14 fevereiro 2026

É carnaval!

Carnaval, carnavais
Luciano Siqueira     

Antigamente o carnaval se iniciava aos sábados. Era o sábado de Zé Pereira. Hoje, em muitos lugares, como no Recife e em Olinda, desde o início de janeiro a folia ocupa as ruas e invade os salões, em prévias animadas e concorridas. De modo que hoje é quinta feira de carnaval — a primeira, porque a outra quinta, pós-quarta-feira de cinzas, também será de carnaval, já que, cá na província, a festança irá mesmo até o domingo subseqüente.

Não há, no Brasil, um carnaval único, homogêneo, uniforme. Há carnavais. Distintos na duração, na intensidade com que arrebata multidões, na variedade de ritmos e cores, no caráter mais ou menos democrático.

O carnaval de Pernambuco é ímpar. A começar pela tradição, palmilhada por uma história guerreira. Pois foi com muita luta que os pernambucanos, recifenses em particular, conquistaram o direito de ganhar as ruas e fazer a folia - conforme nos ensina, dentre outros, a pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco Rita de Cássia Barbosa de Araújo, autora do belíssimo artigo “Carnaval do Recife: a alegria guerreira” (revista Estudos Avançados – USP, abril de 1997).

No final do século XIX e início do século XX, só às elites era reservado esse direito — que desfilava suas alegorias e clubes de máscaras, cabendo à ralé apenas o papel de expectadora. E foi enfrentando proibição legal e muita repressão policial que os trabalhadores, a gente pobre da cidade, literalmente abriram alas e puderam brincar. Daí a natural associação entre diversas agremiações carnavalescas e a categoria profissional dos seus integrantes, revelando traços de união entre a luta por direitos corporativos e a pugna pela liberdade de participar dos folguedos. Vassourinhas, Pás Douradas, Lavadeiras, Lenhadores e tantos outros surgiram dessa simbiose lúdico-combativa.

Provavelmente aí se encontram as raízes do caráter absolutamente democrático do carnaval que aqui se realiza. No Recife, em Olinda, nas demais cidades litorâneas e interioranas, o pernambucano cai no frevo ou se deixa envolver pelo batuque eletrizante do maracatu, livre e espontaneamente, nas praças e nas ruas. Não precisa pagar.

Aqui certamente não vingaria um carnaval argentário como o do Rio de Janeiro, realizado no Sambódromo, do qual o povo foi afastado (como se queixou certz vez Oscar Niemeyer em entrevista ao Jornal do Brasil) pela discriminação econômica. Nem se poderia imaginar o Elefante de Olinda ou Pitombeira dos Quatro Cantos protegidos por cordões de isolamento e impondo a compra daquela espécie de bata que se vê em Salvador. A massa "freveria" de novo e iria à guerra pelo sagrado direito de viver suas fantasias, dores, sonhos, amores, tristezas, esperanças e alegrias no ambiente de liberdade conquistado há um século.

[Ilustração: Chico Buarque desfilando na Mangueira. Rio de janeiro, 1989. Foto de Evandro Teixeira]

Uma crônica de fevereiro de 2010

Carnaval: rebeldia e prazer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/meu-artigo-para-o-portal-grabois-4.html 

Palavra de poeta

Foi um momento
Fernando Pessoa     

Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido,
Mas tão de leve!...

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há uma coisa
Incompreendida...

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?

Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

[Ilustração: Pablo Picasso]          

Leia também: "Manhã", poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_29.html    

Interferência abjeta

Lei do Streaming: Congresso cede à pressão dos EUA
Reportagem revela: Embaixada norte-americana interferiu diretamente em assunto do país, reunindo-se com parlamentares e cobrando posicionamento. Um dia depois, eles postergaram votação que tributaria big techs e financiaria setor audiovisual brasileiro
Natalia Viana, na Pública/Outras Palavras    

A regulação do streaming (PL 2331/2002) já estava envolta em uma série de confusões em dezembro do ano passado. Uma reclamação pública do ator Wagner Moura, seguido de uma carta aberta assinada por entidades do setor audiovisual reclamando da previsão de dedução da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine) para produções brasileiras licenciadas direto pelas plataformas, e depois do vazamento de mensagens trocadas entre Paula Lavigne e o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, tumultuaram a negociação para votar o PL antes do fim do ano.

“Nós temos um Congresso desfavorável”, afirmou Randolfe na mensagem. “Desculpa a revolta, mas eu não sei que mundo o pessoal está. Tem lobbies aqui. A gente conseguiu o melhor possível do texto”. 

Mesmo assim, integrantes do governo Lula foram pegos de surpresa ao serem avisados, durante uma reunião no dia 16 de dezembro com o relator Eduardo Gomes (PL-TO), que Matthew Lowe, conselheiro para Assuntos Econômicos da embaixada dos Estados Unidos, estaria esperando do lado de fora para discutir o PL do streaming. O encontro fora arquitetado por Nelsinho Trad (PSD-MS), autor do PL e presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado.

Ao saírem do gabinete, Lowe chegou a ter um diálogo bastante direto com um membro do Ministério da Fazenda, afirmando que o PL não deveria ser votado no fim do ano porque poderia contaminar a conversa entre os dois países. Era preciso “atenuar as tensões” e evitar “retrocessos” no relacionamento bilateral.

Lowe estava acompanhado da associada econômica Flora M. Lindsay e do assessor econômico sênior Francisco Sadeck, segundo a equipe do senador.

