02 setembro 2023

Jornada de 4 dias sem redução do salário

Empresas do Brasil irão testar semana de 4 dias sem redução de salário

Sindicalistas avaliam o modelo “100-80-100” proposto e indicam que a redução da jornada de trabalho de 44 horas no Brasil ainda é a pauta primordial
Murilo da Silva/Vermelho


 

O projeto que propõe uma jornada de trabalho de quatro dias deverá ser testado oficialmente no Brasil em 5 de setembro. Iniciativas pontuais e autônomas já foram realizadas, mas agora a 4 Day Week e a Reconnect Happiness at Work organizaram um teste com empresas de diferentes áreas, incluindo companhias inteiras ou setores, que vão desde o ramo de comunicação, consultorias, escritórios de advocacia e até setor de um hospital.

Estão confirmadas 20 companhias, que possuem cerca de 400 funcionários, segundo o Valor.  Entre as empresas que participarão da etapa brasileira para testar o modelo, com avaliações e consultoria jurídica inclusa, estão: Editora Mol, Soma, Iinspira, Clementino & Teixeira Advocacia, AB Aeterno, Smart Duo, T4S, GR Assessoria Contábil, Brasil dos Parafusos, Plongê, Haze Shift, Oxygen Experiências, Alimentare Nutrição e Serviços, Piu Comunica, Innuvem e Vockan (estas aceitaram ter seu nome divulgado).

O modelo a ser utilizado é o “100-80-100”, que significa 100% do trabalho realizado em 80% do tempo por 100% do salário. Confira outras abordagens aqui.

Avaliação sindical

Segundo Nivaldo Santana, secretário Sindical do PCdoB, ao Portal Vermelho, a redução da jornada de trabalho é uma necessidade natural decorrente do aumento da produtividade do trabalho, das novas formas de gestão e organização do trabalho.

“O avanço da tecnologia e sua aplicação no trabalho não pode ser apropriado apenas pelo capital, deve ser um instrumento para beneficiar toda a sociedade, em particular os trabalhadores”, aponta.

Nesse sentido, sobre o modelo 100-80-100, observa que o problema central é adequar a jornada de trabalho ao aumento da produtividade. “Pode ser com a diminuição dos dias de trabalho ou a diminuição da jornada diária de trabalho, de acordo com as especificidades de cada setor”, coloca o dirigente do PCdoB.

Leia também: Brasileiros testam e aprovam a semana de quatro dias de trabalho

Na mesma linha, o vice-presidente nacional da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), Rene Vicente, enxerga que o avanço das chamadas TICs (tecnologias da informação e comunicação) permitiu ao capitalismo um nível de produção elevado e o movimento sindical acompanha isso com atenção.

“É fundamental que se faça o debate histórico da redução da jornada de trabalho. O avanço das TICs e, consequentemente da produção, se insere dentro do quadro de desemprego, de substituição de mão de obra por novas tecnologias. Assim esse debate que avança em vários países no mundo [diminuição de dias de trabalho] vem dentro da linha progressista de redução do tempo de trabalho”, observa.

Por outro lado, Rene lembra que essa proposta “100-80-100”, mesmo feita por organizações de fora das empresas, responde a uma demanda dos patrões.

“Não podemos nos enganar perante essa proposta elencada pelos patrões, pois esse modelo permite, justamente nesse momento de avanço das tecnologias de informação e comunicação, da automatização e robotização da produção, a redução da jornada de trabalho, mas não mexe no coração do capital que é a expropriação da mais-valia. Reduzem o tempo de trabalho sem mexer no salário, mas o grau de produção tem que continuar ou até aumentar. Assim, reduzindo o tempo de trabalho com novas tecnologias o trabalhador vai produzir muito mais em menos tempo, essa é a chave da questão. Por isso há o interesse claro em reduzir o tempo de trabalho diante da barbaridade da lógica do capital que impõe formas de exploração extenuantes, cobranças cada vez maiores, metas a serem atingidas, maior produção em menor espaço de tempo. A mais valia absoluta vai aumentando, portanto, a lógica do capital permanece a mesma”, alerta o sindicalista.

Redução da jornada: pauta histórica da classe trabalhadora

O movimento sindical e a classe trabalhadora têm na redução da jornada de trabalho uma pauta secular.

Sobre a discussão feita pelo movimento sindical, ambos são unânimes em indicar que o debate é sobre redução de jornada.

