07 julho 2026

Enio Lins opina

Merece ser comemorada a independência dos Estados Unidos?
Enio Lins      

HÁ TRÊS DIAS completaram-se 250 anos dos Estados Unidos como país independente. Marco na história, um salto revolucionário. A reverência ao 4 de julho, entretanto, não pode ser traduzida como subserviência, muito menos idolatria a tudo da paradoxal trajetória das 13 colônias inglesas que ousaram sacudir a si e ao resto do mundo.

NOS CURSOS DE MARXISMO, 
antanho, era ensinado que o Mundo Moderno foi parido por três grandes revoluções: Revolução Industrial Inglesa (1760–1840), Independência dos Estados Unidos (1776), Revolução Francesa (1789). Esse trio de acontecimentos tremendos foram a pá de cal no moribundo feudalismo, que durou cerca de mil dolorosos anos, imperando na Europa, e de lá se espalhando, entre os séculos V e XV. Nos anos 1300, o Renascimento marcou uma etapa intermediária até os anos 1600, aliviando o obscurantismo medieval, mas sem mudar o mundo nem interromper a exportação das velharias através do Colonialismo. A independência dos Estados Unidos trincou esse modelo em 4 de julho de 1776.

KARL MARX COMPAROU,
 em 1867, no prefácio da primeira edição de O Capital, o significado da independência dos Estados Unidos ao papel da Revolução Francesa. Antes, durante a guerra civil americana (de 1861 a 1865), Marx publicou vários artigos – no estadunidense New York Daily Tribune, no austríaco Die Presse, e nos boletins da I Internacional – defendendo firmemente o lado nortista e o fim da escravidão como o complemento necessário ao avanço iniciado pela independência estadunidense, salientando a importância disso para a emancipação dos trabalhadores em todo planeta. Saliente-se que a velha e má Inglaterra – de quem os Estados Unidos se libertaram mantendo a escravidão como um de seus pilares econômicos – proibiu o proibiu o comércio de escravizados em 1807 e aboliu a escravatura no seu vasto império, em 1833. Os americanos precisaram de uma carnificina interna, a Guerra Civil, para libertarem sua economia da escravidão humana, mas jamais eliminaram completamente de seus corações, mentes e bolsos a discriminação racial e a superexploração do trabalho. Marx estava certo na tese da revolução incompleta, mas morreu sem ver que os Estados Unidos se transformariam num país escravizador de outros países.

FORAM REVOLUCIONÁRIAS 
as instituições criadas pela Independência Americana: a República moderna e a eleição de um presidente, a divisão dos poderes entre Executivo, Legislativo e Judiciário (repartição aperfeiçoada pela Revolução Francesa), etc. Mas esses avanços de 1776 não evoluíram, atrofiaram-se. Metamorfosearam-se em reacionários. A Suprema Corte permite-se cada vez mais à manipulação pelo conservadorismo ianque, revertendo conquistas sociais importantes; e – incrivelmente – passou a ser tolerante com golpes de Estado contra o próprio regime democrático estadunidense! O processo eleitoral estagnou-se numa balbúrdia de leis estaduais em que a fraude encontra fáceis caminhos para subverter o voto direto. A Casa Branca avança como superpoder, cristalizando o autoritarismo de quem possa alcançar a presidência, como Donald Trump, oligarca que dispensa discursos melosos para disfarçar corrupções, violências e o mais deslavado terrorismo – desde que justificado pela bandeira MAGA (Faça a América Grande de Novo). A nação americana fez uma revolução para se libertar da opressão e predação do imperialismo inglês, mas se transformou num país imperialista, opressor, agressor, predador, saqueador... Merece sua independência ser comemorada?

MERECE SER CANTADA 
a Independência dos Estados Unidos. Sim. E a melhor forma é lutando, 250 anos depois, para se tornar independente dos Estados Unidos. Viva 4 de julho de 1776! Cantemos com o cubano Carlos Puebla: Yankees Go Home! Ouça-o em 
https://www.youtube.com/watch?v=ulA4ujWrshk

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