01 abril 2026

Enio Lins opina

A tenebrosa sombra do 1º de abril de 1964 paira sobre o Brasil
Enio Lins     

RECORDAR É VIVER, e a Democracia brasileira, para sobreviver, precisa nunca esquecer do golpe de 1º de abril de 1964. Até porque aquele Dia da Mentira que se espalhou por 21 anos nunca morreu de fato, apesar do atestado de óbito lavrado em 15 de março de 1985. Perambula, como morto muito vivo, por becos e avenidas, livre e fagueiro, sem temer a luz do meio-dia. É um Drácula tropical, adaptado ao sol, dispensando até os óculos escuros que fizeram parte da farda dos ditadores latino-americanos nos anos 60/80.

NÃO É O GOLPE DE 1964 um acontecimento passado. Esta é a questão. Como diz aquele presidiário famoso: “Ustra vive!”. Algo está muito podre quando um político berra a todos pulmões sua admiração por um torturador abjeto, criminoso hediondo, militar insubordinado, como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Conhecido nos porões da ditadura como “Doutor Tibiriçá”, imortalizou seu nome e codinome como o mais desumano dentre os torturadores. Ustra foi um covarde juramentado, especializado em seviciar vítimas que lhes eram entregues imobilizadas, sem lhe oferecer riscos. As mulheres eram seu alvo predileto, especialmente se estivessem grávidas. Na época, a própria extrema-direita militar teve o cuidado de evitar a subida de seu mais notório torturador a mais um degrau na hierarquia. Jamais permitiram que alcançasse o generalato. Congelaram-no como coronel e o esconderam. Jair B, como presidente da República, em agosto de 2021, aventou promover – postumamente – Ustra à Marechal. A “promoção” topou em problemas legais, mas foi a reafirmação de um compromisso entre bandidos.

NA BARAFUNDA DE INTEGRANTES 
do golpe de 64, existiam descontentes com o governo Jango, gente ressabiada com o trabalhismo, carolas tementes do comunismo, empresários ressentidos, proprietários ruais assustados com a Reforma Agrária etc. Sim, mas essa plêiade de interesses foi apenas o caldo de cultura, nunca a força dirigente. Quem dirigiu o processo e assumiu inteiramente o poder foi a extrema-direita militar, por sua vez dividida em alas que se aliavam e se combatiam internamente, disputando o leme do barco pirata. A facção mais criminosa era a “dos porões”. Esse grupo praticava crimes políticos do tipo prisão, tortura e assassinato de militantes da oposição, ao mesmo tempo em que, "nas horas vagas", praticavam delitos comuns como assaltos, tráfico e serviços gerais prestados para o crime organizado. Do pouquíssimo que veio à público, é educativo ler os resumos (disponíveis na internet) dos processos movidos contra o então Capitão Guimarães, nos anos 1970. Quando, em 2005, o então deputado estadual carioca Flávio Bolsonaro homenageou o capitão Adriano da Nóbrega, notório miliciano e assassino com vários processos em andamento – reafirmou a existência e vitalidade dessa ligação entre os herdeiros dos porões de 1964 e o crime organizado. E não é um tributo isolado a um militar criminoso por parte do hoje presidenciável Flávio: em 2004 ele homenageou o então capitão Ronald Pereira, atualmente condenado a 56 anos de prisão por participar dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

USUALMENTE, AS ANÁLISES
 do golpe de 1964 centram o foco nas questões ideológicas. Restringem-se ao inequívoco fato de os golpistas serem de extrema-direita, fascistas, antipatrióticos... sim, foram. São. Seus herdeiros seguem sendo. Mas a corrupção e o crime organizado são outras características intrínsecas aos donos do poder entre 1964 e 1985. Ocorrências como o Escândalo da Mandioca – ocorrido no interior de Pernambuco, entre 1979 e 1981, culminando com o assassinato do procurador federal Pedro Jorge em agosto de 1982 – unindo agentes da repressão política ao crime organizado, eram tão comuns e quanto rigorosamente ocultadas pela censura prévia à imprensa e pelo impedimento das investigações. Assim aconteceu nos escândalos da Itaipu Binacional, da Ponte Rio-Niterói, Transamazônica, Coroa-Brastel, Capemi, Luftalla-Maluf etc. Ocorrências jamais elucidadas, ligando líderes golpistas da extrema-direita ao roubo sistemático de recursos públicos e privados. Isso não ficou no passado. Nem é mera coincidência a fusão num mesmo personagem da tentativa de venda de joias desviadas do acervo da República e a tentativa de golpe de Estado quando da passagem de governo depois das eleições de 2022. Os herdeiros da bandidagem 1964/1985 estão presentes, e fortes, nessas eleições de 2026.

Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/globo-na-lama-2.html 

Nenhum comentário: