01 julho 2023

Ainda é pouco

A justiça eleitoral cumpriu seu papel, nos livrando do risco de ter Bolsonaro por oito anos. Resta agora esperar que outras esferas jurídicas o punam pelos vários males que causou ao Brasil e ao povo. A inelegibilidade é pouco.

Sylvio Belém 

Em poucas palavras, a complexidade da vida https://bit.ly/3Ye45TD

Barreiras neoliberais

Dogmas monetários renitentes: autonomia do Banco Central e metas para a inflação

O que elas têm em comum e as torna complementares é que ambas constituem amarras ou limitações ao poder do Estado.
Paulo Nogueira Batista Jr./Vermelho


 

Volto à questão do Banco Central, paciente leitor ou leitora. Conto com a sua paciência, característica talvez tipicamente brasileiro. Volto ao Banco Central porque o problema que ele representa se vê seriamente agravado pela teimosia do seu presidente, que insiste em manter os juros na lua e demora a sinalizar o início da sua redução, já tardia, ridiculamente tardia, uma vez que os diversos indicadores relevantes a justificam cada vez mais claramente. Mas não quero falar hoje da conjuntura da política monetária brasileira, e sim do pano de fundo, isto é, de questões estratégicas que, embora nem sempre explicitadas, permeiam o debate sobre moeda e juros, não só no Brasil, como em outros países.

Refiro-me a duas questões interligadas: a autonomia do Banco Central e o regime de metas de inflação. São políticas ainda reverenciadas, pelo menos no Brasil, mas muito discutíveis, para dizer o mínimo. Viraram dogmas desde o início dos anos 1990 em grande parte do mundo ocidental, e acabaram sendo importadas pelo Brasil: o regime de metas em 1999 e a autonomia legal da autoridade monetária em 2021. A nossa adesão a esses dogmas, principalmente ao segundo, foi tardia. E talvez por isso a ortodoxia de galinheiro que prevalece no debate econômico nacional se aferra a eles, mesmo que o seu declínio se faça sentir nos países desenvolvidos onde tiveram origem.

Na verdade, parêntese, no Brasil de hoje não há debate econômico. O que existe não é propriamente “debate”, mas a divulgação unilateral de um só ponto de vista. E não é propriamente “econômico”, uma vez que as teses e opiniões apresentadas são versões vulgares do que se conhece como economia, seja pura, seja aplicada.

Origem dos dogmas monetários atuais

Em muitos países esses dois dogmas, depois de reinarem quase incontestes na década final do século 20 e na primeira década do século atual, sobrevivem atualmente pro forma, tendo sido essencialmente abandonados na prática. Os bancos centrais “autônomos” estão cada vez mais integrados à política econômica do Estado. A propalada autonomia, que nunca foi plena, existe hoje mais nos textos legais e nos livros-texto do que na realidade. O regime de metas, adotado como “âncora” para a política monetária em muitos países desenvolvidos e em desenvolvimento, foi sendo flexibilizado e, em diversos casos, arquivado sem alarde.

Mesmo assim, vale a pena recapitular brevemente a origem desses dois dogmas monetários. Isso ajudará a entender a sua aplicação nas últimas três décadas, assim como suas dificuldades de sobrevivência em anos mais recentes. Vou tentar ser claro e exercer o espírito de síntese.

Se pudesse resumir em poucas frases a tendência histórica de longo prazo da instituição moeda, diria que ela se caracteriza por uma demorada e tumultuada trajetória na direção de algo fundamental – o reconhecimento de que a moeda deve ser uma moeda estatal fiduciária pura. Desancorada, portanto. Uma moeda sem lastro emitida por um Estado nacional, como quase sempre acontece, ou em alguns poucos casos por Estados nacionais associados, como na Europa do euro. Os emissores, por delegação estatal, são sempre bancos centrais públicos, nacionais ou regionais. A aceitação da moeda é uma convenção garantida pela confiança (fidúcia) no Estado em última instância responsável pela sua emissão.

