25 março 2025

Ucrânia: e agora?

Para onde vai a guerra na Ucrânia?
“Se a Ucrânia conseguiu sustentar esses três anos de guerra isso se deve, em grande medida, ao apoio militar e financeiro dos Estados Unidos.”
Luís Antônio Paulino/Vermelho  

Quem imagina que a Guerra na Ucrânia é jogo jogado pode estar se precipitando. Os recentes acontecimentos e seus desdobramentos, nomeadamente o bate-boca entre Zelenskyy, Trump e J. D. Vance no Salão Oval da Casa Branca, na frente de toda a imprensa norte-americana e mundial e o posterior anúncio da suspensão da ajuda militar dos Estados Unidos pode levar a crer que Zelenskyy selou o seu destino e de seu país.

Afinal, se a Ucrânia conseguiu sustentar esses três anos de guerra isso se deve, em grande medida, ao apoio militar e financeiro dos Estados Unidos. Sem o apoio americano, mesmo que a ajuda dos aliados europeus continue, fica muito difícil fazer frente à poderosa máquina de guerra russa. Apenas os Estados Unidos têm, por exemplo, mísseis capazes de interceptar os mísseis hipersônicos e balísticos da Rússia que chovem sobre as cidades ucranianas. Além disso, como observou a revista The Economist, “Os principais elementos do apoio dos EUA não são apenas as armas, são também a capacidade de fazer sua manutenção e os reparos necessários; os mísseis de defesa antiaérea que mantêm as cidades funcionando; o sistema Starlink fundamental para comunicações militares; e o compartilhamento de inteligência, que pode ser o mais crítico de todos”[1]

 Seria, contudo, um equívoco imaginar que os norte-americanos desistiram do negócio e estão entregando a Ucrânia de mão beijada para Putin. Se o comportamento de Trump nessas cinco semanas iniciais de governo pode ser usado como parâmetro, a Ucrânia para os norte-americanos se tornou apenas um grande negócio e, como disse Trump para Zelenskyy no fatídico bate-boca, você não tem as cartas na mão. Na verdade, a frase de Trump deve ser entendida não na relação entre Ucrânia e Rússia, mas entre Ucrânia e Estados Unidos. A Ucrânia está nas mãos de Trump e Zelenskyy é como um rato acuado por um enorme gato num beco sem saída.

O que Trump quer em troca de defender a existência da Ucrânia é que ela aliene suas riquezas minerais para os Estados Unidos. Fora isso, para Trump pouco importa se a Ucrania vai continuar a existir ou vai se tornar parte da Rússia como ele já falou. Os ucranianos estão sem saída. A ideia dos europeus assumirem sozinhos a defesa da Ucrânia é fantasiosa e perigosa para a Europa que nunca se preparou para isso, confiante no guarda-chuva protetor dos Estados Unidos por meio da Otan.

O que Trump quer é que Zelenskyy assine o acordo mineral transferindo para os norte-americanos o equivalente a US$ 500 bilhões em recursos minerais, nomeadamente as chamadas terras raras, elementos valiosos nas novas indústrias de alta tecnologia. Se Zelenskyy assinar, Trump terá algum incentivo para tentar barrar o avanço russo e, quem sabe, recuperar parte do que já foi tomado. Na verdade ninguém sabe ao certo o que é o tal acordo de paz que americanos e russos acertaram entre si no encontro que tiveram na Arábia Saudita. A única coisa que se pode ter certeza é que, certamente, envolve negócios. O que todos esperam agora é um humilde pedido de desculpas de Zelenskyy e sua assinatura no acordo.


[1] https://www.economist.com/europe/2025/03/03/donald-trumps-chokehold-on-ukraine

Leia: O que se sabe do acordo para que EUA tenham acesso a minerais da Ucrânia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/03/acordo-eua-ucrania.html

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