31 julho 2026

PCdoB: Convenção Nacional

PCdoB oficializa apoio a Lula e Alckmin com defesa da soberania nacional
Convenção Nacional confirma chapa Lula-Alckmin e alianças com PSB, PDT e a Federação PSol-Rede; dirigentes defendem democracia, desenvolvimento, soberania e mobilização
Cezar Xavier/Vermelho    

O PCdoB realizou nesta quinta-feira (30) sua Convenção Eleitoral Nacional, em formato híbrido, oficializando o apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à candidatura de Geraldo Alckmin a vice-presidente. Integrante da Federação Brasil da Esperança, ao lado de PT e PV, o partido ratificou as coligações com PSB, PDT e a Federação PSOL-Rede, além de autorizar a Comissão Política Nacional a deliberar sobre eventuais ajustes. Também foi aprovado o manifesto “PCdoB com Lula e Alckmin”.

Nádia: soberania, mobilização e confiança

A presidenta nacional em exercício do PCdoB, Nádia Campeão, definiu a soberania nacional como eixo central da disputa de 2026. “Nesta eleição, nós precisamos defender a soberania do Brasil. O Brasil precisa de um presidente que defenda o país, a economia brasileira, o povo brasileiro e a Constituição brasileira”, afirmou durante a convenção.

Ao Portal Vermelho, Nádia disse que o partido se preparava “há muito tempo” para formalizar o apoio à chapa Lula-Alckmin. “Este é um ponto de inflexão para iniciar a reta final da campanha”, declarou. Segundo ela, o clima observado nas convenções estaduais demonstra o engajamento da militância. “A gente chega muito animado a esta convenção. Vamos esperar logo o dia em que a campanha poderá ir para as ruas. Vai ser uma alegria lutar pela vitória de Lula e Alckmin.”

A dirigente também enfatizou que a vitória eleitoral exige mobilização permanente para assegurar novos direitos e consolidar um projeto nacional de desenvolvimento.
 

Protocolos, unidade e início da campanha

O secretário de Organização, Altair Freitas, formalizou os termos da coligação e destacou que a convenção encerra uma etapa política e inaugura a disputa eleitoral. Em declaração ao Portal Vermelho, afirmou que o encontro transcorreu “num clima de ampla unidade”, com todas as deliberações aprovadas por unanimidade.

Segundo ele, a convenção “coroa uma parte do processo eleitoral” ao oficializar o apoio à chapa Lula-Alckmin e formalizar a coligação com os partidos aliados. Altair ressaltou ainda que, a partir de 16 de agosto, começa a campanha oficial e o PCdoB chega a essa fase com “candidaturas fortes representando o partido em todo o Brasil”.

Luciana destaca Frente Ampla e emancipação nacional

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação e presidenta nacional licenciada do PCdoB, Luciana Santos, reafirmou a identidade histórica da legenda com a democracia e a emancipação nacional. “Nós somos um Partido imprescindível à democracia e à luta pela emancipação nacional”, afirmou, defendendo a continuidade da Frente Ampla liderada por Lula e Alckmin como instrumento para enfrentar a extrema direita, ampliar a governabilidade e fortalecer a soberania tecnológica do país.

Representantes de PT, PSOL e PV também defenderam a unidade democrática como condição para enfrentar o avanço da extrema direita. A estratégia do PCdoB para 2026 combina a reeleição de Lula, a ampliação da bancada comunista no Congresso e o fortalecimento da organização partidária nos estados e municípios.

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Três "questões de ordem" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0658357328.html

Minha opinião

Extrema direita segue dividida
Luciano Siqueira    

Triste destino o da direita brasileira: dependente da liderança destrambelhada do ex-presidente presidiário Jair Bolsonaro, enfrenta o pleito presidencial de agora sem razão e sem destino.

Segue dividida, sem projeto comum e taticamente embaraçada.

Até as gestões de última hora na busca de uma companheira de chapa para Flávio Bolsonaro (PL) parece esbarrar em obstáculos de toda ordem. A hipótese da senadora Tereza Cristina (PP) tudo indica que não vingará porque seu partido não crer na viabilidade do projeto e prefere manter a liberdade de alianças nos Estados, mirando o Senado e a Câmara dos Deputados como prioridade.

O bolsonarismo raiz representado pelo clã familiar tenta a todo custo preservar o controle sobre o espólio político do indigitado Jair e nem para essa empreitada se une. A dita reconciliação entre a madrasta e enteado está muito longe de corresponder aos frios e burocráticos pronunciamentos recentes de ambos.

Entrementes, as pesquisas eleitorais seguem constatando a persistência de percentual alto do eleitorado identificado com ideias e comportamentos neofascistas e, portanto, tendente ao voto na direita.

Caiado, Zema e Flávio Bolsonaro se digladiam em função desse espólio. Com um detalhe: nenhum deles ostenta um projeto para o Brasil. Até quando?

[Ilustração: imagem produzida em IA]

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Minha opinião

Excesso de aliados? 
Luciano Siqueira 

Quanto mais aliados, melhor? Nem sempre. Depende de uma boa gestão das alianças. 

Miguel Arraes abordava a questão citando um general argelino, herói da guerra de libertação, para quem nem sempre o excesso de apoios é bom. 

Depende. 

Novas hordas de combatentes implica em vesti-los, treiná-los e armá-los — implicando dispêndio de energia e meios. 

Mais: também é preciso convencê-los quanto à estratégia, a tática e as formas da luta. 

Algo semelhante parece acontecer no âmbito dos grupos políticos ora aliados da governadora Raquel Lyra. 

Para seu projeto de reeleição, quanto mais apoio melhor — desde que bem administrados. Insatisfações momentâneas, às vésperas das convenções, poderão se converter em dissidências difinitivas.

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O voto híbrido ameaça Raquel https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_01230491090.html 

Arte é vida

 

Pedro Figari

Monopólio chinês de código aberto

A inteligência artificial chinesa
Ao contrapor o monopólio estadunidense ao modelo chinês de código aberto, a corrida pela Inteligência Artificial revela uma oportunidade histórica para a soberania tecnológica do Sul Global
MIGUEL ENRIQUE STÉDILE*/A Terra é Redonda   

1.