Essa tendência de longo prazo foi se impondo em face de muita resistência, motivada por hábitos e preconceitos. Prevaleceu por muito tempo a relutância em aceitar que a moeda não tivesse um “valor intrínseco”, a exemplo do que ocorre com as moedas metálicas, baseadas em metais preciosos, notadamente ouro e prata. No entanto, a inviabilidade do padrão-ouro, mesmo modificado e modernizado, ficou escancarada com a Grande Depressão dos anos 1930, quando se confirmou que o ouro não passava mesmo de uma “relíquia bárbara”, na famosa expressão de Keynes. Resquícios importantes do padrão ouro ainda sobreviveram no sistema de taxas cambiais fixas ajustáveis estabelecido em Bretton Woods, imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial, sistema que tinha como aspecto central a livre conversão do dólar em ouro a uma taxa fixa. Com a moratóri a decretada pelo governo dos EUA em 1971, suspendendo-se unilateralmente a conversibilidade do dólar em ouro, ingressamos finalmente num regime de moeda fiduciária pura, como destacou, entre outros, Milton Friedman.

A demora em chegar nesse ponto se deve não apenas a um apego selvagem à relíquia ouro, mas a algo mais renitente: a desconfiança dos agentes econômicos e de uma parte importante dos economistas em relação ao papel econômico do Estado e, portanto, a resistência a aceitar uma moeda desancorada, inconversível, apoiada exclusivamente na confiança nesse Estado. Começou então um longo período, ainda inconcluso, em que se procurou garantir por meio de regras ou âncoras que a moeda estatal fosse realmente digna de confiança. Na impossibilidade de basear o sistema monetário e de pagamentos em emissão primária de moedas privadas, restou a opção de impor disciplina ao Estado emissor.

A aspiração se mostraria muito mais difícil de realizar do que talvez se pudesse inicialmente imaginar. Regras simples se mostrariam impraticáveis, diante da complexidade da realidade econômica. Regras complexas, difíceis de especificar e pouco transparentes, se mostrariam ineficazes em gerar a confiança almejada.

O fracasso das âncoras monetárias e cambiais

Que caminhos foram seguidos para tentar disciplinar o Estado emissor. Uma tentativa, propugnada pelo mesmo Friedman, foi a de estabelecer uma “âncora monetária”, isto é, uma regra ou regras que especificassem quantitativamente limites à expansão da moeda primária ou algum outro agregado monetário. A relação entre emissão e inflação se mostraria, contudo, incerta e instável, tornando a experiência com ancoragem monetária ineficaz. Depois de anos de controvérsias teóricas e empíricas, o próprio Friedman e seus seguidores, os assim chamados monetaristas, acabariam sendo forçados a bater em retirada e abandonar essa abordagem.

Outra tentativa foi recorrer à ancoragem cambial, isto é, obrigar o Banco Central a defender taxas fixas ou alguma regra preestabelecida de variação da taxa de câmbio. Um amplo espectro de regras cambiais, desde o currency board até bandas cambiais amplas, foi submetido a testes em vários países. O sistema de taxas fixas em estabelecido logo após a Segunda Guerra, em Bretton Woods, durou algumas décadas, mas viveu dificuldades crescentes nos anos 1960 até sucumbir em 1971, como mencionei. A ancoragem cambial teria consequências ainda mais desastrosas em muitos países em desenvolvimento, inclusive aqui na América do Sul, nas décadas de 1970, 1980 e 1990. Nos anos 1990, México, Argentina e o Brasil do Plano Real, por exemplo, experimentaram graves crises econômicas ao tentar essa abordagem. O problema, em poucas palavras, é que a defesa de uma determinada taxa ou regra de câmbio nominal se mostrava extremamente custosa em situações marcadas por ampla liberdade de movimentação dos capitais. Como é praticamente impraticável abandonar por completo e para sempre a autonomia nacional na gestão da política monetária, a ancoragem cambial acabava desembocando em grandes crises de balanço de pagamentos, com pesadas consequências para os países que foram levados a seguir esse caminho.

