03 março 2018

Violência sexista


Falta de dados confiáveis dificulta combate à violência contra mulher
Cristiane Sampaio para o Brasil de Fato, reproduzido no Vermelho

A sistematização de dados sobre a violência contra a mulher é um dos gargalos do país no que se refere à construção da igualdade de gênero. Especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato destacam que o panorama nacional de dados sobre o tema é marcado por pesquisas pouco detalhadas e sem cruzamento seguro de informações. A defasagem nas estatísticas compromete a elaboração de políticas públicas.

Na Rede de Atendimento à Mulher, a falta de um sistema nacional que padronize as informações dos órgãos municipais, estaduais e federais traz dificuldades para o enfrentamento à violência. Iniciativa da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres, a Rede engloba ações nas áreas de saúde, assistência social, segurança pública e Justiça.

Em geral, os órgãos utilizam métodos distintos para o lançamento de dados, o que compromete, por exemplo, o trabalho das entidades que desenvolvem pesquisas na área. O Observatório da Mulher contra a Violência, ligado ao Senado Federal, conhece bem o problema. Segundo Henrique Marques, coordenador do Observatório, o órgão tentou organizar estatísticas nacionais há cerca de dois anos, mas esbarrou na dificuldade de padronização dos dados.

"Nós pedimos às Polícias Civis e às Secretarias de Segurança Pública que nos mandassem os dados de violência contra mulheres em cada um dos estados, mas a gente não conseguiu juntar as coisas porque os critérios são diferentes. É um trabalho que não é simples", reconhece Marques.

A professora Lourdes Bandeira, do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Mulher (Nepem) da Universidade de Brasília (UnB), alerta que a falta de detalhamento e padronização das informações compromete a realização de estudos com diagnósticos mais precisos do problema. Ela cita, por exemplo, a ausência no país de uma "pesquisa de vitimização", levantamento que investiga o nível de vulnerabilidade das mulheres à violência em diferentes lugares e situações. A professora explica que esse tipo de estudo analisa as características dos crimes nas distintas localidades, considerando as particularidades culturais de cada região. Com isso, a pesquisa poderia auxiliar o poder público na prevenção da violência.

"Como é que você vai atuar se você não sabe que numa área tem mais assassinato, em outra tem mais violência sexual, em outra tem mais assédio? Porque a violência não é homogênea", destaca.

Projeto de lei - Se, para quem faz pesquisas, a carência de dados constitui um problema, a defasagem estatística também compromete o trabalho do Poder Executivo na elaboração de políticas públicas. A analista de políticas sociais do governo federal, Thaís Oliveira, aponta que uma maior articulação entre as informações dos diferentes órgãos permitira ações estatais mais efetivas.

"É importante que a gente tenha trabalhos junto com a segurança, a assistência social, para construir uma rede que proteja a mulher, e uma rede que se conheça porque muitas vezes os serviços não se conhecem. Isso ajuda a gente a ter um panorama maior do que está acontecendo em cada território, afirma.

A carência de um sistema nacional que padronize as informações é uma dívida dos diferentes governos ao longo do tempo. Uma proposta que tramita atualmente na Câmara Federal pretende sanar este problema. É o Projeto de Lei (PL) 5000/2016, que institui a Política Nacional de Informações Estatísticas Relacionadas à Violência contra a Mulher (Pnainfo).

Para Mariana Galvão, militante do Fórum de Mulheres do Distrito Federal, a aprovação do PL seria fundamental para a articulação entre as pautas do movimento feminista e a ação do poder público. "A parte da pesquisa é fundamental pra que a gente possa exigir e aumentar nossa demanda por políticas públicas nessa área", defende.

O projeto aguarda votação no plenário da Casa.
 
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02 março 2018

Carnaval & revolução


O partido mandou me chamar
Urariano Mota, no Vermelho

Se a vida pudesse ter a imagem de um ponto da curva, de inflexão num só instante, eu diria que me aconteceu um no sábado de carnaval. Estávamos eu e Francêsca no Mercado da Boa Vista, ali por volta de uma da tarde, sentados a uma mesa, quando vi na multidão que ondulava as pessoas de Alanir Cardoso e Nevinha. O quê, eram eles?

