01 maio 2025

Palavra de poeta

SÓ O AMOR TE MANTERÁ VIVA
Maurílio Rodrigues* 

Quando o céu está fechado,
E tudo parece ter se apagado,
E nada aquece teu coração,
Como poderás sair deste tufão?
 
Se a  esperança acabou,
E a cinza do que restou,
Ainda se encontra no ar,
Só o tempo irá solucionar.
 
O que fazer nestas ocasiões,
Quando perdida em reflexões,
Pareces um barco a deriva?
Só o amor te manterá viva.
 
Recolhe- te no canto mais escuro,
Apega- te ao que tens de mais puro.
Em silêncio, conversaras com Deus.
Ele jamais abandona os filhos seus.

[Ilustração: Marcel Gromaire]

*médico cardiologista, poeta
 
Leia também: "Silêncio e palavra", um poema de Thiago de Mello https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/palavra-de-poeta-thiago-de-mello.html

Estado disfuncional

O fim do Presidencialismo de Coalizão
Cada embate que o governo se recusa a encarar significa mais perda de poder. Se encarasse, resultaria em chantagem de impeachment
Luís Nassif/Jornal GGN 

O Estadão tem razão em um editorial recente: “O presidencialismo de coalizão morreu”. De fato, tornou-se o modelo político totalmente disfuncional. Gradativamente o Executivo foi se tornando refém do Centrão até que, com o impeachment, assumiu Michel Temer, uma das lideranças do baixo clero.

Completou-se o quadro com o governo militar de Jair Bolsonaro, praticamente entregando o controle do orçamento ao Centrão, para impedir outra manobra de impeachment.

Seguiu-se um desmonte terrível do Estado brasileiro, interrompido pela derrota de Jair Bolsonaro em 2022, e pela ascensão de um novo governo Lula.

Apesar da manipulação recorrente da mídia, Lula sempre foi um governo de composição. No começo de carreira era um sindicalista, que no máximo sonhava com um modelo semelhante ao da Alemanha da social-democracia, com os trabalhadores participando da gestão das grandes empresas e políticas compensatórias que ajudariam a aliviar a enorme pressão do modelo sobre as populações vulneráveis. Lula ajudou a humanizar e a civilizar um pouco o capitalismo brasileiro, valendo-se dos instrumentos criados por Fernando Henrique Cardoso, de distribuir parte do poder de Estado ao Congresso para poder exercer o poder da Presidência nas políticas centrais.

Deu certo no primeiro e no segundo governo, ajudado por uma explosão nos preços das commodities. Começou a falhar no governo Dilma, quando se reduziram as expectativas de crescimento e entrou em quadra a enorme conspiração que descrevo no livro “A Conspiração Lava Jato”. 

A volta de Lula deu-se em um quadro do Congresso controlando grande parte do orçamento, grupos políticos em chantagem clara para conquistar espaço, e o loteamento de Ministérios e estatais, sem assegurar condições políticas para o governo.

O resultado é um processo gradativo de desgaste. Cada embate que o governo se recusa a encarar significa mais perda de poder e de influência. Se encarasse, provavelmente a chantagem resultaria em um novo processo de impeachment. O clássico se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Assim, mesmo que Lula se candidate em 2026 e consiga a reeleição, cada dia de vida nunca é mais, é sempre menos. Ou seja, seriam mais quatro anos de retrocesso, de anomia, de captura do orçamento pelos deputados, provavelmente fortalecidos pelo aumento da bancada do Centrão no Senado. Em algum momento do futuro a corda da frágil democracia brasileira arrebentará. 

Como o nó górdio será rompido? No limite, sempre aparece o Sr. Crise determinando os novos rumos. Mas quem estará cavalgando as bestas do Apocalipse? Um político eleito e prometendo combate ao Congresso? Um déspota esclarecido ou, pelo histórico brasileiro, outro déspota terraplanista? Um Tarcisio cavalgando as milícias da Polícia Militar paulista, comandadas pelo sanguinário Derrite?

Se não tivesse se queimado com seus atos impensados, diria que o futuro reservaria um lugar para Ciro Gomes e seus arroubos. De qualquer modo, o discurso de Ciro se tornará cada vez mais dominante, sabe-se lá em que boca.

E essa caminhada não será detida com inauguração de obras, com entrevistas para rádios do interior. Enquanto não se conseguir desenhar um futuro, ainda que utópico, a desesperança alimentará a futura tragédia política.

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Veja "Segurança pública, crime organizado e milícias" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/seguranca-publica-crime-organizado-e.html

Brasil: qual reforma política?


Na mesa, "Nova governança institucional: reforma política, democracia, parlamentarismo, semi-parlamentarismo e presidencialismo", especialistas e parlamentares discutem alternativas para a reforma do sistema político-institucional brasileiro, analisando as propostas de novas formas de governança — como o parlamentarismo, o semi-parlamentarismo e os limites do presidencialismo atual — com foco no fortalecimento da democracia e da soberania nacional. Palestra do professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Fernando Abrucio. Palestra advogada e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Carol Proner. Provocação da deputada federal pelo PCdoB/RJ, Jandira Feghali.