As novas âncoras: autonomia do Banco Central e metas para a inflação

O que fazer? A despeito insucesso das âncoras monetária e cambial, continuava inconcebível para o pensamento econômico dominante aceitar uma moeda estatal fiduciária pura, sem amarras e garantias. Continuou a busca por maneiras de limitar a liberdade do Estado e dar, assim, confiabilidade à moeda por ele emitida. Foi aí que se chegou, principalmente desde os anos 1990, à combinação de duas “âncoras institucionais” que se cristalizariam em verdadeiros dogmas e sobreviveram até os dias de hoje, ainda que enfraquecidas: a autonomia do Banco Central e o regime de metas para a inflação.    

O que significavam essas duas ideais complementares? E por que também se revelariam problemáticas como âncoras? O que elas têm em comum e as torna complementares, como indiquei anteriormente, é que ambas constituem amarras ou limitações ao poder do Estado. A autonomia legal do Banco Central remove a subordinação da autoridade monetária ao poder político, conferindo ao presidente e demais diretores mandatos longos e não coincidentes com o do Presidente da República. O objetivo declarado é “despolitizar” a política monetária, que passaria a ser guiada exclusivamente por critérios técnicos. O horizonte curto dos políticos seria substituído pelo horizonte longo de uma burocracia autônoma e especializada. O Banco Central ficaria livre, em especial, do chamado ciclo político, que tende a se traduzir em políticas expansi vas em anos eleitorais, em detrimento da estabilidade econômica e monetária.

O regime de metas para a inflação, por sua vez, impõe uma limitação adicional ao Banco Central, a quem se confere a liberdade para buscar, pelo manejo da taxa de juro e de outras variáveis, sem interferência do governo, metas numéricas para a taxa de inflação, determinadas em geral pelo governo (pelo Conselho Monetário Nacional, no caso brasileiro). Estabelecidas as metas, o governo sai de cena. O Banco Central conduz por sua conta a política monetária, ficando obrigado a focar suas ações em um objetivo primordial: a estabilidade do poder de compra da moeda nacional.

O regime de metas pode ser mais ou menos flexível, dependendo de como ele é especificado. As metas são ambiciosas, requerem grande esforço de contenção? São pontuais ou há intervalos de confiança? São curtos os prazos fixados para alcançar as metas? A variável de referência é a inflação cheia ou medidas de inflação ajustadas para excluir determinados componentes voláteis do índice geral de preços? Em certos aspectos, o regime brasileiro foi definido de forma relativamente flexível quando comparado ao de outros países, o que não impediu sucessivos descumprimentos das metas nos últimos anos.

Descrédito das novas âncoras

Procurei resumir acima, sem caricaturar, os argumentos ortodoxos. Há uma certa plausibilidade nesses argumentos, um certo apelo ao bom-senso. Mas a realidade desapontou repetidamente as expectativas dos que os defendiam.

Quanto ao Banco Central, logo ficaria claro que a política monetária não pode ser conduzida independentemente do resto da política econômica, em particular da política fiscal, como haviam avisado, aliás, os economistas de orientação keynesiana. Se o Banco Central, apoiado na sua autonomia legal, quiser atuar em faixa própria, sem coordenar seus passos com o Ministério das Finanças e outras áreas do governo, certa confusão é inevitável e nada de positivo resultará. A realidade prática da política econômica, as interconexões entre os seus componentes, recomenda que a autoridade monetária atue em combinação com o governo, trocando informações, discutindo objetivos, antecipando movimentos.

Em suma, o Banco Central é, sempre e em toda parte, um braço do aparato estatal. Um Banco Central que pretenda ser independente de facto, e não apenas de jure, torna-se um estorvo para a condução da política econômica. Isso raramente acontece – o caso brasileiro de 2023 é um exemplo entre poucos.

