A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
29 setembro 2022
Estamos chegando...
Três novas pesquisas sugerem “onda
Lula” e vitória no primeiro turno. Levantamentos do Ipec, da
Quaest e do PoderData indicam que, nesta reta final da disputa, a candidatura
do ex-presidente entrou em viés de alta, enquanto a campanha de Bolsonaro
estagnou. Leia mais https://bit.ly/3rhVnEu
28 setembro 2022
Ele contra ele...
Pesquisas
mostram que maior inimigo de Bolsonaro é ele mesmo
Capitão vai às urnas rejeitado por 51%, índice proibitivo para
qualquer candidato à reeleição
Bernardo
Mello Franco, O Globo
A proximidade das urnas está mexendo com os nervos do capitão. A cinco
dias do primeiro turno, Jair Bolsonaro elevou o tom contra inimigos reais e
imaginários. Xingou o ex-presidente Lula, atacou prefeitos e governadores,
voltou a afrontar o ministro Alexandre de Moraes.
O presidente começou a terça-feira com um bate-volta no Nordeste.
Participou de motociata, visitou um “bodódromo” e montou no lombo de um touro.
Um adesivo com seu número foi colado nos chifres do pobre animal.
De manhã, o capitão se disse “mais nordestino que os nordestinos”.
Faltou combinar com os eleitores. De acordo com o Ipec, o pernambucano Lula
lidera a disputa na região com 39 pontos de vantagem.
À noite, Bolsonaro foi às redes para atacar Moraes. Reclamou da quebra
do sigilo do assessor que paga despesas da primeira-dama e fez um desafio
público ao ministro: “Você um dia vai dar uma canetada e me prender?”.
Ele ainda voltou a insinuar que existiria uma conspiração para tirá-lo
do poder. O complô envolveria a atuação de estados e municípios na pandemia, a
Justiça Eleitoral e as pesquisas de intenção de voto, nas quais o presidente
finge não acreditar.
Quem lê os números constata que a reeleição de Bolsonaro está cada vez
mais distante. Segundo o Ipec, 47% dos eleitores consideram seu governo ruim ou
péssimo, e 51% dizem não votar nele de jeito nenhum. O índice é considerado
proibitivo para qualquer político que dispute um segundo mandato.
A rejeição ao presidente chega a 55% entre as mulheres. É uma resposta
direta ao desdém pelas vítimas da pandemia, à exaltação das armas e às
declarações machistas repetidas desde o início do mandato. Ao insistir em se
dizer “imbrochável”, ele prova que é incapaz de entender o recado das
eleitoras.
O capitão também tem fracassado em furar o bloqueio dos mais pobres. Na
faixa de renda familiar de até um salário mínimo, sua rejeição atinge os 58%. O
dado mostra que os eleitores não se deixam enganar por benefícios turbinados em
véspera de eleição.
Ao esbravejar contra tudo e contra todos, Bolsonaro tenta apontar
culpados para seus próprios defeitos. Mas o diagnóstico da pesquisa é claro:
seu maior inimigo é ele mesmo.
Para a turma de Lula agora
“santinhos” fazem a diferença https://bit.ly/3SeQTdN
Comissão Arns alerta
A urgência faz a hora: é preciso
estancar a destruição nacional
Brasil não pode continuar a
ser degradado pela sanha autoritária de Jair Bolsonaro
Margarida
Genevois
Presidente
de honra da Comissão Arns
José
Carlos Dias
Presidente
da Comissão Arns e ex-ministro da Justiça (1999-2000, governo FHC)
Desde
a sua fundação em 2019, a Comissão de Defesa dos
Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns,
composta por pessoas de diferentes coloraturas políticas, tem atuado de forma
apartidária, mantendo-se longe das disputas eleitorais. No entanto, dada a gravidade do
momento, hoje ela vem a público pedir um gesto firme da cidadania: não votar no
candidato Jair Bolsonaro (PL).
Esta
tomada de posição não é simples, porém, a urgência faz a hora: 156 milhões de
eleitores brasileiros estão prestes a se manifestar sobre os destinos da nação
da qual são parte, na qual acreditam e onde existe um futuro a ser construído
para o bem de todos. Portanto, é chegada a hora dizer um sonoro "sim"
à democracia e um definitivo "não" a qualquer desvio autoritário.