Veja também "Segurança pública, crime organizado e milícias" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/seguranca-publica-crime-organizado-e.html

Arte é vida

 

Desenho de Alice

Veja: Transição ecológica e diversificação energética https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/transicao-ecologica-e-diversificacao.html

Minha opinião

Primeiro de Maio nas trevas e agora* 
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65 


As décadas se sucedem e imagens do Primeiro de Maio vêm à mente como em flashback.

No tenebroso período do regime militar, constrangidos à militância partidária clandestina, o dia do trabalhador era engolido por comemorações oficiais. 

Mesmo nas pequenas localidades onde vivíamos no interior nordestino. 

A representação local do Senai ou do Senac, e mesmo prefeituras, esforçavam-se para mostrar serviço ao regime através de festejos destinados a familiares dos proletários, quase como se faz com o dia do santo padroeiro.


O discurso de autoridades e de um ou outro pelego (do funcionalismo público sobretudo) devidamente amestrado.


De nossa parte, com os rigores necessários, sintonizávamos em ondas curtas as rádios Pequim e Tirana, ouvíamos registros de manifestações de trabalhadores mundo afora e, emocionados, a execução da Internacional.


Aplausos? Sim, estalando os dedos indicador e polegar.


Hoje, comparecemos a manifestações promovidas pelas centrais sindicais sem perder o entusiasmo, porém convivendo com níveis de mobilização que vão pouco além da militância partidária e corporativa — expressão de um tempo de descenso do movimento de massas e ainda de busca de novas formas de comunicação, de organização e de luta que o novo tempo do mundo do trabalho reclama. 


Nas ruas, hoje, no Brasil inteiro, meio que distantes da massa trabalhadora militantes "marcam posição".


Mas cá com nossos botões já meio gastos por décadas de militância comunista, alimentamos a convicção de que um novo tempo em breve viveremos. 


Impossível a milhões de brasileiros e brasileiras que sobrevivem do próprio trabalho aceitar ad infinitum a supressão de direitos e a imposição de condições de trabalho próprias de novos arranjos estruturais, em razão da peculiar evolução das forças produtivas sob o impacto da tecnologia digital, onde a extração da mais-valia faz-se tão dissimulada quanto exorbitante.


Sim, sem dúvida, a história da sociedade humana tem como pedra de toque a luta de classes. 


Nossas bandeiras, que jamais deixaram de ser erguidas e hoje tremulam nas mãos de militantes e ativistas resistentes, voltarão a ser empunhadas por multidões numa espécie de renovação da consigna de Marx e Engels: "proletários de todo o mundo, uni-vos!"

*Texto da minha coluna desta quinta-feira no portal Vermelho www.vermelho.org.br

Desemprego no 1º trimestre registra mínima histórica https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/05/expansao-do-emprego.html 

Uma crônica de Enio Lins

O 1º de maio: lembranças do passado recente e a atualidade
Enio Lins  

MINHA PRIMEIRA LEMBRANÇA do 1º de maio, como militante, data de 1979. Estava no movimento estudantil. Cursava Arquitetura e ciscava no jornalismo. Um pouco antes da data, o presidente do Sindicato dos Jornalistas, Freitas Neto, procurou o Diretório Central dos Estudantes da UFAL para uma parceria com os sindicalistas combativos no Dia do Trabalho, ou do Trabalhador, como queiram. Naquele tempo, a ditadura militar ia se ajeitando para sair de cena, mas as liberdades democráticas continuavam sendo tratadas como coisa de subversivo. Em São Paulo, os metalúrgicos do ABC, com sua corajosa onda de greves, a partir de 1978, eram a nova referência de luta, e os atos pelo Dia de Quem Trabalha começam a mudar.

NOS TEMPOS DO REGIME MILITAR, o 1º de maio era coisa oficial, amarelada, controlada para não sair dos limites meramente recreativos, com a colaboração subserviente dos pelegos. A agenda do dia era autorizada e acompanhada pela Delegacia do Trabalho, instituição herdada do período Vargas e que, depois do golpe de 1964, tinha se transformado em algo mais próximo de um posto policial – especializado na coação aos sindicalistas – do que um órgão de fiscalização das condições de trabalho. Se não me falha a memória, nosso 1º de maio em 1979 não foi lá essas coisas. Mas foi um marco, pois estudantes e sindicalistas trabalharam juntos. No ano seguinte, a coisa andou. A comemoração independente foi se liberando das amarras da Delegacia do Trabalho.

EM 1980, O 1º DE MAIO teve ato montado na Praça do Pirulito, Centro de Maceió, perto do Palácio do Trabalhador (prédio construído por Muniz Falcão para sediar vários sindicatos – e que já deveria ter sido tombado como Patrimônio Histórico, mas aí é tema para outro artigo). No 1º de maio de 1980 o palanque foi uma carroceria de caminhão de onde saía um fio até o carro de som (uma perua Veraneio do Camerino ou do Jorge HI FI, não me lembro com exatidão), transmitindo os discursos. Freitas Neto, mais uma vez, pelo Sindicato dos Jornalistas, no comando, desta vez compartilhando a liderança com Adelmo dos Santos, presidente do Sindicato dos Radialistas, e Pedro Luís, presidente do Sindicato dos Urbanitários. Uma foto daquela noite, que não sei por onde anda, mostrava Freitas discursando e o jornalista Carlos Pompe erguendo um exemplar da Tribuna Operária como se fosse um cartaz, cuja manchete era – como sempre – uma palavra de ordem contra a ditadura. Tempos emocionantes, combativos.

