Da
república dos coronéis ao algoritmo
O voto não é um espelho
automático da economia, mas tampouco flutua acima dela. Expressa escolhas
individuais em uma sociedade atravessada por desigualdades, identidades,
interesses e expectativas em transformação
Marcio Pochmann/A Terra é Redonda
Nos 137
anos de existência da República brasileira, o voto percorreu diferentes
geografias, acompanhando as transformações do capitalismo no país.
Originalmente, a hegemonia das oligarquias agrárias expressou a importância dos
poderes locais até a passagem para a sociedade industrial, quando entre as
décadas de1930 e 1980 ocorreu a ascensão dos trabalhadores urbanos e da classe
média assalariada, sobretudo nas regiões litorâneas do sul-sudeste do país.
Desde os
anos de 1990, com a dominância do receituário neoliberal, a sociedade
industrial foi cedendo lugar por força da retomada do modelo econômico
primário-exportador compatível com o ineditismo da disseminação dos serviços
digitais por grande parte do território da nação. Para cada mudança profunda na
estrutura econômica nacional, pode-se constatar as consequências nas bases
sociais, territoriais e culturais da disputa pelo poder.
A
hipótese que orienta esta análise é que as mudanças no padrão de
desenvolvimento não transformam apenas a produção e o trabalho, pois
reorganizam também interesses, identidades, relações de poder e formas de
participação política. O Brasil dos coronéis, o Brasil das fábricas e o Brasil
das commodities conectadas às redes digitais correspondem a diferentes
configurações do capitalismo e a distintas geografias eleitorais.
Importante
ressaltar que a economia não determina mecanicamente o voto. Mas tampouco o
voto pode ser compreendido à margem das mudanças na distribuição da riqueza, na
organização do trabalho e na localização dos centros de dinamismo econômico.
Quando a economia muda de lugar, o poder pode mudar de mãos e as urnas se
tornam um dos espaços geográfico em que essa transformação se manifesta.
Do
coronel ao trabalhador industrial
Na
Primeira República, entre 1889 e 1930, a economia brasileira permanecia
fortemente vinculada à exportação de produtos primários, sobretudo o café. A
concentração da propriedade da terra e a influência das oligarquias estaduais
sustentavam relações de poder que restringiam a autonomia política de grande
parte da população. O coronelismo, o clientelismo e a manipulação eleitoral
faziam do voto um instrumento de reprodução das hierarquias locais.
Em Coronelismo,
enxada e voto, Victor Nunes Leal analisou como a estrutura agrária e as
relações de dependência entre proprietários e trabalhadores ajudavam a
converter poder econômico em influência eleitoral. A República aboliu a
exigência de renda para votar, mas manteve restrições importantes para mulheres
e analfabetos e outros grupos que permaneceram excluídos do eleitorado. A
proclamação do novo regime em substituição ao período monárquico não significou
a universalização da cidadania política.
A partir
da Revolução de 1930, a industrialização, urbanização e intervenção estatal começaram
a modificar essa estrutura pregressa. Entre as décadas de 1930 e 1980, milhões
de brasileiros migraram do campo para as cidades. Fábricas, comércio e serviços
urbanos ganharam importância, e o trabalhador assalariado tornou-se
protagonista de novas disputas sociais, especialmente nas regiões litorâneas do
sul-sudeste.
O
trabalhismo, os sindicatos e os movimentos populares expressaram a emergência
de interesses ligados ao emprego, aos salários, à previdência e aos direitos
sociais. Mais tarde, a reorganização sindical e as mobilizações urbanas
contribuíram para a formação de novas forças políticas, entre elas o Partido
dos Trabalhadores em pleno auge da sociedade urbana e industrial no país.
A
industrialização não produziu automaticamente a democracia. A ditadura
civil-militar demonstrou que a modernização econômica podia coexistir com a
repressão política. Ainda assim, a transformação produtiva alterou a composição
social do país e ampliou as bases para a organização coletiva dos trabalhadores
e a disputa por direitos.
Da
fábrica à plataforma digital
A partir
dos anos 1990, a abertura econômica, a reestruturação produtiva, a
financeirização e a expansão das tecnologias digitais modificaram o padrão de
desenvolvimento brasileiro. A indústria não desapareceu, mas perdeu
participação relativa, enquanto os serviços ampliaram sua presença na economia
e no emprego, o que comprometeu a antiga base social assentada nas classes
média assalariada e trabalhadora na manufatura.