Leia também: Duas táticas na
reta final e a ameaça de golpe https://bit.ly/3LyctaB
Não
se trata aqui de jogar com palavras fortes, porque a realidade as tem superado
desde que Jair Bolsonaro assumiu a Presidência da República. Os anais
legislativos guardam o registro do parlamentar medíocre e controvertido que ele
foi, anos a fio. No entanto, desde que vestiu a faixa presidencial, em janeiro
de 2019, este senhor iniciou um novo capítulo em sua biografia, ocupando-se da
implantação de um projeto de poder personalista, autoritário, com
efeitos deletérios para o país. Projeto iniciado com ataques aos indígenas já
no primeiro dia de governo, franca declaração de intenções de que direitos
fundamentais seriam pisoteados.
A
partir de então, multiplicaram-se casos de assédio raivoso contra as mulheres,
os quilombolas, as pessoas LGBTQIA+, assim como aos jornalistas, cientistas,
intelectuais e artistas, achincalhados no exercício de sua profissão. O país,
enfermo e com fome, assistiu
ao negacionismo do governante-promotor de cloroquina, cujo legado é o triste
recorde de quase 690 mil óbitos na
pandemia da Covid-19. Assistiu às suas manobras para colocar
cabresto na Polícia Federal, na Procuradoria-Geral da República, no Coaf, no
Tribunal de Contas da União, dando blindagem a si e a seus familiares.
Assistiu à pressão feita sobre ministérios, não
para alinhá-los a um projeto nacional, mas para submetê-los a interesses de
grupos e quadrilhas que promovem a degradação ambiental e o desvio de recursos
de áreas essenciais, fora a derrama bilionária para comprar apoio político,
conhecida como orçamento
secreto. Fomos testemunhas do desprezo com que o presidente,
ignorante sobre o Brasil e o mundo, tratou e ainda trata a diplomacia
brasileira, outrora tão respeitada, transformando Brasil em pária internacional.
Leia também: Venceremos o medo, sim! https://bit.ly/3DvBwsL
Vimos o ataque continuado às instituições.
Desde o desmantelamento dos conselhos de representação da sociedade civil até o
aparelhamento de órgãos fiscalizadores, como Ibama e Funai. Vimos a cooptação
de setores das Forças Armadas, desviados de suas funções de Estado para se pôr
a serviço dos anseios golpistas do presidente. Vimos o bufão repetindo o gesto
de "arminha" a cada dia, facilitando a
compra e o porte de armamento por civis, o que amplia o risco da violência praticada por
seus apoiadores extremistas. E, por fim, mas não menos importante, vimos as ameaças
gravíssimas e repetidas ao Supremo Tribunal Federal, banhadas em discurso de ódio e pregando a ameaça
maior - ruptura democrática.
Elementos não faltam para configurar a mais
crua realidade: o Brasil não pode continuar a ser degradado pela sanha
autoritária de Jair Bolsonaro, objeto de 160 pedidos de
impeachment bem guardados pelo presidente da Câmara. É preciso estancar o processo de destruição
nacional. Hora de sair de casa e ir às urnas
eletrônicas cravar o voto de cada uma e cada um, reafirmando o
direito de viver em um país onde haja justiça, tolerância, respeito,
oportunidades para todos, crescimento sustentável e paz. Hora de dizer não a
Bolsonaro.
Agora
“santinhos” fazem a diferença https://bit.ly/3SeQTdN
Ainda há 10% de indecisos
A última pesquisa Ipec indica 10% do eleitorado indeciso. Daqui pra domingo temos que conquistar mais votos, um a um - no corpo a corpo.
Agora “santinhos” fazem
a diferença https://bit.ly/3SeQTdN
Miguel Falabella interpreta poema de Bráulio Bessa em apoio a Lula
MIGUEL FALABELLA EMOCIONA INTERPRETANDO POEMA DE BRÁULIO BESSA NO ANHEMBI
Agora “santinhos” fazem a diferença https://bit.ly/3SeQTdN
Mudanças climáticas: ilusões a desfazer
Onze pistas falsas sobre a crise climática
Pensador analisa saídas bem-intencionadas para o desastre
ambiental que, embora nada tenham de negacionismo, resvalam em equívocos. Entre
elas, o capitalismo verde, o “milagre” do carbono zero, o carro elétrico e o
discurso de “salvar o planeta”
Michael Löwy em A Terra
é Redonda
Encontramos um grande número de lugares-comuns nos vários
discursos sobre o clima, repetidos mil vezes em todos os matizes, que
constituem pistas falsas, que levam, voluntariamente ou não, a ignorar as
verdadeiras questões, ou a acreditar em pseudossoluções. Não me refiro aqui aos
discursos negacionistas, mas àqueles que se dizem “verdes” ou “sustentáveis”.
