Capitalismo digital e uberização social
Mais que um fenômeno
laboral, a uberização social constitui a faceta totalitária do capitalismo
contemporâneo, na qual Big Techs e algoritmos controlam, punem e extraem valor,
ao passo que a educação crítica se impõe como antídoto necessário
VINICIO CARRILHO MARTINEZ, ESTER DIAS DA SILVA BATISTA & IZABELA VICTÓRIA PEREIRA*/A Terra é Redonda
Há dois conceitos, que são fatos e fenômenos hegemônicos na atualidade:
o capitalismo digital e a uberização social. Qualquer decisão institucional ou
ação política tem que passar por essa análise. Depois, enquanto esforço
docente, por exemplo, nossa obrigação, além de entender melhor a nossa
realidade, é pensar na proposição de uma Educação crítica a esses processos,
especialmente a uberização social – uma vez que está presente na vida de todos
nós, sem que tenhamos consciência disso. A uberização social, assim como o
“servilismo voluntário”, é fato notório para quem pede uma pizza em casa – ou
quando acessa alguma rede social.
Esses “dados” estão interligados. Uma observação essencial diz respeito
à perda total de autonomia e liberdade, por quem trabalha sob alguma plataforma
de uberização. Confunde-se, pelo sentido pejorativo da ideologia, uberização e
empreendedorismo, e isso é um erro absurdo, uma falha total na epistemologia
diante desses processos, uma vez que a pessoa uberizada perde totalmente a autonomia
frente à plataforma que também atua como meio de controle social e punição.
Por uberização nas relações de trabalho, basicamente, entende-se a
máxima exploração das classes trabalhadoras (agora, em parte, uberizadas) e da
total insegurança jurídica: as plataformas contratantes da mão de obra
uberizada não tem nenhum vínculo trabalhista, não se comprometem com nenhum
direito assegurado, inclusive, constitucionalmente. Não é difícil encontrar
instituições, institutos, universidades que compram um “curso” de docentes –
pagando somente as horas gravadas – e o revendem infinitamente.
Essa forma de uberização, ligada ao formato EAD – educação à distância,
bem distante da dignidade humana – é uma das formas mais graves de expropriação
do esforço docente: é sinônimo de vassalagem no Mundo do Trabalho.
É interessante lermos o artigo 7º da Constituição de 1988, na esteira
dos direitos sociais fundamentais, e assim compararmos com a realidade laboral,
existencial, de qualquer motorista uberizado/a ou entregador/a como mototáxi
(ou docente de EAD). Do ponto de vista jurídico e de quem é explorado/a
(controlado/a em todos os passos), nossa observação verifica um quadro que
poderíamos chamar de “escravidão moderna”. Aliás, não será coincidência a
implicância regular, diária, da “exploração do trabalho em condições análogas à
escravidão” – como nos diz a mesma Lei Constitucional.
As plataformas digitais contribuem magistralmente com esse cenário
porque foram elas que redigiram ou implementaram os algoritmos que tanto servem
ao controle social – no caso específico de quem está sob júdice da uberização
–, quanto lucram absurdamente com a total desregulamentação como temos hoje.
A margem de lucro (ou extração de mais-valia) das plataformas pode
facilmente vencer a barreira de 60% (sessenta por cento) dos valores pagos em
cada corrida ou entrega. Num exemplo simples, uma corrida de Uber que nos custe
10 reais destina seis reais (ou mais) para a plataforma. No caso de
cancelamento de uma corrida acionada, o/a motorista de Uber – mas, somente se
o/a passageiro/a assim o desejar – recebe pouco mais de três reais.
Isso a depender da gentileza ou consciência de quem tomou aquela
prestação de serviço uberizado, e se for mototáxi a taxa de “compensação” pelo
cancelamento talvez nem chegue a um real. Essa lógica imposta pelas
plataformas, todas elas, só vigora porque está listada nas prioridades
hegemonizadas do “novo BBB”: Big Techs, Big Datas/Data Centers e Bets.
A maior pesquisa empírica se verifica – e ainda permanecerá por muito tempo,
para quem não dirige – nas viagens de Uber, nas conversas insistentes que se
tenha com essas pessoas escravizadas pela modernidade (ou pós-modernidade
fragmentada). Sempre quando se pergunta sobre as condições de trabalho,
destacando-se o quanto as plataformas se apropriam do trabalho delas, e sem
nenhuma contrapartida, as respostas são constrangedoras.
