17 maio 2026

"Cavalo paraguaio"

Frágil como um vidro, como um beijo de novela
Flávio, o Breve, queima a largada e condena candidatura à eliminação precoce
João Cezar de Castro Rocha/Liberta     


Casa de vidro?

A campanha de Flávio Bolsonaro é tão autêntica quanto a dianteira inicial de um legítimo cavalo paraguaio. Passos ligeiros no princípio, fôlego curto a médio prazo, vergonha própria no final da carreira. Mas Flávio, o Breve, decidiu queimar a largada e sua candidatura deixará de ser realidade sem nunca ter sido efetivamente uma promessa. No máximo um suspiro, que Daniel Vorcaro, dinheiro na mão é vendaval, condenou à eliminação precoce.

(Ou não?)

Resgatemos a cronologia do naufrágio, antes que o tsunami do ecossistema de desinformação bolsonarista já não nos permita compreender coisa alguma.

No dia 13 de maio, pela manhã, um jornalista do Intercept Brasil colhe Flávio, o Breve, de baixa guarda e pergunta, como se desse bom dia: “Senador, por que o filme do seu pai foi bancado pelo Vorcaro?”. A linguagem corporal de Flávio, o Brevíssimo, tudo revela; desconcertado, reage no piloto automático: “É mentira”. Ao mesmo tempo, um instinto miliciano de sobrevivência sugere a pergunta-chave: “De onde você tirou isso?”. O repórter solta um petardo: há uma apuração em curso e mensagens do senador confirmam a tenebrosa transação.

(Seus filhos erravam cegos pelo continente.)

Ao contrário do que assegura o aforismo do filósofo Tiririca, no caso de Flávio, o Brevíssimo, o que já está pior, pode sempre piorar. Seis horas depois da negativa vacilante do senador, a reportagem do Intercept Brasil divulgou o áudio do diálogo fraterno e solidário entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Aqui, a rima é a trilha sonora da linda amizade que irmana o miliciano da política e o miliciano das finanças.

(Malandro é malandro, mané é mané.)

Fica muito pior

Pego com a boca ávida na botija e mão gulosa no bolso de Vorcaro, Flávio mudou de estratégia, mas somente se abismou ainda mais em seu Titanic eleitoral. Sim, admito, disse o Brevíssimo, solicitei recursos, privados, para um filme, igualmente privado. R$ 134 milhões no total, mas “só” recebi R$ 61 milhões. A militância se acalmou; na verdade, passou para a ofensiva. Viram, não foi nada demais! É assim que se faz em todo o mundo.

Mas a calmaria não durou nem mesmo as míticas 72 horas. Tentando ajudar, a produtora da película emitiu uma nota jurando que nem um centavo sequer de Vorcaro foi investido no filme. O dinheiro se perdeu no meio do caminho? R$ 61 milhões não foram pagos para Flávio Bolsonaro?

O dilema se agravou: onde está a fortuna que Vorcaro de fato doou? Nova frente de investigação da Polícia Federal: o dinheiro foi transferido para um fundo no Texas. Mas os recursos não se destinavam ao filme? Terão sido usados como uma rachadinha master?

Indiferente à arte, a campanha de Flávio, o Brevíssimo, pode ser ironicamente definida por meio de versos perfeitos de Belchior: “frágil como um vidro, como um beijo de novela”.

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