS, alvo de persistente desfinanciamento, com maior intensidade nos mandatos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, é notável como evoluiu a expectativa de vida dos brasileiros ao longo deste período de existência de um dos maiores programas públicos de saúde do mundo.

Nos últimos anos, a educação teve papel de maior liderança no crescimento do IDH. Enquanto isso, a renda tem sido o fator de inércia: não cresceu no período pós-impeachment e voltou a crescer, porém lentamente, desde a saída da pandemia.

Este último fator (renda) possui raízes mais profundas nos desafios que o Brasil luta para enfrentar, ainda com resultados insuficientes. A desindustrialização e a concentração em atividades de baixo valor agregado – apesar do acervo de pesquisadores científicos e centros de pesquisas, universidades etc. –, evidencia que a perda de diversidade e complexidade econômica tem pesado muito na estagnação ou evolução muito lenta da renda. Em todo caso, trata-se de questões desvinculadas do suposto “problema” de programas sociais como o Bolsa Família.

Talvez, uma reflexão menos preconceituosa e mais disposta a encarar e sugerir respostas aos verdadeiros desafios existentes pudesse trazer mais luz ao debate. Problemas reais, como a baixa renda decorrente de uma economia reprimarizada, um sistema de saúde subfinanciado (embora parcialmente recuperado a partir de 2023) e a incontestável necessidade de elevar em muitos graus a qualidade do ensino público básico, além de alcançar a universalização do ensino médio, devem ser amplamente debatidos.

Eles envolvem todo um conjunto de temas, a começar pela política monetária que asfixia o investimento público (motor do crescimento econômico brasileiro ao longo do século XX) e o próprio orçamento público, afetando as políticas sociais. O que requer refutar cabalmente o falso (para nossa situação) argumento de que o combate à inflação requer taxas astronômicas de juros. Ao contrário, elas deprimem a demanda e desestimulam a produção e o investimento, além de sobrecarregar a dívida pública.

Dessa forma, gera-se perverso círculo vicioso argumentativo: exige-se cortar os gastos sociais para baixar a dívida, mantendo intacto o dreno dos impostos pagos pela sociedade para beneficiar a oligarquia financeira parasitária, com lucros do financiamento da mesma dívida, sem contribuir em um centavo para a produção de bens e serviços. E aí, a crítica sem fundamento a um dos maiores programas assistenciais do mundo serve de instrumento auxiliar dessa estratégia regressiva e antipopular.

Infelizmente, não parece nada realista esperar postura não preconceituosa e aberta aos problemas reais, por parte do ex-quase candidato a Presidente do Brasil e aos (infelizmente, muitos) que opinam infundadamente sobre tema tão relevante ao país.

*Roberto Vital Anav, economista, é pós-doutorado em história econômica pela Universidade de São Paulo (USP).

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

O selo do PCdoB na frente pró-Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/o-pcdob-e-lula.html 

Humor de resistência

 

Aroeira

Leia também: A Copa do Mundo é deles https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/copa-respingada-de-lama.html 

Editorial do 'Vermelho'

PCdoB propõe nova arrancada para o desenvolvimento
Propostas do PCdoB à campanha de Lula apontam que é hora de projetar o futuro de desenvolvimento soberano, democracia forte, valorização do trabalho e vida digna ao povo
Editorial/Vermelho   

Um conjunto de propostas intitulado Contribuição ao programa de campanha Lula presidente 2026 – rumos soberanos para uma nova arrancada do desenvolvimento resume o pensamento do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) para um eventual próximo governo progressista, prática que remonta às eleições de 1989 quando a esquerda se uniu na Frente Brasil Popular (PT, PSB e PCdoB), na primeira eleição presidencial depois da ditadura militar. Desde então, em todas as campanhas de Lula os comunistas apresentaram as suas propostas.

O documento atual indica que o êxito do atual governo é uma base sólida para o Brasil avançar. Diagnostica que o propósito de reconstrução nacional foi exitoso, tarefa proposta diante do cenário de terra arrasada deixado pelos governos da direita e extrema-direita, liderados por Michel Temer e Jair Bolsonaro.

O país estava “profundamente fragilizado por uma fase regressiva”, afirma. “Nesse período, o Estado nacional sofreu um desmonte sem precedentes”, diz o texto, citando os exemplos da emenda do teto de gastos, a “autonomia” do Banco Central, a reforma trabalhista, o enfraquecimento do BNDES e da Petrobras, e a tentativa golpista de 8 de janeiro de 2023. Destaca também que o modelo de crescimento econômico atual é insuficiente e aproxima de seus limites. “Os incrementos econômicos e sociais seguem condicionados pelo regime macroeconômico vigente”, afirma. Frisa também que o regime fiscal garroteia o Estado e sufoca investimentos e políticas públicas.

