Comandos e desmandos da inteligência
artificial
A simulação algorítmica do pensamento e a concentração de
poder nas grandes corporações convertem a intimidade em mercadoria e ameaçam a
autonomia cognitiva da sociedade
Manfred Back & Luiz
Gonzaga Belluzzo*/A Terra é Redonda
“A tirania da inteligência artificial preside ao nascimento de uma besteira desconhecida até agora – a estupidez artificial – espalhada por toda parte, nas telas e redes informáticas. Então a besteira natural pode ganhar nobreza, como loucura” (Jean Baudrillard).
1.
Inteligência
artificial x artificial inteligência, eis a questão, diria Hamlet! Seria a
destruição criadora ou a destruição destruidora? Diria Schumpeter. No artigo,
“Máquinas de computação e inteligência”, Alan Turing em 1950, fez um teste, criou
uma máquina para verificar se a inteligência das máquinas seria equivalente a
inteligência humana. Testou se a inteligência dita artificial, é inteligência
ou não.
Alan
Turing faz uma premonição: Acredito que a pergunta original, “as máquinas podem
pensar?”, é insignificante demais para merecer discussão. No entanto, acredito
que, no final do século, o uso das palavras e a opinião geral das pessoas
instruídas terão mudado tanto que será possível falar de máquinas pensantes sem
esperar ser contrariado.
Esse
momento chegou, qualquer análise rigorosa e crítica sobre as causas e
consequências da inteligência artificial na vida, comportamento e pensamento
das pessoas, não pode ser contrariada. O que chamou de Jogo da Imitação, hoje
seria modelo LLM (Large Language Models)! Imitar é diferente de
pensar, para isso gasta-se trilhões de dólares em armazenamento de dados e
informações, consumindo energia e água. Para que? Melhorar a capacidade de
imitar, não de pensar, artificial intelligence.
Entre
o final de 2025 e meados de 2026, a Amazon captou 15 bilhões de dólares em
títulos de crédito privado, a Open IA captou 122 bilhões de dólares, Google 32
bilhões de dólares e Oracle cerca de 45 bilhões de dólares. Uma transferência
brutal de recursos de investidores no setor de inteligência artificial. Quantos
empregos criaram? Quantos empregos destruíram? Nesse jogo da imitação de
trilhões de dólares, a facilidade cobrará seu preço, não aos donos do Vale do
Silício, mas aos pobres mortais.
O
avanço de rotinas e atendimentos mais rápidos, escondem o monopólio de dados,
ou melhor, a intimidade das pessoas. Tudo vira dado, dado vira comodity,
que vira dinheiro, que vira controle, que vira poder. Ninguém escapa.
Evgeny
Morozov, doutor em história da ciência pela Universidade de Harvard, grande
pesquisador e crítico do poder do Vale do Silício, no seu grande e importante
livro Big
Tech, a ascensão dos dados e a morte da política, faz um alerta,
sobre o poder de vigilância das corporações.
“A
tecnologia digital da atualidade, ficou evidente, não é apenas ciência
aplicada, como ainda sustentam as filosofias mais vulgares da tecnologia. Ela
é, na verdade, um emaranhado confuso de geopolítica, finança global, consumismo
desenfreado e acelerada apropriação corporativa dos nossos relacionamentos mais
íntimos (…) Nossa sociedade digital, quaisquer que sejam suas falhas, não é a
causa do mundo em que vivemos, e sim consequência dele”. (Evgeny Morozov).
2.
Quanto
mais acumula dados e dinheiro, mais você deixa de pensar, basta consultar a inteligência
artificial, e assim vai, recorrentemente. Você colabora de graça aos
algoritmos, vendendo de graça seus dados, seu pensamento, suas emoções e
desejos. Sem perceber, passa não usar seus neurônios, como não pensa, não usa
energia cerebral. Você se torna uma artificial inteligência, porque terceiriza
todo seu ser a um banco de dados. Quem é a máquina? Quem imita quem?
Nos
alerta, Maryanne Wolf, professora da UCLA, Diretora do Centro de Dislexia,
Alunos Diversos: “o ato de ler acrescentou um circuito inteiramente novo ao
repertório do nosso cérebro de hominídeos longo processo evolutivo de aprender
a ler bem e em profundidade mudou nada menos que a estrutura de conexões desse
circuito, e isso fez bem com que mudassem as conexões do cérebro, com a consequência
de transformar a natureza do pensamento humano”.
Onde
o cérebro gasta mais energia e conexões, está no ato de ler e pensar, e depois
escrever no papel. Esse é o movimento da inteligência. Ao digitar e consultar a
inteligência artificial, seria a morte da inteligência. Diz o ditado popular:
criar dificuldades para vender facilidades. A inteligência artificial facilita
a obstrução do pensamento.
No
livro How
Big-Tech barons smash innovation – and how to strike back, Ariel
Ezrachi trata das consequências sociais e políticas do domínio das BigTechs: “A
utopia tecnológica intensa dos anos 1990 agora parece uma distopia, em que
muitos dispositivos, aplicativos e serviços vêm de ecossistemas digitais
controlados por poucas empresas poderosas (que chamamos de “barões da
tecnologia”). Pense, por exemplo, na Alphabet (Google), Apple, Meta (Facebook),
Amazon e Microsoft (GAFAM para abreviar)”.
“Esses
barões da tecnologia não apenas governam a concorrência dentro de seus
ecossistemas rigidamente controlados por eles, mas também determinam a natureza
da inovação que chega ao mercado. E para proteger seus interesses, eles
garantem avançar e permitir inovação apenas que não atrapalhe seus modelos de
negócios e lucros”.
Pedimos
licença para recorrer a Karl Marx. Nos Grundrisse, Marx argumenta
que “o desenvolvimento do capital fixo indica o grau em que o conhecimento
social se tornou uma força direta de produção e em que medida, portanto, o
processo da vida social foi colocado sob o controle do General
Intellect e passou a ser transformado de acordo com ele”.
O
conceito de “capital fixo” em Marx envolve, portanto, um potencial inesgotável
de avanço tecnológico, o que implica necessariamente a criação de aparatos
educacionais e científicos institucionalmente articulados.
O General
Intellect institui-se como forma de apropriação dos
significados do conhecimento humano, em particular dos códigos da ciência. O
capital toma para seus propósitos a educação, cujos métodos e objetivos são
ajustados aos requerimentos da aceleração da valorização do capital e da
desvalorização do trabalho, no mesmo movimento em que impõe critérios de
qualificação dos trabalhadores cada vez mais exclusivos e “excludentes”.
As
condições de produção e de sobrevivência escapam cada vez mais ao controle dos
cidadãos e os submetem aos seus movimentos. A automação crescente do processo
de trabalho e a tendência à concentração e centralização das forças produtivas
assumem diretamente, em sua forma material, o automatismo da acumulação,
determinando o “empobrecimento” e a submissão da subjetividade dos indivíduos
“livres” e de seu mundo da vida.
*Manfred Back é graduado em
economia pela PUC –SP e mestre em administração pública pela FGV-SP.
*Luiz
Gonzaga Belluzzo,
economista, é Professor Emérito da Unicamp. Autor entre outros livros, de O
tempo de Keynes nos tempos do capitalismo (Contracorrente). [https://amzn.to/45ZBh4D]
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