02 agosto 2006

Melhor é analisar depois*

Em Pernambuco há um militante comunista oriundo das Alagoas ao qual companheiros e amigos atribuem dotes excepcionais na análise dos fenômenos da natureza e da sociedade humana, especialmente no que se refere a eleições. “Ele entende de pipoca a nave espacial”, dizem. Logo, de campanha e de voto o homem sabe tudo. Ele, por seu turno, não se faz de rogado e, de vez em quando, contribui para a lenda que se consolida em torno de si disparando sentenças tão simples como sábias. Uma das mais conhecidas é: “Melhor mesmo é analisar depois”.

De fato, nada mais cômodo do que analisar causas e conseqüências após os acontecimentos. É o que fazem, por exemplo, comentaristas esportivos. E analistas políticos.

Querem um exemplo? O papel que peso que terão a TV e o rádio na alteração de tendências do eleitorado do dia 15 próximo (quando se inicia o chamado horário gratuito) até 1º de outubro. Supõe-se que, à semelhança de campanhas recentes, o chamado palanque eletrônico venha a ter uma influência destacada, em alguns casos decisiva. Mas, é óbvio, depende de muitas variáveis relacionadas com as candidaturas em conflito: o desenrolar da campanha de cada um, o que tenha a dizer os candidatos e a receptividade do eleitorado ao que disserem e muitas coisinhas mais.

Na disputa presidencial, por exemplo, ensaia-se o confronto entre a lama e o sangue, característica presumível da campanha da direita e associados, versus realizações de governo, destaque no programa de Lula. Qual das duas temáticas será melhor absorvida pelo telespectador? Na pergunta estão contidas hipóteses díspares, como a consolidação da candidatura de Lula ou o crescimento de Alckmin.

Nos estados, então, há uma gama de situações, igualmente submetidas a um grande leque de variáveis.

Agora, para os que estão por baixo nas pesquisas (o autor dessas linhas está nesse time, como candidato ao Senado), o dia 15 parece vir como o início da solução de todas as dificuldades. E não é. Pois impactos da TV e do rádio à parte, que poderão ser significativos para algumas candidaturas, há que considerar a correlação de forças real na sociedade – para o que concorre em muito o nível de consciência dos eleitores.

Em Pernambuco, na batalha do Senado, contra o ex-governador Jarbas Vasconcelos (ainda em larga dianteira nas pesquisas) há o fato de que ele se opõe a Lula justo num estado em que beira 70% o apoio à reeleição do presidente. Terão a TV e o rádio, mais o que for feito nas ruas, força suficiente para separar o joio do trigo e deslocar para o lado de cá parte expressiva dos que mesclam, contraditoriamente, intenções de voto em Lula e no ex-governador?

Bem. Nesse caso, dirá o alagoano militante que entende de pipoca a nave espacial: o melhor será analisar depois. Por agora, importa lutar – e muito.

*Coluna semanal publicada toda quinta-feira no portal Vermelho (www.vermelho.org.br).

Um grande desafio


É necessário falar para quase 6 milhões de eleitores (Foto ANA CRISTINA)

Os primeros cumprimentos da manhã vêm permeados de perguntas sobre a pesquisa Ibope divulgada pelo Jornal do Commercio de hoje. Muita gente animada com o distanciamento de Humberto Costa em relação ao terceiro colocado na disputa pelo governo estadual, Eduardo Campos. Porém, a preocupação é geral, entre os nossos apoiadores, acerca dos números revelados para o Senado. Até quando a diferença permanecerá tão grande? Que fazer para melhorar nossos índices? De uma técnica da Prefeitura do Recife, a observação:

- Por que você se mantém tão sereno assim?

Bom, aí são outros quinhentos. Quem sabe o tamanho da empreitada não pode se assustar com dificuldades momentâneas. E, além disso, para que nosso nome cresça junto ao eleitorado, não há mágica: teremos que juntar volume de campanha nas ruas com a TV e o rádio, a partir do dia 15 próximo. O volume de campanha se obtém num crescendo, na medida em que a sociedade como um todo comece a se interessar pelo fato eleitoral. Há que ter paciência. Agora, quanto à TV e o rádio, teremos que usar com competência de conteúdo e de forma os 2,18 minutos de que disporemos. Pois é necessário falar para quase seis milhões de eleitores em apenas dois meses. No mais, é saber se entre o candidato (que ainda é um ilustre desconhecido para o grande público) e os eleitores se estabelecerá, ou não, uma relação de empatia que resulte em intenção de voto.