A sua visão transmitia um sentido bom que acenava para o melhor da gente na tarde: casal de militantes comunistas, cabelos brancos, provados e sobreviventes da ditadura. Então nós os convidamos para que dividissem um pequeno espaço da mesa onde estávamos, espremidos na multidão que sorria e gritava e bebia.

“Me segura senão eu caio”, entre muitos frevos estrondava, e bêbados, ou quase bêbados, mulheres e homens davam impulsos brincalhões na mesa como se estivessem a cair. Ali não era nem seria ambiente de se discutir política, revolução, história, onde já se viu? O barulho e a ocasião impediam. Mas como se pode pedir a um escritor e a um presidente do PCdoB em Pernambuco, que não falem sobre a ponte de um militante que partira ainda outro dia? Então me veio à conversa como um raio do qual não se escapa: ali, naquele mesmo espaço eu estivera com Marco Albertim a rir e sorrir para a diversidade humana no Mercado da Boa Vista, em alguns sábados. Nós não precisávamos mais, no mercado, pedir lata de sardinha com cachaça, enquanto o dono do boteco me torturava com a música de Waldick Soriano, eu não sou cachorro não, como numa noite desesperada. Ali, no mercado, na última vez, Marco Albertim ia até um boxe e de lá voltava com um prato de frios, queijo do reino, salaminho, mais uns queijos finos, e podíamos beber uísque. Que diferença das sardinhas com aguardente à noite sob a ditadura.

Eu lembrava isso e Alanir, com voz muito baixa, abafada pelos clarins da banda que circulava pela multidão, respondia, Mas dele só me chegavam palavras isoladas e sua expressão, que, traduzidas por Nevinha e Francêsca se traduziam em síntese neste convite:

- Por que você não entra para o Partido?

No Mercado da Boa Vista, então começaram a cantar o compositor e cronista Antônio Maria:

“Sou do Recife
Com orgulho e com saudade
Sou do Recife
Com vontade de chorar
E o rio passa
Levando barcaça
Pro alto do mar
E em mim não passa
Essa vontade de voltar
Recife mandou me chamar
Capiba e Zumba
Esta hora onde é que estão?
Inês e Rosa
Em que reinado reinarão?
Ascenso me mande um cartão
Rua antiga da Harmonia
Da Amizade, da Saudade e da União
São lembranças noite e dia
Nelson Ferreira toque aquela introdução”

- Por que você não entra para o Partido?

Respondi ao convite com ressalvas, mas eu já estava alcançado e ferido na sensibilidade. Esses sábados de carnaval, esses frevos, essas memórias do que passamos, esses lugares hoje de felicidade coletiva, como fugir do seu irresistível apelo? Eu olhava de lado, me furtava. Então expus razões substantivas, pois haveria um programa partidário a seguir, havia conflitos na política prática do partido com governos aliados, que não me deixavam à vontade. Como viver sob a disciplina partidária?

Eu me lembrava do que Graciliano Ramos falou um dia em 1946, na célula comunista Teodoro Dreiser:

“Não somos, entretanto, contrários ao desempenho de quaisquer tarefas intelectuais, e, muito menos, ao de tarefas práticas. Gostaríamos, apenas, de que a execução destas e daquelas nos deixassem margem para a confecção de nossos contos e romances... Apenas desejamos resguardar um pouco nossas horas e de nossa solidão para gastá-lo em nossa literatura, em nossa incoercível necessidade de criar nossos personagens e nossa histórias – coisa que muitos de nós nunca mais conseguiram, desde que se filiaram ao Partido. O horário de trabalho dos demais militantes, operários, camponeses, funcionários públicos...é estritamente respeitado pelo Partido. Gostaríamos, nós também, de dispor de alguns momentos para nossa literatura. Mesmo as ‘duas horas pela manhã’ que um companheiro dirigente ofereceu a Jorge Amado seriam bem recebidas por alguns de nós, que têm a sua espera, na gaveta, um romance de que só falta alinhavar o último capítulo...”

