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03 dezembro 2024

Eólicas & saúde coletiva

Como as eólicas devastam a saúde de comunidades
Em comunidade pernambucana, pesquisadores registraram: 54% têm problemas auditivos, 49% desenvolveram alergias, 70% utilizam medicamentos diversos. SUS não está preparado. Novas fontes de energia são essenciais, mas governo precisa ser muito mais rigoroso com as empresas
Wanessa Gomes em entrevista a Gabriel Brito/Outras Palavras  

O que se tratava, inicialmente, de um trabalho de campo de Saúde Coletiva e Agroecologia, acabou por se transformar na descoberta de impactos socioambientais gerados por projetos de energia renovável. Essa é a síntese da pesquisa liderada por Wanessa Gomes, professora da Universidade de Pernambuco no campus de Garanhuns, e André Monteiro, da Fiocruz.

Iniciado em 2020, o projeto de residência em Saúde Coletiva das instituições universitárias visava atender territórios quilombolas e de transição agroecológica. Os pesquisadores acabaram por constatar que tais comunidades têm suas vidas social e produtiva inviabilizadas pelas usinas de energia eólica. O processo de adoecimento é quase generalizado, o Estado e o SUS são ausentes e as empresas descumprem suas promessas de progresso econômico com dividendos sociais. Um enredo bastante conhecido, agora com a roupagem da sustentabilidade. 

“Pensamos em observar questões de saúde mental, mas já descobrimos que existem outras doenças aqui, inclusive catalogadas no CID. É o caso da Síndrome da Turbina Eólica (STE) e a doença vibroacústica (DVA)”, contou Wanessa Gomes, em entrevista ao Outra Saúde.

Como relata, os índices de adoecimento são assombrosos. “Observamos que mais 54% das pessoas relataram alteração na acuidade auditiva, 31% incômodo visual por causa das sombras da torre (o efeito estroboscópico), e 49% apresentaram alergias, pois havia alteração da água. Segundo as pessoas entrevistadas, os moradores desenvolvem tais alergias em razão do que chamam ‘fogo branco’ que sai das torres de turbinas, a fuligem cai no teto das casas e vai para a cisterna com a água da chuva”, relatou.

Ao longo do trabalho de campo, os pesquisadores se depararam com os efeitos diretos da chamada “autorregulação dos mercados”, notoriamente apoiada pela direção do Estado brasileiro nos últimos anos, que tornou os Estudos de Impacto Ambiental um trâmite burocrático alheio às evidências científicas. Na prática, não há estudos reais de impactos.  

“É preciso ter diálogo, porque essas empresas chegam trazendo promessas de que as comunidades vão contribuir para o desenvolvimento do país, não tem impacto nenhum etc. Tal discurso é aceito, até pela falta de falta de conhecimento dos impactos dessas torres. Isso está acontecendo agora em vários outros municípios, a exemplo de Serra Talhada (PE), onde as torres impactam comunidades”.

Apesar de já se reconhecerem problemas derivados do ruído das turbinas, os efeitos em saúde vão muito além. Há variadas doenças desenvolvidas em razão do estresse e da piora da qualidade de vida. E o SUS local, como relata Wanessa Gomes, ainda não responde à altura das necessidades das pessoas afetadas.

“Todos os mutirões de atendimento em saúde aconteceram com ajuda de profissionais das universidades, parceiros, Médicos e Médicas Sem Fronteiras, Médicas(os) do MST, mas os profissionais da unidade de saúde que cobre esse território não participaram em nenhum momento, mesmo sendo convidados. A comunidade reclama muito da falta de assistência, inclusive a falta de medicações, a exemplo da alergia à agua. Elas têm de pagar consultas em dermatologistas e comprar medicação por conta própria”, lamentou.

Do lado das empresas, apenas reuniões e pouca ação de reparação. Além da necessidade de reassentamento a pelo menos 2 quilômetros de distância dos parques eólicos, Wanessa Gomes critica a falta de compartilhamento da riqueza econômica ali gerada. Por sinal, algumas donas de empreendimentos são as mesmas multinacionais que comandam fontes de energia “suja” das matrizes mais tradicionais, como a AES.

“Precisamos desmistificar a ideia de que fontes renováveis de energia não têm impacto ambiental. Quando o poder público tiver essa consciência começará a exigir estudos antes da implantação dos empreendimentos, que hoje funcionam ao bel prazer das empresas, que negociam e impõem seus interesses com uma discrepância enorme de conhecimento entre as partes”, resumiu.

Confira a entrevista completa com Wanessa Gomes.

Primeiramente, como funciona sua linha de pesquisa em saúde coletiva em Garanhuns, nas áreas que contam com projetos de exploração de energia eólica?

Começou em 2020, depois de um chamado da própria comunidade e de movimentos sociais que atuam nas áreas vulnerabilizadas por usinas eólicas, em especial a Comissão Pastoral da Terra. Fomos convidados a conhecer os territórios atingidos pelos empreendimentos eólicos. Antes, atuávamos em Lagoinha e Pau Ferro, que são alguns sítios do município de Caetés. Fizemos o diagnóstico territorial, começamos a entrevistar pessoas e ouvir seus relatos.

Em 2022, fomos a uma reunião na comunidade de Sobradinho, outro sítio também em Caetés, onde ficamos chocados com as situações relacionadas ao meio ambiente e ao território, os animais locais, o sumiço das abelhas e dos sapos, e o incômodo do ruído das turbinas. Em Sobradinho, foram umas 15 famílias conversar conosco e todas tinham sacolas com várias medicações, principalmente medicações para dormir, benzodiazepínicos, ansiolíticos….

Quais os efeitos principais gerados na saúde da população? Já podemos dizer que relacionar seus efeitos apenas à saúde mental é uma noção obsoleta?

Ficamos chocados, víamos as pessoas chorarem, mostrarem muita tristeza… Foi um marco pra entendermos que havia algo a mais a afetar aquela comunidade. Percebemos que as pessoas tinham muitas questões relacionadas à saúde. Por meio de um edital do Inova Fiocruz, conseguimos aprovar um projeto de pesquisa na região, com duração de três anos, até o fim de 2025. Depois, esperamos iniciar outros projetos porque esta pesquisa abriu um leque de questões desconhecidas. Pensamos em observar questões de saúde mental, mas já descobrimos que existem outras doenças aqui, inclusive catalogadas no CID (Cadastro Internacional de Doenças). É o caso da Síndrome da Turbina Eólica (STE) e a Doença Vibroacústica (DVA).

Quando começamos a estudá-las e escutar os moradores da região, vemos que os sintomas coincidem com a descrição de tais síndromes. Escolhemos a comunidade de Sobradinho para iniciar a pesquisa. Passamos em todas as casas, fizemos um diagnóstico em saúde e observamos que mais 54% das pessoas relataram alteração na acuidade auditiva, 31% incômodo visual por causa das sombras da torre (o efeito estroboscópico), e 49% apresentaram alergias, pois havia alteração da água. 

Segundo as pessoas entrevistadas, os moradores desenvolvem tais alergias em razão do que chamam “fogo branco” que sai das torres de turbinas, a fuligem cai no teto das casas e vai para a cisterna com a água da chuva. Muitas pessoas não usam mais a água das cisternas.

Fizemos dois mutirões de saúde, uma equipe multiprofissional, médicos, enfermeiros, fonoaudiólogos, psicólogos, uma grande diversidade de profissionais e seguimos acompanhando. Alguns dados são gritantes, como o fato de 70% da população usar algum medicamento de forma contínua oito anos depois das chegadas das torres; 64% utilizam a medicação para conseguir dormir, isso é muito alto para uma comunidade rural, mais ainda quando se trata desde crianças a idosos. Existe um conjunto de efeitos em saúde física e mental. Se as pessoas não estão conseguindo dormir, desenvolvem transtornos como ansiedade e depressão, além do próprio cansaço e estresse. Também pode se levar à hipertensão e doenças associadas.

Além de tudo isso, que são doenças provocadas pelo ruído audível, tem o ruído inaudível, que são os infrassons, sons abaixo de 20 Hz que também provocam problemas no corpo e na saúde, tanto humana quanto animal e vegetal. É uma espécie de vibração que as torres provocam, muito comum em aeroportos, e que também têm efeitos como hipertensão arterial. Causam ainda problemas endócrinos, porque aumentam produção de colágeno e elastina, coisas já comprovadas. São essas as condições que criam a doença vibroacústica.

Já a síndrome da turbina eólica é causada tanto por infrassons quanto pelos sons audíveis. Fizemos um estudo em parceria com a Uncisal, de Alagoas, no qual se fez uma audiometria e um diagnóstico da situação local. Enviamos o diagnóstico para as empresas que exploram essa matriz energética na área e elas tratam como se ainda não fosse algo cientificamente certo. Mas são pesquisas qualitativas que relatam sinais e sintomas e sua correlação com as usinas eólicas.