Esta é a primeira vez que o corpo diplomático dos EUA atua ativamente para interferir em um debate regulatório envolvendo as Big Techs. Desde que o projeto de Lei das Fake News foi proposto, em 2020, diversas legislações já foram debatidas – e aprovadas – no Congresso sem nenhuma participação da embaixada.

Agora a postura parece ter mudado.

A Pública apurou que a atuação da embaixada ocorreu depois de reuniões com lobistas das Big Techs naquela mesma semana, que pediram para que o governo norte-americano interviesse a seu favor.

A principal reclamação das tecnológicas era a equiparação entre serviços de rede social como Facebook, Instagram, Tiktok e YouTube, aos streamings, o que consideram injusto por serem modelos de negócio diferentes. Enquanto serviços de streaming como Netflix, Disney +, Globoplay e HBO, além de TVs por aplicativo, teriam que pagar 4% do faturamento do streaming para o Condecine, plataformas teriam que pagar 0,8% do faturamento total. 

Uma reportagem do portal Jota relatou que a reunião com Gomes, organizada a pedido de Nelsinho Trad, ocorreu num tom “diplomático”. Os membros da embaixada teriam dito ter preocupações sobre o momento da votação, afirmando que isso poderia afetar empresas americanas, em um momento em que as tensões por conta das tarifas impostas por Trump estavam em negociação e a relação entre os dois países estavam em um estágio positivo.

Procurada pela Pública, a assessoria do senador Eduardo Gomes afirmou apenas que a visita foi “protocolar”, feita para “para o fortalecimento das relações institucionais da embaixada dos EUA com o Senado da República”. Disse ainda que não houve novos contatos depois da reunião.

Um novo interlocutor “batendo na porta” de Nelsinho Trad

Segundo a assessora de Nelsinho Trad, Samyra Galvão, a entrada de Matthew Lowe na interlocução com o Senado foi uma novidade.

O senador tem mantido interlocução com a embaixada desde o início da crise com os EUA, e chegou a liderar uma visita de senadores e ministros aos EUA para reuniões com parlamentares americanos sobre as tarifas. “A embaixada sempre foi ouvida, sempre teve uma boa relação”.

A viagem ocorreu no final de julho de 2025 e o tema das Big Techs pouco apareceu naquela ocasião. Em 25 de setembro, quando uma comitiva de representantes da comissão de relações exteriores do Senado americano realizou uma visita ao Brasil, a tentativa de regular as plataformas foi questionada.

Já o tema da regulação de streaming apareceu na última semana de trabalho do Congresso, durante uma reunião naquele mesmo dia, 16 de dezembro, agendada para apresentar o relatório da Comissão Temporária Externa para Interlocução sobre as Relações Econômicas Bilaterais Brasil–EUA (CTEUA), também liderada por Nelsinho Trad.

A reunião foi pedida pela embaixada dos EUA, e Lowe estava acompanhado de John Jacobs, que é chefe de assuntos políticos, e da conselheira Daniela Motta, especialista em meio ambiente e saneamento, segundo a assessoria.

“Eles perguntaram a respeito da tramitação da regulamentação dos projetos dos streamings. Eles queriam saber se havia chance de votação, quando seria. Então eles externaram uma preocupação em relação a mais tarifas para empresas americanas. Falaram que não querem que as empresas americanas sejam tarifadas”.

Segundo ela, Nelsinho Trad explicou que ele estava ouvindo as empresas e nada estava sendo feito “a toque de caixa”. O gabinete fora procurado tanto pelas Big Techs quanto pelos serviços de streaming.

“Foi interpretado como preocupação que isso interferiria nas outras tratativas”, diz Samyra. Segundo ela, ainda há outros setores cujas tarifas estão em negociação, como o setor madeireiro, além de itens industrializados.

Outra grande preocupação de Nelsinho Trad é com o setor de agro, um dos mais fortes do Congresso.

Para Samyra Galvão, entretanto, não se trata de uma interferência indevida. Para ela, foi fundamental para a negociação das tarifas a comitiva brasileira ter ido “bater na porta” dos congressistas americanos. “Eles também têm a prerrogativa de vir e bater na porta. Você tem total direito de tentar influenciar”, diz.

A não votação do PL 2331 em dezembro do ano passado foi uma grande vitória para o lobby das Big Techs, uma vez que a estratégia dos lobistas é sempre postergar regulações que trazem custos mais altos às empresas, conforme detalhado no especial A Mão Invisível das Big Techs. Pessoas envolvidas nas negociações ouvidas pela coluna afirmam que será difícil realizar a votação este ano, uma vez que a pauta deve ser tomada pela crise do Banco Master, com uma possível CPI, além da CPMI do INSS. A Pública entrou em contato com a embaixada dos Estados Unidos, que respondeu que “por questão de privacidade, não comentamos conversas diplomáticas privadas”.

O poder oculto do orçamento secreto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/estado-disfuncional.html

Fotografia

 

Julio Strauch

Em 2025, novos fenômenos no mundo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/mundo-em-transicao.html 

Amplo apoio

73% dos brasileiros apoiam fim da escala 6×1 sem redução salarial
Nexus e Ipea desarmam mitos patronais: com impacto de custo inferior a 1%, dados fortalecem luta pelo fim da escala 6×1
Davi Moloinari/Vermelho  

O debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil ganhou, nesta semana, contornos definitivos que isolam a narrativa do “terrorismo econômico” propagada por setores do empresariado. A divulgação de uma nova pesquisa da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, somada a uma nota técnica de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), oferece o lastro social e econômico necessário para que as centrais sindicais intensifiquem a pressão sobre o Congresso Nacional.