Poucos meses antes de Donald Trump anunciar sua Estratégia de Segurança Nacional, a chamada Doutrina Donroe, que estabelecia claramente o desejo de tratar todas as nações do Ocidente como colônias, protetorados ou mero compradores da potência estadunidense, as mesmas ideias já estavam expressas em outro documento, no seu Plano Nacional de Inteligência Artificial, batizado de “Vencendo a corrida” e com o objetivo de construir um “domínio tecnológico global inquestionável”.

Poucos dias depois do plano norte-americano, a China divulgou o seu, e a distância entre os dois títulos já dizia quase tudo. O Plano de Ação para a Governança Global da Inteligência Artificial trazia treze pontos, entre eles a construção de comunidades transfronteiriças de código aberto e o compromisso de ajudar o Sul Global a “acessar e utilizar verdadeiramente a Inteligência artificial”. Um ano depois, ambos materializaram suas promessas.

Em 2026, os Estados Unidos já havia integrado a Inteligência artificial à plataforma que gerencia a caça de imigrantes nos Estados Unidos, ao genocídio em Gaza e o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Já a China, anunciou, em julho de 2026, a fundação da Organização Mundial para a Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO, na sigla em inglês), e apresentada como resposta “ao chamado do Sul Global”.

A definição que o presidente Xi Jinping deu à Inteligência artificial, em seu discurso, foi o de um “acervo inestimável em que está cristalizada a sabedoria coletiva de toda a humanidade”. Não um produto ou um ativo proprietário, mas um bem comum. O oposto da prática de apropriação privada que hoje sustenta as fortunas do Vale do Silício.

Vale destacar os quatro princípios anunciados pelo presidente Xi Jinping. O primeiro é o código aberto e os ganhos compartilhados como diretriz de desenvolvimento, recusando o modelo de caixa-preta como modelo de negócio e a falta de transparência na forma como são treinados os Grandes Modelos de Linguagem (LLMs, na sigla em inglês). O segundo é a segurança sob controle humano, acompanhada da rejeição expressa à prática de “generalizar o conceito de segurança nacional no campo da Inteligência artificial e colocar a segurança de um país acima da de todos”.

Ao contrário de Washington, que justifica sanções, embargos de chips e o cerco tecnológico a quem ousa desafiá-lo com o argumento de “segurança nacional”. O terceiro princípio é a inclusão civilizacional, com o compromisso de que a inteligência artificial não erode “a diversidade das civilizações mundiais ou a singularidade das culturas”. O quarto é o multilateralismo efetivo, com papel central das Nações Unidas, onde a própria China já havia costurado, por consenso, uma resolução da Assembleia Geral sobre a construção de capacidades em IA nos países em desenvolvimento. 

2.

Aos princípios seguiram-se compromissos: cinco mil vagas de capacitação em Inteligência artificial para países em desenvolvimento nos próximos cinco anos; centros internacionais de cooperação em aplicação da tecnologia articulados com a ASEAN, a Liga Árabe, a União Africana, a CELAC, a Organização de Cooperação de Xangai e os BRICS; e a abertura, a trinta países, do Mazu, o sistema chinês de alerta meteorológico por inteligência artificial, um instrumento de valor direto para camponeses e pescadores do Sul, que são os primeiros a pagar o preço da desordem climática.

A cooperação oferecida ao nosso lado do mundo organiza-se em quatro eixos: a co-construção de infraestrutura, o desenvolvimento conjunto e a valoração dos ativos de dados, o aprendizado mútuo de governança – a assessoria ao Parlamento de Gana na redação de sua legislação digital é um exemplo já em curso – e a formação conjunta de quadros, com a meta declarada de formar centenas de milhares de desenvolvedores.

Evidentemente, o Sul Global teria toda razão para olhar com reticência ou desconfiança para as propostas chinesas. Não faltaram “alianças para o progresso” em nossa história que prometeram muito e pouco entregaram ou eram apenas mecanismos de dominação financeira e cultural. Porém, a China tem a seu favor o fato que a WAIC só se está se propondo a fazer, em patamar global, o que já era uma política de Estado chinesa e que já vinha, episódio a episódio, revelando o quanto da política estadunidense apenas reafirmava a lógica das big techs, enquanto inflava mais uma bolha do sistema financeiro.

Para ser mais objetivo, o código aberto é o pilar estruturante da política chinesa para a IA. O caso exemplar é do modelo de linguagem Deep Seek. A empresa publicou sua metodologia central de treinamento na revista Nature, tornando-se o primeiro grande modelo de linguagem submetido a revisão por pares. Os revisores, pesquisadores da Hugging Face e da Universidade Estadual de Ohio, confirmaram que o método de aprendizado por reforço proposto era original, suficiente para os resultados alegados e reprodutível, e desmontaram no processo as acusações de “destilação” indevida de tecnologia alheia.

Ao abrir o modelo e o método, a DeepSeek quebrou o modelo de negócio do Vale do Silício na forma mais alta que a ciência conhece: método público, verificável, apropriável por qualquer instituição do mundo. A DeepSeek treinou seu modelo R1 por cerca de US$ 5,5 milhões, com dois mil GPUs, aproximadamente um centésimo do custo dos esforços americanos comparáveis, e o publicou em janeiro de 2025 sob licença MIT, permitindo uso, modificação e implantação comercial sem restrição. Em dezembro do mesmo ano, o DeepSeek-V3.2 conquistou medalhas de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática e na de Informática.

A API da empresa cobra US$ 0,28 por milhão de tokens de entrada, cerca de dezesseis vezes menos que os serviços americanos equivalentes. No mesmo caminho, os modelos da Qwen, da Alibaba, atingiram 700 milhões de downloads e se tornou o ecossistema aberto mais usado do mundo, superando o Llama da Meta. Os modelos chineses passaram a liderar os downloads globais; em 2025, 80% dos modelos chineses exportados eram abertos. 

3.

Isto significa que o que exigia recursos de escala nacional cabe hoje no orçamento de uma universidade pública, de uma secretaria de educação, de um movimento social. O caso de Singapura é ilustrativo: o SEA-LION, modelo emblemático da iniciativa nacional de Inteligência artificial, abandonou em novembro de 2025 sua base no Llama da Meta e migrou para o Qwen da Alibaba, pré-treinado em 119 idiomas e dialetos, mais adequado ao Sudeste Asiático.