Neste ano, começamos nova etapa da pesquisa, com exames para avaliar perda auditiva, já relatada por muitas pessoas nos 31 exames que já fizemos até hoje. Dessas 31 pessoas que participaram, 82% dos participantes relataram dificuldade na compreensão auditiva, e aí com os testes vimos que quase 80% apresentam a diminuição da acuidade auditiva em pelo menos um dos ouvidos.

Também iniciaremos testes relacionados à saúde bucal, porque aqui temos outro aspecto gerado pelo estresse e a perda do sono devido ao ruído, que é o bruxismo, uma disfunção da articulação temporomandibular, causa ranger e travar de dentes, com consequentes lesões cariosas e até quebra de alguns dentes. Por fim, as equipes de saúde mental estão iniciando um trabalho de pesquisa e mapeamento de condições relacionadas às turbinas eólicas.

O SUS se preparou para lidar com isso? Como é a absorção destas pessoas pelo sistema de saúde?

É complicado. Ao menos em Caetés tivemos apoio da secretaria de saúde para atuar no território, porém, em termos estruturais precisamos de mutirões para ter uma estrutura de atendimento, pois tivemos até de levar macas e montar consultórios na casa das pessoas. Mas falta um apoio efetivo de profissionais.

Todos esses mutirões aconteceram com ajuda de profissionais das universidades, parceiros, Médicos e Médicas Sem Fronteiras, Médicas(os) do MST, mas os profissionais da unidade de saúde que cobre esse território não participaram em nenhum momento, mesmo sendo convidados. A comunidade reclama muito da falta de assistência, inclusive a falta de medicações, a exemplo da alergia à agua que vêm relatando. Elas têm de pagar consultas em dermatologistas e comprar medicação por conta própria.

Vimos o caso de uma senhora que precisou fazer empréstimo no banco para poder se tratar dessa alergia, além da compra de ansiolíticos e remédios para dormir, que muitas vezes não tem na unidade de saúde. O SUS local não vem conseguindo olhar para a especificidade das comunidades.

E o que fazem as empresas que exploram o negócio da energia eólica? Tem alguma relação de assistência com as pessoas afetadas?

Elas têm estado presentes fazendo pesquisas. Já houve algumas reuniões em grupo e as pessoas relatam que não suportam mais a presença da empresa só para fazer levantamento, sem nenhuma atitude realmente relacionada ao que estão passando. As empresas até aparecem nos territórios, mas ainda não fizeram nenhuma ação concreta de mitigação dos efeitos das usinas eólicas.

Quais as soluções mais recomendáveis, de acordo com a percepção que vocês desenvolveram nos trabalhos de campo?

Uma das coisas importantes a ressalvar é que não somos contra a energia renovável nem eólica. Questionamos a forma como o Brasil implementa esse tipo de fonte de energia, prejudicial a uma parcela da população.

Uma das coisas que observamos a partir da pesquisa e do relato das pessoas é a distância de uma torre para uma residência e a comunidade, porque essas pessoas são camponesas, não vivem dentro de casa e saem para trabalhar; há todo um modo de vida delas naquele território. Portanto, deve se olhar a distância dos próprios roçados para as torres, é fundamental.

Nessa comunidade de Sobradinho, conseguimos mapear uma distância máxima de 900 metros, a mínima era de 100, só que aí, com muita luta, já conseguimos realocar as pessoas que estavam abaixo de 200 metros, a partir de denúncias ao Ministério Público. Um relatório da Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) de Pernambuco afirma que as empresas deveriam resolver os problemas das pessoas que vivem a menos de um quilômetro das turbinas, porque todas estão sofrendo as consequências.

Sugerimos uma distância mínima de dois quilômetros, até porque já vimos na literatura que até 1,5 km há afetação por infrassons. Um outro ponto é a questão do Estudo de Impacto Ambiental – Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA), pois hoje não existe legislação no Brasil a obrigar um EIA-RIMA antes da implantação de um parque de usina eólica.

Por fim, é preciso ter diálogo, porque essas empresas chegam trazendo promessas de que as comunidades vão contribuir para o desenvolvimento do país, não tem impacto nenhum etc. Tal discurso é aceito, até pela falta de falta de conhecimento dos impactos dessas torres. Isso está acontecendo agora em vários outros municípios, a exemplo de Serra Talhada, onde as torres impactam comunidades.

O discurso da empresa é muito bonito, só fala em benefícios, mas ignora as dificuldades, o incômodo que essas torres vão causar. E os afetados reais não são ouvidos, e sim moradores de vizinhanças menos atingidas ou que recebem um dinheiro e saem do território, enquanto quem fica não chega a assinar acordo algum e não é ouvido. É necessário pensar estratégias para implantação de torres social e ambientalmente responsáveis.

E ainda assim, para além do debate de saúde, entrando até no debate socioeconômico, esses projetos de energia renovável estão reproduzindo os velhos projetos das tradicionais fontes de energia elétrica, porque geram grandes impactos no território, extraem uma grande riqueza econômica e financeira e no final tal riqueza passa muito longe daquela comunidade. A contrapartida é muito baixa.

São duas facetas de prejuízo econômico, portanto, uma vez que as atividades locais também são prejudicadas, além de vermos lucros totalmente privatizados que não se evidenciam em melhorias dos serviços públicos.

Como dito no início, todo esse trabalho começou em função do acompanhamento de empreendimentos locais de agroecologia. As torres acabam mudando todo o ecossistema da região, os agricultores relatam perdas de produtividade, a criação de animais também é prejudicada, porque os animais sofrem com o estresse do ruído… Eles dizem, por exemplo, que as galinhas colocam metade dos ovos de anteriormente e dificilmente um deles se torna um pintinho, é quase um milagre. Já existem repercussões evidentes no modo de vida e na renda das famílias que produzem perto de usinas eólicas.

Em suma, precisamos desmistificar a ideia de que fontes renováveis de energia não têm impacto ambiental. Quando o poder público tiver essa consciência começará a exigir estudos antes da implantação de tais empreendimento. Hoje, funcionam ao bel prazer das empresas, que negociam e impõem seus interesses em cima de desinformação dos afetados, com uma discrepância enorme de conhecimento entre as partes. O Estado precisa estar no meio e proteger seus habitantes.

Uma coisa que nos impressionou neste trabalho de campo é que no final de nossa pesquisa com os moradores, fazíamos a seguinte pergunta: “Qual o seu sonho?” A principal resposta era: “sair do território. Antes essa terra era meu sonho, mas não quero mais morar aqui, não consigo viver”.  

Foto: Arnaldo Sete / Marco Zero Conteúdo

Leia também: comunidades pobres sem energia elétrica https://lucianosiqueira.blogspot.com/search?q=e%C3%B3licas

18 junho 2025

Maioria parlamentar contra o povo

Congresso ataca governo e prejudica o povo com medida que aumenta conta de luz
Em sessão conjunta, parlamentares derrubaram uma série de vetos do governo, entre os quais um que poderá elevar a tarifa de energia, prejudicando especialmente os mais pobres
Priscila Lobregatte/Vermelho 

Dominado pela direita, cuja prioridade tem sido inviabilizar o governo Lula, o Congresso Nacional derrubou, nesta terça-feira (17), uma série de vetos presidenciais, dentre os quais um que poderá prejudicar diretamente a população e beneficiar empresários do setor elétrico. Os parlamentares restabeleceram “jabutis” colocados por eles mesmos na lei que trata de investimentos em usinas eólicas em alto-mar.

Com a retomada desses jabutis — elementos estranhos à pauta original, em geral colocadas para satisfazer interesses de parlamentares e lobbies — fica estabelecida a contratação compulsórias de energia de pequenas centrais hidrelétricas mesmo que não haja demanda para isso. Atualmente, isso só ocorre se houver necessidade de abastecimento.

Além disso, a matéria determina a contratação de hidrogênio líquido a partir do etanol na Região Nordeste e de eólicas na Região Sul e a prorrogação contratual, por 20 anos, de contratos de compra de energia do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa).

Com esse conjunto de medidas, as contas de luz podem ter um aumento de pelo menos 3,5% para os consumidores, segundo estimativas divulgadas pela Frente Nacional dos Consumidores de Energia (FNCE) e pela Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace Energia).

Considerando esse percentual, as entidades argumentam que a retomada desses pontos pode gerar um impacto de R$ 197 bilhões (ou R$ 7,8 bilhões) até 2050.

Ainda falta votar outros trechos que, somados, podem gerar custos adicionais de R$ 348 bilhões: a extensão do prazo para contratação de usinas a carvão; a obrigação de pagar por energia de térmicas a gás e a manutenção dos subsídios à energia solar.

Após a aprovação final do projeto pelo Senado no final do ano, o governo federal sinalizou que vetaria esses pontos no início de 2025.

Na ocasião, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que a recomendação pelo veto foi geral entre os ministérios envolvidos no projeto — Fazenda, Minas e Energia, Desenvolvimento e Meio Ambiente.

