04 abril 2015

A centralidade da questão nacional

A defesa da nação

Eduardo Bomfim, no Vermelho

Nesses tempos da globalização financeira da Nova Ordem Mundial, quando faz-se hegemônico um conjunto de ideias, normas, valores, conceitos impostos aos povos, a despeito das suas trajetórias históricas, vale a pena fazer algumas reflexões.

De forma que nunca é demais lembrar a observação do historiador egípcio-britânico Eric Hobsbawm, ao final da década de 90 passada, em seu livro A Era dos Extremos: um dos fenômenos mais lúgubres da atualidade é que as novas gerações estão sendo levadas a viver numa espécie de presente contínuo sem referência com o passado, mesmo o passado mais recente, e sem perspectiva em relação ao futuro.

Na verdade, um dos fatores mais recorrentes da atualidade é o “não acreditar no progresso, o eclipse da ideia segundo a qual a História traça uma curva ascendente, o predomínio do Kulturpessimismus” associado ao fetiche extremado da mercadoria que por sua vez renova-se continuamente através das transformações científicas, tecnológicas gerando novas deificações mercadológicas.

Não é sem razão que a globalização financeira, midiática, promove no mesmo período o esforço de procurar fazer desaparecer as relações das coletividades com suas identidades culturais, as permanências e renovações dos povos, que conferem aos indivíduos, comunidades sociais suas autênticas raízes.

Essa mídia hegemônica que é correia de transmissão da ideologia do pensamento único global subordinada à acumulação do capital financeiro rentista mundial tem sido responsável por uma agenda “cultural” que uniformiza os gostos, anseios das pessoas facilitando a difusão global das mercadorias.

A crise política nacional não pode ser compreendida extra mecanismos de ação do capital parasitário nem dos processos de dominação fartamente denunciados, inclusive pelo ex-agente da CIA Edward Snowden: a tentativa de recolonização das nações autônomas especialmente os Brics, principais entraves à geopolítica draconiana dominante.

Assim, o que urge ao governo Dilma e a todos segmentos patrióticos, democráticos é avançar no protagonismo em defesa da nação, das nossas cobiçadas riquezas continentais, a legalidade democrática, todas ameaçadas nesse cenário árido. A constituição da união das grandes maiorias que compõem a sociedade nacional em prol da soberania, do desenvolvimento do Brasil.

