17 maio 2014

Parada militar

A greve dos PMs

Marco Albertim, no Vermelho

Ressalta na greve da Polícia Militar de Pernambuco, o isolamento que o segmento sofre em relação à população. Recife tornou-se refém do silêncio das ruas. Tanques e viaturas da Força Nacional, com soldados empunhando fuzis-metralhadoras apontados para as calçadas, deram conta do justificado espanto dos minguados transeuntes nas ruas. No sofisticado bairro de Boa Viagem, os urutus foram aplaudidos e ouviram-se vivas ao Exército; a manifestação reflete o medo a saques e a assaltos, junto à reprovação à paralisação de uma força que tem presença ostensiva em centros vitais do comércio. 
A pauta tem como reivindicação principal o aumento de salários de soldados e oficiais. A decisão da greve ocorreu numa assembleia com presença maciça de militares em trajes civis. Porém, no período eleitoral, quando a lei proíbe vantagens salariais na administração pública. Decisão açodada, atabalhoada, em que pese a justeza dos reparos que os militares exigem. Sintoma do açodamento deu-se com a fala da tenente-coronel Conceição Antero, líder com destacada visibilidade na corporação. Na assembleia, em frente ao Palácio do Governo, fez uso de um latim popularesco, corrente em rodinhas de círculos amigos: “(...), se é para parar, vamos parar essa porra.” Foi aplaudida pela turba ruidosa.
Mas na noite da quinta-feira, segurando o microfone, defendeu o retorno aos quartéis, apoiada no compromisso do governo de que a reivindicação salarial será retomada em janeiro. A greve teve fim sem a unanimidade do plenário no asfalto, tampouco houve votação. Quando de sua decretação, a mesma oficial reconheceu no microfone que a corporação tem que procurar o apoio da população. Não há sinais de retaliação por iniciativa da cúpula militar. O comando do quartel reconhece a defasagem salarial, a irrisória ajuda do vale-alimentação e a precariedade do Hospital da Polícia Militar. Conceição Antero, diga-se, é ex-esposa do comandante da corporação, coronel José Carlos Pereira.
A greve demonstrou ausência de unidade numa categoria que ainda engatinha no enredo de greves, inda que a hegemonia de oficiais e soldados tenha manifestado disposição para ir adiante na peleja. E o Tribunal de Justiça decidira pela ilegalidade da greve. O governador João Lyra Neto não arguiu sobre a precariedade do cofre do Estado em conceder o aumento, ateve-se à Lei de Responsabilidade Fiscal e à proibição de aumento no período eleitoral. Contudo, a iminência de descontrole da ordem, franziu o cenho de Lyra Neto, ao solicitar a presença da Força Nacional e se reunir com o ministro da Justiça, Eduardo Cardozo.
Nos três dias acampados nas imediações do Palácio do Governo, centenas de motocicletas estacionaram ao lado do Teatro de Santa Isabel. Dos ônibus, na ponte sobre o rio Capibaribe, os ralos passageiros olhando com indiferença para a multidão de militares à paisana; soldados de bermuda e tênis, homens e mulheres em torno de um carro de som com músicas evangélicas; trilha nada comum ao contingente treinado para vigiar e prender. A decisão de vestir a farda, junto com o cansaço, acentuou o sentimento de desgaste, de perda. No dizer do cabo Miguel Neto, 24 anos de PM: “Vou pedir à mulher para engomar a farda.”
Os saques às lojas tiveram conotação de vandalismo. Não foram comandados por Associações de Moradores de bairros pobres, tampouco tiveram a participação de acampados dos sem-terra. A correria mostrou o frenesi do subproletariado, do lúmpen apropriando-se da presa fácil. Mas não há como negar que também a mulher com filhos a tiracolo arrematou o butim acessível. Celulares de última geração e estrados de camas para quartos vazios de apetrechos para o descanso. Uma parcela que os governos Lula e Dilma ainda não contemplaram.

Nasifascismo remanescente

Espectros ressuscitados

Eduardo Bomfim, no Vermelho

Informa o jornalista Flávio Aguiar que na madrugada de segunda-feira a embaixada do Brasil em Berlim, e residência da nossa embaixadora, foi alvo de ataques a pedradas por dezenas de mascarados.

No dia seguinte apareceu uma mensagem na internet, em alemão, dizendo que o ataque usando as “armas do povo, as pedras” era um protesto contra a realização da Copa no Brasil.

Aguiar diz que iniciou-se uma sistemática campanha contra o Brasil na mídia alemã, europeia, através da televisão, rádio, jornais, revistas, mídia digital, que no País nada funciona, campeão da homofobia, corrupção, violência, agressão ao meio ambiente, miséria, pobreza, favelas, um fracasso sob qualquer aspecto que se olhe, inclusive no futebol.

De fato é uma ofensiva contra o governo da presidente Dilma, mas acima de tudo o alvo é a nação brasileira, seu papel internacional como membro dos BRICS, sobre a qual dizem “um País sem memória, a única cultura que existe é a do samba e música. Pior que o Brasil na América do Sul só a Venezuela”.