COM A DEMOCRACIA, o 1º de maio foi se convertendo em showmício, às vezes só show. Minguou como ato de luta e conscientização. Resiste, sim, o sindicalismo combativo, mas sem a presença do passado recente. Vila Euclides, nem pensar. Em primeiro lugar, o mundo do trabalho é outro, isto é certo, e universos paralelos como o da uberização e da pejotização são reais, e irreversíveis. Em segundo lugar, no Brasil, o Partido dos Trabalhadores está no governo. E é necessário reconhecer que sindicalismo autêntico e governo amigo não têm conseguido, nestes anos todos, acertar o passo no fortalecimento e enraizamento de um movimento de massas combativo (isso exige um formato próprio, não criado até agora).

NO AR, PAIRA A SAUDADE dos primeiros de maio na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, epicentro do movimento operário que projetou Lula para o infinito e além (como diria Buzz Lightyear). Em 1980, em Maceió, a Praça Sinimbu era ocupada por umas 500 pessoas (um grande feito, à época), e o estádio de São Bernardo do Campo, em São Paulo, transbordava com uma multidão com mais de 100 mil ativistas no ato coordenado pelo presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Lula. Bons tempos aqueles? Prefiro hoje, 45 anos depois, com Lula presidente da República, mesmo com um 1º de maio chocho. Mas que o movimento sindical de massas faz falta, ah, isso faz. E não só no Dia do Trabalho, falta mesmo faz todo dia.

Leia também: Primeiro de Maio nas trevas e agora https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/05/minha-opiniao.html

Expansão do emprego

Desemprego no 1º trimestre registra mínima histórica, diz IBGE
Pesquisa mostra taxa de desemprego em 7% entre janeiro e março, o menor valor da série histórica com início em 2012; rendimento médio vai a R$ 3.410 e marca recorde
Murilo da Silva/Vermelho 

A taxa de desemprego no Brasil ficou em 7% nos três primeiros meses do ano e marcou o menor resultado para o trimestre desde o início da série história, iniciada em 2012. O resultado foi divulgado nesta quarta-feira (30) pelo IBGE por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua.

A medição entre janeiro e março apresenta aceleração positiva de 0,8 ponto percentual em referência ao trimestre anterior encerrado em dezembro do ano passado. Mas o instituto destaca que o número é menor do que os 7,9% registrados entre janeiro e março de 2024.

Com a nova marca para o início do ano, o resultado de 7% desbanca o trimestre de jan-mar de 2014, como melhor apuração, quando ficou em 7,2%.

A aceleração da taxa no começo do ano é ocasionada pelo aumento do número de pessoas que estão buscando trabalho. De acordo com a Pnad, houve um aumento de 891 mil pessoas em busca de trabalho, o que fez o registro de população que antes era computada como desocupada crescer percentualmente 13,1% em comparação com o trimestre finalizado em dezembro. Apesar disso, o resultado de população desocupada continua menor do que o observado ao final de 2024.

Ainda conforme a pesquisa, o que permitiu que a taxa de desocupação acelerasse foi a redução de -1,3% de pessoas empregadas na passagem entre os trimestres, o que representa 1,3 milhão de pessoas. Apesar disso, é salientado que, em comparação com janeiro a março de 2024, o número de pessoas empregadas está 2,3% acima, ou 2,3 milhões a mais.

Adriana Beringuy, coordenadora de pesquisas domiciliares do IBGE, explica que o crescimento sazonal da desocupação não compromete o bom desempenho do mercado de trabalho nos últimos trimestres.

“Mesmo com expansão trimestral, a taxa de desocupação do 1º trimestre de 2025 é menor que todas as registradas nesse mesmo período de anos anteriores”, diz.

Carteira assinada e rendimento

Outros dados da pesquisa ainda mostram que o número de trabalhadores com carteira assinada permaneceu estável entre o trimestre encerrado em março e o anterior, com cerca de 39,4 milhões.

Os empregados sem carteira no setor privado, 13,5 milhões de pessoas, foi reduzido em 5,3% em comparação com o trimestre terminado em dezembro – menos 751 mil pessoas. Esta variação é a atribuída aos empregos sem carteira no setor de Construção, Serviços Domésticos e Educação.

Já o rendimento médio das pessoas ocupadas marcou novo recorde na série histórica ao alcançar R$ 3.410 – alta de 1,2% no trimestre e de 4,0% na comparação anual.

Os aumentos se deram, principalmente, em comparação com o trimestre encerrado em dezembro de 2024, entre os seguintes grupamentos de atividade: “Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura (4,1%, ou mais R$ 85) e Administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais (3,2%, ou mais R$ 145)”, revela o IBGE.