De fato, o crescimento médio anual do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro entre 2002 e 2026 gira em torno de 2,1% a 2,2%, taxas consideradas muito aquém das necessidades e potencialidades do país. Um dos obstáculos que trava o enorme potencial de desenvolvimento do país é a elevada taxa básica de juros, a Selic, uma bola de chumbo atada ao tornozelo da produção imposta pela “ortodoxia” neoliberal do Banco Central “independente”, que gera exclusão social e baixa taxa de investimentos, medida pela Formação Bruta de Capital Fixo em relação ao PIB, desde 2014 estagnada entre 15% e 17%, depois de uma fase de alta, impulsionada pela expansão do crédito e grandes obras de infraestrutura. Daí que o documento aponta um conjunto de diretrizes para elevar a taxa de investimentos para dinamizar o crescimento.

O Brasil precisa de uma taxa de crescimento contínua, sustentável, condizente com o seu potencial, para prosseguir com a redução da pobreza. “O princípio orientador consiste em articular os objetivos de produtividade e competitividade com a melhoria efetiva das condições de vida da população”, afirma o documento. Inclusive com a ampliação de conquistas para os trabalhadores, como a atualização da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para abarcar amplas modalidades de trabalho.

O PCdoB propõe que, para abrir esse ciclo, é preciso superar obstáculos e vulnerabilidades, sobretudo o regime macroeconômico, formado pelo tripé que estabelece a arbitrária meta de inflação, atualmente em 3% ao ano, usada como pretexto para a imposição de juros elevados pelo Banco Central; câmbio flutuante, que gera incerteza para o comércio exterior e pressão inflacionária em caso de desvalorização da moeda nacional por ataques especulativos; e superávit primário, uma brutal transferência de recursos públicos destinados a gastos financeiros. O documento sublinha que a política de juros altos resulta em transferir “cerca de um trilhão de reais ao ano em recursos públicos para uma parcela reduzida da sociedade e para especuladores estrangeiros, ampliando a concentração de renda e poder.”

O rol de medidas proposto pelo documento para adequar o regime de política monetária para que a taxa básica de juros seja reduzida substancialmente inclui a ampliação do intervalo e prazo de cumprimento das metas de inflação e exclusão dos componentes mais voláteis do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O fomento ao pleno emprego e a volta da soberania do voto popular sobre a condução do Banco Central, que deve ser reintegrado à estrutura do Estado nacional, também precisam ser prioritários, afirma.

Outro ponto de destaque é a segurança pública, “que acomete, sobretudo, as classes populares”. “O rumo é fortalecer a Política Nacional de Segurança Pública assentada na constitucionalização e gestão eficaz de um Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), com revisão e regulamentação dos deveres e competências dos entes federativos e dotação orçamentária para um Ministério próprio da área.”

Segundo o documento, o debate sobre reformas estruturais democráticas do Estado nacional é uma exigência que deve avançar no âmbito do governo e da sociedade. “Realizada a reconstrução institucional democrática e a recuperado do desmonte de políticas públicas econômicas e sociais, o próximo governo cria terreno para reunir forças e desencadear uma nova fase de crescimento econômico para levar a nação a um novo patamar civilizatório”, afirma.

O documento do PCdoB indica três vértices: um plano nacional de desenvolvimento que estabeleça, entre outras medidas, metas de crescimento econômico, mecanismos de financiamento e aperfeiçoamentos regulatórios; uma política sistêmica de reconfiguração produtiva e tecnológica; e a reindustrialização do país com a Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), “o principal fator de transformação produtiva nas economias contemporâneas”, além de ser indispensável à soberania nacional.

Esses pressupostos, de acordo com texto, têm como núcleo “o papel estratégico do Estado nacional como agente de investimento, indução, planejamento e coordenação do desenvolvimento econômico, articulado com o aprofundamento democrático e a valorização do trabalho como motores do progresso”.

Ressalta também “o contexto geopolítico de transição para uma ordem internacional multipolar”. “Nesse cenário, os interesses estratégicos do Brasil tornam-se objeto de disputas crescentes, em razão de sua relevância regional, de seu protagonismo nos BRICS + e de sua inserção ativa nas articulações do Sul Global.”

Alerta que, em “resposta ao seu declínio relativo, o imperialismo estadunidense amplia sua pressão sobre a América Latina e outras regiões, buscando preservar sua posição dominante.” Ofensiva que ficou evidente na ingerência incisiva nas eleições presidenciais da Colômbia e também em outros países, como no Peru. E que já está um curso nas eleições do Brasil e tende a escalar

Todavia, o PCdoB interpreta que foram abertas oportunidades “pela emergência de novas coalizões no Sul Global, capazes de ampliar as alternativas de inserção internacional do Brasil e contribuir para a superação de sua situação semiperiférica nas cadeias globais de valor.”