Tsunamis eleitorais existem


Deputado Roberto Magalhães, vítima duas vezes de tsunamis eleitorais

Em sua coluna Pinga-Fogo, no Jornal do Commercio de hoje, Inaldo Sampaio afirma que “na pisada que vai, não haverá surpresa na eleição para o Senado nos 27 estados da federação. Quem partiu na frente permanece favorito e só um tsunami o derrotará. Caso de Jarbas em PE, Simon no RS, Sarney no AP, Eduardo Suplicy em SP, etc.”

Pode ser, se atentarmos para os números atuais das pesquisas. Porém é preciso lembrar que tsunamis existem, inclusive como fenômeno eleitoral. Vide a história eleitoral pernambucana e brasileira.

Tendência à polarização Mendonça X Humberto?

Ilustração publicada no Jornal do Commercio

Segundo informa o Jornal do Commercio de hoje, a primeira pesquisa Ibope para o governo de Pernambuco aponta a liderança do governador e candidato à reeleição, Mendonça Filho (PFL), na disputa. De acordo com o levantamento, encomendado pela Rede Globo, se as eleições fossem hoje, o candidato da União por Pernambuco (PFL/PMDB/PSDB/PTN/PPS/PHS) chegaria na frente com 32% das intenções de voto. O ex-ministro da Saúde Humberto Costa (PT), da frente Melhor para Pernambuco (PT/PCdoB/PTB/PRB/PAN/PMN), aparece na segunda colocação, com 24% da preferência do eleitorado. O socialista Eduardo Campos, ex-ministro da Ciência e Tecnologia, da Frente Popular de Pernambuco (PSB/PDT/PL/PP/PSC), fica em terceiro, com 14% das intenções.

É sempre necessário analisar pesquisas com cautela, se possível examinando a série (se houver), para que se possa identificar tendências. Também é útil cotejar os dados dos diversos institutos, considerando datas das enquetes e eventuais diferenças metodológicas. Não cabe precipitação. Porém, a julgar pelos números do Ibope, a hipótese é inevitável: estaria se configurando a polarização entre Mendonça Filho versus Humberto Costa? Acompanhemos os fatos e as novas pesquisas.

Quanto à disputa pela vaga no Senado, a pesquisa Ibope/Rede Globo aponta ainda uma liderança folgada do ex-governador Jarbas Vasconcelos (PMDB), com 67% das intenções de voto. O somatório de todos os demais concorrentes mal completa 10%. Esses índices só deverão se alterar a partir do programa de TV e rádio e na medida em que a campanha tome corpo nas ruas.

MTV prega alienação política e violência

No dia em que sua matriz, nos Estados Unidos, completa 25 anos, a MTV Brasil está às voltas com uma das maiores polêmicas de sua história. Uma campanha da emissora conclama os jovens brasileiros a caírem na despolitização, votarem nulo e se munirem de armas contra os políticos. Chama-se "Pacto MTV sobre eleições. Prepare ovos, tomates e principalmente, a pontaria".

Diversas entidades juvenis, como a UNE e a Ubes, condenam a alienação pregada pela Music Television - que de música tem cada vez menos. Enquanto a MTV passou estes 25 anos potencializando o pop (gênero de consumo rápido e rala densidade), a juventude brasileira deixou sua marca em lutas como a queda da ditadura militar, o voto aos 16 anos e o impeachment de Fernando Collor. Sem contar as reivindicações nas áreas de cultura e lazer, como a meia-entrada em shows, eventos e espetáculos.

A emissora vai na contramão da História ao se dirigir a essa mesma juventude e pedir alienação política e violência. "Se a MTV rejeita a política como meio de transformação, é incoerente que lute contra drogas, disseminação da aids, racismo e homofobia. Dá para resolver qualquer um desses problemas sem política?", alerta Thiago Franco, presidente da Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas). De acordo com o dirigente estudantil, um dos maiores riscos da campanha é não propor "nenhuma saída para além do voto nulo".