É claro que cito Graciliano Ramos assim enquanto escrevo, mas na hora eu estava com o sentimento do que li, sabia dos conflitos que houve entre um mestre da literatura brasileira e a direção partidária. Então Alanir, como se fosse uma lembrança da fala de Graciliano Ramos, falou a mim, em tudo tão diferente do clássico, eu que sou menor e menor. Então ele falou a este escritor medíocre:

- Você terá respeitada sua liberdade de pensamento e opinião.

Isso eu ouvi. Já antes desse sábado de carnaval, lembro que os camaradas me haviam feito uma recepção calorosa em São Paulo, na Fundação Mauríco Grabois, quando fui lançar o romance “A mais longa duração da juventude”. Depois, no Recife, a UJS Pernambuco ocupou a livraria no lançamento do romance. Foi comovente saber que a linda bebê do presidente da UJS e companheira se chama Helenira. Depois, a brava juventude ergueu o braço e gritou que era herdeira do Araguaia. Não sei mais o que falar sobre tão humanas recepções.

Mas sei que a frase “você terá respeitada sua liberdade de pensamento e opinião’ foi decisiva. E se assim era, pensei, por que não ia me integrar às filas, às fileiras de companheiros vivos e falecidos? Cada vez mais, tenho a compreensão de que sou memória. E quero estar com os companheiros que vi e vejo, estou com eles, porque assim manda o coração. E respondi que sim, que iria à sede do partido assinar minha ficha. Ao falar dessa maneira, eu pensava que iria preencher e assinar um cartãozinho, feito cartão de autógrafos de abertura de firma em cartório. E teria que reconhecer meu garrancho depois. Mas o partido está informatizado, sem fichários de lata cheios de cartõezinhos como antes. O certo é que respondi “vou lá assinar”. Mais adiante, no outro dia, refleti: na atual conjuntura reacionária, como o chamado mundo literário irá reagir a um escritor que se filia ao Partido Comunista do Brasil? No mínimo, de um ponto de vista de prêmios, isso não é exatamente uma recomendação literária. O julgamento de estetas e cultores da pura estética não premia filiação a partido comunista. Não bastasse o que escreve, entrou no partido! Mas acreditem, amigos, poucas vezes me senti tão feliz com a perda de prêmios que um dia talvez quem sabe eu viesse por hipótese remotíssima ganhar. O prêmio que importa é este: socialistas e camaradas, estamos juntos. Na felicidade e na tristeza. Na saúde e na doença.

Eu, que tanto penso em literatura, nos romances, no mundo da cultura, nos amigos e nas mulheres heroicas da luta socialista, fui me encontrar com um comunista que só pensa na revolução. É no que dá um encontro de sábado de carnaval. Entrei no Partido na sexta-feira 16 de fevereiro deste 2018. Entrei atrasado, porque deveria ter entrado bem antes, mas há muito eu já estava em pensamento com os bravos e fundamentais companheiros de geração.
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Entreguista vulgar

O flagelo Temer
Lidar com um governo em que o todo é menor do que a soma das partes exige prudência. Trata-se de perigosa engenhoca com dispersos centros de comando e trajetórias doidivanas. Depois dos fatos, qualquer maluquice parece planejada. Ilusão temporal: uma coisa depois da outra não quer dizer uma coisa por causa da outra.
Wanderley Guilherme dos Santos*, em seu blog

O bando brasiliense ouviu cantar o galo sem saber aonde e responde às tamancadas: decreto daqui, medida provisória dali, vetos, desvetos, contra medidas e engavetamento dos próprios projetos, quando não, reversão (redução no número de ministérios). Tudo depende de algum grito contraditório, exceto, naturalmente, se a reclamação for do povão ou de seus alto-falantes, sempre negligenciados. Se do Judiciário, imprensa conservadora ou associação empresarial, aí, o bando “arrecua os beque” imediatamente.