“O conteúdo das discussões é a redução da jornada de trabalho. No início do capitalismo, nos primórdios da revolução industrial, a jornada de trabalho chegou a ter inacreditáveis 16 horas diárias. A luta dos trabalhadores sempre colocou a redução da jornada no topo da agenda sindical. O 1º de maio, dia dos trabalhadores, o 8 de março, dia das Mulheres, têm em sua origem movimentos grevistas contra a superexploração capitalista baseada em extensas jornadas de trabalho. Na atualidade, é possível incorporar todos os setores e profissões em jornadas menores, é a contrapartida necessária para a evolução nos processos de gestão e organização de trabalho em contínua mudança, principalmente pelo uso de novas tecnologias, robôs, inteligência artificial”, explica Nivaldo Santana.

Leia também: Semana de 4 dias é apontada como o futuro do trabalho

O dirigente da CTB complementa este entendimento ao revelar que acredita em uma proposta de redução que comece pelos trabalhadores e altere a atual carga horária brasileira.

“Temos que apresentar uma perspectiva de redução da jornada de trabalho que parta da classe trabalhadora, que questione a propriedade privada dos meios de produção, porque não adianta nada você reduzir a jornada de trabalho, sendo que o tempo livre do trabalhador, o tempo de ócio, seja capturado pela lógica do capital. O ideal mesmo é a redução da jornada no Brasil, hoje temos uma jornada semanal de 44 horas. As Centrais Sindicais defendem o que preconiza a PEC 231 de 1995, que reduz de 44 para 40 horas semanais a carga horária. Esse seria um ganho importante e daria uma perspectiva de geração de emprego enorme”, afirma.

No entanto, Rene alerta que não adianta diminuir a carga horária e aumentar o número de horas extras devido ao pagamento de baixos salários. “São contrariedades que o capital apresenta e que temos que avaliar, mas a luta da classe trabalhadora nesse momento da história é pela redução da jornada de trabalho sem redução do salário para que isso gere mais emprego e mais qualidade de vida para os trabalhadores e trabalhadoras”, completa.

*Com informações Valor

O PCdoB na luta institucional: se você não viu, pode ver agora https://tinyurl.com/yc5p4bw5

No meu Twitter

Segundo o IBGE, a taxa de desemprego caiu a 7,9% no período maio-julho, ante 8,5% no trimestre imediatamente anterior e 9,1% no período no ano passado. Bom sinal. Porém a informalidade segue elevadíssima, em 39,1%, ante 38,9% em fevereiro-abril e 39,8% há um ano.

Desconexão suspeita https://tinyurl.com/yy489esn

Minha opinião/crônica

Notável invenção humana

Luciano Siqueira


 
Não mais do que quatro dias aqui na praia me fizeram, pela undécima vez, enaltecer a rede estendida no terraço como uma das mais importantes invenções da humanidade.
 
No Brasil, por uma questão de justiça e de fama, bem que poderíamos anotar a rede como uma criação cearense.
 
Porém rápida consulta digital me dá conta de que "a rede de descanso é retratada no Saltério de Luttrell, datado por volta de 1330. A miniatura do manuscrito medieval da Inglaterra prova a existência de redes na Europa antes da descobrimento da América por Cristóvão Colombo", acontecido em 12 de outubro de 1492, precisamente nas Bahamas.
 
Frustrei-me. O aguerrido povo cearense já me acolheu várias vezes, especialmente quando no período da dura militância clandestina sob a ditadura militar. 
 
Nas terras de Iracema vivi momentos inesquecíveis, compartilhando com militantes como eu a resistência ao regime sanguinário e o sonho da Liberdade.
 
Verdade que também no Crato fui preso em 1994, e a primeira sessão de tortura aconteceu na vizinha Juazeiro.
 
Porém ir ao Ceará é sempre um prazer enorme.
 
Daí a minha escolha emocional, sem rigores históricos, de considerar a rede — essa minha companheira aqui na varanda do apartamento e meu apoio para descanso nas praias por onde andei ao longo da vida — uma invenção cearense.
 
Imagino José de Alencar bem acomodado numa rede na varanda, caderno pautado e caneta à mão, escrevendo os originais de "A viuvinha", "O guarani" ou "Iracema".

[Ilustração: Berenice Bere]

"O custo de um pequeno gesto" https://tinyurl.com/27mvmzdw

Arte é vida

 

Antonio A. Nepomuceno

As palavras valem, mesmo quando omitidas https://tinyurl.com/3ju94a87


Aquecimento global

Mudanças climáticas: o que são eventos superemissores e por que é crucial controlá-los

Veronica Smink/BBC

 

Quando o assunto é o aquecimento global, todos costumam apontar um único culpado: o gás dióxido de carbono (CO2), produzido quando queimamos combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás.

Mas, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), mais de 25% do chamado “efeito estufa” tem como causa outro gás: o metano (CH4).

É possível que você tenha ouvido falar sobre o problema ambiental causado pelo arroto das vacas. O gás liberado é o metano, que também é o principal componente do gás natural, produzido pela decomposição ou putrefação de matéria orgânica.

Preocupar-se com o arroto das vacas pode parecer engraçado, mas o certo é que o CH4 é fonte de grande preocupação para os especialistas. Afinal, o metano é um gás muitíssimo mais prejudicial para o meio ambiente do que o dióxido de carbono. E, quando dizemos “muitíssimo”, não é exagero.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA, na sigla em inglês) afirma que “o metano é mais de 80 vezes mais potente que o dióxido de carbono na sua capacidade de aquecimento durante os 12 anos em que ele permanece na atmosfera”.

Segundo o organismo, o motivo é que, “devido à sua estrutura química, o metano captura mais calor por molécula na atmosfera do que o dióxido de carbono”.

Por isso, o IPCC destacou que, para atingir o objetivo de limitar o aquecimento global a não mais de 2 °C em comparação com a era pré-industrial, devemos reduzir urgentemente as emissões de CH4 em pelo menos um terço – e 121 países se comprometeram com esta meta na Conferência de Mudanças Climáticas em Glasgow, no Reino Unido, em 2021.

Embora a pecuária seja responsável por 33% das emissões de metano produzidas pelas atividades humanas, o arroto das vacas não é o único desafio para atingir este objetivo.

Segundo o PNUMA, a agricultura e os resíduos orgânicos geram outros 30%. Mas a maior fonte deste gás (35%) é a mesma que gera a maior parte do dióxido de carbono: os combustíveis fósseis.

E uma das formas de contaminação é através dos chamados “superemissores” de metano.

O que são os superemissores?

Os superemissores são equipamentos, instalações ou outras infraestruturas onde ocorrem fugas de metano em massa, geralmente devido a falhas estruturais.

Estas enormes fugas de gás podem chegar a durar semanas, liberando imensas quantidades de CH4 para a atmosfera.

E, embora a maioria das superemissões ocorra na indústria de petróleo e gás, elas também podem ser produzidas durante a extração de carvão e em aterros sanitários de maiores proporções.

Um estudo liderado pelo cientista Thomas Lauvaux, do Laboratório de Ciências Ambientais e do Clima da Universidade de Saclay, na França, publicado em 2022 pela revista Science, estimou que os superemissores liberaram cerca de 8 milhões de toneladas de metano por ano durante a produção de petróleo e gás, entre 2019 e 2020.

Este volume equivale a 8% a 12% das emissões globais anuais de CH4. Mas, apesar dos enormes danos causados ao meio ambiente, ainda é difícil reduzir essas imensas perdas.

Um dos principais motivos é que, para suspendê-las, é preciso primeiro detectá-las – e rastrear emissões de metano é complicado, pois se trata de um gás incolor e inodoro.

Para encontrar e catalogar as perdas de metano, o PNUMA lançou, em outubro de 2021, o Observatório Internacional de Emissões de Metano (IMEO, na sigla em inglês).

“O grande desafio é saber exatamente quanto [metano] está sendo emitido, de onde ele está saindo e por quanto tempo foi emitido, para então poder reduzir as emissões ao nível necessário”, segundo o diretor do IMEO, Manfredi Caltagirone.

Como detectar

Giulia Ferrini trabalha na formação do IMEO. Ela disse à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) que, para descobrir onde ocorrem as perdas, “estamos atualmente limitados a imagens de satélite, provenientes do espaço”.

Estas imagens são obtidas por sensores especiais capazes de detectar a presença de metano.

Os pesquisadores franceses e norte-americanos que publicaram o estudo sobre superemissores na revista Science utilizaram informações obtidas pelo satélite de observação terrestre Sentinel-5 Precursor, desenvolvido pela Agência Espacial Europeia (AEE).

