“Putin mostra que está
falando sério ao dizer que não quer a OTAN cercando a Rússia”
A analista internacional Ana Prestes explicou as motivações por trás do
reconhecimento da Rússia à independência de províncias rebeldes da Ucrânia e os
bombardeios em Lugansk e Donetsk, que não são disputas dos últimos meses, mas
remetem ao fim da Guerra Fria.
Cézar Xavier, portal Vermelho
Ana Prestes, cientista política e analista internacional,
secretária de Relações Internacionais do PCdoB, concedeu entrevista ao canal da
União da Juventude Socialista (UJS), que aproveitou para fazer um plantão e
responder as perguntas mais prementes da juventude sobre os bombardeios russos
iniciados, nesta madrugada, em território da Ucrânia.
A
aproximação da Ucrânia com a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte),
incluindo presença de equipamentos bélicos e forças armadas do ocidente em seu
território, deu inicio à um conflito de grandes proporções com a Rússia. As
tensões na região remetem à anos anteriores, entre 2013 e 2014 quando
movimentações na Ucrânia derrubaram governos e implementaram regimes de
ultra-direita que se aproximaram cada vez mais dos Estados Unidos e da OTAN.
Agora a Rússia efetivou ataques. Haverá guerra? Quais motivos e
desdobramentos?
Iago
Montalvão, da UJS, falou das dificuldades de receber informação qualificada e
completa sobre aquele conflito na mídia brasileira, alinhada com as narrativas
interessadas dos EUA. Com isso, Ana foi voltando no tempo para explicar a
importância da região para os russos e os interesses europeus e americanos por
trás da tentativa de ocupação pela OTAN, o tratado militar do Atlântico Norte.
Ela também explicou os interesses americanos em outras ocupações militares que
cercam a China e chegam até à Colômbia, na América do Sul.
Ana Prestes, cientista política e analista internacional,
secretária de Relações Internacionais do PCdoB, concedeu entrevista ao canal da
União da Juventude Socialista (UJS), que aproveitou para fazer um plantão e
responder as perguntas mais prementes da juventude sobre os bombardeios russos
iniciados, nesta madrugada, em território da Ucrânia.
A
aproximação da Ucrânia com a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte),
incluindo presença de equipamentos bélicos e forças armadas do ocidente em seu
território, deu inicio à um conflito de grandes proporções com a Rússia. As
tensões na região remetem à anos anteriores, entre 2013 e 2014 quando
movimentações na Ucrânia derrubaram governos e implementaram regimes de
ultra-direita que se aproximaram cada vez mais dos Estados Unidos e da OTAN.
Agora a Rússia efetivou ataques. Haverá guerra? Quais motivos e desdobramentos?
Iago
Montalvão, da UJS, falou das dificuldades de receber informação qualificada e
completa sobre aquele conflito na mídia brasileira, alinhada com as narrativas
interessadas dos EUA. Com isso, Ana foi voltando no tempo para explicar a
importância da região para os russos e os interesses europeus e americanos por
trás da tentativa de ocupação pela OTAN, o tratado militar do Atlântico Norte.
Ela também explicou os interesses americanos em outras ocupações militares que
cercam a China e chegam até à Colômbia, na América do Sul.
Esse conflito já pode ser considerado uma guerra?
O
problema das guerras é sua imprevisibilidade e as vítimas são principalmente os
inocentes. Não se sabe onde vai acabar, nem como. E entram em ação atores
multilaterais. A guerra é a declaração de falência do diálogo, da incapacidade
da negociação e das conversas. Essa situação não vem do nada. A gente vem
falando da situação da Ucrânia há pelo menos uns dez anos. Uma situação que se
tornou central para a Europa e a região. E por uma deliberada ação do
imperialismo.
Nunca
Lênin foi tão atual sobre o imperialismo e suas formas de ação. O que é
fundamental que está na tese é que o imperialismo precisa de guerra para
sobreviver, lucra financeiramente, se impõe via medo através das guerras.
