08 abril 2025

Vietnã cresce

Apesar de pressões dos EUA, Vietnã cresce 6,93% no primeiro trimestre
Setor de serviços lidera retomada com alta de 7,7%. Modelo socialista planejado sustenta ritmo de crescimento acima da média global
Lucas Toth/Vermelho 

O Produto Interno Bruto (PIB) do Vietnã cresceu 6,93% no primeiro trimestre de 2025, em comparação com o mesmo período do ano anterior. O dado, divulgado pelo Escritório Nacional de Estatísticas (NSO), representa o melhor resultado para o período desde 2020. 

A marca impressiona não apenas pelo ritmo elevado, mas também pelo contexto em que foi alcançada: o país já enfrentava tensões comerciais globais e a expectativa das novas tarifas impostas pelos Estados Unidos, seu maior parceiro comercial.

Segundo a diretora do NSO, Nguyễn Thị Hương, o desempenho é reflexo do modelo de desenvolvimento baseado em planejamento estatal, coordenação centralizada e mobilização das estruturas do Partido e do governo para manter o dinamismo econômico. Ela destacou o papel da “ação eficaz de todo o sistema político” diante das rápidas mudanças no cenário regional e global.

Ainda que tenha superado a meta do governo estabelecida na Resolução nº 01/NQ-CP, o resultado ficou abaixo do cenário mais otimista projetado na Resolução nº 25/NQ-CP, de fevereiro deste ano. O próprio NSO reconhece que os efeitos das incertezas externas, como a volatilidade cambial e os riscos geopolíticos, podem pressionar as engrenagens da economia vietnamita.

Modelo estatal impulsiona serviços e indústria

A composição do crescimento reforça o papel estratégico do Estado como organizador da atividade econômica. Os setores de serviços, indústria-construção e agrofloresta-pesca cresceram 7,7%, 7,42% e 3,74%, respectivamente, respondendo por 93% da expansão total do PIB. A indústria de transformação, considerada o principal motor da economia, cresceu 9,28% e contribuiu com 2,33 pontos percentuais para o crescimento geral.

No setor de construção, a alta foi de 7,99%, impulsionada pelo investimento público e por financiamentos para grandes projetos de infraestrutura, em especial rodovias, ferrovias e saneamento. O setor agrícola também apresentou desempenho sólido, com destaque para a silvicultura, que cresceu 6,67%.

A área de serviços foi favorecida pela retomada da demanda interna e pela volta de turistas internacionais, especialmente durante o feriado do Ano Novo Lunar. O transporte e armazenagem cresceram 9,9%; hospedagem e alimentação, 9,31%; comércio atacadista e varejista, 7,47%; e o setor de finanças e seguros, 6,83%.

Essa diversidade de setores em expansão evidencia que, embora o Vietnã ainda dependa de exportações, o país construiu ao longo das últimas décadas uma base produtiva relativamente diversificada, apoiada por forte investimento estatal, controle estratégico de setores-chave e cooperação entre o setor público e a iniciativa privada nacional.

Crescimento sob ameaça: tarifas e desaceleração

Apesar do desempenho robusto, os próximos meses serão de teste para o modelo vietnamita. O crescimento de 6,93% representa desaceleração frente ao último trimestre de 2024 (7,55%). A razão mais visível é a imposição de uma tarifa de 46% sobre os produtos vietnamitas pelo governo dos Estados Unidos, anunciada por Donald Trump como parte de sua nova ofensiva tarifária global.

As novas tarifas ameaçam setores estratégicos como têxteis, calçados, eletrônicos e smartphones, que concentram milhões de empregos e grande parte da receita cambial do país. Segundo a agência Reuters, caso a medida provoque uma queda de 10% nas exportações para os EUA, o crescimento do PIB pode ser reduzido em até 0,84 ponto percentual.

Além disso, há o risco de retração dos investimentos estrangeiros diretos (IED), sobretudo de parceiros como Coreia do Sul, Japão, China e os próprios Estados Unidos. Relatórios do setor apontam que muitas multinacionais estão reavaliando planos de expansão produtiva no Vietnã, diante da instabilidade nas relações comerciais com Washington.

