21 fevereiro 2021

O sentido do que se deseja

Felicidade

José Luiz Simões*

 

Em 2009, iniciei os estudos da temática “Felicidade”. Naquela época, logo percebi que pouquíssimos pensadores se preocupavam com esse tema no Brasil. Identifiquei ainda que a maioria das pesquisas científicas sobre Felicidade era produzida nos países mais ricos. Então, registrei a primeira hipótese desse fenômeno: as desigualdades econômicas e mazelas sociais no Brasil se impõem como principal problema de pesquisa aos sociólogos, economistas, filósofos, historiadores e cientistas políticos.

Aprendi que não há definição única de Felicidade. Há diversas formas de entender, perceber ou perseguir o que todo ser humano busca em sua vida: ser feliz. Descobri que a Filosofia foi a primeira ciência que se preocupou com o tema, desde Aristóteles, o que se confirma no seu livro “Ética à Nicômaco”.   

Ao longo da história da humanidade, a busca da Felicidade se caracterizou pelo desejo da imortalidade e ostentação social. No Egito Antigo (cerca de 2.000 a.C) os faraós contratavam escribas para registrar suas biografias, estratégia de reverenciar a memória e também uma forma de se eternizar. Jesus Cristo também foi um divisor de águas na história da humanidade. A partir de seus ensinamentos, novos valores sociais ganham importância como, por exemplo, a tese do perdão aos pecadores e a solidariedade aos marginalizados e execrados pela sociedade. Ao promover milagres e profetizar, Jesus Cristo defendeu a ideia de vida após a morte e a tese do Deus oniciente e onipotente, o que trouxe esperança e grande sentido à civilização.

O período da Idade Média trouxe como contribuição à busca da Felicidade a valorização da razão, o surgimento da Ciência e a colocação do ser humano como centro do universo (Homocentrismo). A humanidade, influenciada pelas ideias antropocêntricas, rompeu com verdades anteriormente aceitas como absolutas, entre elas, a ideia do Terraplanismo ou de que a Terra é o centro do Universo. O advento da ciência ajudou a libertar a humanidade, trouxe novas possibilidades de produção de riqueza material, novas tecnologias, o avanço da medicina e a descoberta de fármacos diminuiu o sofrimento dos doentes e deu esperança de cura para várias doenças, o que fez melhorar a expectativa de vida. Nos últimos 200 anos a humanidade produziu novas tecnologias em todas as áreas, a ciência avançou, e isto trouxe novas formas de perceber o mundo e a vida. Experimentamos novos prazeres, novas possibilidades, mas também novos problemas. A luta pelo bem estar objetivo e subjetivo, que são os pilares de uma vida feliz, passa a ser mais latente do que no passado distante.       

A saúde é um bem precioso, o ponto de convergência entre todos que refletem sobre o tema Felicidade. O filósofo Arthur Schopenhauer, no livro “A Arte de ser Feliz”, sentencia que a saúde física e mental é base de uma vida com mais episódios de felicidade do que infelicidade. Em tempos de pandemia, com sonhos e projetos estacionados ou postergados para o futuro, a saúde e a ciência (como estratégia de combater doenças) se reafirmam como bens fundamentais na luta pela vida e na busca da Felicidade.

Momentos de tristeza e infelicidade sempre vão acontecer, faz parte da condição humana. Mas a maneira como reagimos aos problemas é a questão chave. Enfrentar os obstáculos que emergem à nossa frente, nossas frustrações e incertezas, nos tornam fortes, mais preparados para saborear os prazeres e valorizar a vida. Ter fé, humildade, adquirir conhecimentos, ser otimista e produzir boas ações no cotidiano fortalecem a esperança no futuro e ajudam no caminho de uma vida feliz.

*Zé Luís Simões, professor do Centro de Educação/UFPE

[Ilustração: Arshile Gorki]

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