02 novembro 2026

Desenvolvimento regional

O Nordeste e a reindustrialização
Abraham B. Sicsu    


O Brasil, nos últimos três anos, assumiu a reindustrialização como base para modernização de sua economia e de melhoria de empregabilidade com salários mais dignos. Muito justo, uma lógica que pode modificar o quadro que vinha se configurando, quadro esse excludente e concentrador. E, resultados expressivos têm sido conseguidos.

Segundo a Confederação Nacional da Indústria, em 2022 o PIB da indústria de transformação ficou em 11% aproximadamente, quando uma década atrás passava dos 22%. As indústrias tradicionais, calçados, vestuários e alimentos, são a base principal com forte sustentação em mão de obra de menor custo.

Um quadro desanimador

O Nordeste, que representava 27% da população, teve apenas 14,4% do PIB em geral e sua indústria de transformados representou apenas 12,2% da nacional. Mesmo com a vinda de indústrias automobilísticas e com polos industriais se consolidando, em uma década, cresceu apenas 0,6% sua participação nacional.

É bom lembrar que na última década, o Nordeste só avançou, modestamente, nos indicadores das indústrias de baixa e média intensidade tecnológica e nada nos segmentos de base tecnológica ou fornecedores especializados, setores baseados em avanços tecnológicos. Dos empreendimentos da indústria de transformação na região, 73,7% são microempresas, muitas de gestão familiar e pouco profissionalizadas.

Temos nos dedicado a entender como o Nordeste Brasileiro pode se inserir na nova dinâmica de desenvolvimento que vem se configurando. Uma região que em diferentes áreas técnico-científicas consolidou bases relevantes, mas, que, em boa parte, ainda estão dissociadas dos avanços tecnológicos do setor produtivo aqui implantado.

Os dois vetores estratégicos, em nossa opinião, seriam a consolidação de Sistemas Locais de Inovação e a formulação de políticas de espacialização do desenvolvimento, enfatizando que o incentivo ao desenvolvimento regional deve passar pela solução de gargalos observados nos sistemas locais de inovação.

Não se observa uma maior interação, uma visão sistêmica que permita consolidar Sistemas Territoriais de Inovação que deem sustentação a novos complexos industriais que modifiquem a realidade regional. Sua dinâmica é definida não por um planejamento integrado e sistêmico, mas por decisões empresariais individuais e, na maioria das vezes, desvinculadas da base de conhecimento local, o que leva a mudanças pouco significativas e à manutenção de uma posição periférica.

Evidentemente que a taxa de juros, no nível atual da SELIC, é um fator que muito dificulta e inibe os investimentos produtivos no País. No entanto, outros fatores devem também ser analisados e considerados, principalmente se o foco são as regiões periféricas do País.

Na lógica das Reformas, uma preocupação adicional tem surgido. A Tributária cria um novo mecanismo financeiro, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional- FNDR, para reduzir as desigualdades econômicas entre os estados e promover investimentos locais, teoricamente. Tendo em vista os critérios de distribuição dos recursos, definidos pelo Congresso, pode ter efeito ao contrário. Distribuirá os recursos usando o tamanho da população menos favorecida, o que torna São Paulo no principal beneficiário do Fundo.

No entanto, para o Nordeste poder participar efetivamente dos novos ciclos de desenvolvimento do Brasil, reduzindo drasticamente as desigualdades regionais, internalizando ganhos para a sua população e gerando oportunidades de prosperidade e cidadania intergeracionais, o que precisa ser feito?

A política industrial definida no principal Plano Governamental para a área, a Nova Indústria Brasil, que começou a ser implantada em 2023, fez uma opção correta. Optou por uma abordagem sistêmica a partir dos reais problemas nacionais.

Erradicar a fome, adequar e modernizar o complexo da saúde, enfrentar os problemas urbanos de moradia e mobilidade, aumentar a competitividade do setor produtivo através da transformação digital, abordar a questão ambiental através da transição energética e da bioeconomia, recuperar a infraestrutura bastante sucateada de escoamento da produção, aspectos ligados à soberania nacional e segurança são pontos que marcam as seis missões definidas e que são básicas para o processo de desenvolvimento.

Nesse quadro, um problema objetivo foi que a política tinha uma visão setorial, mas não regional o que, num país da dimensão do nosso, traz problemas estruturais sérios.

Se for analisado o que foi aqui investido no Nordeste, com um pouco mais de atenção, percebe-se que grande parte está em segmentos ligados à agroindústria e algo na modernização digital empresarial. Setores que não fazem parte do contexto da nova Manufatura 4.0.

