Neofascismo sofre duro revés nos Estados Unidos
A derrota do trumpismo teve o povo como protagonista e deriva de mais um fracasso do imperialismo estadunidense de tentar reverter o declínio, dessa vez pelo extremismo de direita
Editorial do 'Vermelho'
Os eleitores estadunidenses impuseram, em 3 de novembro de 2026, uma derrota de grandes proporções ao governo de Donald Trump e ao seu Partido Republicano nas eleições de meio de mandato, retirando-lhe o controle da Câmara dos Representantes e do Senado e transferindo aos democratas a maioria nas duas casas do Congresso, em uma reconfiguração política que atingiu inclusive redutos historicamente ligados ao campo republicano. A mobilização vitoriosa da oposição reuniu jovens, trabalhadores, ampla maioria do eleitorado latino, republicanos que romperam com Trump e eleitores sem filiação ou identificação partidária.
Em dois anos, fugiu dos pés de Trump uma maioria social e política que fora capturada com a pregação ilusionista, típica do fascismo, de uma América grande outra vez e da restauração do “sonho americano” de prosperidade reduzido a pesadelo pela perda de dinamismo de sua economia sob a corrosão do rentismo e do parasitismo.
Trump, agora, se esquiva da derrota. Todavia, em cerca de vinte comícios fez um apelo para que o eleitorado votasse como se o nome dele estivesse grafado nas cédulas. Por entender de que era, exatamente, disso que se tratava, grande parte do povo rechaçou as candidaturas do Partido Republicano.
O desgaste do trumpismo ficou nítido nos índices de sua desaprovação. Levantamento do instituto estadunidense Pew Research Center, realizado entre 28 de setembro e 4 de outubro de 2026, revelou que 68% dos adultos desaprovavam a gestão de Trump. Sua conduta neofascista também é amplamente rejeitada. Levantamento do Public Religion Research Institute, em parceria com a Brookings Institution, revelou que 58% dos estadunidenses consideravam o presidente um ditador potencialmente perigoso, cujo poder deve ser limitado para impedir a destruição da democracia.
A pesquisa identificou que 61% manifestavam opinião desfavorável ao seu MAGA (Make America Great Again) – Fazer a América Grande Novamente –, um movimento de extrema-direita. Uma pesquisa da Universidade Yale também identificou ampla oposição à prática de Trump de afrontar decisões judiciais, perseguir adversários políticos por meio do Departamento de Justiça e contornar prerrogativas do Congresso.
A ofensiva contra as universidades também é amplamente rejeitada. Pesquisas nacionais registraram oposição majoritária aos cortes de financiamento científico, à interferência governamental na autonomia acadêmica e à utilização de recursos federais como instrumento de pressão política. Em levantamento divulgado em outubro de 2025, 64% dos estadunidenses rejeitaram cortes nas verbas de pesquisa científica, enquanto 70% defenderam que decisões sobre admissões, contratação de professores e currículos permanecessem sob responsabilidade das próprias instituições.
O trumpismo perdeu terreno em seu alicerce institucional e territorial. A derrota republicana não se limitou ao Capitólio. A onda eleitoral alcançou os governos estaduais, com a conquista democrata de pelo menos cinco governos antes controlados pelos republicanos, inclusive em redutos tradicionais da direita, como o Texas. Os democratas também avançaram nas assembleias legislativas estaduais, romperam maiorias republicanas e conquistaram governos estaduais completos em importantes unidades da Federação.
O resultado refletiu a convergência de fatores econômicos, sociais e geopolíticos, como o custo de vida pressionado pela inflação, os efeitos dos tarifaços sobre os preços e o consumo e a política de guerras. Trump voltou à Casa Branca em 2025, com maioria republicana nas duas casas do Congresso, prometendo restaurar a supremacia estadunidense, reverter a decadência do império e conter a ascensão da China. Dizia que faria a “América” grande novamente por meio da reindustrialização, do protecionismo, dos tarifaços e do fechamento das fronteiras aos imigrantes. Essa conduta só fez aumentar as contradições de uma economia financeirizada, socialmente desigual e altamente belicosa.
