Comissão sobre mortos na Ditadura alerta que BBB 26 “banaliza tortura”
Em carta aberta, órgão do Ministério dos Direitos Humanos pede à Globo rever provas que remetem ao período militar após desmaio de participante
Davi Molinari/Vermelho
A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), enviou uma carta aberta à Rede Globo manifestando profunda preocupação com as dinâmicas do Big Brother Brasil 26. O documento associa o “Quarto Branco” a métodos de tortura e afirma que o programa “ultrapassou as fronteiras do jogo e do entretenimento para ingressar em um terreno perigoso que flerta com a violência física e o flagelo psicológico”.
A reação oficial ocorre após o episódio da madrugada de 18 de janeiro, quando a participante Rafaella Jaqueira desmaiou ao vivo depois de enfrentar mais de 100 horas de reclusão e privação, confinada sem orientação temporal durante uma das provas da “casa”.
“Semelhança aterradora” com a ditadura
Na carta, representantes da comissão destacam que os métodos adotados pela produção evocam práticas sombrias da história brasileira. “É impossível ignorar que tais métodos guardam uma semelhança aterradora com as práticas de tortura empregadas sistematicamente pela ditadura militar brasileira”, diz o texto.
As conselheiras detalham que a submissão de corpos e mentes a condições extremas — como privação de sono, desorientação espacial e posições físicas insustentáveis — não apenas testa os participantes, mas também “os limites da nossa própria humanidade”. O documento menciona especificamente o uso de pedestais de diâmetro ínfimo, técnica historicamente utilizada em contextos de tortura política na América Latina.
Violação constitucional e dever social
A fundamentação jurídica da carta baseia-se no Artigo 5º da Constituição Federal, que estabelece a proibição da tortura e do tratamento degradante como valores absolutos, independentemente de “consentimento” prévio por contrato ou busca por prêmios. “Ao transformar esse tipo de sofrimento em espetáculo, a televisão brasileira falha com o seu dever social”, afirma a Comissão, ao Artigo 221 da Carta Magna, que determina que concessões públicas de radiodifusão devem ter finalidades educativas e culturais, respeitando os “valores éticos e sociais da pessoa e da família”.
Além da crítica, a CEMDP alerta para o risco de “dessensibilização da população diante da dor alheia”. O documento cita o conceito de trauma transgeracional, sugerindo que a normalização de tais violências em rede nacional reforça traumas coletivos em vez de promover a reparação histórica.
Ao final, a Comissão pede que a emissora “considere seriamente a possibilidade de rever a utilização das práticas descritas” e convoca a sociedade a refletir sobre a própria adesão a essa forma de entretenimento sádico.
A posição da emissora e o estado da vítima
A carta foi encaminhada à diretora de Conteúdo da TV Globo, Leonora Bardini. Até o momento, a emissora não respondeu diretamente às acusações de “banalização da tortura” feitas pela Comissão. Logo após o incidente, em 18 de janeiro, a Globo limitou-se a informar que a dinâmica seguiu os protocolos de segurança e que a participante recebeu pronto atendimento.
Rafaella, que enfrentava o confinamento mesmo convivendo com uma doença autoimune (tireoidite de Hashimoto), foi eliminada da disputa pela vaga após o desmaio. Ela recobrou a consciência ainda nos bastidores, recebeu assistência médica e já se encontra em casa. Nas redes sociais, a ex-candidata tranquilizou os seguidores dizendo estar “pronta para outra” e celebrou o prêmio de consolação de R$ 50 mil, embora o desmaio dela tenha reforçado as críticas sobre os limites físicos impostos pelo programa.
Veja: Estratégias e narrativas de comunicação na luta de ideias https://www.youtube.com/watch?v=-D1bQLShVk0

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