08 maio 2026

Celso Pinto de Melo opina

Galípoli e Ormuz: quando a geografia derrota a pressa
Estreitos não são apenas acidentes geográficos. São dispositivos estratégicos onde geografia, tempo e política se comprimem
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN     

 “A geografia não discute, ela impõe” (Napoleão Bonaparte)

Um estreito nunca é apenas um estreito.

A tentação de “resolver” gargalos estratégicos por meio de força direta acompanha a história das grandes potências. Em momentos de tensão, a ideia de assumir o controle de uma passagem crítica – hoje o Estreito de Ormuz – retorna com a promessa de restabelecer a ordem do fluxo: navios voltam a passar, mercados se acalmam, a normalidade é restituída.

O problema é que estreitos não são apenas acidentes geográficos. São dispositivos estratégicos onde a geografia, o tempo e a política se comprimem. E, quando comprimidos, costumam reagir.

Há pouco mais de um século, no contexto da Primeira Guerra Mundial, o Reino Unido e a França – com apoio posterior de forças do Império Britânico, incluindo tropas australianas e neozelandesas – tentaram abrir uma rota marítima até a Rússia czarista, então isolada pelo bloqueio alemão. O controle da passagem de Dardanelos, na atual Turquia, permitiria ligar o Mediterrâneo aos portos russos no mar Negro. O resultado foi a Campanha de Galípoli, um episódio que permanece como uma advertência [1].

A comparação com Ormuz revela, desde logo, um contraste geográfico relevante. Os Dardanelos constituem um estreito extremamente confinado, com largura variando entre cerca de 1 e 6 km, sinuoso e ladeado por uma topografia que se eleva nas margens. Já Ormuz é muito mais amplo – cerca de 33 km em seu ponto mais largo –, mas o tráfego internacional se concentra em canais navegáveis, com aproximadamente 3 km de largura, em cada direção. Portanto, em ambos os casos, o espaço efetivamente utilizável é estreito, previsível e, sobretudo, vulnerável [2].

A promessa de uma solução rápida 

O plano aliado, concebido no Almirantado britânico sob forte influência de Winston Churchill, então Primeiro Lorde do Almirantado, parecia simples no papel: atravessar o estreito por meio de um ataque naval decisivo, neutralizar as defesas otomanas e, se necessário, consolidar o controle por meio de uma operação anfíbia. A aposta era que o Império Otomano colapsaria rapidamente sob pressão [3].

A lógica não é estranha ao presente. Em cenários contemporâneos, o controle de Ormuz aparece, em certos discursos, como um mecanismo de estabilização: garantir o fluxo de petróleo – cerca de 20% do consumo global de líquidos de petróleo, algo entre 17 e 21 milhões de barris por dia –, reduzir a incerteza e sinalizar capacidade de projeção de poder geopolítico [2].

Em ambos os casos, há um elemento comum: a crença de que a superioridade material pode compensar a complexidade do terreno. 

Quando a geografia favorece o defensor

Galípoli demonstrou o contrário. Nos Dardanelos, o estreitamento do canal, combinado com o terreno elevado, campos minados e a artilharia costeira, transformou a passagem em um corredor de alto risco.

Um elemento particularmente revelador foi o uso de minas navais pelo Império Otomano, inclusive por meio do minador Nusret – um navio de pequeno porte que, ao lançar discretamente cerca de 20 minas em uma linha paralela à costa em março de 1915, alterou decisivamente o curso da campanha naval [4]. A relevância do episódio está no que ele simboliza: meios simples, adequadamente empregados, podem neutralizar plataformas bem mais sofisticadas. 

O resultado foi contundente. Em 18 de março de 1915, três couraçados aliados – os britânicos HMS Irresistible e HMS Ocean e o francês Bouvet – foram afundados, e outros mais seriamente danificados, forçando a suspensão do ataque naval [1].

Ao longo de quase nove meses de campanha (abril de 1915 a janeiro de 1916), as forças invasoras sofreram mais de 250 mil baixas, enquanto o Império Otomano registrou número semelhante, entre 250 e 300 mil mortos ou feridos [5]. As perdas logísticas e de equipamentos também foram expressivas: além dos navios perdidos, grandes quantidades de material militar tiveram de ser abandonadas durante a retirada final. O impacto na opinião pública foi profundo, sobretudo no Reino Unido e em seus domínios imperiais, onde a campanha passou a simbolizar planejamento deficiente e sacrifício inútil.

O episódio revelou um princípio que se repete: em espaços confinados, o custo marginal da defesa tende a ser bem menor que o da ofensiva.

Ormuz, embora mais largo, apresenta uma lógica semelhante. O tráfego é canalizado, os navios seguem rotas previsíveis e a proximidade da costa permite que meios relativamente baratos – mísseis antinavio, minas navais e drones – imponham risco elevado. A diferença é que hoje não é necessário impedir totalmente a passagem. Basta torná-la incerta.

A armadilha do tempo

Se a geografia impôs limites, foi o tempo que selou o destino da campanha. O plano aliado pressupunha uma operação rápida, com uma ruptura decisiva. Ao encontrar resistência, a campanha se prolongou por meses de operações contínuas, perdeu o elemento surpresa e se transformou em guerra de atrito – exatamente o cenário que se buscava evitar (FROMKIN, 1989) [3]. 

Aqui está uma das lições mais importantes para qualquer análise contemporânea: controlar um estreito não é um evento; é um processo contínuo.

