Extrema direita nas cordas é vitória do jornalismo
A dois meses da eleição, Flávio
Bolsonaro e o que ele representa se mostram inviáveis: revelou-se quem é e como
age o bando dele
Luís Costa Pinto/Liberta
Ainda que tenha conseguido manter viva a pretensão de se tornar presidente da República até a manhã do sábado, 25/7, quando o Partido Liberal fez sua Convenção Nacional, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) jaz politicamente morto na cena eleitoral.
Sem conseguir unir em torno de si sequer o famigerado Centrão – siglas como União Brasil, PP, Novo, PSD e Republicanos –, ou mesmo a própria família, restou-lhe buscar a sagração ligeira como candidato fátuo.
Fátuo porque a chama dele será breve e se acendeu tardiamente em razão dos gases emanados pela matéria orgânica em decomposição que vaza do lodaçal onde o clã Bolsonaro enterrou os despojos de tudo o que um dia pareceu esboço de projeto político. Nunca foi. Só os muito desavisados não enxergaram, nele, o fogo fátuo dos lixões que ainda grassam nas periferias das cidades brasileiras.
No final do ano passado, o senador fluminense irrompeu de uma visita ao pai, ex-presidente da República preso e moribundo num leito de hospital em Brasília. Correu em direção aos holofotes das emissoras de TV para anunciar a novidade… o golpista, cuja trajetória política estava atada aos grilhões impostos pelo Supremo Tribunal Federal, designara o primogênito – ele mesmo, “Flávio”! – como sucessor de uma missão que cria divina: derrotar “a esquerda” nas eleições de 2026.
Dedaço de Bolsonaro foi nefasto
O dedaço de Bolsonaro detonou uma sequência de desarranjos na oposição. A primeira delas, no próprio ninho do clã. Michelle, quarta mulher dele, madrasta dos filhos, renovou os votos de convivência infernal com todos os rebentos homens do marido, ao passo que reforçou os laços de amizade com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Afinal, pela caneta de Valdemar, ela tinha emprego como presidente da seção “Mulher” do partido e dava asas à ambição política pessoal de virar senadora pelo Distrito Federal.
Sucedendo a Michelle nos desarranjos produzidos pelo dedaço infeliz do golpista preso surgiu Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo. Implantado em território paulista em 2022 qual um poste a partir de quem projetaria seu facho de trevas, Tarcísio esteve convencido por algum tempo que o Palácio do Morumbi era escala de curtos quatro anos até o retorno triunfal a Brasília como candidato à Presidência das oposições unidas de direita e extrema direita. Não foi. Antes do Carnaval desse ano, o carioca que governa São Paulo resignou-se a disputar a reeleição.
Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, urdindo os planos mais mirabolantes e sempre abjetos desde os Estados Unidos, onde se autoexilou dizendo-se perseguido em seu país com a ênfase dos Napoleões de hospício que se veem como reencarnações do sardo belicoso, fundador da França imperial que só existiu para ele, também trocou de mal com o senador. Flávio Bolsonaro precisou correr duas vezes aos EUA, solicitar mediações do neto de um ex-ditador brasileiro, a fim de voltar às boas com o mano.
Dentro do PL, a personagem ungida pelo 01 do clã Bolsonaro para estruturar a campanha, o programa de governo e o diálogo com as demais legendas do espectro corrupto-tresloucado habitado pelos extremistas em nosso universo político foi o senador potiguar Rogério Marinho. Responsável pela reforma trabalhista de 2017, sob Temer, que desmontou a Consolidação das Leis Trabalhistas e desprotegeu os trabalhadores brasileiros, Marinho se revelou um desastre na interlocução política.
Emergiram as raízes podres do clã
Em paralelo a todos esses problemas autóctones da candidatura bolsonarista, o arremedo de sucessor do clã trágico se descobriu inapelavelmente preso às raízes podres das vidas passadas de sua família e da própria vida pregressa. Até os primeiros ensaios de candidatura presidencial, Flávio Bolsonaro jamais havia sido cobrado pelo rápido enriquecimento pessoal, pelas amizades alarmantes com gente investigada a fundo por corrupção, como Daniel Vorcaro, pela proximidade com milicianos do Rio de Janeiro e sicários de Minas Gerais (como o tal Luiz Phillipi Machado, ex-policial militar remunerado por Vorcaro para bater, intimidar e até fazer desaparecer quem se colocasse no caminho dele).
Em janeiro desse ano, na retomada da programação jornalística dos canais do ICL, fez-se o alerta mais de uma vez: Flávio Bolsonaro não resistiria ao exercício livre do Jornalismo apurando e investigando a sua candidatura presidencial. Foi dito, inclusive, que em 2018, em razão da facada que recebeu em Juiz de Fora, Jair Bolsonaro se beneficiou de uma eleição coberta de maneira atípica e assimétrica pela mídia nacional. Internado em UTIs e em salas de tratamentos semi-intensivos, não passou pelo escrutínio da imprensa. A candidatura dele não precisava ter ideias nem falar de projetos – bastava a leitura dos boletins médicos no Jornal Nacional e notas cobertas nas rádios e TVs e pronto. Daquela forma, se forjou o “mito”. Por trás dele não existia mitologia alguma, heroísmo nenhuma; apenas verve e desfaçatez.
A Flávio Bolsonaro não foi dado o conforto anticidadão de ser candidato sem que os jornalistas exercessem o Jornalismo a favor da Democracia e do país. Posta para girar da maneira como deveria, a Roda da Fortuna eleitoral liquidificou o presidenciável do PL muito antes dessa convenção partidária do sábado, 25/7. Por mais que dela tenham produzidos memes e cortes para as redes, por mais instagramável que tenha sido o evento burlesco do Mercado Pago Hall em São Paulo, ele não terá força para ressuscitar o que o bom Jornalismo tratou de matar a golpes da lâmina afiada do exercício profissional que se faz aqui: a pretensão natimorta de um novo Bolsonaro sentar na cadeira presidencial. Ele não a merece, nenhum deles jamais a mereceu.
Tendências favoráveis https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0865763975.html
Uma questão de valor estratégico https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_01693051159.html

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