A Malásia lançou o NurAI, primeiro grande modelo fundamentado em princípios da xaria, sobre a estrutura da DeepSeek. E, foi exatamente assim que o MST e a Marcha Mundial das Mulheres construiram a IARAA, uma base de conhecimento inteligente para a agroecologia que roda sobre modelos abertos, mas cujo banco de dados e funcionamento foi estruturado pelos próprios movimentos.

A experiência da IARAA nos remete à outro potencial da aplicação correta da Inteligência artificial, a democratização do conhecimento.  O camponês, o educador, o técnico da cooperativa que, com a ajuda de uma Inteligência artificial acessível e da linguagem natural que dispensa o domínio prévio da programação, constrói as ferramentas que sua vida exige. Ao longo de quatro décadas, a capacidade de construir instrumentos de informação foi retirada das mãos dos trabalhadores e trancada nos departamentos de engenharia de meia dúzia de corporações. Os modelos abertos sempre resistiram a esta lógica e com a IA recuperaram este potencial em outro patamar.

Existem ainda outras dimensões da experiência chinesa que merecem a atenção. Por exemplo, a regulação. A suspensão do IPO do Ant Group em 2020 e a investigação da Didi em 2021 impediram a consolidação de monopólios privados de dados no momento exato de sua formação. A exigência legal de rotulagem de todo conteúdo gerado por IA, em vigor desde setembro de 2025, atacou o problema dos meios sintéticos sem proibir a tecnologia, e conviveu com uma indústria em expansão.

E, especialmente, merece nossa atenção, a questão do Trabalho. Nos canteiros do Shanghai Construction Group, mais de quarenta tipos de robôs assumiram a amarração de vergalhões sob calor de quarenta graus e a solda em espaços confinados. Os trabalhadores substituídos foram requalificados como operadores e técnicos de manutenção, em ocupações mais seguras e mais qualificadas. Isso não aconteceu por benevolência empresarial.

Em setembro de 2024, o Comitê Central e o Conselho de Estado emitiram o primeiro documento estratégico sobre emprego da nova era, com 24 medidas que incluem responder explicitamente aos impactos da Inteligência artificial sobre o trabalho. O pacote prevê formação vocacional subsidiada para mais de 30 milhões de pessoas entre 2025 e 2027, obriga as empresas a destinar 60% de seus orçamentos de educação aos trabalhadores da linha de frente e, ponto institucional decisivo, incorpora os resultados de emprego à avaliação de desempenho dos dirigentes do Partido e do governo do nível de condado para cima.

E, por fim, a estratégia chinesa é construída e planejada, projetada, como uma articulação de políticas transversais, a “IA+”, elevada a política nacional em 2025. Assim, a Inteligência artificial tem sido efetivamente aplicada em energia, manufatura, agricultura, logística, indústrias oceânicas. A CATL usa agentes de Inteligência artificial na inspeção contínua da fabricação de baterias; a Mengniu, na supervisão sanitária do gado; mais de 600 centros de computação inteligente operam no país, e a indústria central de Inteligência artificial ultrapassou 1 trilhão de yuans.

Os dados são compreendidos como um novo fator de produção, determinantes para o planejamento, alocação de recursos e esforços e avaliação, enquanto a Inteligência artificial é vista como uma infraestrutura à maneira da eletricidade e não como categoria de produto para monetizar engajamento.

A metáfora do código aberto na TI se aplica à política em relação à China. Ela não é um modelo a se copiar. O código aberto permite que o original seja alterado, modificado, melhorado, que elementos sejam descartados. O importante é que o conhecimento e o bem original são comuns e disponíveis – como deveria ser a ciência e o conhecimento.

E é possível aproveitar a oportunidade da cooperação em Inteligência artificial pelo Sul Global para a construção de soberania própria. A capacidade de usar, adaptar e controlar modelos abertos já existentes tem seu potencial ampliado, para além da transferência de tecnologia, se ela se apoiar em continuidade do serviço, que não pode ser desligado por chantagem política ou financeira, como corremos o risco sob as plataformas da Microsoft, Google e Amazon; soberania sobre os dados; Autoridade nacional para governar o sistema e autonomia de cada setor para decidir como usa a ferramenta.

A novidade é que, pela primeira vez em muito tempo, a hegemonia tecnológica está em disputa aberta, os padrões ainda não se cristalizaram, e há uma fresta na muralha por onde um projeto próprio pode passar.

*Miguel Enrique Stedile é doutor em história pela UFRGS e integrante da coordenação do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Autor, do livro Brasil: Reforma Agrária como solução (Vozes) [https://amzn.to/435ODwZ]

Referências


XI, Jinping. Unir esforços para construir um sistema justo e razoável para a governança global da inteligência artificial. Discurso de abertura da Conferência Mundial de Inteligência artificial e da Reunião de Alto Nível sobre Governança Global de Inteligência artificial. Xangai, 17 jul. 2026. Xinhua.

XIONG, Jeff. Além do vale do Silício. São Paulo: Expressão Popular, 2026.

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Avanço do comércio internacional chinês desafia barreiras dos EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/china-x-eua.html 

Boa notícia

Desemprego cai a 5,4% e é o menor da série histórica
Com isso, a população desempregada ficou em 5,9 milhões, uma redução de quase 11% (cerca de 718 mil pessoas) frente ao trimestre anterior
Priscila Lobregatte/Vermelho
    

A taxa de desemprego no trimestre encerrado em junho foi de 5,4%, a menor da série histórica iniciada em 2012, com redução de 0,7 ponto percentual (pp) em relação ao trimestre anterior, quando estava em 6,1%. Também foi verificada queda de 0,4 pp na comparação com o mesmo trimestre de 2025, que marcou 5,8%.

Os dados fazem parte da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, publicada nesta quinta-feira (30) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Com isso, a população desempregada ficou em 5,9 milhões, uma redução de quase 11% (cerca de 718 mil pessoas) frente ao trimestre anterior, quando esse contingente era de 6,6 milhões. Em relação ao mesmo trimestre do ano anterior (6,3 milhões), houve variação de -6,3%, o que significa uma redução de 392 mil pessoas desocupadas na força de trabalho.

Na ponta oposta, as pessoas empregadas somam 103,1 milhões, aumento de 1,1% (1.081 mil pessoas) ante o trimestre anterior. Em relação ao período de abril a junho de 2025, o indicador apresentou variação positiva (0,7%), quando havia no Brasil 102,3 milhões de pessoas ocupadas, representando um adicional de 742 mil pessoas.

