08 novembro 2019

07 novembro 2019

Fogo de monturo social


A corda estica. Até quando?
Luciano Siqueira

Por que o povo brasileiro não reage?, perguntam frequentemente militantes, ativistas e articulistas de diversas mídias.
As principais referências para tal indagação são o desastroso governo Bolsonaro, os atropelos processuais da Operação Lava Jato (que resultaram na condenação e prisão sem provas do ex-presidente Lula) e, sobretudo, o visível agravamento da crise social.
Agora o IBGE, através do estudo Síntese de Indicadores Sociais, informa que a extrema pobreza bate recorde e já atinge 13,5 milhões de brasileiros, que sobrevivem com menos de R$ 145 por mês.
Tudo a ver com a crise econômica, que tende a se agravar mediante o figurino ultraliberal do ministro Guedes e equipe.
E que se faz dramática com a ausência de perspectiva. Tanto as idiotices do presidente da República e a instabilidade política visível a olho nu pelo cidadão comum, como a dificuldade crescente de fazer as compras ao final da semana alimentam uma espécie de fogo de monturo da insatisfação das camadas populares da sociedade brasileira.
Fogo de monturo, sim; que pode produzir labaredas adiante.
É que a reação em massa, de milhões de insatisfeitos, não se dá instantaneamente. É permeada por muitas variáveis, da narrativa dominante nas grandes mídias aos impasses do próprio movimento de resistência, ainda muito disperso e carente de uma abordagem atualizada da organização e da mobilização das massas insatisfeitas.
Há, assim, um acúmulo quantitativo – ora lento, ora acelerado – que adiante produzirá um salto qualitativo na consciência e na atitude rebelde da maioria.
O povo chileno, por exemplo, não reagiu de pronto às políticas ultraliberais. Até as explosões atuais demandou tempo transcorrido em pequenas lutas, setoriais ou localizadas, de curta ou média dimensão, até a corda esticar a ponto de romper.
E assim tem sido ao longo da História, aqui e alhures.
A constatação feita a partir desses dados do IBGE, neste instante, dá a dimensão da tragédia e, por extensão, prenuncia o tamanho da inevitável explosão social futura.
Às forças políticas e segmentos sociais de oposição cabe examinar a situação concreta em profundidade e olharem-se criticamente ao espelho, pois diante delas está um imenso desafio para muito além de projetos partidários exclusivistas.
Os destinos do povo e da nação estão em jogo.
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Leilão fracassou?


Comentário oportuno e esclarecedor de Luis Nassif sobre o leilão de poços de petróleo, afinal arrematados pela própria Petrobras.


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Ousadia e emoção


Equilíbrio instável
Tostão, na Folha de S. Paulo

No último sábado (2), vi, no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte, uma retrospectiva do pintor suíço Paul Klee, com o título "Equilíbrio Instável".
Nas últimas décadas, a palavra que mais escutei dos treinadores brasileiros foi equilíbrio, entre defender e atacar. A segunda foi recomposição. Os técnicos sonham com o equilíbrio e a recomposição perfeitos, a chave mágica, segundo eles, para o sucesso.
O equilíbrio é também o grande desejo de muitos profissionais e pessoas sérias, pragmáticas e utilitárias. É uma ilusão. O ser humano, mesmo quando não percebe, vive em conflito permanente, entre a ambição e a razão, entre o equilíbrio e o desequilíbrio, entre o sonho e a realidade. Vive em um instável equilíbrio ou em um estável desequilíbrio.
Alguns poucos treinadores, como Guardiola, Klopp, Jorge Jesus e Sampaoli, flertam com o desequilíbrio, com a busca por algo diferente, surpreendente. Querem vencer e brilhar, encantar. Mais que isso, acreditam que a maior eficiência está na ousadia, na pressão em quem está com a bola, para recuperá-la perto do outro gol, mesmo correndo mais riscos. Eles se preparam para isso.
O explosivo Klopp, técnico do Liverpool, disse que, hoje, mais importante que o camisa 10, o clássico meia de ligação, é a recuperação da bola perto do outro gol.
Já a maioria dos treinadores brasileiros e de todo o mundo, e não apenas Carille, o bola murcha da vez, depois de ser excessivamente badalado, aposta na prudência, no equilíbrio sem aventuras, priorizando a marcação mais recuada e o contra-ataque. Querem defender e atacar bem, mas, com frequência, não conseguem, por falta de qualidade e pela impossibilidade de chegar à frente com muitos jogadores, pois recuperam a bola muito longe do outro gol.
Existem times e treinadores bons e ruins nos dois estilos. Eles ganham e perdem. Dependem muito do talento dos atletas. Ancelotti e outros técnicos conservadores são brilhantes e vitoriosos. Mano Menezes é um bom treinador. Como disse Paulo Vinícius Coelho, não há verdades definitivas.
A França, campeã do mundo, tinha um técnico excessivamente pragmático e prudente, Didier Deschamps. O time priorizou a marcação e o contra-ataque, embora a principal razão da conquista tenha sido a de que a seleção francesa tinha mais craques que as outras.
Carille tentou fazer, sem sucesso, na segunda passagem pelo Corinthians, o mesmo que fez na primeira.
A diferença principal é a qualidade dos jogadores. Insistem, para justificar a malhação ao técnico, que o elenco é bom, melhor que o do Santos e o de outras equipes que estão à frente. Se o Corinthians tivesse um meio-campo com Sánchez e Pituca, dois atacantes pelos lados, como Soteldo e mesmo o irregular e doidinho Marinho, além de um lateral-esquerdo, como Jorge, estaria muito bem. Insistem também em dizer que Júnior Urso brilhou no Atlético. Parei!
Sampaoli e Jorge Jesus, além de serem ótimos treinadores, dão boas entrevistas, com detalhes técnicos, táticos e humanos. São também críticos à organização do futebol brasileiro. Coincidentemente, os dois são estrangeiros. São também emotivos, explosivos, o que não tem nada a ver com a nacionalidade.
Mais interessante foi o beijo dado por Jorge Jesus no rosto de Bruno Henrique, suado, na saída do gramado, em um gesto afetuoso, de agradecimento e de elogio. Jorge Jesus é mais que um treinador.
[Ilustração: LS]
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06 novembro 2019