A ideia do Banco Central autônomo se tornou especialmente problemática nos tempos de intensa polarização política em tantos países, inclusive o Brasil. Nesse ambiente, a não coincidência entre os mandatos do Presidente da República e o do presidente do Banco Central pode tornar o comando da autoridade monetária um corpo estranho dentro de um novo governo, como vem ocorrendo no Brasil depois da posse do Presidente Lula. Roberto Campos Neto tenta justificar tecnicamente suas decisões, em especial os juros excepcionalmente elevados, mas suas justificativas não são sólidas e vem sendo rejeitadas pelo governo e por um número crescente de políticos, economistas, empresários e até mesmo por pessoas ligadas ao mercado financeiro. Quase uma unanimidade negativa. Com o passar dos meses, a posição “técnica” arguida pelo Banco Central par ece cada vez mais insustentável. No campo oficial, muitos têm a sensação, correta ou não, de que o presidente do Banco Central é um bolsonarista infiltrado, que sabota deliberadamente os planos econômicos governamentais.

Esse problema novo, o da polarização política, se sobrepõe a um problema antigo, de natureza estrutural, que economistas como eu cansaram de apontar: instituir a autonomia legal do Banco Central em relação ao poder político reforça a sua captura por interesses financeiros privados. Desaparece ou diminui o contraponto da influência do governo e ganha força a influência do capital financeiro, assegurada pela famosa porta giratória. Os integrantes da diretoria do Banco Central provêm, em grande parte, do sistema financeiro e para lá retornam. A passagem pelo comando do Banco Central é uma forma de lustrar o currículo e conquistar posições mais vantajosas no mercado financeiro – desde que, claro, o executivo dance rigorosamente conforme a música durante a sua passagem pelo Banco Central. Uma forma sutil de corrupção. O Banco Central, por essas e outras vias, se torna chasse guardée do capital financeiro.

O segundo dogma, o regime de metas para a inflação, também foi revelando fissuras importantes. Mesmo quando definido de forma relativamente flexível, o regime se mostra, com frequência, difícil de manejar. Metas que pareciam razoáveis no momento da sua definição revelam-se depois draconianas, exigindo taxas de juro elevadas, com impacto sobre o nível de atividade, a taxa de câmbio e as finanças públicas.

O problema aqui é o que sempre aparece na aplicação de regras, seja fiscais, seja cambiais, seja monetárias: a capacidade de previsão dos economistas é sofrível. “O esperado nunca acontece; é o inesperado sempre”, dizia Keynes. Fatos novos, choques de diferentes tipos submetem qualquer esquema de regras a tensões difíceis de administrar. A grande crise financeira internacional de 2008-2010, a pandemia da Covid-19, a guerra na Ucrânia desde 2022 tensionaram os regimes de metas de inflação. O pesado impacto dessa sucessão de choques financeiros, políticos e de oferta, levaram ao desgaste generalizado da confiança na utilidade desse regime, mesmo nas suas versões mais flexíveis. Os defensores escassearam, os críticos se tornaram mais aguerridos. Muitos bancos centrais abandonaram discretamente o modelo monetário. As metas foram flexibi lizadas de tal maneira que o regime ficou virtualmente indistinguível da discricionaridade pura, isto é, muito próximo do modelo de moeda fiduciária pura, desancorada, sem lastro.

Aqui no Brasil esses dogmas monetários encontram, entretanto, um derradeiro refúgio. Como dizia Millôr Fernandes, quando as ideologias envelhecem, elas vêm morar no Brasil. Mortas e enterradas no resto do mundo, ganham aqui uma sobrevida final.  

Há diferentes caminhos até a essência das coisas https://bit.ly/3Ye45TD

Piso da enfermagem

Movimento dos trabalhadores da enfermagem pelo piso salarial faz greve em 20 estados. São profissionais indispensáveis na atenção à saúde e precisam ser devidamente valorizados.

