02 novembro 2014

FHC no terceiro turno

A despeito de figurar em todas as pesquisas com peso negativo em termos de influência sobre eleitores, Fernando Henrique Cardoso teve papel destacado na derrotada campanha de Aécio Neves à presidência da República. Questão política e ideológica, mais do que eleitoral. Agora, diante do chamamento da presidenta Dilma ao diálogo em favor do Brasil – diálogo inclusive com forças políticas que lhe fazem oposição -, o ex-presidente tucano se apressa em rejeitar esse diálogo. Quer a radicalização da oposição, sem tréguas, numa espécie de “terceiro turno” das eleições recém-realizadas. Espírito público em baixa...

2016 na pauta?

Cedo para se colocar em pauta as eleições municipais de 2016? Sim e não. Sim, se refletirmos racionalmente, tendo em conta que um conjunto de variáveis que conformarão o cenário político-eleitoral do momento do pleito ainda leva tempo para amadurecer. Não, se reconhecermos que no Brasil, terminada uma eleição, no dia seguinte partidos e lideranças políticas já se sentem motivados a preparar a próxima. De toda sorte, daqui até lá muita água correrá por debaixo da ponte. É preciso discernimento, sensatez e paciência. 

O rumo dos próximos quatro anos

Para onde vai o segundo governo Dilma?

