Algoritmo humano versus maquínico?
Entre pânico moral e inovação, discute-se o
uso de IA na escrita e a repetição histórica da resistência humana ao novo
Olyveira Daemon/Rascunho
A estupidez humana é uma obra de arte. Uma obra-em-progresso digna da mais profunda contemplação. Talvez a maior obra de arte já realizada.
Enquanto isso, confortavelmente acomodado no melhor lugar da arquibancada, aqui estou, um balde de pipoca na mão esquerda, uma garrafa de suco de laranja na outra mão, contemplando a estupidez humana em campo, suando a camisa, dando o sangue por mais uma vitória.
Notícia
recente em The New York Times: Indício de inteligência
artificial faz editora voltar atrás na publicação de livro. O
romance Shy Girl, de Mia Ballard, será suspenso no Reino
Unido e não será mais lançado nos Estados Unidos.
Achei
estúpida essa decisão comercial. As editoras estão priorizando o pânico moral
em vez de priorizarem o mérito literário da obra, a qualidade do texto.
A
decisão pune a inovação técnica, ignorando que a IA tem tudo pra ser uma
ferramenta de refinamento criativo, algo que os corretores ortográficos já
fazem há três décadas. Por isso é uma decisão estúpida.
O
cancelamento tenta privar o público de avaliar a obra por seu valor literário,
tratando a tecnologia como uma contaminação em vez de uma evolução inevitável
do processo de escrita moderno. Por isso é uma decisão estúpida.
A
hipocrisia é braba, meu povo: o mercado exige pureza, mas adora um ghostwriter ou
um editor — às vezes uma pequena equipe — que reescrevam capítulos inteiros pra
salvar um original ruim, mas com potencial comercial.
O
trabalho do copidesque sempre foi uma espécie de algoritmo humano refinando os
originais mal escritos ou problemáticos, e ninguém chama isso de fraude. O
editor Max Perkins supostamente “melhorou drasticamente” os textos do Thomas
Wolfe (assistam ao filme O mestre dos gênios).
O editor Gordon Lish também fez o mesmo com os textos do Raymond Carver.
Acordem,
queridos! Essa é uma prática corriqueira em todas as grandes editoras.
Essas
intervenções também ocorrem o tempo todo nas oficinas de criação literária e no
trabalho editorial dos leitores betas.
{Alexandre
Dumas foi um dos autores mais prolíficos da História, tendo publicado mais de
duzentos e cinquenta livros. Mas o volume monumental de sua obra só foi
possível graças a um sistema de colaboração não creditada que funcionava quase
como uma fábrica literária. Perguntinha óbvia: quantos autores depois de Dumas
também não usaram em segredo esse sistema de colaboração não creditada?}
Moral
da história, moral da histeria: os livros que chegam às livrarias,
principalmente os best-sellers, raramente são o texto bruto do autor. Tentar
punir a IA é ignorar esse fato.
No
fim, o que importa é se a obra funciona esteticamente, não se a obra teve um
editor de carne e osso ou um software ajudando a lapidar o texto. Ou até mesmo
escrevendo livros melhores do que noventa por cento dos lançamentos “cem por
cento humanos” que a gente encontra mensalmente nas livrarias.
Resistência atávica
Todos nós
temos, instalado no genoma e no cérebro, um programinha biológico, ancestral,
primitivo, cuja tarefa é basicamente ficar repetindo, diante de qualquer
novidade cultural ou tecnológica, a costumeira ladainha: isso é um absurdo, não
vai dar certo, vai acabar com a civilização etc. etc.
Muito
tempo atrás, esse programinha abominou a invenção da escrita. O rabugento
Platão criticava essa novidade, dizendo que ela enfraqueceria a memória e
criaria uma ilusão de sabedoria. Para muitos outros rabugentos dessa época,
registrar palavras e frases fora da mente era quase uma ameaça à própria
inteligência humana.
Mais
tarde, reação semelhante atingiu a prensa de tipos móveis.