Neste sentido, um dos apêndices de um livro recém-publicado traz
precisamente algumas narrações de viagens pessoais e conversas: Histórias de
Uber,[i] na
forma de crônica articulada a um evento real. Pode-se dizer que há uma pequena
etnografia nessa conversação com os/as motoristas de Uber. Algumas dessas
histórias narradas no livro são verdadeiras “lições de vida”.
Foi com esse espírito que, no primeiro livro de 2026, esse pequeno livro
foi abordado em sala de aula, especialmente esses dois aspectos da realidade,
esses dois enormes problemas sociais e econômicos que se comunicam em
perfeição: o capitalismo digital e a uberização social. Esse livro foi,
literalmente, construído em sala de aula. Com a proposição do tema, de algumas
intercorrências que vínhamos pensando desde 2025, e com a participação dos
alunos e alunas, promovendo-se provocações na forma de pensar, pudemos
encontrar pontos que ainda estavam obscuros.
Nas aulas de licenciatura, por necessidade de explorar algumas diferenças
entre o capitalismo clássico do pós revoluções industriais, do advento da
chamada maquinaria e até mesmo com referência à automação e ao toyotismo – as
células de produção, ao invés da linha de produção: o notável fordismo
dos Tempos Modernos, de Charles Chaplin – e os nossos “novos”
tempos modernos, sempre esteve no repertório conceitual a incidência do
capitalismo de dados: a monetização a partir das redes sociais, a compra e
venda de dados pessoais digitalizados.
Porém, em seguida, nos deparamos com a insuficiência dessa base
analítica. A massa crítica já sinalizava que o passado sempre acompanha o
presente, no Brasil, e isso fomentou o ingresso do Pensamento escravista no
escopo do capitalismo brasileiro – e que sempre combinou capitalismo com escravismo.
Além disso, a atuação do “novo” BBB já bateu em nossa porta. Em conjunto
com o setor financeiro (Bancos e fintechs), em parceria com o antigo BBB
(bancadas da bíblia, do boi e da bala), a hegemonia do capital mudou de cara,
hoje está assentada nas Big Techs, nas Big Datas/Data Centers e nas Bets (“o
novo BBB”).
Da forma como pensamos e tentamos descrever, o livro não se dirige a um
público específico, pois pode ser lido – como dizia João Ubaldo Ribeiro – por
estudantes, docentes, mas também pelo motorista uberizado, pela diarista. Essa
diarista que, na imensa maioria das vezes, é outra notável encarnação,
reaparição do passado brasileiro e que sempre atua como fantasma do presente: a
mulher negra, pobre, uberizada (oprimida), que, “com sorte”, encontrará algum
abrigo no famoso “quartinho de empregada” – numa verdadeira provisão
(prescrição, diria Paulo Freire) advinda diretamente da Casa Grande e tão ao
gosto da nossa classe média ou do “novo rico”.
A contribuição do livro para a ciência, além de todo o exposto, está na
necessidade de aproximarmos os dois conceitos básicos, se queremos uma leitura
científica, não sectária ou reacionária, acerca do atual “estado de coisas”.
Muitos outros aspectos poderiam, deveriam ser somados a esse conceito
(refundado) de capitalismo digital. Porém, sem que esses mencionados
componentes façam parte do corpus teórico, aí sim, não há como falarmos em
termos de ciência social dirigida ao século XXI.
Comparativamente, não há como tratar o mundo do trabalho, na China, sem
destacar em primeiro plano a fadiga imposta pela conhecida jornada 9-9-6
(trabalho das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana).
Ironicamente, ao menos partes desse inventário é copiado pelo
“anarcocapitalismo” de Javier Milei, na Argentina. E o segundo conceito, que é
a uberização social.
Neste caso, no entanto, abre-se parênteses, pois a adjetivação de “social” tem o intuito de transcender a exploração brutalizada do mundo do trabalho (neoliberalismo extremado), se observarmos que o “servilismo voluntário” atinge a todos que vivem sob as bolhas digitais. Essa é a ciência social que se propôs a esboçar nesse pequeno livro. E que custa um dólar apenas, menos do que um café expresso.