A
fragmentação das relações laborais enfraqueceu parte das bases tradicionais de
organização coletiva. Trabalhadores informais, prestadores de serviços,
profissionais especializados, pequenos empreendedores e pessoas dependentes de
plataformas digitais passaram a compor um universo ocupacional heterogêneo. A
experiência comum da fábrica perdeu centralidade diante de formas mais
dispersas de inserção econômica, inclusive com o avanço de atividades
econômicas no próprio domicílio.
Ao mesmo
tempo, as plataformas digitais alteraram a circulação de informações e a
formação da opinião pública. Algoritmos, redes sociais e sistemas de
recomendação passaram a integrar o ambiente em que identidades políticas são
construídas e disputas eleitorais acontecem.
Mas a
economia digital não substituiu a produção material. Inteligência artificial,
satélites, automação, sistemas logísticos e plataformas financeiras também
transformam a mineração, a agricultura e a pecuária. O algoritmo conecta a
economia informacional à exploração de recursos naturais, à produção de
alimentos e à circulação global de mercadorias. E é nessa combinação entre alta
tecnologia, serviços digitais e exportação de produtos primários que emerge uma
das principais contradições do Brasil contemporâneo.
Enquanto
a indústria perdia dinamismo relativo, a mineração e a agropecuária ampliavam
sua importância econômica e territorial. A expansão dessas atividades
fortaleceu economias regionais, estimulou cidades do interior e aumentou a
demanda por energia, crédito, transportes, infraestrutura e serviços
especializados.
O sentido
de uma marcha para o Oeste ganhou um novo significado. Não se trata apenas de
ocupar terras e abrir estradas, mas de integrar territórios às cadeias globais
de extração, produção e exportação. A mineração conecta regiões brasileiras à
demanda internacional por recursos minerais, ao passo que a agricultura e
pecuária abastecem mercados externos com grãos, carnes e outros produtos.
Essas
atividades possuem dinâmicas próprias, mas compartilham a capacidade de
reorganizar o território, atrair investimentos e influenciar decisões sobre
infraestrutura, uso da terra e políticas públicas. Por conta disso, novos
centros de acumulação de riqueza e poder emergem no interior cada vez mais
vinculados aos mercados internacionais de commodities que correspondem
por parte crescente do dinamismo econômico nacional, outrora concentrado nas
metrópoles do litorâneas do Sul-Sudeste por conta da industrialização.
Isso não
representa simplesmente um retorno ao passado agrário. A produção mineral e
agropecuária contemporânea utiliza capital, conhecimento e tecnologias
avançadas. A questão é saber se essa modernização será acompanhada pela
complexidade, integração e diversificação da estrutura produtiva que permita agregação
de valor e criação de postos de trabalho de qualidade.
O
paradoxo brasileiro é modernizar a produção sem transformar, na mesma
intensidade, a estrutura produtiva. É possível utilizar inteligência artificial
e automação para ampliar a produção agropecuária e mineral sem desenvolver, na
mesma proporção, uma estrutura produtiova complexa, integrada e diversificada,
capaz de reduzir a dependência tecnológica externa.
Commodities e voto – uma nova geografia
eleitoral?
A
redistribuição territorial do dinamismo econômico suscita uma questão a
respeito da possível modificação da geografia do poder eleitoral no Brasil. O
resultado das eleições de 2026 apresenta diferenças entre municípios e regiões
que oferecem pistas para investigar essa relação. Territórios vinculados à
mineração e às cadeias agroexportadoras podem reunir interesses associados ao
crédito, à infraestrutura, à tributação, ao licenciamento ambiental, à
propriedade da terra e à regulação do trabalho. Em outros lugares, a renda do
trabalho, os serviços públicos e as políticas de proteção social podem ocupar
posição central nas preocupações da população.
Não há,
contudo, uma correspondência automática entre atividade econômica e preferência
política. Um município minerador ou agropecuário reúne trabalhadores,
empresários, agricultores familiares, comerciantes e servidores públicos com
interesses distintos. A predominância de determinado setor não determina o voto
de cada indivíduo, e uma coincidência territorial entre produção e resultado
eleitoral não comprova causalidade.