Saiba mais: Emprego bate marca história no Brasil com quase 60 milhões de vínculos em 2025

Ainda de acordo com a pesquisa, o nível de ocupação (percentual de pessoas ocupadas na população em idade de trabalhar) foi estimado em 58,8% no trimestre de abril a junho de 2026, apresentando um incremento de 0,5 ponto percentual frente ao trimestre de janeiro a março de 2026 (58,2%).

A força de trabalho (108,9 milhões) apresentou um incremento de 363 mil pessoas (0,3%), quando comparada com o trimestre de janeiro a março de 2026. Frente ao mesmo trimestre do ano anterior, houve estabilidade.

Subutilização, subocupação e desalento

Os dados positivos se revelam, ainda, em outros recortes trazidos pela pesquisa. Com o aumento da população ocupada, caíram as taxas de subutilização da força de trabalho, de subocupação e desalento, demonstrando uma trajetória positiva da economia e do mercado de trabalho brasileiros.

No caso da subutilização da força de trabalho, a taxa foi de 12,9%, variação de -1,4 pp em relação ao período de janeiro a março de 2026 (14,3%) e de -1,5 pp na comparação com o mesmo trimestre móvel do ano anterior, quando a taxa foi estimada em 14,4%.

Quanto à população subocupada por insuficiência de horas trabalhadas (4,1 milhões), houve redução de 6,6% em relação ao trimestre anterior, o que equivale a 290 mil pessoas a menos nessa situação. A queda foi ainda mais acentuada, de 11,5%, quando comparada ao mesmo período de 2025, momento em que havia 4,6 milhões de pessoas subocupadas.

Também houve queda em relação às pessoas subutilizadas — grupo composto por desempregados, pelos que trabalham menos horas do que gostariam (subocupados) e quem tem potencial para trabalhar mas não buscou vaga (força de trabalho potencial).

Esse estrato somou 14,7 milhões no segundo trimestre do ano, variação de -10,1%, ou seja, menos 1.642 mil pessoas, frente ao trimestre de janeiro a março de 2026 (16,3 milhões de pessoas). O grupo também apresentou diminuição, de 11%, quando comparado com igual trimestre do ano anterior.

No universo dos desalentados, o declínio também foi sensível, de 14,7%, o que equivale a 395 mil pessoas a menos nessa situação, na comparação com o primeiro trimestre deste ano. A redução foi ainda maior, de 17%, frente a igual período de 2025. Hoje, esse contingente equivale a 2% da população.

Rendimentos e setores

No que diz respeito ao rendimento real habitual recebido de todos os trabalhos, o valor foi estimado em R$ 3.738, com estabilidade frente ao trimestre de janeiro a março de 2026 e crescimento de 2,8% relação ao mesmo trimestre do ano anterior.

A massa de rendimento real habitual (R$ 380,3 bilhões), quando comparada ao trimestre móvel de janeiro a março de 2026, apresentou estabilidade. Frente ao mesmo trimestre do ano anterior, houve aumento de 3,6%, o que representa um acréscimo de R$ 13,2 bilhões na massa de rendimentos.

Ao analisar o desempenho dos grupos de atividades frente ao trimestre anterior, o IBGE apontou para um aumento nos segmentos de Transporte, armazenagem e correio (3,9%, ou mais 235 mil pessoas) e Administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais (2,6%, ou mais 489 mil pessoas). Os demais grupamentos não apresentaram variação significativa.

Carteira assinada

Ainda de acordo com o IBGE, o número de empregados no setor privado com carteira de trabalho assinada (39,4 milhões) apresentou estabilidade frente ao trimestre anterior, bem como no mesmo período de de 2025.

Já os empregados no setor privado sem carteira de trabalho assinada (13,6 milhões) apresentaram elevação em relação ao trimestre anterior (2,2%), representando um incremento de 288 mil pessoas. Em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, foi registrada estabilidade.

A pesquisa também apontou para um aumento de 2,6% no número de trabalhadores do setor público (que somam 13 milhões) frente ao trimestre anterior.

Na categoria dos trabalhadores por conta própria (26,1 milhões) foi verificada estabilidade sobre o trimestre anterior, bem como em igual período de 2025.

Caged

O cenário também é positivo quando analisados os dados do Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), divulgado nesta quarta-feira (29).

Segundo o levantamento, o mercado formal de trabalho registrou, em junho, saldo de 145.161 postos de trabalho, acumulando, no primeiro semestre do ano, 921.645 novos empregos. Isso representa um crescimento de 1,96%.

Considerando os saldos dos últimos 12 meses (julho de 2025 a junho de 2026), a ampliação do emprego chega a 963.921 novos postos de trabalho, crescimento de 2,1% no período. Com isso, o estoque de empregos no país alcançou mais de 48 milhões de vínculos trabalhistas.

De acordo com o MTE, no mês de junho, o saldo foi positivo nos cinco grandes grupamentos de atividades econômicas, com destaque para o setor de Serviços, que gerou 74.514 vagas, crescimento de 0,3%. Entre as atividades do setor, destacaram-se as administrativas e os serviços complementares, responsáveis pela criação de 26.634 empregos no mês.

A Agropecuária também registrou saldo positivo, com aumento de 22.898 postos formais de trabalho (+1,2%), assim como o Comércio, que apresentou saldo de 19.177 postos (+0,2%), a Indústria, com 14.438 postos formais (+0,2%), e a Construção, com 14.136 empregos (+0,5%).

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O Mapa da Fome da ONU e o Brasil novamente fora dele https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/enio-lins-opina_0621919777.html 

Abraham Sicsu opina

Saúde Suplementar: avanços de uma Câmara Temática

Abraham B. Sicsu    

Saúde Suplementar, um tema fundamental para a população brasileira. Um quarto da população brasileira depende dela. Mais de 52 milhões de pessoas. Nosso sistema de atendimento à saúde deu avanços significativos. O Sistema Único de Saúde é um patrimônio que temos que defender e, se possível, ampliar.  Com certeza, é o melhor, mais amplo e universal dos sistemas disponíveis em países de porte similar ao nosso e cumpre um papel muito relevante para a sociedade brasileira. Mas, não pode ser ignorado que o sistema é um só, em que o SUS é complementado pela Saúde Suplementar, dando um mínimo de estabilidade financeira à gestão do complexo. Sem a Saúde Suplementar, difícil, quase impossível, manter um mínimo de qualidade e a modernização da SUS.