Estas são afirmações de natureza muito diversa: algumas são verdadeiras
manipulações, fake news, mentiras, mistificações; outras são meias-verdades, ou um
quarto de verdade. Muitas estão cheias de boa vontade e de boas intenções – e,
como sabemos, delas o inferno está cheio. É neste caminho que estamos: se
continuarmos com o business as usual – mesmo que pintado de verde – dentro de algumas
décadas, nos encontraremos numa situação muito pior do que a maioria dos
círculos do inferno descritos por Dante Alighieri na sua Divina
Comédia. Os onze exemplos seguintes são apenas alguns
desses lugares-comuns a evitar.
O planeta tem que ser salvo
Isto está por todo lado: em cartazes, na imprensa, em revistas, em declarações de líderes políticos, etc. Na verdade, é um disparate: o planeta Terra não está em perigo! Qualquer que seja o clima, ele continuará girando tranquilamente ao redor do sol durante os próximos milhões de anos. O que está ameaçado pelo aquecimento global são as múltiplas formas de vida neste planeta, incluindo a nossa: a espécie Homo Sapiens.
“Salvar o planeta” dá a falsa impressão de que se trata de algo externo a nós, que se encontra em algum lugar, e que não nos diz respeito diretamente. Não pedimos às pessoas que se preocupem com suas vidas, ou com a vida de seus filhos, mas sim com uma vaga abstração, “o planeta”. Não é surpresa que as pessoas menos politizadas reajam dizendo: eu estou muito ocupado com meus próprios problemas para me preocupar com “o planeta”.
Façamos algo para salvar o planeta
Este lugar-comum, infinitamente saturado, é uma variante da fórmula anterior. Ele contém uma meia-verdade: todos devem contribuir pessoalmente para evitar a catástrofe. Mas transmite a ilusão de que é suficiente acumular “pequenos gestos” – desligar as luzes, fechar a torneira, etc. – para evitar o pior. Assim, conscientemente ou não, descartamos a necessidade de mudanças estruturais profundas no modo de produção e consumo atual; mudanças que colocam em questão os próprios fundamentos do sistema capitalista, que se baseia num único critério: a maximização do lucro.
O urso polar está em perigo
É uma imagem que está por todo lado, repetida à saciedade: um pobre urso polar que tenta sobreviver no meio de icebergs à deriva. Certamente, a vida do urso polar – e de muitas outras espécies nas regiões polares – está ameaçada. Esta imagem pode suscitar a compaixão de algumas almas generosas, mas, para a maioria da população, é um assunto que não lhes diz respeito.
Pois bem, o derretimento das calotas polares é uma ameaça não apenas para o bravo urso polar, mas, a longo prazo, para metade, se não mais, da humanidade que vive em grandes cidades à beira-mar. O derretimento das enormes geleiras na Groenlândia e na Antártica pode elevar o nível do mar em algumas dezenas de metros. Mas são necessários apenas alguns metros para que cidades como Veneza, Amsterdã, Londres, Nova Iorque, Rio de Janeiro, Xangai e Hong Kong fiquem submersas. Claro que isto não acontecerá no ano que vem, mas os cientistas podem observar que o derretimento destas geleiras está acelerando… É impossível prever a rapidez com que isso ocorrerá, pois muitos fatores são difíceis de calcular neste momento.
Ao enfatizarmos unicamente o pobre urso polar, ocultamos o fato de que se trata de um caso aterrador que diz respeito a todos nós…
Bangladesh corre o risco de sofrer muito com as mudanças climáticas
Trata-se de uma meia-verdade, cheia de boa vontade: o aquecimento global afetará principalmente os países pobres do Sul, que são os menos responsáveis pelas emissões de CO2. É verdade que estes países serão os mais atingidos por catástrofes climáticas, furacões, seca, redução de fontes de água, etc. Mas é falso que os países do Norte não serão afetados, em grande medida, por estes mesmos perigos: não assistimos a terríveis incêndios florestais nos EUA, Canadá, Austrália? As ondas de calor não causaram numerosas vítimas na Europa? Poderíamos multiplicar os exemplos.
Leia também: Frente a um quadro terrível de destruição
do Estado e do desmonte das políticas públicas de forma generalizada, ganha
destaque a questão ambiental https://bit.ly/3Do52AT
Se mantivermos a impressão de que estas ameaças só dizem respeito aos povos do Sul, conseguiremos mobilizar apenas uma minoria de internacionalistas convictos. Contudo, mais cedo ou mais tarde, é o conjunto da humanidade que será confrontado com catástrofes sem precedentes. É necessário explicar aos povos do Norte que esta ameaça também pesa sobre eles, bem diretamente.
Até o ano 2100 a temperatura poderá subir até 3,5 graus (acima do período pré-industrial)
Esta é uma afirmação que é encontrada lamentavelmente em muitos documentos sérios. Isto me parece ser um duplo erro.