O levantamento da Nexus expõe uma realidade incontornável: 73% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1, desde que a medida não venha acompanhada de redução salarial. O dado reflete a maturidade da classe trabalhadora, que compreende a necessidade de mais tempo para o convívio familiar e para o lazer, mas não pode abrir mão da renda.

O apoio à ideia de que todo trabalhador deve ter, no mínimo, dois dias de descanso semanal atinge a expressiva marca de 84%. Entre os eleitores de Lula, 71% apoiam o fim da escala 6×1, contra 15% que se opõem. Até mesmo entre eleitores de Bolsonaro, a proposta encontra maioria: 53% são favoráveis e 32% contrários.

De acordo com a pesquisa, 63% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6×1 de forma genérica, sem menção inicial a impactos salariais, enquanto 22% se posicionam contra essa mudança.  Se houver corte no salário, o apoio à proposta cai para 40% dos entrevistados e apenas 28% mantêm o apoio incondicional. 

Quanto ao conhecimento e percepção da proposta, 62% dos entrevistados já ouviram falar do fim da escala 6×1, dos quais 12% conhecem bem o tema e 50% têm um conhecimento superficial. Por outro lado, 35% nunca ouviram falar sobre o assunto, e apenas 12% entendem bem o que o projeto implica. O apoio à medida cresce conforme o nível de conhecimento: atinge 71% entre aqueles que conhecem bem, 69% entre os que conhecem pouco e 55% entre os que nunca ouviram falar. Finalmente, 52% acreditam que a proposta será aprovada pelo Congresso Nacional, contra 35% que pensam o contrário, com 13% sem opinião formada.

Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, pontua que a disputa legislativa reside justamente na manutenção dos rendimentos. “Não dá para trabalhar seis dias e folgar um só”, sintetiza Tokarski, acrescentando que, em um país de renda média baixa, a equação financeira é determinante. “Quem não quer ter folga a mais? Todo mundo quer. Agora, quando a gente coloca que você vai trabalhar um dia menos, mas vai ganhar menos, o cara não quer porque tem conta para pagar”, avalia o pesquisador, jogando luz sobre a armadilha que o patronato tenta impor ao condicionar a liberdade de tempo à perda de renda.

A ciência contra o alarmismo

Enquanto a vontade popular se revela cristalina, o Ipea tratou de desmontar os argumentos técnicos utilizados pelo lobby empresarial para travar a pauta. Em nota técnica divulgada nesta semana, o instituto revelou que a redução da jornada para 40 horas semanais teria um impacto inferior a 1% nos custos operacionais das grandes empresas de comércio e indústria. O estudo compara o custo da medida a reajustes históricos do salário mínimo, que foram absorvidos pelo mercado sem gerar desemprego, o que desmente a tese mecânica de que a redução de jornada implicaria queda no PIB.

Os dados do Ipea mostram que a jornada de 44 horas penaliza justamente os trabalhadores com menor escolaridade e menores salários, perpetuando um ciclo de desigualdade. A análise técnica reforça a posição de que o aumento da produtividade e a reorganização das escalas são caminhos naturais para absorver a mudança, tal como ocorreu na transição da Constituição de 1988, quando a jornada caiu de 48 para 44 horas sob protestos idênticos do capital.

Mobilização é a chave para a vitória

Diante deste cenário favorável, em que a opinião pública e os dados econômicos convergem, a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) aponta o caminho da mobilização como única via para transformar estatísticas em lei. Para Adilson Araújo, presidente da CTB, o fim da escala 6×1 é uma bandeira histórica que enfrenta oposição secular do patronato, cujas previsões catastróficas “não têm base na realidade nem fundamento na ciência”.

A estratégia agora é utilizar os dados do Ipea e o apoio aferido pela Nexus para pressionar politicamente os parlamentares que ainda hesitam em aprovar a PEC. Adilson reforça que, embora o apelo eleitoral e o apoio do governo Lula favoreçam a pauta, subestimar o poder de influência do capital no Congresso seria um erro. A vitória depende, portanto, de uma ampla mobilização das bases sindicais para garantir que a modernização das relações de trabalho, com ganho de saúde e produtividade, não seja mais uma vez adiada pelos interesses do lucro.

A pesquisa Nexus ouviu 2.021 pessoas com 16 anos ou mais em 27 unidades da Federação, entre 30 de janeiro a 5 de fevereiro de 2026. A margem de erro é de 2 pontos percentuais e o nível de confiança é de 95%.

Leia também: Para além do “economicismo governamental” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html

Alternativa ao dólar

Criador do termo BRICS admite: moeda comum pode deixar de ser fantasia
Em artigo, Jim O’Neill diz que moeda pode deixar de ser fantasia diante do “efeito Trump” e das mudanças no comércio global
Tatiane Correia/Jornal GGN     

A possibilidade de uma moeda comum dos BRICS desafiar o dólar como principal referência global pode deixar de ser apenas uma tese para se tornar uma possibilidade, segundo Jim O’Neill, economista britânico criador do acrônimo BRICS e ex-ministro do Tesouro do Reino Unido.

Em artigo publicado no Project Syndicate, O’Neill explica que as moedas de reserva historicamente exigem condições que são difíceis de cumprir: plena conversibilidade da conta de capital, confiança institucional e — no caso de uma moeda compartilhada — a criação de um banco central supranacional, com perda de soberania monetária dos países membros.