Oswaldo Bertolino, no site da Fundação Mauricio Grabois
A presidenta Dilma Rousseff tem afirmado que a retomada do crescimento é resultado de determinação, seriedade e credibilidade do governo na área econômica. Ao mesmo tempo, segundo ela, o governo tem se esforçado para pagar a dívida social com a população e não se desviará desse caminho. Mas há pela frente sérias contradições. A grande questão, como sempre, é a forma política que será adotada para enfrentar o problema.
O próximo governo da presidenta Dilma Rousseff tem boas chances de renovar os êxitos do atual mandato. Existe, no entanto, uma diferença notável entre as duas gestões. Em 2010, Dilma se elegeu basicamente pelos mesmos motivos que levaram Luis Inácio Lula da Silva a ganhar a disputa em 2002 e 2006: a exaustão do modelo econômico neoliberal, que se traduziu em esperança sobretudo de melhorias nos índices de emprego. Esse foi, por assim dizer, o principal catalisador dos votos que garantiram esse ciclo de prosperidade na geração de postos de trabalho e, consequentemente, de renda. O desempenho global do governo esteve sob holofotes, evidentemente, mas o que pesou com força na hora dos noves fora do voto foi a melhoria geral das condições de vida do povo.
Nesse ciclo, o Brasil também foi aprovado no tratamento dado às questões sociais, na condução da política externa, no ritmo das melhorias infra-estruturais e nas ações de combate à corrupção. Mas claudicou, sobretudo no seu início, na condução macroeconômica. E esse tende a ser o grande calcanhar-de-aquiles do segundo mandato da presidenta Dilma. Nesse quesito, o governo será pressionado por dois flancos. De um lado, uma minoria direitista irá cobrar de Brasília mais juros para manter a engorda do sistema financeiro e até mesmo o retorno da agenda neoliberal, como as "reformas" trabalhista, sindical e previdenciária. De outro, os movimentos sociais possivelmente estarão mais ativos para impedir a poda de direitos e conquistas sociais e o travamento das mudanças.
Novo contrato social - Em síntese: o Brasil possivelmente irá mergulhar em um embate entre a política do "ajuste" macroeconômico para postergar novas ações sociais e o avanço do projeto progressista. No centro da polêmica estará o papel do Estado. O governo tem, evidentemente, agido para dar outro sentido ao Estado nacional. Só que esse movimento é tímido, acanhado. Ninguém sabe dizer, passadas as eleições, se a lógica mudancista está de fato instalada no coração e na alma do próximo mandato de Dilma. Uma constatação básica: a presidenta não chegou à corrida presidencial de 2014 como símbolo da esperança, como aconteceu com Lula em 2002.
Não fará sentido ao campo governista, por conseguinte, entrar no próximo mandato com o velho discurso da necessidade de um novo contrato social. Isto é: talvez a melhor estratégia seja assumir claramente a premissa de enfrentar o totalitarismo do "mercado" e aumentar o escopo do Estado. Seria uma aberração o governo se orientar por "analistas de mercado" — uma meia-dúzia de funcionários das instituições financeiras que é semanalmente consultada pelo Banco Central (a pesquisa Focus, que apura as "previsões" de instituições do sistema financeiro para diversas variáveis macroeconômicas) —, como vem martelando a mídia. Não se curvar à essa tradição obtusa à luz de um discurso político moderno abrirá um flanco por onde poderá entrar mais ares democráticos. É inaceitável o conceito de que governar é como tocar violino: a gente pega com a esquerda e toca com a direita.
Direita sempre se soube na contramão - A tarefa de defender um novo projeto nacional de desenvolvimento, por tudo isso, não é fácil. Hoje, no espectro centro-esquerda o governo só conta com apoio político porque a luta por mudanças continua. A oposição a essa ideia mudancista se traduz, basicamente, em duas facções: de um lado está a direita tradicional, representada fundamentalmente pelo tucanato e todo o seu arcabouço ideológico — especialmente a mídia —, empenhados em garantir as regalias da elite; de outro, estão os "esquerdistas" e seus panfletos equivocados. Somadas, tem-se virtualmente a totalidade da oposição. A defesa de mudanças estruturais no país, que tem matriz no projeto das forças políticas que apoiam oficialmente o governo, portanto, tem ampla acolhida na sociedade. A rigor, quando a população é consultada sobre conceitos mais profundos de mudanças os resultados são reveladores.
Uma pesquisa realizada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em 2004 indica que a maioria dos brasileiros prefere o socialismo ao capitalismo (54% contra 33%). A população revela, em consultas do gênero, ter consciência de que a direita sempre se soube na contramão da história. Em uma pesquisa divulgada pela revista Veja em junho de 1996, 62% dos conceitos que a elite brasileira atribuía a si própria eram negativos. E a esquerda era tida como a ala progressista da política nacional. Em maio de 1997, em pleno auge da "era FHC", a mesma Vejadivulgou outra pesquisa em que 50% dos entrevistados discordavam da privatização da Vale do Rio Doce — contra 30% que apoiavam e 18% que não tinham opinião. Ou seja: sete de cada dez brasileiros não estavam de acordo com uma ação que foi considerada símbolo do modelo direitista de governar. E metade dos brasileiros estava simplesmente contra.
Esses resultados constroem duas hipóteses. Na primeira, o que se diz sobre a relação entre a popularidade do governo Dilma e o resultado da sua votação não passa de balela. Ou por outra: com sua cantilena de país dividido a direita faz demagogia e politicagem. Na segunda hipótese, as forças políticas governistas têm toda razão em abraçar a missão de gerar as condições para a continuidade das mudanças. E uma das tarefas nesse sentido é a de mobilizar forças unitárias para impulsionar essa bandeira. As condições objetivas, como vimos, são amplamente favoráveis. E há mais constatações.