Forçar a passagem pode ser difícil. Mantê-la aberta, sob contestação permanente, é ainda mais.

No caso de Ormuz, essa dimensão temporal se torna central. Garantir a navegação implicaria presença constante, escolta de comboios, operações repetidas de desminagem e vigilância permanente – um compromisso potencialmente longo em um ambiente hostil. Enquanto isso, o oponente não precisa vencer em termos convencionais. Precisa apenas interromper, de forma episódica, o fluxo, elevando os custos e as incertezas.

Do campo de batalha ao campo político

O fracasso em Galípoli teve consequências que ultrapassaram o plano militar. Winston Churchill foi afastado do Almirantado e viu sua carreira política sofrer um revés significativo, optando posteriormente por servir no front ocidental, onde assumiu o comando de um batalhão. A campanha também expôs falhas no alto comando britânico e contribuiu para o aumento das tensões entre as lideranças civis e militares [1].

Mais do que um episódio individual, Galípoli ilustra um padrão recorrente: decisões estratégicas em ambientes de alta incerteza podem rapidamente se converter em passivos políticos. 

Em um cenário contemporâneo envolvendo os Estados Unidos, uma intervenção em Ormuz teria efeitos que transbordariam o campo estritamente militar. O estreito é responsável por cerca de 20% do fluxo global de petróleo e por aproximadamente 25% do comércio mundial de gás natural liquefeito (GNL) [6]. Uma perturbação prolongada tenderia a elevar os preços da energia, pressionar as cadeias industriais e comprometer o escoamento de insumos críticos – como os fertilizantes, cuja produção depende fortemente do gás natural – que transitam por Ormuz [7].

Além disso, a proximidade com os países do Conselho de Cooperação do Golfo – Conselho de Cooperação do Golfo, formado por Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Omã e Bahrein – implica risco direto à infraestrutura energética regional – refinarias, terminais portuários e instalações de exportação –, bem como a infraestruturas civis críticas, como as usinas de dessalinização, essenciais para o abastecimento de água em vários desses países. Um conflito ampliado poderia provocar danos severos a esse conjunto de ativos, com efeitos duradouros sobre a economia global.

Do ponto de vista político, três cenários ajudam a enquadrar o problema. Uma vitória rápida exigiria neutralização quase imediata das capacidades iranianas de negação de área – algo cuja probabilidade de sucesso parece limitada, dado o histórico recente. Uma operação prolongada implicaria custos crescentes e desgaste político, potencialmente por meses ou anos. Já um fracasso rápido – com perdas iniciais ou incapacidade de garantir o fluxo – teria impacto imediato sobre a credibilidade da liderança geopolítica dos EUA, amplificado pela velocidade de resposta dos mercados e pela rapidez na disseminação das informações. 

Estreitos como sistemas, não como pontos

Talvez a principal diferença entre 1915 e o presente esteja na natureza do sistema em jogo. Nos Dardanelos, o objetivo era abrir uma rota específica. Em Ormuz, o que está em questão é um nó de uma rede global altamente interdependente.

Intervenções em um ponto irradiam efeitos ao longo de toda a economia internacional. Pressionam os preços de energia, elevam os custos logísticos, desorganizam as cadeias industriais e alteram as expectativas financeiras em tempo real. O estreito deixa de ser apenas um local – e passa a ser um mecanismo de transmissão de choques. 

A lição que permanece

Galípoli não foi apenas um erro de execução. Foi um erro de avaliação: da geografia, do adversário e, sobretudo, do tempo necessário para transformar força em resultado. Ormuz não é Galípoli – mas carrega a mesma advertência: em estreitos, a vantagem não está em quem avança, mas em quem consegue negar o fluxo.

A tentação de “resolver” gargalos estratégicos por meio de ação direta persiste porque a alternativa – gerir a complexidade – é menos visível e exige um horizonte de tempo mais longo. Mas a história sugere que, em certos contextos, a busca por soluções rápidas pode produzir exatamente o efeito oposto.

Em estreitos, a geografia raramente concede atalhos.

E, quando ignorada, ela não apenas resiste – ela cobra. Com juros.

Bibliografia

1.    Strachan, H., The First World War. Volume I: To Arms. 2001, Oxford; New York: Oxford University Press.

2.    US Energy Information Administration, EIA, World Oil Transit Chokepoints. 2023. World Oil Transit Chokepoints. Washington, DC, 2023. https://www.eia.gov/international/analysis/special-topics/World_Oil_Transit_Chokepoints.

3.    Fromkin, D., Paz e guerra no Oriente Médio: a queda do Império Otomano e a criação do Oriente Médio moderno. 2011, Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército; Contraponto.
4.    Keegan, J., The First World War. 1998, New York: Alfred A. Knopf. ISBN: 978-0-375-40052-8.

5.    Broadbent, H., Gallipoli: The Fatal Shore. 2005, Camberwell: Viking. ISBN: 978-0-670-04085-6.

6.    International Energy Agency, World Energy Outlook 2022. 2022, IEA: Paris. ISBN: 978-92-64-44923-7. https://www.iea.org/reports/world-energy-outlook-2022. 7.         Food and Agriculture Organization, The State of Food and Agriculture 2023: Revealing the True Cost of Food to Transform Agrifood Systems. 2023, FAO: Rome. ISBN: 978-92-5-138167-0.  https://www.fao.org/publications/sofa/2023/en/.

Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.


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