O satélite levou ao espaço um sensor chamado Instrumento de Monitoramento Troposférico (mais conhecido como Tropomi), que conseguiu detectar cerca de 1,8 mil superemissões de metano entre 2019 e 2020. Mas Ferrini adverte que o uso de imagens de satélite tem suas limitações.

“É importante reconhecer que os satélites podem observar melhor algumas partes do mundo do que outras e, por isso, a detecção de superemissores pode ser prejudicada pela capacidade de observação dos satélites”, esclarece ela.

Mas Ferrini também ressalta que “à medida que a tecnologia avança sem parar, o limiar de observação é significativamente reduzido, o que significa que podemos detectar (e, portanto, combater) eventos de emissões menores. Com isso, ficamos aparelhados para progredir além dos grandes emissores”.

O objetivo do IMEO é “integrar dados de diversas fontes para, em última instância, fornecer ao mundo um conjunto de informações totalmente transparente”.

Para a especialista, “somente com a sólida compreensão de onde nos encontramos em termos de emissões de metano, podemos desenvolver um plano claro e sólido de combate para proteger nosso futuro”.

Ferrini destaca que, ao fornecer informações de livre acesso sobre onde são produzidas as grandes perdas de metano, “as partes interessadas em uma série de setores têm mais motivação para demonstrar seus efeitos de redução, como parte da luta global contra as mudanças climáticas”.

Ferrini administra a Associação de Metano de Petróleo e Gás 2.0 do PNUMA. Ela defende que este setor, onde ocorre a maior parte das superemissões, é o que detém maior potencial para corrigi-las “de forma eficiente e rentável”.

“Temos evidências de que muitas estratégias eficazes de redução de metano custariam apenas uma fração dos lucros da indústria”, afirma ela.

Resultados em curto prazo

O fato de que o metano é muito mais prejudicial que o CO2 não foi o único motivo que levou os especialistas no combate às mudanças climáticas a se concentrarem em reduzir as emissões de CH4. A meta também foi estabelecida porque esta seria uma solução mais rápida.

Um aspecto positivo do CH4 é a sua vida atmosférica, que é muito mais curta que a do dióxido de carbono – cerca de 12 anos, em comparação com os séculos que o CO2 dura na atmosfera.

Por isso, se conseguirmos suspender as emissões de metano, devemos observar uma mudança bastante positiva em pouco mais de uma década. E, com esta perspectiva em mente, o IMEO propôs uma meta ambiciosa.

“Se reduzirmos o metano antropogênico [de origem humana] em 45% neste decênio, o aquecimento seria mantido abaixo do limite estabelecido no Acordo de Paris”, explica a organização, referindo-se ao limite de 1,5 °C.

“O metano é um fator determinante para a velocidade de aquecimento do planeta”, explica Ferrini. “O dióxido de carbono determina a quantidade total de aquecimento, mas o metano define a rapidez do aquecimento do nosso planeta.”

“Por isso, reduzir as emissões de metano é uma oportunidade fundamental para limitar a velocidade do aquecimento em curto prazo, enquanto prosseguem os esforços mais abrangentes de descarbonização”, conclui a especialista.

A Inteligência Artificial pode ter uso no futebol? https://tinyurl.com/3t4sad7w

Humor de resistência: Céllus

Céllus

Os desafios e os dilemas atuais do BRICS https://tinyurl.com/4h7awstp



01 setembro 2023

Ultraconcentração da renda e da riqueza

A retórica da reação neoliberal e o futuro do igualitarismo
Quanto mais neoliberalismo, maior a diferença entre a renda extraída pela posse de propriedade e a distribuída como retorno pelo trabalho. Em escala mundial, sua incapacidade de produzir crescimento econômico, combinada ao aumento da desigualdade, é proporcional à sua capacidade de corroer, por dentro, regimes democráticos
Sávio Cavalcante/Le Monde Diplomatique

 

O neoliberalismo foi intelectualmente elaborado em meio à crise do “liberalismo realmente existente” e das guerras mundiais na primeira metade do século XX. O objetivo era oferecer um sistema de ideias alternativo aos princípios igualitaristas dos modelos que então surgiam como respostas de esquerda, ou seja, tanto o modelo capitalista de Estado de bem-estar social quanto o comunismo. Apenas a partir da década de 1970, especialmente após o fim da União Soviética, é que as ideias neoliberais puderam impor parte do que, por décadas, desenharam como ordem social e modelo de Estado ideais.