“Todos os ministérios que se manifestaram foram unânimes em relação a isso [ao veto dos jabutis], inclusive porque há um grave prejuízo à economia popular. Há um problema efetivo de que a conta de luz das pessoas mais pobres seja afetada por essa decisão”, declarou Haddad.

Na votação do marco regulatório para a energia eólica, em dezembro, o Senado manteve três artigos inseridos pela Câmara dos Deputados que beneficiam termelétricas a carvão e a gás natural, que são mais caras. As medidas acabaram sendo incluídas no texto, mesmo sob protesto de entidades ambientais, das próprias empresas de energia e dos alertas do governo.

Outras derrubadas

Ainda nesta terça-feira, outros vetos foram derrubados. Dois deles, beneficiaram a bancada ruralista. Um diz respeito à dispensa de registro prévio para insumos agrícolas produzidos por agricultores para uso próprio.

Outro trata do autocontrole agropecuário, agrotóxicos e licitações, com dispositivos ligados à “desburocratização” e flexibilização de normas que acabaram sendo retomados, em vitória da bancada do agro e do setor produtivo.

O Congresso também decidiu pela rejeição do veto que permitiria a cobrança dos novos impostos sobre consumo em fundos de investimento. Com isso, foi retomada a isenção de cobrança dos novos Impostos sobre Valor Agregado (IVAs), criados pela reforma tributária, a Fundos de Investimento do Agronegócio e (Fiagros) e Fundos Imobiliários (FIIs), o que também beneficia o setor do agronegócio.

Também foi derrubado o veto ao projeto de lei que prevê pensão vitalícia a pessoas com deficiência causada pelo vírus Zika durante a gestação. Neste caso, houve acordo para essa mudança. Segundo o líder do Governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), o veto havia sido estabelecido devido à Lei de Responsabilidade Fiscal, que estabelece que matéria sem fonte financeira deve ser vetada, sob o risco de haver crime nesta seara. “O presidente determinou para a gente encontrar a solução e encontramos”, disse, justificando a nova posição. Com isso, essas pessoas passarão a receber pensão vitalícia de R$ 7.786,02.

Outro veto derrubado estabelece a correção do Fundo Partidário anualmente de acordo com a variação acumulada do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Também foi rejeitado veto relativo a pesquisas com seres humanos — os parlamentares retomaram a determinação de o Ministério Público ser comunicado sobre a participação de integrantes de grupo indígena em pesquisas. (Com agências).

[Se comentar, assine]

Leia: O busílis da questão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/minha-opiniao_16.html 

09 dezembro 2025

Ciência & soberania

Terras raras e soberania: o elo invisível entre ciência, indústria e poder
A entrada em operação da Serra Verde é um marco: faz do Brasil o único produtor ativo de terras raras fora da Ásia, mas também expõe limites estruturais. A falta de domínio tecnológico e o processamento final realizado na China mostram que o Brasil ainda exporta minério, não inteligência mineral
CELSO PINTO DE MELO*/A Terra é Redonda  

“O subdesenvolvimento não é uma etapa, mas uma forma de organização do sistema produtivo mundial.” Celso Furtado, O mito do desenvolvimento econômico (1974)

Embora não sejam escassas na crosta terrestre, as terras raras tornaram-se sinônimo de disputa estratégica no século XXI. A designação inclui dezessete elementos químicos – do lantânio ao lutécio, além do ítrio e do escândio – fundamentais à produção de ímãs permanentes, turbinas eólicas, motores elétricos, sensores, lasers e dispositivos de comunicação.

O caráter “raro” desses elementos não se deve à escassez na natureza, e sim à complexidade de separá-los entre si devido à semelhança química que apresentam. A extração e o refino exigem processos caros, complexos e de alto impacto ambiental, marcados pelo uso intensivo de ácidos e solventes e pela geração de rejeitos tóxicos e radioativos (Hurst, 2010). É justamente aí que reside o poder geopolítico: poucos países dominam essas etapas críticas.

Nos anos 1980, os Estados Unidos eram o maior produtor mundial, concentrando suas operações em Mountain Pass, na Califórnia. A partir da década seguinte, a China consolidou um domínio quase absoluto sobre a cadeia, integrando mineração, separação química e manufatura (Mancheri, 2012). O país construiu esse controle combinando planejamento estatal, investimento em pesquisa e políticas industriais de longo prazo.

O exemplo de Bayan Obo, na Mongólia Interior, é emblemático. Em 1992, ao visitar a região, local de uma das maiores minas de terras raras da China, Deng Xiaoping declarou: “O Oriente Médio tem petróleo; a China tem terras raras.” A frase aludia ao fato de o país deter mais de 30% das reservas mundiais desses minérios (Seth, 2024). Ali, o governo chinês passou a estruturar um complexo industrial completo – da extração mineral ao refino e à fabricação de ligas, ímãs e dispositivos de alta tecnologia – e formou técnicos e engenheiros especializados (Mancheri et al., 2019). O resultado foi um monopólio de fato: hoje, a China responde por cerca de 70 % da produção mundial de óxidos de terras raras e por mais de 90 % dos ímãs de alto desempenho.

A dependência externa de grandes economias industriais – como Estados Unidos, Japão e países da União Europeia – tornou-se evidente em 2019, quando Pequim restringiu a exportação de metais usados em ímãs de defesa em meio às tensões comerciais com Washington. Naquele ano, cerca de 88% das exportações chinesas de terras raras destinaram-se a apenas cinco países – Estados Unidos, Japão, Holanda, Coreia do Sul e Itália, evidenciando a forte concentração e a interdependência assimétrica que marcam o setor. Essa configuração torna os importadores vulneráveis a choques comerciais ou geopolíticos – pelo risco de desabastecimento – e a própria China dependente de poucos compradores estratégicos.

Em 2025, a China ampliou o controle com uma diretiva que impôs licença prévia para exportações não só de terras raras, mas também de produtos fabricados no exterior que utilizem insumos de origem chinesa – estendendo seu poder regulatório a toda a cadeia global. Controlar as terras raras é, em última instância, controlar o ritmo da inovação tecnológica – dos motores elétricos e turbinas eólicas aos chips, sensores e sistemas de defesa que definem a economia do século XXI.

No Brasil, a história começou cedo, mas foi interrompida – e, em certos momentos, sabotada. Já nos anos 1940, a Orquima S.A., fundada em São Paulo por imigrantes austríacos liderados pelo químico Pawel Krumholz, iniciou o tratamento industrial de areias monazíticas ricas em tório, lantânio e európio [i] (Rosental, 2005).

A empresa dominou, com recursos essencialmente nacionais, processos de separação e purificação por precipitação fracionada e troca iônica, alcançando feitos notáveis: em 1951, Krumholz e sua equipe conseguiram produzir óxido de európio com pureza superior a 99%, algo que nem mesmo os laboratórios americanos e franceses haviam obtido na época (Serra, 2011). Isso colocou o Brasil, ainda que por breve período, na vanguarda mundial da química das terras raras. No entanto, a falta de apoio estatal e o interesse geopolítico estrangeiro nos minerais radioativos da monazita levaram à desativação gradual da planta.

Pressões internacionais, especialmente dos Estados Unidos, que buscavam controlar o fornecimento global de tório para fins nucleares, acabaram por restringir a continuidade das operações. Nos anos seguintes, milhares de toneladas de concentrados de monazita foram contrabandeadas para os Estados Unidos e o Reino Unido, com conivência de intermediários privados e inércia das autoridades (Lopes; Bourguignon, 2015). O episódio, amplamente denunciado à época pelo Almirante Álvaro Alberto, então presidente do Conselho Nacional de Pesquisas, revelou a falta de visão estratégica e a fragilidade do Estado brasileiro em proteger recursos de alto valor científico e militar (Saraiva, 2007).

A Orquima acabou incorporada à Nuclemon – Minérios Monazíticos S.A., estatal criada em 1958 e vinculada à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). A Nuclemon chegou a dominar a extração e parte da separação de terras raras e tório, mas a ausência de uma política industrial consistente levou à sua desativação no fim dos anos 1980 – encerrando um dos raros esforços nacionais de verticalização tecnológica e domínio autônomo nessa área.

Entre 1993 e 1996, a Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e o Instituto de Engenharia Nuclear (IEN/CNEN) criaram a Unidade de Desenvolvimento de Solventes, para recuperar o conhecimento perdido sobre processos de separação (CETEM, 2015). A iniciativa ocorreu num contexto de forte dependência tecnológica: as patentes das principais empresas japonesas – Shin-Etsu, Sumitomo, Showa Denko, Mitsubishi – concentravam os extratantes e as modelagens cinéticas. Como observou Paulo Sérgio Moreira Salles, do CETEM, “operar não é dominar” – uma síntese do dilema brasileiro entre a execução técnica e a autonomia científica (Salles, 2015).

