05 fevereiro 2026

Juros altos

Selic a 15% e os efeitos dos juros altos sobre a economia real
“Água demais mata a planta”: juros restritivos sufocam a produção, reforçam o rentismo e, à luz de Keynes, revelam escolhas que limitam investimento, emprego e crescimento
Luis Carlos Pereira/Portal Grabois https://grabois.org.br/ 

      

Na primeira reunião de 2026, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve, pela quinta vez consecutiva, a taxa Selic em 15% ao ano, o nível mais alto desde meados dos anos 2000. A justificativa oficial do Banco Central (BC) fala em cautela diante de pressões inflacionárias ainda não completamente dissipadas, mas na economia real o impacto é direto: crédito caro, investimentos adiados, consumo retraído e uma capacidade produtiva sufocada pelo custo do dinheiro, enquanto o setor financeiro coleta rendimentos elevados sem produzir emprego ou tecnologia.

No Brasil existe um ditado popular que diz que “água demais mata a planta”. A expressão cai como uma luva para descrever a atuação recente do Banco Central, que tem despejado irrigação farta nos vasos estéreis do rentismo, enquanto o solo onde germina o capital produtivo permanece ressecado. A política monetária nesse nível de restrição tem favorecido a quem vive apenas de juros e desincentivado a economia real – aquela que gera emprego, inovação e competitividade.

O que é a Selic e por que ela importa?

Antes de avançar no debate, é importante relembrar que a Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia) é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela funciona como referência para todas as demais taxas, do crédito empresarial ao financiamento imobiliário, e influencia diretamente o custo do capital e os incentivos ao investimento.

Quando a Selic sobe, o crédito encarece e os investidores tendem a buscar remuneração segura na renda financeira. Quando ela cai, o crédito se torna mais acessível e pode impulsionar a produção e o consumo.

Com a Selic estacionada em 15%, aplicações em títulos públicos e instrumentos de renda fixa tornam-se um “negócio perfeito”: alta rentabilidade, baixo risco e liquidez imediata. Esse cenário, porém, desloca recursos da economia produtiva para o rentismo financeiro. O capital que poderia ser destinado à expansão de fábricas, contratação de mão de obra ou inovação tecnológica acaba sendo atraído por ganhos seguros e imediatos.

John Maynard Keynes já alertava para esse fenômeno ao falar da “preferência pela liquidez”, isto é, a tendência de investidores manterem seus recursos em ativos líquidos e seguros em vez de financiar projetos produtivos mais arriscados (Keynes, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, 1936).

Com a tendência dos agentes em manterem seus recursos guardados em ativos líquidos, o mercado tem que oferecer juros cada vez mais altos para que esse dinheiro volte a circular. O resultado é uma dinâmica perversa: juros elevados, renda financeira abundante e baixo crescimento econômico.

Setor produtivo em alerta

A reação do setor produtivo tem sido firme e crítica. Entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) destacam que a Selic em 15% impõe um custo elevado à economia, travando investimentos e reduzindo a competitividade das empresas brasileiras. A inflação, por sua vez, dá sinais de desaceleração, o que poderia abrir espaço para reduzir os juros sem risco imediato de descontrole de preços.

Empresas enfrentam custo maior para financiar capital de giro, projetos industriais são engavetados, e pequenas e médias empresas lutam para sobreviver em um ambiente de crédito proibitivo.

A pressão pela revisão da política monetária ganhou um tom ainda mais incisivo quando Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), encaminhou uma carta ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, criticando a manutenção da Selic em 15% e questionando sua moralidade diante do bem-estar social e econômico do país.

Skaf afirma que o Brasil atingiu um “patamar extremo” sob o atual nível de juros, gerando um quadro de sufocamento da economia real, com empresas sólidas sofrendo desvalorização e a inadimplência avançando em níveis alarmantes. Ele também critica o impacto do custo financeiro sobre o setor produtivo e questiona:

“Por que empreender, inovar ou expandir operações se o capital é mais bem remunerado na inércia da renda fixa?”

Além disso, Skaf chama atenção para a diferença entre a taxa básica e os juros efetivamente pagos por empresas e famílias, que enfrentam spreads e prêmios que tornam o crédito ainda mais caro na ponta final.