Da fábrica ao algoritmo
Atualmente, a tecnologia encontra-se literalmente na palma das mãos,
integrando-se quase de forma simbiótica.[ii] Se,
no século XX, a mecanização estava no chamado chão de fábrica, hoje ela assume
novas configurações mediadas por algoritmos e sistemas automatizados, que
extrapolam o ambiente produtivo. No uso de cada aplicativo gratuito, “o produto
é você”.
Os algoritmos passam a influenciar decisões relacionadas ao consumo e
até mesmo às oportunidades de trabalho. Em muitos processos seletivos, por
exemplo, a presença e o comportamento dos candidatos nas redes sociais
tornaram-se elementos relevantes na avaliação profissional, evidenciando-se
como a lógica algorítmica interfere em diferentes dimensões do cotidiano.
Como mencionado, uma obra clássica que demonstra esse movimento
histórico é o filme Tempos Modernos (1936),[iii] de
Charles Chaplin, cuja narrativa denuncia os efeitos da mecanização industrial,
ao evidenciar como a organização mecanizada do trabalho o transforma em uma
extensão da máquina, submetendo-o à repetição constante de movimentos e ao
controle do ritmo produtivo.
Curiosamente, outra obra de mesmo nome percebe essa relação de uma forma
diferente. Enquanto Charles Chaplin evidencia os efeitos da mecanização sobre a
condição humana, a canção Tempos modernos (1982),[iv] de
Lulu Santos, expressa o otimismo e a expectativa a fim de que o avanço
científico e tecnológico conduziria ao progresso social, à liberdade e à
melhoria das condições de vida.
Essa dualidade entre o avanço científico e seus impactos sociais permite
compreender como isso não ocorre, necessariamente, de forma linear. Uma ideia
de que o avanço científico conduziria ao desenvolvimento tecnológico, este
produziria crescimento econômico e, consequentemente, maior bem-estar social
(PALACIOS et al., 2001),[v] mostra-se
insuficiente quando confrontada com a realidade, especialmente ao se comparar
as expectativas construídas em torno do progresso tecnológico com o atual
contexto.[vi]
Os meios digitais, por mais inovadores que sejam, se tornaram uma forma
de exploração ampliada. Se, no âmbito laboral, a exploração se manifesta pela
intensificação da produtividade e pela flexibilização das relações de emprego,
no ambiente digital ela alcança o tempo, os dados e as formas de interação
social. A exploração deixa de restringir-se à extração da mais-valia e passa a
incorporar aspectos da própria experiência humana, transformando elementos da
vida privada em recursos economicamente exploráveis.
É nesse contexto cada vez mais predatório que se torna essencial uma
educação capaz não apenas de apresentar aos indivíduos o contexto tecnológico,
algo que, diga-se de passagem, pouco se faz necessário para uma geração que já
nasce imersa nas tecnologias, mas que, sobretudo, seja capaz de problematizar o
fato de que as tecnologias não são neutras, nem, por si só, emancipadoras.
Para além da formação de sujeitos aptos a utilizar os meios digitais, faz-se necessária uma educação crítica que possibilite compreender e questionar as formas contemporâneas de exploração, controle e desigualdade que permeiam o desenvolvimento tecnológico. Edgar Morin, célebre filósofo da ciência e da tecnologia, falecido recentemente, merece destaque quanto ao escopo dessa análise.[vii]
A ilusão do empreendedorismo
Desta forma, a uberização do trabalho nasce durante o século XXI,
configurando as relações de trabalho. De forma mais flexível, o indivíduo
trabalha conforme a demanda. Entretanto, o sistema vende a ideia de que o
trabalhador terá sua emancipação, em que pese se torna uma moeda na relação de
trabalho deteriorada. Dialogam com a lógica de estar empreendendo, no entanto,
camufla-se a precarização do trabalho.
Desse modo, o indivíduo imerso neste cenário não é amparado pela
legislação trabalhista (CLT), por não fazer parte do regime formal de trabalho.
Sob a uberização, presta-se serviço às empresas sem atribuir-se valor à mão de
obra, que por sua vez é barata: a classe trabalhadora arca com o ônus do
trabalho e a transferência de riscos.