 Além disso, a principal fonte nacional de recursos para novas áreas e a efetiva transformação industrial é o BNDES e, embora tenha melhorado a distribuição de recursos para a região, continua centrado nas áreas menos tecnificadas.
Também, em áreas mais intensivas em tecnologia, focam no último elo da cadeia, e muito pouco na cadeia de suprimento. As mudanças relevantes não vêm apenas, no instalar Datacenters ou trazer empresas produtoras de hidrogênio verde para Região, por exemplo.

Fundamental internalizar os complexos industriais, analisar as rotas produtivas e consolidar segmentos da cadeia de suprimento regionalmente, além de garantir o uso na região de dados armazenados nos Datacenters, além de energia para o desenvolvimento de novas atividades locais, em escala e disponibilidade adequadas.

Esses complexos locais serão básicos para as cadeias que foram definidas como prioritárias, destacando as cadeias de semicondutores, baterias e na área de Defesa. Evitar a “simples exportação de matérias-primas estratégicas” e desenvolver capacidade de beneficiamento passa a ser estratégico.
Powershoring, instalar fábricas e indústrias na região, intensivas em uso energético que estão se deslocando dos países centrais, aproveitando a relativa oferta de energia renovável abundante, barata e segura, pode ser caminho interessante, também.

Ignorar oportunidades como os complexos industriais da saúde que podem se configurar com a vinda de empresas como a Hemobrás, os Polos de Baterias que se estruturam na Bahia e Pernambuco, não ter em mente o enorme potencial de energias renováveis e em bioeconomia e transição energética, ou mesmo a potencialidade na área da indústria da segurança com Alcântara no Maranhão e mesmo com o complexo da nova escola de sargentos em Pernambuco, é ter uma visão apenas do passado e não compreender os investimentos que estão sendo desenhados para o futuro.

O Plano Mais Produção, âncora da reindustrialização, capitaneado pelo BNDES, com isso, deveria passar por uma profunda reforma metodológica em sua concessão de crédito. O que se observa é que novamente o Regional passa a ser irrelevante na estratégia traçada, a não ser na adequada ênfase que o discurso dá para as áreas de compras governamentais.

Reverter o atual direcionamento passa por consolidar e estruturar redes de Instituições de Ciência e Tecnologia associadas às missões que foram propostas, criação e consolidação de Complexos industriais territorializados, ter fontes de financiamento que levem em consideração os perfis produtivos e suas especificidades. Mudanças estruturais dependem dessas iniciativas.

A criação e consolidação de Sistemas Territoriais de Inovação, portanto, é premissa para a perspectiva de planejamento e podem ser fortalecidos. Dar continuidade à política de desconcentração da base técnico-científica, ponto estratégico para a nova indústria nos diferentes espaços da matriz industrial brasileira. Repatriar talentos que perdemos nos últimos anos no País e incentivá-los a se inserirem nos Sistemas Regionais, uma iniciativa importante.

Verificar condições objetivas que permitam uma melhor inserção regional, não com base do passado ou em estereótipos que vem a região apenas como periférica e lócus de setor produtivo de baixa intensidade tecnológica, mas com a possibilidade de reestruturar a matriz produtiva tendo por base o complexo técnico científico moderno já construído e a possibilidade de sua expansão em áreas priorizadas pela política nacional. 

É preciso a construção de uma nova agenda do Regional, baseada em:

  • Adoção de políticas de CT&I articuladas à política industrial, a uma política de transição ecológica, a uma política de recuperação de infraestrutura, alinhadas aos grandes desafios nacionais e, principalmente, espacializando os impactos, tendo clara a diversidade regional do País.
  • Consolidar redes de Instituições de Ciência e Tecnologia associadas às missões já bem definidas, avaliando da criação e consolidação de Arranjos Locais, Clusters e Complexos industriais territorializados.
  • Criação e consolidação de Sistemas Territoriais de Inovação como premissa para a Manufatura 4.0
  • Fortalecer a política de desconcentração da base técnico-científica
  •  Pensar em novos modelos de financiamento a inovações compatíveis com as lógicas regionais e seus complexos industriais.

Em fim, criar bases sólidas para a inserção das diferentes regiões do país numa nova etapa do nosso capitalismo, a da Manufatura 4.0, da Inteligência Artificial e da sustentabilidade ambiental, como premissas para o desenvolvimento socioeconômico.

Nos últimos três anos já se avançou bastante no estancar do processo de desindustrialização, mas não o suficiente. A visão regional, com uma melhor adequação da política de juros, poderia dar maior solidez e consistência ao processo.
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"Quando o futuro deixa de ser promessa" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/desenvolvimento-soberano.html 

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