Saber e entender é um moto contínuo https://bit.ly/3Ye45TD

Sobre nossas cabeças

ONU estima que 16 mil objetos próximos da Terra podem causar incidentes e apoia a Rede Internacional de Alerta de Asteroides. Que a ciência e a tecnologia nos protejam, pois simples cidadãos que somos já temos muito com que nos preocupar na peleja de cada dia.

Em poucas palavras, a complexidade da vida https://bit.ly/3Ye45TD

Uma crônica de Ruy Castro

Modernidade do guaraná de rolha

Ruy Castro/Folha de S. Paulo

Alguns leitores não se conformam com o fato de que, quando esta coluna trata de assuntos culturais, fala de filmes, discos e livros de décadas perdidas do século 20. "Do tempo do guaraná de rolha", disse um deles.

Adorei a imagem, mas, como diria o Antonio Houaiss, peço vênia para discrepar. Quando entrei no ar, em 1948, não se usava mais a rolha. Os refrigerantes da época, Coca-Cola, Crush, Grapette e os vários guaranás já vinham com tampinha de metal. Eu próprio, ainda de dedo no nariz, era exímio na arte de chutar tampinhas. O máximo de rolha permitida era a cortiça dentro da tampinha, que, às vezes, escondia um símbolo que dava direito a uma garrafa grátis.

A partir daí, acompanhei a evolução das embalagens. Começando lá atrás, por aquela Coca pequenininha, curvilínea e sensual, aderi à Coca média, família, de casco a devolver, de máquina, de plástico, de lata, diet, light, zero etc. Do guaraná, com ou sem rolha, nunca fui fã. Meu favorito era o Crush, casco escuro e serrilhado, já extinto. Quanto aos canudinhos, conheci os de palha, papel e plástico. E como há muito deixei de me envenenar com essas beberagens, estou meio desatualizado. Pelo que ouvi, a tampinha de metal foi substituída pela de rosca, será verdade?

No fundo, lamento não ter conhecido o guaraná de rolha. Como seu tempo deve ter sido há mais de 100 anos, ele foi contemporâneo das "Demoiselles d’Avignon" (1907), de Picasso, do "À Procura do Tempo Perdido" (1908-22), de Proust, da "Sagração da Primavera" (1913), de Stravinsky, e de "O Gabinete do Dr. Caligari" (1920), de Robert Wiene. Todas, obras radicais, de vanguarda, que, cada qual em seu gênero —pintura, literatura, música de concerto, cinema—, fizeram o século 20 ingressar na modernidade.

E se, assim como o aço tubular, o concreto armado e o plástico, o guaraná de rolha também não tiver feito parte dessa modernidade?

"Sou ex muita coisa, mas ex-forrozeiro, não" https://tinyurl.com/2zbl7xtk

Humor de resistência: Nando Mota

 

Nando Mota

Em poucas palavras, a complexidade da vida https://bit.ly/3Ye45TD


Via crucis

Por que a inelegibilidade pode se tornar o menor dos problemas para Jair Bolsonaro 

No STF, Bolsonaro é alvo de 5 inquéritos. No TSE, são 15 Aijes. O capitão se aproxima da acusação de idealizador de uma tentativa de golpe
Renato Santana/Jornal GGN