Considerando tais critérios, a ideia da moeda comum parecia improvável principalmente considerando rivalidades geopolíticas como a de China e Índia, além dos controles de capital mantidos por Pequim. Mas o cenário mudou, segundo O’Neill.

O que aconteceu?

O autor aponta três fatores principais para revisar sua posição. O primeiro é político: líderes do BRICS+ têm manifestado insatisfação crescente com a dominância do dólar.

O segundo é estratégico: a política externa e comercial dos Estados Unidos sob Donald Trump — marcada por tarifas, tensão institucional e questionamentos à autonomia do Federal Reserve — estaria corroendo a base de confiança que sustenta a hegemonia da moeda americana.

O terceiro fator é tecnológico. O’Neill argumenta que as mesmas inovações digitais que podem fortalecer o dólar, como stablecoins denominadas na moeda americana, também podem facilitar a criação de “trilhos alternativos” de pagamento entre países que desejem reduzir a dependência do sistema financeiro dominado pelos EUA.

Embora reconheça os obstáculos existentes, o articulista sugere que, mesmo sem liberalizar contas de capital ou criar um banco central comum nos moldes europeus, os países do bloco poderiam desenvolver um mecanismo de compensação comercial baseado em uma cesta de moedas, ponderada pelo peso econômico de cada membro.

Em um mundo no qual 75% do PIB global está fora dos Estados Unidos, e onde acordos comerciais entre grandes blocos se multiplicam, a discussão sobre alternativas ao dólar deixa de ser apenas retórica política e passa a integrar o debate estrutural sobre a arquitetura monetária internacional.

A pergunta final de O’Neill permanece em aberto: trata-se de uma fantasia ou do embrião de uma nova etapa na ordem econômica global?

Turbulências na economia global https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/turbulencias-na-economia-global.html

13 fevereiro 2026

Minha opinião

Sansão e Dalila
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65   

Outro dia escrevi no Twitter que jamais assisti um filme do Homem-Aranha, não pretendo assistir e não sei se estarei perdendo algo importante.

Pelo WhatsApp, duas amigas e um amigo me criticaram por isso, mais ou menos nos mesmos termos:

— Como pode alguém atento a tudo o que acontece se eximir de ver pelo menos um filme que seja, de uma série, campeão de bilheteria!?

Eis a questão, minha gente amiga.

Nem tudo que é visto por muita gente necessariamente me interessa.

De outra parte, são tantos os temas, acontecimentos, obras literárias e de arte, científicas e que tais, e já não tenho tempo para digressões com o Homem Aranha e seus assemelhados Super-Homem e Batman.

Nunca me identifiquei com o gênero, mesmo quando criança ou adolescente.

E olhem que adoro cinema, porém sem jamais me curvar a eventuais sucessos de público.

Tenho uma birra intimamente preservada.

Quando se formam filas quilométricas para assistir nos cinemas determinado filme de sucesso mundial, simplesmente não entro em fila alguma. Deixo para assistir qualquer dia desses, num futuro imprevisto.

Por isso até hoje devo a mim mesmo o "Titanic" e só recentemente vi na Netflix o (já clássico) brasileiro "Tropa de elite".

Mas recordo que por volta dos meus 11 anos de idade, na Lagoa Seca, em Natal, me deixei empolgar com anúncio em carro de som de que no Cine São João (na mesma rua onde eu morava) entrara em cartaz o "melhor filme do mundo" — precisamente "Sansão e Dalila", estrelado por Victor Mature e Hedy Lamarr, dirigido por Cecil B. DeMille.

O ingresso custou 5 cruzeiros, que pedi a minha mãe relutante, com o decisivo argumento de que um filme daquele eu jamais poderia perder.

Afinal, era um campeão mundial de bilheteria. Acho que gostei muito.

[Uma crônica de dezembro de 2021]

Leia também: Um milhão de amigos e a trena imaginária https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_10.html 

12 fevereiro 2026

Palavra de poeta

Um homem e seu carnaval
Carlos Drummond de Andrade       

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito,
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.

[Ilustração: Candido Portinari]

Leia também: "Bolas de vidro", poema de Cida Pedrosa  "https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_63.html 

Fotografia

 

Henri Cartier-Bresson

A sensibilidade e o prazer ao longo do tempo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_7.html 

América Latina: mais tensões

Portos da América Latina viram epicentro da guerra pelos mares
Rotas marítimas se transformam em alvo de acirrada disputa entre EUA e China
Jamil Chade/Liberta  

O controle dos oceanos foi sempre um aspecto fundamental na geopolítica e na construção de impérios. No século 21, esses mares voltam a ser cúmplices e teatro da cobiça pelo poder. Pilar fundamental da defesa contemporânea, as rotas marítimas são, hoje, alvos de uma acirrada disputa entre os EUA e a China.

Se, na Venezuela, o sequestro de Nicolás Maduro por parte do governo de Donald Trump resultou no fim do abastecimento de petróleo a preços subsidiados para a economia chinesa, uma decisão adotada há uma semana – sem disparar um só tiro – minou a influência de Pequim sobre o Canal do Panamá. Em jogo, está o controle dos mares.