Do ponto de vista científico, sabemos que as mudanças climáticas não são um processo linear: podem sofrer “saltos” e acelerações súbitas. Muitas dimensões do aquecimento se retroalimentam, e as consequências disto são imprevisíveis. Por exemplo: os incêndios florestais emitem enormes quantidades de CO2, que contribuem para o aquecimento, intensificando, assim, os incêndios florestais. Assim, é muito difícil prever o que acontecerá dentro de quatro ou cinco anos, então como é possível prever o que ocorrerá daqui a um século?
De um ponto de vista político: até o final do século, nós todos estaremos mortos, assim como nossos filhos e netos. Como podemos mobilizar a atenção e o engajamento das pessoas por um futuro que não lhes diz respeito, nem de perto nem de longe? Então devemos preocupar-nos com as gerações futuras? Um pensamento nobre, longamente defendido pelo filósofo Hans Jonas: nosso dever moral para com aqueles que ainda não nasceram. Uma pequena minoria de pessoas muito respeitáveis poderia ser tocada por este argumento. Para o comum dos mortais, o que acontecerá em 2100 não é uma questão de grande interesse.
Em 2050 atingiremos a neutralidade de carbono
Esta promessa da União Europeia e de vários governos na Europa e em outros lugares não corresponde a uma meia-verdade, nem a uma ingênua boa vontade: é pura e simples mistificação. Por duas razões.
Em vez de comprometerem-se agora, imediatamente, com as mudanças urgentes exigidas pela comunidade científica (o IPCC) para os próximos 3 a 4 anos, nossos governantes prometem maravilhas para 2050. Isto é obviamente demasiado tarde. Além disso, como os governos mudam a cada 4 ou 5 anos, que garantia há para estes compromissos fictícios em 30 anos? É uma forma grotesca de justificar a presente inação com uma vaga promessa vinda de longe.
Além disso, a “neutralidade de carbono” não significa uma redução drástica das emissões, bem ao contrário! É um cálculo enganador baseado em offsets, em “mecanismos de compensação”: a empresa XY continua emitindo CO2, mas planta uma floresta na Indonésia, que supostamente absorverá o equivalente a este CO2 – se ela não se incendiar. As ONGs ambientalistas já denunciaram suficientemente a farsa dos offsets, não vou insistir. Mas isto mostra a perfeita mistificação contida na promessa de “neutralidade de carbono”.
Nosso banco (ou companhia petrolífera, etc.) financia as energias renováveis e participa assim na transição ecológica
Este lugar-comum do green-washing [maquiagem verde] também faz parte da enganação e manipulação. É claro que os bancos e as multinacionais também investem em energias renováveis, mas estudos precisos da ATTAC e de outras ONGs mostraram que se trata de uma pequena – por vezes minúscula – parte de suas operações financeiras: o grosso continua indo para o petróleo, carvão, gás… É uma simples questão de rentabilidade e de competição por frações de mercado.
Todos os governos “razoáveis” – ao contrário de Donald Trump, Jair Bolsonaro e cia. – juram também, em todos os matizes, que estão empenhados na transição ecológica e nas energias renováveis. Mas assim que há um problema com o fornecimento de um combustível fóssil – recentemente o gás –, devido à agressiva política russa – refugiam-se no carvão, reativando centrais elétricas a carvão mineral, ou imploram à (sangrenta) família real da Arábia Saudita para aumentarem a produção de petróleo.
Toda o belo discurso sobre a “transição ecológica” oculta uma verdade desagradável: não é suficiente desenvolver energias renováveis. Antes de tudo, as energias renováveis são intermitentes: o sol nem sempre brilha no Norte da Europa… É verdade que foram feitos progressos técnicos nesta área, mas eles não podem resolver tudo. E, sobretudo, as energias renováveis requerem recursos minerais que correm o risco de se esgotarem. Se o vento e o sol são ilimitados, não é este, de modo algum, o caso para os materiais necessários para sua utilização (lítio, terras raras, etc.). Será portanto necessário considerar uma redução do consumo global de energia, e uma diminuição seletiva: medidas que são inimagináveis no quadro do capitalismo.
Graças às técnicas de captura e sequestro de carbono evitaremos a catástrofe climática
Este é um argumento cada vez mais utilizado pelos governos, e que encontramos até mesmo em alguns documentos sérios (por exemplo, do IPCC). É a ilusão de uma solução tecnológica milagrosa, que salvaria o clima, sem a necessidade de nada mudar em nosso modo de produção (capitalista) e em nosso modo de vida.