Nas últimas décadas, o Brasil voltou a reconhecer o potencial estratégico de suas reservas – nos carbonatitos de Araxá e Catalão, em Minas Gerais e Goiás, e nas areias monazíticas do Nordeste. Essas formações têm composição geológica complementar à das jazidas chinesas, dominadas por argilas iônicas: enquanto a China concentra terras raras leves em depósitos rasos, o Brasil reúne minérios ricos em elementos pesados, de maior valor tecnológico (USGS, 2024).

Abre-se hoje uma oportunidade geopolítica singular: sob a liderança dos Estados Unidos, os países do bloco ocidental buscam reduzir sua dependência crítica da China no ciclo produtivo das terras raras. Com reservas expressivas, matriz energética limpa e estabilidade institucional, o Brasil reúne condições únicas para firmar parcerias que não apenas ampliem sua inserção internacional, mas também lhe permitam alcançar novos patamares tecnológicos e de soberania produtiva (de Melo, 2025).

Nosso desafio é romper o ciclo histórico de exportar concentrados brutos e importar produtos de alto valor agregado. Isso exige reconstruir a cadeia produtiva completa, da prospecção ao produto final, o que inclui o domínio de quatro tecnologias-chave: a abertura química (cracking), a separação elementar por extração líquido-líquido, a metalurgia das ligas e a fabricação de ímãs e componentes. São nessas etapas – e não na mineração em si – que se concentram o conhecimento, o valor e a autonomia.

Alguns passos recentes apontam para uma retomada institucional. Em 2024, foi apresentado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 2780/2024, que propõe a criação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e de um Comitê Interministerial para coordenar o tema (Silva et al., 2024). No ano seguinte, o Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM) foi instalado, ligado diretamente à Presidência da República. Essas medidas são ainda iniciais, mas sinalizam uma compreensão mais ampla de que a soberania tecnológica depende da governança dos recursos materiais.

O caso norte-americano reforça a lição. Desde 1939, os Estados Unidos mantêm um programa de estoques estratégicos de minerais críticos (National Defense Stockpile), hoje avaliado em cerca de US$ 1,3 bilhão (Keys, 2023). O objetivo é reduzir a vulnerabilidade em caso de ruptura nas cadeias de suprimento (Coughlan, 2024) – um reconhecimento explícito de que a segurança industrial é parte inseparável da defesa nacional.

No Brasil, falta uma estratégia semelhante. Em 2025, o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE, 2025) atualizou seu roteiro nacional para as terras raras, originalmente dividido em três fases (CGEE, 2013). A Fase 1 (2012–2020), dedicada à formação de capacidades científicas e institucionais, avançou pouco por falta de coordenação e incentivos industriais. A Fase 2 (2021–2025) previa a transição da pesquisa à produção, impulsionada pela mina Serra Verde, em Minaçu (GO), e por investimentos externos de cerca de US$ 150 milhões, mas permaneceu sem políticas de refino, metalurgia e manufatura local. A Fase 3 (2026–2030) projeta dobrar a produção, instalar plantas de separação e refino, criar centros nacionais de referência e integrar o país às cadeias industriais de energia, mobilidad e e defesa.

A entrada em operação da Serra Verde é um marco: faz do Brasil o único produtor ativo de terras raras fora da Ásia, mas também expõe limites estruturais. O controle acionário, privado e majoritariamente estrangeiro [ii], e a tecnologia proprietária, baseada em processos convencionais para argilas iônicas e sem garantias de transferência de know-how, mantêm o país dependente. A falta de domínio tecnológico e o processamento final realizado na China mostram que o Brasil ainda exporta minério, não inteligência mineral. O desafio é transformar a capacidade de produzir em capacidade de compreender e inovar, alcançando o domínio das tecnologias que geram bens de alto valor agregado.

Ainda que existam amplas reservas conhecidas e competência científica acumulada em instituições públicas, o país continua dependente de importações em praticamente todas as etapas de separação e manufatura. Soberania, nesse campo, significa integrar ciência, indústria e Estado numa política de longo prazo.

Nesse sentido, destaca-se o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Terras Raras, que entre 2018 e 2025 articulou universidades, centros de pesquisa e indústria para integrar todas as etapas da cadeia produtiva – da extração ao refino e à fabricação de superímãs (INCT, 2025). O programa desenvolveu métodos nacionais de separação e refino, aperfeiçoou processos metalúrgicos e iniciou, em escala piloto, a produção de ligas e ímãs de neodímio-ferro-boro (NdFeB) com desempenho comparável a protótipos internacionais. Seu principal legado é o LabFabITR, hoje incorporado ao CIT-Senai de Lagoa Santa (MG) – o primeiro laboratório-fábrica nacional de ímãs de terras raras, voltado à formação de especialistas e à redução da dependência tecnoló gica externa. Projetos associados, envolvendo WEG, Vale e Stellantis, apontam para a consolidação de um ecossistema nacional de manufatura de ímãs e motores elétricos, capaz de marcar a transição do país da fase de operar para a de dominar a inteligência mineral.

Iniciativas como o CIT-Senai de Lagoa Santa ilustram o caminho para a autonomia industrial brasileira, ao combinar produção mineral e inovação local. Essa integração – do subsolo à indústria – é o que pode finalmente transformar o Brasil de exportador de concentrados em produtor soberano de conhecimento e tecnologia aplicada.

Articular a cadeia das terras raras – da prospecção geológica ao refino, metalurgia e fabricação de componentes de alta tecnologia – exige mais do que capital: requer continuidade institucional, formação de quadros técnicos, planejamento de demanda e coordenação interministerial. A experiência do ciclo nuclear brasileiro mostra que isso é possível. O domínio do enriquecimento de urânio, obtido após décadas de pesquisa, demonstra que o Brasil pode desenvolver tecnologias sensíveis com autonomia e transparência (World Nuclear Association, 2025). O mesmo princípio vale para as terras raras: sem uma política de Estado que una ciência, indústria e estratégia, a mineração continuará sendo apenas o prólogo de nossa dependência.

*Celso Pinto de Melo é doutor em Física pela University of California, Professor Titular aposentado da UFPE e Pesquisador 1-A do CNPq.

Referências

CETEM. Histórico das pesquisas em terras raras no Brasil. Rio de Janeiro: Centro de Tecnologia Mineral, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, 2015.

CENTRO DE GESTÃO E ESTUDOS ESTRATÉGICOS (CGEE). Usos e aplicações de terras raras no Brasil: 2012–2030. Brasília: CGEE, 2013. 254 p. ISBN 978-85-60755-64-6.

CGEE – Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. Terras Raras no Brasil: Estratégia Nacional (2012–2030) – Proposta de Atualização 2025. Brasília: CGEE, 2025. Disponível em: https://www.cgee.org.br/.

COUGHLAN, Peter J. (org.). Mining for the Future: The Critical Role of Strategic Materials in U.S. National Security. Washington, D.C.: National Defense University, Eisenhower School for National Security and Resource Strategy, 2024. Disponível em: https://ndu.edu/.

DE MELO, Celso Pinto. Terras raras e parcerias: o Brasil entre a dependência e a cooperação estratégica. Jornal GGN, 06 nov. 2025. Disponível neste link.

HURST, Cindy. China’s Rare Earth Elements Industry: What Can the West Learn? Washington, DC: Institute for the Analysis of Global Security (IAGS), 2010.

INCT-PÁTRIA – INSTITUTO NACIONAL DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE TERRAS RARAS. Resumo estendido dos resultados do INCT Terras Raras (2018–2025). Brasília: CNPq/MCTI, 2025. 54 p. Disponível em: https://inctpatria.cnpq.br/.

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Disponível em: https://mineralis.cetem.gov.br/bitstream/cetem/2113/1/Terras_Raras_no_Brasil_2015.pdf.

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SILVA, Z.; BRAGA, K.; RAMOS, D.; CARNEIRO, L. Projeto de Lei n.º 2780/2024: institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Câmara dos Deputados, Brasília, 2024.

WORLD NUCLEAR ASSOCIATION. Nuclear power in Brazil. London: World Nuclear Association, 2025. Disponível em: https://world-nuclear.org/information-library/country-profiles/countries-a-f/brazil.


[i] O tório ocorre naturalmente junto às terras raras em minerais como a monazita. Nos anos 1940, seu potencial como combustível nuclear fez dele um dos elementos estratégicos que impulsionaram o interesse industrial por areias monazíticas.

[ii] A Denham Capital, um fundo americano de investimento em participações (private equity), é seu investidor âncora.

[Se comentar, identifique-se]

Leia também: Terras raras: por que evitar aproximação com os EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/reservas-estrategicas.html 

26 abril 2024

Petrobras para quem?

Por que Petrobras é petroleira que mais paga dividendos para acionistas no mundo?

