30 março 2026

Misoginia & negócios digitais

Machosfera e ódio às mulheres como modelo de negócio
Influenciadores do ódio faturam milhões e prometem vida endinheirada aos seguidores
Nina Lemos/Liberta   

Quem quer ser um milionário? “Aprenda a fazer seu primeiro milhão”. Esse tipo de promessa é atraente desde que o capitalismo é capitalismo e já seduziu muita gente para golpes e promessas vazias.

Mas, agora, o buraco está mais embaixo. Silvio Santos, que perguntava “Quem quer dinheiro?”, parece até inocente.

Alguns homens, principalmente os jovens, têm um novo plano de riqueza: seguir os passos de  influenciadores da chamada “machosfera” (ambiente virtual que reúne red pills e outras variedades de misóginos) e, assim, alcançar dinheiro, fama e, por consequência, mulheres. Para esses influenciadores, é assim que funciona, já que “mulheres só querem saber de dinheiro”.

Para quem os segue, eles vendem a possibilidade de alcançar uma vida  parecida com a deles: cheias de luxo, carros esportivos, mulheres bonitas, propriedades em Miami e Dubai.

Não é novidade para quem se debruça sobre o tema que odiar as mulheres é hoje um negócio lucrativo. Os influenciadores do ódio faturam milhões. O que muitas vezes passa batido é que eles prometem a mesma vida endinheirada para seus seguidores. Uma fórmula que pode parecer irresistível para muitos homens insatisfeitos.

Se você quer sentir o quanto o dinheiro é farto e importante na cena red pill, vale assistir ao documentário Por Dentro da Machosfera, disponível no Netflix. Ali, fica claro como a promessa de uma vida de riqueza e ostentação pode ser uma porta de entrada para meninos nesse mundo perigoso (principalmente para as mulheres, vítimas).

Com esses influenciadores, jovens aprendem que odiar mulheres é um negócio lucrativo. Tudo funciona por exemplos e modelos, sabemos.

Se você tiver estômago para ouvir os principais podcasts red pills do Brasil, como o Red Cast, vai ver que boa parte da conversa ali é sobre relógios caros, carros importados, apartamentos de 200 metros quadrados e outros bens de luxo que eles dizem, com orgulho, possuir. O resto do tempo é usado para exaltar homens como Donald Trump, subjugar mulheres e falar “assuntos de homem”. Se eles estão ricos e falam disso com tanta naturalidade, seus seguidores acham que também podem ficar.

O ódio a mulheres é um modelo de negócios. Como resultado, temos essa tragédia que vemos todos os dias. Um dia, um grupo de um colégio progressista de São Paulo troca mensagens com a lista das meninas “mais estupráveis”. No outro, um policial é acusado de feminicídio e, nas mensagens que trocava com a mulher, a polícia encontra recados onde o homem, o tenente-coronel Geraldo Neto, se denominava um “macho alfa” e dizia que a mulher precisava se comportar como uma “mulher beta”, um discurso totalmente alinhado com o dos red pills.

É claro que a cultura difundida pela machosfera não é a única culpada pelo momento trágico que vivemos. Mas faz parte do caldo. Vamos lembrar também que homens com perfil red pill, como Trump, foram eleitos e governam os países mais poderosos do mundo. O presidente dos EUA é um exemplo clássico de um homem da machosfera. Vende a imagem do “self made man”, do que desafia o “sistema” (seja lá o que seja isso) e é abertamente misógino.  O ódio a mulheres, veja só, ajuda a ganhar dinheiro e eleições.

E a raiva das mulheres?

E nós mulheres? Como ficamos? A gente fica com raiva, claro, já que somos vítimas dessa guerra. Só que a nossa raiva não é lucrativa. Pelo contrário. Mulheres com raiva são vistas como “mal comidas”, mal amadas e por aí vai. A única raiva que somos autorizadas a sentir é a raiva de nós mesmas, aquela que nos leva a nos submetermos a regimes de fome e a ficarmos caladas por acharmos que “não somos capazes”.

Quando nossa raiva é do mundo e do atual estado péssimo das coisas, ela não é bem vista.

Mesmo sendo vítimas da guerra atual (em 2025, 1568 mulheres morreram assassinadas por feminicídio no Brasil, o maior número em dez anos, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública), temos que mostrar a nossa indignação com suavidade. Se não, estamos “afastando os homens da conversa” (ou seja, continuamos sendo obrigadas a agradá-los). A gente é vítima do ódio (literalmente, muitas de nós morrem), mas, quando manifestamos nossa revolta, não somos bem vistas.

A nossa raiva não monetiza. Como jornalista, já ouvi mais de uma vez que nós, que cobrimos pautas “femininas”, estávamos “sempre com muita raiva” ou “sempre gritando”. A raiva feminina, pelo que entendi em muitos anos, afasta anunciantes e público. Será mesmo? Ou será que essa é mais uma desculpa para nos manter obedientes?

Conselho para as mulheres: continuem com raiva. Como diria uma antiga música punk: a raiva é uma energia.

[Foto: Marcelo Camargo/Liberta]

Violência contra as mulheres é estrutural https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/violencia-sexista_19.htm

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