Para ele, as condições já estariam dadas para iniciar um ciclo de afrouxamento monetário, e a manutenção prolongada da Selic elevada representa, na prática, uma punição ao setor produtivo brasileiro.

Autonomia do BC em tensão com projeto de desenvolvimento

A justificativa oficial do Banco Central para manter a Selic em patamares elevados tem sido a necessidade de preservar a credibilidade do regime de metas e as expectativas de inflação ancoradas. De fato, o IPCA vem apresentando desaceleração consistente, indicando convergência para o centro da meta. No entanto, a manutenção prolongada de juros em níveis historicamente restritivos sugere um descompasso entre o diagnóstico técnico e os efeitos reais da política monetária.

O Banco Central parece exagerar na porção ao sustentar uma taxa básica de 15% mesmo em um cenário de inflação em queda. Vale lembrar que, com a manutenção da Selic nesse percentual, o Brasil passa a ocupar a 2ª posição no ranking de juros reais mais altos, com 9,23%, atrás apenas da Rússia (9,88%) e à frente de países como Turquia (7,63%) e Argentina (6,45%). Nessa circunstância, o custo marginal de manter os juros elevados supera seus benefícios: a política deixa de atuar apenas como instrumento de estabilização de preços e passa a operar como freio direto ao investimento produtivo, ao crédito e ao crescimento econômico.

Na prática, juros persistentes altos encarecem o capital de giro das empresas, desestimulam projetos de longo prazo, comprimem o consumo das famílias e elevam o custo da dívida pública. O resultado é um ambiente de baixo dinamismo produtivo, no qual o setor financeiro é favorecido por rendimentos elevados enquanto a economia real enfrenta restrição de crédito e desaceleração do emprego. Trata-se, portanto, de uma escolha distributiva, e não meramente técnica.

Esse ponto é central: a política monetária não é neutra. Ao priorizar exclusivamente a estabilidade de preços, inclusive quando a inflação está controlada, o Banco Central acaba subordinando objetivos como crescimento, renda e industrialização. A autonomia institucional, concebida para proteger decisões de curto prazo, transforma-se, assim, em isolamento decisório, pouco permeável ao debate democrático sobre os rumos do desenvolvimento.

Essa postura entra em tensão com o projeto defendido pelo 3º governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que aposta na expansão do crédito, na reativação produtiva e na geração de empregos como motores do crescimento. Quando a autoridade monetária mantém uma estratégia excessivamente conservadora, mesmo diante de indicadores benignos de inflação, produz-se um conflito entre o mandato tecnocrático do controle de preços e o mandato político conferido pelas urnas.

Dessa forma, o debate sobre a Selic deixa de ser apenas uma questão de calibragem econômica e assume caráter político: trata-se de decidir quais interesses serão priorizados. Manter juros estruturalmente altos significa privilegiar rentistas e o sistema financeiro; reduzi-los de forma responsável significa ampliar o espaço para investimento, produção e emprego. A disputa, portanto, é menos sobre números e mais sobre o modelo de desenvolvimento que o país deseja construir.

Keynes como chave para entender a política monetária

obra de KeynesA Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de 1936, nos ajuda a interpretar esse dilema. Para Keynes, a taxa de juros não é simplesmente um número técnico, mas um determinante fundamental da propensão a investir.

Ele argumenta que quando os juros são mantidos altos, aumenta a preferência pela liquidez. Como já observado, esse movimento desloca recursos da produção para aplicações financeiras, comprimindo a geração de emprego e enfraquecendo o dinamismo da economia.

O recado que o Banco Central está mandando aos agentes econômicos é que eles serão mais bem remunerados com seu dinheiro guardado do que investido em empreendimentos de risco imprevisível e de prazo indeterminado para retorno. Na prática, o Banco Central está pagando para que os ânimos incertos dos investidores não se exaltem.

