Galípoli e Ormuz: quando a geografia derrota a
pressa
Estreitos não são apenas acidentes geográficos. São
dispositivos estratégicos onde geografia, tempo e política se comprimem
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN
“A geografia não discute, ela impõe” (Napoleão Bonaparte)
Um estreito nunca é apenas um estreito.
A tentação de “resolver” gargalos estratégicos por meio de força direta
acompanha a história das grandes potências. Em momentos de tensão, a ideia de
assumir o controle de uma passagem crítica – hoje o Estreito de Ormuz – retorna
com a promessa de restabelecer a ordem do fluxo: navios voltam a passar,
mercados se acalmam, a normalidade é restituída.
O problema é que estreitos não são apenas acidentes geográficos. São
dispositivos estratégicos onde a geografia, o tempo e a política se comprimem.
E, quando comprimidos, costumam reagir.
Há pouco mais de um século, no contexto da Primeira Guerra Mundial, o
Reino Unido e a França – com apoio posterior de forças do Império Britânico,
incluindo tropas australianas e neozelandesas – tentaram abrir uma rota
marítima até a Rússia czarista, então isolada pelo bloqueio alemão. O controle
da passagem de Dardanelos, na atual Turquia, permitiria ligar o Mediterrâneo
aos portos russos no mar Negro. O resultado foi a Campanha de Galípoli, um
episódio que permanece como uma advertência [1].
A comparação com Ormuz revela, desde logo, um contraste geográfico
relevante. Os Dardanelos constituem um estreito extremamente confinado, com
largura variando entre cerca de 1 e 6 km, sinuoso e ladeado por uma topografia
que se eleva nas margens. Já Ormuz é muito mais amplo – cerca de 33 km em seu
ponto mais largo –, mas o tráfego internacional se concentra em canais
navegáveis, com aproximadamente 3 km de largura, em cada direção. Portanto, em ambos
os casos, o espaço efetivamente utilizável é estreito, previsível e, sobretudo,
vulnerável [2].
A promessa de uma solução rápida
O plano aliado, concebido no Almirantado britânico sob forte influência
de Winston Churchill, então Primeiro Lorde do Almirantado, parecia simples no
papel: atravessar o estreito por meio de um ataque naval decisivo, neutralizar
as defesas otomanas e, se necessário, consolidar o controle por meio de uma
operação anfíbia. A aposta era que o Império Otomano colapsaria rapidamente sob
pressão [3].
A lógica não é estranha ao presente. Em cenários contemporâneos, o
controle de Ormuz aparece, em certos discursos, como um mecanismo de
estabilização: garantir o fluxo de petróleo – cerca de 20% do consumo global de
líquidos de petróleo, algo entre 17 e 21 milhões de barris por dia –, reduzir a
incerteza e sinalizar capacidade de projeção de poder geopolítico [2].
Em ambos os casos, há um elemento comum: a crença de que a superioridade
material pode compensar a complexidade do terreno.
Quando a geografia favorece o defensor
Galípoli demonstrou o contrário. Nos Dardanelos, o estreitamento do
canal, combinado com o terreno elevado, campos minados e a artilharia costeira,
transformou a passagem em um corredor de alto risco.
Um elemento particularmente revelador foi o uso de minas navais pelo
Império Otomano, inclusive por meio do minador Nusret – um navio de pequeno
porte que, ao lançar discretamente cerca de 20 minas em uma linha paralela à
costa em março de 1915, alterou decisivamente o curso da campanha naval [4]. A
relevância do episódio está no que ele simboliza: meios simples, adequadamente
empregados, podem neutralizar plataformas bem mais sofisticadas.
O resultado foi contundente. Em 18 de março de 1915, três couraçados
aliados – os britânicos HMS Irresistible e HMS Ocean e o francês Bouvet – foram
afundados, e outros mais seriamente danificados, forçando a suspensão do ataque
naval [1].
Ao longo de quase nove meses de campanha (abril de 1915 a janeiro de
1916), as forças invasoras sofreram mais de 250 mil baixas, enquanto o Império
Otomano registrou número semelhante, entre 250 e 300 mil mortos ou feridos [5].
As perdas logísticas e de equipamentos também foram expressivas: além dos
navios perdidos, grandes quantidades de material militar tiveram de ser
abandonadas durante a retirada final. O impacto na opinião pública foi
profundo, sobretudo no Reino Unido e em seus domínios imperiais, onde a
campanha passou a simbolizar planejamento deficiente e sacrifício inútil.
O episódio revelou um princípio que se repete: em espaços confinados, o
custo marginal da defesa tende a ser bem menor que o da ofensiva.
Ormuz, embora mais largo, apresenta uma lógica semelhante. O tráfego é
canalizado, os navios seguem rotas previsíveis e a proximidade da costa permite
que meios relativamente baratos – mísseis antinavio, minas navais e drones –
imponham risco elevado. A diferença é que hoje não é necessário impedir
totalmente a passagem. Basta torná-la incerta.
A armadilha do tempo
Se a geografia impôs limites, foi o tempo que selou o destino da
campanha. O plano aliado pressupunha uma operação rápida, com uma ruptura
decisiva. Ao encontrar resistência, a campanha se prolongou por meses de
operações contínuas, perdeu o elemento surpresa e se transformou em guerra de
atrito – exatamente o cenário que se buscava evitar (FROMKIN, 1989) [3].
Aqui está uma das lições mais importantes para qualquer análise
contemporânea: controlar um estreito não é um evento; é um processo contínuo.
Forçar a passagem pode ser difícil. Mantê-la aberta, sob contestação
permanente, é ainda mais.