Lamentavelmente, a triste verdade é que estas técnicas miraculosas de captura e sequestro de carbono atmosférico estão longe de ser uma realidade. É certo que foram feitas algumas tentativas, e que alguns projetos estejam em curso aqui e ali, mas no momento não se pode dizer que esta tecnologia seja eficaz e operacional. Ela ainda não resolveu as dificuldades de captura ou de sequestro (em regiões subterrâneas impermeáveis às fugas). E não há qualquer garantia de que poderá fazê-lo no futuro.
Graças ao automóvel elétrico, reduziremos substancialmente as emissões de gases de efeito estufa
Este é outro exemplo de meia-verdade: é certo que os automóveis elétricos são menos poluentes do que os automóveis a combustão (a gasolina ou diesel), e, portanto, menos prejudiciais para a saúde da população urbana. No entanto, do ponto de vista das mudanças climáticas, seu balanço é muito mais mitigado. Eles emitem menos CO2, mas contribuem para uma situação desastrosa “tudo a eletricidade”. Contudo, na maioria dos países, a eletricidade é produzida com… combustíveis fósseis (carvão ou petróleo). A redução das emissões dos automóveis elétricos é “compensada” pelo aumento das emissões resultantes do maior consumo de eletricidade. Na França, a eletricidade é produzida por energia nuclear, outro impasse. No Brasil, são as megabarragens destruidoras de florestas, e, por conseguinte, responsáveis por um balanço de carbono pouco reluzente.
Se quisermos reduzir drasticamente as emissões, não podemos evitar uma redução significativa da circulação de automóveis privados, por meio da promoção de meios de transporte alternativos: transportes públicos gratuitos, áreas de pedestres, ciclovias. O automóvel elétrico mantém a ilusão de que podemos continuar como antes, mudando de tecnologia.
É através de mecanismos de mercado, como os impostos sobre o carbono ou os mercados de direitos de emissão, ou ainda aumentando o preço dos combustíveis fósseis, que conseguiremos reduzir as emissões de CO2.
Para os ecologistas sinceros, isto é uma ilusão; na boca dos governantes, é ainda uma mistificação. Os mecanismos de mercado têm demonstrado por todo lado sua perfeita ineficiência na redução dos gases de efeito estufa. Não são apenas medidas antissociais, que buscam fazer as classes populares pagar o preço da “transição ecológica”, são incapazes, sobretudo, de contribuir substancialmente para a limitação das emissões. O fracasso espetacular dos “mercados de carbono” instituídos pelos acordos de Kyoto é a melhor demonstração disso.
Não é com medidas “indiretas”, “incentivadoras”, baseadas na lógica do mercado capitalista que conseguiremos por um freio no poder absoluto dos combustíveis fósseis, que mantêm o sistema funcionando há dois séculos. Para começar, será necessário expropriar os monopólios capitalistas de energia, criar um serviço público de energia, que terá como objetivo a redução drástica da exploração dos combustíveis fósseis.
As mudanças climáticas são inevitáveis, só podemos adaptar-nos
Este tipo de afirmação fatalista pode ser encontrada nos meios de comunicação e entre os políticos “responsáveis”. Por exemplo, Christophe Bechu, ministro da transição ecológica do novo governo Macron, declarou recentemente: “Já que não podemos evitar o aquecimento global, quaisquer que sejam os nossos esforços, temos que conseguir limitar seus efeitos enquanto nos adaptamos a ele”.
Esta é uma excelente receita para justificar a inação, o imobilismo e o abandono de qualquer “esforço” para tentar evitar o pior. Contudo, os cientistas do IPCC explicaram bem que, embora o aquecimento já tenha de fato começado, ainda é possível evitar ultrapassar a linha vermelha de 1,5 graus – desde que comecemos imediatamente a reduzir de modo significativo as emissões de CO2.
Certamente, temos que tentar adaptar-nos. Mas se as mudanças climáticas se tornarem incontroláveis e acelerarem, a “adaptação” é apenas um engodo. Como “adaptar-se” a temperaturas de 50°C?
Poderíamos multiplicar os exemplos. Todos levam à conclusão de que, se quisermos evitar as mudanças climáticas, devemos mudar o sistema, ou seja, o capitalismo, e substituí-lo por outra forma de produção e consumo. Isto é o que chamamos “ecossocialismo”.
Michael Löwy é diretor de pesquisa em sociologia no Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS). Autor, entre outros livros, de O que é o ecossocialismo (Cortez).
Tradução: Fernando Lima das Neves.
Leia também: Por mais
que EUA e União Europeia se esforcem, as estatísticas de comércio internacional
mostram que é impossível fazer a roda da história girar para trás https://bit.ly/3DvXnAC



