Sensível: uma lição na vida
Abraham
B. Sicsu
“Tudo que se recebe pode ser levado”. A frase não me sai da cabeça. Num filme que tem leituras, interpretações. A perda de um filho. Dor insuportável, angústia que acompanha a vida, sofrimento que não se dissolve. Superação, se possível, somente pela arte.
Segunda feira à tarde. O cinema deve estar vazio. Nada melhor para fazer. Para lá vou. Ledo engano. Época de férias. Jovens e seus companheiros com demonstrações amorosas. Muitos ociosos como eu. Aposentados nem se fala.
Muita pipoca e confeitos para atrapalhar o olfato e a audição. Sem contar com a luz enervante das lanternas dos celulares para encontrar o assento ou para atender chamadas inoportunas. Abstraio para poder me concentrar na tela.
Agnes, mulher, principal personagem, atriz fantástica. A bruxa, a feiticeira. Sua interpretação comove. A ligação com a natureza, com as plantas, com os animais. O falcão, símbolo de força e poder, mas também de amizade e companheirismo. A mãe protetora, umbilicalmente ligada aos filhos, à família. Mulher que não se afasta de suas raízes por saber que sua razão de existir lá se encontra.
William Shakespeare, o ator, o escritor, o artista maior. Sua busca pela perfeição, seu desejo de exprimir, na arte, sentimentos que nem todos conseguimos ter.
Um ator primoroso, que consegue passar seu mundo interior nos palcos londrinos, nos afagos familiares. A interpretação faz com que entremos no personagem.
A trama se passa centrada na perda de um filho que cumpre a promessa feita ao pai de cuidar da família, da mãe, das irmãs. Promessa que não pode ser rompida. Promessa que o leva, simbolicamente, em época de peste, a assumir o lugar da irmã. Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, o filme.
Um filme para ser visto. Uma tragédia que leva ao insuportável: a perda de um filho de 11 anos. Perda que na visualização do artista leva à criação de uma peça memorável da literatura universal, Hamlet, peça retratando como o luto transforma o personagem na busca de compreensão do infortúnio, na necessidade de destruição de todos os “fantasmas”.
O silêncio, a dor profunda, a revolta, somente podem ser vividos com o surgimento de algo maior internalizado, o amor e admiração pelo companheiro que fica e não nos abandona. Companheiro que em sua obra apresenta tudo o que seu coração sentiu, seu infortúnio com a perda.
Companheiro, o único a quem podia culpar pela ausência, mesmo que irracionalmente, o único que pode dar uma saída, aquele que com a arte fez com que os pensamentos se transformassem e ganhassem perspectivas enriquecedoras, esperança e crença de que não foi necessariamente em vão, deve ter havido uma razão não decifrável claramente, razão para continuar a caminhada.
Perda, morte, sentimento feminino de maternidade, reações humanas, tudo isso com uma doçura e busca que numa obra de cinema encontra sua morada, com uma leitura nada convencional.
Uma tarde que me foi gratificante. Recomendo verem.
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