Dessa leitura, indica-se que “o Brasil precisa consolidar um projeto soberano que lhe permita alcançar o status de pleno desenvolvimento, afirmar seus interesses nacionais, reduzir vulnerabilidades, retomar o fortalecimento da integração regional sul-americana. Enfim, fortalecer sua autonomia estratégica e o forte papel dissuasório necessário às Forças Armadas.”

Cláusula fundamental do plano nacional de desenvolvimento é elevar a qualidade vida do povo, nas dimensões material, cultural e espiritual, e acelerar a redução da desigualdade social. Esse objetivo se relaciona dialeticamente com o desenvolvimento. “Sem um novo e superior ciclo de crescimento econômico persistente não se projeta essa renovação de expectativas nem a ampliação dos direitos conquistados.”

“Soberania nacional e democracia robusta” formam um alicerce “para manter e ampliar as conquistas sociais do povo brasileiro, melhorar a vida das pessoas e conferir um horizonte de futuro mais próspero e definido”

Ao final do texto, o PCdoB destaca que o “momento histórico é de abrir um novo ciclo histórico de desenvolvimento nacional”. “Nosso Programa para um novo governo precisa conter essa possibilidade, construir uma vontade nacional e social nessa direção. Com um novo governo Lula, essa possibilidade está posta.”

Daí que o Partido, desde o seu 16º Congresso, realizado no final do ano passado, destaca a dimensão tático-estratégica da reeleição do presidente, uma vitória decisiva ao presente e futuro imediato do país, com forte impacto na América Latina e Caribe.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

O selo do PCdoB na frente pró-Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/o-pcdob-e-lula.html 

Postei nas redes

Vencemos o Japão e passamos adiante. Ótimo! Mas a seleção ainda está longe de se igualar às da França, Argentina, Espanha e Inglaterra. 

Como o povo brasileiro transformou o futebol em símbolo nacional https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/nosso-futebol-ja-foi-o-melhor.html 

Uma crônica de Abraham Sicsu

Turista também sofre
Abraham Sicsu    

Deslumbramento. O encontro com a natureza alucina, o verde das matas, as flores nativas, a fauna diversa, tudo belo, tudo para nos fazer entender que somos parte de um universo plural, multifacetado e harmonioso. Apenas parte que tem que respeitar o todo. Não sejamos auto centrados.

Os peixes, robalos, tainhas e serras, os camarões abertos na brasa, a paçoca de carne de sol, o vatapá sem dendê, o baião de dois, o degustar de pratos nativos com sabor mais que especial.

Dunas brancas em profusão, altíssimas ou baixas, areia fina que se move ao sabor do vento; lagunas, milhares, umas com águas límpidas e claras, outras verdes ou mesmo amarronzadas; rios e mares, paisagens indescritíveis. Os Lençóis Maranhenses se fazem presentes.

Contudo, sempre há um porém, turismo sempre traz fatos que podem incomodar. Nada que tire o mágico da viagem, o ecoturismo mais marcante que já fiz, narro apenas como divertimento, fatos exóticos registrados nesta viagem.

Duas horas de avião, quatro de carro. Uma viagem um pouco cansativa. A empolgação com o que viria faz passar celeremente. Saída de São Luís. Uns vinte quilômetros desastrosos. Com crateras “lunares” inimagináveis. Somente um piloto com grande experiência consegue enfrentá-las. Incompreensível que a saída da capital do Estado, com o fluxo maior e mais importante do turismo maranhense, esteja em situação tão deplorável.

Chegamos ao anoitecer. A fome bate. Indicam um restaurante na beira do rio, vista maravilhosa, comida boa. O problema, um teclado e um pretenso cantor. Desafinado, com falta de ritmo. Para disfarçar sua falta de aptidão, o som altíssimo e os berros estridentes. E ainda se cobra couvert dito artístico.

Uma pousada muito simpática. Bem cuidada, com artesanato local e vista bela. Os anfitriões educados e carinhosos. Nove da noite. Perto tem um arraial da prefeitura. Começam os espetáculos. Parece que o som está sendo gerado dentro dos quartos. Mesmo eu que sou um pouco surdo, escuto com nitidez. Vai até as três horas da manhã.

Um motorista-guia nos leva ao passeio. No primeiro dia. Simpático, mas com gosto um pouco estranho. Adora sertanejo brega. Durante todo o caminho, mais de duas horas, ida e volta, coloca essas “pérolas” musicais. Fico incomodado, mas, como ninguém reclama, quem sou eu para me rebelar.