Gesto inédito

No final de janeiro, a Corte Suprema do Panamá considerou como inconstitucionais os contratos de uma empresa chinesa que operava no canal estratégico entre os oceanos Pacífico e Atlântico. Sob intensa pressão da Casa Branca, que chegou a ameaçar usar militares para retomar a passagem na América Central, o tribunal ordenou o cancelamento dos contratos com CK Hutchison, com sede em Hong Kong, que operava portos nas duas extremidades do Canal.

Para analistas em Washington, trata-se de uma vitória fundamental para a ofensiva americana no sentido de frear o domínio chinês na indústria naval global. Assim que a assumiu a Casa Branca, Trump se apressou a tomar medidas para tentar conter a influência de Pequim nos mares do planeta, inclusive, taxando navios. Uma trégua entre Xi Jinping e Donald Trump permitiu que o tema fosse congelado por 12 meses. Mas ninguém ousa prever como tal embate será resolvido.

Antes mesmo da eleição de 2024, uma equipe do republicano confessou a diplomata brasileiros que não iria tolerar a presença chinesa no controle de portos estratégicos da América Latina.

Num recente artigo, Elaine Dezenski, diretora da entidade conservadora Foundation for Defense of Democracies, apontou que o governo chinês, atualmente, exerce “um controle absoluto sobre a indústria marítima”. “A China controla mais de 100 portos ultramarinos em todos os continentes, exceto na Antártida. Ela fabrica mais de 95% dos contêineres marítimos e 70% dos guindastes portuários”, disse.

“Isso inclui 80% dos guindastes usados ​​nos Estados Unidos – que legisladores destacaram como possíveis ferramentas de vigilância chinesa. Além disso, a China possui 69 vezes mais navios mercantes do que os EUA e tem 232 vezes a capacidade de construção naval”, alertou.

No Hemisfério Ocidental, a China agora está presente em 35 portos. Os dois portos do Canal do Panamá em disputa eram, portanto, os mais importantes em termos estratégicos, já que aproximadamente 40% de todo o tráfego de contêineres dos EUA passa por essa hidrovia.

“Se o domínio marítimo da China se expandir, os EUA e seus aliados correm o risco da mesma dependência que enfrentam atualmente em relação a minerais críticos e terras raras. Eles correm o risco de ficar à mercê de Pequim, implorando por acesso a portos de propriedade chinesa, enquanto não possuem navios ou contêineres construídos internamente”, alertou.

A história da disputa pelo Panamá, porém, revela uma intrincada rede de interesses políticos e comerciais.

Assim que assumiu, em janeiro de 2025, Trump anunciou que usaria sua força militar, se fosse necessário, para “retomar” o Canal do Panamá. O governo do país centro-americano, na época, afirmou que a soberania do Canal não estava em discussão, que ele era operado pelo Panamá e assim permaneceria.

Mas, já nos primeiros dias de seu governo, num gesto inédito, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, escolheu justamente a América Central como seu primeiro destino internacional para uma missão. O chefe da diplomacia do republicano deixou o Panamá com o compromisso do governo local de que romperia acordos com a China.

Leis antitrustes

Em março de 2025, a empresa CK Hutchison, que controlava dois portos no Canal do Panamá, anunciou a venda de seus ativos nos portos fora da China para um consórcio formado pela gestora de ativos americana BlackRock e pela gigante europeia do transporte marítimo MSC. O contrato superaria a marca de US$ 22 bilhões e foi “abençoado” por Trump.

Mas a operação sofreu um golpe quando a China tentou bloquear o negócio, recorrendo às leis antitrustes. Para que o acordo não fosse bloqueado, ela exigia que a empresa estatal chinesa COSCO Shipping recebesse uma participação majoritária.

Como tanto BlackRock, a MSC e a CK Hutchison têm interesses comerciais significativos na China, a sinalização foi a de que o acerto poderia ocorrer.

Mas, neste momento, o protesto veio da Casa Branca. Washington alertou que não toleraria que a CK Hutchison fosse substituída por uma empresa ligada ao Partido Comunista Chinês no controle do Canal do Panamá.

O impacto do acordo iria além. CK Hutchison controla portos considerados como vitais para os interesses americanos. Com o pacto, sua administração ficaria também nas mãos da China. Isso incluiria o Canal de Suez, o Estreito de Malaca, o Estreito de Ormuz e o Estreito de Bab-el-Mandeb, no Mar Vermelho, além de ativos na Europa, México, Coreia do Sul e Austrália.

O caminho escolhido por Trump foi o de pressionar o governo do Panamá a usar suas cortes para denunciar o acordo entre a CK e os chineses. Sem alternativas, o governo local foi aos tribunais e, no final do mês passado, conseguiu uma vitória.

No fundo, a decisão declara como ilegal o controle chinês dos portos do Canal e se transforma numa peça fundamental da ofensiva de Trump para eliminar a influência chinesa no Hemisfério Ocidental. O objetivo do republicano é o de reafirmar o domínio incontestável dos EUA, do Estreito de Magalhães à Groenlândia.

Frear a China pelo mundo, porém, será uma tarefa bastante mais desafiadora. Mesmo com os ataques e tarifas de Trump, Pequim garantiu o maior número de novas encomendas de construção naval em todo o mundo em 2025, apesar de uma ligeira queda na participação de mercado.

No ano passado, os estaleiros chineses garantiram 107,8 milhões de toneladas de porte bruto (TPB) em novas encomendas, representando 69% do mercado global, contra 74,1% em 2024, segundo dados divulgados no domingo pela Associação Chinesa da Indústria Naval Nacional.