Faz dois anos. O Conselho Regional de Medicina de Pernambuco criou a primeira Câmara Temática nacional para tratar do tema. Evidentemente, com um olhar mais aprofundado na situação dos profissionais de sua área. No entanto, sem deixar de ter uma visão mais abrangente do sistema como um todo, de procurar uma melhor compreensão das dificuldades encontradas e caminhos a serem seguidos.

Tem-se como premissa a necessária complementaridade entre os dois sistemas, o SUS e a Saúde Suplementar.  Não permitir que os sistemas colapsem, que sejam inviabilizados. Necessário fazer ajustes e evitar a inviabilização das operadoras dos planos de saúde, além de considerar as dificuldades e limitações financeiras da população usuária.

Problemas gerenciais existem e são muitos. Processos são analisados na função de controlador que o Conselho tem que exercer. Além disso, o combate a fraudes e desperdícios que ainda são muito elevados no sistema faz-se necessário. A corrupção e atitudes ilícitas oneram em demasia o sistema, levando á uma diminuição crescente de operadoras e de profissionais que participam do sistema.

É um ponto básico. Inúmeros são os relatos que chegam ao Conselho Regional de uso indevido dos Planos de Saúde e de requisições que muito oneram o sistema. Superfaturamento, práticas gerenciais como cobranças de serviços não prestados e o inflar de números de atendimentos, são notadas.

Maior rigor nesse controle que permita que custos inexplicáveis sejam identificados e evitados, uma questão básica. Punições àqueles que transgridem a lei em uma área muito vulnerável que exige controles efetivos e monitoramento constante é princípio básico. É preocupação constante daqueles que são responsáveis pela fiscalização da Saúde Suplementar, como a ANS.

Contudo, não se pode centrar apenas nesses aspectos. Estudos vêm sendo feitos e demonstram haver distorções em áreas sensíveis que exigem uma atuação célere e eficiente. Alguns avanços dados.

Numa análise das cinqüenta e cinco especialidades da medicina e de seus procedimentos, mostrou que alguns desses setores apresentavam defasagens inadmissíveis. Segmento em que as operadoras pagavam abaixo dos custos operacionais e nos quais havia uma evasão dos profissionais participantes que passaram a não aceitar mais planos de saúde.

Com isso, os usuários tiveram forte restrição de oferta e, em alguns segmentos, os riscos à saúde humana cresceram muito e, estatisticamente, pode-se comprovar, já se tem impactos negativos.

Também, estudos feitos mostram que o aumento de um por cento nos custos dos planos de saúde permite um reajuste dos honorários profissionais de cerca de 5 %. Ou seja, há espaço para negociação em áreas profundamente defasadas.

Dos mais de seiscentos procedimentos analisados, foram selecionados 13 nos quais havia distorções muito acentuadas e necessidade de urgente modificação da realidade. Em negociações com as Operadoras, a realidade foi mostrada e se avançou para acordos que tornaram a situação razoável. Nos planos de autogestão se chegou a acordos que parecem fazer retornar a lógica financeira ao sistema. Nesses, e apenas nesses, foram corrigidas as tabelas de maneira consensual. Setores em que aumentos variaram dos 80 aos 800%. Esse movimento levou a um real estancamento da fuga dos profissionais da área e, lentamente, faz com que se possa retornar a um nível de atendimento satisfatório para a população detentora dos Planos.

O objetivo principal é chegar a uma estabilidade financeira das operadoras que permita que os Planos apresentem aumentos anuais muito próximos ao IPCA, ou seja, à inflação. Aumentos muito acima podem levar a uma grande evasão de usuários e, conseqüentemente, a uma sobrecarga insuportável no sistema público de saúde.

Evidentemente, a modernização dos procedimentos e das tecnologias vigentes exige investimentos que devem ser feitos e é preocupação adicional para não permitir um aumento excessivo dos custos operacionais. Mais uma linha a ser focada para manter o equilíbrio financeiro. Lembrar que em anos recentes os lucros das Operadoras têm sido elevados e podem ser mais bem controlados e distribuídos, além de uma linha específica governamental de apoio à modernização. Novos caminhos a serem debatidos.

Uma Câmara que se baseia em dados concretos, em realidades econômicas e sociais constatáveis, que tem procurado auxiliar a adequação gerencial do sistema, caminho que auxilia a manter um Sistema que deve ser preservado e cada vez melhor gerenciado na busca de seu equilíbrio e sustentabilidade.

Se comentar, identifique-se. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/participe.html

A luta sem tréguas da Enfermagem https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/enfermagem-desafios-e-luta.html 

Humor de resistência

 

Aroeira

Postei nas redes

Na Argentina, Milei assinou decreto que proíbe a entrada e autoriza a expulsão de estrangeiros que promovam ou incentivem discursos de ódio, discriminação ou violência contra seu país e seus cidadãos. Tudo o que ele próprio fez em sua desastrosa participação na convenção do PL, em apoio a Flávio Bolsonaro.  

"A soberania nacional, por exemplo" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0138497997.html 

30 julho 2026

Palavra de poeta

Não saibas... imagina
Miguel Torga    

Deixa falar o mestre, e devaneia…
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões…
Um á-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições…

Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorri!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia…

[Ilustração: John White Alexander]

A Buenos Aires nordestina que admira e torce pela Argentina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/surpreendente-emocionante.html  

Enfermagem: desafios e luta

A luta sem tréguas da Enfermagem
O cotidiano paradoxal de uma das profissões mais numerosas do país. Elas salvam, cuidam e confortam, mas vivem sob baixos salários, precarização e adoecimento crescentes. Contraponto: nenhuma outra categoria tem se mobilizado tanto
Glauco Farias/Outras Palavras   

Em 21 de março de 2020, dezenas de cidades brasileiras registraram à noite pessoas aplaudindo das janelas os profissionais de saúde que estavam na linha de frente do combate à pandemia de covid-19, ainda em seu estágio inicial no país. Àquela altura, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem tornaram-se símbolos de resistência de uma tragédia sanitária que matou, segundo números oficiais, mais de 700 mil pessoas em território nacional, ceifando a vida de centenas desses profissionais, infectados na rotina do cuidado e exauridos pelo esforço.

