A nova cara do imperialismo norte-americano
Sob a nova doutrina “Donroe”, os EUA trocam a retórica
democrática pela força bruta, sequestrando governantes para confiscar petróleo
e reafirmar seu hemisfério exclusivo
Marcos de
Queiroz Grillo*/A Terra é Redonda
1.
Há
tempos Donald Trump cogitava a ideia de invadir a Venezuela. E os EUA nunca
haviam atacado diretamente um país sul americano. Depois de um período intenso
de sanções econômicas que fizeram a economia da Venezuela encolher, ocorreu o
bloqueio naval às exportações de petróleo do país, com o concurso de
significativo número de militares e de reiterados ataques a embarcações
venezuelanas no Caribe sob a alegação nunca comprovada de que estariam
transportando drogas.
Em
3 de janeiro de 2026, Donald Trump desferiu uma operação de extração do
presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cília Flores do Forte Tiuna, em
Caracas, onde estavam escondidos. Diversos aviões atacaram alvos tanto na costa
(Porto de La Guaira e Aeroporto Higuerote) como em Caracas (Observatório
Cargigal, Base Militar La Carlota e Forte Tiuna) para neutralizar as defesas
antiaéreas e possibilitar o deslocamento dos helicópteros utilizados no
sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa.
Tais
ações foram tomadas sem considerar os preceitos do direito internacional sobre
soberania dos países, resoluções da ONU e seu Conselho de Segurança, não
consultado e, pior, sem nenhuma autorização do Congresso norte-americano.
A
operação foi preparada durante meses e teve por base informações obtidas pela
Agência Central de Inteligência (CIA), Agência de Segurança Nacional (NSA) e
Agência Nacional de Inteligência Geoespacial (NGA). As alegações para tal
sequestro são baseadas em diversas denúncias de narcotráfico, prejudiciais aos
EUA. Tais acusações serão julgadas em Nova Iorque. Desnecessário dizer que
durante a preparação da operação foram obtidas informações confidenciais sobre
o dia a dia de Nicolás Maduro e de Cília Flores, com base em cooptações de
colaboradores próximos deles, incluindo a guarda de segurança e militares de
alto nível
A
estratégia dos EUA para tal ato de barbaridade é a de tirar Nicolás Maduro do
comando da Venezuela e contar com o concurso da nova presidente interina da
Venezuela, Delcy Rodríguez para, no âmbito de um acordo de cooperação com os
EUA, possibilitar investimentos de empresas norte-americanas na PDVSA. Com isso
haveria a retomada dos níveis de produção já atingidos por ela no passado, da
ordem de quatro milhões de barris/dia.
Essa
estratégia se insere no contexto do “realismo flexível” propugnado no novo
documento da Estratégia de Segurança Nacional (ESN) em que são priorizados seus
interesses nacionais concretos, usando a força quando necessário. No caso
concreto o interesse nacional dos EUA é o domínio e aumento da produção de
petróleo da PDVSA e o redirecionamento de suas exportações, eliminando as
vendas para a China.
2.
Os
EUA descartaram entregar o poder para a direita venezuelana que venceu as
eleições em julho de 2024, fraudadas por Nicolás Maduro. Como sabem da
influência e penetração generalizada dos militares na vida econômica do país,
que comandam a grande maioria das empresas públicas venezuelanas, preferiram
não promover uma mudança de regime e comandar o país através da Delcy Rodríguez
e alguns militares, todos já previamente cooptados.
Há
um total de 2.000 generais na Venezuela em contraste com 800 nos EUA e 200 no
Brasil. Dentre eles, muitos serão descartados dos postos de comando e deverá
ocorrer a volta de muitos ex-técnicos da PDVSA que foram demitidos pelo então
presidente Hugo Chávez em 2003 por ocasião da paralização da empresa por mais
de dois meses, na tentativa de derrubar seu governo. Trata-se de técnicos
altamente qualificados e que trabalham nas mais diversas petroleiras do mundo.
Os generais que permanecerão no comando do país terão a responsabilidade de
conter as milícias armadas.
Como
se sabe, a Venezuela dispõe da segunda maior reserva petrolífera do mundo, da
ordem de 303 bilhões de barris e seu petróleo, de fácil extração, está
devidamente mapeado para pronta exploração. Trata-se de promover os
investimentos necessários para o reequipamento da empresa que enfrenta sérios
problemas de obsolescência e produtividade, além de baixíssima capacidade
administrativa.
Delcy
Rodríguez, antes de se tornar Presidente interina, acumulava a vice-presidência
com os ministérios da Economia e do Petróleo. É considerada capacitada para
gerir o país sob o jugo e orientação dos EUA. Daí ter sido escolhida por Donald
Trump e Marco Rubio. Caso haja algum problema de desalinhamento com as
orientações dos EUA, será substituída de comum acordo com os generais da linha
de frente.
Trata-se,
realmente, de um caso inusitado. Os EUA terão de descartar inúmeros generais
incompetentes envolvidos na administração da PDVSA que é o objeto central de
interesse de Donald Trump. Possivelmente, em paralelo, também haverá
envolvimento dos EUA na exploração de minerais de terras raras. A agenda será
imposta pelos EUA aos “bolivarianos” e, muito provavelmente, ficará restrita à
defesa, petróleo e minerais raros. Como a Venezuela sempre sofreu do OIL
DISEASE, uma retomada da produção de petróleo é fundamental para a geração dos
recursos que o país requer para seguir em frente.
De
fato, é a primeira experiência dos EUA na prática da doutrina “Donroe” que
retoma com todas as letras o domínio do hemisfério ocidental como sua área de
exclusiva influência, em prejuízo de eventuais concorrentes. E nesse sentido,
os russos ganham sinal verde para um acordo favorável com a Ucrânia e os
chineses para a anexação de Taiwan.
A
Venezuela passa a ser o caso de demonstração para esse conceito de áreas de
influência. E fica um aviso para os demais países do hemisfério que não
estiverem devidamente alinhados com os objetivos da doutrina “Donroe”: a força
será utilizada, quando necessário.
Caso
se concretize o cenário acima descrito, os prováveis desfechos da experiência
inusitada da administração conjunta da Venezuela pelos EUA e “bolivarianos”
serão os seguintes: (i) a se confirmar eventual sucesso, haverá eleições
democráticas futuramente, que poderão ser vencidas tanto por Delcy Rodríguez
como pela direita, e vida que segue; (ii) no caso de eventual fracasso, poderá
existir reação popular e sublevação das milícias e dos militares, o que terá de
ser combatido pelos imperialistas norte-americanos.
A
conferir.
*Marcos de Queiroz Grillo é economista e mestre em administração pela UFRJ.
Imagem: Muhammed Nuri Çiçenoğlu
Leia também: Trump: quando a “insanidade” tem uma direção clara https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/esperneio-imperialista.html

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