Em nota, a consultoria BMI afirmou que “as tarifas aplicadas ao Vietnã são mais duras do que o esperado e podem provocar uma mudança estrutural no modelo econômico baseado em exportações e atração de capital estrangeiro”.

Governo mantém meta e aposta na diversificação

Mesmo diante das dificuldades, o governo vietnamita mantém a meta de crescimento de pelo menos 8% para 2025. Em pronunciamento após reunião com líderes locais e ministros, o primeiro-ministro Pham Minh Chính classificou as tarifas como “um desafio que deve ser convertido em oportunidade”.

“Não mudaremos nossos objetivos. Vamos reagir com serenidade, criatividade, flexibilidade e ação eficaz. Nosso modelo é sólido, e o povo vietnamita tem a sabedoria, a cultura e a resiliência necessárias para enfrentar esse momento”, afirmou.

Chính destacou que os EUA são um mercado relevante, mas não exclusivo. O Vietnã já assinou 17 acordos de livre comércio com parceiros de diversas regiões e pretende acelerar a diversificação das cadeias produtivas e dos destinos das exportações. O premiê determinou ainda a aceleração dos investimentos públicos, a ampliação do crédito em setores estratégicos e o reforço na diplomacia econômica, inclusive com os próprios EUA.

Segundo ele, é hora de “renovar os motores tradicionais do crescimento e desenvolver novos pilares”, como a industrialização verde, a transição energética, o digital e os mercados Halal, africanos e latino-americanos.

Integração com o Brasil reforça alternativas

Nesse cenário, ganha ainda mais relevância a recente visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Hanói. O encontro resultou na assinatura de um plano de ação conjunta Brasil–Vietnã 2025–2030, com foco em comércio, ciência, defesa, meio ambiente e intercâmbio cultural. Lula também propôs a aproximação do Vietnã com o Mercosul, passo considerado estratégico para ampliar as relações com a América Latina.

“Essas medidas vão nos permitir ampliar os fluxos de comércio e investimento entre nossos países”, afirmou Lula durante encontro com o presidente Luong Cuong e lideranças do Partido Comunista do Vietnã.

A relação entre Brasil e Vietnã é vista com atenção pela esquerda brasileira como exemplo de integração entre economias do Sul Global comprometidas com o desenvolvimento soberano, o papel do Estado e a construção de uma ordem mundial multipolar.

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Leia também: De campo de batalha a modelo de desenvolvimento https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/12/vietna-hoje.html

07 abril 2025

Palavra de poeta

PERSEIDAS

Marcia Tigani 


  I

Sou estrangeira
em minha própria terra
estrelas cadentes
sobre meus cabelos.

Poeira cósmica
a luzir em minhas órbitas
sou a estranha deitada
sobre pedra gris.

Contemplo o reverso
da ideia do existir.

  II

Um sonho acordado
é um dejá-vù
crivado de imagens
ígneas e obscuras

Meu corpo sobre a pedra
fósseis sob minha pele
existo como islamita:
sou rocha bruta
e paleta de cromo

 III

Se por mero acaso
Ou telepatia pura
Quisesses entender
A ionosfera

Ou a Constelação de Aquário
verias um opérculo
luzidio na vereda
do meu decote.

O calcáreo
a tintura de ópio
ou lêmure voador:
são partes do meu eu

 IV

Se Mefistófeles
falasse em iídiche
o estridor de sua voz
mataria pomos.