Mariana Schreiber/BBC

 

A distribuição de dividendos (remuneração aos acionistas com parcela do lucro) pela Petrobras virou alvo de intensa discórdia, após a empresa ampliar fortemente esses pagamentos em 2022 e 2023, período em que se destacou como a petroleira que mais pagou dividendos no mundo (US$ 57,6 bilhões).

De um lado, parte do governo e grupos que defendem o papel central da estatal no desenvolvimento do país querem que a empresa reduza o pagamento aos acionistas para ampliar seus investimentos, por exemplo, com a construção de novas refinarias (unidades que transformam óleo bruto em combustíveis) e fontes alternativas de energia.

De outro lado, analistas de mercado e acionistas da empresa defendem que a empresa mantenha o alto patamar de distribuição de dividendos, o que torna suas ações mais atrativas. Eles argumentam que a empresa já tem um nível elevado de investimentos e que certos projetos de interesse do governo, como as refinarias, não seriam lucrativos.

Em meio a essa disputa, os acionistas da empresa aprovaram nesta quinta-feira (25/04) distribuir R$ 21,95 bilhões em dividendos extraordinários, referentes aos lucros de 2023, depois que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tentou bloquear a liberação desses recursos em março.
 

A distribuição de dividendos (remuneração aos acionistas com parcela do lucro) pela Petrobras virou alvo de intensa discórdia, após a empresa ampliar fortemente esses pagamentos em 2022 e 2023, período em que se destacou como a petroleira que mais pagou dividendos no mundo (US$ 57,6 bilhões).

De um lado, parte do governo e grupos que defendem o papel central da estatal no desenvolvimento do país querem que a empresa reduza o pagamento aos acionistas para ampliar seus investimentos, por exemplo, com a construção de novas refinarias (unidades que transformam óleo bruto em combustíveis) e fontes alternativas de energia.

De outro lado, analistas de mercado e acionistas da empresa defendem que a empresa mantenha o alto patamar de distribuição de dividendos, o que torna suas ações mais atrativas. Eles argumentam que a empresa já tem um nível elevado de investimentos e que certos projetos de interesse do governo, como as refinarias, não seriam lucrativos.

Em meio a essa disputa, os acionistas da empresa aprovaram nesta quinta-feira (25/04) distribuir R$ 21,95 bilhões em dividendos extraordinários, referentes aos lucros de 2023, depois que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tentou bloquear a liberação desses recursos em março.
 

Os dividendos extraordinários são aqueles pagos além do mínimo previsto em regras de mercado e da própria empresa. A Petrobras já havia anunciado um total de R$ 72,4 bilhões em dividendo ordinários referentes aos ganhos de 2023, parte dos quais já foi paga no ano passado.

A aprovação do pagamento extra agora reflete um recuo do Palácio do Planalto, após as ações da estatal levarem um tombo de 10% em um dia, no mês passado, devido à insatisfação do mercado com a decisão inicial.

Embora a Petrobras seja uma companhia de capital aberto, a União mantém controle acionário da empresa e, por isso, é determinante na decisão de liberação desses recursos.

No entanto, a mudança de rumo não deixa de ter um lado positivo para o governo. Como maior acionista da Petrobras, a União deve receber R$ 6 bilhões dos dividendos extras liberados, valor que pode contribuir para reduzir o rombo nas contas federais.

Nos últimos dois anos, os valores recebidos somaram R$ 83,9 bilhões.

Por que Petrobras se tornou a maior pagadora?

Levantamento do especialista em dados financeiros Einar Rivero, da Elos Ayta Consultoria, para a BBC News Brasil, mostra que os dividendos distribuídos pela Petrobras tiveram forte alta nos últimos três anos.

A estatal pagou R$ 72,7 bilhões em 2021, R$ 194,6 bilhões em 2022, e R$ 98,2 bilhões em 2023.

Considerando os valores em dólar, a empresa aparece como a maior pagadora de dividendos entre as grandes petroleiras nos dois últimos anos, quando os desembolsos somaram US$ 57,6 bilhões, superando em muito as outras três maiores pagadoras no período, como Exxon Mobil (US$ 29,8 bilhões), Chevron (US$ 22,3 bilhões) e Petrochina. (US$ 20,4 bilhões).

Os valores contabilizados por Einar Rivero representam o que de fato saiu do caixa da empresa no período, em dividendos e juros sob capital próprio (um outro tipo de dividendo). Parte do que é pago em um ano é referente aos ganhos do exercício anterior, e assim sucessivamente.

A quantia total paga de 2021 a 2023 (R$ 365,5 bilhões) é seis vezes maior do que tudo que foi distribuído entre 2010 e 2020 (R$ 59,3 bilhões).

O aumento recente reflete a maior lucratividade da empresa — em momento de disparada da cotação do petróleo — e a decisão de guardar uma parte menor desses ganhos para investimentos.

A Petrobras registrou seus dois maiores lucros da história em 2022 (R$ 188,3 bilhões) e 2023 (R$ 124,6 bilhões). Nesse período, investiu quase R$ 25 bilhões em 2022 e R$ 42,2 bilhões em 2023.

São números expressivos, mas bem abaixo do registrado entre 2010 e 2015 (média anual de R$ 77,1 bilhões em investimentos), durante o governo Dilma Rousseff (PT).

Foi um período marcado por fortes investimentos para a exploração das reservas de petróleo no pré-sal, mas também por projetos controversos, como obras com desvios de recursos, escândalo revelado pela operação Lava Jato.

Para o engenheiro químico Felipe Coutinho, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET), esses altos investimentos feitos anos atrás se refletem na alta dos lucros hoje. Na sua visão, a política de reduzir investimentos e maximizar o pagamento de dividendos não é sustentável para a empresa.

Ele nota que, ao mesmo tempo que os dividendos pagos são os maiores do mundo, os investimentos dos últimos anos ficaram abaixo das principais concorrentes.

"O dividendo que é distribuído hoje, o lucro que é gerado hoje, é resultado do investimento do passado", afirma.

"Então, se você não faz investimento na proporção necessária para encontrar petróleo na mesma medida que você esgota (as reservas), se não investe para agregar valor ao petróleo com refino, transporte e comercialização, se não investe na petroquímica, se não investe no que vai te gerar receita futura, na verdade você compromete o futuro da empresa", argumenta.

Críticos da gestão da empresa durantes os primeiros governos petistas reconhecem a importância dos investimentos para exploração do pré-sal, mas avaliam que outros projetos tocados pela Petrobras seguiram mais a visão política do governo, do que uma avaliação do que seria a forma mais rentável de aplicar os ganhos da companhia.

Para esse grupo, decisões erradas de investimentos, o controle dos preços dos combustíveis (quando a Petrobras vende gasolina e diesel a preços menores do que os praticados internacionalmente) e os impactos dos escândalos de corrupção são fatores que explicam os quatro anos em que a empresa registrou prejuízos, somando mais de R$ 70 bilhões em perdas de 2014 a 2017.

"Em 2015, devido a todos os escândalos, a Petrobras não pagou dividendos. E em 2016 e 2017, o valor somado foi de R$ 777 milhões, o que para a Petrobras é nada", nota Rivero.

Na sua avaliação, os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro promoveram a retomada dos dividendos, com um patamar razoável de investimento, com média anual de R$ 28 bilhões entre 2017 e 2022.

"Poderia se deduzir (dos números): uma empresa saneada, posteriormente a todos os escândalos, conseguiu investir e, além de investir, pagar ainda dividendos", afirma.

'Dividendos altos refletem riscos maiores', diz professor

Para o professor de finanças Rafael Schiozer, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP), as ações da empresa desabaram em março porque os acionistas entenderam que o governo estaria segurando caixa para fazer "investimentos de cunho político, que não se pagam, com retorno menor que o custo de capital da empresa".

"São investimentos fora da área core (principal negócio) da Petrobras, em que a Petrobras realmente é muito competente, que são a exploração e produção no pré-sal. Por exemplo, a Petrobras não tem retorno muito bom nesses projetos de refino. Os últimos, inclusive, destruíram valor (da empresa)", argumenta.

Para Schiozer, o que é insustentável não é a empresa deixar de investir, mas alocar recursos em projetos que não são rentáveis. Na sua avaliação, os recordes em pagamento de dividendos não são um problema e é natural que a Petrobras pague mais que suas concorrentes.

"Obviamente, uma petroleira num mercado emergente tem que dar retorno maior para o acionista, porque o risco é muito maior. E, no caso da Petrobras, mais ainda, porque ainda tem o risco de influência política", disse.

Na visão do economista Adilson de Oliveira, professor aposentado da UFRJ, a distribuição de dividendos é de interesse da empresa.

"Manter um nível de dividendos razoável é importante para que as pessoas continuem investindo na Petrobras, continuem comprando ações da Petrobras", afirma.

Ele diz que os pagamentos elevados refletem a alta lucratividade da empresa no pré-sal.