Uma situação de emergência como aquela exigiu a mobilização de inúmeras pessoas na área, inclusive daquelas que não estavam trabalhando no momento. “Fui convocada pelo Ministério da Saúde para atuar contra a covid-19 no início de 2020. Lembro bem, era à noite em Manaus, por volta das 22h no horário local, e eu já estava me preparando para dormir quando recebi uma ligação do Ministério”, conta a enfermeira Adriane Aragão, que trabalhou em uma das cidades que sofreria mais com a disseminação do coronavírus.

“A situação em Manaus era devastadora, e eu já participava de grupos que ajudavam a repassar informações sobre onde havia oxigênio disponível, oxímetros e máscaras que estavam em falta em toda a cidade”, conta, lembrando como foi feita a admissão. “Houve uma seleção e triagem dos profissionais em uma universidade, reunidos em um pátio aberto, com testagem para covid-19. Os profissionais que não passaram na primeira triagem foram justamente os que já estavam contaminados; os que restaram, sem a doença, seguiram para a organização das equipes, com a formação de grupos de WhatsApp que existem até hoje, criados pelos laços que fizemos naquele cenário adverso.” 

Adriane foi parar no Hospital de Campanha Newton Lins, onde atuou na primeira ala voltada especificamente aos povos indígenas. Ali, a falta de pessoal foi um problema constante durante o período crítico da pandemia. “Havia dias em que minha equipe, que contava com vários técnicos de enfermagem, ficava reduzida a apenas quatro, porque muitos adoeciam ou eram remanejados para outros setores mais necessitados.” Seu corpo registrou o esforço intenso daquele período. “Eu usava o pijama cirúrgico tamanho médio e, ao final daquele período, já estava usando P, de tanta correria.”

A realidade em outros grandes centros não foi diferente. Rodrigo Bizacho, auxiliar de enfermagem no Hospital São Paulo (Unifesp) e coordenador-geral do Sintunifesp, descreve como foi a rápida adaptação em seu cotidiano: “Como eu trabalhava na enfermaria de clínica médica, o hospital rapidamente isolou o setor de doenças infectocontagiosas para receber os casos de covid. Com o aumento dos casos, novos setores e leitos foram sendo criados”. 

A preocupação com a contaminação era constante, tanto no trabalho quanto em casa. “Minha maior preocupação era com a família. Eu era casado na época e vivia com medo de chegar em casa e acabar transmitindo a doença’, relata, detalhando a rotina rigorosa de higiene para proteger os seus.”Mantinha contato só com minha esposa, e mesmo assim tentava me proteger ao máximo para que ela também não se contaminasse. Ao chegar em casa, tinha uma lavanderia do lado de fora e já tirava toda a roupa ali, colocando de molho num balde com água e sabão, e entrava direto no chuveiro. Era assim, para eliminar qualquer risco.”

O desgaste no período, tanto físico quanto psicológico, foi a tônica para muitos trabalhadores da área. Segundo a sondagem “Percepção do sofrimento mental dos profissionais de enfermagem em meio à pandemia da Covid-19”, divulgada pelo Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) em setembro de 2021, 62,1% dos profissionais de enfermagem dizem ter tido algum tipo de sofrimento mental durante a pandemia. Foram ouvidos 10.329 profissionais por meio de uma questionário online e no grupo daqueles que atestaram ter passado por sofrimento mental desde o início da pandemia até agosto daquele ano, 70,2% apresentaram sintomas físicos como fraqueza, tonturas, dores em geral, problemas para respirar, dormência, formigamentos, dificuldade de concentração e esgotamento físico. Já 64,5% relataram sintomas emocionais, como medo, sentimentos de culpa, pânico e esgotamento mental e pensamentos negativos.

Rodrigo Bizacho confirma o impacto na saúde mental. “A enfermagem, em si, foi muito afetada psicologicamente, porque era o principal elo de contato com todos os pacientes. Isso mexeu muito com a cabeça das pessoas, ver colegas e familiares morrendo”, recorda. 

Um outro levantamento, feito para a Internacional dos Serviços Públicos pelo estúdio de inteligência de dados Lagom Data, baseado em um cruzamento de dados oficiais produzidos pelo Ministério da Saúde e pelo Ministério do Trabalho, apontou que entre o início da pandemia e o final de 2021, a covid-19 matou no Brasil mais de 4.500 profissionais da saúde. 

A luta pelo piso salarial

“O reconhecimento que nós tivemos durante a pandemia veio da população em geral, mas não foi refletido pelos governos e pelas gestões tanto públicas quanto privadas”, resume Ludmila Outtes, presidenta do Sindicato dos Enfermeiros de Pernambuco (SEEPE). “Como vários colegas falam, aplauso não enche barriga, aplauso não paga conta.”

A afirmação de Outtes encontra eco em uma luta histórica dos profissionais da área pela implementação do Piso Nacional de Enfermagem. No Congresso Nacional uma das primeiras propostas foi protocolada em 1989, com o Projeto de Lei 4499, da deputada federal Benedita da Silva, e se voltava naquele momento apenas para enfermeiros. Mais tarde, com dois projetos distintos, de 2009 e 2015, o piso salarial da enfermagem voltou a ser tema legislativo, mas a categoria só conseguiu êxito no Parlamento com a aprovação do PL 2564/2020, de autoria do senador Fabiano Contarato (PT-ES), que estabelecia o piso salarial à jornada semanal de trabalho de 30 horas. Essa é a quantidade trabalhada de horas ideal recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Embora o projeto tenha sido aprovado e depois sancionado como Lei 14.434/2022, sofreu mudanças importantes durante sua tramitação, não só com a redução dos valores iniciais como também com a desvinculação da jornada. O valor estabelecido foi de R$ 4.750 para enfermeiros, R$ 3.325 para técnicos e R$ 2.375,00 para auxiliares e parteiras. Mesmo assim, a Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), que atua pelos interesses dos empresários da saúde privada, entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), alegando riscos de demissão e falta de definição de fontes de custeio nos setores público e privado. Em setembro de 2022, o ministro Luís Roberto Barroso concedeu uma liminar que suspendia os efeitos do piso.  