Flores, luzes
Buscaria a mim
 a islamita)
arrancaria meus rizomas
sem anestesia:

Na olaria do ódio
não há estrelas cadentes

[Ilustração: Dante Gabriele Rossetti]

Leia também um poema de Vinícius de Moraes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/palavra-de-poeta-vinicius-de-moraes.html 

Cida Pedrosa opina

Preconceito linguístico: Palavra é bicho solto e combate as estruturas de opressão
Acusada por um vereador de inventar palavras, Cida Pedrosa reflete sobre como a tentativa da extrema direita de censurar expressões populares escancara não só ignorância histórica, mas também o preconceito linguístico que silencia vozes e apaga culturas.
Cida Pedrosa/Portal Grabois www.grabois.org.br

Não é só ignorância, é preconceito – Certa feita, fui acusada por um vereador da extrema direita, na Câmara Municipal do Recife, de utilizar no meu discurso expressões que “não constavam no dicionário”. O contexto era o seguinte: votei contra um requerimento que solicitava o desligamento de lombadas eletrônicas de fiscalização para aumentar a velocidade dos carros nas vias públicas. Ao justificar meu voto contrário, disse que não concordava com a “carrocracia”, me referindo ao fato de que o automóvel enquanto transporte individual não pode ser pensado como prioridade entre os pedestres e modais coletivos. 

Facilmente achada quando se dá um mero google, a expressão desagradou ao parlamentar que me acusou de “inventar” palavras. Segundo ele, ao falar na tribuna, deveríamos nos ater apenas ao que está no dicionário da língua portuguesa, ipsi litteris. Longe de me sentir ofendida – uma vez que meu ofício de ser poeta está intimamente ligado ao desafio de fazer palavra rodopiar, entendi que precisaria explicar o óbvio: linguagem é construção de ideias, de sentimentos que se baseiam em signos que podem ser convencionais, sonoros, gráficos, gestuais etc. O que se fala aqui não necessariamente se fala acolá porque neste meio do caminho existem diversos contextos sociopolíticos e econômicos que definem em qual prateleira cabem essas ou aquelas palavras, se entram ou não no tal “dicionário”. Palavra é do unive rso da Cultura e Cultura é movimento. Cultura é um rito de circularidade, dinâmico, gregário. O surgimento de novas expressões linguísticas é da sua natureza.

Ao tentar me constranger publicamente no plenário da Casa, o vereador além de escancarar o desprezo pela segurança física das pessoas, também deixou claro seu  enorme preconceito linguístico. Estreitar nossa forma de falar é negar a pluralidade e o conhecimento da nossa gente. Aliás, é uma falácia afirmar que no Brasil falamos apenas o português brasileiro. A própria – e genial – Lélia González já tratou de renomear essa tal língua para o “pretuguês”, devido à influência dos povos africanos na nossa cultura. Ao escavar as palavras, é possível identificar a mistura e resistência das tantas etnias que habitavam essas terras e das que vieram escravizadas. “Dengo” talvez seja uma das nossas melhores heranças. Tenho certeza que este rapaz nunca ouviu falar no pernambucano linguista Marcos Bagno , empenhado e dedicado trabalhador na luta contra os preconceitos, que terminam descambando para o racismo e para a segregação das classes sociais menos privilegiadas.  

O Inventário Nacional da Diversidade Linguística, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), estima que mais de 250 línguas sejam faladas no Brasil, entre indígenas, de imigração, de sinais, crioulas e afro-brasileiras. Isso se não considerarmos as muitas e várias linguagens praticadas pelas artes e pelas especialidades das inúmeras profissões existentes. Todo dia, a toda hora, expressões novas são criadas no panorama da diversidade brasileira. A qual dicionário o vereador se referia? Tudo o que dizemos e como dizemos está repleto de camadas de colonização, resistência, conflitos e lutas. Linguagem é poder. 

Um exemplo claro é que a palavra “feminicídio” só entrou no dicionário brasileiro em 2015, mesmo sendo histórica a luta do movimento feminista ao alertar que nós mulheres morremos por questões de gênero. Assim como “gordofobia” só apareceu nos últimos anos nos Aurélios, mesmo já sendo política pública do Recife, a primeira capital do Brasil a contar com tais leis, fruto do trabalho do meu mandato. Expressões populares ou advindas de grupos minoritários só conseguem alçar as finas páginas do dicionário quando furam as muitas bolhas do capitalismo, do patriarcado, das universidades, das elites brasileiras. Que dicionário queremos celebrar?