De fato, em 2025, os principais estaleiros chineses fortaleceram ainda mais sua competitividade global, garantindo o primeiro lugar em novas encomendas para 16 dos 18 principais tipos de embarcações.

A China, portanto, atingiu seu 16º ano consecutivo na liderança no setor global, superando a Coreia do Sul e o Japão. 

Leia também: A chegada de Trump 2.0 e a era da turbulência global  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/fator-de-desequilibrio-global.html 

Thiago Modenesi opina

Todos somos América!
A música é política. A arte é política. E Bad Bunny demonstrou, com maestria, que fazer política é também atuar, fazer cultura, cantar
Thiago Modenesi/Vermelho     

Não foi apenas um show. Foi uma tomada de palavra. Quando Bad Bunny pisou no palco do Super Bowl no último domingo, ele não entrou apenas no maior palco midiático do mundo, ele o ocupou.

Em um espaço historicamente construído como branco, anglófono e nacionalista, a presença do artista porto-riquenho, coroado dias antes com um Grammy, transcendeu o entretenimento. Transformou-se em um manifesto político, uma ode à história, à cultura e à resistência de uma América Latina frequentemente invisibilizada, mas fundamental para a construção do próprio país que o assistia.

O Super Bowl, ritual central da cultura estadunidense, sempre foi mais que um jogo. É um espetáculo de identidade nacional, um refinado aparato de soft power onde cada elemento, do hino nacional ao show do intervalo, é cuidadosamente coreografado para transmitir uma narrativa unificada. Bad Bunny, porém, rejeitou o roteiro. Em vez de pedir permissão, ele assumiu.

Praticamente todo o seu set, com exceção só de uma frase, foi cantado em espanhol, língua materna de dezenas de milhões naquele país, mas sistematicamente marginalizada em espaços de poder. Cada letra, cada visual, cada sample foi uma afirmação: esta terra tem história, cultura e política muito antes do espetáculo e da criação dos Estados Unidos.

A música é política. A arte é política. E Bad Bunny demonstrou, com maestria, que fazer política é também atuar, fazer cultura, cantar. Em uma terra colonizada, explorada e trabalhada pelas mãos de gerações de imigrantes latino-americanos, seu show foi um reconhecimento dessa história de suor e luta. O gesto mais contundente veio silenciosamente: a aparição da bandeira de Porto Rico, mas não qualquer uma, a com o tom de azul claro associado aos rebeldes pró-independência. Em um território ainda colonial dos EUA, foi um símbolo de soberania e uma declaração de identidade que atravessou as telas.

A reação furiosa de Donald Trump não foi surpresa, foi a confirmação. Seu ataque não era sobre a qualidade musical, mas sobre imigração, identidade e poder. Representou a perda do controle simbólico sobre um ritual central. Em um contexto de retórica anti-latina crescente, de ameaças de ações do ICE e de guerra cultural aberta, ver um latino politizado, orgulhoso e desafiador ocupar o centro do palco nacional ativou um ressentimento profundo. Trump, e a visão que ele encarna, compreendeu perfeitamente a mensagem: isto é uma reivindicação de pertencimento e de mudança na narrativa nacional.

Bad Bunny não apenas performou, disputou significados. Ele lembrou aos espectadores que o “sonho americano” foi, em grande parte, construído sobre o trabalho e a resiliência latino-americana. E que a cultura latina não é um adereço exótico, mas a espinha dorsal vibrante e criativa de uma sociedade em transformação demográfica e cultural.

O show foi, portanto, um ponto de inflexão. Mais do que entreter, ele politizou o espetáculo. Bad Bunny usou o alcance global do Super Bowl para amplificar uma verdade incômoda para alguns: a América é, também, dos latino-americanos. E seu futuro será inevitavelmente moldado por essa realidade. O artista citou nome a nome todos os países que compõe a América.

Enquanto as luzes do estádio se apagavam, a mensagem permanecia, ecoando como um chamado: ocupar espaços, falar na própria língua, exibir símbolos de resistência e celebrar a própria história são atos profundamente políticos. Bad Bunny não fez um show. Ele plantou uma bandeira azul claro no coração do império, e ninguém poderá mais ignorar que ela está lá. A cultura é o novo campo de batalha, e a América Latina acabou de ganhar uma de suas mais ressonantes vitórias simbólicas.

Reagan, Trump e a “destruição inovadora” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-roteiro-de-conflitos.html  

Arte é vida

 

Roberto Burle Marx

Leia: O mundo cabe numa Organização de Base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html 

Juros contra o Brasil

Como a Selic a 15% inviabiliza o investimento produtivo no Brasil
Projetos de infraestrutura, que exigem capital paciente e oferecem retornos ao longo de décadas, não conseguem competir com a renda fixa.
Luís Nassif/Jornal GGN     


O Pátria Investimentos, uma das maiores gestoras de ativos reais do país, enfrenta uma crise que expõe algo maior: a impossibilidade de qualquer solução de mercado para investimentos de longo prazo em uma economia com taxa básica de juros a 15%. 

A trajetória do Pátria ilustra a transformação brutal no ambiente de negócios. Originalmente focada em private equity — o investimento direto em empresas com horizonte de consolidação, valorização e posterior venda —, a gestora prosperou em um mundo que deixou de existir.

Esse mundo era sustentado por juros baixos, crédito abundante, valuations (valor de mercado) inflados e um mercado ativo de IPOs (oferta pública inicial de ações). A engrenagem funcionava: capital paciente entrava, empresas se consolidavam, múltiplos se expandiam, e a saída via abertura de capital coroava o ciclo com lucros expressivos.