Todo ser humano dotado de senso comum operacional percebe o drama contemporâneo: governantes eviscerados de tino ou decência, notórios contraventores, vulgares na ideologia e na linguagem, patrocinam o mais estabanado ingresso na reação conservadora global, de onde provêm os esganiçados cocorocós. Se há certo materialismo vulgar em parte da esquerda, o conservadorismo vulgar de Michel Temer, seus cúmplices, e lambe-botas é aterrador. A cafonice do Executivo interpreta exemplarmente a cafonice do Legislativo. Ou vice-versa, dá no mesmo.

Contudo, a lei garante eficácia material a tais agentes, mesmo burlescos. Os motivos fúteis dos atentados administrativos provocam extensos danos na economia popular, nos graus de autonomia do país e em seu crédito de seriedade internacional. Pior, adesão à democracia obriga a tolerá-los pelo prazo constitucionalmente contratado, embora o governo tenha nascido, sabidamente, de constrangedor assédio às normas constitucionais. Se há algum método na fuzarca, trata-se de ir prometendo sacrifícios de austeridade, embora não para todos os segmentos sociais, e racionalidade nos gastos públicos, expressa até agora, tão somente, nas descaradas transações de compra de voto das famílias parlamentares, com a poupança gerada pelos cortes nos programas sociais.

Esperançosas interpretações midiáticas de resultados econômicos pífios esbarram no materialismo vulgar da economia real. Os ritos de submissão à banca internacional e nacional têm provocado não mais do que graves desequilíbrios no perfil de consumo nacional, expulsão do mercado de trabalho de futuros desalentados, que a ele não voltarão, desorganização e fragilização da estrutura industrial e da infraestrutura, e obscurantismo cultural. Não haverá saldo perene a ser preservado. 

*Wanderley Guilherme dos Santos é cientista político, autor de vários livros e artigos na área de Ciências Sociais. Filósofo e doutor em Ciência Política e pós-doutor em Teoria Antropológica.
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Interesse estrangeiro


