20 abril 2026

Baixo nível nas redes

Fim de feira na internet
Frutas que falam (só bobagem) compõem a nova safra da “merdificação”, uma espiral de declínio das redes sociais acelerada pela IA
Victor Calcagno/piauí  
 

“Ninguém pode saber que eu vejo isso.” Comentários assim, num tom meio envergonhado, meio debochado, são frequentes entre usuários da internet que se deparam com um novo tipo de conteúdo viral: as frutas antropomórficas. Elas aparecem em vídeos feitos com inteligência artificial que, pelo menos desde fevereiro, têm bombado no TikTok – primeiro em inglês e depois em outros idiomas. São, em geral, animações que contam histórias curtas ou meras cenas – microdramas supercoloridos, escandalosos e com roteiros simplórios, de quase nenhuma complexidade, quase sempre envolvendo alguma humilhação, adultério ou misoginia. Tudo vivido por frutas em corpos humanos. Uma mulher amarelada com uma cabeça de abacaxi, um homem todo roxo cujos cabelos são cachos de uvas, e por aí vai.

Com essa descrição, não é de se espantar que as pessoas reajam com humor e alguma perplexidade. Mas as frutas estão por toda a parte e dão audiência. A trend estourou quando surgiram vídeos desses personagens num reality show de namoro (o Fruit Love Island). Os episódios duravam de 1 a 3 minutos e rapidamente atingiram a marca de 10 milhões de visualizações cada. Desde então, as frutas aportaram em vários países, e o Brasil, que é prolífico nesse tipo de atividade, logo fez vídeos delas falando português, dançando funk, vestindo camisetas de times nacionais, trabalhando nos mercados da rede Atacadão e sofrendo violência policial. A precariedade das histórias é a mesma, mas, por aqui, as frutas ganharam ingredientes nacionais – a começar pelos nomes, como B ananildo, Moranguete, Abacatudo. Não faltou espaço para trocadilhos maliciosos, caso do personagem Tomatudo.

As frutas falantes são um caso típico de AI slop – expressão que poderia ser traduzida como “IA barata” e é usada para se referir a conteúdos malfeitos, breves e repetitivos produzidos por ferramentas de IA generativa. O que há de novo nesse fenômeno é o formato. Até então, os AI slops circulavam principalmente como imagens estáticas ou animações de poucos segundos, numa estética próxima à dos memes tradicionais. Agora, proliferam também em vídeo. O resultado disso tem sido uma inundação de conteúdo artificial nas redes sociais. Cada vez mais, postagens orgânicas de nossos amigos e familiares têm sumido dos feeds, dando lugar a animações toscas que, de forma um tanto vulgar, produzem engajamento fácil, agradando os algoritmos. 

A esse processo, o romancista, blogueiro e ativista canadense Cory Doctorow deu um nome pouco sutil: merdificação. No livro Enshittification: Why everything suddenly got worse and what to do about it (lançado em 2025 e ainda sem tradução no Brasil), Doctorow mostra como empresas de tecnologia, sobretudo as que constituem monopólios ou oligopólios, não têm hesitado em piorar de propósito seus serviços em troca de um retorno financeiro mais direto e valorização acionária. Isso, segundo ele, acontece em três etapas. “Primeiro, as plataformas são boas com seus usuários. Depois elas abusam dos usuários para agradar seus clientes empresariais. Em seguida, elas abusam dos clientes empresariais para recuperar para si todo o valor [gerado nas plataformas]. No final, elas se tornaram um monte gigante de merda.”

Dos casos descritos por Doctorow, destaca-se o do Google. Dona de 90% do segmento de buscas na internet, a empresa tem tanta vantagem contra os concorrentes que seu vice-presidente de Finanças chegou a afirmar, de acordo com um memorando citado no livro, que “o Google é capaz de ignorar uma das leis fundamentais da economia… a de oferta e demanda”. Na prática, conta Doctorow, isso fez a empresa piorar de propósito seu sistema de buscas, de modo que sejam necessárias mais pesquisas para se atingir o mesmo resultado – e, com isso, o usuário visualiza mais e mais propagandas, gerando receita para o Google. A situação fica ruim para quem busca informação, por motivos óbvios, mas também para os anunciantes, já que sua propaganda, misturada a milhões de outras, perde eficácia.

Embora também aborde as IAs, o livro de Doctorow foi publicado antes do surgimento de trends como as frutas falantes. O retrato que ele pinta das big techs, no entanto, ajuda a explicar os fenômenos mais recentes. Afinal, tudo indica que as plataformas estão “merdificando” nossos feeds para, com isso, promover suas ferramentas de IA. Estamos diante de um cenário em que agentes de IA produzem e postam conteúdos sintéticos, promovidos por outros agentes IA que curtem, compartilham e comentam essas postagens. São redes sociais em que robôs interagem com robôs o tempo todo e cada vez mais, até o infinito. O usuário comum, humano, se vê numa espécie de cemitério, rodeado de plataformas-zumbi – ou como coloca Doctorow, “plataformas que continuam rastejando mesmo depois que já deviam ter sido abatidas e enterradas numa cova rasa”. Difícil ler essa afirmação e não pensar no Facebook e no X. 

Na corrida pela consolidação de seus modelos de IA, que envolve bilhões de dólares em investimentos, a “merdificação” parece ser um custo que as big techs estão, até agora, dispostas a pagar. Os usuários que aguentem todo o lixo – ou apenas parem de usar essas plataformas, se estiverem dispostos a pagar o preço que isso exige hoje. 