O que
importa, contudo, é investigar em que medida a expansão de certas atividades
favorece novas coalizões sociais, identidades políticas e formas de organização
dos interesses econômicos. A disputa não opõe simplesmente campo e cidade. Ela
envolve diferentes projetos de desenvolvimento e maneiras distinta de
distribuir os benefícios e os custos da atividade econômica.
A riqueza
mineral e agropecuária pode, por exemplo, financiar infraestrutura, ciência e
diversificação produtiva, mas também coexistir com concentração de renda,
conflitos territoriais e dependência de mercados externos. O mapa eleitoral,
portanto, pode ajudar a compreender como a transformação do capitalismo
reorganiza as forças sociais que disputam atualmente o Estado.
A mudança
da geografia econômica também repercute na cultura. A música sertaneja
consolidou-se como uma das grandes forças da indústria cultural brasileira,
acompanhando a projeção econômica e simbólica do interior.
O samba,
bossa nova e MPB contribuíram para projetar imaginários nacionais associados às
grandes cidades. A música sertaneja contemporânea, por sua vez, tornou-se uma
indústria conectada a plataformas digitais, grandes eventos, publicidade e
mercados consumidores de todo o país.
Não cabe
opor mecanicamente uma cultura progressista do litoral a outra conservadora do
interior. Os públicos são diversos, e as manifestações culturais não
correspondem a blocos políticos homogêneos. O relevante é perceber que a
transformação dos centros econômicos modifica mercados culturais, símbolos de
pertencimento e linguagens de identificação coletiva.
A cultura
não apenas reflete a economia, uma vez que participa da construção de
identidades e afinidades políticas. Quando novos territórios conquistam
centralidade econômica e cultural, ampliam sua capacidade de projetar
referências sobre o conjunto da sociedade.
Qual
Brasil chegou às urnas?
A
história eleitoral brasileira também integra a trajetória das transformações
das forças sociais que disputam o Estado. A sociedade agrária foi marcada pelo
poder das oligarquias rurais. A industrialização fortaleceu classes medias
assalariadas e trabalhadores urbanos, ampliando as disputas em torno dos
direitos sociais. A reestruturação produtiva, os serviços digitais e a expansão
das atividades primário-exportadoras acrescentam novas dimensões a essa
trajetória.
A questão
central é compreender como mineração, agronegócio, finanças e plataformas
digitais reorganizam os interesses econômicos, as relações sociais e as formas de
participação política. O desafio não é negar a importância desses setores, mas
investigar como sua riqueza e capacidade tecnológica podem contribuir para
diversificar a economia, ampliar oportunidades e reduzir desigualdades
territoriais.
O Brasil
pode articular recursos naturais, ciência, indústria e inovação em um projeto
de desenvolvimento que agregue valor à produção e amplie a inclusão social.
Também pode aprofundar uma inserção internacional concentrada na exportação de
produtos primários, mantendo dependências tecnológicas estratégicas.
Essas
alternativas envolvem escolhas econômicas e institucionais cujos efeitos
alcançam a distribuição da riqueza, as oportunidades de trabalho e a
organização dos interesses sociais. O voto não é um espelho automático da
economia, mas tampouco flutua acima dela. Expressa escolhas individuais em uma
sociedade atravessada por desigualdades, identidades, interesses e expectativas
em transformação.
A
pergunta, portanto, não é apenas quem conquista mais votos, mas como as
mudanças na produção, no trabalho, na cultura e no território redefinem as
condições em que os brasileiros formam suas escolhas políticas. Se a economia
agrária sustentou a República dos coronéis e a industrialização ajudou a
constituir o eleitor da sociedade urbana, quem está formando o eleitor da
sociedade digital e primário-exportadora?
Responder
a essa questão exige olhar para além das urnas. Precisa compreender o país que
a economia está construindo e a geografia de poder que essa transformação faz emergir
sob a ordem democrática em disputa.
*Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]
Mergulhar fundo para
avançar na superfície https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/11/meu-artigo-no-portal-da-fundacao.html

Nenhum comentário:
Postar um comentário