E
o que estamos vendo, hoje, é algo que é fruto do fim da guerra fria. Em
dezembro passado, lembramos os 30 anos do fim da União Soviética, que, desde
que terminou, a região vem sofrendo um cerco pelos EUA e a OTAN, no sentido de
explorar as contradições daquelas antigas repúblicas soviéticas, para conter e
desestabilizar a Rússia. Isso ocorreu na Ucrânia e na Geórgia, em janeiro deste
ano, no Cazaquistão, há pouco mais de um ano na Bielorrússia. Trazem outras,
como a Lituânia para a OTAN, tentaram em 2013 e 2014, trazer a Ucrânia para a
União Europeia e agora para a OTAN.
São
fatos que nossa mídia omite e que ajudariam a gente a julgar o que está
acontecendo, hoje.
Então,
existem muitos elementos de instabilidade e desestabilização que podem jogar
para um conflito mais amplo. Esperamos que o Conselho de Segurança da ONU e os
organismos multilaterais funcionem para valer, no sentido de conter o que já é
uma guerra. Não tem outra palavra para definir ruptura de relações diplomáticas
e troca de tiros, armas envolvidas.
Como se
deu esse processo? Desde a queda do presidente ucraniano em 2014, a ascensão de
governos de extrema-direta aproximaram a Ucrânia da OTAN e depois o Acordo de
Minsk?
Desde
2010 que a Ucrânia vem sofrendo com instabilidades políticas envolvendo a velha
e conhecida narrativa da corrupção. Houve então um alerta nos EUA e Europa de
que havia uma janela de oportunidade para reduzir a influência russa sobre a
Ucrânia. Tanto que os americanos foram flagrados em maus lençóis apoiando
fascistas para aproveitar a oportunidade de ascender um governo antirrusso,
oferecendo entrada na União Europeia, oferta de financiamento, apoio militar.
Então,
essas contradições internas permitiram a ascensão de grupos fascistas e
nazistas, com a omissão ocidental. Parlamentares comunistas e militantes de
esquerda foram perseguidos e viraram alvo, jogaram bomba na sede do Partido
Comunista, tudo com apoio dos americanos e do ocidente.
O
Brasil sabe o que acontece quando o gênio sai da lâmpada, porque estamos no meio
de um genocídio, desde que passamos a ser governados por este tipo de força.
Para
além de instigar essas forças e tirar a Ucrânia da área de influência russa,
aquela região é historicamente conflituosa. Um dos capítulos mais interessantes
da história russa é que a Catarina, a Grande, consegue conquistar a região da
Crimeia dos tártaros. Essa região é importante, porque a Rússia é esse
território gigantesco cercado por mares gelados. Por isso, até o século XVIII,
a Rússia não tinha um barquinho no mar, enquanto outras potências europeias
dominavam o transporte marítimo. Quando conquistam a Crimeia e fazem o famoso
porto de Sebastopol, eles passam a ter acesso aos mares quentes.
Você
veja que, hoje, uma das primeiras coisas que o Zelensky pediu foi para os
turcos fecharem o porto de Bósforo a passagem dos navios russos. Para os
russos, o acesso a essas águas quentes é fundamental.
Por outro lado, é uma região com muita população russa. Kiev é
considerada a mãe dos povos eslavos, que surgiram todos naquela região. Imagina
a confusão que é isso!
Quando
o Putin fala em descomunização, é uma ironia em direção aos americanos em
relação as fronteiras artificiais que definiam a República da Ucrânia durante o
período soviético. Assim, descomunizar seria transformar cada uma daquelas
regiões ucranianas de Lugansk, Donetsk e Crimeia, na Bacia do Dohnbass, em
nações soberanas e independentes.
Tudo
isso fez parte de 2013 e 2014. A imprensa sempre omite que a população da
Crimeia foi consultada por meio de um referendo para ser reintegrada à Rússia,
mas isso é tratado na mídia como uma tomada russa.