Por que a Boeing quer a Embraer?
Americana busca parceria para entrar em mercado de jatos regionais, em que a empresa brasileira é líder. Incertezas, porém, rodeiam possível acordo
CartaCapital
Embraer e a Boeing estão em conversações a respeito de uma potencial combinação de seus negócios. A união entre as empresas brasileira e americana seria uma resposta à europeia Airbus, que comprou em outubro a participação majoritária (50,01%) do programa da canadense Bombardier chamado C-Series, que produz aviões de médio alcance para entre 70 e 130 passageiros, exatamente o segmento dominado pela Embraer.
O interesse da Airbus e Boeing, líderes mundiais na fabricação de aviões com mais de 100 lugares, de entrar neste mercado de jatos regionais está alinhado a uma nova tendência mundial de oferecer uma família completa de aeronaves aos clientes. Isso permite a elas negociar contratos maiores, exclusivos e com melhores condições.
Em 2017, a Airbus recebeu 1.109 pedidos, contra os 912 da Boeing. Já quanto às entregas, a americana liderou com 763 em comparação aos 718 da europeia.
Com a brasileira ao seu lado, a Boeing poderá entrar no segmento de aviões regionais para fazer frente à Airbus-Bombardier e lutar palmo a palmo também pela liderança deste mercado.
A Embraer já possui um produto altamente competitivo: os jatos regionais E-Jets, e a segunda geração deles, os E2, que está em fase de certificação.
"A parceria entre canadenses e europeus reforça ainda mais o interesse da americana pela Embraer”, diz Marcos José Barbieri Ferreira, economista da Unicamp e especialista em indústria aeroespacial.
A americana também está de olho na estrutura produtiva da Embraer, privatizada em 1994 no governo Itamar Franco e que se tornou a terceira maior fabricante de aviões do mundo. A Boeing poderá usar as fábricas para verticalizar sua produção, ou seja , produzir ela mesma partes dos aviões que são, atualmente, compradas de terceiros. Essa intenção, revelada em 2016, reduziria a dependência de fornecedores, além de aumentar os lucros ao se apropriar dos ganhos na cadeia produtiva.
A Boeing poderá ainda absorver a capacidade e know-how da Embraer no desenvolvimento de novas aeronaves. A brasileira praticamente encerrou os projetos da nova linha regional E2, do cargueiro militar KC-390 e da família de aviões executivos Legacy.
"A Embraer tem uma capacidade de desenvolvimento que é invejada por outros players mundiais. Desta maneira, a Boeing busca absorver esta capacidade para auxiliar no desenvolvimento de suas próprias aeronaves”, diz Ferreira.
Possíveis acordos
Desde que o jornal americano The Wall Street Journal vazou as intenções da Boeing de comprar a Embraer e pegou de surpresa o governo federal, políticos em Brasília vinham afirmando categoricamente que não pretendiam vender o controle da brasileira. Em entrevista à imprensa brasileira, o presidente Michel Temer disse que "o controle continua com o poder público federal”.
Apesar de a Embraer ter sido privatizada em 1994, o governo brasileiro possui uma "golden share”, ação que dá direito a veto, por exemplo, à transferência do controle acionário da empresa. As ações estão pulverizadas entre diversos acionistas, entre eles, os nacionais BNDES Participações (com 5,4%) e o fundo de pensão do Banco do Brasil, a Previ (4,8%); além dos internacionais Brandes Investments Partners (15%), Mondrian Investments Partners (10%) e Blackrock (5%).
Para Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV, poucos governos no mundo abririam mão de uma empresa como a Embraer que tem grande importância estratégica e que produz aviões militares.
"Quando outra nação compra aviões militares da empresa, isso automaticamente tem uma conotação geopolítica importante e implica numa parceria de longo prazo com Brasília. Por exemplo, quando os EUA vendem caças, eles podem, num conflito, cortar o envio de peças, o que gera uma situação de dependência”, comenta.
Com a posição negativa do governo federal de a Embraer se tornar uma subsidiária da Boeing, a americana teve que fazer uma nova proposta. Especula-se que gigante queira criar uma nova empresa, que abarcaria toda a área de aviação comercial da brasileira, e controlaria de 80% a 90% das ações. Além de ter a participação minoritária da nova companhia, a Embraer manteria a área de defesa, uma das exigências de Brasília, que quer manter o setor sob controle nacional.
Influência das Forças Armadas
Para Ferreira, a Embraer terá muitas dificuldades se a Boeing ficar com a área de jatos comerciais e a parte de defesa permanecer com a brasileira, já que este último setor não se sustenta sozinho. Como exemplo, o especialista em indústria aeroespacial cita as grandes empresas – como Airbus e Boeing – que desenvolvem e fabricam aviões civis e militares, além de sistemas de defesa e radares, para ganhar escala.
"A área de defesa traz novas tecnologias. Já a comercial gera escala e rentabilidade. Se eu vender uma parte, a outra não se manterá a longo prazo”, sublinha Ferreira. "E a venda do controle não é vantajosa, pois a Embraer deixaria de existir como empresa global e seria se transformaria numa subsidiária, o centro de decisões iria para o exterior. E isso poderá afetar principalmente a parte de desenvolvimento de aviões, que possivelmente seria absorvida pela Boeing.”
Como alternativa à sua venda e à criação de uma terceira empresa, a Embraer poderia fazer uma aliança estratégica que não envolva o controle da empresa. E, como líder mundial no segmento de jatos regionais, a brasileira teria cacife para isso. Como exemplo, o Brasil fechou a compra de 36 caças Gripen NG, da sueca Saab, e 15 deles serão fabricados no Brasil pela Embraer como parte do processo de transferência de tecnologia previsto no contrato.
"Se a Embraer não conseguir fechar um acordo com a Boeing, ela até mesmo poderá perder mercado e, sem dúvida, terá uma concorrência maior para enfrentar, principalmente se a americana entrar no segmento de jatos regionais sozinha”, explica Ferreira. "Mas nada impede a brasileira de fazer acordos com outras empresas. Afinal, se ela tem ativos tão bons aos olhos da Boeing, por que não fechar uma aliança com as condições dela com outras companhias?”
Já Stuenkel lembra que muitos detalhes ainda precisam ser alinhados. Como se trata de um setor com grande importância política e a empresa tem uma importância econômica e no imaginário brasileiro, o governo brasileiro poderá bloquear a transação.
"Acho difícil ter um acordo antes das eleições, pois ele seria explorado pela oposição. Além disso, a concretização do negócio não depende só de Temer, mas das Forças Armadas que podem bloquear uma possível união”, opina.
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Humor de resistência