Falastrão

A Folha de S. Paulo registra a narrativa falsa e inconsequente do presidente Jair Bolsonaro. Realmente, um governante sem noção da dimensão do cargo que ocupa e descomprometido com os reais interesses da nação e do povo brasileiro. 

Beleza e pujança

Cena urbana: Trecho do Rio das Pérolas, na área central de Guangzhou, China — região de extraordinário desenvolvimento a partir de 1978, com a política de modernização e abertura da economia adotada pela República Popular da China (Foto: LS).‬

STF sob pressão


Muito problemático, mas é o que temos
Luciano Siqueira

Como subproduto institucional da crise brasileira, a afirmação do Supremo Tribunal Federal (STF) como instância definitiva para temas os mais diversos, de diferentes status, e foco da grande mídia.
Sessões as mais diversas do STF são transmitidas ao vivo por todas as mídias, marcadas por debates que, ao olhar do leigo, mostram-se intermináveis e espetacularizados.
Certamente isso não é bom.
O STF é guardião da Constituição. Melhor seria, certamente, que preservasse a discrição, que ministros não concedessem entrevistas acerca de questões em exame.
Melhor ainda é que sequer dessem entrevistas, em favor de um traço solene da corte que deveria se manter.
Diz-se que os integrantes da Suprema Corte dos EUA, por exemplo, comumente só concedem duas entrevistas: uma quando assumem a função, a outra quando se aposentam. Sobre matérias em julgamento, pronunciam-se apenas e tão somente nos autos.
No Brasil, não será surpresa constatar que para boa parte da população sabe-se mais da composição do STF do que mesmo da lista de convocados da seleção de futebol.
Matérias que parecem pétreas, pois consolidadas estaria o seu exame pregresso, voltam à tona e ganham nova interpretação, via de regra por maioria de um voto, gerando dúvidas e inseguranças no conjunto da sociedade.
Entretanto, no atual quadro de instabilidade e de constantes ameaças à democracia e de ataques explícitos à Constituição por alguns dos que juraram defendê-la, o STF é o que temos.
Tirante a resistência da sociedade, que tende a crescer, ainda é o STF o último guardião da Constituição.
Há que respeitá-lo. Ataques velados ou públicos, no sentido de pressionar este ou aquele ministro ou o conjunto da corte a tomar tal ou qual decisão não condiz com a manutenção da ordem democrática.
Nem militares de alta patente, como o ex-ministro do Exército general Villas Boas, nem parlamentares falastrões e pouco qualificados, nem os monopólios midiáticos estão autorizados pela norma democrática e pelo bom senso a tratarem o STF como frequentemente vêm tratando.
Pois agora é o que acontece, mais uma vez, por parte da grande mídia monopolizada a serviço de poderosos interesses econômicos e da regressão política, quando o STF deve reiniciar o julgamento das Ações Diretas de Constitucionalidade, inclusive a ADC 54, impetrada pelo PCdoB, que diz respeito à presunção de inocência garantida no artigo 5º da Constituição.
E o mínimo que o STF pode fazer agora é a firmar a sua independência e não se submeter a tais pressões.
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