Ao subir na tribuna da Câmara, não levo apenas meu conhecimento técnico sobre determinado tema, mas também tudo que aprendi em Bodocó, com minha mãe que nunca foi à escola mas me ensinou a ler. As memórias que criei com Zé Pedro, um carpinteiro que fazia porteiras e cochos para os animais e que, à noite, ao redor da fogueira, contava histórias para as crianças. Trago na minha voz e no meu coração o som terral de Seu Bindô, um gênio da cantoria e do aboio da Serra do Araripe, nas cercanias da Pedra do Claranã. Ao falar no microfone do Plenário, carrego comigo os e as trabalhadoras do campo que ajudaram a me formar como gente, carrego a potência dos meus ancestrais. Eles são maiores que qualquer dicionário. 

Que a extrema direita não gosta de cultura, já sabemos. O que precisamos lembrar, sempre, é que eles passarão e nós, inventores de palavras e burladores de dicionários, seguiremos construindo mundos e memórias mais plurais e coletivas. Afinal, palavra é bicho solto, vereador. Para ter intimidade com elas, tem que ser afeita aos encantamentos e, talvez, eles não tenham espaço no teu dicionário.  

Cida Pedrosa é advogada, poeta, escritora premiada e vereadora reeleita do Recife. É membro do Grupo de Pesquisa Cultura & Sociedade da Fundação Maurício Grabois.

[Ilustração: Professora indígena registra expressões linguísticas do povo Karipuna. Foto: Iphan/Divulgação]

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Leia: Redes sociais onde as regras de moderação são definidas por comunidades autônomas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/redes-federadas-x-big-techs.html

Crônica de carnaval: Lima Barreto

O meu carnaval
Lima Barreto  

Como você mesmo foi recrutado?

– Fui; e comi fogo que não foi graça.

– Como foi a história?

– Aproximava-se o carnaval. Como era minha fantasia, vim para a oficina, onde trabalhava. Eu morava em Santa Alexandrina, pelas bandas do Largo do Rio Comprido.

– Ao chegar ao escritório, na Rua dos Inválidos, o mestre me disse: “Valentim, você hoje tem um serviço externo. Você vai até Caxambi, no Méier, para assentar as caixas d'água de um prédio novo.” Deu-me o dinheiro das passagens e parti. Conhecia aquela zona e, a fim de poupar níqueis, desprezei o bonde e fui a pé. Passava eu ​​por uma rua transversal à Imperial, quando fui abordado por três ou quatro tipos fardados, do aspecto mais curioso. Eram de diversos núcleos, formando uma escolta, cujo comandante, um cabo, era um preto. E que preto engraçado! Desengonçado, pernas compridas e arqueadas, pés espalhados — era mesmo um macaco. A farda, blusa e calça, estava toda pingada; o cinturão subira-lhe até quase ao peito… Enfim, era um verdadeiro jagodes, um “Judas”.

– O que é que eles te disseram?

– O cabo veio direito a mim e me perguntou com toda a empáfia: “Onde é que você vai?” Disse-lhe; mas a autoridade feroz parecia ter implicado comigo, tanto que me intimou: “Você vai à presença do senhor capitão Lulu.” “Mas não fiz nada”, objetei. Ele foi inabalável e não quis atender os meus rogos. Chorei, roguei, mas nada! Num dado momento, um dos soldados disse: “Seu cabo está com muitos luxos. Se fosse comigo, esse paisano ia já.” E fez menção de desembainhar um enorme sabre de cavalaria que tinha à cinta.

– Mas que soldados eram estes?

– Não está vendendo logo? Eram guardas nacionais.

– Percebo. Foste?

– Fui. Que remédio?

– O que te fez?