Enio vê a intervenção militar no Rio de Janeiro

A força do rentismo


Por que os bancos lucram muito mesmo quando a economia vai mal?
Quatro economistas ouvidos por CartaCapital avaliam a relação entre crescimento da economia e o lucro do sistema financeiro.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou na manhã da quinta-feira 1 qual foi o crescimento da economia brasileirano ano passado. O resultado foi aquele que economistas, especialistas, integrantes do mercado financeiro e o próprio governo já esperavam: não passou do 1%.
Embora o número seja positivo, trata-se de uma expansão bem modesta considerando os tombos de 3,6% e 3,8% de 2016 e 2015 (ambos resultados revisados para 3,5% posteriormente), que sucederam um irrisório 0,1% em 2014. A economia como um todo sofre, mas pelo menos um setor parece não se abalar: os bancos.
Para entender porque há um descompasso entre os crescimentos da economia e do lucro dos bancos, CartaCapital ouviu quatro economistas, com uma só pergunta: por que os bancos lucram muito mesmo quando a economia vai mal? (Confira as respostas aqui)
O Brasil tem cerca de 150 bancos autorizados a funcionar, mas dados do Banco Central mostram que apenas os quatro maiores - Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal e Itaú - detêm 73% do total de ativos do sistema e 80% do crédito concedido no País. Excluídos Banco do Brasil e Caixa Econômica, bancos públicos, o Santander entra no ranking
No ano passado, o Itaú lucrou 24,9 bilhões de reais, o Bradesco 19,1 bilhões, o Banco do Brasil 11,1 bilhões e o Santander 9,9 bilhões, crescimentos de 12,3%, 11,1%, 55% e 35,6%, respectivamente.
É importante lembrar também que mesmo mantendo um patamar nominalmente elevado, o lucro dos bancos teve retração em 2016, segunda ano de encolhimento da economia. Na comparação com 2015, uma queda de cerca de 20% de acordo com dados da consultoria Economatica.
Ainda assim, o lucro líquido das quatro maiores instituições financeiras com ações listadas na Bovespa - Itaú, Banco do Brasil, Bradesco e Santander - somou 50,29 bilhões em 2016. Os números mostram que mesmo demorando mais para sentir os efeitos da recessão os bancos se recuperam mais rapidamente dela. No ano anterior, quando a economia já havia retraído 3,8%, esses bancos lucraram 62 bilhões de reais.
A concentração do sistema financeiro, que limita a concorrência, explica parte dos números, mas especialistas mencionam também a inovação tecnológica do setor e a demora da queda na taxa básica de juros chegar de fato ao consumidor.
A baixa concorrência está, inclusive, na mira do próprio Banco Central, que agiu para reduzir os juros mas não viu resultados no crédito. A partir de agora, o BC terá a palavra final em atos de concentração (fusões e aquisições de empresas) que envolvam algum risco à solidez e estabilidade do Sistema Financeiro Nacional. O entendimento está em um memorando assinado pelo BC e pelo o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) na quarta-feira 28.
O memorando inclui ainda o compromisso do BC e do Cade de reverem suas regulamentações, se necessário, e de trabalharem conjuntamente pela aprovação de um projeto de lei complementar que seguiria as linhas gerais estabelecidas no documento, mas que trará maior segurança jurídica e previsibilidade para a defesa da concorrência no sistema financeiro.
Confira as respostas de quatro economistas para a questão "por que os bancos lucram muito mesmo quando a economia vai mal"?
Fernando Nogueira da Costa, professor do Instituto de Economia da Unicamp e ex-vice-presidente da Caixa Econômica
A oferta de crédito depende da demanda representada pelo ritmo de produção, porém, as duas outras funções dos bancos - captar e administrar recursos de terceiros e viabilizar o sistema de pagamentos - só indiretamente depende do crescimento da renda, pois a circulação monetária e financeira se mantém na depressão. Não se cria muitos ativos novos, mas continuam as transferências de propriedades dos ativos existentes.

