Brasil Bom de Bozo – 4
Entre dólares, incêndios, bajulação e impunidade, o General Bozo explica
sua cartilha de poder: os crimes são dos patriotas, as vítimas são culpadas e a
culpa é sempre de Lula — até que a Polícia Federal bate à porta
Urariano Mota/Vermelho
Mesmo
cenário de antes dos episódios anteriores.
Escritório com
imagens da Casa Branca. Bandeiras dos Estados Unidos e do Brasil
General
Bozo com estrelas, boné e faixa verde-amarela onde se lê “Pátria da
Milícia Ilimitada”.
Personagens: General
Bozo, Cavalo, Burro, Pessoas vestidas com fantasias
de animais, Repórter e Fotógrafo.
Repórter –
General… Desculpe. Grande presidente: agora estão dizendo que o senhor mandou
queimar a Universidade Federal de Pernambuco.
General
Bozo – Eu?! Tudo que é bom agora dizem que fui eu.
Burro –
Não é, presidente?
Cavalo –
Foram os responsáveis por sua vitória?
General
Bozo – O responsável por meus votos sou eu. Quase, porque sem a ajuda do
meu presidente Trump eu estava fodido. Como ia conseguir tantos votos
sem dólares?
Repórter
– Foram muitos dólares, presidente?
General
Bozo – Sim. Mas pra quantidade de votos que eu tive, se fosse comprar
um por um, só a maior fortuna do mundo podia pagar.
Repórter
– Quantos bilhões de dólares? Quantos trilhões?
General
Bozo – Tá querendo saber demais. Mas saiba que muita gente se vende
baratinho. Aqui, quanto você recebeu por esta entrevista?
Repórter
– Eu? É o meu patrão quem me paga.
General
Bozo – Mas quem paga o seu patrão é Trump. Se ele fosse pagar tudo aqui,
ele ia ter que parar a guerra no Irã.
Repórter
– Então, como se explica?
General
Bozo – Tem gente que se vende sem eu pagar. Muitos pobres votam em mim sem que
eu pague a eles.
Repórter
– Como, Presidente?
General
Bozo – Eles acreditam no que eu falo. O Brasil é terra de cabeça de
escravo, sabia? Todo pobre pensa que vai virar Senhor. E Lula divulga que é a
favor dos pobres… cagão. Ninguém quer ser pobre, ninguém se acha
pobre. Logo, se Lula é a favor dos pobres, todos que se acham melhores que
isso ficam comigo. Votam em mim os ricos de quem sabe um dia talvez. (Gargalha)
Burro
zurra. Cavalo relincha.
Vozes –
Que inteligência!
General
Bozo – Eu sou modesto. Nem tudo que é bom foi feito por mim.
Repórter
– Botar fogo nas universidades é uma coisa boa?
General
Bozo – Claro! Mas eu não fui lá no Recife pra botar fogo na Universidade,
entende?
Repórter
– O senhor não foi. Mandou seus terroristas tocarem fogo?
General
Bozo – Alto lá! Quem é você?
Repórter
– Perdão, General. Algum vírus comunista entrou na minha garganta.
General
Bozo – Ah, mate esse vírus ou mato você. O que aconteceu: os meus
patriotas foram para a universidade e tocaram fogo.
Repórter
– Então o senhor mandou os seus patriotas?
General
Bozo – Claro! Claro como o fogo na noite. O fogo é belo. Eu
mandei. Mas os meus patriotas têm liberdade de cometer qualquer coisa,
qualquer crime. Eles ligam pra mim: “Presidente, fazemos?”. Eu
respondo: “Façam agora mesmo”. Eles fazem.
Burro e
Cavalo juntos: – Autoridade é autoridade.
General
Bozo (orgulhoso) – Eu mando matar, eles matam. Eu mando incendiar, eles
incendeiam. Mas não sou eu que boto o fogo e atiro.
Repórter
– São os patriotas.
General
Bozo – Olha, na verdade, não são nem os meus patriotas. São os que morrem e se
queimam os culpados.
Repórter
– Os que morrem cometem suicídio, presidente?
General
Bozo – Sim! O grande Cabo Anselmo, que entregou Soledad grávida para a
morte, já respondeu por mim. E como ele, eu digo: não sou eu
que mando matar. É a vida deles e delas que é culpada. Eles
próprios são os culpados. Não provocam a nossa fúria? Não querem a
igualdade social? Então não reclamem. Eles são os responsáveis pelo fim das
suas vidas.
Vozes –
Que inteligência!
Repórter
– Mas se uma denúncia contra o senhor cair no Supremo Tribunal
Federal ou no Tribunal Superior Eleitoral?
General
Bozo (gargalha) – Contra mim?
Vozes –
Esse repórter é do contra?
General
Bozo – Eu tenho os meus cupinchas lá. Eles não deixam qualquer denúncia
contra mim avançar. ( E se vira exibindo o traseiro) Em mim
nada pega!
Repórter
– Presidente, e se a imprensa de esquerda denunciar um crime patriota, isso não
pode ir longe?
General
Bozo – Essa imprensa de esquerda não é a Rede Globo. Ela não é O Globo, a Folha
de São Paulo. A grande que é grande está ao meu lado. E a televisão, que faz a
cabeça do povo, é nossa.
Repórter
– Presidente, de vez em quando, uma denúncia consegue aparecer na televisão…
General
Bozo – Quando cresce alguma coisa contra mim, eu respondo torcendo a
acusação para o outro lado. Me acusam de roubo? Respondo, Lula é ladrão! Nem
preciso provar, acreditam de primeira. A televisão exibe um tempo maior para o
meu ataque. É bem simples.
Repórter
– O senhor não tem medo de nada, não é?
General
Bozo – Não. Sou valente.
Burro –
Que homem!
General
Bozo – E vou lhe dar uma lição. Eu vou lhe contar uma coisa que não lhe
disseram no curso de jornalismo.
Repórter
– Fale, presidente. Eu sou todo ouvidos.
Burro
ergue as orelhas – Eu também.
General
Bozo – Olhe as prisões. Olhe os presídios. Quem está lá? São os negros, os
pobres e os miseráveis. (E vira o traseiro e passeia soberbo com as
pernas a balançar) Em mim, nada pega! Eu jamais serei preso. A minha herança de
sangue é de elite.
Vozes –
Que inteligência!
Repórter
– Perdão, senhor presidente. Mas existem hoje alguns militares presos.
General
Bozo – Isso vai acabar quando eu tomar posse. Ou talvez até antes, os meus
ministros na justiça já estão agindo. O repórter sabe qual é a regra de
pensamento no Exército? Esta aqui: “Faça-se um rigoroso inquérito e
puna-se o soldado”. (Gargalha)
Vozes –
Que inteligência!
General
Bozo – Eu não sou soldado. Eu sou o comando. Eu tenho a força de Trump! O
Brasil para os Estados Unidos!
Animais
urram e batem as patas.
Súbito,
batem à porta.
Burro –
Quem é?
Voz – É a
Polícia Federal!
General
Bozo – E eu perdi a eleição? Eu vou prender a polícia!
Zurros,
relinchos, agitação.
(Final da
peça, por enquanto)
[Ilustração produzida por IA/Vermelho]
As ruas, as redes e o almoço do domingo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_02010278885.html

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