O ex-presidente Jair Bolsonaro está inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até 2030, conforme o previsto, mas a derrota é apenas a antessala de batalhas, assim mesmo, no plural, com resultados ainda mais sérios para ele: evitar ir para a cadeia por atentar contra a democracia. 
Com base nos dois votos que lhes foram favoráveis, Bolsonaro vai bater à porta do Supremo Tribunal Federal (STF) para obter uma liminar. O jurista Walter Maierovitch explica que o recurso contra a decisão do TSE não suspende o efeito da condenação lançada e publicada em sessão pública. 
No STF, Bolsonaro é alvo de seis procedimentos: cinco inquéritos e uma petição. Em dois inquéritos, é investigado por suposta interferência indevida nas atividades da Polícia Federal e, no outro, suspeito de ter vazado dados sigilosos de investigação da Polícia Federal.
Bolsonaro também foi incluído no inquérito que apura os atos antidemocráticos de 8 de janeiro. Numa petição, é investigado por difundir notícias falsas sobre o processo eleitoral – incluído no inquérito sobre milícias digitais. Ocorre que nestas ações mais fatos novos podem surgir conforme as investigações.  
Conforme revelou o GGN, pesquisadores do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP e FGV mapearam 183 ataques que Bolsonaro realizou contra as urnas, ao longo d e quatro anos como presidente da República. São ataques quase diários, semanais, por diversos meios e mídias de comunicação. 

Para andar essas ações no STF, a Procuradoria-Geral da República (PGR) precisa ser ativa. O procurador-geral da República, Augusto Aras, é aliado de Bolsonaro e para maior celeridade na tramitação das ações acredita-se que será necessário esperar setembro, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeará o nov< /span>Tentativa de golpe de estado

Por outro lado, não ter a cidadania ativa não significa ter os direitos políticos cassados. Ou seja, Bolsonaro poderá continuar exercendo seu papel de liderança da extrema-direita. No entanto, está envolvido em diversas acusações de ter cometido crimes variados e atrelado a investigações em curso. 
As investigações da Polícia Federal sobre a tentativa de golpe no dia 8 de janeiro, com as invasões e destruição de prédios dos Três Poderes, que estão sob responsabilidade do ministro Alexandre de Moraes, vêm se aproximando mais do ex-presidente do que de uma ação meramente espontânea das massas.
Bolsonaro, acredita-se, será apontado como o idealizador de uma tentativa de golpe de Estado. No celular do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro , o tenente-coronel Mauro Cid, a PF constatou conversas dele com outro militar, o coronel Jean Lawand, e nelas se pode constatar que o capitão dava ordens.

Minuta golpista aderente às Aijes

Na Aije que o tornou inelegível, o relator corregedor-geral eleitoral, ministro Benedito Gonçalves, firmou o entendimento de que se trata de um filme, não de um a fotografia, e, ao anexar a “minuta golpista” ao processo, lembrou: 
“Todas as Aijes, sobre as eleições de 2022, devem observar esse tipo de aderência. É uma orientação plenária, a observar situações semelhantes, estabilização da demanda e consumação da decadência, gravidade qualitativa e quantitativa, ou a responsabilidade dos investigados e pessoas do seu entorno”, disse durante a leitura do relatório o procurador-geral.  

Mais ações no TSE

No TSE, Bolsonaro responde a outras 15 ações de Investigação Judicial Eleitoral (Aije). o Tribunal pretende colocar ao menos outras duas em julgamento no plenário até novembro, quando o ministro Benedito Gonçalves deixa o posto de corregedor da Justiça Eleitoral. 
Se for punido nas outras ações que tramitam no TSE, a sentença não é acumulativa e Bolsonaro continuará inelegível pelo mesmo período de oito anos. Nestas ações, outras pessoas são investigadas e a inelegibilidade pode atingir os filhos Carlos, Eduardo e Flávio Bolsonaro.
Há ainda as investigações sobre os bloqueios da Polícia Rodoviária Federal para impedir eleitores de Lula no segundo tu rno, o espalhamento de acampamentos golpistas, o uso das Forças Armadas para colocar em dúvida o sistema de votação. 
A situação só não se tornou pior porque não houve a adesão do Alto Comando do Exército. Informação que o coronel Lawand deixou em evidência nas conversas com Mauro Cid: se não há adesão do Alto Comando, para baixo dele Lawand garantia a aderência para a aventura golpista. 

Nada se repete em sua essência, há sempre um dado novo https://bit.ly/3Ye45TD