"A Petrobras passou a gerar dividendos extraordinários porque o custo de produção da Petrobras no pré-sal é na faixa dos US$ 25 o barril, e ela vende isso há US$ 80 agora, mas chegou a vender a US$ 90", ressalta.

"Então, imagina a margem de lucro monumental que a empresa tem, e o governo, evidentemente, gostaria de se apropriar desses recursos para seus projetos específicos, e não necessariamente os projetos da empresa", acrescenta.

Interesses dos acionistas x interesses do país?

Por trás do embate dos dividendos, há duas visões sobre o papel da Petrobras. Há segmentos da sociedade e do governo que entendem que a estatal, maior empresa brasileira, deve ser usada para alavancar o crescimento do país e garantir segurança energética.

Já outros entendem que a companhia, ao ter ações em bolsa, deve ser gerida com foco em resultados. Na visão desse grupo, o bom desempenho financeiro da empresa traz naturalmente reflexos positivos para a economia e o governo, como a geração de empregos e o pagamento de impostos.

A discórdia sobre os investimentos em refinarias reflete essas diferentes visões.

Para o engenheiro químico Felipe Coutinho, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET), é fundamental que a empresa invista no setor, para reduzir a dependência do país da importação de combustíveis. Hoje, a estatal exporta óleo bruto e importa derivados.

Além disso, ele refuta que a estratégia de investir em refino não seja rentável.

"O resultado do segmento de refino, transporte e comercialização (de combustíveis) varia de acordo com o preço do petróleo. É uma questão contábil. Quando o preço do petróleo está relativamente baixo, a Petrobras, como qualquer outra empresa, registra resultados contábeis maiores nesse segmento", afirma.

"E quando o preço do petróleo está relativamente alto, as empresas registram um desempenho contábil maior na exploração e produção (de óleo bruto). Então, a atuação integrada da Petrobras visa fazer com que a empresa seja rentável e sustentável independente da variação do preço", acrescenta.

O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Pedro Rodrigues, por sua vez, é mais um que crítica os investimentos em refinarias. Na sua visão, porém, o problema não está apenas nesse setor.

Na sua visão, também há projetos ruins na área de transição energética, como a criação de sete usinas eólicas offshore (no mar), em diferentes Estados ao longo da costa brasileira.

"O problema da Petrobras, é que a cada quatro anos (com a mudança de governo), o rumo da empresa muda da água para o vinho. Eu vejo que os investimentos que a nova direção tem indicado tem muito mais retorno político do que retorno econômico", avalia.

"Por exemplo, o volume de dinheiro indicado para a construção de eólicas offshore. Eu nem sei se Siemens tem turbina suficiente para atender esse volume (de energia), ou se o Brasil tem demanda suficiente para esse volume. Então, é uma coisa que não faz sentido", critica.

Nem sempre é o que parece https://bit.ly/3Ye45TD 

11 fevereiro 2023

Eletrobrás

Getúlio, Jango e Lula na luta pela Eletrobrás

“A Eletrobrás tem a memória da criação de Getúlio, tem vida na instalação por Jango e será devolvida ao povo brasileiro na reestatização exigida a Lula pelo povo brasileiro”
João Vicente Goulart*/Hora do Povo

 

“Inserindo-se na linha de uma política esclarecida de emancipação e de desenvolvimento, a Eletrobrás, que está recebendo neste instante a sua autorização de marcha a seu grande destino, é mais um sonho – que se transforma em realidade – do gênio extraordinário e criador do Presidente Vargas, o inexcedível comandante, pioneiro de todas as grandes batalhas pela independência econômica de nossa pátria”.

Este trecho do discurso do Presidente João Goulart foi proferido na instalação de funcionamento da Eletrobrás em 11 de junho de 1962, no Palácio Laranjeiras, ou seja, há mais de 60 anos quando o povo brasileiro ganhava sua companhia estatal sonhada por Vargas.

Já em sua carta testamento, de 1954, afirmou Getúlio: “A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente”. Ou seja, há quase 70 anos atrás, quando o Presidente Getúlio queria a independência energética e soberana para o Brasil.

Depois de quatro anos da implantação da ideologia fascista pelo governo de Bolsonaro, Lula foi reconduzido como a grande esperança de reconstrução da soberania nacional, e sabiamente contando com o apoio popular, fala claramente sobre a dilapidação do patrimônio público que representou a transferência criminosa feita pelas ações de Paulo Guedes e companhia nos setores das empresas publicas entregues a iniciativa privada, em atos de lesa-pátria.

O tal de “mercado”, prontamente, através de seus vassalos da grande imprensa nacional, começa a sancionar suas redações, impondo taciturnamente a defesa criminosa da privatização, a entrega do patrimônio nacional, construído ano após ano, pelo suor e trabalho da nação brasileira.

Disse o Presidente Lula: “Em defesa da soberania e da segurança energética do Brasil, e para evitar que o governo Bolsonaro leve ainda mais nosso país à escuridão, é preciso dizer não à privatização da Eletrobrás”, afirmou Lula, já candidato em 2021.

Reconheçamos, ou melhor, reconheçam os mercadores da privataria, que Lula ganhou a eleição e não vai trair suas propostas, vai fazer o que veio para fazer, o que é necessário denunciar e o que é necessário combater, quando diz que privatizar a Eletrobrás é “entregar de bandeja” esse patrimônio duramente construído pelo povo brasileiro. “É permitir que interesses privados passem a controlar as barragens e as vazões das águas, bem como o acesso a importantes fontes hídricas do nosso país”, afirmou. 

“A Eletrobrás é a maior empresa de energia da América Latina. São 48 usinas hidrelétricas, 62 eólicas, 12 termelétricas, duas termonucleares e uma solar. Além de mais de 70 mil quilômetros de linhas de transmissão, suficientes para dar uma volta e meia ao redor da Terra”, disse Lula.

A Eletrobrás tem a memória da criação de Getúlio, tem vida na instalação por Jango e será devolvida ao povo brasileiro na reestatização exigida a Lula pelo povo brasileiro.

* Presidente do IPG – Instituto João Goulart

Janelas abertas para o mundo https://bit.ly/3Ye45TD

03 fevereiro 2025

Ambiente: China x EUA

Políticas ambientais antagônicas entre China e EUA favorecem indústria chinesa
Foco de Trump em combustíveis fósseis e liderança chinesa em energias limpas devem contrastar suas indústrias e impor influência de Pequim em fóruns como a COP30
Cezar Xavier/Vermelho  

Enquanto a China alcança marcos históricos no desenvolvimento de energias renováveis, os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, seguem em direção oposta, priorizando combustíveis fósseis e retirando incentivos para tecnologias sustentáveis. Esse contraste de políticas não apenas evidencia prioridades divergentes, mas também gera impactos profundos na competitividade industrial e no papel global de ambos os países.

O avanço verde da China

Em 2024, a China superou todas as expectativas ao registrar uma capacidade instalada de energia eólica e solar de 1,4 bilhão de quilowatts, um marco histórico que coloca o país 15% acima das metas estabelecidas para 2030 pelo presidente Xi Jinping. Este crescimento é sustentado por um planejamento estatal agressivo, que inclui a construção de grandes bases de energia renovável em regiões desérticas e o desenvolvimento de turbinas eólicas offshore, como a que recentemente quebrou recordes de geração de energia diária.

Dados divulgados pela Administração Nacional de Energia da China mostram que mais de 80% da nova capacidade instalada em 2024 foi de fontes renováveis, consolidando o país como líder global no setor. Além disso, a China produz 80% dos painéis solares do mundo, contribuindo para a redução global dos custos de energia limpa. Esse avanço reflete não apenas uma preocupação ambiental, mas também uma estratégia econômica, já que a transição para fontes de energia renováveis fortalece a competitividade chinesa em mercados globais emergentes, como o de veículos elétricos.

Conhecida como a fábrica do mundo, a China está entre os maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo. Cerca de 81% de sua energia primária é proveniente de carvão, petróleo ou gás. Mas também é o país que tem aumentado mais rapidamente a capacidade de produção de energia a partir de fontes renováveis nos últimos anos.

O país está instalando mais capacidade de energia solar e eólica do que o resto do mundo combinado e investiu mais de US$ 50 bilhões (R$ 303 bilhões) nessa área de 2011 a 2022, de acordo com dados da AIE (Agência Internacional de Energia).

A retórica fóssil de Trump

Em contraste, os Estados Unidos sob Donald Trump têm reforçado sua dependência de combustíveis fósseis. O presidente reiterou a retirada do país do Acordo de Paris, argumentando que o pacto impõe “perdas econômicas” aos EUA enquanto beneficia a China. Em linha com essa visão, Trump cortou incentivos para veículos elétricos e impôs tarifas sobre materiais de bateria importados, numa tentativa de fortalecer a indústria doméstica baseada em combustíveis fósseis.