O resultado prático, coerente com seus princípios normativos, tem sido a retomada de poder e renda de parcela diminuta de grandes proprietários, especialmente da fração financeira do capital. Em diferentes países, quanto mais essa parcela obtém hegemonia, maior se torna a desigualdade de poder e renda entre o “1%” e o restante da sociedade.1 Quanto mais neoliberalismo, maior a diferença entre a renda extraída meramente pela posse de propriedade (especialmente na forma de ativos financeiros) e a distribuída como retorno “equivalente” do esforço dispendido no trabalho que, de fato, gera a riqueza.2 Em escala mundial, sua incapacidade de produzir crescimento econômico efetivo, combinada ao intrínseco aumento da desigualdade, é diretamente proporcional à sua capacidade de corroer, por dentro, regimes democráticos e pavim entar o caminho eleitoral, como no passado, ao campo da extrema direita, em alguns casos de tipo neofascista.  

Como um sistema de ideias profundamente anti-igualitarista, que legitima a deterioração democrática e pouco tem a oferecer, na prática, à maioria da população trabalhadora, se realizou historicamente? Como se tornou “racionalmente” possível e reivindicou legitimidade?

Nos últimos anos, o uso da fórmula Marx + Foucault tem gerado boas e novas respostas. Um acúmulo incontornável nesse sentido é o reconhecimento de que o neoliberalismo não pode ser reduzido à bandeira do “menos Estado, mais mercado”. Antes de disputar o tamanho da intervenção estatal, o neoliberalismo formulou um sistema de ideias cuja base normativa e intelectual era a de que todos (indivíduos, organizações/empresas e Estado) precisavam se reconhecer e agir como se empresas fossem, ou seja, uma razão, uma forma de governo e uma subjetividade de novo tipo.3

Na prática, porém, a suposta superioridade da razão neoliberal em termos de eficiência e justiça exigiu o confronto, soft e hard, com agentes orientados por princípios igualitaristas – não apenas com sindicatos, mas com todas as ideias, movimentos, ativistas e organizações que, dentro e fora das empresas, impunham limites políticos e morais à acumulação de capital. A razão neoliberal não abdica – pelo contrário, a legitima – da violência para barrar outros modelos de sociedade.4

Ainda que o “cassetete [seja] o télos dos códigos de conduta” da razão neoliberal,5 a luta em si de ideias incide sobre terrenos de ordem moral e intelectual em relação aos quais os neoliberais não podem simplesmente se abster, sob pena de restringir sua hegemonia apenas ao “1%”. O neoliberalismo não prescinde da crítica das armas, como bem sabem muitos povos, mas não seria possível sem a arma da crítica.

Eis, então, o maior desafio do neoliberalismo na luta de ideias: como sua normatividade essencialmente anti-igualitarista reivindica, com relativo sucesso, superioridade?

Seria oportuno retomar a estrutura básica da “retórica da reação” identificada por A. O. Hirschman, isto é, o uso articulado de variações argumentativas de três teses – da perversidade, da futilidade e do risco (ou da ameaça) – contra modelos igualitaristas. De forma resumida, funcionam no confronto de ideias da seguinte maneira: políticas moralmente bem-intencionadas (imbuídas de princípios igualitarista, por “justiça social”) podem gerar efeitos imprevistos que pioram o que se pretendia enfrentar (perversidade); na prática, alteram pouco ou quase nada aquilo que buscavam resolver (futilidade); se radicalizadas, corre-se o risco de perder o que não deveria ser afetado ou eliminado (risco/ameaça). A reivindicação de superioridade da razão neoliberal exige primeiro demonstrar a inferioridade das alternativas.6

Contudo, também por isso, começam aqui seus problemas: para os neoliberais “puros”, a igualdade jurídica de indivíduos racionais, ante contratos celebrados sem coerção física direta a qualquer parte, é a única dimensão do princípio igualitarista que valeria a pena ser defendida. Seria a única capaz de não gerar um trade-off com outro princípio. Todas as demais pressões que procurem dar grandes – ou mesmo pequenos – passos em direção a uma igualdade mais substantiva serão submetidas aos invariantes da retórica da reação.