O guia tem muitas certezas. Passamos numa “fazenda eólica”. Cerca de 180 aero geradores. Enorme. Afirma com convicção que a energia gerada, nem entra no Maranhão, vai toda para o exterior. Tento explicar que é colocada na rede elétrica. Verdade, o transformar de bauxita em alumínio consome muita energia que é exportada no produto final. Mas, ele insiste, não, ela é exportada assim que gerada. Só não sei como?

Os jornais publicaram. Atins é a sétima praia mais bela do mundo. Ansiosos, esperamos chegar lá. Uma praia enorme, sem vegetação, um mar nada diferente. Acho que disputou com São Paulo, Praia Grande ou Cidade Ocean, deve ter ganho na foto de chegada, por uma cabeça.

Voltando de um passeio resolvemos tomar banho em uma laguna. Deixamos as coisas no carro e vamos. Ao voltar, cadê o carro. Procuramos e nada de encontrar. Dez minutos de muita angústia. Até que outro motorista nos avisa que um carro tinha atolado, logo à frente, e o nosso motorista, numa atitude de solidariedade, tinha ido lá para ajudar na remoção. Muito justo, pena não nos ter avisado.

Um passeio lindíssimo é o do Rio Preguiça. As paisagens são inesquecíveis. Faz-se uma parada em Vassouras, para um banho de laguna e ver os macaquinhos da floresta. É a região deles. Pense numa muvuca. Uma multidão maior que a torcida do flamengo em dia de decisão de título. Mas, esse não é o único problema. Os bichinhos se aproximam vorazmente.

Querem comida e realmente atacam. Uma senhora obesa com uma bolsa e seu celular em punho se aproxima. Dois símios sobem em suas costas. Para salvar a bolsa quase cai e o celular deve ter ficado imprestável

Dois turistas japoneses, meio abestalhados, resolvem abrir um pacote de biscoito perto dos animais. Atacados, deixam cair no chão. O engraçado foi ver o líder dos macacos recolhendo o alimento para alimentação futura. São precavidos.

Por do sol na Lagoa Bonita. Maravilhoso. Quando se aproxima a hora, uma multidão vai se acomodando na duna mais alta para ver o espetáculo da natureza. Nosso guia nos orienta.

Todos estamos molhado do banho nas águas cristalinas das lagunas próximas. Acontece que um casal de idosos espanhóis, resolve não se sentar e se posiciona bem em frente à nós. Acho que não queriam melar seus flácidos bumbuns, nada atraentes. Os que me acompanham, para não arrumar confusão, mudam de lugar. Não aquentei e protestei. O homem saiu. A mulher ficou com cara de sonsa.

Como já disse nada disso tirou o brilho de uma região encantadora, mágica, do constatar a diversidade e harmonia da natureza. Se puderem, não percam. Pequenos fatos que permitem contar histórias pitorescas.  Vale a pena enfrentar qualquer descompasso. As imagens que ficarão na mente serão outras.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Leia também: "Palavras muito mais do que palavras" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/pensar-e-dizer.html 

Sylvio: voto feminino

Ao afirmar que "mulher vota mal", o neto do ditador João Figueiredo e representante da extrema direita Paulo Figueiredo desnuda seu pensamento tosco e sua mentalidade tacanha. Quem vota mal é quem vota em candidato da extrema direita, sempre contra os interesses nacionais. 

Sylvio Belém  

Melhora socioeconômica reduz população nas classes D e E https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/boa-noticia.html 

Minha opinião

Nem uma coisa, nem outra 
Luciano Siqueira 

Você está enriquecendo ou apenas vendendo seu tempo — pergunta colunista do caderno de economia da Folha de S. Paulo.

Há uma diferença importante entre ganhar bem, ou melhorar a renda, e construir riqueza — segue argumentando. 

O alvo do dito cujo são executivos e detentores de cargos altamente especializados de grandes empresas. A sugestão de que invistam o que ganham para formar patrimônio. 

A leitura apenas me diverte. Eu mesmo nunca quis enriquecer, nem jamais prostituí meu tempo. 

Condições materiais básicas de subsistência me bastam. 

E ao tempo — como ensina Caetano Veloso — peço o prazer legítimo e o movimento preciso.

Imagino o desgaste desses executivos consumidos pela concorrência — entre empresas do mesmo ramo e entre eles mesmos na busca de ascensão. Para quê?

Igualmente a angústia dos que dizem não terem tempo para nada porque altamente remunerados em sua jornada de trabalho consumida pela competição e por angústias várias. 