O fracasso é retumbante. A promessa de recuperar empregos industriais, trazer de volta as fábricas transferidas para o exterior e elevar os salários dos trabalhadores com a reindustrialização do país fez água. Os tarifaços não reverteram a perda de competitividade industrial, pressionaram os preços e agravaram a insegurança econômica.
A inflação e o custo de vida elevado permaneceram, enquanto a deportação em massa de imigrantes provocou indignação local e mundial pela brutalidade das operações conduzidas pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE), além de aprofundar as dificuldades de setores produtivos que dependem desses trabalhadores. A ofensiva contra a China tampouco conteve a sua influência econômica, tecnológica e diplomática, nem impediu a ampliação de suas parcerias internacionais, inclusive na Europa.
O resultado das eleições expressa nitidamente a composição social predominante do eleitorado que rejeitou o trumpismo. De acordo com o jornal The Washington Post, mais de 60% dos latinos votaram nos democratas, enquanto, entre os eleitores negros, a votação oscilou entre 83% e 90%. As mulheres deram aos democratas 56% dos votos, contra 41% aos republicanos. Entre os jovens de 18 a 29 anos, a vantagem foi ainda mais acentuada, com votação democrata entre 66% e 70%, diante de 25% a 31% para os republicanos.
É importante considerar que o pujante movimento que se contrapôs ao trumpismo não se organizou somente pelas estruturas do Partido Democrata. Foi construído, em grande medida, por uma rede descentralizada de sindicatos, organizações comunitárias, movimentos de juventude, entidades de defesa dos direitos civis e associações progressistas, que estabeleceram formas próprias de mobilização, comunicação e organização eleitoral. Foi uma vitória com forte marca da tomada de posição do povo e da sociedade civil.
A resistência também se manifestou nas grandes mobilizações populares contra as políticas do governo, articulando reivindicações distintas em torno da defesa dos direitos civis, da proteção aos imigrantes, da igualdade racial e dos direitos das mulheres. O assassinato de George Floyd, em maio de 2020, constituiu um ponto de inflexão nessa dinâmica. A brutalidade policial desencadeou uma das maiores ondas de mobilização popular da história recente dos Estados Unidos.
É relevante que, no coração de um império em decadência, o maior inimigo da paz e dos povos, se manifeste essa tomada de posição do povo em defesa da paz, contra o genocídio do povo palestino, contra a política de guerra, de repulsa à verdadeira caçada aos imigrantes, contra o fascismo pela democracia, por direitos e melhor qualidade de vida e de combate aos ganhos fabulosos dos bilionários. Se o fascismo perde base social passa faltar-lhe oxigênio e tende a declinar.
O resultado das eleições estadunidenses reflete uma superpotência encurralada que não encontra caminho para reverter o declínio em contraface à ascensão assertiva da República Popular da China, independentemente do inquilino da Casa Branca. Mas é um forte sinal positivo para o mundo, posto que representa um revés para a ascensão do neofascismo.
Para o Brasil, tem o significado de fortalecimento da posição do país na geopolítica. Como observou o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, há uma relação entre a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais e a derrota do trumpismo. Esse reforço amplia a margem do presidente Lula para interlocução com autoridades mundiais, inclusive explorando as contradições que se agravam no status quo dos Estados Unidos.
Mas é preciso fazer a ressalva de que a presente derrota não equivale a um atestado de óbito de Trump. Ele tende a reagir. Ele respondeu à perda do Congresso com a imagem de um boné vermelho estampado com a palavra Veto, uma ameaça de uso do seu poder presidencial para barrar projetos aprovados pelos democratas. Disse que tem ciência de que a guerra contra o Irã lhe impôs a derrota, mas que não se arrepende de nada e faria tudo outra vez.
O próprio Partido Democrata, cuja política fracassada foi um dos fatores da eleição de Trump, em 2024, tem feito uma oposição tíbia e vacilante, resultado de sua essência programática imperialista tanto quanto a dos republicanos, embora tenha personalidades e alas que destoam e se conflitam com esse paradigma. As contradições internas e externas do império, que levam a um declínio cada vez mais acentuado, tendem a se agravar e o caminho da resistência é a mobilização do povo, como ficou demonstrado mais uma vez.
Nas redes, mas nem tanto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/meu-dialogo-digital.html

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