Esse igualitarismo esvaziado de conteúdo cobra seu preço na luta de ideias. Mesmo o apelo a outros princípios, como o da liberdade ou da eficiência econômica, gera sínteses retóricas que não tem, por assim dizer, um apelo popular espontâneo: “Muitos direitos trabalhistas, por limitarem os negócios, reduzem empregos”; “Salário mínimo alto parece positivo, mas, com o tempo, não é bom para quem vive do salário”; “Impostos mais baixos para os mais ricos acabam sendo bons para os mais pobres”; “Políticas sociais, bolsas e ações afirmativas não são boas nem para quem mais precisa delas”; “Serviços públicos universais e gratuitos diminuem o incentivo ao trabalho”. A redução do problema a um trade-off entre igualdade e liberdade, como já amplam ente documentado, gera efeitos políticos ainda mais complicados e antipopulares: “Sufrágio universal pode minar a democracia”; “Políticas em defesa de justiça social (igualitaristas) são o prenúncio do autoritarismo”. 

Dada a recusa do conteúdo substantivo do princípio igualitarista – o qual, historicamente, tem capacidade de gerar movimentos de massa e ganhar eleições –, a reação neoliberal exige um mecanismo alternativo de justificação. Sánchez-Cuenca oferece um profícuo caminho de análise. A adesão – parcial ou integral, consequente ou não – de esquerdas reformistas ou revolucionárias ao princípio do igualitarismo lhes concede uma superioridade moral difícil de ser combatida, nos mesmos termos, pelas direitas. Para obter hegemonia e encontrar portadores sociais ativos, a reação das direitas precisa se apresentar, antes, como intelectualmente superior à esquerda igualitarista. Só depois desse desvio para a dimensão supostamente racional/intelectual do problema, e por conta dele, é que a reação alegar&aacu te; superioridade moral.7

Não se trata, é claro, de ignorar o recurso, em muitos casos procedente, da denúncia de hipocrisia ou perversidade do indivíduo, grupo ou regime “de esquerda” que, por se acharem portadores de uma moral superior, promovem as maiores violências e injustiças. O ponto não é esse. A questão é que não se conquista superioridade de ideias apenas alegando a incapacidade de seus inimigos de esquerda de cumprir, na prática, o princípio igualitarista. Novas forças e movimentos sempre aparecem prometendo não reeditar os fracassos do passado. Em algum momento, a reação anti-igualitarista sabe que é preciso coragem intelectual para disputar o próprio princípio igualitarista e colocar outra coisa no lugar.

Sugiro a seguir uma estrutura de três grandes camadas da retórica da reação neoliberal. De cada uma, derivam muitas variações – indicarei aqui apenas alguns exemplos. Cada uma pode gerar diferentes encontros, mais ou menos contextuais, com outros sistemas de ideias. Até por isso, não há homogeneidade completa entre seus intelectuais e divulgadores. Seria possível sugerir certa ordem lógica entre as camadas, mas ênfases, alcances e silêncios seguem uma dinâmica própria em cada tipo de intervenção e prática.

Como se trata de uma reação anti-igualitarista, a primeira camada é aquela que exige normalizar, como ponto de partida, a desigualdade, ou seja, justificar por que não é tão moralmente ruim assim ser anti-igualitarista. As sínteses retóricas neoliberais recentes ultrapassaram o tradicional “é preciso fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo” por meio de formulações mais diretas, que não precisam adiar para um futuro distante o problema da distribuição: “A desigualdade não é o problema, e sim a pobreza” ou “Não é possível praticar justiça social na miséria”. 

Essa primeira camada gera diversos efeitos. Primeiro, corrói a legitimidade política da pressão em si, por diminuição da desigualdade. Segundo, normaliza a tarefa de, antes de qualquer coisa, “pôr ordem na casa” – princípio das políticas neoliberais de austeridade. Terceiro, ao reacender a chama moral do anti-igualitarismo, viabiliza uma conexão de sentido prática com outros sistemas de ideias e valores, muitos de base religiosa, que fornecem fundamentos morais e éticos, especialmente aos mais pobres, para uma postura conservadora de resignação ou consentimento perante desigualdades de todo tipo (além de classe, gênero, raça, sexualidade etc.).

segunda camada é aquela que procura dar fundamento racional (técnico ou científico) à “função social” da desigualdade. A premissa é que o capitalismo pode ser um jogo de “ganha-ganha”: o pobre é aquele que, ainda, não é classe média ou rico. Trata-se, então, de “apenas” acabar com a pobreza. Passa-se, assim, a disputar, e restringir, os meios. Os mais eficientes seriam aqueles compatíveis com o livre mercado. Intervenções externas não mercadorizadas gerariam ineficiência econômica, que, por sua vez, não criaria a riqueza que se quer distribuída.

