14 julho 2026

Palavra de poeta

Lápide

Ariano Suassuna   

Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alanceado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.

Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.

Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido

que, em vão — Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao sol do Mundo!

[Iustração: Gilvan Sanico]

Fotografia: 'A vida num clic' https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_37.html 

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