29 janeiro 2026

Palavra de poeta

Manhã
Mia Couto   

Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo
 
Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar
 
Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão
 
Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira
 
A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos
 
Educadamente mortos
 
[Ilustração: Norberto Nicola]
 
Leia também: A estrela, um poema de Manuel Bandeira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_22.html 

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