Um exemplo recente dessa realidade ocorreu durante a pandemia da
Covid-19, quando milhares de motoristas de aplicativos continuaram exercendo
suas atividades para assegurar sua renda, apesar da elevada exposição ao vírus
e da ausência de garantias trabalhistas que lhes permitissem interromper o
trabalho com segurança.
Na obra Filosofia, um modo de vida (2025),[viii] Marilena
Chauí apresenta-nos como os valores éticos eram enxergados no pré-capitalismo,
o que antes era considerado virtuoso – o indivíduo de coragem e glória –, e,
inversamente, na sociedade capitalista é a produção: trabalho e expropriação. A
classe trabalhadora é integrada à perspectiva de que o trabalho o engrandece, e
com o avanço do capitalismo digital semeia-se a ilusão do empreendedorismo. O
que não se revela é a ausência total das garantias políticas, a contínua e
acelerada venda da força de trabalho e a dependência economicamente, crônica,
da plataforma extratora de mais-valia.
É possível visualizar esse controle social e o rompimento da consciência
crítica dos indivíduos diante dos fatos, especialmente quando observamos o
enfraquecimento da educação básica pública, subsumida numa condição em que a
carga horária de disciplinas da área de ciências humanas foi reduzida,
enfraquecendo-se a formação do pensamento crítico, e, de modo contrário, ao
passo em que matérias inconsistentes (por exemplo, educação financeira para
jovens pobres) e cursos técnicos são implementados e priorizados. A escola
passa a priorizar a formação de mão de obra adaptada às exigências do mercado,
em vez de promover a reflexão crítica e a capacidade dos indivíduos de compreender
e questionar as estruturas sociais que os cercam.
*Vinício Carrilho Martinez é professor do Departamento de
Educação da UFSCar. Autor, entre outros livros, de Bolsonarismo.
Alguns aspectos político-jurídicos e psicossociais (APGIQ). [https://amzn.to/4aBmwH6]
*Ester Dias da Silva Batista é licenciada em biologia na
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
*Izabela Victória Pereira é graduanda em filosofia na
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Notas
[i] MARTINEZ, Vinício Carrilho. Educação
crítica à uberização: A era do capitalismo digital e uberização social. São
Carlos: KDP (https://a.co/d/0cV60SjP),
2026.
[ii] Utiliza-se o
termo simbiose para caracterizar a relação de interdependência entre os
indivíduos e as tecnologias digitais, na qual as plataformas integram o
cotidiano e influenciam comportamentos, ao mesmo tempo em que dependem da
atividade constante dos usuários para seu funcionamento.
[iii] CHAPLIN,
Charles (direção). Tempos modernos. Estados Unidos: United Artists,
1936. 1 filme (87 min.), sonoro, preto e branco.
[iv] SANTOS,
Lulu. Tempos modernos. In: SANTOS, Lulu. Tempos modernos.
Rio de Janeiro: WEA, 1982. Disponível em: https://youtu.be/me2Xv_Np9xA?si=m3zq0l9Flxrm-TeD.
[v] PALACIOS,
Eduardo Marino García., et al. (orgs.). Ciencia, tecnología y sociedad:
una aproximación conceptual. Madrid: Organización de Estados
Iberoamericanos para la Educación, la Ciencia y la Cultura (OEI), 2001.
[vi] Outro vínculo havido entre ciência,
tecnologia e condição social, na esteira do pensamento de Edgar Morin, está na
linha de que é mais complexo explicar a dinâmica da luta de classes, hoje, do
que a complexidade do universo observável. Se não houver reducionismo às
formulas tradicionais, dos séculos XIX e XX, a missão não é simples, tanto
quanto é custoso interpretarmos as principais atribulações entre Ciência e
tecnologia na atualidade: MARTINEZ, Vinício Carrilho. Ideias para uma
Educação do século XXI: Edgar Morin.
[vii] MORIN, Edgar. Ciência com consciência.
Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1996.
[viii] CHAUÍ,
Marilena. Filosofia, um modo de vida. São Paulo: Planeta do Brasil,
2025.
Marcio Pochmann: "O Estado do século XXI" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/soberania-fragiliada.html

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