É nessa camada que as teses da perversidade e do risco ganham plenitude. Nela habitam tanto as críticas neoliberais a políticas desenvolvimentistas, de planejamento estatal e protecionismo nacional quanto as versões mais radicais da trickle down economics: “Quanto mais livres (de impostos e regulamentações externas) forem os mais ricos para enriquecer, melhor será para os mais pobres” ou “Os ricos precisam ter a confiança de que terão o retorno que esperam de seus investimentos para que exista algo para os pobres”. Intervenções menos radicais tendem a se refugiar na tese da futilidade: “Sabendo como funciona uma economia de mercado, é muito difícil, ou pouco eficaz, taxar grandes fortunas (ou a herança de propriedade, ativos financeiros etc.)”. 

terceira camada supõe a superioridade racional do anti-igualitarismo (“Para o bem de todos, sempre haverá desigualdade”), mas precisa voltar a lidar com o problema moral: os indivíduos (e suas famílias) que compõe o “1%” merecem estar no lugar social em que se encontram? Aqui talvez resida a novidade, e a fragilidade, do neoliberalismo.

A resposta tradicional do liberalismo ao problema da desigualdade foi legitimá-la como expressão de um retorno equivalente a uma “escala natural de dons e méritos”, expressa pelo risco do investimento ou pelo esforço de trabalho (intelectual ou físico, de concepção ou execução etc.) dispendido no comércio ou na produção de riqueza material. A existência de uma competição impessoal de mercado (único princípio igualitarista admitido) valeria até mesmo para secundarizar o peso da desigualdade de ponto de partida (a herança familiar, não individualmente conquistada pelo mérito). 

Assim, a ideologia meritocrática, base de legitimação necessária da “ciência econômica” liberal, pôde justificar a desigualdade, porque o retorno de renda de todo tipo de atividade no mercado seria regulado pelo princípio da equivalência (compradores e vendedores recebem o que racional e livremente contratam). Desde Max Weber, sabe-se que o fundamento moral que sustenta essa ideologia passou de uma conversão do ascetismo religioso ao laico: disciplina, autocontrole dos desejos de consumo imediatos, resignação ante as dificuldades e sabedoria para poupar e acumular pelo esforço e mérito do próprio trabalho. A recompensa, no céu ou na terra, uma hora chega.

Eis o problema: o neoliberalismo, ao realizar, sobretudo, os interesses do capital financeiro, abdicou de parte essencial do princípio do retorno equivalente ao “mérito”. No plano das ideias, a defesa teórica mais acabada da diferença “natural” entre mérito e recompensa é feita pela escola austríaca, especialmente F. von Hayek.8 Na agitação e propaganda de massa, manifesta-se pela vasta literatura de “autoajuda” e peças de marketing de bancos e consultorias que apresentam fórmulas e serviços para que “você enriqueça enquanto está dormindo, no lazer ou com a família”. Mesmo a ideia de “retorno de investimento em capital humano” obtido pela escolarização deixa de fazer sentido: “Enriquecer não exige diploma”. 

Isso não significa, por certo, que as formas rentistas e especulativas do capital nunca tenham enfrentado esse problema. O que chama a atenção é a ausência, naqueles que buscam produzir o sujeito-empresa da razão neoliberal, da aparência igualitarista antes embutida na ideia de retorno equivalente ao esforço do trabalho.

O anti-igualitarismo dos “liberalismos realmente existentes” não é novidade. Por mais de um século, as teses da perversidade, da futilidade e do risco, aplicadas à ampliação do estatuto de igualdade jurídica a qualquer pessoa, normalizaram ou até mesmo lucraram com o comércio ou trabalho forçado de milhões de seres humanos reduzidos à condição de servidão ou escravidão.9

Nas origens, diferenças tomadas como atributos naturais de desigualdade – especialmente de raça – tornaram socialmente compatíveis, por muito tempo, trabalho escravo (ou forçado) e acumulação de capital. Na atualidade, a defesa neoliberal irrestrita da legitimidade da coerção “puramente” econômica de incentivo ao trabalho, mesmo para aqueles cuja alternativa de sobrevivência seja apenas a fome ou a miséria, produz defesas “racionais” de trabalhos em condições análogas à escravidão.10

Novamente, o déficit anti-igualitário do neoliberalismo cobra seu preço. A dificuldade de ganhar base social de massa (e votos) gera certa bifurcação de suas variações políticas concretas. 