Posteriormente, a Corte estabeleceu critérios para a aplicação, com a determinação que o governo federal prestasse assistência financeira complementar para redes estaduais, municipais e entidades filantrópicas que atendessem pelo menos 60% dos pacientes pelo SUS. Nesse sentido, o Legislativo ainda aprovou duas Propostas de Emenda à Constituição para preservar os direitos dos profissionais. Já na iniciativa privada, ficou determinada a necessidade de negociação coletiva prévia entre patrões e empregados ou decisão em dissídio na Justiça do Trabalho no caso de impasse. O julgamento do mérito da ação foi paralisado em maio deste ano após um pedido de vista do ministro Luiz Fux, com votos já registrados de Barroso, hoje aposentado, e Dias Toffoli. 

A engenharia constitucional resolveu o problema do financiamento apenas no papel. Na prática, a categoria segue crescendo em números e perdendo proteção. O estudo “Demografia e Mercado de Trabalho em Enfermagem no Brasil”, elaborado pelo Ministério da Saúde em parceria com pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mostra que o contingente de profissionais cresceu mais de 2,5 vezes entre 2010 e 2021. Hoje, a enfermagem responde por 70% de toda a força de trabalho em saúde do país, contra 59% na média global. É, ao mesmo tempo, a espinha dorsal do sistema e a categoria mais exposta à precarização que o sustenta.

“A enfermagem é uma profissão superexplorada desde a sua formação e constituição como campo, de um lugar colocado para as pessoas que iriam executar tarefas muito mais do que pensar o que fazer”, explica Kênia Lara da Silva, da Escola de Enfermagem da UFMG e uma das integrantes da equipe de coordenação do estudo.

A pesquisadora aponta a composição racial e de gênero da categoria como parte da explicação histórica dessa desvalorização, e os dados confirmam o cenário. A força de trabalho em enfermagem é 87% feminina, com um crescimento de homens na profissão de 5,5% ao ano, ainda insuficiente para alterar essa maioria. Já a composição racial é mais difícil de precisar. O próprio levantamento demográfico reconhece uma subnotificação de cerca de 39,4% nos registros de raça e cor entre enfermeiros, o que mascara parcialmente a magnitude real das desigualdades raciais dentro da categoria.

Lígia Simões Ferreira, enfermeira nefrologista e doutoranda pela UFSCar, descreve o mesmo fenômeno em outro aspecto: a romantização do cuidado como vocação. “Persiste uma romantização absurda: a ideia de que a gente ‘trabalha por amor’, que não é vista como profissional, mas como figura materna. Isso é usado para justificar a precarização.”

A rotina da precarização

O piso não pago é apenas a ponta mais visível de um sistema de contratação que ajuda a fragilizar os vínculos trabalhistas. “Existe essa questão da privatização disfarçada, por meio da terceirização. Não se entrega diretamente o hospital para a iniciativa privada, mas indiretamente sim, porque, apesar dele permanecer público para a população, é gerenciado por uma empresa privada”, aponta Ludmila Outtes, ressaltando um outro problema que aparece nesse contexto.

No seminário Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS, promovido pelo Outra Saúde em parceria com a Associação Paulista de Saúde Pública, a Faculdade de Saúde Pública da USP e o ICICT/Fiocruz, a pesquisadora e ex-secretária de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde Isabela Cardoso Pintodestacou o impacto desse modelo para quem trabalha na área. “Não é novidade o impacto que o crescimento das Organizações Sociais da Saúde (OSs) e outras modalidades de gestão no SUS têm tido sobre as condições de trabalho e remuneração das trabalhadoras e trabalhadores do SUS. O sofrimento gerado pela deterioração das relações de trabalho vem sendo explicitado em vários estudos e também pelo aumento do número de denúncias feitas pelos profissionais da saúde sobre as diversas formas de precarização do trabalho no setor”, pontuou. 

“O Estado repassa o recurso para que as OSs, ou outra forma de parceria público-privada, façam a gestão dos serviços de saúde. O Estado financia, o mercado intermedia e a ponta precariza”, resume Isabela. “Vale ressaltar que estamos falando de um contingente significativo, de uma força de trabalho formada 75% por mulheres. Nós temos hoje, segundo dados do CNES [Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde], 3,6 milhões de trabalhadores/as, mas ao olhar para os vínculos, esse número quase dobra: 5,8 milhões”, detalha a pesquisadora, que também é professora titular do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC-UFBA) e coordenadora do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS). 

“Sobre as formas de contratação, 44% dos/as trabalhadores/as estão classificados como ‘demais vínculos’ – contrato temporário, bolsa, cooperativa, uma variedade de formas de inserção que reverbera na precarização. Essa multiplicidade atinge 12 diferentes modelos de contratação, que fogem da estabilidade prevista em 1988”, completa.

Lígia Ferreira detalha como essa lógica se traduz em salário. “Quando uma OS entra num hospital universitário, ela elimina os concursos públicos. A enfermagem é uma categoria que, quando abre uma vaga numa prefeitura do interior, mil enfermeiras concorrem. Isso cria um cenário de exploração que muitos nem percebem”, conta.

A enfermeira nefrologista relata ainda outras formas de precarização ocultas sob a forma do “empreendedorismo” que também alcançam a área. “Tenho colegas que migraram para a estética ou abriram consultórios de enfermagem, e isso pode ser um avanço real, ter um consultório é conquista. Mas as OSs têm se valido disso de uma forma perversa: o enfermeiro vira PJ [pessoa jurídica], prestador de serviço, e a precarização aumenta ainda mais”, conta. “Enquanto uma consulta médica custa 100 reais, a do enfermeiro não chega a 25. Os mais jovens estão caindo na falsa ideia do empreendedorismo, vendem a ideia de que você é livre, empreendedor, mas na prática não é”.

O levantamento demográfico dá substância a esse relato. A remuneração média dos enfermeiros, medida em salários-mínimos, sofreu um achatamento na última década, com a maioria dos novos contratos concentrando-se hoje na faixa de 3 a 4 salários-mínimos, uma evidência de perda de poder aquisitivo mesmo com o piso legal em vigor. “A realidade é que a maioria dos enfermeiros trabalha em dois ou três empregos porque é mal remunerada”, diz Ferreira. “A gente deixa família, lazer, saúde para dar plantão e ganhar um pouco mais.”

“Quando a gente tem essa proposição da saúde como direito, mas essa saúde sendo assistida por trabalhadores em condições precárias, isso é uma grande contradição que precisamos enfrentar para pensar a sustentabilidade do sistema, a continuidade do cuidado e a defesa dos princípios constitucionais que são tão caros para nós.”, observa Kênia Lara da Silva.