Daí o privilégio de ser pobre e dedicar o principal do meu tempo à militância no PCdoB movida por ideais libertários. 

Dinheiro? Basta o essencial para um cotidiano sem privações e, se possível, com algum conforto. 

Tempo? O desafio é seguir uma agenda racional e eficiente cuja essência está em combinar os deveres da militância com a vida familiar. 

Simples assim. 

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Leia também: Há vida a milhões de anos luz? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/09/vida-milhoes-de-anos-luz.html 

Humor de resistência

 

Avila

Como a China contornou o tarifaço https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/china-x-estados-unidos.html 

Palavra de poeta

FINALMENTE
Paulo Sérgio Rosseto    

Dá-me um gole da tua dor
Para que a tornemos discreta
E se possível mais amena
Como se um menor torpor
Daquilo que a alimenta
A ambos significasse

É assim que o amor se completa

Estúpido é quem acredita
Que solidão plena letra por letra 
Serve apenas a insanos
E se cura aos pedaços

Como se não bastasse
Vivemos daquilo que sentimos
E de tal forma nos complementamos
Que mesmo que um de nós
Vá ali fora morrer
Depois finalmente conversamos

[Ilustração: Alexej von Jawlensky]

Planos a longo prazo, sim https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_4.html 

Copa do Mundo pró-imperialista

Gianni Infantino e Donald Trump
O “FIFA Peace Prize” concedido a Donald Trump tornou-se o símbolo das contradições da Copa de 2026: entre guerras, fronteiras e apostas, a FIFA aproximou o futebol das disputas da geopolítica contemporânea
Marco Bettine*/A Terra é Redonda   

 

A promessa do United

Quando a FIFA anunciou que a Copa do Mundo de 2026 seria realizada conjuntamente por Estados Unidos, Canadá e México, apresentou a candidatura sob um nome carregado de significado político: United 2026. A escolha ultrapassava uma estratégia de marketing esportivo. Ela condensava um imaginário cosmopolita fundado na integração regional, na livre circulação de pessoas e na cooperação entre Estados.

Ao adotar posteriormente o lema United As One, a FIFA projetava a imagem de uma América do Norte capaz de relativizar fronteiras nacionais em favor de um espaço compartilhado de convivência e intercâmbio. O futebol deixava de representar apenas uma competição esportiva para tornar-se a linguagem simbólica de uma determinada visão da globalização.

Zygmunt Bauman sinalizava que a ideia de circulação global é profundamente desigual, a Copa de 2026 tornou visível essa assimetria: enquanto capitais, plataformas digitais e mercados atravessam fronteiras com facilidade crescente, pessoas continuam submetidas a filtros políticos, econômicos e geopolíticos.

A força simbólica dessa candidatura residia justamente na capacidade de converter uma decisão organizacional em uma narrativa política. A Copa era apresentada não apenas como um torneio disputado em três países, mas como um projeto de integração continental que atribuía ao futebol um papel de mediação entre sociedades, culturas e fronteiras. A promessa do United não consistia apenas em realizar a maior Copa da história, mas em oferecer uma representação otimista da globalização em um momento de crescente fragmentação da ordem internacional.

Enquanto o presidente da FIFA Gianni Infantino projetava uma imagem de integração continental, os Estados Unidos, sob o trumpismo, levantava a bandeira do programa America First; do fortalecimento das fronteiras e da restrição aos fluxos migratórios.

United também respondia a uma necessidade interna da própria FIFA. A entidade atravessava uma das maiores crises de sua história desde que, em 2015, investigações internacionais revelaram um amplo esquema de corrupção envolvendo dirigentes, contratos comerciais e o processo de escolha das sedes da Copa do Mundo. O escândalo não abalou apenas a imagem de seus dirigentes; colocou em questão a legitimidade da organização responsável por governar o futebol mundial. Em termos weberianos, tratava-se de uma crise da autoridade institucional. Estava em jogo a erosão do capital simbólico que permitia à FIFA apresentar-se como única representante do futebol oficial.

Foi nesse contexto que, em junho de 2018, durante o 68º. Congresso da FIFA, em Moscou, a candidatura United 2026 derrotou Marrocos. A decisão possuía um significado que ultrapassava a definição do país anfitrião. Ao optar por uma candidatura conjunta, baseada na cooperação entre três Estados soberanos, a FIFA procurava demonstrar que também ela era capaz de inaugurar um novo ciclo de legitimidade, transparência e abertura internacional.

A escolha do United deve ser compreendida, portanto, como parte da estratégia de reconstrução da própria autoridade da FIFA. A candidatura não simbolizava apenas uma forma inovadora de organizar a Copa do Mundo; ela permitia à entidade associar sua renovação institucional a uma narrativa de integração regional, cooperação política e abertura cosmopolita. 