– Vou contar-te tintim por tintim. Levaram-me a presença do oficial. Era um mulato forte, simpático, e o sério intensamente se não fosse a sua presunção e pernosticidade. Era assim o capitão Lulu. Muito apurado no seu uniforme, disse-me num tom imperativo: “Você é um reles desertor. É um brasileiro ignóbil que recusa servir a sua pátria.” Objetei-lhe cheio de susto: “Mas, senhor capitão, nunca fui soldado, como posso ser desertor?” O capitão Lulu não respondeu diretamente à minha interrogativa, mas me perguntou: “Como é que você se chama?” Disse-lhe. Indagou ainda: “Onde é que você mora.” Indiquei: “Rua tal, em Santa Alexandrina.” Isto pareceu-lhe contrário; mas nada disse. Pôs-se a escrever num livro e, por fim, falou-me: “Encontrei os seus assentamentos. Você está há muito tempo atualizado neste batalhão — 01.723.436. regimento de cavalaria da Guarda Nacional. Apesar das sugestões reiteradas, você não foi apresentado. Está preso disciplinarmente por oito dias.” Fiquei tonto, atordoado: “Mas senhor”, fiz eu, um tremor. “Cabo”, especificamente o Lulu, “cumpra as ordens. Já sabe!

– Puseram-te na cadeia?

– Não. Revistaram-me, tiraram-me as ferramentas e o dinheiro que levava. Isto tudo, na presença do marcial Lulu. Quando este viu os cobres, esclareceu: “Dá cá! Esses cobres vão para a caixa do regimento.” Após o que, levou-me para um outro compartimento, onde me fez despir a roupa e vestir uma calça e blusa do uniforme. Das peças que lá havia, a única blusa que me chegava, tinha as divisas de cabo. Não quiseram arrancá-las e fui feito cabo de esquadra. Isso não impediu, porém, que me pusessem em serviço árduo.

– O que foi?

– Meteram-me uma enxada na mão e fizeram-me capinar a chácara durante quase oito dias, passando fome.

– Como?

– A comida era café ralo e pão duro, pela manhã; e, às duas horas, um ensopado de mamão verde, muito mal feito, não qual encontrar uma pastilha de carne seca era uma raridade de fazer alegria até chorar. Na sexta-feira que antecede o sábado, véspera do carnaval, descansei. Ordenaram-me que lavasse a farda e a roupa branca, ou que fiz usar em cima do corpo a fatiota com que fora preso. Mandaram passar a roupa lavada a ferro; e, no sábado, ordenaram-me que a envergasse e fosse à presença do comandante. Apresentei-me, fiz a continência que me foi ensinado e esperei as ordens. O Lulu disse para o superior: “Está aí coronel, o desertor que capturei.” O comandante recostado na cadeira, acariciou o ventre proeminente com as duas mãos e disse com sotaque italiano: “Que vai ele fare?” A capitã Lulu respondeu: “Vai ser minha ordenança, no patrulhamento do carnaval.” O coronel ítalo-brasileiro só se limitou a dizer: “Bene!” À tarde, no sábado, Lulu, antes de sairmos, mandou-me chamar e me aconselhar: “Você me parece boa pessoa, disciplinada. Proceda muito bem. 'A submissão é a base do aperfeiçoamento', disse Victor Hugo. Se sou oficial, cheguei à posição em que estou, devo, não só ao meu esforço, como também a ser obediente aos meus superiores. Você veio, me acompanhou; porte-se bem que não terá de se arrepender.”

– O que era esse tipo, além da guarda nacional?

– Era servente do Senado.

– Que magnata!

– Não te rias. À hora marcada, saímos, eu e Lulu, para a ronda. Deu-me cinco mil réis, para despesas; mas não posso gastar em uma feijoada, porque o aguerrido Lulu não me dava tempo. Andamos pelas ruas e, à noite, fomos aos clubes, onde pude beber e comer à vontade. No domingo foi a mesma coisa e já tinha ganhado a intimidade de Lulu, a ponto de bebermos os nossos calistos juntos. Na segunda-feira, deu-me licença de ir até em casa; e eu que já estava ensoberbado de ser guarda nacional, fui de farda, facão e tudo! Quando cheguei ao Largo do Rio Comprido, saltei para levar alguma coisa. Topei logo com um conhecido que, surpreendido e cheio de espanto, me disse: “Valentim! O que é isso? Você pode ser 'pegado'!” “Porque?” “Ninguém se pode fantasiar com os trajes militares do país.” Mal tinha dito isto, quando fui preso imediatamente por um policial que me levou à delegacia onde não me quis ouvir e me meteram no xadrez até quarta-feira de cinzas. Está em que deu a Guarda Nacional e como foi o meu carnaval, naquele ano.

