Saudade
Rogaciano
Leite
Mandar, em pensamento, além, pelo infinito,
A pluma de um
desejo, a voz de um sonho aflito
Do amor que
naufragou nas cerrações do pranto.
Recompor, um a um,
no cérebro vazio,
Uns momentos de
sol… um céu azul de estio…
Uns beijos, uma
jura, uma promessa, um canto!
Sufocar dentro
d’alma o pássaro das ânsias
Que deseja espalmar
nas siderais distâncias
A plumagem do afeto
a gotejar lamentos…
Dirigir para além,
como visões dispersas,
Emoções, madrigais,
palpitações, conversas
Que falaram de amor
— ao diapasão dos ventos!
Sentir em
redemoinho as folhas secas, lívidas
Da derradeira
fronde… inolvidáveis dívidas
Que o peito
contraiu quando alguém disse ADEUS!
Guardar no solo
ardente da alma descampada
As sombras do
rochedo… a cicatriz magoada
Que a dor deixa no
olhar dos tristes Prometeus!
[Ilustração: Carl Vilhelm Holsoe]
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