Além
disso, em Lugansk e Donetsk existem forças separatistas que não querem fazer
parte da Ucrânia. Os acordos de Minsk previam, no primeiro, o cessar fogo
imediato, e no segundo, consulta, referendo, plebiscito, conversa, negociação.
Quando o ocidente fez alguma coisa para implementar os acordos de Minsk?
Então,
isso vem de uma escalada em que Zelensky chegou a dizer que um dos seus
objetivos centrais era recuperar a Crimeia e entrar para a OTAN. Isso foi uma
declaração de guerra com a Rússia que está sendo materializada agora.
Assim,
há um passivo histórico dentro de uma cena de expansão da OTAN, em que os EUA
ficam do outro lado do Atlântico, comodamente, só instigando os ucranianos a se
afastar das forças do mal da Rússia. Há esse cenário de russofobia criado na
Europa nos últimos anos.
Nós
somos defensores da paz e do diálogo e do princípio da não-intervenção,
portanto, a Rússia também tem suas responsabilidades, mas não podemos fechar os
olhos para o contexto e a participação do ocidente na intencional ação
desestabilizadora frente a esta situação. Em vez disso, eles dobram as apostas,
com sanções tirando as operações financeiras (swift) que tornam o mundo inteiro
refém, e isolando os russos.
Com os
bombardeios que começam a circular o mundo, a OTAN vai dar uma resposta militar
ou a resposta serão as sanções comerciais?
As
forças separatistas em Luganski e Donetsk também se aproveitaram do caos para
reforçar seus interesses ao declarar independência. Logo o parlamento russo,
que respalda Putin, aprovou. Alguns partidos já defendiam essa independência
desde 2013. É diferente da Crimeia. Não há uma ocupação dessas áreas, com
integração à Rússia, mas o famoso separatismo. Além disso, só os russos
reconhecem a independência.
O
exército ucraniano reforça suas tropas ali para combater os separatistas, pois
é um território importante economicamente. Tem uma das maiores produções de
carvão e a questão energética na Europa é um drama.
Quando
Putin fala, nesta madrugada, em desmilitarizar esta região, quem vai dar o
primeiro passo para trás? Por isso, as guerras são tão complexas, com cada um
defendendo seus interesses que considera legítimos. É uma situação muito
complicada de desfazer.
Eu
estava ouvindo um pronunciamento do Ministério da Defesa da Rússia que dizia
que já tem ucranianos largando as armas e fugindo. Começa uma guerra de
narrativas que temos que observar, pois faz parte da guerra essas
imprevisibilidades. E não sabemos se a OTAN vai entrar com seus soldados.
A OTAN já vem cercando a Rússia. Taiwan declarou apoio à
Ucrânia. Isso pode acontecer com a China?
Desde
o fim da URSS como estado, os EUA, via OTAN, vêm adotando deliberadamente essa
estratégia de avançar rumo ao leste. Todas as Repúblicas do leste europeu já
estão ocupadas, restando apenas a Bielorrússia e a Ucrânia como última
fronteira até a Rússia. Quando o chanceler russo Sergey Lavrov disse que tinha
montado as bases na fronteira para proteger o território russo contra a OTAN,
os americanos e europeus resolveram pagar para ver. Saíram das negociações,
tergiversaram, enquanto o francês Emmanuel Macron tentava uma cúpula com Joe
Biden, pois já tinha informação suficiente sobre o fogo separatista na bacia do
Donbass para saber do risco. Enquanto isso, Putin fazia um longo discurso em
que falava em “descomunizar” a região do Donbass. Então, não é brincadeira
quando se fala que a OTAN e a União Europeia tem muita responsabilidade sobre o
que está acontecendo. E a Rússia falou para valer que não vai deixar a OTAN
chegar lá, como estamos vendo.
Uma
das porta-vozes do Ministério das Relações Exteriores da China fez um
pronunciamento indagando ao Ocidente se vai continuar acuando uma grande
potência como essa. Desde o começo, a China reforçou a tese do
multilateralismo, das conversações e das negociações.
