A tenebrosa
sombra do 1º de abril de 1964 paira sobre o Brasil
Enio Lins
RECORDAR É VIVER, e a Democracia brasileira, para sobreviver, precisa nunca esquecer do golpe de 1º de abril de 1964. Até porque aquele Dia da Mentira que se espalhou por 21 anos nunca morreu de fato, apesar do atestado de óbito lavrado em 15 de março de 1985. Perambula, como morto muito vivo, por becos e avenidas, livre e fagueiro, sem temer a luz do meio-dia. É um Drácula tropical, adaptado ao sol, dispensando até os óculos escuros que fizeram parte da farda dos ditadores latino-americanos nos anos 60/80.
NÃO É O GOLPE DE 1964 um acontecimento passado. Esta é a questão. Como diz aquele
presidiário famoso: “Ustra vive!”. Algo está muito podre quando um político
berra a todos pulmões sua admiração por um torturador abjeto, criminoso
hediondo, militar insubordinado, como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Conhecido nos porões da ditadura como “Doutor Tibiriçá”, imortalizou seu nome e
codinome como o mais desumano dentre os torturadores. Ustra foi um covarde
juramentado, especializado em seviciar vítimas que lhes eram entregues
imobilizadas, sem lhe oferecer riscos. As mulheres eram seu alvo predileto,
especialmente se estivessem grávidas. Na época, a própria extrema-direita
militar teve o cuidado de evitar a subida de seu mais notório torturador a mais
um degrau na hierarquia. Jamais permitiram que alcançasse o
generalato. Congelaram-no como coronel e o esconderam. Jair B, como
presidente da República, em agosto de 2021, aventou promover – postumamente –
Ustra à Marechal. A “promoção” topou em problemas legais, mas foi a reafirmação
de um compromisso entre bandidos.
NA BARAFUNDA DE
INTEGRANTES do golpe de 64, existiam descontentes com o
governo Jango, gente ressabiada com o trabalhismo, carolas tementes do
comunismo, empresários ressentidos, proprietários ruais assustados com a
Reforma Agrária etc. Sim, mas essa plêiade de interesses foi apenas o caldo de
cultura, nunca a força dirigente. Quem dirigiu o processo e assumiu
inteiramente o poder foi a extrema-direita militar, por sua vez dividida em
alas que se aliavam e se combatiam internamente, disputando o leme do barco
pirata. A facção mais criminosa era a “dos porões”. Esse grupo praticava crimes
políticos do tipo prisão, tortura e assassinato de militantes da oposição,
ao mesmo tempo em que, "nas horas vagas", praticavam delitos
comuns como assaltos, tráfico e serviços gerais prestados para o crime
organizado. Do pouquíssimo que veio à público, é educativo ler os resumos
(disponíveis na internet) dos processos movidos contra o então Capitão
Guimarães, nos anos 1970. Quando, em 2005, o então deputado estadual carioca
Flávio Bolsonaro homenageou o capitão Adriano da Nóbrega, notório miliciano e
assassino com vários processos em andamento – reafirmou a existência e
vitalidade dessa ligação entre os herdeiros dos porões de 1964 e o crime
organizado. E não é um tributo isolado a um militar criminoso por parte do
hoje presidenciável Flávio: em 2004 ele homenageou o então capitão Ronald
Pereira, atualmente condenado a 56 anos de prisão por participar dos
assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.
USUALMENTE, AS ANÁLISES do golpe de 1964 centram o foco nas questões
ideológicas. Restringem-se ao inequívoco fato de os golpistas serem de
extrema-direita, fascistas, antipatrióticos... sim, foram. São. Seus herdeiros
seguem sendo. Mas a corrupção e o crime organizado são outras características
intrínsecas aos donos do poder entre 1964 e 1985. Ocorrências como o Escândalo
da Mandioca – ocorrido no interior de Pernambuco, entre 1979 e 1981, culminando
com o assassinato do procurador federal Pedro Jorge em agosto de 1982 – unindo
agentes da repressão política ao crime organizado, eram tão comuns e
quanto rigorosamente ocultadas pela censura prévia à imprensa e pelo
impedimento das investigações. Assim aconteceu nos escândalos da Itaipu
Binacional, da Ponte Rio-Niterói, Transamazônica, Coroa-Brastel, Capemi,
Luftalla-Maluf etc. Ocorrências jamais elucidadas, ligando líderes golpistas da
extrema-direita ao roubo sistemático de recursos públicos e privados. Isso não
ficou no passado. Nem é mera coincidência a fusão num mesmo personagem da
tentativa de venda de joias desviadas do acervo da República e a tentativa de
golpe de Estado quando da passagem de governo depois das eleições de 2022. Os
herdeiros da bandidagem 1964/1985 estão presentes, e fortes, nessas eleições de
2026.
Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/globo-na-lama-2.html

Nenhum comentário:
Postar um comentário