Ofensiva de Trump na América Latina eleva importância de reeleição de Lula
Ingerência nas eleições peruanas e colombianas indica necessidade de forte defesa da soberania brasileira
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br
As proclamações das vitórias da extrema direita no Peru e na Colômbia decorrem do processo de luta de classes nesses países, mas tiveram forte ingerência do governo Donald Trump. O embaixador estadunidense no Peru, Bernie Navarro, declarou que estava “monitorando o processo eleitoral até a divulgação dos resultados oficiais”, interferência que motivou uma petição da oposição ao governo peruano para que ele fosse declarado persona non grata. Ele anunciou também que lideraria pessoalmente uma equipe de “observadores” dos Estados Unidos.
Navarro também divulgou falsa interferência cubana nas eleições, apresentando como única prova um cidadão cubano naturalizado que pôde votar pela primeira vez e trabalhar em uma seção eleitoral. E acusou a China de atuar no país, citando o megaporto de Chancay, um complexo ultramoderno e o primeiro terminal totalmente automatizado da América Latina, construído pela estatal chinesa Cosco Shipping, que transforma o Peru no principal ponto logístico do Pacífico Sul e reduz significativamente o tempo de transporte de cargas até a Ásia.
O Pentágono respondeu destinando US$ 1,5 bilhão para modernizar a infraestrutura de uma base naval peruana. Washington está pressionando para que o Peru seja designado um “grande aliado não pertencente à OTAN”, integrando as forças armadas peruanas em exercícios conjuntos e compartilhando equipamentos. Uma decisão ratificada pelo Congresso, hegemonizado pela direita, autorizou a presença de tropas estadunidenses em território peruano.
O pano de fundo é o potencial do Peru, o terceiro maior exportador mundial de cobre, mineral crucial para a produção de veículos elétricos e tecnologia militar. A China é, de longe, seu principal comprador, num país com cerca de 30% da população vivendo na pobreza e a maioria da classe trabalhadora atuando no chamado setor informal, sem benefícios, aposentadorias ou proteções básicas. Aproximadamente 43% dos trabalhadores estão subempregados.
Na Colômbia, a ingerência também foi aberta. O candidato anunciado como vencedor, Abelardo De la Espriella, da extrema direita pediu ao governo dos Estados Unidos que monitorasse o processo eleitoral, conforme declarações do ex-presidente George W. Bush e do subsecretário de Estado, Christopher Landau. Trump declarou publicamente seu apoio a Espriella e afirmou que ele teria apoio total dos Estados Unidos.
O presidente colombiano, Gustavo Petro, e o então candidato Iván Cepeda denunciaram a interferência. “Quando um país interfere nas decisões de outro, a liberdade morre. Convido toda a Colômbia a votar livremente e a não se tornar escrava ou colônia de ninguém”, afirmou Petro.
A extrema direita brasileira também apoiou Espriella. No final de maio, durante uma viagem aos Estados Unidos para se encontrar com Trump, Flávio Bolsonaro conversou com ele por videochamada, com a participação de seu irmão, o foragido Eduardo Bolsonaro. Discutiram a formação de uma “frente antiesquerda” na região e, após a ligação, Espriella publicou uma mensagem em suas redes sociais referindo-se a Flávio Bolsonaro como o futuro presidente do Brasil.
Esse procedimento imperialista ocorreu também na Argentina, no Chile, na Bolívia, em Honduras, além do bloqueio energético criminoso a Cuba, sob constante ameaça de intervenção militar, e a ação bandoleira que sequestrou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. E anuncia-se como ameaça às eleições brasileiras, como já ocorre com as confabulações dos Bolsonaro com Trump, em sucessivos tarifaços contra o Brasil.
Tentar impedir a reeleição de Lula passa a ser grande batalha da marcha forçada do trumpismo, pela importância do Brasil na geopolítica e pelo seu peso na economia mundial, a mais importante referência da América Latina e do Caribe. Lula representa à resistência que vem do ciclo iniciado com a eleição de Hugo Chávez para presidente da Venezuela em 1998. Eles, o então presidente da Argentina, Néstor Kirchner, e outros, numa cúpula em Mar del Plata, em 2005, enterraram o projeto neocolonialista estadunidense de Livre Comércio das Américas (ALCA) e fizeram avançar o processo de integração.
A ofensiva estadunidense tem como carro-chefe a retórica “antiterrorista”, de “combate ao narcotráfico, um ardil propagandístico, violando a soberania dos países da região inclusive com a infiltração de agentes, como ocorre no México com certa recorrência, conforme tem denunciado o governo da presidente Claudia Sheinbaum. Ela declarou que, na semana passada, houve mais uma ação clandestina, uma operação do FBI para supostamente combater o narcotráfico no país.
Trump tenta reverter o declínio Estados Unidos à força, como ocorre com a retomada da guerra contra o Irã, e obstruir o direito dos países de diversificarem a política externa e comercial, sobretudo com a China e a Rússia. Suas vitórias na região não significam que a capacidade de luta e resistência democrática e patriótica tenha perdido vigor.
Apesar da diplomacia brutal e das ameaças econômicas, políticas e militares, a resistência cresce na região. Na Bolívia, uma grande mobilização popular reage às políticas do presidente Rodrigo Paz Pereira. Na Argentina, o ultraneoliberalismo de Javier Milei também enfrenta forte contestação popular. No Chile, as manifestações enfrentam os cortes drásticos nos gastos sociais, as medidas de austeridade econômica e as propostas de perdão a militares condenados por crimes contra a humanidade pelo presidente José Antonio Kast.
As eleições no Brasil vão se configurando cada vez mais como um duelo decisivo para os destinos do povo e do país e para a geopolítica, sobretudo na América Latina e Caribe, explicitamente ameaçados pelo chamado “corolário Trump” e sua doutrina de segurança nacional. O interesse dos Estados Unidos é claramente de domínio econômico, para se apossar das riquezas locais, impondo sua presença militar. A crise da hegemônica neoliberal na região gerou um consenso progressista, que sofre revezes, mas pode também ser a base de apoio para uma resistência mais ampla ao imperialismo e ao perigo do neofascismo trumpista.
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