03 março 2014

Aprendizado

A segunda-feira é de Aline Isaia: "Com as minhas cores, vos matizo./Com as minhas dores, vos acolho./Com os meus tropeços, vos compreendo."

02 março 2014

Uma crônica de mestre

O amor acaba 

Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Livros

"As pessoas que amam o livro, amam-no não só por seu conteúdo, pelas histórias que conta ou pelas ideias que expõe; as pessoas que amam o livro, amam-no também como objeto." (Moacyr Scliar).

Felicidade

O domingo é de Manoel de Barros: "Tenho abundância de ser feliz por isso./Meu quintal é maior do que o mundo."

01 março 2014

O poeta e o carnaval

Um homem e seu carnaval 

Carlos Drummond de Andrade


Deus me abandonou

no meio da orgia

entre uma baiana e uma egípcia.

Estou perdido.

Sem olhos, sem boca

sem dimensões.

As fitas, as cores, os barulhos

passam por mim de raspão.

Pobre poesia.


O pandeiro bate

é dentro do peito

mas ninguém percebe.

Estou lívido, gago.

Eternas namoradas

riem para mim

demonstrando os corpos,

os dentes.

Impossível perdoá-las,

sequer esquecê-las.


Deus me abandonou

no meio do rio.

Estou me afogando

peixes sulfúreos

ondas de éter

curvas curvas curvas

bandeiras de préstitos

pneus silenciosos

grandes abraços largos espaços

eternamente.

Silêncio

O sábado é de Melissa Campos: "Fechou o peito no silêncio,/cegou os olhos,/lacrados em diamante."

Uma crônica para descontrair

Tantos carnavais

Luciano Siqueira, no portal Vermelho

Todo carnaval é assim: tenho que responder se vou permanecer no Recife e em Olinda, sob as ordens de Momo, no compasso eletrizante do frevo ou do batuque sedutor do maracatu, e se não for, por que não, se gosto ou não gosto e por aí vai.

Avesso a dar explicações sobre minhas escolhas para além da militância política, termino caindo na tentação de relembrar antigos e recentes carnavais, das diversas fases de minha vida que ultrapassam as seis décadas, e sobre a tradição guerreira do carnaval pernambucano.É que o tríduo momesco, como se dizia antigamente, envolve a todos – os que caem na folia e os que só observam e até os que se mantêm à distância.

Agora mesmo termino um prazeroso colóquio sobre o tema com amigos recentes que ainda pouco sabem da minha relação de amor com a festa e até imaginavam que nutrisse algum sentimento avesso. Reconheço a emoção ao comentar a verdadeira saga popular dos pernambucanos pobres pelo direito de compartilhar o chão de nossa terra com as elites e passarem de meros espectadores a foliões com todos os direitos. Os enfrentamentos com a polícia que reprimiam as primeiras agremiações populares, no início do século 20, o uso da estrutura metálica do guarda-chuva como forma de enfrentar a sanha dos meganhas, resultando nessas peças multicolores e delicadas de hoje, as sombrinhas de frevo.

Os amigos, um jovem casal que reside no Recife há pouco mais de dois anos e que literalmente dá os primeiros passos na festança, se espantam quando digo que nos anos 50, em Natal, onde vivi até o meio da adolescência, meu pai comprava lança-perfume Rodouro, importada da Argentina, e dava aos filhos para que fizessem bom uso no assédio aos brotinhos (as gatinhas de então). Lança-perfume se tornou proibida nos anos 60, na curta presidência de Jânio Quadros.

Adiante, em pleno rigor da militância clandestina, início dos anos 70, em Santana do Ipanema, sertão de Alagoas, Luci e eu, emocionados, descobrimos, durante o cortejo da Escola de Samba Unidos do Monumento, no muro de uma das ruelas, inscrição antiga de um candidato a vereador pelo Partido Comunista. Ali mesmo, numa segunda-feira gorda, acompanhei uma charanga que percorreu quase toda a cidade com batuque improvisado e, já no meio da tarde, a cabeça a mil pelo excesso de oxidrila, arrisquei um salto espetacular do alto da ponte para mergulhar no rio e quase morro afogado.

A conversa transcorreu repassando imagens como em vídeo tape. Carnavais de Olinda, vários. Todos apaixonantes, a partir do primeiro (para mim e Luci), após sairmos da cadeia, em 1977, quando o prefeito Germano Coelho, em início de mandato, tendo recebido a prefeitura em situação calamitosa, sem recursos para apoiar a festa, apelou população que ornamentou com toalhas, lençóis e tecidos coloridos as fachadas e janelas do sitio histórico, fazendo a festa com paixão e raça.

Bom, também as lembranças de amores e dores da adolescência vividos nos quatro dias de fantasia. Passado o tempo, ficaram só as boas recordações. O fato é que essa festa que em Pernambuco é rigorosamente democrática, espontânea e livre, faz muito bem aos viventes que dela fazem bom proveito. Evoé!