Essas medidas, embora alinhadas com interesses de curto prazo das indústrias de petróleo, gás e carvão, arriscam enfraquecer a posição competitiva dos EUA em tecnologias de energia limpa. Segundo Pedro Luiz Côrtes, professor da USP, a decisão reflete uma postura que favorece interesses imediatos, mas compromete o futuro industrial do país. “Sem investimentos em inovação, os EUA correm o risco de ficarem tecnologicamente atrasados em relação a países como a China e membros da União Europeia”, alerta em comentário à Rádio USP.

Apesar da dependência da China de combustíveis, em termos históricos, o primeiro lugar ainda fica com os EUA, responsáveis por 17% das emissões que contribuíram para a crise climática desde 1850 – a China emitiu 12%. No comparativo per capita, as emissões também são muito menores no país asiático: 8,73 toneladas na China contra 14,24 toneladas nos EUA em 2021.

Para Côrtes, a decisão de Trump reflete uma retórica alinhada a interesses da indústria de petróleo, gás e carvão, setores que desempenharam papel crucial em sua campanha política. A retirada do acordo reforça a dependência americana de combustíveis fósseis, enquanto outros países desenvolvem soluções sustentáveis. A China, por exemplo, percebeu que os veículos elétricos representavam uma oportunidade de liderar o mercado automobilístico e reduzir suas próprias emissões, conforme enfatiza o professor.

Impactos para as Indústrias

O antagonismo entre as políticas ambientais dos dois países se reflete diretamente em suas indústrias. A China, ao apostar em energias renováveis, posiciona-se como líder na fabricação de tecnologias verdes, atraindo investimentos globais e reduzindo sua dependência de combustíveis fósseis. Em contrapartida, a indústria americana enfrenta desafios para competir em mercados estratégicos como o de veículos elétricos e infraestrutura sustentável, especialmente sem os subsídios necessários para impulsionar inovações.

Além disso, a postura de Trump gera preocupações com a credibilidade dos EUA em negociações climáticas multilaterais e compromete esforços globais de combate à crise climática. Em um mundo onde a transição energética é cada vez mais urgente, a falta de alinhamento com tendências globais pode isolar os EUA, enquanto a China se consolida como um ator indispensável na agenda climática.

A saída do Acordo também pode impactar a representatividade da COP30, que será realizada no Brasil. Segundo o professor, embora a ausência dos EUA seja preocupante, a importância da Amazônia como bioma global deve atrair um número significativo de países e delegações. “O desafio será garantir a presença de chefes de Estado, especialmente da China, que tem investido fortemente em tecnologias de transição energética”, afirmou.

O futuro da competitividade global

Pequim já superou algumas de suas metas de energia verde. A energia não fóssil, como a solar e a eólica, já representa mais da metade da capacidade total da China – meta anteriormente prevista só para 2025. Até lá, a nação asiática deverá dobrar sua capacidade solar e eólica, ultrapassando sua meta cinco anos antes do previsto, de acordo com um relatório da ONG Global Energy Monitor, sediada em São Francisco (EUA).

Enquanto Pequim já atinge metas antes do prazo, os EUA sob Trump parecem seguir na contramão da transição energética global. A resistência de estados como a Califórnia (e outros 15 estados democratas) demonstra que há movimentos internos alinhados com as demandas por sustentabilidade, mas as ações federais comprometem o progresso geral do país.

A longo prazo, a dependência de combustíveis fósseis pode trazer desvantagens econômicas e tecnológicas para os EUA, enquanto a China colhe os frutos de suas políticas visionárias.

[Foto: Marco do horizonte de Shanghai Bund, usina de painéis solares renováveis ​​de energia ecológica]

Leia também: Emergência climática impacta modelo de desenvolvimento https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/capitalismo-crise-climatica.html

05 abril 2026

Europa submissa

Europa, a capitulação permanente
Raramente os discursos sobre a grandeza da Europa, farol democrático abalado pela onda “populista”, foram tão exaltados. E raramente a União Europeia sofreu tantos reveses em matéria diplomática, estratégica e comercial. Mais ligados ao vínculo transatlântico do que ao interesse das populações, os dirigentes do Velho Continente multiplicam as reverências diante de Donald Trump
Thomas Fazi*/Le Monde Diplomatique 

A União Europeia foi promovida como um meio de fortalecer o Velho Continente diante das grandes potências, em particular os Estados Unidos. Contudo, no quarto de século que se seguiu ao Tratado de Maastricht, aconteceu o inverso: hoje a Europa encontra-se mais vassala política, econômica e militarmente a Washington e, portanto, mais fraca e menos autônoma. Em matéria de comércio, energia, defesa e política externa, os países europeus têm, nos últimos anos, agido sistematicamente contra os próprios interesses para se alinhar às prioridades estratégicas norte-americanas.

O anúncio, em 27 de julho de 2025, de um acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos segundo o qual os produtos norte-americanos entrarão livremente nos países do bloco, enquanto as exportações europeias para a América pagarão uma tarifa aduaneira fixa de 15%, ilustra isso de forma caricata. A rendição vem acompanhada da promessa de aquisição de 645 bilhões de euros em hidrocarbonetos norte-americanos e de investimentos de outros 515 bilhões de euros nos Estados Unidos. O economista grego Yanis Varoufakis vê nesse acordo a versão europeia do Tratado de Nanquim de 1842.[1] Primeiro de uma série de “tratados desiguais” impostos à China pelas potências ocidentais, ele concedia importantes vantagens ao Reino Unido e marcou o in& iacute;cio do “século da humilhação”. Contudo, “ao contrário da China em 1842, a União Europeia escolheu a humilhação livremente”, em vez de sofrê-la na sequência de uma derrota militar esmagadora, prossegue o ex-ministro das Finanças grego.

As imagens de Ursula von der Leyen deslocando-se ao campo de golfe escocês de Trump, em 27 de julho, para ouvir o presidente norte-americano vociferar contra as turbinas eólicas e depois anunciar medidas comerciais punitivas, contrastam com a recepção espetacular dada pelo republicano a Vladimir Putin em Anchorage algumas semanas depois. Essa cena surpreende ainda mais porque a Europa tinha trunfos sérios para jogar num confronto transatlântico. 

Servidão voluntária

No campo diplomático, o Velho Continente oscila entre a relegação e a marginalização. Confinados às antessalas e aos papéis secundários após a “cúpula da paz” entre Trump e Putin no Alasca, os dirigentes europeus veem-se reduzidos a mendigar migalhas de informação e a bajular sem reservas o inquilino da Casa Branca; “se esforçam para não parecer ultrapassados”, zomba o Washington Post (10 ago. 2025), enquanto as negociações tratam do futuro de seu próprio continente. “O melhor paralelo histórico não se encontra na Europa, mas ironicamente nas práticas imperiais que a Europa outrora instaurou em relação às nações mais fracas”, explica o empresário e analista geopolítico francês Arnaud Bertrand.[2] Dois dias depois de Trump ter renunciado ao cessar-fogo como condição prévia às discussões, alinhando-se com a preferência da Rússia por um tratado de paz global, a presidenta da União Europeia fez por sua vez uma mudança de posição. “Quer se chame isso de cessar-fogo ou de acordo de paz, é preciso pôr fim às matanças”, declarou em 17 de agosto, quando até então defendia a posição contrária.

Como no caso do acordo aduaneiro, a própria Europa pavimentou sua via-sacra. Seus representantes seguiram sucessivamente a estratégia norte-americana de desestabilização da Rússia, abraçaram desde 2022 a guerra por procuração da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), minaram suas próprias economias ao privarem-se do gás russo barato e, depois, tentaram sabotar as iniciativas de paz de Trump prometendo apoio financeiro e militar ilimitado a Kiev. Ao fazê-lo, não apenas comprometiam seus interesses econômicos e de segurança fundamentais: ao se alienarem tanto de Moscou como de Washington, excluíram-se de fato de qualquer papel importante nas negociações.

Se os dirigentes da União Europeia costumam justificar sua conduta em nome do vínculo transatlântico, os interesses comuns às duas margens do oceano nem sempre são fáceis de identificar. Pode-se até supor que, ao prolongar a guerra, Washington não ambicionasse apenas enfraquecer ou “sangrar” a Rússia, mas também minar a Europa, rompendo os laços econômicos e estratégicos que o Velho Continente – e, em particular, a Alemanha – mantinha com a Rússia. Esse objetivo foi alcançado de duas maneiras. Primeiro, pela reativação e expansão da Otan, uma instituição controlada pelos Estados Unidos e cuja função principal sempre foi garantir a subordinação estratégica da Europa a Washington. Em segundo lugar, ao aprisioná-la numa dependência de longo prazo das exportações e nergéticas norte-americanas, como ilustra a sabotagem do gasoduto Nord Stream, uma operação levada a cabo ou diretamente pelos Estados Unidos, ou por intermédio de países amigos.[3] O silêncio da Alemanha e das capitais vizinhas sobre o pior atentado industrial da história do continente, a provável cumplicidade norte-americana ao encobri-lo e sua obstinação em impedir qualquer retomada de operação dessa infraestrutura atestam sua servidão voluntária.