O exemplo de São Paulo - Tomemos o caso de São Paulo, onde a disputa mais do que em qualquer outro estado refletiu a dicotomia entre esquerda e direita — ou os dois projetos fundamentais que historicamente disputam a condução do país. Nas regiões em que o desenvolvimento chegou com força, após anos e anos de abandono, Dilma obteve uma boa votação porque a realidade era bem distinta daquela apresentada pela mídia. É o caso de Hortolândia, cuja prefeito é do Partido dos Trabalhadores (PT), onde Dilma e o candidato a governador petista Alexandre Padilha venceram.
Quem vive na capital, também governada por forças petistas e comunistas, igualmente percebe claramente que experimenta novidades positivas. São Paulo começou a mudar de rosto — para desespero de uma fração paulistana reacionária e fortemente presente na mídia. As ciclovias se espalharam. Nas periferias, ruas que nunca viram asfalto foram pavimentadas. E um fato curioso aconteceu: os donos de empresas prestadoras de serviço, a princípio receosos em lidar com uma administração de esquerda, mudaram rapidamente de opinião. A prefeitura passou a pagar suas dívidas em dia e dentro do rigor da lei. No meio do mandato do prefeito Fernando Haddad, a cidade já está pontilhada de benfeitorias.
Moralismo udenista-fascista - São Paulo é muito mais complexa do que Porto Alegre, a capital do Rio Grande do Sul e precursora das administrações democráticas e populares, mas é razoável imaginar que aquela experiência vem sendo aperfeiçoada com os paulistanos. Na capital gaúcha, quando o petista Olívio Dutra assumiu a prefeitura, em 1988, uma das primeiras medidas foi espalhar pelo município fiscais rigorosos na arrecadação dos impostos, que ficaram famosos por não aceitarem propinas. A aplicação do dinheiro arrecadado passou a ser decidida nas reuniões do orçamento participativo.
Na periferia, favelas iam sendo urbanizadas. No centro, os camelôs eram cadastrados e relocados. A frota de ônibus foi renovada. O nível de ensino na rede pública aumentava na mesma proporção em que o índice de repetência diminuía. O Hospital de Pronto-Socorro em pouco tempo passou a prestar serviços de altíssimo padrão. Em poucos anos, a capital cinzenta que havia às margens do Guaíba transformou-se em uma cidade com auto-estima recuperada, que via o conceito de cidadania presente em seu cotidiano e que frequentemente era eleita como uma das melhores cidades do Brasil.
Propagação moralista gobbeliana - Em outras regiões do país o fenômeno se repetiu: onde o desenvolvimento chegou, Dilma obteve estrondosas votações. A atuação consequente do eixo político que gerou e sustenta as excelências administrativas municipais progressistas também levou o governo federal a se desvencilhar de algumas amarras macroeconômicas — especialmente as da cartilha do Fundo Monetário Internacional (FMI) — e a fazer a travessia em direção a um novo modelo econômico. O grau de desarranjo da economia decorrente do período neoliberal não podia ser minimizado, mas, com prudência e levando em conta que a situação cobrava urgência, foi possível fazer a convergência para uma situação de resultados positivos inegáveis.
Onde a população estava mais propensa a dar ouvidos à pregação da mídia a votação de Dilma foi reduzida. Nelas, o desenvolvimento não foi tão intenso e o que sobrou foi a propagação gobbeliana do moralismo udenista-fascista. Em grande medida, isso se deve ao fato de que as forças democráticas e progressistas tiveram poucas oportunidades para falar com os eleitores. Basta dizer que muitos brasileiros só tomaram conhecimento pleno das notórias sujeiras tucanas nos poucos meses da campanha de Dilma, quando elas saíram das gavetas e de debaixo dos tapetes da direita. Este respiro democrático permitiu maiores espaços para a defesa das concepções progressistas e para as desmistificações das calúnias direitistas.
No jogo político o que conta é a discussão de questões novas; não com o cunho de novidade banal, como às vezes elas aparecem — as "análises" da reeleição de Dilma pela mídia é um exemplo —, mas de forma séria. É sabido que o peso das lideranças políticas de um país reflete o estado de espírito de uma época segundo a força das aspirações de uma ou outra classe — ou de um conjunto delas. Mas há hoje, apesar da vitória da presidenta, uma nítida predileção entre os "formadores de opinião" da mídia pela ideia de que os líderes de uma nação não são expressão de classes e grupos de classes, mas sim resultado de um abstrato "jogo democrático". A origem dessa atitude está no fato de haver motivações poderosas em negar que a reeleição de Dilma foi a concretização de uma aspiração popular historicamente republicana.
As eras dos Bragança e dos Silva - O povo brasileiro vê a República, desde antes da sua proclamação, como sinônimo de independência nacional, liberdade política e distribuição de renda. Pode-se dizer que o ciclo Lula-Dilma vem cumprindo razoavelmente bem essa missão. Mas não se pode esquecer que muitos votos das classes intermediárias — tradicionalmente refratárias às propostas progressistas — nessas eleições migraram para a direita. Estas camadas sociais podem oscilar à esquerda ou à direita de acordo com as respostas que se oferecem aos seus anseios. E isto tem reflexos nos rumos que o país toma. O fato é que com um debate franco fica mais difícil para os setores conservadores emperrar o processo de transformação do Brasil em um país desenvolvido. A sociedade terá certeza de que os piquetes anti-progresso são mesmo obra de minorias pouco significativas e não um reflexo do pensamento nacional médio.
Luis Fernando Veríssimo, em uma de suas crônicas sempre bem-humoradas, disse que a vitória de Lula em 2002 significou uma mudança de era: a dos Bragança para a dos Silvas. A verdade é que não há como compreender a atual fase do Brasil sem estudar as diversas lutas populares da nossa história, seus objetivos, seus programas, suas causas e consequências na evolução do movimento geral que levou Lula e Dilma à Presidência da República. E sem levar em conta o papel de líderes populares e vultos notáveis da nossa história democrática. Destaco entre eles, por sua expressão representativa da luta brasileira pelo progresso, o republicano Lúcio de Mendonça, que considerava a proclamação da República "uma transição para mais aperfeiçoada forma de governo".
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Imprensa marrom no terceiro turno

