03 abril 2026

Editorial do 'Vermelho'

Direita e extrema direita se dividem, Lula une a esquerda e busca a centro-direita
Com várias pré-candidaturas anunciadas, oposição cria cenário que proporciona mais possibilidades de ampliação em torno da reeleição do presidente
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br   

O anúncio de Ronaldo Caiado como pré-candidato a presidente da República pelo Partido Social Democrático (PSD) adiciona dificuldades ao campo da direita e da extrema direita, que passa a somar, nesta fase, cinco nomes na disputa. Sua entrada no jogo eleitoral ocorre quando Flávio Bolsonaro, o pré-candidato oficial do neofascismo, se estampou por inteiro como agente de uma potência estrangeira, conforme recentes declarações na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), nos Estados Unidos, fórum da extrema direita criado em 1973 e trazido ao Brasil em 2019 pelo então deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Indicado como representante do clã pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, o pré-candidato da extrema direita foi objetivo ao se manifestar como traidor da pátria, defendendo a aplicação de “pressão diplomática” para que as instituições brasileiras “funcionem adequadamente” e pedindo eleições “baseadas em valores de origem americana”, uma confissão de que, em caso de derrota, pode recorrer a viradas de mesa. “Se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós vamos vencer”, vaticinou.

De acordo com ele, o ex-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, interferiu nas eleições de 2022 “para instalar um socialismo que odeia a América”, formulação que reafirma a ladainha golpista de que a vitória de Lula não foi legítima. Num entreguismo descarado, afirmou que “o Brasil é o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução dos Estados Unidos para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras”. “Essa é uma boa mudança de política externa para a região, não é?”, prosseguiu.

Flavio Bolsonaro já havia ameaçado o Supremo Tribunal Federal (STF). “Todos nós somos favoráveis ao impeachment de qualquer ministro do Supremo que descumpra a lei. Isso só não acontece hoje porque ainda não temos maioria no Senado Federal”, afirmou. Outra de suas ameaças se deu assim que foi escolhido pelo pai como pré-candidato, prometendo anistia aos golpistas bolsonaristas.

Com essas e outras, sua pré-candidatura amarga a quebra de expectativas iniciais de união da direita e da extrema direita já no primeiro turno. Conta também o fracasso de suas articulações para ter o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), como vice, proposta que incluía um “superministério” em caso de vitória de sua chapa. Ratinho, cogitado para ser o pré-candidato do PSD, acossado no Paraná pela candidatura de Sergio Moro, apoiada por Flávio Bolsonaro, desistiu da indicação, abrindo caminho para Ronaldo Caiado. Aliás, essa luta intestina entre direita e extrema-direita se repete em outros estados.

O quinteto de pré-candidaturas é uma divisão significativa, que frustrou expectativas, conforme havia manifestado Valdemar Costa Neto, presidente do PL, ao afirmar que a direita poderia ganhar a eleição no primeiro turno se fosse unida contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ele, no próprio clã Bolsonaro há divisão. “Eles têm problemas na família”, constatou.

Essas fissuras terão efeitos inclusive para um possível segundo turno, mesmo com a unificação formal da direita e da extrema direita. Resta saber se o PSD terá fôlego para levar a candidatura de Caiado até o fim ou se repetirá 2022, quando o presidente do partido, Gilberto Kassab, anunciou, em outubro de 2021, uma pré-candidatura que não se efetivou.

Era a ideia de candidato de “centro”, que se evaporou, fórmula repetida agora com Caiado, um notório representante da direita histórica. Apesar dos atritos, ao estilo briga de tapas e beijos, Caiado é frequentador assíduo dos palanques dos bolsonaristas, cumprindo o papel de sua linha auxiliar. Para decolar, terá de arrancar votos de Flávio Bolsonaro, o que onera a extrema-direita. Há também a pré-candidatura de Romeu Zema, pelo Partido Novo, legenda do velho e fracassado neoliberalismo, cujo destino será definido mais adiante.

Da parte de Lula, sua pré-candidatura procura tirar consequências do cenário que se desenha. Por um lado, como já se disse, a divisão da direita provoca contradições neste campo. Por outro, tem o potencial de revolver e movimentar o eleitorado oposicionista de matizes variados, que tende a desembocar em um leito único no segundo turno, contra a reeleição do presidente Lula.

Lula definiu como vice Geraldo Alckmin, mais uma vez, e busca ampliar, ir além da esquerda, agregar setores e fatias do centro e da centro-direita, angariando apoios de partes do MDB, do PSD, do Republicanos e de outros partidos – sobretudo no Norte e Nordeste –, dos quais não tem apoio formal. Faz a construção de alianças nos estados, a exemplo do esforço para que se oficialize a importantíssima pré-candidatura de Rodrigo Pacheco, pelo PSB, em Minas Gerais, que, se confirmada, resolverá a contento o desafio de palanques no chamado “triângulo das bermudas”, que se completa com Fernando Haddad em São Paulo e Eduardo Paes no Rio de Janeiro.

O cenário, no geral, vai confirmando o prognóstico de que as eleições serão acirradas, uma luta ferrenha do passado de traição à pátria – agora mais abjeto e escancarado –, de golpismo, de tragédia social, de regressão econômica, contra o futuro, o projeto para conduzir o Brasil a um novo patamar de prosperidade, jornada que exige aliança ampla, mobilização do povo e um programa avançado, tendo como vértice a soberania nacional, a democracia, o desenvolvimento, a valorização do trabalho e mais direitos para o povo.

O governo também precisa seguir proporcionando conquistas aos trabalhadores, como a redução da jornada, o fim da escala 6×1, os programas que ajudam a minorar o endividamento das famílias e o esforço para atenuar os efeitos da política de guerra de Donal Trump, como a contenção do aumento dos combustíveis, em especial o diesel.

Com essas ações e bandeiras bem visíveis ao eleitorado será possível enfrentar os ataques da direita e da extrema direita e se construir, lance a lance, batalha a batalha, mais uma vitória da nação e da classe trabalhadora com a reeleição do presidente Lula.

Leia também: Para além do “economicismo governamental” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html

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