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A vida do jeito que é

Chacina

Marco Albertim, no Vermelho
A esplanada da usina amanheceu como todos os dias. A terra seca, cinzenta, nua de seixos, com sulcos largos e vazios, cobriu-se de umidade. Às cinco da manhã, o sol não desponta inteiro. O lusco-fusco adensa-se, emprenha-se do cheiro avinagrado do canavial recém-queimado.
Às vésperas da moagem, o verdor das palhas da cana sumira ou ressecara, nas chamas que antecedem o corte. O cheiro juntou-se ao odor de cinzas do massapê seco, ainda cimentando as raízes de cada touceira. Por último, o bodum do rio com a água gelatinosa da calda da moagem do ano anterior, imiscuiu-se ao conluio dos cheiros diversos. A esplanada dava a impressão de ter sido lavada pela chuva. Mas os homens sabiam que os poros da terra só transpiravam seus miasmas.
Às cinco da manhã, contrariando o costume, a chaminé da usina não soprou o negrume do açúcar cozido. Os homens chegaram aos poucos, vindos de vilas espremidas pelo canavial. Calçavam alpercatas, chinelos de borracha. Homens, mulheres e crianças usando chitas desbotadas, chapéus de palha ou de feltros desfiados. As crianças, descalças, olhos remelados, não se queixavam de fome, mas não se amofinariam caso se deparassem com um prato de ágata entupido de cuscuz.
Eles olhavam para cima, à espreita de uma porção, ainda que fina, de fumaça saindo da chaminé. Mas o canavial fora queimado na véspera, e da largueza do plantio desprendia-se vivo o cheiro da tisna deixada pelo fogo. Aqueles mesmos homens tinham ateado fogo, de um lado e de outro das estradas de massapê entre o canavial. Viram as chamas crescerem, crepitarem com a ajuda dos seixos miúdos na crosta da terra, convertidos em carvão vegetal. As canas, finas, tinham um bagaço grosso subindo à altura do meio do tronco. O bagaço logo transformava-se em cinzas. O vento soprando-as devagar, misturando-as aos poucos insetos, gafanhotos da cor da palha da cana, fugindo do calor intenso. Aqui e ali, uma cascavel escafedia-se; o couro úmido deixando-se curtir na quentura do chão lavrado. Muitas contorciam-se ali mesmo, estorricando-se até se confundir com as raízes queimadas na superfície do chão. Depois da cana cortada, também os restos dos répteis eram enfeixados e jogados na carroceria dos tratores, dos caminhões.
Mas não se ouvia o rugido da esteira conduzindo as canas para as moendas de dentes longos e roliços, tampouco a espremedura chorosa dos troncos.
A multidão inerte, olhando para cima, por fim procurou explicação nas duas entradas sem porta, de acesso ao maquinário da produção. De onde estavam, só se distinguia a escuridão da fuligem espalhada por anos a fio de produção sem manutenção ou limpeza dos paredões laterais.
Ao lado, as salas dos escritórios davam conta de um movimento incomum. Funcionários bem vestidos, usando meias de seda e sapatos de couro, saíam de uma sala para entrar noutra. Não se importavam com a multidão ocupando toda a esplanada. O alambrado em cima dos muros de cimento, separava-os dos cambiteiros de rostos suados.
Por trás da multidão, o barracão da usina mantinha o comércio de costume. De onde estavam, os homens e as mulheres não podiam sentir o cheiro do charque exposto sobre sacos de algodão. Se apurassem os sentidos, no entanto, o azedume do gordo jabá desceria por suas entranhas. Teriam se rendido ao festim da carne distante, não fosse a aparição de um dos funcionários descendo os degraus de salas contíguas; vinha para o portão principal, de saída ou de acesso ao lado interno da esplanada. Debaixo do braço, carregava uma placa de madeira. Sem se atrever a sair, pendurou a placa com a frente para o lado de fora; lia-se: Moagem suspensa. Usina fechada para balanço.
Os poucos cambiteiros que sabiam ler, explicaram para os outros.
- Não é verdade. A usina foi vendida para outro usineiro. E o outro usineiro não vai pagar o nosso salário.
- E agora?
- Vamos entrar no escritório.
- Não precisa ir todo mundo. Basta cinco pessoas.
Cinco camponeses entraram rumo aos escritórios. O vigia se interpôs entre eles, mas nada pôde fazer, apesar de portar na cintura um revólver calibre 38. Foram recebidos pelo dono da usina, um homem de meia idade, baixo e sem chapéu na calvície por toda a cabeça. Não se ouviu a conversa entre os cambiteiros e o usineiro. Ouviram-se cinco estampidos de revólver.

Roda de conversa

Segunda-feira próxima ainda estarei no exercício do cargo de prefeito. Por essa razão, nossa RODA DE CONVERSA fica adiada para a segunda 13 - como sempre, no Bar Retalhos, a partir das 18,30h.

03 abril 2015

Uma crônica para descontrair

A persistente presença do bizarro

Luciano Siqueira, no Jornal da Besta Fubana

Nem sei se este é o melhor título para anunciar o breve comentário que farei aqui. Também não tenho certeza de que o assunto interessa aos meus poucos leitores semanais...

Explico: com muito que fazer, mas necessitando de uma pausa amena na manhã nublada de São Paulo, fiz o costumeiro passeio internético, ao modo de devaneio, acionando sites noticiosos com o olhar ali embaixo, perto do rodapé.

Foi assim que me deparei com manchetes que beiram o bizarro: "Casal é preso e faz sexo dentro da viatura da PM", "Cantor perde quase 70 quilos ao se assustar com foto em capa de CD", "Micro-porca é proibida de entrar em pubs porque fica bêbada"...

São fatos reais, devidamente chancelados pelas agências de notícias.

Lembram uma manchete mal escrita, atribuída a um redator do Diário de Pernambuco, em meados do século passado: "Padre viaja com raiva e não sabe".

O padre em questão fora mordido por um cachorro acometido de hidrofobia, corria o risco de estar infectado, pegou a estrada e até o fechamento da edição do vetusto matutino ninguém o alcançara para lhe dar a má notícia. Não havia telefonia celular naquele tempo.

Agora, voltando aos ditos fatos recentes, parece esquisito que um casal de presos por furto, conduzidos algemados no camburão da política, tenha se valido da oportunidade para os prazeres do sexo. Esquisito, mas sem a menor importância, creio.

