A “mudança impossível”: como Lula
virou o jogo e garantiu a redução da jornada
Mobilização
sindical, pressão popular e empenho de Lula foram decisivos para levar a pauta
dos trabalhadores ao centro da agenda nacional
André Cintra/Vermelho
Uma
medida aprovada com o voto favorável de 75 senadores (e apenas um contrário)
poderá passar para a história como um avanço inevitável, uma obra quase natural
de nosso tempo, conquistada sem sobressaltos. Nada mais falso no caso da
Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que encerra a escala 6×1 e
abre caminho para a jornada de trabalho de 40 horas semanais, sem redução
salarial.
Para
viabilizar o maior – e mais surpreendente – legado trabalhista de seus
mandatos, Lula precisou incorporar à agenda do governo uma reivindicação que
não figurava entre as prioridades explícitas de sua campanha de 2022. O programa
de governo da chapa Lula-Alckmin previa a ampliação de direitos e a valorização
do trabalho – mas não cogitava mudanças dessa magnitude na jornada. A campanha
entendia que, em nome da formação de uma frente ampla para derrotar o
bolsonarismo e reconstruir o Brasil, a bandeira das 40 horas afastaria apoios
importantes.
Para
piorar, o governo iniciado em 2023 enfrentava três adversidades que pareciam
tornar a redução da jornada uma “mudança impossível”. Primeiro, os entraves
históricos para avançar na pauta do trabalho. Desde a “Constituição Cidadã” de
1988 – que reduziu o limite de 48 para 44 horas semanais, fortaleceu a
negociação coletiva e ampliou o arcabouço de direitos –, a classe trabalhadora
brasileira vem enfrentando um longo período de defensiva estratégica. A redução
da jornada, por sua vez, foi relegada a segundo plano.
As
últimas décadas foram marcadas por ofensivas neoliberais que retiraram
direitos, como se viu na reforma trabalhista de 2017 e na reforma da
Previdência de 2019. Algumas conquistas no período recente, como a PEC das
Domésticas e os pisos do Magistério e da Enfermagem, mantiveram recortes
específicos por categoria. São avanços que merecem ser valorizados, mas que não
tiveram o mesmo alcance universal de uma mudança constitucional aplicável ao
conjunto dos trabalhadores.
A
segunda adversidade para Lula estava no cenário ainda sombrio para o movimento
sindical no pós-reforma trabalhista. Embora as centrais tenham mantido a
unidade e promovido duas importantes Conferências Nacionais da Classe
Trabalhadora (Conclat), em 2022 e 2026, a ofensiva antissindical limitava sua
atuação. A frustrante celebração do Dia do Trabalhador de 2024, com pautas
demais e público de menos, acendeu ainda mais o sinal de alerta: como correr
contra o tempo – e a dispersão – para pressionar o governo a avançar na pauta
dos trabalhadores?
Por
fim, o terceiro governo Lula estava diante de um Congresso mais conservador e
empoderado, invariavelmente hostil às pautas sociais. A chamada “bancada
sindical” – que contava com 83 deputados federais e dez senadores na
legislatura 2011-2015 – estava reduzida a cerca de 20% dessa representação. Os
presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e da Câmara, Hugo
Motta (Republicanos-PB), davam sinais dúbios sobre o compromisso com a agenda
do governo.
A
isso se soma a mudança do humor do eleitorado em relação a Lula – tanto o
governo quanto o presidente passaram a sofrer queda na popularidade a partir de
2024. Avanços como o Desenrola Brasil e a isenção no imposto de renda para quem
ganha até R$ 5 mil tinham apoio popular, mas não foram suficientes, por si sós,
para reverter a tendência observada nas pesquisas.
Em
menos de dois anos, porém, o jogo virou. Um dos marcos foi a ascensão, em 2023,
do Movimento VAT (Vida Além do Trabalho). Uma petição pública lançada naquele
ano pelo grupo – e endereçado ao Congresso Nacional – recebeu 3 milhões de
assinaturas. Entre as propostas do abaixo-assinado estava a “revisão da escala
de trabalho 6×1 e a implementação de alternativas que promovam uma jornada de
trabalho mais equilibrada”.
Entre
2024 e 2025, parlamentares como Erika Hilton (PSOL-SP) e Daiana Santos
(PCdoB-RS) lançaram propostas na Câmara para reduzir a jornada de trabalho e
proibir escalas com seis dias de atividade e apenas um de descanso numa mesma
semana. Seus projetos dialogavam com outras iniciativas que tramitaram no
Congresso desde a década de 1990.
A
reivindicação foi incorporada pelos movimentos sindical e social. Em abril de
2025, as Frentes Brasil Popular e Povo sem Medo anunciaram o Plebiscito
Popular. Ao mesmo tempo, as centrais sindicais anunciaram que o fim da escala
6×1 seria uma das pautas do 1º de Maio daquele ano.
Foi
em 30 de abril de 2025, na véspera do Dia do Trabalhador, que Lula se
comprometeu pela primeira vez com essa causa, num pronunciamento em cadeia
nacional de rádio e TV. “Vamos aprofundar o debate sobre a redução da jornada
de trabalho vigente no país, em que o trabalhador e a trabalhadora passam seis
dias no serviço e têm apenas um dia de descanso”, disse o presidente. “Está na
hora do Brasil dar esse passo, ouvindo todos os setores da sociedade, para
permitir um equilíbrio entre a vida profissional e o bem-estar de trabalhadores
e trabalhadoras.”
Pesquisas
de opinião pública passaram a mostrar um amplo apoio a essa luta. No último dia
27 de maio, a Câmara aprovou a PEC 221/19 por amplíssima maioria (por 461 votos
a favor e 19 contra no primeiro turno – e 472 votos a favor e 22 contra no
segundo). Os atritos entre Lula e Alcolumbre postergaram a votação no Senado.
Temia-se que, se a proposta fosse votada após o primeiro turno, senadores já
reeleitos se sentissem menos pressionados a apoiar as reivindicações.
Mas
Lula contornou bem a situação. Diante de um segundo turno equilibrado contra
Flávio Bolsonaro (PL), o presidente constrangeu publicamente seu adversário e
dissipou o risco de manobras de última hora. A longa sessão que aprovou a PEC
foi marcada por declarações generalizadas de apoio à redução da jornada e ao
fim da escala 6×1. Parte da bancada bolsonarista ainda tentou relativizar o
peso de Lula na aprovação da medida – mas essa conquista tem DNA.
A
mobilização sindical e social, a pressão popular e o empenho de Lula foram
decisivos para levar a pauta dos trabalhadores ao centro da agenda nacional. A
trajetória dessa PEC oferece uma lição política fundamental: mesmo em períodos
defensivos, lutar continua sendo indispensável. Direitos não surgem
espontaneamente, tampouco são concedidos sem resistência pelos setores que se
beneficiam da exploração do trabalho. São resultado de organização, disputa
política e capacidade de transformar reivindicações coletivas em conquistas
institucionais.
Os
trabalhadores venceram porque ousaram pautar o que parecia distante, foram às
ruas e encontraram no governo federal um aliado disposto a bancar a disputa. A
aprovação da redução da jornada não resolve todos os problemas do mundo do
trabalho. Permanecerão os desafios da informalidade, da pejotização, da
terceirização precarizante, dos baixos salários e das dificuldades de
organização sindical. Mas a vitória abre um novo horizonte para a classe
trabalhadora.
Duas coisas da campanha de agora https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0613695841.html

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