Quando
Gutenberg automatizou a impressão, o pânico foi tanto religioso quanto
intelectual. Líderes religiosos temiam que a disseminação descontrolada da Bíblia gerasse
interpretações equivocadas e heréticas, enquanto estudiosos reclamavam que a
abundância de livros criaria uma confusão de informações impossível de
gerenciar.
A
lista é grande. Também sofreram ataques o trem a vapor, a eletricidade
doméstica, a vacina, a fotografia, o telefone, a bicicleta, o rádio, a
calculadora de bolso, a energia atômica… Até mesmo o coitado do guarda-chuva
levou umas bordoadas.
No
século 18, em Londres, Jonas Hanway foi ridicularizado e até atacado
fisicamente por carregar um guarda-chuva. Na época, o acessório era visto como
um sinal de fraqueza francesa e uma ofensa a Deus. Afinal, se Deus mandou
chuva, você deveria se molhar. Os cocheiros de carruagens também odiavam a
invenção, temendo que ela roubasse seus clientes em dias de tempestade.
O
alvo do momento é a inteligência artificial. Estamos vivendo agora este pânico.
O medo varia… Uns temem que as máquinas substituam o trabalho humano e tornem
nossa utilidade econômica irrelevante. Outros temem a criação de algoritmos
autônomos que tomem decisões imprevisíveis ou desalinhadas com nossos valores.
Outros temem que a simulação digital destrua nossa capacidade de distinguir o
que é real do que é artificial.
Enfim,
é a versão moderna do medo da escrita: a preocupação de que estamos
terceirizando nossa essência pra algo que não podemos controlar totalmente.
Temos
uma tendência histórica de olhar para o novo e enxergar o apocalipse.
O
mais irônico é que mesmo rodando em potência máxima o programinha do “não,
obrigado, não vai dar certo” foi incapaz de impedir a propagação das invenções
mencionadas e de milhares de outras.
Parece
que também temos instalado no genoma e no cérebro um contra-programinha mais
insistente: o software da compulsão tecnológica.
Democratização técnica versus autoria artística
Muitas
pessoas criticam o uso de inteligência artificial na produção dirigida {estou
falando em curadoria} de textos jornalísticos, acadêmicos e literários: poemas,
contos, crônicas e romances… Mas poucos conseguem enxergar o paralelo direto
que há entre a produção de textos e a evolução da fotografia digital.
Na
fotografia digital, a máquina {um iPhone ou um bom smartphone} realiza todo o
processamento técnico enquanto o fotógrafo se concentra apenas no enquadramento
e no instante do clique. De maneira análoga, a IA generativa permite a
construção de textos complexos a partir de comandos definidos pelo escritor,
deslocando o esforço da redação mecânica para a curadoria intelectual.
Tanto
na fotografia digital quanto na escrita digital, o valor da obra deixa de
residir na execução puramente técnica e passa a ser medido pela capacidade
humana de dirigir a tecnologia, a fim de alcançar um resultado de qualidade.
A
resistência à inteli-arti pode ser filtrada pela hierarquia do talento. Os dez
por cento de gênios que compõem o topo da pirâmide literária {a elite dos
autores} mantêm a soberania graças à força de seu talento. Essa galera não
precisa da IA generativa. Do mesmo modo que jamais precisou de um ghost-writer
ou de um copidesque humanos.
Para
os noventa por cento que não possuem esse virtuosismo, a inteli-arti não é uma
substituta da criação, mas um recurso de compensação técnica. Ela permite que
autores medianos e medíocres transcendam suas limitações técnicas e alcancem
certa sofisticação formal.
Douglas Adams
Um
conjunto de regras que descrevem nossas reações às tecnologias:
1.
Tudo o que já estava no mundo quando você nasceu é normal e corriqueiro e
apenas uma parte natural da maneira como o mundo funciona.
2. Tudo o que é inventado entre os seus quinze e trinta e cinco anos é novo e
emocionante e revolucionário, e pode inclusive se tornar sua carreira
profissional.
3. Tudo o que é inventado após os seus trinta e cinco anos vai contra a ordem
natural das coisas.
[A espetacular e incrível vida de Douglas Adams, de Jem Roberts]
Ilustração: Carne Levare
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