No Vermelho:

Revista Veja aposta novamente na infâmia

Protagonista do maior vexame editorial da história do jornalismo brasileiro, ao ser condenada a publicar direito de resposta em pleno dia das eleições por tentar golpear a democracia, Veja dobrou sua aposta na infâmia. Sua edição deste fim de semana demonstra que seus acionistas, executivos e editores perderam de vez a noção do ridículo.
O exemplo maior é a reportagem chamada "Manual de sobrevivência no segundo mandato". Segundo o texto de Mariana Barros e Marcelo Sakate, o Brasil estaria vivendo uma grande ameaça. A "imprensa livre" desaparecerá, o Supremo Tribunal Federal será aparelhado, o Brasil financiará mais e mais ditaduras e até os investimentos pessoais estarão sob risco. Detalhe: a primeira semana pós-eleições foi marcada pela queda acentuada do dólar e disparada da Bovespa. Ou seja: quem leu Veja e apostou contra o Brasil perdeu dinheiro.

Em seguida, no texto "A arte de iludir", Dilma é comparada a personagens como Mussolini e Hitler por defender o plebiscito sobre a reforma política. A qualidade da argumentação de Veja pode ser medida pela última frase da reportagem. "Então, à luz da experiência histórica, fica combinado o seguinte: plebiscito com o PT no poder, não, não e não!".

A piada da edição, no entanto, mais uma vez coube a Eurípedes Alcântara, o diretor de Redação da publicação. "Veja não procurou criar efeitos eleitorais contra ou favor de nenhum candidato ao publicar a capa da semana passada com a revelação de que o doleiro Alberto Youssef disse aos policiais e procuradores federais que Lula e Dilma sabiam do funcionamento do esquema de corrupção na Petrobras", afirma ele, em sua Carta ao Leitor. Como diria o célebre jornalista Paulo Nogueira, editor do Diário do Centro do Mundo e ex-diretor da Abril, pausa para gargalhar.

Aliás, na reportagem sobre a Operação Lava Jato, Veja reafirma as acusações da semana passada, mas não as comprova. O tal "depoimento" de Youssef, mais uma vez, não aparece. Continua a ser o que aparentemente é: uma peça de ficção.

Honestidade intelectual só se encontra na coluna de José Roberto Guzzo, membro do conselho editorial da Abril. Diz ele que a eleição trouxe uma boa e uma má notícia, pela ótica da Abril. Começando pela má: Dilma venceu. A boa: "agora está garantido, sem margem de erro, que ela ficará no cargo só mais quatro anos". O que seria, segundo Guzzo, "um alívio". Para os brasileiros, o alívio parece ser o fato de que, pelo menos Guzzo, não irá abraçar teses golpistas, respeitando os quatro anos de mandato de Dilma.

Pelo que se lê na edição, a família Civita, o executivo Fábio Barbosa, que preside a Abril, e o jornalista Eurípedes Alcântara, que dirige Veja, fizeram uma escolha. Optaram pela irrelevância. Em vez de se adaptar à realidade e tentar compreendê-la, dobraram a aposta na infâmia. Ao que tudo indica, terão que se preocupar com a própria sobrevivência da Abril, enquanto o Brasil e os brasileiros avançam. (Fonte: Brasil 247)
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Uma crônica para descontrair

Meu pedido nas nuvens

Luciano Siqueira

Por viajar com certa frequência, faz muito tempo perdi o fascínio que tinha (quando criança) por andar de avião. Antigamente, nos bons tempos da Varig de generoso serviço de bordo, fazia gosto. Aperitivo (não raro um bom uísque), a refeição principal, cafezinho ao ponto e licor para arrematar. Coisa do século passado.

Hoje, serviço de bordo decente só em viagem internacional, e olhe lá. Depende da companhia aérea. A TAP mesmo, que oferece bom cardápio, naufraga feio nos modos (ou na falta de modos, como dizia minha mãe) de suas aeromoças irritadiças e descabeladas. Aquelas mulheres grosseiras perdem feio para nossas comissárias brasileiras, feias ou bonitas, impecáveis em gentilezas, cabelos presos a gel.

Pois bem. Leio agora sobre uma pesquisa feita junto a mais de três mil tripulantes de uma companhia norte-americana destinada a revelar os pedidos mais frequentes dos passageiros. Tem de tudo. Desde querer saber onde fica (na aeronave) a lanchonete do McDonald’s (eca!) até que o piloto desligue os motores por causa do barulho. Abrir a janela, muita gente pede. Massagem na boneca Barbie, idem. Isso sem falar nos que querem saber a localização dos chuveiros, para um bom banho a bordo...