Sobrecarga e desgaste

Não é apenas no território cinzento das relações entre público e privado que as condições da enfermagem deterioram no Brasil. Paula* trabalha na atenção primária em uma unidade de saúde da cidade do Rio de Janeiro e conta, sob condição de anonimato, que lida em seu cotidiano com questões que não são de saúde pública, mas sim de política pública.

“Temos muito desgaste psicológico com indicadores e metas que muitas vezes são impossíveis de alcançar. Por exemplo, trabalho numa clínica com oito equipes de saúde em um território extremamente extenso, com cadastros de pacientes muito grandes. O ideal seria cerca de 2.000 a 2.500 cadastros, mas às vezes trabalhamos com o dobro disso. É muita demanda da população e a gente acaba não dando conta, não por falta de capacidade profissional, mas por falta de braços, de recursos humanos”, relata a trabalhadora. 

Diante do cenário, os profissionais muitas vezes têm que enfrentar a hostilidade da população. “Muitas vezes somos muito hostilizados, a ponto de agressões verbais e físicas. Isso se tornou rotina. Principalmente porque, na maioria das unidades da minha área programática, toda demanda livre passa primeiro pelo enfermeiro. Como se o enfermeiro fizesse o papel do enfermeiro do pronto atendimento que faz classificação de risco”, explica. “Na atenção primária, precisamos encaminhar muitos pacientes para especialistas. Eles não entendem a demora. E quando o paciente vai para o especialista na rede secundária, ele volta com uma bateria de exames para ser solicitada para investigar o problema. Isso é uma saga para o paciente e para a gente.”

Paula conta que sua jornada de trabalho é de 40 horas semanais, longe do ideal preconizado pela OMS e OIT. “Eu trabalho de terça a sexta, 10 horas por dia. A unidade abre aos sábados, então criaram uma escala em que precisamos vir aos sábados, de sete da manhã ao meio-dia. Isso é computado como hora extra e gera um banco de horas. A gente não recebe essa hora extra”, diz. “Essa rotina intensiva e a extensão das horas impactam muito. Eu faço muita terapia. Vejo meus colegas com um grande absenteísmo. A gente se afasta muito por desgaste psicológico, principalmente, mais do que físico”, aponta.

“Essa busca por alcançar o indicador e essa cobrança, que chega a ser assédio, deixa a gente muito mal psicologicamente. Ouvimos em reuniões: ‘isso aqui é um grande time de futebol e se vocês não fizerem gol, a gente vai ter que substituir o jogador’. Por conta disso, acredito que tantos profissionais estejam se afastando pela psiquiatria. Ou, quando não é um atendimento psiquiátrico, o corpo fala. A gente se afasta porque a imunidade caiu, pegou uma gripe, ou está com dor na coluna, ou simplesmente está esgotado e não consegue levantar da cama”, ressalta, destacando que o regime de metas não é discutido com os trabalhadores, mas imposto de cima para baixo.

Segundo o estudo “Demografia e Mercado de Trabalho em Enfermagem no Brasil”, houve um aumento expressivo na ocorrência de afastamentos laborais na categoria a partir de 2019, mas a proporção desses afastamentos classificada oficialmente como “relacionada ao trabalho” permanece baixa, abaixo de 5% do total, o que os próprios pesquisadores apontam como indício de subnotificação ou descaracterização dessas ocorrências como doenças ocupacionais. É exatamente o mecanismo que Ludmila Outtes descreve como “dupla violência”. “A primeira violência pelas condições de trabalho que levam ao adoecimento. A segunda violência é o não reconhecimento do nexo causal entre o adoecimento e a sua ocupação.” 

Kênia Lara da Silva situa essa insegurança dentro de uma discussão mais ampla sobre projeto de sociedade. “Quanto menos organizada uma profissão, menos consciência coletiva ela tem, menos consciência social e política e menos capacidade de luta”, sustenta. Para ela, a fragilização do vínculo tem efeito direto sobre a saúde mental. “A perspectiva de ‘será que eu vou ter esse vínculo daqui a três, seis meses?’ traz questões importantes de saúde mental para os trabalhadores. Há uma série de repercussões diretamente ligadas à redução dos salários, mas também tem uma consequência em relação ao futuro. O que move as pessoas em grande medida é como elas se projetam daqui para frente.”

Existem inúmeros problemas na área, mas talvez seja Paula quem consiga resumir aquele que seria um passo fundamental para aprofundar as mudanças necessárias para a carreira de enfermagem que preservassem o trabalhador e também o sistema integrado de saúde. “O que eu gostaria que mudasse? É que nos ouvissem. Para você entender, tem que se colocar no lugar do profissional, para saber o que está acontecendo, para buscar soluções.”

*Nome fictício

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Leia também: "A soberania nacional, por exemplo" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0138497997.html

Minha opinião

Disputa intramuros
Luciano Siqueira  

Antigamente era assim e hoje talvez ainda seja. Afinal, o bom senso e a habilidade transitam na sociedade humana há séculos. Na política brasileira, desde a Primeira República.

Divergências internas devem permanecer intramuros, sob o risco de desgastes desnecessários, arranhões entre aliados, dissidências.

Óbvio que nem todos os líderes, partidos ou grupos pensam assim. Há os que pensam resolver disputas pelos jornais ou redes digitais, no grito. Geralmente dá errado.

Tancredo Neves dizia ser preciso “ficar rouco de tanto ouvir”. E foi longe.

Agora, extrapolam os salões do Palácio do Campo das Princesas tensões relacionadas com a chapa majoritária (candidaturas ao Senado) na coalizão de centro-direita liderada pela governadora Raquel Lyra.

Uns permanecem discretos, na moita; outros fazem ao público suas exigências, eventuais frustrações e ameaças. Os primeiros tendem a levar vantagem.

O fato é que não cessarão por aí as dificuldades políticas da governadora. Há outro “rolo” mais difícil a encarar no curso da campanha: a candidata se manterá “neutra” quanto à eleição presidencial para contemplar aliados tão díspares em sua coligação, onde estão bolsonaristas, direitistas outros, figuras talvez de centro desgarrados na Frente Popular (liderada por João Campos)?

Quanto mais apoio, melhor; porém tantas contradições e disputas dentro de casa podem levar a empreitada ao insucesso.

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