07 novembro 2026

Sérgio Barroso opina

Aproximações a uma vitória eleitoral espetacular!
As burocracias dos partidos de esquerda e das organizações de massas no Brasil foram alertadas e sacudidas como nunca, nesse segundo turno de outubro de 2026: ou se revitalizam ou tenderão ao pântano
A. Sérgio Barroso/Portal Grabois      

1. No primeiro turno, nas eleições gerais de 2026, a desmoralização dos ‘institutos’ de pesquisa foi catarse pura. Rio de Janeiro, São Paulo e Minas, os maiores colégios eleitorais desse nosso imenso Brasil, eles fracassaram completamente. Nada preciso falar sobre o que calculavam sobre a votação de Benedita da Silva, ao Senado, ou de Paes ao governo – nada. Reduzir o resultado geral à abstenção a ‘movimentos de última hora’ é mentir novamente: ela foi praticamente igual à de 2022. Embora cada eleição seja complexa em tempos ideológicos reacionários e tenha as suas especificidades acentuadas. Note-se: mesmo no 2º turno, apenas Vox Brasil e Coleccta se aproximaram do resultado (Lula 51,49%, contra 48,21%).

2. A incompetência total do governo Lula 3, em manejar as mídias de redes a seu favor ou em abrir canais concretos, para contra-atacar a avalanche organizada do “Brasil Paralelo”, foi uma espécie de tentativa suicida (frustrada). A grave subestimação ocorre desde 2018, quando o mafioso Bannon e a “Cambridge Analytica” (britânica) manipularam abertamente em favor de J. Bolsonaro; a criação da rede paralela de contrainformação decidiu a eleição do neofascista pai. O desatino da direção desta campanha de Lula foi sintetizado por ele mesmo: “Nunca vi uma eleição tão desorganizada!” Óbvio que foi muito pior que isto.

3. Tanto que somente no 2º turno buscou-se recuperar. Foi necessário que o deputado Janones (Rede) comandasse uma pequena revolução algorítmica nas redes, em favor de Lula.    Recordemos que, desde que Arthur Lira engavetou o projeto de regulamentação das big techs, de autoria de Orlando Silva (PCdoB), a ação de formação sistemática da “dissonância cognitiva” foi completamente subestimada: ela correu solta e ampliou, em muito, suas conexões nos dois turnos desta eleição.

4. É muito provável que não haja, no planeta Terra, meios de comunicação tão hegemonicamente escravocratas como os do Brasil. Depois de ter sido o que eles mesmos, em grande medida, divulgaram sobre o candidato neofascista-entreguista-ladrão-miliciano, ao igualá-lo – na qualificação da disputa – ao presidente Lula, tornou repugnante a descarada proposição ideologizada: uma indignidade medieval. Depois do “escritório do crime” e suas relações diretas com o candidato bolsonarinho; assim como desvelado a sua simbiose total entre a banca magnificamente corrupta e degenerada de Vorcaro, ter-se tratado os dois principais candidatos como iguais é algo maníaco. Apenas o Estadão registrou o sério risco em sua eleição, alertando, em editorial, para a ascensão das milícias ao Planalto. Logo este, campeão em vocalizar golpes de Estado, ademais de ser anti-Lula sempre.

Problemas de fundo

5. Observe-se: entre fevereiro e maio deste ano, o G1 publicou estarrecedoras reportagens sobre o crime organizado no Brasil: um relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pesquisa do Datafolha constatando que 41,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais registram a presença do crime organizado no bairro onde moram. Este é um dos principais componentes que trituram as esperanças de praticamente todas as camadas sociais do país. Inferniza-se a vida do povo, diariamente. Insegurança completa, medo. Todos os governos Lula e Dilma – agravando-se muito em Temer e Bolsonaro – sabiam desse monstruoso processo, já tardio, e nada fizeram. Às pressas, saindo do Ministério da Justiça, Lewandowski apresenta seu pacote contra o crime organizado (10/2025).

6. Ao lado da desindustrialização (precoce), do espraiar do trabalho semi-escravo (“precário”), o Brasil continuou a ter um salário mínimo menor que o da Bolívia e do Paraguai (em dólares ou reais), apesar dos esforços de Lula. Com o chamado “arcabouço fiscal”, a regra do S.M. é inflação (INPC) + crescimento do PIB (2 anos antes), porém com o ganho real restrito ao teto de até 2,5%. A presidência de G. Galípolo no Banco Central revelou-se verdadeiro fiasco, incapaz de contornar a taxa básica de juros continuamente das mais altas do mundo. Na onda de falências e recuperações judiciais, atingiu-se o recorde histórico com mais de 6.300 empresas em recuperação judicial no segundo trimestre do ano. Evidente: a pequena subida na renda média do trabalho e o relativamente baixo desemprego não foram suficientes para garantir uma adesão popular forte ao governo Lula 3.