Que seria urgente “devolver o Brasil ao seu lugar de onde nunca deveria ter saído”. Essa agressão sem registros desde a 2ª Guerra Mundial, por parte das elites financeiras alemãs, não encontra guarida no povo germânico. Mas não é isolada.

Porque o centro dessa campanha de tentativa de desconstrução do País, da autoestima do povo brasileiro, negação da realidade objetiva, nossas possibilidades concretas, imensas potencialidades em médio prazo, tem um endereço, a City de Londres, sede do capital financeiro internacional na Grã- Bretanha.

Que é associado à grande mídia global oligárquica nas estratégias políticas do Mercado e são responsáveis e beneficiários dessa crise capitalista que assalta os direitos elementares dos cidadãos europeus levando-os ao total desespero.

Na Europa reaparecem, como espectros ressuscitados, fortes grupos nazistas aliados ao rentismo mas, como contraponto inadiável, avança a luta patriótica e popular de resistência em defesa do progresso social, das liberdades democráticas, soberania dos povos contra a escalada neofascista da Nova Ordem neoliberal.

O Brasil, pelo seu protagonismo econômico, geopolítico, está na linha de fogo e instado a defender as conquistas sociais, a democracia, a soberania nacional, sob graves ameaças.

16 maio 2014

Fervor

A sexta-feira é de Pablo Neruda: "E morrerei de amor porque te quero,/Porque te quero, amor, a sangue e a fogo."

15 maio 2014

PT na TV

@lucianoPCdoB: Programa do PT na TV - a um olhar desapaixonado e criterioso - esclarece e emociona. Pauta o debate eleitoral. Vale a pena rever e discutir.

Contraste

Com a queda do Cruzeiro, consuma-se péssima campanha dos clubes brasileiros na Libertadores. Contraste com o perfil da seleção que disputará a Copa.

Desenho do embate presidencial

Inevitável polarização

Luciano Siqueira, no Vermelho

Em certa medida, a assertiva de Marx, no 18 Brumário de Luís Bonaparte, de que o curso dos acontecimentos muitas vezes é determinado por fatores objetivos e foge à vontade dos atores presentes na cena política, cabe na apreciação de um fenômeno recorrente em eleições majoritárias no Brasil: a polarização entre candidaturas que representam projetos opostos.

Vale retomar o assunto agora porque tanto em relação à disputa presidencial como nos estados, para os governos locais, há quem lastime a tendência natural à polarização do embate entre duas das candidaturas postas, impossibilitando o surgimento e a afirmação de uma pretensa "terceira via", assim chamada para matizar uma hipotética proposta programática que se diferencie essencialmente das demais, tanto à esquerda como à direita. 

O ex-governador Eduardo Campos, do PSB, ele próprio envolto nessa problemática com sua postulação à presidência da República, tem feito referência ao tema, afirmando ser negativo para o País o confronto PT X PSDB. - A sociedade brasileira cansou dessa polarização, diz ele. E, a seu modo, tem procurado abrir espaço ora elevando o tom do combate à presidenta Dilma Rousseff, ora adotando súbita agressividade contra o senador Aécio Neves, do PSDB, com quem disputa diretamente o segundo lugar no pódio, tendo em vista forçar um segundo turno. 

Não tem sido fácil. Por um lado, porque o próprio Eduardo e seu partido ajudaram a construir as mudanças que ocorrem desde o primeiro governo Lula, que prosseguem com Dilma, permanecendo, inclusive, na coalizão governista até outubro do ano passado. Por outro lado, em razão de semelhanças evidentes entre o atual discurso do PSB e o do PSDB no que se refere aos rumos da economia.

Apoiado nessas semelhanças, Aécio manobra justamente para acentuá-las, evitando assim perder para o socialista parte de sua base eleitoral. A ponto de dizer, em ilhéus, em evento recente, que se considerava em relação a Eduardo não um adversário, mas sim "um parceiro do mesmo sonho". 

A reação ríspida da ex-senadora Marina, endossada pelo próprio Eduardo, a essa declaração do tucano reflete exatamente a necessidade de se diferenciar e alimentar o desejo de fazer vingar uma terceira alternativa. 

Ora, a questão de fundo é de natureza objetiva. O Brasil vive uma encruzilhada: ou dá sequência às transformações em curso, no rumo de um novo projeto nacional de desenvolvimento; ou retrocede ao figurino neoliberal, que nos dois governos FHC consolidou as quase três décadas perdidas. A raiz da polarização está aí - e não na vontade subjetiva de petistas e tucanos, nem tampouco em artifícios midiáticos. 

Aí também reside a essência do confronto de outubro, para muito além do desenho caleidoscópico das coligações celebradas em torno das candidaturas presidenciais. As circunstâncias históricas levam a que o PSDB lidere a coalizão que defende o retorno ao modelo fracassado; e que o PT hegemonize a coalizão que peleja pela continuidade do novo modelo de desenvolvimento em construção.

Como uma lâmina

A quinta-feira é de Drummond: “...tão natural e cheio de segredos,/tão firme, tão fiel... Tal uma lâmina/o povo, meu poema, te atravessa.”