“Por que eu tô com tesão num abacaxi?”, pergunta uma pessoa. “Já estou ficando preocupada, chorei por causa de uma uvinha doce”, diz outra. A eficácia desse tipo de vídeo não deveria surpreender ninguém a essa altura. Há muitos anos, as empresas de tecnologia se tornaram exímias manipuladoras dos nossos impulsos e emoções. Especializaram-se em prender nossa atenção em segundos e em interpretar nosso jeito de rolar o feed para nos oferecer o tipo de conteúdo mais apelativo a cada um.

O apelo das frutas antropomórficas pode ser explicado por três características principais: o visual chamativo e supercolorido, os enredos que recompensam em um minuto e as personagens sexualizadas (sobretudo mulheres). Essa tríade costuma ser recompensada pelos algoritmos devido ao seu alto poder de engajamento. Enquanto as cores e figuras à la Disney atraem a atenção de crianças e jovens, os dramas bombásticos e as interações sexualmente sugestivas são isca certa para adultos. 

“O conteúdo é uma porcaria, mas gosto de assistir para me desestressar”, diz Nicole Belastro, empresária paulistana de 40 anos que comentou num desses vídeos e, contatada pela piauí, aceitou conversar. Seu comentário, debochando da aparente inexistência de métodos contraceptivos no universo hortifruti, continha a mesma verve irônica de muitos outros. Ela atribui o sucesso das frutas falantes aos impactos da pandemia, época em que, segundo ela, muita gente se entregou ao “entretenimento volátil, que não demanda muito da nossa atenção”. Nicole conta que não deixa que o filho de 7 anos assista aos Abacatudos e Moranguetes. E diz que, apesar de ter embarcado na trend por um tempo, já enjoou. Acha que a modinha logo vai passar.

A onda de frutas falantes pode ser enquadrada naquilo que se chama de brainrot, expressão em inglês usada para se referir a conteúdos de qualidade tão duvidosa que “apodrecem” o cérebro de quem assiste. No início de 2025, o campeão nessa categoria era o brainrot italiano, uma onda de imagens produzidas por IA com personagens grotescos batizados com nomes pseudoitalianos (como o macaco Chimpanzini Bananini). As frutas falantes levaram esse tipo de material a outro nível, graças, em parte, ao aprimoramento das ferramentas audiovisuais de IA generativa, como Veo (do Google), Movie Gen (Meta), Grok Imagine (X), Seedance (da ByteDance, empresa dona do TikTok) e Sora (da OpenAI, que será descontinuado).

No Brasil, as contas de TikTok e Instagram dedicadas aos dramas tutti frutti superam as centenas. A grande semelhança entre elas – com vídeos idênticos e enredos repetidos – dá a impressão de que até mesmo a divulgação desses conteúdos é automatizada, formando uma linha de produção inteiramente sintética, em que as postagens são criadas, publicadas e promovidas por inteligência artificial. Não é nenhum delírio apocalíptico imaginar que boa parte do que vemos hoje, em nossos feeds, foi produzido por agentes IA configurados individualmente para cumprir certas tarefas. O trabalho humano, nesse caso, seria apenas o de supervisionar o processo e, claro, embolsar o dinheiro que a monetização desses vídeos tende a produzir.

Uma evidência disso é o fato de que, nesses mesmos perfis, são ofertados cursos para quem deseja “lucrar com vídeos de frutas falantes”. Um deles, segundo o anúncio, custa “aponas R$ 19,99” – erro de grafia sinalizando que, ao menos nesse texto, houve algum trabalho humano. Outra propaganda diz, em letras garrafais, que “VOCÊ ESTÁ PERDENDO A CHANCE DE FATURAR COM NICHOS VIRAIS!” Embora muitas dessas contas tenham sido criadas há pouco tempo (fato atestado pelo selo de “novo”), várias somam milhares de seguidores, o que costuma ser um indício de que robôs estão alavancando os números. A piauí tentou contato com treze perfis do gênero. Só três responderam: um negou conceder entrevista, e os outros dois, depois de aceitarem inicialmente, pararam de responder às mensagens.

Os conteúdos de AI slop são, sem dúvida, lucrativos, mas é difícil prever a durabilidade desse modelo de negócios. Embora as redes sociais constituam um oligopólio, não é totalmente improvável que o usuário comum, cansado da “merdificação” de seu próprio feed, se afaste das plataformas. Com isso, sairão também os anunciantes, que ainda são os responsáveis por grande parte das receitas no Vale do Silício. Talvez por isso, o YouTube anunciou no fim do ano passado que estava banindo ou desmonetizando canais 100% sintéticos que vinham inundando a plataforma com milhares de vídeos diários feitos sob medida para os algoritmos. O problema, porém, não foi embora, e tem afetado principalmente o público infantil, já que o YouTube Kids é um dos terrenos mais f&eacut e;rteis para a proliferação de AI slop. No começo de abril, mais de duzentas entidades e especialistas em educação infantil assinaram uma carta pública pedindo a remoção desses conteúdos da plataforma.

Nas outras redes, o circo continua solto. As frutas, provavelmente, serão em breve substituídas por novos personagens de IA tão ou mais eficazes em prender a atenção dos usuários numa fração de segundos. Resta saber até quando esse formato será lucrativo para as big techs – e até quando os humanos vão tolerar tanto entulho.

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Engrenagem mistura propaganda política, dinheiro sujo e plataformas que lucram https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/mafia-digital-milionaria.html 

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