7. A propósito, e como afirmamos, o sistema financeiro brasileiro em sua conformação atual está estruturalmente desalinhado com as necessidades do desenvolvimento nacional. O domínio de poucos bancos privados, os spreads exorbitantes, a preferência pelo endividamento das famílias em detrimento do crédito às empresas e as lacunas do financiamento de longo prazo não são fenômenos acidentais, mas expressões de uma construção histórica de dominação da oligarquia financeira  sobre  as  alavancas  da  economia brasileira. Esse padrão se reproduz por meio de um regime de política monetária que, ao elevar os juros como resposta única e ineficiente às pressões inflacionárias, trava o investimento e aprofunda a heterogeneidade estrutural do país ao dificultar a transformação produtiva e tecnológica (SANTOS e BARROSO, 2026) [1].

Desenlace

8. Pouco a pouco, durante a campanha, o candidato neofascista foi revelado como um verdadeiro crápula – já era fazia muito tempo. Um clima de desespero tomou conta de várias camadas e frações de classes no Brasil: um horizonte de destruição das conquistas sociais, o vilipêndio da nação frente ao império americano, o ambiente real de violência organizado, sistematicamente, pelo governo do pai do candidato Bolsonaro deram combustível suficiente para o espoucar duma rebelião da juventude brasileira: um “tsunami” a favor de Lula! Levante que nada teve de “espontâneo”: foi a maior mobilização política juvenil desde a grande onda dos “caras-pintadas”, contra Collor de Mello. A propósito, quem esquece as lições universais de Lênin acerca dos diversos níveis de consciência social (“Que fazer?”, 1901-2) não vai compreender as fases das lutas de classes e as etapas de sua inteligibilidade.

9. A junção inesperada entre a mobilização juvenil e poderosa e fulminante ofensiva nas redes comandada por Janones, lavraram o desvelamento de duas questões políticas fundamentais (prospectivas): a) a incontestável era da digitalização da vida social reserva o anonimato e a derrota ideológica de quaisquer movimentos que dela se ausentem; b) as burocracias dos partidos de esquerda e das organizações de massas no Brasil foram alertadas e sacudidas como nunca, nesse segundo turno de outubro de 2026: ou se revitalizam ou tenderão ao pântano.

10. De outra parte, num cenário de grandes tensões na reorganização fascista, todo discurso catastrofista (“Trump prepara a invasão americana”, “guerra híbrida”, “a América Latina está tomada pelo fascismo”, “a esquerda morreu”…) foi revelador de um acovardamento ideológico inusitado. Amedrontados(as), até comunistas revigoraram a surrada narrativa escatológica, rediviva em toda circunstância de desorientação, frise-se. O sequestro do presidente eleito da Venezuela Nicolás Maduro – traição abjeta comprovada, comandada pelo (hoje presidiário) general Javier Tábata, implicante na morte de 32 agentes de inteligência cubanos – serviu, então, ao objetivo estratégico da desestabilização e ao terror, internacionalmente. Aprazada, sem qualquer dúvida, a derrota legislativa do neofascista pedófilo “das américas”, logo após a eleição de Lula, ajudou a desfazer desilusões.

11. A eleição de 11 deputados federais pelo PCdoB é o que se pode denominar de paradoxo desse pleito nacional; ademais de uma antinomia ao argumentado sobre o ‘medo’, no item 10. Relativamente, a legenda na esquerda que mais cresceu!  Num Congresso hegemonicamente mais reacionário que o atual, a forte ampliação da bancada do único partido marxista e leninista do Brasil revela-se da maior importância. Chama a atenção o forte discurso avançado e combativo dos(as) novatos(as) Giovana Mondardo (SC; 114.792 votos), Olivia Santana (BA; 123.359 votos) e Elias Jabbour (RJ; 103.119 votos), de caráter antifascista, desenvolvimentista e socialista. O PCdoB terá maior visibilidade parlamentar nacional, questão estratégica crucial para os embates frente aos enormes desafios do governo Lula 4.

A identidade comunista do PCdoB também assim se renova: porta-vozes revolucionários do futuro entranhados no presente, nas singularidades nacionais desta frondosa árvore chamada Brasil!

Nota

[1] Ver o artigo Elementos para uma reforma do sistema financeiro brasileiro, publicado na revista Princípios.

​​​​​​​A. Sergio Barroso é médico, doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade de Campinas (Unicamp), membro do Comitê Central do PCdoB e coordenador do Grupo de Pesquisa Problemas e desafios contemporâneos da teoria marxista da Fundação Maurício Grabois (FMG).

Leia também: Vencemos. E agora? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/minha-opiniao.html

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