Em geral, no ano passado, os maiores bancos reduziram a concessão de crédito. A taxa de inadimplência das operações de crédito do sistema financeiro, considerados os atrasos superiores a noventa dias, manteve trajetória de queda, embora pequena, situando-se em 3,2% (-0,5 p.p. doze meses). Com a reversão de parte das provisões para devedores duvidosos (18% das despesas financeiras), o resultado melhorou.
Cada banco gigante possui seu nicho de mercado, mas todos exploram uma grande rede de varejo que permite captar com valores reduzidos em relação ao CDI (taxa das transações interbancárias): milhões de cartões de crédito e débito com os quais ganha taxas de desconto nas vendas de varejo e explora crédito rotativo; o baixo risco do crédito consignado, que representa 65% do crédito pessoal; o crédito imobiliário que permite relacionamento fidelizado com os clientes em longo prazo; o crédito para veículos com a garantia da alienação fiduciária, etc
Também a gestão de ativos das grandes fortunas em Private Banking e soluções para corporações são fatores explicativos do bom desempenho bancário, bem como a administração de fundos e atuação internacional.
João Ildebrando Bocchi - professor do Departamento de Economia da PUC-SP
Esse lucro extremamente elevado explicita qual é o papel dos bancos na economia, que não é fornecer recursos para investimento, recursos em prol do crescimento.
Então os bancos, como empresas, são competentes, fazem um conjunto de ações, elevam taxas, sem o compromisso com o crescimento e o desenvolvimento. Nós temos, ou tínhamos, o BNDES, que está com cada vez mais dificuldades, o setor público está manietado também nesses últimos ano.
Os bancos privados nunca foram voltados para o crescimento, mas em momentos de crise isso fica mais explícito, uma situação aparentemente absurda, onde se tem uma grave recessão, ou uma taxa de crescimento muito baixa, e os bancos com lucros exorbitantes.
Os bancos deveriam lucrar menos com baixas taxas de juros. Quando a taxa básica de juros está baixa, em princípio as taxas cobradas em toda a economia deveriam cair bastante. Mas por vários elementos, no Brasil não acontece isso. A distância entre o custo do dinheiro para o cliente final e a taxa Selic é de três ou quatro vezes no crédito mais barato, no capital de giro por exemplo. É uma situação anômala e talvez o Brasil seja o único país do mundo nessa situação.
Esse resultado mostra as contradições, mostram como o capital financeiro acaba dominando a economia brasileira. 
João Ricardo Costa - professor de economia do Ibmec/SP
Em valores absolutos, os lucros dos bancos são expressivos (já a taxa de retorno sobre o patrimônio não, pois é semelhante à de outros setores) e aumentaram mesmo durante a depressão econômica. Um
dos motivos é a inovação. Ao utilizarem novas tecnologias nos seus processos, os bancos podem diminuir custos, tornando-se não apenas mais eficientes, como mais lucrativos.
Outro motivo se dá pelos juros básicos da economia, que antes da crise são mais altos e, portanto, proporcionam alternativas atraentes para aumentar o lucro sem incorrer nos riscos e custos da intermediação financeira, gerando ganhos defasados em relação ao ciclo econômico.
Finalmente, a baixa competição no setor é outro importante fator. Existem barreiras para que novas empresas/tecnologias aumentem a competição, o que proporciona poder de mercado aos bancos. Iniciativas como o cadastro positivo, por exemplo, visam diminuir essas barreiras.
Rafael Schiozer, professor de Finanças da Fundação Getulio Vargas
A percepção de que o lucro dos bancos cresce quando a economia vai mal é falaciosa. Tomemos como exemplo o ano de 2016, em que o PIB caiu 3,5%: os lucros dos quatro maiores bancos do país (Itaú, Bradesco, BB e CEF) diminuíram em relação ao ano anterior (na CEF caiu mais de 40%).
O principal motivo do crescimento no lucro dos bancos em 2017 foi a melhora do ambiente macroeconômico, pois o PIB voltou a crescer no ano. O nível de inadimplência caiu em 2017, resultando em menores perdas no crédito.
A expectativa de uma economia mais forte em 2018 permitiu uma redução nas despesas com provisões, que refletem a perda que se espera ter nas operações de crédito vigentes, o que também impactou positivamente o lucro de 2017.
Finalmente, no caso específico do Banco do Brasil, uma gestão mais profissional e voltada para resultados permitiu um crescimento de 4 bilhões de reais no lucro de 2017 (mais de 50% em relação a 2016), o maior crescimento entre os grandes bancos.   
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01 março 2018

