01 novembro 2026

Palavra de poeta

Catar feijão

João Cabral de Melo Neto     


1

Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: Ele era assim…
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

2

Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em vôo se arremeda,
​​​​​​​

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.


[Ilustração: Wellington Virgolino]

Leia também: "Para te ver é longa toda espera" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/palavra-de-poeta_42.html

Nenhum comentário: