“Operário do canto, me apresento
sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
minha alma lima, a face descoberta,
aberto o peito, e — expresso documento —
a palavra conforme o pensamento.”
Geir Campos
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
14 fevereiro 2012
Contradições a serem superadas
A persistente desigualdade regional
Luciano Siqueira
Publicado no Blog da Revista Algomais
Tudo bem que seja uma lei objetiva do sistema capitalista – o desenvolvimento desigual, no mundo e em cada país. Lei objetiva age independentemente da vontade dos homens. Mas é possível trabalhar para reduzir seus efeitos. Há experiências bem sucedidas no mundo inteiro – o Vale do Silício, na Califórnia, EUA, é um caso emblemático. No Brasil, entre outras, a política de desenvolvimento regional formulada pela SUDENE foi uma tentativa nesse sentido, interrompida pelo golpe de 1964.
No Brasil a desigualdade regional sempre marcou nosso padrão de desenvolvimento. Desde quando o Nordeste, Pernambuco com destaque, se fez polo mais desenvolvido no Ciclo do Açúcar. Depois, primeiro com a acumulação primitiva via cultura cafeeira, em seguida com o processo de industrialização que tomou corpo sobretudo a partir dos anos 30, o centro-sul ocupou o posto.
Num país da dimensão do Brasil, a desigualdade compõe a paisagem sob todos os aspectos - econômico, social, político, cultural – e acentua distorções e injustiças.
Recentemente, já sob o governo Lula, o Nordeste passou a crescer a taxas superiores ao restante do país. Viva! Ponto para a redução da desigualdade. Entretanto, as repercussões disso não se fazem sentir de imediato, repercutem a médio e longo prazo e a depender da sustentabilidade do crescimento.
O IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revelam que de 1995 e 2008 o crescimento da economia não conseguiu reduzir a desigualdade regional e as regiões Norte e Nordeste ainda estão muito atrasadas do restante do país na comparação de índices sociais e econômicos.
Os dados desse estudo demonstram que apenas se verifica uma tênue desconcentração da atividade econômica, porém sem alterar os traços essenciais do perfil estadual do Produto Interno Bruto (PIB) em relação ao registrado em 1995. Assim, nos últimos treze anos a participação de São Paulo no PIB nacional se reduziu em 4,2%, mas o estado ainda é responsável por 33,1% da produção de renda nacional. Por outro lado, Acre e Amapá aparecem com 0,2% de participação no PIB, e Rondônia com 0,1% - o que significa que quase nada mudou entre 1995 e 2008.
Na análise comparativa das regiões, a desigualdade permanece: o PIB per capita na Região Sudeste, que era 39% maior que a média nacional em 1998, reduziu a sua predominância para 33% em relação ao resto do país. No Nordeste, o PIB per capita em 2008 estava 53% abaixo da média nacional, situação apenas cinco pontos percentuais melhor que em 1995.
O mesmo se anota na comparação de indicadores sociais. Por exemplo, a taxa de mortalidade infantil no Nordeste ainda é o dobro da registrada no estados da Região Sul. Mais: no Nordeste, uma em cada seis crianças entre 7 e 14 anos não sabe ler e escrever. No Sul, apenas uma em cada 28 amarga essa deficiência.
Essa realidade reclama o incremento da política nacional de desenvolvimento regional esboçada desde o primeiro governo Lula, que inspirou importantes decisões do presidente alocando em estados do Nordeste atividades econômicas estruturantes – a exemplo da Refinaria Abreu e Lima, da Petrobras, no Complexo de Suape, em Pernambuco, que alavanca o desenvolvimento local com repercussões em toda a região; agora reforçadas pela instalação próxima de uma montadora da FIAT em Goiana.
Luciano Siqueira
Publicado no Blog da Revista Algomais
Tudo bem que seja uma lei objetiva do sistema capitalista – o desenvolvimento desigual, no mundo e em cada país. Lei objetiva age independentemente da vontade dos homens. Mas é possível trabalhar para reduzir seus efeitos. Há experiências bem sucedidas no mundo inteiro – o Vale do Silício, na Califórnia, EUA, é um caso emblemático. No Brasil, entre outras, a política de desenvolvimento regional formulada pela SUDENE foi uma tentativa nesse sentido, interrompida pelo golpe de 1964.
No Brasil a desigualdade regional sempre marcou nosso padrão de desenvolvimento. Desde quando o Nordeste, Pernambuco com destaque, se fez polo mais desenvolvido no Ciclo do Açúcar. Depois, primeiro com a acumulação primitiva via cultura cafeeira, em seguida com o processo de industrialização que tomou corpo sobretudo a partir dos anos 30, o centro-sul ocupou o posto.
Num país da dimensão do Brasil, a desigualdade compõe a paisagem sob todos os aspectos - econômico, social, político, cultural – e acentua distorções e injustiças.
Recentemente, já sob o governo Lula, o Nordeste passou a crescer a taxas superiores ao restante do país. Viva! Ponto para a redução da desigualdade. Entretanto, as repercussões disso não se fazem sentir de imediato, repercutem a médio e longo prazo e a depender da sustentabilidade do crescimento.
O IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revelam que de 1995 e 2008 o crescimento da economia não conseguiu reduzir a desigualdade regional e as regiões Norte e Nordeste ainda estão muito atrasadas do restante do país na comparação de índices sociais e econômicos.
Os dados desse estudo demonstram que apenas se verifica uma tênue desconcentração da atividade econômica, porém sem alterar os traços essenciais do perfil estadual do Produto Interno Bruto (PIB) em relação ao registrado em 1995. Assim, nos últimos treze anos a participação de São Paulo no PIB nacional se reduziu em 4,2%, mas o estado ainda é responsável por 33,1% da produção de renda nacional. Por outro lado, Acre e Amapá aparecem com 0,2% de participação no PIB, e Rondônia com 0,1% - o que significa que quase nada mudou entre 1995 e 2008.
Na análise comparativa das regiões, a desigualdade permanece: o PIB per capita na Região Sudeste, que era 39% maior que a média nacional em 1998, reduziu a sua predominância para 33% em relação ao resto do país. No Nordeste, o PIB per capita em 2008 estava 53% abaixo da média nacional, situação apenas cinco pontos percentuais melhor que em 1995.
O mesmo se anota na comparação de indicadores sociais. Por exemplo, a taxa de mortalidade infantil no Nordeste ainda é o dobro da registrada no estados da Região Sul. Mais: no Nordeste, uma em cada seis crianças entre 7 e 14 anos não sabe ler e escrever. No Sul, apenas uma em cada 28 amarga essa deficiência.
Essa realidade reclama o incremento da política nacional de desenvolvimento regional esboçada desde o primeiro governo Lula, que inspirou importantes decisões do presidente alocando em estados do Nordeste atividades econômicas estruturantes – a exemplo da Refinaria Abreu e Lima, da Petrobras, no Complexo de Suape, em Pernambuco, que alavanca o desenvolvimento local com repercussões em toda a região; agora reforçadas pela instalação próxima de uma montadora da FIAT em Goiana.
13 fevereiro 2012
Palavra de poeta
Poesia em fim de noite: “Não corras da manhã:/enquanto vivas,/ela te alcança/com sua ameaça/ou sua promessa...” (Alberto da Cunha Melo).
Autonomia e convergência na coalizão partidária
O PT e os partidos aliados no Recife
Luciano Siqueira
Publicado no Blog da Folha
Agora é carnaval e todos se curvam às ordens de Momo, deixando as démarches políticas para depois da festa. Mas assim mesmo quem detém alguma parcela de responsabilidade na cena política do Recife – no âmbito da Frente Popular e, creio, igualmente nas hostes oposicionistas – é interpelado a cada passo. Mesmo quando as vozes são parcialmente abafadas pelos clarins e batuques.
A pergunta recorrente é se e quando afinal o PT tomará uma decisão face dúvidas e discrepâncias internas, que têm vindo a público com frequência, em torno da recandidatura do prefeito João da Costa, ou de sua substituição por outro nome. Pelo menos na parte que me toca, a resposta é óbvia é de que o assunto continua circunscrito ao próprio PT, não cabendo a nenhum partido interferir nos assuntos internos do aliado.
Aliás, o senador Humberto Costa, em entrevista à Rádio Folha, semana passada, fez questão de proclamar a absoluta autonomia do PT nessa matéria, precedendo a discussão com os demais partidos da Frente Popular. Em certa medida, ele tem toda razão.
Mas há que se ter em conta que, sem nenhum agravo à autonomia do PT, os partidos aliados podem e devem avaliar atentamente o evolver da situação, sem fugir a conjecturas nem se furtarem à formulação de hipóteses. Até para que, após o carnaval, recolhidas as fantasias e as máscaras, possam comparecer ao diálogo em condições de construir a unidade possível.
Tomemos por hipótese a recandidatura do prefeito João da Costa. É evidente que, mesmo que a decisão petista venha a se concretizar mais próximo das convenções em junho, o diálogo do prefeito e do seu partido com os aliados há que prosperar antes. O PCdoB, por exemplo, que tem se mantido fiel à resolução política adotada em setembro do ano passado, segundo a qual os comunistas refirmam a sua sintonia com o programa do governo municipal, dele participam ativamente e por ele se sentem corresponsáveis, se sentiriam mais confortáveis e otimistas se vissem aprimorados procedimentos políticos e administrativos que, a um só tempo, ampliassem os benefícios da gestão à população e tornassem os partidos aliados partícipes ativos da construção política. Sem preconceitos nem sectarismos.
Enquanto isso, arguindo razões por todos respeitadas, o PTB, sob a liderança do senador Armando Monteiro, instalou produtivo e sensato movimento de consultas aos demais partidos para examinar a alternativa tática de mais de uma candidatura majoritária da Frente Popular. Não interfere nos assuntos internos do PT, não nega a precedência dos petistas na busca de uma solução unitária, mas não se exime de perscrutar outros caminhos que possam nos levar à vitória em outubro.
Vencido o interregno momesco, voltaremos todos à mesa – já atentos ao tempo político.
Luciano Siqueira
Publicado no Blog da Folha
Agora é carnaval e todos se curvam às ordens de Momo, deixando as démarches políticas para depois da festa. Mas assim mesmo quem detém alguma parcela de responsabilidade na cena política do Recife – no âmbito da Frente Popular e, creio, igualmente nas hostes oposicionistas – é interpelado a cada passo. Mesmo quando as vozes são parcialmente abafadas pelos clarins e batuques.
A pergunta recorrente é se e quando afinal o PT tomará uma decisão face dúvidas e discrepâncias internas, que têm vindo a público com frequência, em torno da recandidatura do prefeito João da Costa, ou de sua substituição por outro nome. Pelo menos na parte que me toca, a resposta é óbvia é de que o assunto continua circunscrito ao próprio PT, não cabendo a nenhum partido interferir nos assuntos internos do aliado.
Aliás, o senador Humberto Costa, em entrevista à Rádio Folha, semana passada, fez questão de proclamar a absoluta autonomia do PT nessa matéria, precedendo a discussão com os demais partidos da Frente Popular. Em certa medida, ele tem toda razão.
Mas há que se ter em conta que, sem nenhum agravo à autonomia do PT, os partidos aliados podem e devem avaliar atentamente o evolver da situação, sem fugir a conjecturas nem se furtarem à formulação de hipóteses. Até para que, após o carnaval, recolhidas as fantasias e as máscaras, possam comparecer ao diálogo em condições de construir a unidade possível.
Tomemos por hipótese a recandidatura do prefeito João da Costa. É evidente que, mesmo que a decisão petista venha a se concretizar mais próximo das convenções em junho, o diálogo do prefeito e do seu partido com os aliados há que prosperar antes. O PCdoB, por exemplo, que tem se mantido fiel à resolução política adotada em setembro do ano passado, segundo a qual os comunistas refirmam a sua sintonia com o programa do governo municipal, dele participam ativamente e por ele se sentem corresponsáveis, se sentiriam mais confortáveis e otimistas se vissem aprimorados procedimentos políticos e administrativos que, a um só tempo, ampliassem os benefícios da gestão à população e tornassem os partidos aliados partícipes ativos da construção política. Sem preconceitos nem sectarismos.
Enquanto isso, arguindo razões por todos respeitadas, o PTB, sob a liderança do senador Armando Monteiro, instalou produtivo e sensato movimento de consultas aos demais partidos para examinar a alternativa tática de mais de uma candidatura majoritária da Frente Popular. Não interfere nos assuntos internos do PT, não nega a precedência dos petistas na busca de uma solução unitária, mas não se exime de perscrutar outros caminhos que possam nos levar à vitória em outubro.
Vencido o interregno momesco, voltaremos todos à mesa – já atentos ao tempo político.
12 fevereiro 2012
Poesia em fim de noite
Poesia em fim de noite: “Amo-te como amigo e como amante/Numa sempre diversa realidade” (Vinícius de Moraes).
Fantasia e encanto do artista popular
No Vermelho:
Bajado, o maior cronista de Olinda
Marco Albertim
Rua do Amparo, 186, Olinda. A casa tem uma alvenaria simples, com uma fachada barroca, a exemplo das vizinhas e da igreja do Amparo, ícone maior da arquitetura local. Arbitre-se, a bem da memória, um recuo no tempo; um recuo de vinte anos e recupera-se vivo, inda que fugidio, o perfil balofo de Bajado. Não o temos rapaz, com prumo nos punhos, pintando cartazes de filmes faroestes no cinema de Catende. Ali começara o aprendizado, já com o apelido contraído em Maraial, num jogo de dados.
Está sentado numa cadeira de vime, com recosto mole; pode cair, mas ele a mantém no costumeiro equilíbrio. Do lado direito de seu braço, encostado à parede, há um móvel antigo com quatro pés longos abaixo da mesa que dá apoio a um rádio transmissor. Pode ser um ABC; ele pouco se incomoda. Interessa-se mesmo em dar conta do contorno dos objetos mencionados pelo locutor. Está quase cego, Bajado; o juízo trabalha no lugar dos olhos.
Da cozinha, vem o cheiro de um feijão tão caseiro quanto os chinelos do pintor ou de dona Biu. Dona Biu, assim se refere à mulher que lhe dera filhas tão pacientes quanto ela. A paciência também está no rosto de Bajado. Houve um carnaval, no entanto, que perdera a paciência. A memória não ajuda na menção do ano; mas a precisão do calendário não se sobrepõe ao episódio. Decidira, ele, seguir O Homem da Meia-Noite. Não havia como resistir, porque numa de suas telas dera leveza aos vinte quilos do boneco nos ombros de um folião com o rosto oculto na fantasia do personagem.
Dona Biu insistiu em ir. Não a queria do lado, ele, não no frenesi d’O Homem da Meia-Noite. Inda que não confessasse, tinha nos cálculos os dias do ano em que dividira a rotina com dona Biu. Como projecionista do Cine Olinda, letreirista de lojas, pintor de mamíferos em fachadas de açougues.
Pôs nos pés um par de botas curtas, com solado de borracha de pneu de caminhão. Os dois desceram o único degrau da porta da frente para a calçada. Ela segurando em seu braço; para reiterar a jura do casamento, para suster o corpo na rijeza do marido. No Largo do Amparo a multidão espremia-se entre a igreja matriz e a da Misericórdia. Quando o boneco do Homem da Meia-Noite, no oitão da Misericórdia rumo ao Largo do Guadalupe, Bajado e dona Biu estavam na esquina da igreja, ao lado. Dir-se-ia que o trombonista e o pistonista da orquestra, cúmplices do pintor, também urdiram o recolhimento de dona Biu. A nota mais estridente de Vassourinhas estourou nos ouvidos do casal. Bajado grita. Dona Biu tem as ancas soltas, inda que não cruze as pernas no ritmo do frevo. Seu marido levanta uma das pernas, a esquerda, ao lado da mulher. Ele mirara com precisão. A bota, justo o calcanhar do solado, pisa sem dó o dedo menor de um dos pés de dona Biu. Ela grita, não consegue esconder a agonia da dor. Bajado desculpa-se, acode-a com os braços, quase beija-a na quentura do frevo. Ela não quer beijo, quer alívio no dedo roxeado.
Para casa, há unguentos para o curativo.
Bajado brincou os quatro dias de carnaval sem o incômodo de dona Biu segurando o seu braço.
A casa da rua do Amparo abriga o espectro de Bajado. A janela mourisca, quando se abre, descortina o rosto miúdo de Euclides Francisco Amâncio. Quase cego, os pulmões escurecidos no bafejo das tintas. A boca, desdentada, dando conta de um arremedo de dente na saliência dos beiços. Ele ri quando o cumprimentam, tímido, mirando-se na energia dos mais moços.
Há meia dúzia de quadros nas paredes; são aquarelas do carnaval de Olinda. Nas paredes da sala de visitas da Prefeitura, havia dezenas de quadros de Bajado. Agora estão numa sala fechada no pavimento de cima. O acesso é permitido mediante agendamento do dia, da hora. As crônicas mais alegres de Olinda estão ocultas numa sala de reuniões.