[Ilustração: O multi-instrumentista Índio da Cuíca Foto: Alfredo Alves]

Leia também: "Carnaval: rebeldia e prazer" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/meu-artigo-para-o-portal-grabois-4.html

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Como é mesmo — tem gente achando que numa canetada o presidente Lula resolve o grave problema da segurança pública no Brasil? Oxente! Assim também é demais, né? 

Leia: Parece cena de ópera bufa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/03/minha-opiniao_25.html

IA agravante

Aprovado PL de Jandira que eleva pena de crime contra mulher com uso de IA
Dessa forma, a pena de reclusão de seis meses a dois anos e multa será aumentada da metade se o crime tiver sido cometido com recurso de Inteligência Artificial
Iram Alfaia/Vermelho 

Os senadores aprovaram, nesta quarta-feira (19), projeto de lei, de autoria da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que aumenta a pena para o crime de violência psicológica contra mulher quando cometido com uso de inteligência artificial ou qualquer tecnologia que altere imagem ou voz da vítima.

Dessa forma, a pena de reclusão de seis meses a dois anos e multa será aumentada da metade se o crime tiver sido cometido com esses recursos.

A matéria, que segue à sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi inspirada em casos como o da atriz Isis Valverde, vítima dessa situação. Ela registrou ocorrência policial após suas fotos, postadas em redes sociais, serem adulteradas para simular o vazamento de nudes.

Outro caso envolve alunas de um colégio do Rio de Janeiro que tiveram adulteradas imagens postadas em suas redes sociais com uso de inteligência artificial. Montagens foram criadas as mostrando nuas e depois amplamente compartilhadas em grupos de WhatsApp.

“Lamentavelmente, tais casos têm se avolumado tornando-se essencial aumentar as penalidades para os mencionados crimes, a fim de desencorajar tal comportamento, fortalecer a segurança das possíveis vítimas e assegurar uma punição adequada aos criminosos”, defende a autora do projeto.

Para ela, é “inegável e imensurável o dano emocional causado, visto que as imagens passaram por reais para os que tiveram acesso a elas”.

A parlamentar considera que a prática de tais condutas delituosas configura uma séria violação da privacidade e da intimidade, “capaz de ocasionar danos emocionais e psicológicos significativos às vítimas, comprometendo sua dignidade e autoestima”.

Jandira avalia esse avanço legislativo como significativo, especialmente neste mês de março, quando se celebra as conquistas e se reforça a luta pelos direitos das mulheres.

“A violência psicológica afeta profundamente a saúde mental e a autonomia de milhares de brasileiras. Com o avanço tecnológico, criminosos têm utilizado ferramentas como deepfakes para criar vídeos falsos, intensificando o sofrimento das vítimas”, afirma.

Dados alarmantes revelam que uma em cada quatro mulheres acima de 16 anos sofreu algum tipo de violência no Brasil, totalizando cerca de 17 milhões de vítimas.

“A aprovação desse projeto representa um passo crucial na proteção das mulheres contra novas formas de agressão, garantindo que a Justiça acompanhe as inovações tecnológicas e puna com rigor aqueles que perpetram tais crimes. Seguimos firmes na construção de uma sociedade mais justa e segura para todas as mulheres”, diz.

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Leia também: 8 de Março: a verdadeira origem da data que celebra as mulheres https://lucianosiqueira.blogspot.com/2022/03/8-de-marco.html

Arte é vida

 

Milena Cavich