Juízo tático


Atenção à escolha do alvo principal
Luciano Siqueira, no Vermelho e no Blog do Renato

Parece óbvio, mas não é. Empunhar a metralhadora giratória e atacar a todos indiscriminadamente é grave erro na luta política. No mínimo leva ao isolamento — e, em consequência, ao enfraquecimento e à derrota

Essa atitude kamikaze é de uma inconsequência ridícula. Entretanto, no ambiente de crise em que vivemos, na esteira do que muitos consideram "autocrítica" necessária em relação a alianças ao centro, está em voga.

Ora, tomando como referência os governos Lula e Dilma, frutos de vitórias eleitorais obtidas através de alianças amplas, o erro nunca esteve na amplitude e na pluralidade dos apoios, mas na condução política.

Ainda no segundo governo Lula, quando o presidente e o seu partido enfim compreenderam o peso do PMDB como grande agremiação centrista, se errou na dose. Peemedebistas passaram à condição de aliados preferenciais e se desfez o incipiente porém útil núcleo de esquerda, que reunia o próprio PT, o PCdoB e o PSB e, eventualmente, o PDT.

Isso teve repercussões importantes no âmbito do governo e no Parlamento. Seja no que se refere ao conteúdo de importantes políticas públicas, seja mesmo na relação do governo com o conjunto da sociedade.

Mas negar a absoluta necessidade de alianças amplas é grave equívoco. Como algumas correntes políticas o fazem agora, lendo equivocadamente o desenrolar dos acontecimentos que levaram ao impeachment da presidenta Dilma e ao tenebroso quadro atual.

Assim, na fase atual da resistência democrática, ainda carente de largueza e solidez, o passo dado pelas fundações de estudos e pesquisas do PT, PCdoB, PDT e PSB ao lançarem manifesto em defesa da soberania do país, da democracia e dos direitos do povo — indicativo de elementos essenciais de um programa de superação da crise — contribui inclusive como antídoto ao sectarismo inconsequente.

O manifesto pauta as oposições. Serve de referência também à construção de coalizões no âmbito dos estados ao sinalizar um diálogo com todas as forças e personalidades interessados na agenda proposta.

O que muita gente ainda não compreende é que entre o debate e o combate frontal há uma diferença, que se relaciona com a acolha do alvo principal do ataque. "Demarcar posições" em relação a possíveis aliados e arrefecer ou se descuidar do enfrentamento da força emergente à direita é embaralhar as relações e confundir o povo.

A História consolidou a percepção de que em toda batalha há que se identificar o alvo principal, neutralizar forças que porventura seja impossível atrair para o nosso campo (explorando contradições nas hostes “inimigas”), agregar todas as forças possíveis de serem atraídas (inclusive aliados meramente temporários e circunstanciais) e, se possível, constituir ampla coalizão conduzida por um núcleo de esquerda.

Nem sempre as coisas acontecem exatamente de acordo com esse postulado. Mas é preciso tentar.

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