A convergência entre futebol e poder

A relação entre Gianni Infantino e Donald Trump tornou-se um dos aspectos mais marcantes da Copa do Mundo de 2026. Longe de representar apenas uma aproximação pessoal entre o presidente da FIFA e o presidente dos Estados Unidos, essa relação revela uma convergência de interesses entre a principal organização do futebol mundial e o poder político da maior potência econômica do planeta.

O primeiro passo dessa aproximação ocorreu após a escolha da candidatura conjunta de Estados Unidos, Canadá e México para sediar a Copa de 2026. A partir desse momento, Gianni Infantino passou a tratar a Casa Branca como parceira estratégica da organização do torneio. Segundo a New York Magazine, um dos encontros decisivos entre Gianni Infantino e Donald Trump ocorreu no Salão Oval e foi articulado por Jared Kushner, genro do presidente norte-americano, e por Carlos Cordeiro, então presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos. A partir daí a relação deixou de ser protocolar para assumir um caráter permanente.

Com o retorno de Donald Trump à presidência, essa proximidade tornou-se ainda mais explícita. Gianni Infantino passou a defender publicamente que a realização de uma Copa do Mundo em território norte-americano exigia cooperação direta com a Casa Branca. Em entrevista ao The Guardian, afirmou manter “uma ótima relação” com Donald Trump e declarou que, sem o apoio do governo norte-americano, seria praticamente impossível organizar um evento da dimensão da Copa do Mundo.

Ao longo de 2025 e 2026, a relação ganhou forte dimensão simbólica. Gianni Infantino participou da cerimônia de posse de Donald Trump, reuniu-se diversas vezes com o presidente na Flórida e na Casa Branca, apresentou-lhe os principais troféus da FIFA e, durante um desses encontros, declarou: “Faremos isso juntos, senhor presidente”, em referência à organização dos grandes torneios da entidade em solo norte-americano.

O gesto mais emblemático dessa aproximação ocorreu durante o sorteio final da Copa de 2026, quando Donald Trump recebeu de Gianni Infantino o primeiro FIFA Peace Prize, uma homenagem que provocou intenso debate internacional diante das controvérsias envolvendo a política bélica e migratória do governo norte-americano.

Essa aproximação expressa uma convergência de interesses mais ampla. A FIFA necessitava do apoio do Estado norte-americano para garantir segurança, infraestrutura, logística, concessão de vistos e estabilidade institucional para o evento esportivo. Donald Trump, por sua vez, identificou na Copa uma oportunidade singular de ampliar sua projeção internacional e converter o enorme capital simbólico do futebol em capital político.

Nesse sentido, a Copa de 2026 deixou de ser apenas um megaevento esportivo para tornar-se também um espaço de negociação entre esporte, Estado e poder, evidenciando como o futebol contemporâneo passou a integrar, de forma cada vez mais explícita, as estratégias de projeção geopolítica dos governos e das organizações esportivas globais. 

Da promessa cosmopolita ao endurecimento das fronteiras

A narrativa construída em torno do United 2026 começou a desfazer-se poucos anos após a escolha da sede. A candidatura que simbolizava integração regional, circulação e cooperação passou a conviver com um cenário internacional marcado pelo fortalecimento do nacionalismo, pelo endurecimento das políticas migratórias e pela crescente centralidade da segurança nacional. Em lugar da abertura prometida pela FIFA, a preparação da Copa passou a ser condicionada por disputas geopolíticas que extrapolavam o universo do esporte.

O retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos acelerou esse processo. Sua administração retomou políticas de nacionalismo econômico, ampliou tarifas comerciais, revisou acordos com Canadá e México, fortaleceu as operações do Immigration and Customs Enforcement (ICE) e endureceu as restrições de entrada para cidadãos de dezenas de países. Em junho de 2026, ao afirmar que os Estados Unidos não dependeriam economicamente de seus dois vizinhos, Trump reafirmava uma concepção de soberania incompatível com a ideia de integração continental celebrada pela candidatura United.

Nesse contexto, também se transformou a relação entre a FIFA e a Casa Branca. Sob a presidência de Gianni Infantino, a entidade abandonou a distância institucional que historicamente procurava manter em relação aos governos nacionais e passou a construir uma afinidade eletiva com o presidente norte-americano. O FIFA Peace Prize – Football Unites the World é somente uma demonstração da subjugação da FIFA aos desejos do presidente insano. A homenagem provocou críticas internacionais tanto pela ausência de critérios transparentes quanto pelo contraste entre a retórica da paz e a política bélica dos Estados Unidos, marcada pela escalada das tensões com o Irã e pelo endurecimento das políticas migratórias.