No caso de Ormuz, essa dimensão temporal se torna central. Garantir a
navegação implicaria presença constante, escolta de comboios, operações
repetidas de desminagem e vigilância permanente – um compromisso potencialmente
longo em um ambiente hostil. Enquanto isso, o oponente não precisa vencer em
termos convencionais. Precisa apenas interromper, de forma episódica, o fluxo,
elevando os custos e as incertezas.
Do campo de batalha ao campo político
O fracasso em Galípoli teve consequências que ultrapassaram o plano
militar. Winston Churchill foi afastado do Almirantado e viu sua carreira
política sofrer um revés significativo, optando posteriormente por servir no
front ocidental, onde assumiu o comando de um batalhão. A campanha também expôs
falhas no alto comando britânico e contribuiu para o aumento das tensões entre
as lideranças civis e militares [1].
Mais do que um episódio individual, Galípoli ilustra um padrão
recorrente: decisões estratégicas em ambientes de alta incerteza podem
rapidamente se converter em passivos políticos.
Em um cenário contemporâneo envolvendo os Estados Unidos, uma
intervenção em Ormuz teria efeitos que transbordariam o campo estritamente
militar. O estreito é responsável por cerca de 20% do fluxo global de petróleo
e por aproximadamente 25% do comércio mundial de gás natural liquefeito (GNL)
[6]. Uma perturbação prolongada tenderia a elevar os preços da energia,
pressionar as cadeias industriais e comprometer o escoamento de insumos
críticos – como os fertilizantes, cuja produção depende fortemente do gás natural
– que transitam por Ormuz [7].
Além disso, a proximidade com os países do Conselho de Cooperação do
Golfo – Conselho de Cooperação do Golfo, formado por Arábia Saudita, Emirados
Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Omã e Bahrein – implica risco direto à infraestrutura
energética regional – refinarias, terminais portuários e instalações de
exportação –, bem como a infraestruturas civis críticas, como as usinas de
dessalinização, essenciais para o abastecimento de água em vários desses
países. Um conflito ampliado poderia provocar danos severos a esse conjunto de
ativos, com efeitos duradouros sobre a economia global.
Do ponto de vista político, três cenários ajudam a enquadrar o problema.
Uma vitória rápida exigiria neutralização quase imediata das capacidades
iranianas de negação de área – algo cuja probabilidade de sucesso parece
limitada, dado o histórico recente. Uma operação prolongada implicaria custos
crescentes e desgaste político, potencialmente por meses ou anos. Já um
fracasso rápido – com perdas iniciais ou incapacidade de garantir o fluxo –
teria impacto imediato sobre a credibilidade da liderança geopolítica dos EUA,
amplificado pela velocidade de resposta dos mercados e pela rapidez na
disseminação das informações.
Estreitos como sistemas, não como pontos
Talvez a principal diferença entre 1915 e o presente esteja na natureza
do sistema em jogo. Nos Dardanelos, o objetivo era abrir uma rota específica.
Em Ormuz, o que está em questão é um nó de uma rede global altamente
interdependente.
Intervenções em um ponto irradiam efeitos ao longo de toda a economia
internacional. Pressionam os preços de energia, elevam os custos logísticos,
desorganizam as cadeias industriais e alteram as expectativas financeiras em
tempo real. O estreito deixa de ser apenas um local – e passa a ser um
mecanismo de transmissão de choques.
A lição que permanece
Galípoli não foi apenas um erro de execução. Foi um erro de avaliação:
da geografia, do adversário e, sobretudo, do tempo necessário para transformar
força em resultado. Ormuz não é Galípoli – mas carrega a mesma advertência: em
estreitos, a vantagem não está em quem avança, mas em quem consegue negar o
fluxo.
A tentação de “resolver” gargalos estratégicos por meio de ação direta
persiste porque a alternativa – gerir a complexidade – é menos visível e exige
um horizonte de tempo mais longo. Mas a história sugere que, em certos
contextos, a busca por soluções rápidas pode produzir exatamente o efeito
oposto.
Em estreitos, a geografia raramente concede atalhos.
E, quando ignorada, ela não apenas resiste – ela cobra. Com juros.
Bibliografia
1. Strachan,
H., The First World War. Volume I: To Arms. 2001, Oxford; New York:
Oxford University Press.
2. US Energy
Information Administration, EIA, World Oil Transit Chokepoints. 2023.
World Oil Transit Chokepoints. Washington, DC, 2023. https://www.eia.gov/international/analysis/special-topics/World_Oil_Transit_Chokepoints.
3. Fromkin, D., Paz
e guerra no Oriente Médio: a queda do Império Otomano e a criação do Oriente
Médio moderno. 2011, Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército; Contraponto.
4. Keegan, J., The First World War. 1998, New
York: Alfred A. Knopf. ISBN: 978-0-375-40052-8.
5. Broadbent,
H., Gallipoli: The Fatal Shore. 2005, Camberwell: Viking. ISBN:
978-0-670-04085-6.
6. International
Energy Agency, World Energy Outlook 2022. 2022, IEA: Paris. ISBN:
978-92-64-44923-7. https://www.iea.org/reports/world-energy-outlook-2022.
7. Food and Agriculture
Organization, The State of Food and Agriculture 2023: Revealing the
True Cost of Food to Transform Agrifood Systems. 2023, FAO: Rome. ISBN:
978-92-5-138167-0. https://www.fao.org/publications/sofa/2023/en/.
Celso Pinto de Melo – Professor Titular
Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de
Ciências.
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Guerra no Irã, petróleo e crise energética https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/eua-x-ira-crise-energetica.html

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