Isso é lá na terra de Obama. Aqui em nosso país tropical abençoado por Deus, não sei de nenhuma pesquisa semelhante. Provavelmente os pedidos fora de esquadro sejam outros, tipo ligar a TV para ver o jogo do Brasileirão ou uma boa caipirinha. Nunca ouvi nada assim, mas admito que viajantes de todos os naipes em algum momento imaginem coisas desse tipo.

Da minha parte, seria muito menos pretensioso. Se pudesse, solicitaria encarecidamente que mudasse de lugar o passageiro ao lado que não me deixa ler em paz, insiste em me interromper com assuntos os mais bobos e, diante da minha tenaz resistência, desiste, mas cai em sono profundo movido a ronco de motocicleta.

Vira e mexe tenho a má sorte de uma companhia inconveniente. Certa vez, num longo voo de duas escalas do Recife a Florianópolis, dei o azar de viajar com uma jovem gestante que, por descuido meu, me descobriu médico e me bombardeou com um milhão de perguntas sobre o parto, os cuidados com o recém-nascido, as doenças possíveis na primeira infância e tudo o mais que lhe deu na telha! Enquanto isso, sequer pude folhear o volume de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado, que naquele dia atraia a minha atenção. Se não me engano, parei naquela frase: “...Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.”

Por isso converti-me no passageiro mais chato do mundo: sento, abro o livro e sequer cumprimento quem está ao meu lado, seja lá quem for. (Publicado no portal Vermelho).

01 novembro 2014

Elemento da reforma urbana

Prioridade para mobilidade urbana na agenda presidencial

As reais necessidades nas grandes cidades e regiões metropolitanas exigirão um volume muito maior de investimentos e de medidas institucionais.
José Augusto Valente*, na Carta Maior

Embora, no PAC 2, o governo federal tenha apresentado um rol de investimentos em mobilidade urbana, as reais necessidades nas grandes cidades e regiões metropolitanas exigirão um volume muito maior de investimentos e de medidas institucionais igualmente importantes.

Ninguém mais suporta os imensos congestionamentos constatados nas grandes metrópoles, fruto de políticas que não priorizam o transporte coletivo e de massa. Metrôs, trens, BRTs, VLTs e ônibus têm que aumentar o seu alcance e, portanto, os volumes de passageiros transportados. Além disso, nas vias urbanas rodoviárias, a segregação do transporte coletivo terá que ser cada vez mais maior.

Entretanto, mais vias segregadas e veículos não são suficientes para retirar milhões de automóveis de circulação nas áreas mais adensadas. A redução da tarifa e sua integração é vital para que isso aconteça e independe de investimentos em infraestrutura. Subsidiar tarifas também tem suas limitações, embora seja uma solução parcial.

Uma das principais medidas institucionais a ser priorizada, e que julgo de alta eficácia, é reduzir o máximo possível os custos de operação rodoviária. Especialmente combustível e impostos.

Urge promover um programa de substituição das frotas rodoviárias que utilizam combustíveis fósseis por veículos que utilizem etanol ou energia elétrica gerada por baterias. Isso, combinado com isenção ou redução de impostos sobre todos os componentes desses veículos e dos seus combustíveis, poderá reduzir significativamente as tarifas de integração.

Não há mágica, portanto. As tarifas têm que ser bem mais baixas, ao mesmo tempo em que a velocidade operacional e o conforto bem maiores. Adicionalmente, poderá se acrescentar algum nível de subsídio vinculado ao IPVA ou ao IPTU. E, por fim, mas não descartável, a implantação do pedágio urbano, com receita vinculada ao subsídio do transporte coletivo.

No que respeita a trens e metrô, que configuram transporte de massa, o governo federal tem que assumir os investimentos em infraestrutura para ampliação das vias férreas. Os estados, incluindo São Paulo, não têm condição de arcar com esse ônus, isso está mais que provado.

O efeito colateral de retirar milhões de automóveis de circulação, nas áreas de maior fluxo de veículos, e oferecer veículos com combustível muito menos poluentes, é promover uma grande redução na emissão de carbono. O que é muito bom para a saúde dos cidadãos e também para a humanidade, com a redução do efeito estufa ao nível desejado.

O melhor de tudo é que a presidenta não precisará esperar 2015 para agir sobre esse grave problema. Mãos à obra!

(*) Especialista em logística e transportes 

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Ausência

Foto: Alessio Albi
O sábado é de Vinícius de Moraes: “A cada ausência tua, eu vou chorar/Mas cada volta tua há de apagar/O que esta tua ausência me causou”