Da mesma forma, um cantor provavelmente obeso, ao ver-se retratado na capa de um CD terá sido tomado de uma determinação invulgar e, em pouco tempo, mediante severa dieta, conseguiu subtrair do seu corpanzil 80 quilos! Está feliz? É o que vale. Mas também não tenho o menor interesse em saber detalhes. 

E a porca que transita pelas ruas de Londres conduzida pelo seu dono, coitada: ébria depois de umas boas doses de scotch, teve o seu direito de ir e vir cerceado! Quer dizer: esse direito ela deve ter, do contrário o fato não viraria notícia internacional.

Ora, se tais informações circulam com destaque em portais noticiosos mundo afora é porque interessam a muita gente. 

Porém há fatos edificantes que bem poderiam ocupar o espaço. Mas o critério editorial parece ser irmão gêmeo da opção por empanturrar leitores, telespectadores e ouvintes de rádio com desastres, roubos, assassinatos, acidentes vários, enquanto as boas notícias - que existem - simplesmente passam ao largo. 

Grupos monopolistas de mídia não apenas são comprometidos politicamente, aqui e alhures, como trocam a boa e necessária informação por bobagens que divertem apenas tolos e desocupados.

Você concorda?
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Poema do reencontro desejado

Foto: LS

Com o oceano inteiro a navegar

Letícia Simões

a ponto de partir
escuto nossos olhares sorrindo
à distância

o azul ainda arde
na pele do mais recente
náufrago

me despeço como quem afia as garras

(estou ameaçada e repetida)

um dia iremos nos
encontrar
já sem a ânsia de controlar
as palavras

sorriremos
das cidades que construímos e
enterramos na velocidade do
azul profundo

depois mergulharemos

(cada um com seu próprio tanque
de oxigênio)

diremos:
um dois três
desapareceremos
junto às ondas

às memórias de alto
mar 

02 abril 2015

Crise política e alianças

Nó em pingo de éter

Luciano Siqueira

Numa situação adversa, em que a correlação de forças se mostra francamente desfavorável impõe-se - como se diz no jargão político - dar nó em pingo de éter à meia-noite, no escuro, calçando luva de boxe...

E não é uma questão de habilidade. Nem de estilo.

Antes, é uma questão de concepção acerca do exercício da hegemonia e de descortino tático.

Pois há um limite minimamente razoável para se recusar alianças aparentemente incômodas, porém momentaneamente mais do que necessárias, imprescindíveis. Ou seja: a um líder e a uma corrente política hegemônica, impõe-se concertar alianças amplas e diversificadas, esticando a corda até onde seja possível.

Sem preconceitos.

Na Insurreição Pernambucana, as hostes de Felipe Camarão, André Vidal de Negreiros Henrique Dias e Fernandes Vieira guardavam contradições acesas entre si, expressão dos conflitos entre índios, negros escravos, trabalhadores rurais, senhores de engenho e comerciantes, mas foram capazes de formar a ampla frente que derrotou os holandeses em 1649.

Em dimensão maior, na Revolução Popular na China, Mao Tese-tung e o Partido Comunista celebraram aliança como o arquiinimigo Chiang Kai-shek para combater e derrotar o inimigo principal da nação chinesa, o invasor japonês. 

Da mesma forma, Ho Chi Minh, que havia fundado o Partido Comunista e a Frente de Libertação Nacional da Indochina arrostando o colonizador francês, foi capaz de se aliar aos franceses quando estes já abandonavam a região, derrotados, para juntos enfrentarem o novo inimigo principal, o imperialismo japonês. 

Assim é a História da luta política no mundo e em nosso país. 

Lula não teria sido eleito em 2002 e reeleito em 2006 sem alianças amplas, tendo inclusive na sua chapa, como vice, um dos maiores industriais do país. Da mesma forma, Dilma não teria vencido em 2010 e em outubro passado.

Essas referências vêm a propósito da ingente necessidade da presidenta Dilma e das forças que a apóiam buscarem uma pactuação com partidos representados no Congresso Nacional, com os movimentos sociais e instâncias diversas do empresariado, da intelectualidade e da comunidade técnica e científica em torno da preservação da ordem democrática e da superação das dificuldades momentâneas da economia, da garantia do emprego e dos direitos fundamentais dos trabalhadores e da retomada do crescimento. 

Mas com o olhar de quem milita numa corrente de inequívoco apoio e solidariedade à presidenta - o PCdoB - e observa o evolver dos acontecimentos cá da província, tenho pra mim que os sinais emitidos do Planalto ainda são tímidos nessa direção. 