Veja matéria no portal Vermelho www.vermelho.org.br

01 agosto 2006

Um roteiro soberano para a política externa


Livro de Samuel Pinheiro Guimarães, secretário-geral do Itamaraty, explicita a política internacional do governo, articula-a com os impasses internos e traça roteiro para superação das vulnerabilidades externas do Brasil. A direita vai odiar.

Quem quiser conhecer mais a fundo as estratégias do Brasil no cenário internacional, nestes dias em que o Mercosul se reforça com a adesão da Venezuela e possível ingresso da Bolívia e de Cuba, não pode perder o volume que acaba de chegar às boas casas do ramo. Trata-se de “Desafios brasileiros na era dos gigantes” (Editora Contraponto, 456 páginas, R$ 50), do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. É um detalhado volume sobre os impasses do desenvolvimento brasileiro no conturbado cenário internacional pós-queda do muro de Berlim. Apesar de não ser um documento oficial, a peça é importante por revelar as idéias do segundo homem da área externa do governo. Pelo conteúdo e pelos rumos que aponta, em matéria de fortalecimento da ação do Estado e da independência nacional, é também um manual do antitucanês na gestão dos negócios públicos.

O livro é também um contundente libelo contra o neoliberalismo e as políticas de livre movimentação de capitais, desregulamentação e abertura comercial. Com base nisso, ataca as políticas de dependência tecnológica e suas dramáticas conseqüências no nível de emprego e direitos trabalhistas. “Durante o período que se inicia em 1990, o Brasil foi convencido de que, na era da globalização, o que valia era o capital, sua eficiência e sua competitividade, que a preocupação com o emprego (...) era antiquada e desnecessária, enquanto que o Estado e a soberania seriam relíquias de um passado ruim. Na base de tudo, estaria o capital – sem pátria, abundante, progressista e capaz de tudo resolver -, desde que fosse tratado sem distinções e que não se colocassem restrições aos seus movimentos de ingresso e de saída”.

Veja matéria na Agência Carta Maior www.cartamaior.com.br.

A versão e o fato (2)

Tal como nesse caso recente, que comentamos ontem, de um suposto constrangimento do presidente Lula por haver compartilhado o palanque em Brasília Teimosa com o ex-ministro Humberto Costa - veja A versão e o fato (1) – há situações outras em que determinada versão, plantada para servir a certos interesses, terminou se superpondo à verdade.

Em 1992, no período preparatório das eleições municipais no Recife, nós do PCdoB construímos paciente tessitura destinada a unir as forças de esquerda em torno da candidatura de Jarbas Vasconcelos a prefeito, incluindo na boa trama a reaproximação entre o próprio Jarbas e o ex-governador Miguel Arraes, vez que se encontravam afastados desde o pleito estadual de 1990, em que Joaquim Francisco (PFL) derrotou Jarbas (PMDB). Tudo parecia caminhar bem, quando no crucial momento de completar a chapa, eclodiu a ruptura entre Jarbas e Arraes, por iniciativa do primeiro, que sem consulta prévia resolveu anunciar o então deputado Sérgio Guerra como seu vice, em contraposição ao nome do também deputado Eduardo Campos, neto do ex-governador.

O argumento é que Arraes tentara dar um golpe, “impondo” o nome do seu neto. Nada mais falso. A idéia partiu justamente dos comunistas, enfrentando desde o primeiro momento resistências incisivas do próprio Arraes. (Em longa entrevista de página inteira concedida ao repórter Inaldo Sampaio, à época, no Jornal do Commercio, esclarecemos o assunto em detalhes). Mas ocorreu que Jarbas e seu grupo parecem ter visto ali a oportunidade da ruptura, numa situação eleitoral que lhe era favorável, deixando em dificuldades momentâneas o PSB de Arraes, o PCdoB e o PDT, que juntos participavam das articulações.

Rompeu de público de maneira solene e com declarações contundentes, cunhando com ampla receptividade por parte da mídia e ressonância na opinião pública, a versão distorcida de que Arraes desejava, com a indicação (sic), amarrar Jarbas à cadeira de prefeito de tal modo que não pudesse deixar o cargo dois anos após para uma eventual disputa do governo estadual.

Predominou a versão, o fato ficou obscurecido. E a história será quase sempre contada, também nesse caso, a partir da falsa versão.