O caminho originário e com maior base social até aqui, percorrido desde os anos 1970, foi aquele que buscou, com mais ou menos violência, um sentido de comunidade e vínculo social existente no conservadorismo. O mecanismo de articulação de um sistema de ideias ao outro se efetivou pela instituição família. Se para os conservadores um modelo patriarcal de família era o único que garantia estabilidade, para os neoliberais a família foi vista como uma empresa, único ente superior ao indivíduo cuja racionalidade poderia garantir de forma “ótima” a reprodução de seus membros.11

O outro caminho, mais recente e com pouca base de massa, é o que Nancy Fraser chamou de “neoliberalismo progressista”.12 Trata-se da cooptação, por parte de grandes corporações e de forças políticas neoliberais, de demandas de reconhecimento e redistribuição baseadas principalmente em termos de gênero, raça e sexualidade. O déficit moral da base neoliberal anti-igualitarista é aqui supostamente compensado por um mercado atento à “diferença” e à “diversidade”. 

O impasse neoliberal, contudo, permanece. Sua variante progressista pode tornar mais socialmente diversa alguma parcela da camada mais rica da sociedade, mas não enfrenta as causas da crescente desigualdade de poder e renda criada pelo próprio neoliberalismo. Gera, como efeito ideológico (este, sim, perverso), a aparência de uma “meritocracia justa” de mercado. O caminho conservador, por seu turno, se radicaliza. A necessidade de encontrar um sentido de igualdade comunitária com apelo popular ultrapassa a instituição família e passa a exigir níveis de pureza adicionais: religiosa, nacional, racial e étnica. O neofascismo se realiza historicamente como seu télos.

No Brasil, o novo governo petista tem à frente o desafio histórico, e decisivo, de renovar a esquerda igualitarista, interditando não apenas a resposta neofascista, mas também a versão neoliberal que impede, em seu interior, a superação desse impasse.

*Sávio Cavalcante é professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.

1 Gérard Duménil e Domique Lévy, “O imperialismo na era neoliberal”, Crítica Marxista, n.18, 2004.

2 Thomas Piketty, O capital no século XXII, Rio de Janeiro, Intrínseca, 2015.

3 Pierre Dardot e Christian Laval, A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal, São Paulo, Boitempo, 2016.

4 Grégoire Chamayou, A sociedade ingovernável: uma genealogia do neoliberalismo autoritário, São Paulo, Ubu, 2020.

5 Idem, p.251.

6 Albert O. Hirschman, The rhetoric of reaction: perversity, futility, jeopardy [A retórica da reação: perversidade, futilidade, ameaça], Cambridge, Harvard University Press, 1991.

7 Ignácio Sánchez-Cuenca, La superioridade moral de la izquierda, Madri, Lengua de Trapo, 2018.

8 Essa posição causa um “sincericídio” curioso em Hayek. Ver, para tanto, Sávio Cavalcante, “Classe média, meritocracia e corrupção”, Crítica Marxista, n.46, 2018.

9 Ver Roberto Steinfeld, Coercion, Contract and Free Labor in the Nineteenth Century [Coerção, contrato e trabalho livre no século XIX], Cambridge, Cambridge University Press, 2001; e Domenico Losurdo, Contra-história do liberalismo, Aparecida, Ideias e Letras, 2006.

10 Leandro Narloch, “Devemos proibir os pobres de ter trabalhos degradantes?”, Folha de S.Paulo, 16 maio 2018.

11 Melinda Cooper, Family values: between neoliberalism and the new social conservatism [Valores familiares: entre o neoliberalismo e o novo socialconservadorismo], Nova York, Zone Books, 2017.

12 Nancy Fraser e Rahel Jaeggi, Capitalismo em debate: uma conversa na teoria crítica, São Paulo, Boitempo, 2020.

As palavras valem, mesmo quando omitidas https://tinyurl.com/3ju94a87