Catar feijão
João Cabral de Melo Neto
1
Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: Ele era assim…
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.
Aceita
o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.
2
Porém,
se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em vôo se arremeda,
deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.
[Ilustração: Wellington
Virgolino]
Leia também: "Para te ver é longa toda espera" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/palavra-de-poeta_42.html

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