Mas esse ciclo acabou. 

A Nova Realidade

Com a Selic a 15%, os múltiplos de private equity encolheram drasticamente. Desinvestimentos ficaram mais difíceis e menos lucrativos. Os IPOs praticamente desapareceram do radar. Ativos comprados no auge do ciclo anterior agora exigem reprecificação para baixo, reduzindo a atratividade de toda a classe.

O horizonte de saída, antes previsível, foi empurrado indefinidamente para frente. Capital que deveria girar ficou preso. O modelo de negócio precisava ser reinventado.

A Ilusão do Crédito Estruturado

A resposta veio na forma de uma migração para fundos de crédito privado. Operações estruturadas, lastreadas em recebíveis, protegidas por garantias contratuais — teoricamente mais seguras, mais líquidas, mais adequadas ao novo ambiente.

Esses fundos cresceram aproveitando o vácuo deixado pelos bancos tradicionais, que retraíram suas carteiras de crédito. Empresas buscando financiamento alternativo encontraram gestoras dispostas a assumir o risco.

Mas a combinação de juros elevados com desaceleração econômica revelou a fragilidade dessa estratégia.

A Progressão da Deterioração

O roteiro é previsível. Empresas tomadoras enfrentam queda no fluxo de caixa. A inadimplência sobe. Garantias que pareciam sólidas revelam fragilidades invisíveis durante a estruturação.

Então começa a longa caminhada da negação contábil.

Primeiro, a renegociação das condições. Depois, a extensão do prazo de pagamento. Em seguida, a reclassificação nos balanços. Só muito depois — quando não há mais escapatória — o reconhecimento efetivo da perda.

Essa sequência cria uma ilusão de estabilidade. No caso do Pátria, essa ilusão relaxa a tensão no presente, mas carrega o risco para o futuro.

O Risco Sistêmico

A migração de capital para crédito estruturado é fenômeno global, mas no Brasil enfrenta um agravante: juros estruturalmente elevados, não apenas ciclicamente altos.

Quando o crédito estruturado cresce demais, o gestor de recursos se transforma em banco sem banco central. Assume risco de crédito sistêmico sem rede de proteção. Opera em um mercado onde a regulação corre permanentemente atrás do fato consumado.

A Impossibilidade Fundamental

A crise do Pátria não é apenas gerencial ou setorial. Ela demonstra uma impossibilidade fundamental: com a taxa básica de juros a 15%, não existe solução de mercado viável para investimentos produtivos de longo prazo.

Projetos de infraestrutura, que exigem capital paciente e oferecem retornos distribuídos ao longo de décadas, simplesmente não conseguem competir com a renda fixa. Por que assumir risco operacional, regulatório e de execução para buscar retornos de 12% a 15% ao ano quando títulos públicos entregam 13% sem risco?

A resposta racional do capital é clara: migrar para aplicações líquidas e seguras. O investimento produtivo fica restrito a nichos ou depende de subsídios governamentais disfarçados.

O Impasse

O Brasil se encontra preso em um impasse. Precisa de investimentos em infraestrutura para crescer. Mas mantém uma estrutura de juros que torna esses investimentos economicamente irracionais para o setor privado.

Gestoras como o Pátria tentaram contornar essa contradição com engenharia financeira cada vez mais sofisticada. Mas engenharia financeira não resolve problemas macroeconômicos estruturais. Apenas adia e, frequentemente, amplifica suas consequências.

A crise atual não é acidente de percurso. É o resultado inevitável de tentar sustentar investimentos de longo prazo em uma economia de juros de curtíssimo prazo.

Leia também: "Patético e pusilânime" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_12.html

Postei nas redes

Construção civil deve crescer 2% este ano beneficiada pela redução de juros e expansão do crédito. Alguma coisa a ver com o governo Lula? Tudo. Mas a mídia neoliberal esconde. 

Leia também: Para além do “economicismo governamental” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html


Cuba resiste

Não temos a alternativa de “oferecer submissão aos EUA”, diz embaixador cubano
Bloqueio energético imposto por Trump “priva o povo cubano dos meios de subsistência”, afirma Adolfo Curbelo ao Portal Vermelho
Iram Alfaia/Vermelho       

“O mar do sul se unirá ao mar do norte, e nascerá uma serpente do ovo da águia, antes que Cuba renuncie à sua rebelião.” É a essa citação premonitória e anti-imperialista do poeta e revolucionário José Martí que o embaixador de Cuba no Brasil, Adolfo Curbelo, associa a resistência ao bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos contra a Ilha.

Em entrevista exclusiva ao Portal Vermelho, concedida na sede da Embaixada, em Brasília, Curbelo afirma que “não é uma alternativa oferecer submissão aos Estados Unidos. O povo cubano não vai se render”. Segundo ele, a ofensiva do a ação do governo Donald Trump, o “ovo da águia” – que bloqueou o fornecimento de petróleo a Cuba – é um “genocídio” contra o povo cubano. Desde o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em janeiro, os cubanos deixaram de receber o combustível do parceiro sul-americano.

“Por que falamos em genocídio? Porque, como em todo o bloqueio, essa medida em particular priva o povo cubano dos meios de subsistência. Quando impossibilitam que o nosso país importe o petróleo de que necessita para gerar eletricidade, estão afetando toda a atividade econômica do país e diretamente ao povo cubano”, diz Curbelo.