As consequências desse novo contexto rapidamente passaram a afetar a própria organização do torneio. Segundo a Amnesty International, mais de 500 mil pessoas foram deportadas em 2025, enquanto as prisões realizadas diretamente nas ruas aumentaram onze vezes, o número de crianças mantidas em centros de detenção do ICE multiplicou-se por seis e a capacidade do sistema de detenção aproximou-se de 90 mil pessoas. Ao mesmo tempo, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos solicitou investigações independentes após o registro de dezenas de mortes sob custódia migratória, enquanto relatórios da Human Rights Watch e da Physicians for Human Rights denunciaram violência física, confinamento prolongado e graves deficiências no atendimento médico aos detidos.

Os efeitos dessa reconfiguração tornaram-se imediatamente perceptíveis. Na véspera da abertura da Copa, ao ser questionado sobre as dificuldades para obtenção de vistos, Donald Trump afirmou que sua administração trabalhava para garantir a entrada das “pessoas certas” (the right people) nos Estados Unidos. A declaração rompeu simbolicamente com um dos pressupostos históricos da Copa do Mundo: a ideia de que o torneio constitui um espaço excepcional de circulação internacional.

A percepção de que a Copa havia se tornado parte desse cenário extrapolou rapidamente os meios acadêmicos e passou a ocupar o centro da cobertura da grande imprensa internacional. Na reportagem “How the World Cup Became a Front Line for the U.S. Immigration Debate” (“Como a Copa do Mundo se tornou a linha de frente do debate migratório nos Estados Unidos”), o The Washington Post mostrou que comunidades migrantes passaram a temer operações do ICE nas cidades-sede e organizaram redes de assistência jurídica para torcedores estrangeiros.

O jornal The Guardian foi ainda mais contundente ao publicar o artigo “Welcome to Trump’s World Cup, a depressingly angry version of football uniting the planet” (“Bem-vindos à Copa de Trump, uma versão deprimente e raivosa do futebol que une o planeta”). O próprio título sintetiza a inversão simbólica do torneio: o evento que a FIFA apresentou como um projeto de integração continental passou a ser interpretado como um dos principais palcos de projeção política do trumpismo.

Dias depois, o mesmo The Guardian voltou ao tema na reportagem “We Want Fans to Know the Risks: US Immigrant Rights Groups Mobilize Across World Cup Host Cities Amid ICE Fears” (“Queremos que os torcedores conheçam os riscos: grupos de defesa dos direitos dos imigrantes se mobilizam nas cidades-sede da Copa diante do temor de ações do ICE”), revelando que organizações comunitárias estruturavam redes de acolhimento e resposta rápida para visitantes sujeitos a detenções e abordagens migratórias.

Paralelamente, mais de 120 organizações da sociedade civil divulgaram um inédito Travel Advisory (“Alerta de Viagem”), advertindo turistas e torcedores sobre riscos de perfilamento racial, inspeções de aparelhos eletrônicos, detenções arbitrárias e deportações. O contraste dificilmente poderia ser maior: enquanto a FIFA promovia a Copa como uma celebração da livre circulação e do encontro entre povos, parte significativa da imprensa internacional descrevia um torneio em que atravessar a fronteira podia se tornar tão decisivo quanto atravessar a linha do meio-campo.

Nenhum episódio simbolizou melhor essa mudança do que a participação do Irã. Embora a FIFA tenha assegurado o ingresso dos atletas e das delegações oficiais, familiares, jornalistas e torcedores permaneceram submetidos às restrições impostas pelo governo norte-americano, enquanto a equipe iraniana passou a operar sob protocolos especiais de deslocamento entre México e Estados Unidos.

A situação tornou-se ainda mais dramática porque o torneio coincidiu com a ampliação do envolvimento militar norte-americano no conflito contra o Irã. Estimativas internacionais apontavam para milhares de mortos, mais de dois mil civis entre as vítimas e milhões de deslocados. Pela primeira vez, uma seleção chegava à Copa cercada não apenas por expectativas esportivas, mas pelas consequências imediatas de uma guerra conduzida pelo principal país anfitrião.

O contexto regional tornava essa situação ainda mais dramática. Desde o início de 2026, os Estados Unidos ampliaram seu envolvimento direto na ofensiva militar contra o Irã, ao lado de Israel, autorizando ataques a instalações estratégicas e aprofundando sua participação no conflito. Estimativas divulgadas por organismos internacionais e centros independentes de pesquisa apontavam para mais de 3.600 iranianos mortos, dos quais mais de 2.100 civis, além de aproximadamente 3,2 milhões de pessoas deslocadas em consequência dos bombardeios e das operações militares. A guerra projetava sua sombra sobre um torneio concebido precisamente para celebrar a integração entre povos.