Bajado, o maior cronista de Olinda
Marco Albertim
Rua do Amparo, 186, Olinda. A casa tem uma alvenaria simples, com uma fachada barroca, a exemplo das vizinhas e da igreja do Amparo, ícone maior da arquitetura local. Arbitre-se, a bem da memória, um recuo no tempo; um recuo de vinte anos e recupera-se vivo, inda que fugidio, o perfil balofo de Bajado. Não o temos rapaz, com prumo nos punhos, pintando cartazes de filmes faroestes no cinema de Catende. Ali começara o aprendizado, já com o apelido contraído em Maraial, num jogo de dados.
Está sentado numa cadeira de vime, com recosto mole; pode cair, mas ele a mantém no costumeiro equilíbrio. Do lado direito de seu braço, encostado à parede, há um móvel antigo com quatro pés longos abaixo da mesa que dá apoio a um rádio transmissor. Pode ser um ABC; ele pouco se incomoda. Interessa-se mesmo em dar conta do contorno dos objetos mencionados pelo locutor. Está quase cego, Bajado; o juízo trabalha no lugar dos olhos.
Da cozinha, vem o cheiro de um feijão tão caseiro quanto os chinelos do pintor ou de dona Biu. Dona Biu, assim se refere à mulher que lhe dera filhas tão pacientes quanto ela. A paciência também está no rosto de Bajado. Houve um carnaval, no entanto, que perdera a paciência. A memória não ajuda na menção do ano; mas a precisão do calendário não se sobrepõe ao episódio. Decidira, ele, seguir O Homem da Meia-Noite. Não havia como resistir, porque numa de suas telas dera leveza aos vinte quilos do boneco nos ombros de um folião com o rosto oculto na fantasia do personagem.
Dona Biu insistiu em ir. Não a queria do lado, ele, não no frenesi d’O Homem da Meia-Noite. Inda que não confessasse, tinha nos cálculos os dias do ano em que dividira a rotina com dona Biu. Como projecionista do Cine Olinda, letreirista de lojas, pintor de mamíferos em fachadas de açougues.
Pôs nos pés um par de botas curtas, com solado de borracha de pneu de caminhão. Os dois desceram o único degrau da porta da frente para a calçada. Ela segurando em seu braço; para reiterar a jura do casamento, para suster o corpo na rijeza do marido. No Largo do Amparo a multidão espremia-se entre a igreja matriz e a da Misericórdia. Quando o boneco do Homem da Meia-Noite, no oitão da Misericórdia rumo ao Largo do Guadalupe, Bajado e dona Biu estavam na esquina da igreja, ao lado. Dir-se-ia que o trombonista e o pistonista da orquestra, cúmplices do pintor, também urdiram o recolhimento de dona Biu. A nota mais estridente de Vassourinhas estourou nos ouvidos do casal. Bajado grita. Dona Biu tem as ancas soltas, inda que não cruze as pernas no ritmo do frevo. Seu marido levanta uma das pernas, a esquerda, ao lado da mulher. Ele mirara com precisão. A bota, justo o calcanhar do solado, pisa sem dó o dedo menor de um dos pés de dona Biu. Ela grita, não consegue esconder a agonia da dor. Bajado desculpa-se, acode-a com os braços, quase beija-a na quentura do frevo. Ela não quer beijo, quer alívio no dedo roxeado.
Para casa, há unguentos para o curativo.
Bajado brincou os quatro dias de carnaval sem o incômodo de dona Biu segurando o seu braço.
A casa da rua do Amparo abriga o espectro de Bajado. A janela mourisca, quando se abre, descortina o rosto miúdo de Euclides Francisco Amâncio. Quase cego, os pulmões escurecidos no bafejo das tintas. A boca, desdentada, dando conta de um arremedo de dente na saliência dos beiços. Ele ri quando o cumprimentam, tímido, mirando-se na energia dos mais moços.
Há meia dúzia de quadros nas paredes; são aquarelas do carnaval de Olinda. Nas paredes da sala de visitas da Prefeitura, havia dezenas de quadros de Bajado. Agora estão numa sala fechada no pavimento de cima. O acesso é permitido mediante agendamento do dia, da hora. As crônicas mais alegres de Olinda estão ocultas numa sala de reuniões.
Viver como vale a pena
A sugestão de domingo é da amiga Mariângela: “Carnaval: que a armadura que nos distancia dê lugar à verdadeira fantasia que nos encanta.”
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