Parece que há uma disposição "seletiva" na busca da nova pactuação. 

A escolha do novo ministro da Educação sugere que o governo prioriza um entendimento com segmentos da sociedade à margem dos partidos e em sintonia com o ambiente da "não-política" (ainda que sejam reconhecidas as credenciais do professor Renato Janine Ribeiro). 
Cabe perguntar: é possível conquistar condições de governabilidade pelo menos razoáveis em colisão com o principal aliado, o PMDB? É possível governar em conflito permanente com a maioria do Congresso?
Por aí se identifica o caminho para a continuidade ou a superação da crise política.
*
Qual a sua opinião?
(Publicado no portal Vermelho e no Blog de Jamildo/portal ne10)
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01 abril 2015

O fio da História

Nada é coincidência

Jandira Feghalli, no Vermlho

Sem que muita gente saiba, parte do ovo da serpente de 1964 começava a ser fecundado bem antes do dia 31 de março. Dois anos antes, como uma estratégia bem tramada, entidades de pensamento ultraliberal eram inundadas de dinheiro estrangeiro com o objetivo de atacar ideologias de Esquerda e defensores do campo progressista. Uma parte da História que nos remete ao momento atual.

Quase ninguém se recorda do americano Ivan Hasslocher, que comandava o misterioso Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), entidade que tinha o objetivo de financiar – e comandar – candidatos brasileiros que defendiam os interesses dos Estados Unidos. Sem sutileza alguma, a entidade chegou a financiar mais de 600 candidatos à época, desembolsando mais de "1 bilhão de cruzeiros". Consta nas memórias do ex-deputado Eloy Dutra (PTB) que o dinheiro provinha do The Royal Bank of Canadá, Bank of Boston e The National City Bank of New York.

O papel do IBAD fora um importante pilar para a instalação do vergonhoso Regime Militar e seu rasgo em nossa democracia. Setores conservadores brasileiros e organizações do empresariado paulista passaram a integrar o IBAD, onde protagonizarem a lamentável “Marcha com Deus e a família pela liberdade”, reunindo camadas médias num ato de desprezo ao governo de João Goulart e tudo que ele representava.

É neste ponto da História que as “coincidências” se refletem. Ainda que as dificuldades geopolíticas influenciem a economia brasileira, parece insuportável às forças do capitalismo internacional e nacional a continuidade de um projeto democrático e popular num Brasil que defende a soberania, direitos sociais e distribuição de renda para o desenvolvimento justo, e pior, com um valioso pré-sal sob domínio de seu povo. Os 12 anos de governo Lula e Dilma ainda são um dolorido soco no estômago do capital financeiro.

Não é à toa que, cada vez mais, surgem indícios de contribuição financeira e ideológica de grupos ultraconservadores internacionais por trás dos protestos “espontâneos” contra o Governo Federal. De acordo com o jornalista Antônio Carlos, em reportagem para Carta Capital, os bilionários irmãos estadunidenses Koch, que possuem interesses em gás e petróleo, atuam com forte lobby em entidades que lideraram as recentes manifestações de 15 de março, como a do Movimento Brasil Livre, nascido há pouco mais de 1 ano, porém com objetivo nublado e de representantes nada convincentes.

O caldo de ódio inflado por grupos como este, tidos como “autênticos”, generalizando a política como corrupta e pregando a interrupção de um governo democraticamente eleito, é mais uma tentativa de retrocesso inaceitável. Geram pelo país ondas de ira sem volta, permitindo espaço nas ruas a grupos fascistas e pregando absurdos como a privatização da Petrobras. Tudo não passa de um oportunismo destas forças que pouco se importam com a desestabilização do país e a consequente ruptura democrática.

Os interesses econômicos internacionais e de setores nacionais, como se vê, são capazes de tudo. Cabe ao Brasil defender seu patrimônio e não ceder na discussão política, nas ruas, ou no Congresso Nacional. A caminhada do PCdoB nesta trincheira é longa e histórica, pois as lutas pela liberdade e emancipação do povo estão na sua essência. Perdemos muitas vidas nesta trajetória e é por isso que resistiremos para que o atraso não se aproprie do futuro de nossos filhos, mantendo o embate aberto, arejado, sem medo, com a coragem de quem conhece e rememora o passado e quer avançar muito mais. Bem mais.
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