31 dezembro 2025

Minha opinião

Nem escritor, nem médico ou fotógrafo
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65  
 

Escrevo quase que diariamente há mais de 25 anos, sem contar o período de faculdade e mesmo quando da clandestina militância contra a ditadura. Há 23 anos, ininterruptamente, mantenho a coluna semanal no portal Vermelho. E em várias oportunidades, em outros portais e sites, assim como diariamente no meu próprio blog [Blog de Luciano Siqueira], tenha dois livros de crônicas e artigos publicados, escritos meus incluídos em duas coletâneas de autores pernambucanos e cumprido a desafiante tarefa de escrever treze prefácios de obras de gêneros diversos.  

Fiz o curso de medicina na Universidade Federal de Pernambuco, onde também cumpri o período da residência médica e, com o mesmo caráter de pós-graduação, tornei-me também médico sanitarista pela Fiocruz em convênio com a UFPE. Mas tive interrompida a atividade profissional nos idos de 1982, quando se tornou incompatível cumprir a rotina de um bom médico concomitantemente com o exercício do mandato de deputado estadual, em conjuntura de retomada das lutas sociais e de muita exigência militante, no crepúsculo do regime militar. 

Mas não sou escritor, nem médico. Da mesma forma como também não me considero fotógrafo — embora faça flagrantes a vida inteira, desde a antiga câmera Kodak "caixão" até uma boa Yashika, que já não uso desde que surgiu a praticidade do smartphone.

Aos títulos renuncio conscientemente por uma razão muito simples e objetiva: ao profissional cabe a permanente articulação entre a teoria e a prática, demandando a sistematização do que realiza e muito estudo teórico. 

Como me considerar escritor se jamais me interessei pela teoria da literatura — e, portanto, leio e escrevo muito, mas sem o rigor da técnica?

Médico, além do distanciamento progressivo da prática e da teoria, definitivamente deixei de ser quando já há alguns anos passei a ouvir de vários colegas o anúncio de conceitos novos sobre um sem-número de patologias, em razão da evolução da pesquisa científica.

"Esqueça tudo o que você aprendeu sobre úlcera péptica duodenal", advertiu-me um colega médico, recém-vindo de um Congresso, em encontro casual no aeroporto de Brasília, já faz mais de vinte anos.

Observações semelhantes ouvi de outros colegas a propósito da glomerulonefrite difusa aguda, da conduta emergencial em paciente asmático e outras entidades clínicas.

Então, sou ex-médico — convicto e consciente. 

A prática da fotografia eu realizo à base da mais pura intuição, não mais do que isso. E até consigo, de vez em quando, reconheço, produzir boas imagens.

"Você tem um olho bom", vaticinou um amigo fotógrafo profissional referindo-se ao que ele considera o bom enquadramento e correto uso da luz em algumas fotos minhas. Quanta honra!

Por que a renúncia a esses quase epítetos? Por respeito à ciência, à boa técnica literária e à arte da imagem. E aos profissionais que as exercem.

E assim sigo sensível ao fácie dos que se queixam de alguma enfermidade; leitor assíduo dos grandes escritores e do bom jornalismo e observador criterioso da imagem fotográfica.

Pronto. Mais uma confissão neste último dia do atribulado ano de 2025, às vésperas do desafiante 2026.

[Ilustração: Salvador Dali]

[Qual a sua opinião?]

Leia também: Feliz Ano Novo em Santana do Ipanema https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_31.html  

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