Nessa perspectiva, as consequências da guerra na Ucrânia podem ser interpretadas como um triunfo estratégico para Washington, obtido em detrimento de uma União Europeia cuja faixa ocidental, em primeiro lugar a Alemanha, cambaleia entre a estagnação e a recessão. A erosão da base industrial europeia abre caminho para a canibalização econômica do continente pelo capital norte-americano, liderada por gigantes como a BlackRock e outros megafundos. Como escreve o demógrafo francês Emmanuel Todd em La défaite de l’Occident [A derrota do Ocidente]: “À medida que seu poder diminui no mundo, o sistema norte-americano acaba por pesar cada vez mais sobre seus protetorados, que permanecem os últimos bastiões de seu poder”. O acordo aduaneiro entre a União Europeia e os Estados Unidos, cujos alguns aspectos beiram tributos coloniais dis farçados de “investimentos”, desnuda essa realidade.

Tão emblemático dessa subjugação europeia, o grande rearmamento empreendido pela União Europeia traduz-se, em primeiro lugar, pelo compromisso solene de satisfazer a exigência de Trump de que todos os Estados-membros consagrem à Aliança Atlântica não mais 2%, e sim 5% de seu PIB. Apresentado como um passo rumo à “autonomia estratégica”, esse reforço do braço europeu da Otan, longe de significar uma ruptura com a ordem vigente, “tende a consolidar a subordinação estrutural do continente europeu diante da potência norte-americana”, como recentemente escreveram vários intelectuais de destaque da esquerda espanhola.[4]

Há quase dois anos, Bruxelas não levanta a menor reserva à colaboração militar, política, diplomática e econômica de Washington no genocídio em curso em Gaza, e reafirma periodicamente seu apoio a Tel Aviv. Essa posição expõe abertamente o duplo discurso do bloco – o contraste com sua reação à invasão da Ucrânia pela Rússia não poderia ser mais chocante. Ela também destrói o pouco de credibilidade moral que a União Europeia ainda detinha na cena internacional e a isola um pouco mais do resto do mundo. À vista da delegação de chefes de Estado europeus que correram a Washington na segunda-feira, 18 de agosto, para reafirmar seu apoio ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, seria plausível imaginar que eles se apressassem à Casa Branca para defender a causa do povo palestino massacrado e f aminto não por um inimigo estratégico do Ocidente, mas por um de seus aliados, Israel?

Como chegamos a esse ponto? Vários fatores entram, obviamente, em jogo, mas um deles se destaca: a imensa influência que Washington exerce sobre a Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, notadamente por meio da rede de instituições transatlânticas tecida nos Estados da Europa Ocidental e, em particular, no cerne dos aparelhos militares e de inteligência. Entretanto, a subordinação do Velho Continente deve-se também ao trabalho incessante de sabotagem levado a cabo em Washington para evitar que a Europa adquira uma força militar independente. Essa abordagem foi reafirmada em 2005 por Robert Kaplan, jornalista influente e intelectual especializado em questões de defesa: “A Otan não pode coexistir com uma força de defesa europeia autônoma. Uma deve prevalecer sobre a outra, e devemos atuar de modo que seja a primeira”.[5]

A hegemonia cultural fornece uma terceira explicação: depois de setenta anos de construção comunitária, a influência do establishment norte-americano sobre o discurso público europeu supera largamente a de qualquer país-membro. O inglês continua a ser a língua franca da União Europeia, e todos os grandes meios de comunicação anglófonos – em sua maioria sediados nos Estados Unidos ou no Reino Unido – manifestam um forte viés atlantista. Por fim, o ecossistema intelectual transatlântico articula-se em torno de think tanks, como o German Marshall Fund, a Comissão Trilateral, o Council on Foreign Relations e o Aspen Institute, todos ligados às agências de inteligência norte-americanas. 

Submissão exagerada

Sob a ação combinada desses fatores, a Europa tornou-se praticamente incapaz de pensar – e muito menos de agir – em função de seus próprios interesses. Seus dirigentes interiorizaram tão profundamente sua subordinação que cobrem seu explorador de adulações, como o ex-primeiro-ministro holandês convertido em secretário-geral da Otan, Mark Rutte, que enviou a Trump uma mensagem de subserviência inédita para preparar a cúpula da Aliança Atlântica em Haia em junho passado, antes de chamá-lo de “daddy”.

Esses elementos, podem objetar, são conhecidos e debatidos há muito tempo, notadamente nos círculos da esquerda europeia. Contudo, outro fator permanece amplamente desconhecido, em particular nesse meio: o papel desempenhado pela própria União Europeia no reforço da subordinação do continente aos Estados Unidos. Ao contrário da ideia dominante de uma Comunidade Econômica Europeia (CEE) concebida desde o início como um contrapeso ao poder norte-americano, a integração europeia foi apoiada e promovida por Washington como um baluarte contra a União Soviética durante a Guerra Fria.[6] Na realidade, o establishment tecnocrático de Bruxelas sempre se alinhou mais estreitamente aos Estados Unidos do que os governos dos Estados-membros. E a crescente centraliza ção do bloco em torno da Comissão Europeia acentua essa tendência. Nos últimos quinze anos, Bruxelas tem se apoiado na sucessão ininterrupta de crises (finanças, dívidas, imigração, terrorismo, segurança, Covid, guerra da Ucrânia etc.) para aumentar de forma radical, mas discreta, suas prerrogativas em domínios anteriormente atribuídos aos governos nacionais. Insensivelmente, o bloco adquire, por intermédio da Comissão Europeia, os atributos de um poder quase soberano e a capacidade de impor suas prioridades sobre as aspirações democráticas das populações.

Assim, Von der Leyen – apelidada de “a presidenta norte-americana da Europa”[7] – aproveitou recentemente a crise ucraniana para promover uma supranacionalização de facto da política externa (embora a Comissão Europeia não tenha competência formal nessa área) em detrimento dos interesses fundamentais da Europa. Todavia, pode-se ao menos falar em “interesses comuns” aos Estados-membros? Trinta e cinco anos após Maastricht, a União Europeia continua dividida segundo linhas de fratura econômicas, diplomáticas e culturais. Em matéria de política externa, essas diferenças se acentuaram desde a integração dos países bálticos e da Europa central, tradicionalmente atlantistas. Um ano antes de sua adesão si multânea à União Europeia e à Otan, em 2004, eles apoiavam a invasão ilegal do Iraque pelos Estados Unidos antes de enviar tropas para lá. Na falta de uma impossível “síntese” de interesses, prevalecem as prioridades dos Estados dominantes e das elites tecnocráticas supranacionais.

A crise da dívida de 2009-2012 mostrou como o quadro rígido da União Europeia, sob domínio alemão, erodia a capacidade das nações de agir conforme suas necessidades econômicas e aspirações democráticas. Isso é ainda mais verdadeiro hoje. Sabe-se que a resposta habitual atribui todo problema ao insuficiente repasse de soberania dos Estados para Bruxelas. Porém, a Europa não sofre de falta de integração, e sim da própria integração. Para escapar de seu “século da humilhação”, é preciso enfrentar e transcender a causa profunda do problema: a União Europeia em si, empenhada num federalismo cada vez mais aprofundado. 

*Thomas Fazi é jornalista. Suas análises também estão disponíveis no site www.thomasfazi.com.

[1] Yanis Varoufakis, “Le siècle d’humiliation de l’Europe: Trump a déjoué von der Leyen” [O século da humilhação da Europa: Trump frustrou Von der Leyen], www.unherd.com, 9 ago. 2025.

[2] Arnaud Bertrand, “Not at the table: Europe’s colonial moment” [Fora da mesa: o momento colonial da Europa], www.arnaudbertrand.substack.com, 10 ago. 2025.

[3] Ver Fabian Scheidler, “Nord Stream, trois scénarios pour un attentat” [Nord Stream, três cenários para um atentado], Le Monde Diplomatique, out. 2024.

[4] Héctor Illueca et al., “Salvar a Europa de la Unión Europea”, www.publico.es, 16 jun. 2025.

[5] Robert D. Kaplan, “How we would fight China?” [Como lutaríamos contra a China?], The Atlantic, Washington, jun. 2005.

[6] Ver François Denord e Antoine Schwartz, “Dès les années 1950, un parfum d’oligarchie” [Já nos anos 1950, um perfume de oligarquia], Le Monde Diplomatique, jun. 2009.

[7] Suzanne Lynch e Ilya Gridneff, “Europe’s American president: The paradox of Ursula von der Leyen” [A presidenta norte-americana da Europa: o paradoxo de Ursula von der Leyen], www.politico.eu, 6 out. 2022.

Turbulências na economia global https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/turbulencias-na-economia-global.html