Ao final, o contraste era inevitável. A Copa concebida para simbolizar uma América do Norte integrada realizava-se sob a sombra de fronteiras militarizadas, deportações em massa, guerras, restrições à mobilidade e crescente polarização política. O lema United As One permanecia como linguagem oficial da FIFA; a experiência concreta do torneio, entretanto, apontava em outra direção. 

A esfera pública do futebol em disputa

Os acontecimentos que cercaram a Copa de 2026 revelam uma transformação que ultrapassa a politização de um megaevento esportivo. O que se modifica é a própria posição da FIFA na ordem internacional contemporânea. Durante décadas, a entidade apresentou o futebol como patrimônio da humanidade, mobilizando uma linguagem fundada na paz, na integração, na diversidade e na cooperação entre os povos. Esses valores não desapareceram. Permaneceram como discurso oficial da instituição.

O que mudou foi sua função política. Em vez de operarem apenas como princípios normativos, passaram a integrar uma estratégia de produção de legitimidade em um cenário marcado pela crescente convergência entre Estado, mercado e comunicação global.

A autoridade da FIFA nunca dependeu exclusivamente de sua capacidade de organizar competições, mas da crença socialmente compartilhada de que representa um bem cultural universal. É precisamente esse reconhecimento que confere à entidade uma influência que ultrapassa o campo esportivo. Quando a FIFA, por meio de Gianni Infantino, aproxima sua imagem institucional da administração de Donald Trump, concede ao presidente norte-americano o prêmio da paz e evita confrontar publicamente políticas migratórias e ações militares que contradizem sua retórica de integração, ela coloca esse patrimônio simbólico a serviço da construção de legitimidade de um projeto necropolítico.

É nesse ponto que a leitura habermasiana se torna interessante. A Copa do Mundo constitui uma das maiores esferas públicas transnacionais da contemporaneidade, reunindo bilhões de pessoas em torno de símbolos compartilhados e de uma experiência comunicativa de alcance global. Sua legitimidade decorre justamente da pretensão de universalidade. Entretanto, como argumenta Jürgen Habermas, nenhuma esfera pública permanece imune à colonização pelos sistemas (poder e dinheiro).

A Copa de 2026 evidencia esse processo. A aproximação entre FIFA e governo norte-americano, somada à crescente centralidade do mercado global das apostas esportivas, mostra que a comunicação orientada pelo entendimento passa a ceder espaço às racionalidades estratégicas do Estado e do mercado.

Essa reconfiguração também pode ser compreendida à luz de Antonio Gramsci. A hegemonia não se estabelece apenas pela coerção, mas pela capacidade de construir consenso e naturalizar determinadas representações da realidade. Ao preservar a retórica da integração enquanto silenciava diante das fronteiras militarizadas, das guerras, das deportações e das restrições à mobilidade internacional, a FIFA contribuiu para produzir uma imagem conciliadora de uma ordem profundamente desigual.

Essa lógica aproxima-se da crítica formulada por Guy Debord à sociedade do espetáculo. O espetáculo não elimina as contradições; reorganiza-as em imagens capazes de produzir adesão. O lema United As One, as cerimônias oficiais, os discursos sobre paz e diversidade e a celebração da integração continental permaneceram como imagens centrais da Copa de 2026. Ao mesmo tempo, fronteiras militarizadas, deportações, guerras, restrições migratórias e financeirização do torneio deixavam de ocupar o centro da narrativa oficial.

A FIFA deixa de ser exclusivamente a organizadora do maior espetáculo esportivo do planeta para afirmar-se como um ator capaz de distribuir reconhecimento, produzir legitimidade e intervir na disputa contemporânea pela hegemonia.

O paradoxo da Copa de 2026 reside exatamente aí. O torneio concebido para celebrar uma América do Norte unida acabou expondo, com rara intensidade, as fraturas da ordem internacional contemporânea. Entre fronteiras militarizadas e promessas de integração, entre guerras e discursos de paz, entre a comunicação global do esporte e sua crescente financeirização, a Copa mostrou que o universalismo do futebol não desapareceu, mas tornou-se um terreno permanente de disputa.

Talvez seja essa a principal novidade histórica desta edição: o futebol deixou de ser apenas um espelho da geopolítica para converter-se em um dos espaços onde a própria geopolítica passa a ser produzida, legitimada e contestada.

*Marco Bettine é professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP).

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo

Como o capitalismo sequestrou a Copa e o sonho de uma criança https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/futebol-argentario.html