Segundo ele, a situação se agrava com a falta de eletricidade, o que impacta a produção de alimentos, a proteção dos doentes nos hospitais e a prestação de serviços essenciais. Contudo, Curbelo cita José Martí, o herói da independência cubana, para deixar claro que a nação continuará resistindo e sairá vencedora. Existe uma história – afirma o embaixador – à qual a revolução socialista de 1959 deu continuidade, mantendo a independência real de Cuba frente aos Estados Unidos.

De modo franco, o representante diplomático no Brasil alerta para o risco de outras medidas mais violentas de Trump. “Não descartamos nada e nos preparamos para as piores circunstâncias e os piores cenários possíveis. Enquanto isso, buscamos soluções, porque nós não podemos esperar”, diz.

Uma dessas soluções é a “eletrificação do país com painéis solares”. Cuba acaba de completar a marca de 1.000 megawatts desses painéis – ou 10% do total da capacidade de geração instalada no país. “Fizemos muito progresso nesse sentido. Ainda não temos a capacidade de armazenamento para poder incorporar a geração elétrica solar como parte do esquema da distribuição mais organizada de energia. Mas hoje, graças a essa geração, o país já tem uma situação um pouco menos complicada em alguns lugares”, afirma.

“Eles (os Estados Unidos) não podem bloquear o sol. Temos de aumentar a produção e extração de petróleo nacional com tecnologia. O país está buscando soluções”, agrega o embaixador.

Confira outros trechos da entrevista de Curbelo ao Vermelho:

“Com a proibição da entrada do petróleo em Cuba, o direito de qualquer nação de vender soberanamente petróleo a Cuba foi simplesmente desconhecido – e o direito do povo e do governo cubanos de importar soberanamente petróleo de qualquer nação do mundo foi violentado. É uma ordem contra os princípios do direito internacional que violenta a soberania de todos os Estados, não somente de Cuba. A justificativa que se utiliza para essa ordenança é absolutamente mentirosa. Certamente, o governo dos Estados Unidos e particularmente o presidente desse país não têm nenhum apego à verdade. Mas enfatizo outro elemento de maior importância, que caminha na mesma linha do recrudescimento do bloqueio que já tem mais de 67 anos: essa (nova) medida é realmente um genocídio contra o povo cubano, de maneira clara e expl ícita para o mundo.” 

Os apoios a Cuba

“Existe um consenso internacional contra o bloqueio. O movimento de países não alinhados emitiu uma resolução de condenação à ordenança presidencial e ratificou a solidariedade a Cuba. Estamos falando de 160 países do mundo. O grupo de países defensores da Carta das Nações Unidas também emitiu uma comunicação condenando a ordenança. Países muito importantes de todo o mundo se pronunciaram. A Rússia emitiu um comunicado forte, ratificando a relação com Cuba e a rejeição a essa política dos Estados Unidos. A China rejeitou a ordenança presidencial e ratificou sua posição solidária de apoio a Cuba. A China fez uma doação de 60 mil toneladas de arroz ao povo cubano, e as primeiras 30 mil toneladas já foram entregues. O chanceler de Cuba foi recebido em condiç&at ilde;o de emissário especial do presidente da República em países como Vietnã e China. Temos recebido visitas importantes da Rússia após a publicação dessa ordenança. Países da América Latina, como o México, mantêm uma postura solidária com Cuba. O México anunciou recentemente um envio de ajuda humanitária a Cuba, que já saiu do país, mas o problema da proibição da venda de combustíveis se mantém.”

Pronunciamentos do Brasil 

“Escutamos o presidente Lula falar na comemoração do aniversário da criação do PT, quando ele ratificou a solidariedade com Cuba. Inúmeras organizações do Brasil se pronunciaram. O PCdoB se manifestou de maneira clara e rápida. O PT fez o mesmo. Outros partidos também se pronunciaram contra a medida. Quantidades significativas de partidos da base de governo, como PT, PCdoB, Rede e PSOL, entre outros, fizeram um pronunciamento muito explícito contra essa medida e reclamando a solidariedade com Cuba.”

A resistência do povo cubano

“Cuba foi a última colônia espanhola a ser libertada e foi o primeiro país onde triunfou uma revolução radical, martiana, que foi também uma revolução socialista. E essa revolução aconteceu a apenas 180 quilômetros da fronteira com os Estados Unidos. Isso é um fato que não só as elites, mas o poder nos Estados Unidos nunca perdoou. Cuba desafiou os Estados Unidos com êxito. Aqui há uma história que fala por si mesmo. Nós vivemos de uma história de luta. O povo cubano lutou contra a metrópole espanhola durante muitos anos. Lutou em uma ilha onde havia mais soldados espanhóis que soldados norte-americanos nas guerras do Golfo. E os cubanos conseguiram resistir e conseguiram vencer. Estivemos à beira da aniquilação nuclear no ano de 1962. A independência de Cuba tem importância para o conjunto da Am& eacute;rica Latina e do Caribe – e sabemos que esse símbolo pretende ser liquidado pelos Estados Unidos. Mas eles não vão conseguir. Há muita dificuldade, é verdade, mas também há um povo que tem a convicção de que a defesa do nosso país e da soberania é essencial para manter a nossa opção de vida. Não é uma alternativa oferecer submissão aos Estados Unidos. O povo cubano não vai se render.”

Leia também Trumpismo é neofascismo, uma ameaça a ser rechaçada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_26.htm