No
início de fevereiro houve uma cúpula Putin-Xi Jinping que incomodou muito os
EUA. O ex-chanceler brasileiro Celso Amorim escreveu que os acordos firmados
por Putin e Xi Jinping formam o documento mais importante do século XXI e,
quiçá, o mais importante desde o fim da guerra fria. E os americanos se sentem
ameaçados, obviamente, por essa aliança.
Sobre
o cerco a outras regiões é só observar como vai se reforçando o cerco ao mar do
sul da China, uma região conflituosa, e como eles vão escalando em relação a
Taiwan, com aumento de relações e visitas de grandes autoridades ocidentais. Já
analisávamos, no fim do ano, que uma das regiões de maior potencial de conflito
bélico é Taiwan. Os chineses não admitem que seja reconhecida como algo que não
seja a China continental.
Aqui
na América Latina, esta semana houve bastante debate sobre a Colômbia
participar da OTAN, embora não se fale nesse nome, mas em “parceria
estratégica”, até porque a Colômbia não está territorialmente no Atlântico
Norte. A Colômbia sempre foi esse preposto dos EUA na região, com presença
militar americana, por onde operam. Foi via Colômbia que tentaram invadir, em
2019, a Venezuela, com apoio do governo Bolsonaro.
É
como um prolongamento do pós-Segunda Guerra, com a guerra fria e o conflito que
se estabeleceu entre os EUA e a URSS.
Quais
os interesses dos EUA em entrar nessa disputa nessas regiões?
Os
EUA só existem como essa superpotência se continuarem tendo esse domínio e
controle de transações comerciais, de instalações de corporações americanas… Só
no ano passado, 1/5 do PIB dos EUA teve origem na indústria armamentista, com
algo na casa dos US$ 220 bilhões. Então, para os EUA sobreviverem nesse lugar
de tanto poder e concentração de riqueza, precisam de recursos, de guerras para
ter esses recursos, precisam de domínio e controle.
Por
que, diabos, incomodou tanto os EUA a construção do gasoduto Nordstream 2, que
leva gás da Rússia para a Alemanha? Se a Alemanha está comercializando com a
Rússia, não está com os EUA e seus parceiros comerciais.
É
uma disputa de poder que inclui disputa territorial, como ocorreu com a Líbia,
se tentou com a Síria, impedida justamente pelos russos. O que fizeram no
Afeganistão depois de 20 anos, no Iraque, uma guerra feita à base de fake news
de que havia bombas lá. Se voltarmos mais pra trás, tem o Kwait, os Balcãs, com
a questão da Iugoslávia.
A
Rússia tem uma história milenar de preservação de seu enorme território e
conquistar espaço. E ela foi muito clara em insistir que a OTAN não entre na
Georgia, na Bielorrússia, na Ucrânia e não foi feito nada no sentido de tentar
pactuar sobre isso.
Agora o
vice-presidente do Brasil, o general Mourão, fala em mandar tropas para a
Ucrânia. Como o Brasil deve se posicionar sobre isso?
Engraçado
ele falar isso, quando o Bolsonaro estava na semana passada se solidarizando
com o Putin. Inclusive, a porta-voz da Casa Branca chegou a falar que o Brasil
estava do lado errado. Ou seja, aquele rolê aleatório do Bolsonaro na Rússia
num momento completamente de tensão.
Temos
que observar nos próximos dias. Nós como sociedade civil, movimentos,
juventude, estudantes, historicamente nos posicionamos pela paz e temos que nos
conectar com os movimentos ao redor do mundo. Neste momento, os
movimentos sociais da Europa, partidos, vai ser muito importante que se engajem
nessa luta pela paz para pressionar seus governos a que cheguem a uma solução.
Ali tem populações que estão sofrendo, ucranianos, em Lugansk e Donetsk, o povo
russo, que estão na zona de guerra e são os primeiros a serem atingidos.
Temos
que reforçar isso, mas sem omitir fatos e sem passar pano para os EUA e a OTAN
e para as responsabilidade que o Ocidente tem com o que está acontecendo,
hoje.
.
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