Assim, a crítica de John Maynard Keynes à primazia do rentismo permanece atual. Em Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, o autor demonstra que a taxa de juros é o prêmio pago pela renúncia à liquidez; quando excessivamente elevada, ela estimula a retenção especulativa da riqueza financeira em vez de sua conversão em investimento produtivo. Ao elevar o custo do capital acima da eficiência marginal esperada dos projetos, a política monetária desincentiva o investimento, comprime a demanda efetiva e reduz o nível de emprego. Nessas circunstâncias, consolida-se um circuito de rendimentos financeiros de baixo risco que pouco contribui para a expansão da capacidade produtiva, da inovação tecnológica ou da geração de trabalho, reforçando a predominância do rentismo sobre a economia real.

O resultado disso é negativo, pois é justamente desse arranjo macroeconômico, no qual juros elevados estimulam a retenção financeira e desestimulam o investimento produtivo, que emergem os efeitos sociais mais profundos. À luz da teoria de Keynes, o aumento da preferência pela liquidez desloca recursos da produção para aplicações seguras, comprimindo a eficiência marginal do capital, reduzindo a demanda efetiva e, consequentemente, o emprego. O resultado é um processo silencioso de transferência de renda: enquanto uma minoria rentista captura retornos elevados sem risco, a maioria da população enfrenta crédito proibitivo, menos oportunidades de trabalho e estagnação do padrão de vida, aprofundando desigualdades e enfraquecendo as bases de crescimento inclusivo.

O gigante Brasil resiste ao freio monetário

Mesmo com esses entraves, a economia real segue demonstrando vitalidade. Complexos logísticos como os portos de Itajaí (SC), Santos (SP) e Pecém (CE) continuam escoando produção, sustentando cadeias industriais e conectando o país ao comércio internacional; polos tecnológicos como a Embraer e a agroindústria exportadora mantêm investimentos, inovação e empregos. Esses exemplos deixam claro que o problema brasileiro não é a falta de capacidade produtiva, mas o custo do dinheiro para o setor produtivo.

A manutenção prolongada de juros altos pelo Banco Central do Brasil, portanto, não é apenas uma escola técnica de combate à inflação, mas uma decisão política com efeitos distributivos profundos. Ao privilegiar a renda financeira em detrimento do investimento produtivo, a política monetária transforma o crédito em obstáculo e o crescimento em exceção.

Diante desse quadro, a resposta não pode ser apenas tecnocrática. É necessária uma ampla mobilização política e social, envolvendo governo, Congresso, trabalhadores, setor produtivo e organizações civis, capazes de construir um novo pacto de desenvolvimento. Se a taxa de juros define quem ganha e quem perde na economia, sua orientação deve refletir prioridades democráticas: mais investimento, mais trabalho, mais produção.

Referências

–  AGÊNCIA BRASIL. Setor produtivo reage à manutenção da Selic em 15% ao ano. Brasília, 2026.

– KEYNES, John Maynard. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Obra original publicada em 1936).

– BANCO CENTRAL DO BRASIL. Atas e comunicados do Comitê de Política Monetária (COPOM). Brasília: BCB, 2026.

– B3 BORA INVESTIR. Brasil segue com 2ª maior taxa de juros real do mundo; veja ranking entre 40 países, 29 jan. 2026.

– GIANNETTI, Roberto. O BC está exagerando na dose com esses juros atuais. Brazil Economy, 2026.

– CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA (CNI). Notas técnicas e posicionamentos sobre política monetária e taxa Selic. Brasília: CNI, 2025–2026. Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2026.

– FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO (FIESP). Carta ao Banco Central sobre a taxa Selic e seus impactos na economia real. São Paulo: FIESP, 2026.

– BRAZIL ECONOMY. Paulo Skaf questiona Galípolo e diz que Selic a 15% asfixia. 29 jan. 2026.

– SUPERINTENDÊNCIA DO PORTO DE ITAJAÍ. Relatórios de movimentação portuária e desempenho logístico. Itajaí: Autoridade Portuária, 2025–2026.


Luis Carlos de S. Pereira é economista, mestre em Economia Política pela PUC-SP e especialista em Gerenciamento de Projetos pela FGV. É diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach) e desenvolve pesquisas nas áreas de educação, financiamento público e desenvolvimento econômico.

Leia também: O sequestro do fundo público https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/fundos-depauperados.html

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